Orleans

9 Capítulo 9 - Romeo, Save me


Admito que nunca me achei uma pessoa muito esperta. Na verdade, nada esperta com o passar dos anos, mas particularmente bem burra nos últimos dias ou pelo menos é o que o acontecimento das últimas horas não me deixava duvidar.

Acreditem só que eu, Katerina Emily Dalton, tão soberba de minhas qualidades intelectuais — embora nem tanto das minhas atividades motoras — consegui ignorar todos os claros sinais de que as mensagens que recebi pelo celular, eram de fato, do detestável Carma que me cobra nesta vida. Vergonhoso.

Quem mais em todo este mundo habitado teria a capacidade de me enviar um trecho de “A Tempestade” em plena noite londrina, apenas para responder uma pergunta tão banal quanto a minha? Com certeza não seria nenhum costume dos ingleses, não é? Duvido muito que todos fossem versados em Shakespeare ou respondessem perguntas com trechos misteriosos de algumas obras e sonetos.

Claro que não!

Na verdade deveria ter percebido logo que recebi aquela repreensão sobre estar digitando e não falando. Se tivesse prestado atenção nessa pequena réplica, teria me poupado a dor nos pés por ter corrido para o hotel, além de estar com fome e sem poder jantar absolutamente nada no Bristol.

Ah, a fome. Se o celular não estivesse ligado à tomada e com apenas alguns porcentos de bateria, certamente teria replicado uma mensagem bem sem educação para aquele inglês absurdamente arrogante e prepotente. Ele merecia sofrer o inferno da culpa de saber que me deixou faminta no meu quarto de hotel, a mercê do destino, sem nenhuma mísera chance de ir até o restaurante — que naquele horário estava fechado — pelo infortúnio que me causou.

Okay, ele responderia claramente que o problema era meu. Não exatamente com essas palavras, mas algo parecido com “Isso não é do meu interesse, senhorita Dalton” ou “A senhorita é muito descuidada, senhorita Dalton”. Eu bem que merecia escutar isso.

Obviamente eu poderia pegar o telefone e interfonar na recepção para pedir o número de algum delivery decente nos arredores. Também poderia bancar a rebelde e voltar a caminhar pelas ruas da cidade em busca de alguma aventura que incluísse comida quente de qualquer espécime. Ouvi falar que os ingleses têm restaurantes indianos maravilhosos, mas convenhamos que meu humor não me auxiliaria a nenhuma caminhada intrépida para conseguir qualquer coisa banhada em curry.

Terminei aceitando o meu destino da noite e trocando minhas roupas novas por um pijama bem quente e confortável que parecia dois números maiores do que qualquer coisa minha. As meias não eram opcionais e vinham bem a calhar nos pés mesmo que a suíte estivesse bem aquecida enquanto tentava parar de pensar apertando os botões do controle remoto da tevê. Tinha de assumir que não conseguiria dormir de estômago vazio.

Liguei para a recepção e fui muito bem atendida pela telefonista, que informou que o hotel dispunha de uma cozinha 24 horas e que eu poderia pedir qualquer coisa do serviço de quarto. Foi difícil decidir entre o cardápio todo ou apenas metade, mas me satisfiz com um sanduiche de queijo e um copo de leite quente para ajudar o sono a vir.

Sim, estava com insônia. E isso era uma novidade porque depois de uma longa viagem e um dia agitado, deveria desmaiar em segundos.

Mesmo soterrada com cobertores quentinhos, rodeada de almofadas macias e contando com tevê a cabo, frigobar e uma vista maravilhosa da janela; o sono parecia decidido a me presentear com um par de lindas olheiras na manhã seguinte. Já era a décima vez que revirava na cama sem encontrar um lugar confortável. Alguma coisa estava me preocupando?

Comecei a revisar todas as coisas que tinha feito antes de sair de casa, bobeiras como fechar as janelas, deixar as chaves e Tabby com Samantha, desligar o gás, apagar as luzes. Até imaginei que devia ter deixado alguma conta prestes a vencer, mas Lex havia pagado tudo pela internet um dia antes da minha viagem.

Tirei o celular do carregador com a bateria cheia e liguei para ver a hora. Já passava da meia noite e alguns e-mails de lojas online e notificações sem importância pipocaram no visor junto da indicação da chamada que havia perdido quando estava no Jeremy Glass. O número desconhecido estava registrado ali e agora eu sabia bem a quem ele pertencia. Titubeei por um segundo.

Seria correto registrar o número de alguém que deixava claro como o dia que me detestava tanto?

Maldito Carma. Bastou dois minutos daquele sotaque para acabar com meu dia e transformar tudo em uma tremenda, absurda e ridícula... Bola de ansiedade. Agora teria que lidar com mais de 12 horas de tortura psicológica torcendo por meus neurônios funcionarem perfeitamente para não me submeter a nenhuma discussão com Próspero quando ele surgisse diante da porta do quarto para me buscar.

Pelos bons poetas, não havia passado nem mesmo cinco minutos! Talvez eu precisasse de café. Talvez funcionasse ao reverso e me colocasse em um sono profundo e completamente sem sonhos, caso contrário aposto que sonharia com palácios, rainhas, roupas de marca e Próspero arremessando enciclopédias shakespearianas na minha cabeça. Um pesadelo e tanto.

Estava certa de que o lado esquerdo da cama parecia mais macio do que o direito depois de uma centena de testes rolando de lá para cá, e assistindo um programa onde uma senhora de rosto corado tentava vender um tapete persa. Será que aquele tapete era mesmo verdadeiro? Céus, estava começando a surtar de cansaço quando o celular fez dois bipes seguidos e quase caí da cama quando me estiquei pra pegar o aparelho no criado mudo.

Não era uma ligação, eram apenas duas mensagens de Bruce, querendo saber como eu estava. Deveria responder que estava entre um disparate psicótico por falta de sono?

“Olá, Kate, como está?

Não te encontrei para me despedir antes da viagem ou te desejar Boas Festas. Espero que esteja se divertindo”.

Engraçado como a falta de carinhas felizes na frase tornava aquela mensagem adulta. Acho que conversar demais com Luke estava me deixando mal acostumada.

“Oi, Bruce. Tudo bom e como você está? Desculpe por não estar por aí para receber o desejo de Boas Festas, mas como te disse, vim passar meu natal com Adria. Está sendo uma viagem bem... Diferente”.

Diferente, maravilhosa, animadora, estranha. Tão bipolar quanto a minha vida, mas o que seria do destino se essa viagem não fosse da filha dos Dalton, não é?

“Que bom! Mande um abraço para sua irmã. Você vai estar em Nova Iorque para a virada do ano? Vou ficar por aqui até o dia 30, mas volto para participar da festa de réveillon da empresa. Será que posso te convidar para me acompanhar se estiver na cidade?”

Sério, Bruce? Tudo bem que nossa amizade estava funcionando, mas não vamos dar alguns passos para trás, não é?

“Ainda não sei se volto para o fim de ano, Bruce. Tudo vai depender dos planos com minha irmã, talvez eu vá para a casa do meu pai dar um pouco de atenção para o senhor Dalton.”

“Está certa. Dê um pouco de carinho para seu pai. Ele vai gostar de ter a sua presença, Kate. Quanto a mim, vou aproveitar os dias de calmaria para curtir o campo e as festas com a família também.”

Foi quando me lembrei de que Bruce estava em York, ao norte do país, de alguma forma bem mais perto do que eu havia pensado quando enfiei na cabeça que pegaria um avião para a Inglaterra, ignorando toda a lógica comum humana. Então se pararmos para pensar, todos os meus problemas haviam atravessado o oceano comigo.

Bela fuga da realidade, Katerina.

“Você já está em York, Bruce?”

“Sim, cheguei há algumas horas, mas a mudança de fuso horário me pegou completamente. Não consigo dormir, rs”.

“Também não consigo dormir.”

“Que horas são em Roma? Você está na casa da sua irmã?”

Respirei fundo, os dedos no teclado digital. Não sabia se seria certo contar a Bruce que estava em Londres. Tinha um frio no estômago que me falava que amanheceria com o Sr. Campbell parado na porta da frente do Bristol com seu sorriso lindo e olhos brilhantes se soubesse minha localização. E o pior, ele acabaria trombando com o Carma e estaria feita a Terceira Guerra Mundial.

Melhor manter o mundo em paz.

“Não, estou em um hotel e nem faço ideia de que horas sejam. Adria vem me pegar de manhã, então é melhor que eu tente dormir pelo menos um pouco, não é?”

“Claro. Desculpe pelas mensagens tardias, Kate. Tenha uma ótima noite e um ótimo natal!”

Era estranho, mas me sentia incomodada por ter mentido para Bruce. Por mais que ele tenha errado comigo antes, não me sentia no direito de dar qualquer troco, nunca fui uma pessoa que guarda mágoas por muito tempo (a não ser da minha mãe, esse era um assunto bem mais delicado). Porém, aquela mentirinha era para um bem maior, não é mesmo? Ninguém desejava enfrentar Próspero em seu modo Britanicus Raptores tão cedo.

Bruce mandou uma foto antes que me despedisse dele, uma pose engraçada diante de uma lareira enorme e cheia de meias bordadas enquanto ele usava um chapéu engraçado com chifres de rena repletos de luzinhas coloridas. Sobre o aparo da lareira pares de porta retratos mostrando pessoas que eu não conseguia ver e uma porção de bandeirolas vermelhas e verdes escrevendo “Feliz Natal”.

Convenhamos que aquilo era muito fofo e me fez rir bastante.

