Orleans
7 Capítulo 7 - Let her go, Let me go
Estava prestes a entrar na faculdade quando conheci Scott Burrows no cursinho preparatório. Um cara quase legal, daquele tipo que usa camisa xadrez sobre qualquer peça de roupa em qualquer ocasião, acha que entende tudo sobre o mundo e que é o cara mais desejado do grupo de pseudo intelectuais da turma. Ele me achava bonita e adorava se gabar para os amigos de que a namorada conseguia ler mais livros do que ele — única informação que ele tinha sobre mim, já que nunca conversávamos.
Era uma coisa de química. Ponto.
Detalhe: nós saímos apenas duas vezes. A primeira delas se resumiu em um lanche no intervalo das aulas e um beijo perto do corredor. A segunda foi uma desastrosa noite depois de uma festa com alguma bebida engraçada que resolvi experimentar. Nunca mais bebi depois daquilo, nem saí com Scott Burrows.
Mas ele achava que éramos um casal e fazia questão de espalhar a história da festa como fogo pela classe toda, diminuindo gradativamente minhas chances de conseguir com que qualquer outra pessoa realmente interessante e vivendo no mundo real, me notasse antes da faculdade.
Naquele momento dentro do porão da Sra. Fighbright, encarando Kennedy James Dalton e seu cabelo loiro grisalho cheio de gotinhas de chuva; me fazia sentir tão vazia quanto como me sentia ao pensar em Scott Burrows. Eu amava meu pai e mesmo que quisesse dar um abraço nele, rir do quanto ele estava molhado e lhe dar uma toalha seca para livra-lo do frio daquela noite; no fundo eu esperava que ele pegasse o maior resfriado da face da terra para pagar pelo que tinha feito comigo.
É, eu estava magoada mesmo com ele. E embora tenha sido um babaca, Scott Burrows nunca mereceu meus desejos negros de que ele morresse de gripe cavalar (mas espalhei discretamente pela sala que ele tinha dotes... pequenos, por assim dizer).
Quando fechei a porta de casa e recebi alguns miados de Tabby de boas vindas, me senti um pouco mais forte. Aquele era o meu território, minhas regras e nenhum homem — fosse rico, inteligente, poderoso ou o que fosse — poderia mandar na minha fúria. Mas meu pai roubou a minha primeira fala.
— Fiquei tão aliviado que você está bem, Ratinha. Eu só imaginava o pior, essa cidade é imensa, todos as manchetes de jornal e notícias que escutamos por aí, seu celular que não atendia, eu...
— Estou bem, pai — apanhei Tabby no colo antes que Kennedy resolvesse me abraçar. Seus olhos já estavam lacrimejados, os lábios apertados pra conter sua sensibilidade de pai bobão.
— O que aconteceu, Kate? — ele olhou ao redor para encontrar onde sentar e puxou a banqueta para perto da cama, onde me encarapitei com Tabby.
— Eu que deveria fazer essa pergunta para o senhor. O que aconteceu com o nosso jantar “de pai e filha”? Uma mudança de planos?
— Mudança de planos? — ele pareceu surpreso.
— Eu estava do outro lado da rua quando Bruce chegou, pai. Vi todo o cumprimento entre vocês, quando ele se sentou na mesa que o senhor disse ter escolhido pra nós. De todas as pessoas nesse mundo, o senhor tinha de convidar Bruce Campbell para jantar com a gente? Eu disse que não queria mais nada com essa loucura de casamento arranjado!
— Mas, Kate...
— O senhor vai dizer que foi tudo uma coincidência?
— Sim! — ele começou a rir como se fosse muito óbvio e arrastou a banqueta para ficar mais perto de mim. Tentou pegar a minha mão, mas desviei, afagando Tabby.
Kennedy suspirou profundamente e tirou seu casaco molhado, dobrando-o sobre os joelhos. Então espantou as gotas do cabelo curto, clássico e bem cortado, procurando meus olhos antes de recomeçar.
— O jovem Sr. Campbell me encontrou naquele restaurante por um acaso, Kate. Eu insisti que ele se sentasse por um minuto, mas ele aguardou um pouco e logo saiu, estava apressado para apanhar seu jantar e ir embora. Pediu desculpas por não ficar.
— Com os milhares de lugares em Nova York para se pegar o jantar, o senhor quer mesmo que eu acredite que Bruce esbarrou no senhor por acaso?
— Ele foi bem sincero em dizer que jantava ali todas as noites quando estava na cidade. Até indicou a lasanha, que era muito boa.
— Não consigo acreditar nis... — estava prestes a terminar minha linha de raciocínio quando alguma coisa se debateu dentro do meu cérebro. Uma lembrança pequenininha, uma curva de estranhamento, uma informação que teria passado despercebida de qualquer outra pessoa um pouco mais desligada (ou de mim mesmo em dias de muito sono).
Bruce Campbell queria me pagar uma lasanha em um lugar não muito distante do meu trabalho e insistiu nisso mais de uma vez.
— Mas ele estava aqui com o senhor. Quando eu disse no celular que não queria que Bruce estivesse aqui quando eu chegasse, o senhor não me respondeu nada.
— As únicas pessoas que estavam aqui eram a Sra. Fighbright e o neto, Kate. Eles foram muito solícitos comigo, estavam preocupados com você. Todos estávamos.
Meus pensamentos oscilaram inquietos sobre o que imaginar no minuto seguinte. Conseguia enxergar perfeitamente em minha imaginação um preocupado Bruce Campbell andando de um lado para o outro em frente ao portão do porão, fazendo seus contatos pelo celular em busca da futura-ex-noiva desequilibrada que tinha acabado de sumir em Nova Iorque na companhia de um homem que ele claramente não aprovaria como companhia. A imagem era tão forte que se tornava muito difícil não crer nela.
— Não é possível um destino tão desgraçado assim — suspirei, caindo para trás e deixando Tabby escapar correndo dos meus braços. Estava olhando para o teto quando escutei os passos da Sra. Fighbright, algo raro de acontecer já que ela comumente não transitava pela sala quando sabia que eu estava em casa. Ou pelo menos era essa a minha dedução por não escutar mais vezes a bengala de Dolores batendo no assoalho acima da minha cabeça diariamente.
— Não fale assim, Kate. Essas coisas acontecem.
— Comigo acontecem demais!
Por um momento era possível escutar nossas respirações e a forma com que o gato arranhava a beirada da cama na tentativa de afiar suas unhas minúsculas e mortais. O olhar do Sr. Dalton estava sobre sua filha extremamente cansada e chateada jogada sobre a cama, agindo como uma adolescente que tinha toda a razão do mundo em estar muito quieta.
— Pai?
— Sim, Ratinha? — Kennedy parecia cansado quando o espiei de lado, mas sua voz continuava na mesma mansidão de sempre.
— O casamento... Ainda vai acontecer?
Meu pai fechou os olhos e o ar entrou e saiu de seus pulmões bem lentamente, suas mãos segurando o casaco molhado, seus ombros se movendo pra cima e para baixo, resignados ao tema que eu tinha escolhido.
— Você conhece minha opinião, Kate.
— O senhor se casou desta forma, pai? Nossa avó quis que o senhor casasse com Aida Anderson para manter o dinheiro da família em segurança?
Assisti quando a boca de Kennedy se abriu e fechou duas vezes, procurando algumas palavras certas ou tentando organizar uma frase que coubesse como resposta para as minhas perguntas. Por fim ele se levantou da banqueta, deixando o casaco molhado no lugar antes de se sentar na beirada da cama e apanhar uma das minhas mãos entre as dele.
— Não, Kate. Eu me casei com sua mãe porque estava comprometido com ela, mesmo que sua avó fosse contra o matrimônio com uma família que não fosse abastada o suficiente para enriquecer os Dalton ainda mais.
— Então por que vocês querem que eu me case por acordo? Tudo bem que eu não acredito em finais felizes ou muito dessas coisas de romance, mas eu gostaria de me casar quando achar correto e se quiser. Eu sei que o senhor pode perder tudo que é seu por causa do meu capricho...
— Nós perdemos, Kate. Sua avó acha que essa tradição deve ser mantida, mesmo atualmente. Você sabe que ninguém da família vai contra as ideias dela, principalmente quando se trata de dinheiro e ela detém toda a herança que passaria para mim e sua tia May. Como sua tia tem apenas seu primo Robert como herdeiro e ele já está casado há três anos, a parte dela na herança está garantida...
— E o senhor vai perder a sua parte porque suas filhas não querem se casar com desconhecidos a troco de dinheiro.
— Não é o dinheiro que me preocupa, Kate. Tenho outros recursos, valores guardados com cuidado desde que você e sua irmã eram pequeninas; mas a minha única preocupação é perder tudo que construí na empresa — Kennedy tornou a suspirar, seu olhar parecia principalmente interessado nos cadarços de seus sapatos novos. — E te fazer infeliz, minha Ratinha.
Fiquei relembrando a conversa que tive com Adria dias antes, quando ela contou sobre a importância do casamento tradicional e o que meu pai perderia com aquilo. O peso de mudar toda a vida do Sr. Dalton ainda era grande nos meus ombros por mais que uma pontinha de esperança me dissesse que ele era capaz de recomeçar com alguma outra coisa que desejasse. Talvez ele tivesse velhos sonhos que poderia perseguir agora, não é?