“Belos chifres, Sr. Campbell. Feliz natal! Boa noite!”

Fechei o aplicativo de mensagens com o peito um pouco mais leve. As palavras de Bruce tinham me deixado menos apreensiva sobre meu dia seguinte, servindo de lembrete de que o mundo era mais do que ficar detestando um Carma. Havia o natal adiante, festas, comida boa, pessoas alegres e um país inteirinho a minha espera. Por que me preocupar tanto com um único inglês?

Para provar para mim mesma que a ansiedade havia passado, abri o registro de ligações do celular e encarei aquele número na lista de não atendidos. Respirei fundo, abri o contato e digitei com firmeza: Próspero.

Pronto. Aquele inglês almofadinha, arrogante e insuportável não ia me tirar o sono nunca mais! Ou meu nome não era Katerina!

******

Eu teria que mudar de nome.

Depois de mais algumas horas sem sono, acabei desmaiando entre as almofadas fofinhas do quarto do Bristol e acordei com um som insistente ao lado da minha orelha direita. Pensei que se tratava de um daqueles sinais subconscientes que alertam a pessoa de que se está perante um sonho, mas aquele barulho era mais do que alguma coisa entre meu sonho com gatos, modelos de cueca e tortas de maçã. Aquilo era o telefone do quarto, aos berros.

Quando consegui finalmente reunir todas as minhas forças para esticar o braço e retirar o fone do gancho com a ponta dos dedos, resmunguei alguma coisa impossível de ser traduzida por ouvidos mortais.

— Senhorita Katerina Dalton, bom dia. Aqui é da recepção, estamos ligando para avisá-la de que o almoço será servido em alguns minutos. A senhorita gostaria de reservar uma mesa ou fará sua refeição fora do hotel? Gostaria de lembra-la que suas refeições estão inclusas em sua diária.

De todas as palavras que a telefonista tinha dito até aquele momento, consegui entender algo como “almoço – fora – diária”, o que já era uma coisa maravilhosa se levasse em conta que eu estava em um modus operandi off-line, quase um verdadeiro zumbi, babando no travesseiro e tentando enxergar alguma coisa com a claridade do dia que acertava minha cara.

Aquilo se parecia muito com o primeiro porre que tomei na vida, na faculdade, quando aceitei participar de uma daquelas festas comunitárias em que todos acreditam que vão se divertir e que o tempo é curto, mas acabam causando notas baixas e comas alcoólicos que perseguirão sua vida eternamente.

Minha cabeça doía, meu estomago estava fervilhando e todos meus ossos sentiam dores dignas de um atropelamento por um rinoceronte.

— Senhorita Dalton? Está me ouvindo?

Juro que tentei resmungar algo, qualquer coisa inteligível e coordenada, que juntasse palavras em uma frase simples. Infelizmente a telefonista escutou um monte de balbucios estranhos. Ela deve ter pensado que eu estava drogada, pelo menos até meu primeiro bocejo.

— Me desculpe... Eu estava dormindo... Que horas são?

— Faltam dez minutos para o meio dia, senhorita.

— Santo Edgar Alan Poe! — sentei na cama imediatamente, equilibrando o fone no ombro enquanto procurava meu celular entre as cobertas. Tinha apenas três horas para ficar pronta.

— Posso reservar a mesa para o almoço, senhorita?

— Pode, pode... Acho que pode... Pela santa evolução, onde está esse... Claro, uma mesa, por favor. Achei!

— Achou, senhorita? — a telefonista chiou baixinho, com certeza bem surpresa com aquela ligação. Pobre coitada.

— Meu celular. Desculpe.

— Oh, tudo bem, senhorita. Vou reservar a mesa oito, está bem?

— Claro, está ótimo. Obrigada.

Cavei meu caminho entre lençóis, travesseiros e cobertas até sentir meus pés no chão fora da cama. O dia estava lindo lá fora, claro, com poucas nuvens, mas claramente bem mais frio que o dia anterior pelo que podia notar quando coloquei o nariz perto da janela. Mas o dia teria de me esperar um pouco mais, descer, comer algo e me preparar antes de sair do hotel, e para isso me enrolei em um roupão felpudo e quentinho que estava perto da cama.

Quando me olhei no espelho tive de rir daquela Kate com os cabelos armados e tortos, a pele ainda mais pálida pelo sono desregulado e com baba no canto da boca. Não dava para abrir a porta nem mesmo para um mensageiro naquelas circunstâncias, mas bastou lavar o rosto, escovar bem os dentes e pentear os cabelos para ficar mais apresentável.

O problema é que quando olhei no celular já eram meio dia e meio. Não dava tempo para ficar escolhendo uma roupa só para ir até o térreo almoçar!

Agora imaginem a surpresa do concierge a me ver saindo do elevador com chinelos de quarto e um roupão pelo saguão do hotel?

Ao menos não estava com trajes não permitidos. Na porta do restaurante dizia claramente que eram proibidas pessoas com trajes baixos, trajes de banho, sem camisa ou com animais de estimação. Nada falava sobre roupões felpudos e chinelos fofinhos.

E posso dizer claramente que almoçar sem a preocupação de me vestir para uma ocasião era uma sensação maravilhosa, quase o conforto de estar em casa mastigando torradas na frente da tevê. Com a pequena diferença de todos estarem olhando para mim de um jeito engraçado e meu prato estar cheio de coxas de frango e purê de batatas com molho.

Meu principal problema naquele instante era comer sem demorar mais de quarenta minutos para isso. O bom costume de sentar e comer sem os cotovelos à mesa e sem pressa, estava me prejudicando bastante agora. Acredito que meu frio na barriga era apenas um pequeno prelúdio da minha situação emocional desregulada pelo terror que me aguardaria naquela tarde somado a pressão psicológica de encher meu corpo de energia provinda de carboidratos.

Na verdade, entrei em um pequeno lapso de pânico quando vi que já eram uma e meia da tarde. Eu não tinha a mais vaga ideia do que vestir!

Durante minha corrida até o elevador, tirei o celular do bolso do roupão e enviei um pedido de socorro para Adria. Ela tinha que me ajudar a pensar em algo que não me deixasse parecida com um iglu ambulante, menos ainda com uma patricinha recém-saída de um banho de loja.

Adria respondeu assim que fechei a porta do quarto atrás de mim.

“Você vai fazer turismo, princesa, não um desfile de moda. Relaxe! Coloque uma calça quente e confortável, não se esqueça de se proteger do frio e curta o passeio com o jovem violinista. Não faça nada que eu não faria! Beijos!”

O que Adria não faria? Acredito que ela só não aceitaria se casar novamente, mas o restante estaria de acordo com as diretrizes de segurança, desde que eu estivesse me divertindo. Onde ficaram todos aqueles conselhos maravilhosos de irmã? Será que o clima natalino havia transtornado o cérebro de Adria?

Respirei fundo diante do closet do quarto, onde tinha colocado minhas roupas de uma forma mais ou menos arrumada (sem levar em consideração as peças que estavam emboladas em um canto) e consultei o celular mais uma vez. Daria tempo de fazer tudo, o timing perfeito.

Retirei duas calças da gaveta, meias, blusas, dois pares de sapatos, um cachecol, luvas e minha bolsa de ombro. Tive que derrubar todos os itens em cima da cama para ter certeza de que estava armada com todo o necessário para passar algumas horas longe do hotel. Coisas como analgésicos (eu poderia ter uma dor de cabeça, não é?), fio dental, balas, chicletes de menta, o celular, um bloco de notas (a ideia para meu best-seller poderia surgir no meio da rua, oras!), caneta, um elástico de cabelo, documentos, carteira, batom, óculos escuros e uma barrinha de chocolate que me causava dúvidas quanto a sua validade. Parecia uma bolsa um pouco vazia, mas o que se pode fazer, não é? Tinha que guardar espaço para as lembrancinhas!

Experimentei a primeira calça e tenho certeza de que fiquei com uma bunda que deixaria Beyoncé com inveja. Mas eu não dava muita importância ao derrière, preferia que a blusa me presenteasse com dois números a mais de sutiã, mas milagres não acontecem. Coloquei a segunda calça e depois de milhares de observações no espelho (estava acostumada com um mísero espelho de banheiro, não é todo dia que posso observar todos os problemas em um espelho de corpo todo!), tínhamos uma preferida.

Como já disse, nunca fui uma assumidade em roupas e aquele exercício de combinações era um desafio e tanto para a minha clara falta de vaidade durante a vida. Tinha aprendido sozinha que coisas como uma blusa de bolinhas, não combinavam tão bem com listras.

Todo o movimento de experimentar roupas acabou me dando uma tremenda sede, o que foi bom, porque ainda não tinha mexido no frigobar do quarto e encontrei uma considerável quantidade de bebidas para um cômodo de uma pessoa só. Vinho, champanhe, brandy, vodca, refrigerantes e água. Mas eu não queria (ainda) provar as bebidas da Europa, então nada melhor do que uma garrafa de água gelada.

Quando terminei de escolher por uma blusa de cashmere azul, fiz a tolice de observar as horas novamente. Céus, já eram quase duas e meia. Tempo perfeito para um banho e me trocar.

Assim que tudo estava em seu devido lugar, espiei o dia mais uma vez pela janela. Era curioso imaginar como aquelas pessoas estavam completamente alheias a minhas férias de inverno, assim como dos motivos dos milhares de outros turistas que perambulavam por ali. Será que os turistas de Nova Iorque também observavam a minha rotina imaginando que eu ignorava suas existências? Um pensamento bem profundo.

Após o rápido banho e com as roupas alinhadas, decidida a fazer o resto de tempo passar, liguei a tevê, mas não aguentei nem cinco minutos. Logo atravessei o quarto para confirmar o que tinha na minha bolsa e fui ao banheiro vigiando os números no visor do celular.

Nem percebi que estava zanzando pelo lugar todo em um assalto claro e ridículo de antecipação ao perceber que já eram três horas e dois minutos.

Não estava ansiosa, embora tenha certeza de que já tinha tomado três copos de água e ido ao banheiro bem mais do que o necessário. Quando faltavam dez minutos, abri o frigobar pela quinta vez e ajeitei os cabelos novamente, apenas para certificar de que as mechas estavam no lugar certo.

Ansiosa? De jeito nenhum. Afinal o máximo que poderia ocorrer seria ficar horas esperando e no fim da tarde afogar minhas mágoas com aquele brandy e todo o chá que existisse no hotel. Era justo — ficar embriagada de modo inglês já que estava em Londres.

Seria estranho dizer, mas quando o telefone do quarto tocou pontualmente as três, me assustei. A telefonista perguntou se eu gostaria de atender uma ligação externa e entre um tropeço no tapete e minha tentativa de não gaguejar, ela conseguiu compreender que era uma resposta afirmativa.

— Deixe-me adivinhar, Senhorita Dalton… Está atrasada?

— Eu não estou atrasada — bufei alto o suficiente para que aquele inglês insuportável escutasse do outro lado da linha. — Você é que está, senhor D’Orleans.

— De modo algum. Da sua janela conseguirá visualizar a torre do relógio à sua direita. Lá, facilmente visto a olho nu, estão os ponteiros gigantescos que não deixam dúvidas…

Sua voz pausou com um silêncio vitorioso e ao fundo, além do som dos carros, tocaram as badaladas da torre. Eu conseguia imaginar exatamente aquele sorrisinho sarcástico no canto dos lábios dele. Maldito.

— E onde você está? Achei que o combinado fosse me encontrar aqui no hotel.

— Exatamente. Estou esperando pela senhorita há alguns minutos. Talvez queira que eu a busque em seu quarto, já que sequer vestiu um casaco para uma tarde tão fria...

O detalhe me deu reviravoltas no estômago. Como ele sabia?

Minha primeira ideia foi muito tola, olhando para os lados como se ele pudesse surgir de uma das portas ou dentro do closet como um voyeur maluco. Mas a risada dele, tão rara quanto um sorriso sincero, chamou minha atenção para o outro lado da linha uma vez mais.

—A janela, Katerina. Não é assim tão difícil.

Tentei chegar até o parapeito, mas senti o puxão da linha do telefone limitando meu caminho. Deixei o fone sobre o sofá e abri as cortinas de vez, o que me dava uma vista muito melhor do que apenas por aquele pedaço aberto.

Tudo bem, eu poderia me desculpar mais tarde, afinal lá estava ele: Leo, com uma das mãos metida dentro de um casaco de tweed bem fechado, parado exatamente ao outro lado da rua. Não era de se admirar que conseguisse me ver andando de um lado para o outro dentro do quarto.

Então eu sorri e dei um riso quase nervoso. Não era ansiedade, nem felicidade por vê-lo ali (mesmo que fosse um alívio e tanto!). Mas um detalhe daquela ligação, apenas um deslize naquela muralha de tijolos britânicos, criou aquele vinco nos meus lábios:

Ele me chamou de Katerina.

Não que ele nunca tivesse me chamado por este nome antes, mas desta vez ele estava se dirigindo diretamente a mim e não dando desculpas para o Sr. Dalton como foi à ocasião.

Apanhei um casaco e minha bolsa antes de descer. Nem tinha notado que o elevador demorava tanto (e por quê eles insistiam em tocar "garota de Ipanema" nos elevadores?), muito menos reparado em todos os enfeites de natal que decoravam o lindo saguão antigo do Bristol. Em toda aquela sensação conflitante dentro do meu estômago, só imaginava a imensa expressão de desgosto em Próspero e quais seriam suas primeiras palavras para me atacar.

Mentalmente me preparava para o confronto, mas a imagem daquele homem tão distinto parado diante do balcão com um leve sorriso enquanto falava com o concierge do hotel, me embaralhou todas as boas respostas que estava formulando.

Me aproximei resoluta, passo a passo até encher os pulmões de ar e...

—...

Não falar absolutamente nada. Niente. Só fiquei parada com o queixo erguido e sofrendo a vergonha da minha falta de articulação.

— Boa tarde, senhorita — o concierge sorriu, aguardando que eu entregasse as chaves do quarto. Obviamente a sobrancelha de Próspero estava ali, como se contendo uma imensa risada de escárnio pelo meu tilt cerebral.

— B-Boa tarde. Aqui estão — deixei as chaves no balcão e arrumei a bolsa nos ombros.

—Obrigado por tudo, Marco — o Carma agradeceu o concierge e colocou as mãos nos bolsos, esperando que eu seguisse adiante.

— Disponha sempre, senhor D'Orleans — Marco sorriu e se afastou para guardar a chave.

— O senhor conhece o concierge?

— Boa tarde para a senhorita também — ele repreendeu, andando ao meu lado até as portas, que o mensageiro abriu para me permitir sair primeiro. — É uma questão relevante?

— Boa tarde — suspirei. — Se não fosse relevante não estaria perguntando.

— E qual a resposta mais óbvia, senhorita Dalton?

— Não existe uma resposta óbvia. O senhor poderia ter conhecido o homem pouco antes da minha chegada ou muito antes desse encontro casual. Ele poderia tratá-lo pelo sobrenome por educação ou por costume. É difícil dizer. Mas se tratando do senhor, pode ser que sejam conhecidos há tempos, fazendo indicações minuciosas de como atazanar minha estadia aqui de forma que eu nunca mais retorne a Inglaterra.

— De fato, senhorita Dalton. Desprendi todos meus esforços para tornar seus dias em Londres detestáveis.

— Eu sabia.

— Então não era uma questão relevante — Touché, Carma. Touché.

Paramos na calçada e Próspero esmiuçou os olhos na direção do trânsito antes de olhar para mim. Cruzar os olhos com ele ainda me causava aquele calafrio na espinha, como estar diante de um iceberg e meu papel ser exatamente o de Titanic.

Com um pequeno sinal ele indicou que deveríamos caminhar até alguns carros estacionados adiante e senti uma pitada de felicidade em imaginar que seria recebida com longos abraços apertados do espevitado Luke. Já conseguia imaginá-lo com a cabeça surgindo pela janela com seu típico sorriso imenso, reclamando de ter ficado esperando todo esse tempo no carro. Mas não havia ninguém dentro do automóvel, que destravou com um bipe do alarme que o Carma apertou entre os dedos.

— Onde está seu irmão, senhor Valois?

— De fato, a senhorita sofre de uma grave perca de memória recente, suponho. Me lembro claramente de ter dito que Lucas tinha compromissos no dia de hoje, senhorita Dalton. Talvez isto explique o motivo dele não estar dentro do carro, correto?

— Sim, mas... Nós vamos busca-lo, não é?

Próspero abriu a porta do passageiro para mim e deu a volta pela frente do carro para abrir a própria porta e apoiar o braço sobre o teto para esperar que eu tivesse meu momento de revelações.

— Vamos, senhorita Dalton. Pontualmente às seis da tarde.

— Seis da tarde? Mas faltam três horas até lá.

— Maravilhosa conclusão — ele entrou no carro, batendo a porta e audivelmente puxando o cinto de segurança enquanto eu apenas consegui me curvar para vê-lo lá dentro.

Meus dedos estavam gelados. Porque maldição estava tendo uma reação tão ridícula quanto aquela? Não seria a primeira vez que ficaria trocando farpas com o Carma em forma de conversa civilizada (ou nem tanto), mas seria sim, a primeira vez que ficávamos sozinhos desde aquela horrenda discussão na casa da Rua 35. E agora estava esfregando os dedos como se a temperatura tivesse subitamente caído dez graus negativos.

Esqueci minhas luvas. E o cachecol. Droga!

— Pretende entrar no carro ainda hoje, senhorita Dalton? Eu creio que não deseje perder seu tempo na cidade parada na calçada servindo de obstáculo para os pedestres.

Ele estava certo, irremediavelmente. As pessoas estavam desviando de mim, apertadas contra o muro para seguirem seu caminho enquanto eu ficava plantada logo depois da porta aberta, sem nenhuma reação aparente que não fosse torcer as mãos e tentar raciocinar.

Seria uma vítima do famigerado Britanicus Raptores? Fadada a ter meu corpo guardado no quarto selado da Rua 35? Não, ele gastaria horrores para despachar meus restos mortais para Nova Iorque. O que significa que ele deveria ter um covil em Londres mesmo!

Entrei no carro e bati a porta com a fluidez de uma pedra. Meus ombros estavam tensos, meu rosto virado para frente. Nem sei se estava piscando.

— Posso fazer uma questão relevante? — espiei-o de canto, enquanto ele dava partida no carro.

— Se for de fato relevante, claro, senhorita Dalton.

— Onde pretende me levar?

Próspero não respondeu imediatamente. Pareceu mais preocupado em tomar o trânsito e sair da rua do Bristol pelo momento seguinte, seguindo o fluxo de carros da cidade. Depois do que pareceu uma eternidade, respondeu:

— Lucas me incumbiu de leva-la onde desejar, senhorita Dalton. Pontos turísticos, algum mercado, parque...