— O seu porão é bem aconchegante, Ratinha — ele amenizou com um sorriso enquanto seus olhos observavam os detalhes de cada pilha desarrumada de livros, roupas sobre a cama, louça na pia.
— É a minha toca — brinquei.
Kennedy Dalton fez um singelo movimento com o indicador para me pedir um minuto de espera e saiu do cantinho do colchão para revirar os bolsos de seu casaco molhado sobre a banqueta. Alguma coisa tintilou lá dentro de um jeito conhecido e em seguida estava às voltas com aquele chaveiro em que a cabeça de Sir Edgar Allan Poe e seu “Nunca Mais!” chacoalhavam cinco chaves por uma argola.
Meu aniversário de 27 anos e o desastre do anuncio de um casamento arranjado feliz para uma garota que jamais se casaria, retornou como um soco na boca do meu estômago.
— Pai... Eu não vou aceitar casar em troca disso.
— Não é uma troca, Ratinha. É um presente — Kennedy soltou um resmungo quando conseguiu dobrar suas pernas para se sentar no chão e ficar exatamente na minha altura, olhando nos meus olhos que estavam um pouco escondidos pelos travesseiros sobre a cama. — Era o seu sonho, não é? Eu não posso barganhar algo que para você é inaceitável, minha Kate, então aceite o meu presente. Afinal o apartamento já está pago e não faz sentido ficar vazio... Mesmo que sua mãe tenha insistido muito para colocarmos nos classificados e ganharmos alguns trocados de aluguel.
— Tem certeza que se eu aceitar isso, não vai haver um noivo do lado de dentro com um anel de diamantes?
— Se houver um anel de diamantes, não troque pelo apartamento — meu pai riu e logo estávamos os dois rindo, enquanto eu me sentava na cama e aceitava aquele molho de chaves como se estivesse aceitando uma trégua com um vilão terrível.
Cinco chaves. E elas me aterrorizaram e encantaram durante aquele ano todo longe de casa, sempre me deixando entre a dúvida de aceitar um compromisso ou negá-lo eternamente. Agora tudo indicava que Kennedy Dalton estava assinando seu próprio tratado de paz comigo, conformando-se que não conseguiria dobrar a filha mais nova com um apartamento na Quinta Avenida e um noivo bonitão. Katerina Dalton precisava de muito mais do que isso.
— Obrigada, pai. Por estar disposto a enfrentar as consequências da minha escolha, por me entender.
— Mesmo que isso signifique perder tudo pelo qual eu trabalhei a vida toda? — ele suspirou e bateu o indicador na pontinha do meu nariz. — Vamos ficar bem. Eu te amo de qualquer forma, Ratinha.
Não vou mentir. Mesmo que estivesse feliz pelo apartamento e por aquela mudança nos planos do meu pai, ainda me sentia culpada. Não me via como uma daquelas garotas que acabaria se apaixonando irremediavelmente e recebendo um pedido de casamento nos próximos dois anos para compensar o Sr. Dalton pela inconveniência da minha recusa.
Sejamos realistas: quais as minhas opções de futuro? Meu trabalho não me transformaria em uma brilhante executiva de sucesso, dificilmente faria meu desejado best-seller e não tinha um namorado firme desde que nasci. Claro que o mundo se resume em mais do que ter um marido, um compromisso ou um trabalho, mas naquele instante era o peso daquelas questões tão fundamentais e primitivas da sociedade que estavam me deixando para baixo.
O Sr. Dalton não quis ficar para tomar um café comigo no Hallow’s Barn, mesmo depois que choraminguei pela quarta vez que ele era um velho pai cruel com sua filha caçula solitária na Grande Maçã. Mas ele aceitou uma xícara de chá de morangos enquanto seu casaco girava na secadora e me encheu de recomendações sobre o apartamento durante a espera pelo táxi que havia acabado de pedir. “Trabalho, trabalho!”, ele frisou antes de me beijar na testa e fechar a porta amarela do carro.
Liguei para Samantha em seguida e tive de escutar um longo sermão sobre “Isso são horas de se ligar para uma mulher trabalhadora como eu?” e “O quê demônios você estava fazendo jantando na casa do Carma?”, além do clássico “Você quer me matar de preocupação, Branquela?”. Foi muito confortador escutar as risadas de Sam para cada trecho da minha discussão com Próspero ou todas as suas desconfianças sobre o trato entre o Sr. Dalton e o Sr. Campbell. Teríamos passado a madrugada naquela conversa se o sono não estivesse ganhando o páreo e teimando em fechar meus olhos.
Bastou me despedir de Sam com as promessas de dar todos os detalhes do acontecido pela manhã e me enfiar em um demorado banho quente que incluía a sessão de culpa por todas as decisões que tinha tomado em um dia, para me questionar se aquilo era o certo.
Me joguei na cama em seguida e ergui o molho de chaves entre os dedos, incrédula de que finalmente meu pesadelo tinha terminado. Obviamente minha mãe não aceitaria que o acordo com os Campbell fosse desfeito e tentaria me persuadir de alguma forma, mas naquele instante o que me importava eram aquelas cinco chaves brilhantes presas na cabeça de Sir Poe, que para mim simbolizavam a chance de um futuro um pouco melhor, onde as caminhadas para a livraria levariam cinco minutos e os dias de chuva não seriam mais um tormento.
Além do mais, agora eu teria mais do que alguns metros quadrados de casa para receber as pessoas e faria certo britânico nariz empinado engolir suas palavras de que eu morava em uma toca que difamava todos os lares decentes. Porém, não havia mais nariz empinado para ver o apartamento...
Não tem problema. Mandaria uma foto por email se fosse necessário!
*****
A terça começou fria depois da chuva dos últimos dias e havia uma sensação confortável de abraço em poder vestir uma meia grossa por baixo do jeans e mais uma blusa para poder caminhar até a livraria. Sempre gostei do frio. Era a estação perfeita para uma pessoa poder andar sem chamar a atenção, principalmente se tratando de uma filha dos Dalton que não fosse modelo para passarela.
Fiz uma pequena parada para comprar algumas rosquinhas e quando cheguei às portas da Barnes & Noble, alguns clientes já estavam lá dentro e era bom ter um dia que aparentava ser normal depois de todas as tempestades malucas que estavam me cercando ultimamente. Literalmente ou não.
Sam estava a minha espera de braços cruzados sobre a ilha de atendimento com aquele sorrisinho aberto logo que me aproximei. Juro que senti minha nuca eriçar. Ela estava aprontando alguma coisa.
— Bom dia, Branquela do meu coração. Pronta para começar mais um dia emocionante na sua vida?
— Não, chega de emoções pelo restante do mês. Estou precisando de longas férias e distância de tudo que me leve em direção ao desconhecido, pessoas estranhas e casamentos que envolvam a minha pessoa no nome da noiva.
— No menu de hoje não temos nenhum casamento, nem férias, infelizmente. Aliás, quando você tira suas férias? Não vai coincidir com o final de ano?
— Preciso negociar isso com Lex, mas adoraria ter uma folga perto do natal para aproveitar a Nova Iorque enfeitada e iluminada, patinar, ganhar 10 quilos com porcarias e ajeitar meu apartamento novo. Viva!
— Viva o apartamento novo e a liberdade!
Rimos e demos gritinhos de ânimo. Samantha estava mais curiosa com o famoso apartamento do quê em saber qualquer detalhe que não tinha contado sobre o dia anterior. As chaves do lugar estavam dentro da minha bolsa e meus dedos coçaram de ansiedade para mostrar o chaveiro de Sir Poe e aumentar ainda mais o clima e excitação com a novidade. Mas o trabalho estava ali olhando para a minha cara e eu não podia me atrasar para bater o ponto na sala dos funcionários.
O tempo frio e o início da semana não atraiam muito publico, mas eram os dias perfeitos para arrumar o estoque nas prateleiras, conferir o estado dos livros e fazer a limpeza do setor. Estava em um ótimo ritmo quando os dreadlocks de Lex surgiram pelo corredor de prateleira 32, logo após a cabeleira ruiva de farmácia de Lena passar empurrando um carrinho de reposições repleto de capas coloridas do setor infantil.
Lembrei-me do que Sam havia dito sobre minhas férias e fiquei tentada em esticar a mão e segurar a camisa impecável do jovem gerente para bater meus cílios e questionar sobre meu descanso. Afinal eu era mais do que merecedora. Ou você acha que encontrar uma atendente que esteja disposta a levar uma bala de um assaltante é uma tarefa fácil?
Merecia um daqueles quadrinhos de lanchonete com o meu nome titulado “Atendente do Mês”. Ficaria mais feliz do que podem imaginar.
Porém Lex saiu do meu alcance e enquanto estava desenhando o meu melhor biquinho de desapontamento com minha falta de coragem, percebi alguém parado atrás de mim, provavelmente aguardando para ser atendido. Enchi os pulmões, abri meu sorriso, estreitei meus olhos, pensei em unicórnios e arco-íris (fadas não, porque vivo matando as pobrezinhas com minha incredulidade), estiquei meu pé direito escondido dentro da sapatilha vermelha e girei o corpo.