— O aeroporto? — cruzamos olhares por um breve momento.

— Deseja voltar para a América? Não será nenhum incômodo dar meia volta e deixa-la no Bristol para que faça suas malas. Com certeza o hotel se responsabilizará em leva-la para o aeroporto o quanto antes, senhorita Dalton.

Estranhei a seriedade e rapidez com que ele resolveu o problema se eu realmente desejasse ir embora, porém não desistiria de Londres apenas por ter que sobreviver três horas ao lado do Carma. Não daria esse prazer a ele.

— Luke não deveria incomodá-lo tanto, senhor Valois. Eu posso perfeitamente ir aos pontos turísticos de metrô ou ônibus. Ontem mesmo fiz um ótimo passeio a pé com minha irmã, foi revigorante.

— Pois ele incomoda, senhorita Dalton. Mas estou acostumado a satisfazer alguns caprichos do meu irmão e ele não me perdoaria por soltá-la em algum lugar da cidade. Acabaria com todos os dias do final do ano até que o compensasse pelo infortúnio.

Fiquei pensando por um momento no quanto Próspero amava Lucas. Ele olhava pelo mais novo com uma fidelidade admirável e queria vê-lo feliz, mesmo que isso significasse algumas horas ao lado da pessoa que ele mais detestava no mundo. Tinha que admirá-lo por isso.

— Desculpe pelo incômodo — suspirei.

— Não se preocupe, senhorita Dalton — ele parou o carro, diante de um semáforo.

— Katerina. O senhor pode me chamar de Katerina, ou Kate, se preferir. Claro que também pode usar “Megera”, se for o caso, mas eu realmente preferiria que parássemos com toda essa pompa e circunstância, senhor Valois... Ainda me considera uma pessoa estranha? Mesmo estando como meu guia no seu país?

Não sei de onde tirei essa coragem, mas realmente precisava me sentir menos tensa e se ouvir meu nome pudesse me causar um pequeno sorriso qualquer como há alguns minutos no telefone, já seria um imenso passo na minha relação de diplomacia com Próspero.

Ele descansou as duas mãos no volante para me olhar. A sobrancelha arqueada, aquela tenebrosa e fatídica marca de vilão no rosto do Carma, suavizou por um momento. Pareceu que alguma coisa na mente daquele arrogante inglês estava pesando os prós e contras daquele pequeno e indireto pedido que havia acabado de fazer.

O semáforo abriu e o silêncio reinou por quase um minuto enquanto passávamos diante da Abadia de Westminster e do Parlamento. Então Próspero seguiu pela avenida com o carro, pelo visto já com algum local em mente.

— Aconselho que escolha onde deseja ir... Katerina. O tempo está passando e não posso contar com o trânsito no fim do dia para chegar pontualmente para pegar Lucas onde ele está.

Como eu não poderia sorrir com aquilo? Ok, Próspero estava sendo adorável pela primeira vez em toda a existência e isso era um fato que precisava ser documentado para os historiadores das gerações vindouras. Exatamente como foi aquele sorriso no meu porão.

— O senhor é o morador cativo da cidade, eu sou apenas uma turista, não tenho ideia por onde começar. Existem tantas coisas para se ver! O Tate Modern e o Museu de História Natural, o Hyde Park, Trafalgar Square e... Estou tagarelando, não é?

— Um pouco — juro que vi um vestígio de sorriso por ali, juro!

— Então, deixe-me pensar. Porque o senhor não me mostra seus pontos turísticos preferidos, senhor Valois?

— Não creio que seja do seu gosto, senhorita.

— Katerina.

Com um suspiro, Próspero passou a mão pelos cabelos e massageou a nuca em uma nítida briga interior. Era tão difícil assim para ele tratar alguém sem usar um bendito pronome de tratamento? Devia ser, afinal ele não estava nem mesmo me tratando tão irritantemente como costumava fazer.

— Eu aposto que vou gostar, senhor Valois. E de qualquer jeito, estarei passeando e não perdendo tão obviamente minhas quase três horas de espera pela companhia do seu gentil irmão. Ao menos o senhor estará em um lugar de que gosta e o terrível e torturante tempo que deverá passar comigo não será tão ruim assim. O que acha?

— Talvez esteja correta desta vez, surpreendemente. Katerina.

— Claro que estou, o senhor apenas não refletiu suficientemente sobre todas as minhas ideias anteriores, que incluem seus atendimentos na livraria e uma série de outros detalhes. Mas isso não vem ao caso. Estou de férias e pretendo fazer meus dias valerem a pena, senhor Valois.

— Leopold. Mas agradeceria imensamente se pudesse me chamar de Leo e não de “Próspero” ou “Carma”, embora sua predileção por estes renomes sejam bem claros, Katerina.

— Prometo guardar os renomes para ocasiões melhores, ou piores, ainda não me decidi, senhor... Leo. — Okay, ponto para o Carma. Eu também não sentia que era natural chama-lo de Leopold ou Leo. Parecia que subitamente não havia um motivo para odiar Leo, mas apenas o detestável senhor Valois, que não atenderia por esse renome.

Em uma esquina estava tensa com o embate que teria com o nariz empinado, arrogante e intragável D’Orleans, na outra estava sorrindo com meus ombros relaxados observando as ruas de Londres pela janela do carro de Leo, rumando para algum ponto da cidade que ainda não sabia qual. E mesmo que Shakespeare tenha dito certa vez que “Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”, havia alguma coisa diferente no Carma pelo simples trocar daquele tratamento.

Só faltava que eu descobrisse exatamente o quê.

******

Trafegamos pelas ruas da cidade por alguns bons minutos. O final de semana e a proximidade das festas deixava tudo em polvorosa, desde filas nas lojas, teatros ou simples quiosques de cachorro quente nas ruas de comércio.

Não trocamos mais nenhuma palavra desde aquele momento e Próspero parecia concentrado demais em dirigir para dar qualquer abertura (ou ataque súbito de coragem) para me atrever a puxar assunto como se estivesse com algum amigo.

Estacionamos em um local que permita que visse perfeitamente o Tâmisa, há apenas um quarteirão de distância. Algumas placas indicavam a proximidade da Millenium Bridge, mas nada dava alguma dica de onde exatamente estávamos.

Deixamos o carro em silêncio e o Carma seguiu pouco a frente, com as mãos dentro dos bolsos do casaco de tweed, bem protegidas do frio. Me perguntava se ele estaria tamborilando os dedos como de costume?

— Vamos seguir a pé daqui?

— Sim. É neste mesmo quarteirão. E caso sinta-se entediada demais, pode simplesmente seguir esta calçada e estará no Tate Modern, Katerina. Um dos pontos que citou entre todo o seu falatório extasiado pela novidade de Londres, algo nada peculiar vindo...

— De mim? — interrompi rindo.— Sou uma turista nata, admito. Não sei guardar para mim a felicidade de conhecer um lugar novo, mesmo que este lugar não seja novo há alguns séculos.

— Da mesma forma que não consegue guardar sua própria opinião, como muito bem observado em outras situações.

— Uma das minhas tantas qualidades.

— Encantador — ele revirou os olhos, sarcástico.

Caminhamos alguns metros mais ao lado de um muro de tijolos escuros até estarmos diante de uma grande escadaria de pedra. Portões de ferro estavam abertos e uma grande bandeira estava quieta em um mastro que indicava “Shakespeare Globe Theatre”.

— Santo Edgar Alan Poe... Este é “O Globe”? O New Globe?

— Ao que parece é o que está escrito ali.

— Eu devia ter imaginado que este era um de seus pontos turísticos preferidos, Leo. Afinal, onde mais um cliente aficionado por Shakespeare poderia querer ir em Londres?

Estava rindo sozinha, como uma criança bem boba para dizer a verdade. O grande prédio branco que havia sido reconstruído como a imagem do original teatro Globe onde Shakespeare encenava suas peças, estava bem diante de mim, como o lembrete mais concreto e absurdamente leal ao que o Carma deveria amar mais do que qualquer coisa.

— Existem diversos lugares em que um bom leitor pode encontrar-se diante dos vestígios das obras de bons escritores em toda a cidade, Katerina. Basta procurar com cuidado, coisa que dificilmente turistas afoitos como a senhorita conseguiriam fazer em uma primeira visita.

— Mas eu tenho um bom guia.

— Um excelente guia, diga-se de passagem. Podemos? — ele indicou para subirmos para o teatro, coisa que fiz alegremente, analisando cada detalhe do lugar, aspirando o ar como se pudesse de repente, esbarrar com o Bardo e agradecer a ele pela inspiração da viagem...

Espera aí, eu estava agradecendo pela viagem? Samantha que não me escute.

Chegamos a um largo repleto de gente e pequenas banquinhas que vendiam souvenires e produtos sobre o local, além de placas de informação sobre locais para comer, banheiros e guichê de informações. Mas nós não precisamos perder tempo com isso tendo um guia como Próspero comigo, precisamos?

Ele estendeu a mão e tocou meu ombro para indicar que deveria ficar por perto e segui os passos dele por uma passagem lateral ao muro, que levava para o outro lado do Globe, exatamente há alguns metros de distância do imponente rio Tâmisa e de um local onde se podia pegar um barco para conhecer todo o trajeto das margens.

Diferente do Carma, que parecia bem acostumado a fazer aquele trajeto todo, eu diminuí o passo encantada com a linda visão daquele lugar, deixando ele se adiantar bastante até o local onde poderíamos comprar os ingressos para ver o teatro.