— Olá, em que posso aju... Próspero?
— Ou “Carma”, de acordo com seus últimos relatos — ele completou, acomodando nas mãos um exemplar de capa dura e antigo.
Agora eu exigia a plaquinha de atendente do mês com neon piscando e uma menção honrosa a todos meus feitos, incluindo atender o inglês mais nariz empinado, insuportável e autossuficiente que poderia pisar em toda a América. Tudo bem que ele tinha seus pontos positivos comigo, como ter mentido na noite anterior para apaziguar os ânimos do Sr. Dalton, mas isso não livrava de suas chatices esporádicas.
E enquanto meu cérebro tentava analisar algum conjunto de palavras que resumissem “O que você está fazendo aqui? – O que você quer comigo? – O que eu fiz para merecer?”; fiquei parada com a boca um pouco aberta conforme ele me observava com o desdém de sempre, a sobrancelha de sempre e a expressão de sempre.
— Bom dia, senhorita Dalton — ele não perdeu tempo e estendeu o braço, quase batendo com um livro contra meu peito deficiente de dotes. O exemplar pesado foi seguro pelas minhas mãos por um milagre, já que doeria bastante se caísse nos meus pés.
— Vai levar apenas este, Sr. Valois? — as palavras saíram lentas, ainda estava procurando raciocinar enquanto falava. Não compreendia porquê as chegadas abruptas do Carma ainda me surpreendiam ou pior, como ele ainda conseguia me causar aquele desconforto estranho na nuca quando falava qualquer coisa com seu sotaque inglês naqueles dias errados que não eram parte de sua rotina das quartas.
— Não pretendo pagar por algo que me pertence, senhorita Dalton. Deixou o livro na biblioteca noite passada e Lucas conseguiu infernizar todo o desjejum insistindo para que viesse trazê-lo até aqui. Esqueceu que eu gentilmente emprestei o exemplar para que aumentasse seu conhecimento?
— Como eu poderia me esquecer de como o senhor tão gentilmente me chamou de inculta? — sorri amarelo e examinei a capa da “Obra completa e Dramas para Palco – Peças de William Shakespeare” que havia desencadeado aquela discussão entre nós no fim do jantar.
— Foi esta a interpretação que teve das minhas intenções com este empréstimo, senhorita Dalton?
— Oh, pode acreditar que a minha interpretação foi bem pior do que esta, senhor Valois. Mas muito obrigada pela gentileza de qualquer forma. Agora, se me dá licença...
Era isso. Não ia dar nenhuma abertura para o Carma passar longos minutos em uma discussão sem fundamento sobre a minha falta de atenção em ter deixado o livro que ele me emprestou na biblioteca. Nem mesmo em escutar qualquer dissertação sobre meus pensamentos e interpretações para as dezenas de palavras difíceis que ele claramente poderia usar para me qualificar como uma mulherzinha sem valores, que ele deixou bem claro ser a imagem que tinha de mim. Não, eu não ia arruinar minha terça feira pacífica me afundando nos caprichos do senhor Valois.
E para tanto, virei nos calcanhares para a direção onde Lex e Lena haviam sumido nas prateleiras e apertei o livro contra o peito, dando os passos mais resolutos que poderia dar sem dispensar nenhuma atenção ao detalhe de que estava claramente sendo seguida pelo Carma.
— Senhorita Dalton — ele chamou a primeira vez e eu sabiamente ignorei, sorrindo gentil para uma senhora que estava na prateleira de passatempos, separando livros de crochê. Virei na área de leitura e desviei de um grupo de garotos que discutia animadamente sobre a adaptação cinematográfica de um dos heróis de algum gibi.
— Senhorita Dalton, será que pode me dar um minuto? — foi o primeiro questionamento dele quando cumprimentei os colegas que atendiam nos caixas da loja e me abaixei para passar por baixo dos braços de um repositor que erguia uma caixa de materiais de escritório para o alto de uma estante, bloqueando aquele corredor com sua escada e demais caixas com produtos. Quando notei o silêncio ao meu redor, sorri satisfeita em pensar que o Carma havia desistido do duelo daquele dia e que faltavam apenas dois metros para alcançar a porta que me levaria para uma área segura na loja, longe de clientes.
Mas minhas vitórias dificilmente duravam muito.
Estava olhando para trás em um instante, me certificando de que estava sozinha e poderia levar aquele livro pesado e desengonçado para a sala dos funcionários. No outro instante (com meu melhor sorriso vitorioso) olhei para frente e não haveria santo algum no firmamento que me ajudasse a ter reflexos suficientes para escapar do que veio a seguir.
Próspero simplesmente surgiu no final do corredor das prateleiras com um largo passo que o colocou imediatamente na minha frente e exatamente adiante da porta que era meu objetivo de fuga. E antes que ele conseguisse articular meu sobrenome ou que eu adquirisse movimentos sobre-humanos pra parar meus passos apressados, trombei diretamente com ele numa clara demonstração das minhas habilidades motoras nulas.
Sim, senhoras e senhores, foi um desastre. Uma catástrofe. Um abalo sísmico ou qualquer outra força tenebrosa da mãe natureza.
Em um momento estava me gabando internamente por ter fugido com sucesso do Carma, no outro estava quase caindo de queixo no peito dele e levando o inglês comigo pelo jeito que tentei me segurar no casaco de tweed. Quase.
O fato é que eu não caí com o meu adorável queixo no peito do Carma, nem causei uma ruptura no espaço tempo com a colisão de corpos físicos incompatíveis. Próspero foi mais rápido do que isso e me segurou pelos ombros, transformando aquele acidente no motivo mais ridículo, clichê e absurdo para haver apenas um livro velho entre nós. E logo que ergui o rosto, estava a centímetros do rosto dele.
Ele pareceu preocupado por um lapso de segundo, mas a segurança transbordava de sua expressão, como se naquele instante segurar uma donzela desajeitada e impedir um tombo histórico fosse parte da rotina dele em ser um cavalheiro. De tão perto os olhos do Carma perdiam um pouco daquela habitual frieza e pareciam mais tranquilos, nada que chegue aos pés de uma descrição patética de céu claro ou ondas do mar, mas um azul tranquilo e estranhamente bom de observar.
— Estou inclinado a pensar que estava fugindo da minha presença, senhorita Dalton.
— Mesmo? E isso se deve ao quê?
— Talvez a sua súbita surdez ou ao detalhe de que estava quase correndo entre os corredores da livraria. Mas pode ser um péssimo julgamento meu. Não seria o primeiro equívoco.
Juro que enxerguei um sorrisinho no canto dos lábios do Carma naquele instante (e estava próxima o bastante para afirmar isso), entretanto não tive muito tempo para fazer maiores observações. Havia alguém pigarreando atrás dele naquele minuto, chamando a nossa atenção.
— Desculpa interromper o momento de vocês, mas eu adoraria falar um minutinho com a minha amiga. Pode ser?
Próspero se virou, ainda me segurando pelos ombros sem nem perceber (coisa que eu também não reparei na hora) e não foi nada difícil notar o olhar engraçado estampado no rosto de Samantha com seus braços que mal se cruzavam sobre aquele par de seios enormes que deixavam o botão da sua blusa pronto para saltar dali e cegar algum desavisado.
Imediatamente dei um passo para o lado e o Carma soltou meus ombros, enfiando as mãos nos bolsos de seu casaco marrom enquanto eu apertava o livro um pouco mais contra meu peito. Aliás, o casaco e os sapatos dele combinavam, chegava a ser irritante.
— Ah... Samantha, este é o senhor Valois. Você se lembra dele? — nada melhor do que boa educação para sair de uma situação constrangedora. Só precisava torcer para Sam não sair chamando o homem de “Carma”, já era terrível demais ele repetir isso pra mim.
— Sim, já nos apresentamos esta manhã, não é senhor Valois? — Sam riu baixinho e a cena só ficou ainda mais estranha quando Próspero concordou com ela em um meneio, pra depois continuar. Quer dizer que ela não socou o nariz empinado?
— A senhorita Russell foi muito prestativa ao me dizer que ainda não havia começado seu turno, senhorita Dalton. Portanto deixei para completar alguns últimos afazeres pela cidade antes de passar para entregar o livro.
Samantha, sua traidora...
— Então se vocês dois já conversaram, eu vou roubar a Branquela, digo, a senhorita Dalton para voltar ao posto de atendimento.
— Claro. Perdoe-me por tomar seu tempo, senhorita Dalton. Espero que goste do livro – ele pareceu pronto a se retirar por conta da presença de Sam e com um cumprimento deu as costas para se afastar de nós.
Mas espere aí. Ele estava mesmo me seguindo dentro da loja apenas para me irritar e desistiu por conta da Sam? Será possível que o Carma desenvolveu um prazer oculto em causar irritação para a atendente mais gentil da Barnes & Noble (e vamos adicionar modesta) em segredo do mundo?
Fiquei com a respiração suspensa enquanto assistia aquele homem caminhar pelo corredor e cumprimentar sutilmente o atendente que descia da escada com as caixas de reposição, tamborilando a capa do livro comigo até sentir Samantha me abraçar pelos ombros e encostar a cabeça na minha.
— Confesse que vai sentir falta dele — dava pra notar que ela estava com aquele sorrisinho sacana encrespando o canto da boca enquanto repetia aquilo como da última vez que Próspero esteve na loja.
— Dá um tempo, Sam. É o Carma. “O Carma”, com letras maiúsculas.
— Ele é nariz empinado, tem umas manias, gosta mais de Shakespeare do que do mundo, mas pelos fatos que você tem contado, além do que presenciamos na loja; ele parece se importar bastante com você. Não pode negar isso, Branquela. O cara foi te devolver uma echarpe feia no meio de uma tempestade e depois te levou pra jantar na casa dele, mentiu pro seu pai e pra finalizar, te trouxe um livro emprestado.
— Não era você que queria socar o nariz dele? Onde foi que eu perdi o momento em que Samantha Russell mudou de opinião? Além do mais, a atitude da noite passada não perdoa o que ele disse sobre me julgar por ações. Onde ficam meus direitos? E grande parte dos motivos deles envolve satisfazer as vontades do irmão, e não ser bonzinho comigo. Se dependesse da boa vontade do Carma este livro nem estaria aqui.
— Bom, ele foi um idiota, nós duas concordamos com isso. Mas estive pensando melhor sobre o assunto essa manhã e me ocorreu uma coisa bem simples, Branquela.
— Oh, Deus... Tenho medo das suas deduções.
— O que impede seu Carma de estar com ciúmes do Sr. Campbell? Eles não são de alguma forma inimigos jurados silenciosamente? — Samantha estava rindo e eu não sabia descrever se de satisfação em me atormentar ou por achar graça no acontecimento.
A primeira opção, com certeza.
— Você está passando muito tempo perto do setor da Lena, Sam. Seus neurônios mafiosos estão se tornando leitores ávidos de romances piegas com caras seminus na capa, aposto.
E lá estava a gargalhada de Sam, enquanto me empurrava para longe da porta da área de funcionários e na direção das estantes e corredores, ilhas de livros e clientes.
— Você é uma garota adorável, com a língua afiada, inteligente, quase casada à força e com problemas de socialização. Por que ele não poderia gostar de você? Quando você se arruma fica até gatinha, Kate. Miau!
— Sério Sam, eu te amo, mas não é a minha praia. Vou te arranjar uma namorada — óbvio que a brincadeira resultou num tapa no meu ombro e mais risadas até minha ilha de atendimento quase na entrada da loja. — Além do mais, minha amada amiga, você quase testemunhou um momento épico antes da trombada com o Carma. Ele estava me seguindo pela loja, mesmo quando eu deixei bem claro que não queria mais nenhuma conversa. Aposto que ia me infernizar, humilhar e usar toda sua retórica para deixar bem claro sua inteligência e capacidade.
Coloquei o obtuso livro de Shakespeare sobre a bancada e respirei fundo enquanto observava a rua através das portas de vidro da livraria. Ainda estava incomodada com aquele assunto.
— Talvez ele só quisesse se despedir. Ou te dizer algo. Já pensou nisso? Imagine só o Carma se declarando para você, Kate, roubando um beijo de despedida sem nenhuma promessa de que se verão novamente nesta existência? Oh, meu coração até aquece com o pensamento! — Sam dramatizou, querendo insinuar seu enredo romântico pra cima de mim.
— Não vai colar esse plot de filme estrelado pelo Tom Hanks e Meg Ryan, Sam. Ou deveria dizer, senhorita Russell?
Terminamos aquele assunto rindo juntas antes de marcar onde seria nosso almoço do dia. Claro que Sam queria conhecer o apartamento, mas achamos melhor marcar um dia no final de semana para convidar Lex para participar da comemoração. No fim das contas, ainda devia muito para ele depois de um ano de amizade.
Tudo bem, não vou negar que aquele papo de Sam me intrigou. Claro que não imaginava Próspero se declarando em hipótese alguma do firmamento, nem tendo sentimentos extraídos daquele coração de iceberg; mas ela poderia estar certa sobre uma coisa: ele queria falar comigo sobre algum assunto que não envolvia torturar meus nervos.
Só parei de revirar a ideia dentro da cabeça quando fomos almoçar e Lex nos acompanhou. Conversar sobre a casa nova e os planos, escutar todas as palavras de motivação e encorajamento das pessoas que gostavam de mim, era de fato mais importante do que tentar descobrir o que Leopold Thomas Valois D’Orleans desejava comigo.
E ponto final.
****
A semana passou depressa. Tentei durante todos os dias seguintes entrar em contato com Adria, mas pelo visto ela estava muito ocupada entre dois eventos de moda importantes e sua secretária eletrônica já não suportava mais mensagens.
Liguei para o escritório dela em Manhathan e implorei para a secretária pedir que ela me retornasse assim que possível. Sabia que isso poderia significar mais algumas semanas se tratando dela, ainda mais quando minha irmã estava na Europa, longe dos negócios na América. Queria muito contar as novidades para ela.
Afinal a sexta chegou e a intimação para meus amigos comparecerem a pré-inauguração do meu futuro lar foi feita com muita delicadeza: apareçam ou morram. Bem sútil.
Com as chaves em mãos e o fim de semana pela frente, logo arrastei Samantha e Lex para conhecerem o meu tão cobiçado novo lar. Claro que os dois deram um jeito em suas agendas extremamente apertadas para me fazer esse agrado e comprar uma pizza com borda dupla e um refrigerante gigante para comemorar. Tudo bem que a agenda lotada é um exagero, mas a pizza nunca!
Encontramos alguns problemas no aquecimento do lugar, uma pia entupida, pinturas com rachaduras e dobradiças emperrando. Listamos todos os detalhes urgentes e entre copos de refrigerante e risadas, e combinamos de nos encontrar para carregar algumas coisas no fim de semana.
Samantha ainda não acreditava que meu pai tinha entregado o apartamento sem lutar um pouco mais para me casar e eu dividia a minha desconfiança com ela. Cogitei pagar o Sr. Dalton pelo apartamento aos poucos, pequenas parcelas conforme as coisas se acertassem, para ao menos ser grata de alguma forma que não envolvesse ter um anel de compromisso no anelar. Tinha de fazer minhas contas antes de assumir essa decisão.
Lex deixou alguns telefones comigo, desde empresas de mudança até encanadores, amigos e conhecidos que ele poderia indicar porque eram “muito confiáveis”, como gostava de reafirmar a cada vez que se falava sobre os reparos do apartamento.
Durante a semana toda, assim que meu turno na livraria terminava, corria para o primeiro andar sobre o restaurante tailandês perto da Quinta, munida com vassouras, panos, espanadores e produtos de limpeza; pronta para renovar tudo que fosse possível dentro do meu futuro lar. Chegava ao porão da Sra. Fighbright arrastando os pés e tinha apenas alguns minutos para um banho, chamegos para Tabby e desmaiar na cama até o dia seguinte.
Na semana que veio consegui com que o pintor começasse o trabalho e o aquecimento fosse consertado (ainda bem, caso contrário me transformaria no primeiro picolé Dalton do mundo!). Dei um jeito de desentupir a pia usando um vídeo tutorial na internet e cometi minha primeira extravagância financeira: comprei uma grande estante para acomodar meus livros.
Esperava que até o final do mês os reparos estivessem terminados e me permitissem levar tudo com calma e tranquilidade, mas as coisas não foram assim. Na segunda semana o pintor simplesmente desapareceu sem vestígios, o cano dentro da pia explodiu e uma fileira de azulejos despencou no banheiro. Tudo aquilo me deixou a beira de um ataque de nervos dignos de Um Dia de Fúria e resumia meus dias a trabalhar no piloto automático e passar horas pelo telefone discutindo com algum irresponsável até a hora de dormir. O sonho estava me estressando um bocado.
Claro que eu não esperava um mar de rosas, afinal era de Katerina Dalton que estamos falando, não é mesmo? E desde o início de minhas memórias úteis, as coisas nunca saiam perfeitamente na minha vida e caso isso ocorresse, era um sinal de que algo ainda pior viria adiante. Tinha que agradecer muito por ter amigos e colegas de trabalho tão compreensíveis como Lex e Sam, que viviam me salvando nos momentos mais críticos — principalmente quando meu sono atrasado me fazia errar os títulos nas prateleiras ou minha irritação pedia mais alguns minutos de intervalo.
Mas meu mais improvável escape em meio a essa tormenta do apartamento era algo que nunca imaginei que pudesse ocorrer: Lucas Valois e suas dúzias de mensagens, áudios e vídeos diretamente da terra da Rainha, ou nem tanto.
Tudo começou logo depois da partida dos irmãos, com o primeiro vídeo retratando um mal humorado Carma arrastando malas com rodinhas pelo aeroporto enquanto o ruivinho falava pelos cotovelos em como ele adorava aviões e comida de avião e aeromoças. Claro que o vídeo foi bem curto até Próspero apanhar o celular dele e acabar com a felicidade.