— Minha nossa... — apertei o passo para me adiantar até o lado dele e evitar que acabasse por comprar qualquer ingresso para mim. — Por favor, quanto é a entrada?

— Entrada? — ele pareceu surpreso, assim como o rapaz que estava no guichê, adoravelmente ornado com um chapéu elisabetano e separando dois tíquetes.

— Vamos entrar, não vamos? Então temos que pagar pela visita, certo? — será que estava falando grego?

— Ela é claramente americana — o rapaz no guichê riu baixo, apanhando uma série de panfletos e esticando para mim.

— Sim, genuinamente, James. — Próspero sorriu para o tal James como se houvesse tido tempo de fazer alguma piada sobre mim antes que chegasse ao guichê. Algumas pessoas ficaram em fila logo atrás de nós e o rapaz apenas aconselhou o Carma a não encontrar Reginald, que estava como guia de um grupo de turistas.

Como não tinha entendido muita coisa, segui Próspero de perto no retorno até as grandes portas de madeira do teatro. Ele entregou os tíquetes para uma senhora de bochechas redondas e cabelo preso em coque, que sorriu largo quando me viu. Acho que os ingleses tinham alguma piada pronta sobre pessoas como eu visitando pontos turísticos com a maior expressão de desinformação possível.

Próspero agradeceu a mulher e ela abriu uma das folhas da porta de madeira rústica, repleta de tachas, deixando que entrássemos finalmente.

Acredito que não tenha palavras suficientes para a poderosa sensação que correu pela minha espinha quando vi aquele lugar. O Globe não era majestoso, não tinha tapetes de veludo vermelho ou frisas com ar condicionado como o teatro onde Luke se apresentou em Nova Iorque. E mesmo assim, parecia que uma raiz muito profunda de toda a história dramatúrgica estava fincada naquele lugar aberto para o clima de Londres.

O Teatro se parecia com uma grande arena redonda, circulada por arquibancadas cobertas repletas de bancos comunais. Em sua frente para as portas, estava o palco, uma estrutura baixa onde qualquer um seria capaz de pegar os atores pelos tornozelos, mas que também permitia que os atores pegassem o público pelos cabelos — ou o que fosse necessário.

Em um canto das arquibancadas, um grupo de turistas escutava um senhor gesticular e explanar sobre a vida de Sir Shakespeare, deixando as crianças com olhinhos vidrados quando fazia qualquer maneirismo para tirar suas dúvidas.

Então entre meu deslumbramento pelo Globe e pelo ar do passado impregnado em cada detalhe, percebi que Próspero estava caminhando pelo espaço aberto com as mãos unidas nas costas, diretamente até dois passos do palco, um longo sorriso de respeito e paixão desenhado em seu rosto.

Acabei sorrindo por vê-lo daquela forma, finalmente desarmado de sua armadura de espinhos insuportáveis e completamente entregue ao sublime momento de adoração da fiel réplica do local em que seu mais adorado escritor, tinha encenado suas mais brilhantes obras. Parecia que aquele não era mais o inglês que conheci diante da prateleira 36, mas um homem que tinha muito mais para ser visto do que as simples batalhas que travávamos em cada encontro desastrado que o destino decidia causar.

— É maravilhoso — falei baixo, bem ao seu lado, apenas com alguns passos de diferença.

— “Ó beleza! Onde está tua verdade? Como há tantas coisas, abjetas na aparência, mas preciosas em sua aplicação!”.

Ele declamou com tanta naturalidade que fiquei imaginando por qual motivo Próspero nunca pensou em se aventurar pelos caminhos da interpretação. Com certeza ele faria uma carreira e tanto encenando as peças do Bardo naquele mesmo palco diante de nós, deixando outras pessoas mais boquiabertas do que eu ficava quando ele citava “O Homem”.

— Sim, Katerina. É um lugar maravilhoso, mesmo que não seja de fato o mesmo Globe que abrigou as peças originais.

— É seu lugar preferido em toda cidade, não é?

— Talvez. O que a leva a esta conclusão?

Tive que rir baixo. Qualquer pessoa num raio de quilômetros podia ver como a postura de Próspero era diferente enquanto pisava naquele piso. Parecia ainda mais nobre do que algumas vezes seus modos arriscavam, mesmo que sendo um tremendo irritante.

— Seu olhar. Normalmente o senhor parece prestes a matar qualquer criatura que respire e atravesse seu caminho, mas aqui alguma coisa consegue mudar isso. Consigo ver o respeito e a admiração que tem por este lugar, Leo. E aqui o senhor não fica tamborilando o ar como faz de costume. Parece... Em casa, “Próspero”.

Tive que chama-lo daquela forma. Era o lugar perfeito e o momento ideal para isso, exatamente onde o renome de Leo fazia mais sentido do que entre as estantes e prateleiras da Barnes & Noble, ou entre as fileiras de livros meticulosamente arrumados da biblioteca de sua casa em Nova Iorque.

Esperei que ele erguesse a sobrancelha com aquela grave curva para repreender como o havia chamado, mas ganhei um sincero sorriso ao invés disso. E tenho que assumir, era um tremendo lindo sorriso.

Céus, Samantha vai me atazanar até o fim da existência humana se souber disso.

— Pelo visto não superou sua estranha mania de observação dos detalhes, senhorita Katerina. Mas alguma coisa que queira pontuar sobre mim antes de seguirmos com a visitação?

— Talvez... — olhei ao redor, cruzando os braços e parecendo pensar sobre o assunto.

— Pois diga então.

— Definitiva, completamente, absolutamente e integralmente, sem nenhuma dúvida ou incerteza; acredito que deveria sorrir mais. Muito mais.

Amado Charles Dickens, porque estava sorrindo feito uma idiota enquanto dizia isso?

— Creio que já sorrio em uma dosagem considerada completamente normal, senhorita Katerina. Estou muito satisfeito com isso.

— De forma alguma! Como especialista em observações meticulosas e amplamente corretas sobre sua pessoa, posso diagnosticá-lo com um sério problema de falta de bom humor, paciência e sorrisos. Cada um destes itens com graves graus de intensidade e com pioras visíveis quando contrariado, confrontado ou observado por atendentes cantoras da Barnes & Noble.

— Atendentes cantoras... — aquilo quase o fez sorrir.

— Longa história. Pode perguntar para seu irmão depois. No momento temos que lidar com sua moléstia grave. Confidencio ao senhor que sou muito boa em ajudar na cura de algumas delas, principalmente nos sorrisos.

— Pretende me contar uma piada para curar meu mal, senhorita Katerina? Ou devo presumir que vai me obrigar a sorrir puxando minhas bochechas com os dedos e ordenando como a Megera que tem renome?

— Como ousa? — já estava rindo, apoiando as mãos na cintura como se estivesse mesmo chateada com o que ele havia terminado de dizer, mas meu rosto dizia o inverso. — Não pode sair por aí discursando que sou uma Megera, senhor! Ordeno que fique em silêncio!

— Ordena?

— De fato. Ordeno. E desisto de medicar qualquer mazela que o afligir, detestável Próspero.

Virei de costas para ele e observei que algumas crianças nos olhavam com curiosidade, rindo baixinho e cochichando. Sorri para elas e rapidamente elas se dispersaram, mas ainda escutava um riso, exatamente atrás de mim.

Leo estava rindo, a mão fechada diante dos lábios para conter um riso que seria bem mais claro se ele não fizesse aquilo. Ele balançou a cabeça quando notou que eu estava observando-o sobre o ombro e voltou a colocar as mãos dentro dos bolsos, caminhando até meu lado.

— Vamos, Megera. Por um descuidado deslize de seus cuidados, talvez por ossos do ofício de curar muitos dos distúrbios do humor, acabou me curando por breve momento. Aproveitai dele para ter minha companhia até o final do passeio.

Compartilhamos alguns risos baixos pelo caminho até as escadas que levavam para as arquibancadas e depois, como se eu não pudesse esperar mais nada daquele inglês, ficamos em silêncio enquanto observava as minúcias do Globe e ainda ouvia o guia lá embaixo, completando meu passeio com as informações do lugar.

Quando terminamos de caminhar e nos sentamos em uma das alas de frente para o palco, fiquei imaginando o quanto o teatro deveria ser lindo quando cheio e com os atores em suas roupas detalhadas e maravilhosas, encantando as centenas que deveriam entrar para assistir cada apresentação. Um dia ainda gostaria de retornar para assistir algo ali, mesmo que fosse a mera declamação de alguns sonetos.

Depois de alguns minutos, Próspero se levantou e perguntou se eu queria conhecer a loja do lugar para comprar alguma coisa e aproveitar a visita. Claro que concordei e logo estávamos de volta no largo ao lado do Globe, entre tantos outros turistas que escolhiam alguma lembrança.

Mas sinceramente não havia um suvenir melhor do que aquele riso do Carma. Nem Sir Shakespeare poderia me dar algo como aquilo, que me causava um calor gostoso no peito e um sorrisinho idiota no canto da boca. Convenhamos que isso não seja algo muito normal para mim.

Consultei o relógio conforme andávamos até o carro e suspeitei que não houvesse mais tempo para nenhum ponto turístico extra já que a tarde já estava quase chegando ao fim. Não que eu fosse reclamar, já que tudo estava bem melhor do que previsto.

Assim que entramos no automóvel e Próspero afivelou o cinto de segurança, notei que claramente alguma coisa havia mudado entre nós, simplesmente pela forma com que ele coçou o queixo pensativamente antes de dar a partida.