Alguns minutos depois começaram as mensagens de texto recheadas com carinhas alegres, informando que estavam embarcando no voo saindo do aeroporto JFK, que os fones de ouvido eram legais, que Collins havia esquecido sua almofada para pescoço e que a aeromoça avisou para desligar os celulares dentro de alguns minutos.
Recebi novidades de Luke apenas um dia depois, com um alegre bom dia que não respeitava nosso fuso horário. Depois ele enviou mais um vídeo feito sorrateiramente dentro do avião durante a viagem no dia anterior, mostrando Collins roncando com a cabeça um pouco torta sobre o ombro de um Próspero vestindo um blazer azul marinho impecável escolhido para o voo.
O Carma não usava tecidos de acordo com o dia afinal.
Passamos a nos comunicar com frequência. Luke listava sua rotina ou tinha crises de desaparecimento por uma semana e retornava para o bate papo resmungando sobre suas aulas, sobre professores, sobre o irmão, e toda uma lista de coisas típicas de um garoto da sua idade reclamar. Ele ficou radiante com a notícia do apartamento e fiz questão de colocar em letras grandes que exigia que Próspero visse as fotos do lugar.
Já me sentia mais realizada em saber que agora ninguém mais chamaria a casa de Kate Dalton de toca!
Ás vezes Luke enviava algum vídeo que mostrava sua sala de aula no reformatório de musica ou as estradas campestres da Inglaterra, que eram tão bucólicas quanto se podia imaginar (mesmo com ele reclamando que tudo era rural demais) e eu enviava alguns de volta reclamando do meu cansaço com o apartamento, dublando Tabby para câmera — o que fazia o ruivinho rir por minutos até perder o fôlego, ou mostrando as ruas de uma Nova Iorque que ficava cada dia mais e mais gelada com a chegada do inverno. Tenho que admitir que estava com saudades do furacão ruivo, mas Lucas se fazia presente daquele jeitinho dele.
Mas era estranho ter que admitir também que minhas quartas tinham se transformado em só mais um dia da semana. Nada de especial. Nada de esperado. Apenas um dia entre a terça e a quinta.
Certa vez Luke comentou que teve o celular confiscado por Próspero depois de um vídeo gravado sem permissão. Pelo visto o inglês ranzinza e insuportável continuava atacando do lado de lá do oceano e eu me perguntava qual seria a opinião dele sobre todas as conversas que mantinha com o irmão mais novo. Ele teria arrumado uma atendente paciente para importunar por lá?
E por falar em importunar...
Outra pessoa que passou a me enviar pequenas mensagens foi o senhor Bruce Campbell, que a princípio foi tão ignorado quanto podem imaginar, mas acabou me vencendo com sua preocupação constante com meu bem estar.
Embora imaginasse ficar bem mais abalada em digitar qualquer coisa para Bruce, suas pequenas aparições na tela do meu celular não me incomodavam mais depois de alguns dias. Ele nunca mais apareceu de supetão na porta do porão da Sra. Fighbright ou me fez qualquer convite, mas pareceu ter se conformado em uma convivência pacífica e amigável, agradável eu diria.
Cheguei até mesmo a mencionar o apartamento com ele, minha conversa com o Sr. Dalton e claro, aquele encontro absurdo na Babillon naquela noite.
Bruce tratou tudo com muita racionalidade e explicou que de fato, ali era o restaurante que ele tanto queria me levar em seus convites. O encontro foi uma mera e estranha coincidência — mesmo que eu ainda não engolisse isso. Mas estávamos com um relacionamento adulto agora e isso incluía ser compreensiva com coisas estranhas para “socializar”.
Apenas com a proximidade dos preparativos do dia de Ação de Graças, Adria resolveu retornar todas as minhas ligações que quase deixavam sua pobre secretária prestes a ignorar quando via meu número no identificador de chamadas.
Primeiro ela teve um surto de gritinhos repletos de saudades da minha voz, falou sem parar sobre tudo que estava fazendo naqueles dias e suas viagens, roupas, estilistas (e os outros noventa por cento do mundo dela que eu nunca compreenderia), sobre o namorado que a chutou e o novo que encontrou; e tomou uma golada de ar entre perguntar sobre os feriados de fim de ano e lembrar que eu estava do outro lado da linha em uma interminável sequência de “hum-um”.
— Mas e você, Princesa? Quais as novidades? Acabou se rendendo ao charme do seu quase noivo?
— Futuro-ex-noivo. Não, ele parece ter desistido de encantar a solteirona Dalton, mas a novidade é que estou prestes a me mudar do porão! — a resposta de Adria foi um grito que me fez afastar o telefone antes de ficar surda por exposição à agudos.
— Você arrumou uma casa? Foi promovida? Vai se casar com outro gato nova-iorquino? Me conta, Kate!
Então comecei a desmembrar toda a história desde o convite para o jantar com meu pai, até as mensagens pacíficas de Bruce, e pela primeira vez em toda a minha vida, Adria ficou em silêncio.
— Kate, isso não está certo. Papai não passaria por cima de uma opinião da nossa mãe assim, tem alguma coisa errada com esse lance de apartamento de repente, noivo bonzinho... Estou sendo muito desconfiada? Tem certeza de que isso não envolve algum contrato de casamento?
— Acho que sim. Mas não estou querendo me preocupar com isso agora, Adria. Estou tão tranquila, em paz mesmo com esses problemas todos com a reforma do lugar e vivendo em um porão repleto de caixas com tudo empacotado. Não quero pensar em Campbells ou Daltons, ou seja lá o que for.
— Você sabe que Aida é esperta, Kate. Nossa mãe vai perder o aluguel do apartamento, o dinheiro da família e aceitar seus caprichos de escrever um livro e morar perto da Quinta Avenida? Eles vão tentar forçar esse casamento de alguma forma.
— Adria, quer saber? Eu estou cansada disso. Casamento, família maluca. Se for para ficar livre de toda essa tradição medieval, eu caso e pronto. Assino o bendito papel, o Sr. Campbell vai feliz para a casa dele e eu posso viver finalmente. Papai recebe o dinheiro, Aida vive contente pelo resto da vida nadando na herança da nossa avó e depois de algum tempo posso pedir um divórcio e seguir adiante.
Aliás, porquê eu não havia pensado nisso antes?
— Você não é uma escrava da família, Kate. Você precisa perseguir seus sonhos, conhecer o mundo, se apaixonar, viver… E se realmente escolher essa loucura Daltonesca, pelo menos não se arrependa disso pra sempre.
— Dantesca, Adria — achei graça na mudança proposital que minha irmã fez com o termo, mas caiu muito bem.
Adria me convidou para passar as festas com ela em Roma, mas eu ainda tinha que resolver minhas pendências, me mudar e conversar com Lex sobre minhas férias antes de decidir qualquer passeio maluco por aí.
Esse era o meu tipo de aventura, supostamente.
*****
O apartamento estava pronto. A pintura das paredes, os móveis novos, minha estante onde cabiam todos meus livros e havia espaço para novos, até mesmo a nova cama macia de Tabby, que ficava instalada ao lado da minha. A porta foi pintada de amarelo (sim, combinava com minhas galochas!) e Sam me presenteou com um tapete colorido lindo, para ficar na entrada.
Bastavam apenas mais algumas caixas e o porão da Sra. Fighbright seria oficialmente desocupado. Max já sabia da minha mudança e choramingou dias e dias por telefone para que eu permanecesse ali, já que era a sua melhor e única inquilina, além de ficar ocasionalmente de olho para saber se Dolores não estava se decompondo no andar de cima.
O Dia de Ação de Graças já havia passado e o feriado foi um suspiro bem vindo em todos aqueles dias loucos que começavam a antever o final de ano. Os estoques da loja estavam cheios, os clientes começavam a pesquisar seus presentes para o natal e eu tinha de lidar com a falta de Samantha por duas semanas.
Minha querida supervisora estava aproveitando seus dias de férias para acompanhar sua mãe em uma viagem para Pensilvânia. Samantha resmungou mais vezes do que era possível sobre sua lista imensa de motivos para odiar viagens de carro que duravam mais de um dia, mesmo assim se despediu de todos no dia anterior a partida e parecia bem contente em poder passar algum tempo com sua irmã mais nova — mesmo que apertados dentro de um carro econômico.
Com isso o setor de Sam foi dividido entre mim e James Harrison, o atendente do setor de música que parecia viver em uma vibe dos anos 70 contínua. Nada contra o gosto vintage do rapaz, mas às vezes eu me perguntava se ele entendia alguma coisa sobre literatura internacional.
Era um sábado congelante quando meu celular tocou durante meu almoço com Lex em uma pequena pizzaria perto de Little Italy. Naqueles dias sem Samantha estávamos sempre almoçando juntos, como se isso pudesse compensar a falta dela e manter nossa proximidade.
Havia recebido uma mensagem de texto enviada por Bruce:
“Kate, poderia passar pela livraria para falar com você? Preciso da sua ajuda com algo.”
Era um pedido estranho, mas respondi que ele poderia passar no final da tarde, quando o movimento estivesse mais tranquilo.
Não fiquei ansiosa com a chegada do Sr. Campbell na livraria, nem mesmo quando o vi de uma forma completamente diferente do usual, usando jeans surrados, um moletom pesado em tom de azul e tênis converse.
Ele sorriu sem jeito quando me localizou terminando um atendimento e aguardou com as mãos dentro dos bolsos canguru da blusa, balançando sutilmente os pés até poder se aproximar de mim.
— Desculpe por vir até o seu trabalho desta forma, Kate — ele parecia constrangido por ser um inconveniente na minha rotina. Pobre Bruce, se ele soubesse quantas vezes meu trabalho foi atrapalhado por outros motivos... Será que ele ficaria surpreso?
— Não se preocupe, Bruce, está tudo bem. Posso ajudar? — dei um largo sorriso. Não tinha mais nenhum motivo para me zangar com Bruce. Aquele mês havia passado tranquilamente, ele não voltou a me ligar, nem me pressionar e nas poucas mensagens que trocamos foi um verdadeiro cavalheiro.
— Preciso de um presente de aniversário e imaginei que você poderia me ajudar.
— Claro, eu posso sim. Me fale um pouco sobre essa pessoa e vamos encontrar algo perfeito.
Isso mesmo, Katerina. Merece um prêmio e uma promoção!
Estava sendo uma perfeita atendente da Barnes & Noble, andando pelos corredores com meu futuro-ex-noivo tranquilamente, sem que a presença de Bruce me abalasse em nada. Poderia até mesmo cantarolar um trecho qualquer retirado de um musical antigo e dar alguns rodopios para finalizar a cena perfeita para o meu filme imaginário.
Bruce sorria, as mãos juntas atrás de si enquanto andava apenas alguns passos atrás dos meus, explanando com tranquilidade sobre como a pessoa que ele desejava presentear era gentil, alegre e vivaz, jovial. Enalteceu todos os pontos positivos e algumas paixões que ele acreditava conhecer do tal aniversariante, que àquela altura eu já sabia que se tratava de um homem.
— Mas como não tenho intimidade nenhuma com esta pessoa, achei melhor um presente clássico como um livro. Difícil de errar, elegante e muito útil — ele arrematou.
— Mas e se ele não gostar de ler? — ri baixinho, sem notar que estava arqueando uma sobrancelha mais do que a outra enquanto puxava a pequena escada de três degraus para me ajudar a apanhar um volume do topo da prateleira 32.
— Sempre haverá uma estante para enfeitar, um ótimo peso de papel e até mesmo um calço para erguer os pés da cama — Campbell piscou e me fez rir um pouco antes de puxar dois livros muito distintos na minha descida para o chão.
— Então escolha sabiamente qual deles será um bom calço para cama, Sr. Campbell.
Entreguei nas mãos de Bruce um exemplar clássico ilustrado do genial Exupéry, cuja capa antiga e repleta de estrelas, demonstrava o Pequeno Príncipe em volta de sua mimada rosa. Sua outra escolha era mais sisuda e pesada, mas tão fantástica quanto à primeira — já que o aniversariante me pareceu gostar de coisas maravilhosas — portanto C.S. Lewis e seu guarda-roupa mágico deviam caber muito bem.
— Não são muito... Infantis? — Bruce torceu a boca, um pouco indeciso sobre o que pensar das minhas escolhas.
— Clássicos. Francês e Inglês. Falam com as crianças, mas existem mensagens que apenas os adultos enxergam. Se essa pessoa é tão alegre e adorável, vai gostar muito do presente, mesmo que já tenha lido essas histórias, Bruce.
Era notável a indecisão que tomava conta de Bruce naquele instante, passando os olhos de uma capa para a outra, lendo sinopses, folheando o conteúdo. Às vezes suspirava profundamente e consultava minha paciência tibetana, claramente acostumada e treinada a aguardar a escolha dos clientes.
— Francês — devolveu o encadernado de Lewis para os meus braços, segurando o livro escolhido com aquela linda capa dura azul.
— Ótima escolha, Sr. Campbell. Quer que eu faça a pré venda?
— Claro.
Nárnia retornou para seu lugar honroso na prateleira à espera de outras mãos ávidas por seus segredos, e eu retornei pelo corredor para minha ilha de atendimento, olhando sobre o ombro para ter certeza de que Bruce não tinha se perdido pelo caminho ou se distraído por aí. Mas ele chegou vivo até a frente das prateleiras e ficou contemplativo durante o rápido minuto em que passava o livro pelo leitor no computador e imprimia a nota de pagamento.
— Prontinho. É só pagar no caixa. E peça para embrulharem para presente, está bem? — lá estava meu sorriso de funcionária do mês.
— Obrigado, Kate — e ali estava o sorriso derruba calcinhas de Bruce Campbell. Céus.
Ele fez um aceno quase tímido antes de dar as costas e sair pelo centro dos corredores que o levariam até os caixas no fundo da loja, logo depois da sessão de livros infanto-juvenis que estava fervilhando de adolescentes esganiçando de prazer com o lançamento do mês. Fiquei observando suas costas e como o moletom ondulava nos ombros dele, como seus cabelos estavam arrepiados perto da nuca e tive tempo de notar que aquele jeans realmente valorizava o... Bom, deixa pra lá.
O que realmente importa é que naquele nano-segundo entre Bruce Campbell sair da livraria para nunca mais e Katerina Dalton fazer algo realmente estúpido, adivinhem o que aconteceu? Sim, eu abri a minha grande boca.
— Bruce? — ergui a voz, andando na direção de onde ele estava indo, esperando que ele escutasse. Chamei de novo. Ainda tinha a chance de ele ter algum problema auditivo e me ignorar e o mundo ser salvo da minha burrice, mas não, obvio que essas coisas nunca acontecem.
— Sim? — ele segurou o livro contra o peito e, santo Edgar Alan Poe, ele estava muito bonito fazendo o tipo intelectual despojado. O que me lembrava de que nunca havia perguntado para Bruce se ele gostava de ler ou quais seus autores favoritos ou até mesmo se a cor favorita dele era azul ou ele só usava o tom para valorizar aquele par de olhos lindos.
— Você quer tomar um café? Eu saio daqui quinze minutos e...
— Adoraria.
Será que ele pensou pra responder?
— Ok. Eu te encontro daqui a pouco.
— Está bem — ele abriu um sorriso ainda mais lindo (como se o sorriso comum já não fosse o suficiente) — Até daqui a pouco.
Foi a conversa mais curta e estranha do universo, mas não me senti mal por ter feito o convite. Desde nossa última troca de mensagens e a inocência quase provada de Bruce naquela questão do Babillon Garden & Caffe, já não me sentia ameaçada pela presença dele ou por suas intenções. Na verdade o próprio Bruce parecia ter baixado sua guarda e deixado de tentar me galantear a cada curva de conversa ou encontro, o que era um bom alívio.
Aquela seria uma segunda (ou terceira?) chance para o Sr. Campbell demonstrar que era mais do que apenas um homem interessado na longa lista de vantagens em me desposar. O café pacífico e uma conversa que não envolvesse nossas famílias ou tentativas desesperadas de casamento parecia algo ideal para alguém adulto e ciente fazer. Estava me sentindo muito adulta naquele dia.
Mandei uma mensagem para o celular de Samantha, choramingando o quanto ela estava me fazendo falta naquele final de tarde gélido de Nova Iorque e avisando as novidades. Recebi alguns emoticons que ilustravam muito bem o quanto ela estava incrédula. Os palavrões também ilustravam perfeitamente enquanto me trocava e vestia meu casaco para sair da loja.
Terminei de enviar um “não se preocupe, Sam. Está tudo sob controle” quando encontrei o sorriso de Bruce Campbell a minha espera na porta da livraria. Silenciosamente ele esticou o braço à frente indicando o caminho para dentro da Starbucks anexa e respeitou quieto meu momento de concentração em terminar de dialogar com uma estupefata Samantha Russell.
Por fim ele escolheu uma mesa que ficava ao lado da vitrine que permitia ver o movimento pela calçada, as pessoas se apertando na pressa de ir para casa com suas blusas pesadas por conta dos graus negativos do fim de ano. Aguardou que eu deixasse o celular sobre a mesa e desse um suspiro misturado com sorriso, indicando o quase fim da minha conversa virtual com Sam.
— Me desculpe, estava terminando uma conversa.
— Não tem problema algum. O que vai pedir? Eu vou pegar os pedidos enquanto você termina — os olhos dele indicaram a pequena fila para o balcão da cafeteria.
— Um cappuccino grande e um folhado de queijo — fui revirar minha bolsa de ombro para pagar pelo pedido, mas Bruce balançou a mão, deixando claro que pagaria pelo café. Eu não o impediria dessa vez.
Minha conversa com Sam acabou com duas mensagens em áudio que me obrigaram a tampar a boca para não rir bem alto. Ela insistia em dizer que eu devia transitar em uma linha que ficava entre esganar o Sr. Campbell e arrastá-lo para as profundezas do meu porão sem chance alguma em ser resgatado — tudo isso usando aquele famigerado sotaque de italiano rouco. Tive que concordar.