Bastou passarmos alguns quarteirões em silêncio para ele tossir e emendar:

— Se incomoda de passarmos em mais um lugar antes de buscarmos meu irmão, senhorita Katerina?

Ele estava me consultando? Por favor, Próspero, não abuse das forças celestiais!

— Claro que não.

Será que ele imaginou que eu diria não?

O trajeto foi um pouco mais longo do que o anterior e mais demorado por conta do trânsito do final do dia, mesmo sendo o começo do fim de semana. As festas enchiam Londres de gente e consequentemente de ônibus, vans e carros.

Paramos em um estacionamento pago bem próximo de uma larga praça principal bem movimentada, cercada por um calçadão com cafés e restaurantes (até um Pizza Hut!) cinemas e lojas. De onde estávamos conseguia ver seus belos jardins e árvores, as pessoas transitando por todos os lados, tirando fotos de uma imponente estátua erguida bem no centro, rodeada por chafarizes e bancos.

Fiquei olhando para Próspero na espera de alguma explicação enquanto nos aproximávamos do lugar, andando calmamente. Mas ele não parecia ansioso por me falar nada mais de onde estávamos, mesmo que em diversos lugares estivesse escrito: Leicester Square.

— Talvez este seja meu segundo lugar preferido da cidade, senhorita Katerina. Podemos tomar um chá no Gentleman’s Soul.

Fiquei na dúvida se Próspero estava falando da praça ou do café onde ele queria tomar chá. Entretanto, essa incerteza desapareceu assim que coloquei os olhos mais de perto naquela grande estátua de Sir Shakespeare, que amparado em uma pilha de livros, observava a nossa passagem pela praça com interesse.

— Todos seus lugares favoritos envolvem “O Homem”, Leo?

— Alguns, invariavelmente. Não todos, por felicidade da minha sanidade. Podemos ir? — indicou um ponto do outro lado de Shakespeare, um café com mesinhas pelo calçadão, mas com aparência muito distinta e clássica por dentro. Realmente um lugar que parecia fazer jus ao seu cliente.

O interior do Gentleman’s Soul cheirava a tabaco e couro, exatamente como um lugar que parecia ter raízes em uma época que apenas homens frequentavam café públicos, deveria cheirar.

Sentamos em poltronas de encosto largo ao redor de uma mesinha redonda e confortável, poucos segundos antes do garçom deixar o cardápio e oferecer uma carta de chás. Nunca havia visto uma carta de chás na minha vida.

Obvio que Próspero pediu um Earl Grey com três cubos de açúcar e leite. Nem foi tão difícil saber que seria sua escolha. Já eu, escolhi um cappuccino, mesmo podendo (e precisando) de um expresso duplo.

Coloquei minha bolsa sobre o colo e divaguei um pouco com a vista além da vitrine do café, com a mudança vertiginosa do meu dia para desastre absoluto para estranha calmaria.

Estava aproveitando a entrega das xícaras para pedir alguns scones de creme e geleia quando um celular tocou definitivamente um som bem diferente do meu.

Próspero pediu licença e se levantou para atender. Seu rosto mudou gradativamente enquanto andava até o lado de fora e consultava as horas em seu relógio de pulso, parecendo um tanto irritado com quais fossem as notícias da ligação.

Repentinamente ele tirou o telefone de perto do rosto e caminhou na minha direção, estendendo o aparelho para mim.

— Lucas. Ele quer falar com você.

Atendi.

— Alô?

— Kate? Kate! — Luke vibrou do outro lado da linha, sua voz um pouco confusa com outras no fundo. — Que bom que você está viva! Como está a sua tarde? Leo está sendo legal com você?

— Sim, Luke. Digamos que ele... — consultei Próspero de esgueiro, assistindo-o dosar o leite dentro da xícara de porcelana com o chá fumegando. — Está se comportando muito bem.

— Ainda bem! Me perdoa por fazer você ficar com ele todo esse tempo, Kate, mas não tive como sair daqui antes.

Alguém falou com Luke e ele respondeu afastando a boca do telefone.

— Não se preocupe com isso. Daqui a pouco vamos te buscar. Onde você está?

— Estava no ensaio, mas terminou mais cedo porque a garota nova do violoncelo começou a chorar. Os dedos dela estavam sangrando, foi bem feio — Luke fez um barulho de nojo que me fez rir. — Mas sabe, Kate, eu queria te perguntar uma coisa. Posso?

— Claro que pode, Luke.

— Você se importa se eu levar alguém comigo pra sair com a gente? Eu sei que ia ser apenas um passeio exclusivo, mas é uma pessoa especial que eu quero que você conheça.

Já conseguia adivinhar: Luke estava acompanhado da garota que tinha roubado seu coração, exatamente a mesma que me fez questionar como qualquer menina da idade dele poderia resistir a tanta doçura.

— Vai ser um prazer, Luke.

— Que bom! Eu sabia que você não se importaria, Kate. Agora, pode passar o telefone pro meu irmão bem humorado, por favor?

A despedida com Luke foi bem curta. Ele parecia muito entusiasmado e mais animado do que o comum (que já era absurdamente demais) e eu conseguia escutar sua voz abafada pelo fone contra a orelha de Próspero questionando onde estávamos.

Quando desligou, Leo mexeu o chá com uma colher que sequer tocou na borda da xícara e provou um gole enquanto o garçom trazia o prato de scones doces e lindos, prontos para serem mordidos.

— Lucas vai se encontrar conosco em alguns minutos. Sua ansiedade não permitiu que ficasse esperando o horário.

— Tudo bem — balancei a cabeça, escondendo a boca cheia de creme do pão doce e perfeito. — Seu irmão é um garoto muito especial, Leo.

— Especial, de fato. Mas propenso demais a se envolver com problemas.

— Como eu?

— Exatamente.

Fizemos uma pequena pausa no assunto para que eu pudesse morder outro scone e beber um gole do cappuccino, limpando a boca com um guardanapo de tecido.

— Ele disse que vai trazer uma pessoa com ele... Lucas está namorando?

A pergunta pareceu atingir Próspero de uma forma que definitivamente não esperava. Seu rosto retesou, seus olhos perderam o pouco calor que Sir Shakespeare tinha inflamado com suas palavras e deu lugar ao conhecido e frio modo de observar que rotineiramente entrava pelas portas da livraria em Nova Iorque.

— Não, senhorita Dalton, ele não está. E além de considerar Lucas muito jovem para um compromisso sério que fosse, acredito que não é de bom tom uma mulher comprometida fazer este tipo de questionamentos.

Opa. Alarme vermelho! O Carma estava de volta!

— Como assim “questionamentos”? Foi apenas uma pergunta simples, uma curiosidade. O senhor não imaginou que eu pudesse estar...

— Espero que não, senhorita Dalton. Aliás, já que estamos tocando em questões por curiosidade, posso perguntar qual o motivo da senhorita não estar acompanhada de seu noivo nesta viagem?

— Noivo? — Não, Katerina, um cachorro guia para cegos. Ah, minhas perguntas evidentes.

— Bruce Campbell. De fato sua memória deve estar danificada, senhorita Dalton, já que tão convenientemente parece esquecer-se dele.

— Não há nada danificado aqui. Sou obrigada a viajar com meu noivo para todos os lugares? Somos pessoas independentes, Leo. Bruce está passando as festas com a família dele e eu estou aqui com minha irmã.

— E o Sr. Campbell sabe da sua viagem?

— Claro que sim. — que mentira. Por que simplesmente não contava de uma vez que não tinha nenhum compromisso com Bruce?

Próspero ficou em silêncio, mas a sobrancelha fatídica estava lá, acentuada sobre seu olhar fixo na xícara de chá. Não trocamos mais nenhuma palavra, até que o furacão ruivo entrou pela porta do café arrastando alguém logo atrás dele.

— Kate! Leo! Chegamos!

Me virei para cumprimentar Lucas quando ele abraçou meus ombros e mesmo com os olhos encobertos pela névoa enferrujada dos cabelos desengonçados do garoto, conseguia ver que havia uma linda jovem com ele (e que claramente ela não tinha 18 anos).

Ela parecia tímida, os braços cruzados segurando alguns livros que consegui identificar como romances de Jane Austen, rubricados da biblioteca local, os cabelos loiros presos com um elástico. Durante o tempo que analisei como ela era bonita, seus olhos brilhantes e sorriso gentil; ela não desviou os olhos do Carma, que parecia observar o cumprimento efusivo de Luke com uma pitada de repreensão.

— Que bom ver você, Kate! Estava com saudades, sabia?

— Você disse algumas vezes nas suas mensagens. Quase todas, realmente.

O ruivinho gargalhou e puxou a moça para perto, abraçando e deixando-a claramente sem jeito. Ela pareceu se apertar dentro do casaco longo que usava, tímida, sem expor nenhuma palavra.

— Esta é a pessoa de quem te falei no telefone, Kate. Ela é muito especial.

— Pare com isso, você está me deixando sem jeito, Luke. — ela cutucou as costelas dele e esticou a mão para mim, estritamente para um aperto amigável. Tive que limpar as mãos melecadas de creme discretamente na minha bolsa antes de cumprimenta-la. — Sou Juliet e é um prazer finalmente conhecer a senhorita Katerina Emily Dalton.

— Nossa, meu nome inteiro — me surpreendi.

— Lucas não parou de falar sobre você por semanas. Sinto que não há mais nada para conhecer sobre a senhorita, como se já fosse uma pessoa próxima.

— Oh, isso é bom.

— Não se a senhorita gostar de ser uma pessoa sobre a qual não tenho mais nada para conhecer. Mas eu acredito que podemos ser boas amigas.