Estava prestes a guardar o celular dentro da bolsa quando ele vibrou entre os meus dedos. Ri baixinho, já imaginando o que Samantha estaria me enviando daquela vez, mas o remetente da mensagem me causou um sorriso bem maior do que a senhorita Russell poderia causar com seu palavreado do gueto e imitações de mafiosos.
Diante do desenho do envelope fechado na tela do celular, estava o nome de Luke Valois, que tornava impossível não agitar todas as risadinhas de curiosidade que moravam no meu estômago. Bastava um toque e voilá!
Duas carinhas sorridentes iniciavam a mensagem, seguido do meu nome e exclamações em letras garrafais com mais dois emoticons com corações no lugar dos olhos. “Já faz mais de um mês! Poxa Kate, venha passar o natal com a gente. Prometo trancar o Leo no quarto pra não te importunar”, comecei a rir só de imaginar o quão furioso o Carma ficaria em estar trancado dentro de um quarto enquanto eu fazia turismo livremente por sua casa impecavelmente inglesa. Ele merecia um tratamento desses e eu merecia uma vingança daquelas.
“Collins se lembrou de você hoje e adivinhe qual será o jantar? Espaguete!”, juro que meu estômago roncou e aquilo me fez sorrir ainda mais com a lembrança da comida maravilhosa que o mordomo fazia com seus temperos e dedicação de anos. Trocaria meu cappuccino por um prato daquele macarrão fumegante com queijo em um piscar de olhos.
Fiquei presa em um devaneio estranho de como seria um natal jantando com meu Carma e seu irmão hiperativo, com todas as tradições e cuidados que os ingleses deveriam ter com a data festival (e que eu nem fazia ideia de como seriam). Naqueles curtos segundos, a Inglaterra se tornou um lugar tão alienígena na minha criatividade que tive medo de cogitar conhecer o lugar alguma vez na vida. E se eles não tivessem um Mcdonalds para me salvar entre mares de peixes e fritas, chás Earl Grey e bolo de maçãs e nozes? E se Próspero fosse ainda mais nariz empinado em sua própria terra e me fizesse ter vontade de voltar nadando pelo oceano afora para me esconder dentro do meu apartamento seguro e quentinho?
Melhor não pensar muito nisso.
Porém seguindo as mensagens de Luke havia um vídeo rápido que estava carregando enquanto sonhava acordada. Apertei a reprodução e logo o rosto de Luke surgiu na tela em um zoom que quase permitia que visse dentro de seu nariz repleto de sardas.
“— Oi Kate! Digam olá para a Kate, pessoal!” — a câmera desfocada mostrou um pouco do redor, aparentemente uma cozinha de um restaurante onde algumas pessoas andavam e davam sorrisos para Luke enquanto ele tremia o celular até conseguir focalizar Collins cortando tomates sobre uma tábua de madeira.
Aquilo era a cozinha da casa deles?
O mordomo franziu a testa e empurrou os óculos para mais perto dos olhos antes de notar que estava sendo filmado.
“— O que você está fazendo, Luke?”
“— Gravando pra Kate. Diga oi, Collins.”
“— Oi, Collins.”
“— Engraçadinho... Claude, diga olá para a Kate.” — Luke focalizou uma senhora com os cabelos presos em uma redinha de nylon, de nariz vermelho, cortando cebolas em rodelas fininhas. Ela resmungou um monte de coisas para fazer Luke tirar a câmera de perto e sua mão cobriu a lente.
“— Pelo amor de Deus, Claude, é só dizer olá!” — Luke se divertia, tirando a câmera e voltando para o rosto dele mesmo. “— É sério, atendente-cantora da Barnes & Noble, esse é um convite oficial pra você vir passar as festas com a gente. Vem, Kate, isso aqui está muito chato sem você pra agitar as coisas.”
O ruivinho mandou um beijo pra tela antes de desligar e me deixou com aquele sorrisinho besta e alegre que só ele conseguia fazer, tamanho o nível de fofura que Lucas tinha quando se dedicava. Acho que ele se dedicava 24 horas por dia.
Me imaginei como uma agente do caos na vida tediosamente cronometrada da família Valois, alguém que viraria tudo de pernas pro alto segundo a definição do gentil Lucas. Mas não estava nos meus planos agitar as coisas na vida do ruivinho. Na verdade meus únicos planos se resumiam em terminar de retirar minhas coisas do porão da Sra. Fighbright e me adaptar ao apartamento novo, quem sabe fazer bom uso dos meus dias de futuras férias para visitar meu pai no natal e viajar para Roma para conhecer de perto a vida de Adria. Pareciam bons planos.
O copo fumegante de cappuccino pousou na minha frente e afugentou toda a minha imagem glamorosa de fazer parte da rotina da minha irmã mais velha, ficar rodeada de modelos lindos e sarados estrangeiros. Em compensação minha visão foi invadida pelo sorriso gentil de Bruce Campbell servindo um prato com o folhado de queijo quente e sentando-se do outro lado da mesa com um modesto copo de café com leite.
— Atrapalho?
— Não, Bruce. Obrigada por buscar o pedido — dei meu melhor sorriso.
— Eu que agradeço pelo seu convite para um café. Sinceramente, não esperava por isso, Kate — Bruce riu, passando a mão pelos cabelos.
— Gosto de ser inconstante, faz a vida cheia de surpresas — obvio que era uma ironia. Mas não sei se Bruce notou quando sorriu de volta, bebericando do café quente e adicionando mais um sachê de açúcar. — Mas eu não odeio você ou algo tão pior que me impeça de tomar um café na sua companhia. Somos adultos, podemos ser amigos e isso inclui copos térmicos e folhado de queijo.
— Concordo plenamente com isso, Kate — fizemos um brinde com as bebidas e depois de alguns sorrisos silenciosos, Bruce retomou a conversa com alguns assuntos amenos de seu dia a dia e as viagens entre Nova Iorque e Tokyo, os negócios de sua família e falou um pouco sobre seu pai.
Ele nunca havia mencionado nada sobre sua vida, o que me surpreendeu um pouco, mas aquele tom deixava a conversa mais descontraída e era interessante notar que o popular e poderoso Campbell parecia ter uma rachadura aparente em sua relação pai e filho.
— Acho que os pais sempre serão assim, procurando o melhor para os filhos com a desculpa de que desejam para nós mais do que tiveram. Pelo menos este é o discurso do velho George Campbell todas as vezes que nos encontramos. Seu pai é assim, Kate?
— O Sr. Dalton se preocupa em manter as filhas confortáveis, mesmo as rebeldes que fogem de casa e se refugiam em uma metrópole para cuidar da própria vida. Tivemos nossas desavenças nesse último ano, mas estamos bem desde a conversa sobre o apartamento e aquela ideia insana de casamento.
— Sim, as velhas tradições. Que bom que superamos isso, Kate. Eu detestaria ser seu inimigo jurado pela eternidade ao seu lado.
— Você fez suas mancadas, Bruce. Mas isso passou, não é? Não vamos e nem precisamos ficar falando disso, nós dois cometemos erros. É um café de amigos. Não quero ficar remoendo esse assunto de casamento doido entre estranhos.
— Claro, vamos comemorar hoje um recomeço entre nós. Aliás, tem algo que eu quero te dar, Kate. Você aguarda um minuto enquanto vou buscar no carro?
Gesticulei que sim, enquanto mordia um fio de queijo derretido que estava esticado entre o prato e minha boca, e recebi mais um daqueles lindos sorrisos de Bruce antes dele sair.
Havia me saído muito bem até aquele momento. Acreditava realmente que o último mês havia dado tempo para Bruce seguir outro rumo que não fosse o objetivo de me galantear a qualquer custo para honrar as tradições e o acordo entre nossas famílias. E até agora o café estava resultando em um momento agradável de acerto de conta entre nós dois.
O pensamento de aceitar o casamento e assinar um divórcio seguinte voltou a me assombrar. Realmente aquilo deixaria todos satisfeitos e eu nem mesmo precisaria passar um dia da minha vida fazendo o papel de senhora Campbell. Bastaria ir até o cartório, assinar os papéis e voltar para casa a tempo de marcar um saída para comer um hambúrguer para comemorar o fim do doloroso processo de pressão familiar.
Terminei o folhado e estava na metade do copo de cappuccino quando Bruce voltou esfregando as mãos metidas dentro de luvas, expressando bem claramente o quanto estava frio lá fora. Ele abraçou a xícara de expresso como um salva vidas e terminou o líquido todo em dois goles.
— Demorei?
— Ainda não terminei o cappuccino, então está em um prazo tolerável, Sr. Campbell — brinquei.
Bruce tirou de dentro do bolso canguru do moletom uma pequena sacola de papel azul turquesa dobrada com cuidado. A forma era claramente de uma caixa quadrada do tamanho da palma da mão e ele estendeu para mim, empurrando a sacola pela mesa até o lado do copo térmico.
Entreolhei-me com ele um pouco desconfiada, mas ele me encorajou com um gesto do queixo enquanto se sentava e esfregava as mãos ainda com frio, parecendo ansioso pela minha opinião.
Dentro da sacola estava uma pequena caixa de madeira escura polida com um logotipo chique entalhado no topo. Durante minha vida não ganhei muitas joias, mas sabia muito bem que aquilo era uma embalagem para um anel.