Okay. Estou sentindo o grau da amizade fluindo por aqui.

Só que não.

— Vocês já terminaram de comer? Porque eu e Juliet queremos ir até o Hyde Park esta noite. Você vai adorar, Kate! Eles têm pista de patinação, comida boa, uma roda gigante imensa...

— Talvez seja melhor deixar para outro dia, Luke. Eu não quero atrapalhar o passeio de vocês e além do mais, estou bem cansada. Mal dormi esta noite.

— Seria um prazer tê-la conosco, senhorita Dalton — Juliet sorriu e seus dentes eram perfeitos. Ela também tinha peitos, apenas para constar. Um detalhe insignificante que quase não adicionava beleza nela.

Quem sabe se eu repetir isso uma centena de vezes, fique mais fácil de acreditar. A propósito, eu não permiti que ela me chamasse de “senhorita Dalton”.

— Tenho certeza que Kate não vai perder o Winter Wonderland por nada nesse mundo! E depois, eu nem matei minha saudade de você! — Luke abraçou meus ombros.

— Vou pedir a conta — Próspero finalmente se pronunciou.

Com a conta paga, as xícaras retiradas da mesa e os scones restantes embalados em um saco de papel pardo, saímos do Gentleman’s Soul para o calçadão do Leicester Square.

Juliet rapidamente ficou de braços dados com o Carma, andando a frente de mim e Luke, falando alguma coisa com ele em cochichos que eram impossíveis de adivinhar. O curioso é que ela estava rindo baixinho e aquilo me dava uma coceira na garganta que pedia para minha mão alcançar aquele rabo de cavalo perfeito e trazê-la para trás com um gentil puxão.

Coisa de amizade mesmo.

Apanhamos o carro e não precisei de muita atenção para notar que deveria ir ao banco de trás com Luke. A loira estava tão a vontade ao redor do Carma que parecia mais inclinada a ser namorada dele do que do ruivinho.

Seria isso? Próspero estava sério novamente porque estava com as rédeas puxadas por Juliet? Impossível. Ninguém em sã consciência conseguiria isso, mesmo sendo uma mulher tão bonita e inteligente quanto ela demonstrava ser.

Tudo bem, se pensasse com realismo, ela aparentava ser bem capaz.

******

O Hyde Park era incrível!

A noite caindo e deixando o céu de Londres repleto de cores, a iluminação de natal em todas as ruas se acendendo como estrelas brilhantes e a cereja do bolo parecia ser aquele imenso parque, banhado em luzes e com sua roda gigante que atraía todos os olhares.

O clima de natal era palpável ali, em cada barraca e na roupa dos atendentes, na decoração repleta de ursos polares, renas e Papai Noel. Muitos brinquedos a disposição, barracas de tiro ao alvo, comida para todos os gostos e bebida quente cheirosa em todos os cantos.

O Winter Wonderland era um deleite e me fazia lembrar dos parques de diversão da infância, naqueles festivais no verão em que a turma do colégio se reunia para gastar moedas com jogos e maças caramelizadas. A diferença é que ali eles tinham uma pista de patinação enorme, com uma fila tão enorme quanto.

Não preciso dizer que não chegaria nem perto dos patins, não é mesmo?

Luke logo resolveu que queria comprar crepes de morango e em minutos estávamos todos andando entre a massiva quantidade de visitantes da festa e a hiperatividade do ruivinho em fazer questão de mostrar cada atração, cada pequena loja que encontramos pelo caminho.

O Winter também era conhecido por ser o maior mercado de natal de Londres e isso realmente atraía muita gente.

Mas o que Lucas Valois D’Orleans realmente queria (além de atazanar o irmão mais velho milhares de vezes para disputarem em uma barraca de tiro e apenas sossegar quando ganhou um urso de cachecol muito simpático e um tubo de fazer bolhas de sabão) era uma volta na roda gigante do evento.

Nunca fui fã de alturas, mas a vista das cabines devia ser de tirar o fôlego!

Ninguém parecia disposto a enfrentar o frio ou abrir mão da tranquilidade da caminhada para se arriscar na fila da roda gigante, mas Luke não se abalou. Logo estava na fila de ingressos e voltou com apenas dois, pegando a minha mão.

— Vem comigo, Kate? Eu sei que esses dois covardes nunca sentirão o prazer do vento no rosto em uma noite tão linda como essa.

— É por conta do vento que ninguém quer sentir nada lá em cima, Lucas. — Juliet riu, abraçada com o urso de pelúcia. Ela logo se sentou em um banco perto de uma barraca de comida da Bavária e suspirou profundamente, encostando a cabeça no ombro do Carma sentado ao seu lado. — Vou ficar por aqui na companhia do seu irmão e dos meus livros se não se importar.

— Tudo bem, eu sabia que seria abandonado por vocês. Mas eu tenho Kate comigo!

— Tem? — quase engasguei com o final do crepe de morangos.

— Tenho sim! Vamos Kate, para o alto e avante!

Luke me abraçou e mesmo entre gargalhadas e frio na barriga, aceitei sua pequena loucura. Rodas gigantes são perfeitamente seguras, certo?

Pegamos a fila e não demorou nada para sermos levados para uma das cabinas vazias, prontos para subir e ter aquela experiência da altura vertiginosa do brinquedo.

Estávamos olhando as pessoas se transformarem em pequenas formigas quando Lucas deixou de me fazer rir com suas ideias de cuspir na cabeça de alguém quando estivéssemos no topo, apenas para tomar um ar mais sério, quase preocupado. Soprou algumas bolhas de sabão que sumiram na noite, antes de perguntar:

— Kate, você está bem?

Estava distraída com as luzes da cidade ao nosso redor, afastando a sensação ruim que tinha tomado meu estômago nas últimas horas.

— O quê? Ah, sim. Estou bem, Luke. Cansada realmente, depois de toda essa tarde movimentada.

— Você parece deslocada. É por causa da Juliet?

— Juliet? Não, de forma alguma, Luke. Ela é uma garota muito legal.

— Não precisa mentir pra mim. Eu sei que ela não é uma pessoa muito fácil, Kate. Ela é bem mais parecida com o Leo do que comigo.

— Parecida com o seu irmão? — Minha nossa, ela era irmã deles?

— Juliet é nossa prima, Kate — Luke começou a rir alto, se divertindo com a minha cara de espanto. — Bom, mais ou menos. Ela é filha da prima da minha mãe e mora com a gente há quase cinco anos.

— Prima... — Não queiram saber a minha cara de besta. Eu pensando que ela era namorada do Carma. Pff.

— E ela está começando a cursar Artes Plásticas e completou vinte anos há duas semanas. Legal, não é?

— Legal... Mas acho que ela não gostou muito de mim, Luke.

— Claro que ela gostou! Mas Juliet é durona como o Leo. Então logo vocês se entendem. Todo mundo se entende um dia, né?

— Ás vezes, Luke. Mas me responde uma coisa?

A conversa sobre pessoas que se entendem me lembrou de um assunto importante, algo que estava me incomodando nos últimos tempos e que tinha sido deixado de lado com todos os acontecimentos que envolveram meu pai, minha mudança, a viagem...

— Pode perguntar, Kate — ele voltou a fazer bolhas.

— O que aconteceu entre Bruce e seu irmão, Luke?

Lucas parou com o sabão naquele mesmo momento e deixou o canudo de lado para afastar a juba ruiva dos olhos e me encarar. Ele não parecia feliz com a pergunta. Estranhamente, Luke pareceu ter seus dezoito anos pela primeira vez desde que nos conhecemos e havia uma maturidade escondida em seus olhos.

— É uma história complicada, Kate.

— Eu imaginei. Bruce disse que ele e seu irmão eram muito amigos. Verdade?

— Sim, eles estudaram juntos por muito tempo até que... Sabe, Kate, Bruce sempre cobiçou de alguma forma, tudo que meu irmão possuiu. Tudo que Leo conseguia, todos seus méritos, Bruce Campbell não se contentava em assistir de longe.

— Eles deixaram de ser amigos por inveja? Ambição?

— Não. Olha, eu não quero te chatear falando coisas ruins sobre o Bruce, Kate. Ele é seu noivo, ele pode ter mudado. Não quero que você brigue com ele por minha causa. Por nossa causa. Mesmo que eu o culpe pelo que aconteceu com Leo, é melhor deixar esse assunto de lado.

— Sobre o que aconteceu com Leo? O que aconteceu, Luke?

O suspiro de Lucas era cortante e seus olhos focalizaram as estrelas no céu de inverno e não mais meu rosto, nem o jeito com que eu estava apertando a barra de segurança da cabine e esperando pela resposta dele. Luke estava digerindo as ideias ao seu tempo, era nítido. Estava debatendo se deveria ou não me contar aquele dado precioso.

— Leo sofreu um acidente de carro há alguns anos e quase perdeu a mão esquerda. Ele mudou muito depois disso, Kate. Por isso pouca gente consegue lidar com ele, com a pessoa que ele se tornou.

— Bruce me disse que Leo passou por uma cirurgia que restringiu os movimentos dos dedos.

— E do pulso.

A imagem de Próspero servindo o vinho durante o jantar de despedida surgiu num estalo. Seu pulso tremia com o simples ato de segurar o peso da garrafa e todos pareceram não notar.

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Na verdade todos notavam, só não ousavam dizer nada para tocar em uma ferida que aparentava ser grande.