— Bruce, o que é isso?
— Abra, Kate. Este é o anel que comprei logo após minha primeira conversa com o seu pai. Eu pretendia pedir você em casamento logo que nos encontrássemos pela primeira vez, para seguir todos os planos e as tradições. Mas fiz bem em não fazer isso.
Abri a caixinha um pouco hesitante. O anel que estava preso no meio do apoio de veludo preto tinha um diamante que deixaria Adria com inveja e claramente mudaria a opinião do Sr. Dalton sobre trocar o apartamento por uma pedra daquelas. Era lindo, uma peça orgulhosa e delicada que parecia o final perfeito de um filme de conto de fadas em que o mocinho se ajoelha e pede a mão da mocinha.
— É lindo, Bruce. Maravilhoso.
— É seu. Não estou pedindo para você usar, mas é um sinal da nossa futura amizade e o fim dos acordos matrimoniais. Eu sei que poderia devolver na loja ou guardar para uma futura noiva, mas é o seu número e tem seu nome gravado dentro dele.
— Meu nome? Não deveria ter seu nome e alguma frase banal como “para sempre juntos”? — tirei a joia da caixa e analisei cada pequeno brilhante que rodeava a pedra central e escorria pelo aro como uma tiara de princesa. Se o sorriso de Bruce era capaz de derrubar calcinhas, não posso nem citar o que um anel daqueles seria capaz de fazer. Horrores.
— Achei melhor não optar pelo meio comum. Você aceita ficar com ele, Kate?
Olhei o anel uma vez mais e outra, antes de guardar na caixa e dentro da sacola. Que mal haveria em aceitar aquele presente? Era um pagamento material por todo o aborrecimento que a insanidade dos Dalton e Campbells havia me causado.
— Eu aceito sim, Bruce. Obrigada. Ele é lindo e eu vou guardar, com certeza.
— Que bom, Kate — ele apanhou minhas mãos, visivelmente feliz. — As coisas vão ficar bem. Agora, que tal você me contar um pouco mais sobre esse novo apartamento?
Por mais que isso possa ser espantoso, conversar com Bruce sobre as bobagens de uma reforma no apartamento, foi muito bom. Ele entendia algo sobre construções e deu dicas e ideias incríveis sobre os encanamentos antigos e o aquecimento problemático. Até recomendou uma empresa confiável que faria um ótimo serviço com a pequena infiltração no papel de parede perto do banheiro.
Saímos da cafeteria conversando tranquilamente. Bruce ia passar o natal e o final de ano com alguns parentes em York e pareceu bem animado com isso.
— York? Na Inglaterra? — era uma pergunta estúpida, porém necessária.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sim, uma cidade maravilhosa Kate. Você poderia vir se quisesse. Com certeza vai adorar os ares britânicos de Yorkshire.
— Eu adoraria, Bruce, — não, eu não adoraria. Pensar na Inglaterra ainda me causava um estranho rebuliço no estômago que começava simplesmente por imaginar encontrar certo Carma trombando comigo em alguma rua medieval. — mas possivelmente vou viajar para visitar meu pai e Adria.
— São ótimos planos. Me avise se mudar de ideia, está bem? O convite fica valendo.
— Eu aviso.
Trocamos um aperto de mãos como despedida e Bruce não insistiu mais de uma vez para que eu aceitasse sua carona. Eu estava decidida a caminhar e pegar um ônibus até o porão das Sra. Fighbright, já que não me sentia nada a vontade para dormir sozinha no apartamento vazio naquela noite.
Antes de dormir, já enrolada nas cobertas e longe do frio da rua, escutando o suave ronronado de Tabby dormindo no travesseiro ao lado do meu, fiquei observando o anel que Bruce havia me dado. Era a assinatura final do nosso tratado de paz.
Mas ao invés de me sentir mais leve com o final da guerra, me sentia ainda mais agitada. Adria tinha razão, alguma coisa estava errada naquilo tudo e mesmo sendo adulta, responsável e repleta de calma, algo ainda me incomodava demais e acabou afastando meu sono por horas.
Logo pela manhã de domingo, enquanto vestia minhas galochas acompanhadas de dois pares de meias por cima de duas calças quentes, apanhei o anel de noivado e hesitei em volta-lo para dentro da caixa. Devia devolver aquilo, que agora ficava me martirizando de uma forma que quase me fazia pensar em como Frodo sofreu no Senhor dos Anéis.
Mas ao invés de guardar a joia, coloquei no dedo e por um breve segundo, me perguntei se estaria mais feliz se tivesse aceitado tudo aquilo desde o início... Talvez Bruce fosse um bom homem e eu estivesse sendo uma tremenda garota exigente com ele, dificultando tudo, até a minha felicidade.
Coloquei minhas luvas sem me lembrar de tirar o anel e saí abraçada com meu casaco quentinho, pronta para vencer o vento frio e caminhar até o Hallow’s Barn para tomar um café mais digno do que repetir cereal com leite pela quarta manhã seguida. Talvez o ar gelado me ajudasse a digerir as coisas e enxergar o significado real, mas no fundo tudo que eu queria era sumir por algum buraco na rua e cair em uma ilha paradisíaca sem passagem de retorno, trocar meu nome para Carmen Manuela e ser feliz com um surfista bronzeado.
Mas o dia cinzento de inverno em Nova Iorque estava com uma ideia diferente para Katerina Dalton, como sempre parecia ser.
Na entrada do Hallow’s Barn havia uma lousa apoiada em um cavalete que dava as boas vindas aos clientes do dia com uma frase de ânimo — coisa que não estava por lá naquela noite chuvosa em que estive por ali com Bruce Campbell. Exatamente como as mesas verdes espalhadas por toda a calçada agora mesmo com o frio.
Desviei das cadeiras, entrei e me apoiei no balcão para poder revirar minha bolsa em busca de uns trocados que obviamente estavam perdidos no fundo do forro. Pedi um cappuccino com bastante canela, escolhi uma fatia de cheesecake que havia acabado de chegar na estufa e procurei um cantinho para me sentar.
Minha cabeça ainda revirava quando o atendente veio trazer meu prato com a torta e o café. Era como se tivesse um relógio cuco entre as camadas do meu cérebro e eu não duvidava nada que ele pudesse ser o gatilho para uma bomba relógio alojada em algum lugar dentro de mim. Seria uma ótima saída explodir em um milhão de pedacinhos…
Céus, minha mão pesava onde estava o anel. O que eu estava fazendo?
A voz de Adria ainda me atormentava quando dava goles no cappuccino. Não conseguia deixar de pensar em tudo que ela disse, em cada pequeno detalhe.
“Você não é uma escrava da família, Kate. Você precisa perseguir seus sonhos, conhecer o mundo, viver… E se realmente escolher essa loucura Daltonesca, pelo menos não se arrependa disso pra sempre”.
Adria estava certa. Se a minha nova vida no apartamento da Quinta Avenida começaria em breve, tinha de pelo menos sair da minha zona de conforto uma vez na minha patética existência de filha caçula sem peitos da família Dalton!
Cortei um pedaço da torta decidida a escolher o que fazer, para onde ir, como revolucionar tudo de uma forma que não incluísse passar dias deprimida comendo sorvete, acariciando Tabby ou rabiscando papéis em busca de uma história perfeita para o meu futuro best-seller que não seria escrito tão cedo. Então o celular bipou uma mensagem e lá fui novamente revirar a bolsa.
“Já estamos com saudades (eu e Collins)!” — dizia a mensagem de texto repleta de emoticons sorridentes, enviada por Luke. Simples, mas me fez sorrir e observar o meu redor com um suspiro longo e quase tão dramático quanto os modos do ruivinho. Ele seria tão bem vindo ali com suas risadas e seu jeito de tentar animar tudo e todos ao seu redor.
Foi aí que aquela lousa na porta do Hallow’s entrou no meu campo de visão com sua frase claramente escrita com giz. Primeiro me fez franzir a testa, imaginando que era uma tremenda piada sem graça do destino e por fim acabei rindo sozinha feito uma idiota e comendo torta com pressa, enquanto ligava para Adria; torcendo para que ela atendesse antes que eu mudasse de ideia.
“Quando te vi me apaixonei e você sorriu porque sabia” — William Shakespeare com giz, no Hallow’s Barn, “O Homem” me perseguindo.
— Princesa? O que foi, aconteceu mais alguma coisa? Você nunca me liga e…
Desculpe Adria, tinha que interromper.
— Vou viajar e quero que você me encontre.
— Viajar? Te encontrar onde? E o seu trabalho, está de férias? Kate, o que você está tramando? Você vem passar as festas aqui? — Adria já estava atropelando as palavras, preocupada.
Me levantei do café e acenei para agradecer ao atendente que não entendeu muita coisa do motivo de eu ter deixado metade de um cappuccino e um resto de torta para trás. Mas ele não sabia que eu estava tendo um estalo decisivo que poderia ser uma reviravolta histórica na minha lista de escolhas infelizes.
— Estou indo para a Inglaterra! E trate de me encontrar lá!
Fale com o autor