Luke ficou quieto depois disso e me senti culpada por ter roubado seu ânimo com aquela conversa ruim. Preferia ter ficado em silêncio e deixado o momento passar, já que era muito preocupante ver o ruivinho preso em pensamentos ruins.

Descemos da roda gigante e como se um gatilho fosse apertado dentro dele, Luke saiu rindo e jogando bolhas pelo caminho até o banco onde Juliet e Próspero ainda estavam sentados.

— Vocês perderam! Foi incrível! Kate ficou com medo de altura, mas eu estava lá para protegê-la — ele inflou o peito para parecer forte e fez Juliet rir enquanto se levantava e arrumava a saia do vestido que usava por baixo do casaco preto.

— Podemos ir embora agora? Meus pés estão doendo — Juliet fez um muxoxo, se curvando para massagear os pés.

— Vamos de ônibus vermelho!— Luke soltou em um disparate alegre.

— Não seja tolo, Lucas. O carro está no estacionamento próximo — Próspero resmungou, se levantando e caminhando na frente com Juliet quase pendurada em seu braço.

— Vamos de ônibus. — afirmei.

Todos olharam para mim em uníssono e ficaram parados, beirando a incredulidade do quê eu estava afirmando.

— Eu adoraria ver um pouco mais da cidade durante a noite e poderia descer perto do meu hotel, sem dar mais trabalho para vocês. Depois vocês voltam tranquilamente para cá e pegam o carro. Se... Não... Incomodar.

Juliet fez um biquinho com os lábios esperando que os primos decidissem ao seu favor, com certeza. Mas a palavra final era de Próspero e eu tinha certeza de que ele não...

— Será uma volta curta, senhorita Dalton. Seu hotel não é muito longe daqui.

— Não me importo, senhor Valois. Mas como uma turista que se preze, cada hora do meu dia é importante.

— Está decidido então.

Mesmo com Juliet reclamando sobre a decisão, andamos até Knightsbridge para apanhar um dos ônibus icônicos que fazia parada por perto. E realmente Samantha ia adorar aquilo, com cada pequeno pormenor, até o som do motor quando partimos.

Lucas pagou as passagens com seu cartão de transporte e nos sentamos nos bancos mais altos perto das portas dos fundos, enquanto Próspero e Juliet ficaram mais perto da escada que levava para o andar superior do ônibus.

Ela simplesmente não deixou que ele se sentasse mais perto, reclamando em alto e bom som que não ia dar mais nenhum passo por conta dos pés sensíveis.

Honestamente? Adoraria pisar no pé perfeito dentro daquelas sapatilhas que combinavam perfeitamente com o vestido dela. Nada pessoal, mas tinha uma coisa atravessada na minha garganta com aquela moça e cada vez que ela se apertava no braço de Próspero, meu estômago dava uma volta maior do que a roda gigante do Hyde Park.

— Kate, você não quer levar a sua irmã pra passar o natal com a gente? — Lucas encostou a cabeça no meu ombro, ainda brincando com o restinho das bolhas.

— Não posso, Luke. Adria preparou tudo para passarmos estas festas juntas. É a primeira vez em anos que conseguimos nos reunir nessa época e eu sei o quanto ela é ocupada.

— Entendo — ele guardou o brinquedo no bolso da jaqueta e era engraçado ver como o frio deixava a pele dele vermelha como depois de um dia de sol. De perto, dava para contar as sardas que passavam pelo rosto de Luke de um lado até o outro. — O Bruce também vem passar o natal com você, Kate?

— Bruce? Não. Ele vai passar com alguns parentes no norte daqui, em Yorkshire.

Senti quando o rosto de Luke se virou para me olhar de canto e um sorriso abriu nos lábios dele.

— Nós moramos em York. Leo tem um flat aqui em Londres, onde ficamos quando estamos na cidade, mas nossa família é toda do norte. Você poderia encontrar o Bruce no natal e ir até a nossa casa, Kate.

— Eu... Vou pensar sobre isso, Okay?

— Okay.

Céus. Meu peito ficou apertado demais. Não queria ter mentido para Luke, não queria sustentar a bobagem que disse no momento de raiva.

Agora todos achavam que Bruce Campbell era meu noivo e eu não sabia exatamente por onde começar a desmentir isso. Minha vontade era tossir para ganhar alguma atenção e fazer um mini discurso que englobasse a série de bobeiras que minha vida azarada conseguia armar para mim — como ganhar um noivo que devia ser ex, mas agora era futuro na cabeça de algumas pessoas importantes.

Sim. Estou assumindo que Luke e seu irritante irmão são pessoas importantes. Mas apenas os dois. Não incluiria Juliet no pacote ainda, mesmo porque pelo visto nosso sentimento era tão mútuo quanto minha capacidade de detestar o primo dela.

Sejamos sinceros. Eu não podia reclamar.

Meu dia tinha sido relativamente bom (Mentira. Tinha sido muito bom) e agora não podia simplesmente mudar de ideia e me deixar abater por um detalhe qualquer, mesmo quando aquele detalhe tinha cabelos dourados e se parecia com o modelo perfeito de mulher que qualquer homem na existência humana gostaria de ter. Principalmente porque ela tinha peitos e estava lendo Jane Austen dentro do ônibus. Não sei se isso me irritava mais — mesmo sem ter a mais vaga ideia do meu nível de irritação — ou me deixava mais triste.

Na verdade era uma absurda, ridícula, inexplicável, disparatada crise de ciúmes. De um momento para outro, Katerina Dalton perdia seu trono de centro das atenções para um modelo menos barulhento, mais tranquilo, econômico e esportivo. Era como comparar um furgão velho com uma Ferrari.

Respirei fundo e encostei a testa na janela do ônibus, observando a noite londrina do lado de fora e todo o mundo que estava alheio àquela situação incômoda. Só podia torcer pela cidade se dobrar e o hotel ficar mais próximo para encurtar a viagem. Pelo menos meu acompanhante ainda estava ali, ressonando baixo com aquela cabeleira ruiva no meu ombro, quase babando no meu casaco com o cansaço do dia.

O city tour parou ao lado do Green Park. Dali eu sabia que levaria menos de alguns minutos para chegar ao hotel e estava pronta para dar a deixa de que ninguém precisaria se preocupar com a minha miserável vida, pois eu precisava de uma longa caminhada para colocar meus pensamentos nos eixos.

Porém antes mesmo de Luke bocejar e sair do banco ao meu lado, Próspero já estava em pé com a mão estendida para mim.

Olhei algumas vezes para ele e depois para o gesto.

— Vamos, senhorita Dalton.

— Não precisa se incomodar, Sr. Valois. Eu vou seguir daqui até o Bristol, não quero que saiam da sua rota. — me ergui e Luke se afastou um pouco confuso quando passei diante de seus joelhos para o corredor do ônibus onde outras pessoas saiam. Mas o Carma permaneceu no mesmo lugar, a mão estendida enquanto os olhos de sua acompanhante assistiam a cena.

— Terminou?

— Terminei o quê? — ajeitei minha bolsa no ombro. Ainda estava melada pelo creme dos scones.

— Seu texto absurdamente fraco e orgulhoso. Se terminou, gostaria de dizer que não pretendo deixar que vá para o hotel sem companhia.

— Não é um texto orgulhoso, eu só quero caminhar.

Próspero deu um passo e apanhou minha mão. O toque foi um choque muito grande para descrever, mesmo que sua mão estivesse gelada de frio.

— Não seja teimosa, Katerina — bufou, a maldita sobrancelha erguida. E Luke se levantou rindo, passando por nós cantarolando que estava descendo do ônibus. — Vamos. E talvez eu mude minha opinião sobre você.

— S-Sobre mim? — engasguei, seguindo com ele sem nem perceber.

— Exatamente. Apenas uma pessoa barulhenta, distraída e orgulhosa precisaria ser puxada para fora de um ônibus. E dentre todas as pessoas desse imenso mundo, aqui estou eu, bem ao lado dela.

Abri a boca, mas não soube responder. Foi estranho ser vencida em uma discussão depois de um dia inteiro entre farpas e novas situações com o Carma, mas tinha de admitir, pela primeira vez eu estava feliz de ser a pessoa barulhenta, distraída e orgulhosa que recebia aquele rótulo.

Leo tinha me vencido mais uma vez. E nem sabia disso.

— A senhorita Dalton parece precisar constantemente de alguém que a salve das intempéries do mundo. Correto, senhorita? — Juliet alfinetou com risinhos, descendo do ônibus abraçada com seu urso e os livros.

Tentei rir com ela. Não estava muito errada em seu julgamento. Próspero era um herói improvável e terrível, que nos últimos meses havia me salvo de situações bem inusitadas. Como negaria isso?

— Katerina sabe se virar muito bem, Juliet. Ninguém está livre de precisar de auxílio em algum momento.

A voz de Próspero silenciou Juliet como a sentença final de um juiz rígido. Lá estava ele, me defendendo exatamente como havia feito com Luke quando encontraram Bruce na frente do meu porão. Dava para notar pelo jeito com que os ombros dele se projetavam, com a firmeza com que ele começou a andar na direção para onde encontraríamos o hotel me levando com ele ainda segura pela mão.

Por quê ele estava me levando pela mão? Não seria possível que ele imaginasse que eu não tinha a capacidade de encontrar o hotel sozinha, não é? Mas mesmo olhando diretamente para ele e esperando por uma resposta, Próspero não olhou para mim nenhum segundo.

Seus olhos estavam no objetivo: levar Katerina Dalton até o Bristol.

E querem saber?

Eu não pretendia discutir com ele sobre isso.