Orfeu e os Renegados de Athena.
2 Orfeu e os "Renegados de Athena". #2
Notas iniciais
Realmente, o salão do Grande Mestre do santuário era um local imenso. Era sustentado por dezenas de pilares de mármore, e um tapete vermelho cruzava o aposento como uma flecha, desde a imensa porta dupla (que permanecia a maior parte do tempo trancada para a meditação do Grande Mestre) até se perder detrás da cortina. Sim, cortina. Acima de um pequenino lance de degraus estava o trono d’ouro do Grande Mestre, e atrás dele, uma imensa cortina vermelha. Atrás é onde se encontram as escadas que levam à última casa, onde estaria a deusa Athena.
Acompanhado de um soldado, que trazia acorrentado o homem que havia sido derrotado pelo cavaleiro de prata, estava o próprio: Orfeu. Ele bateu na imensa porta que se erguia a frente deles e após alguns instantes, com um ranger ensurdecedor, ela se abriu para dentro. Ao longe estava o Grande Mestre, acomodado sobre o grande trono que guardava o berço de Athena.
Conforme os três se aproximavam, clareava a imagem que tinham do Mestre. Como todos os que o antecederam, usava uma máscara e um elmo. A máscara era negra e o elmo, vermelho.
Mais ou menos ao meio do grande salão, a voz grossa do Mestre ecoou, após o som do fechar da porta.
- Então, Orfeu da Constelação de Lira, não esperava vê-lo antes do fim da semana, quando vem religiosamente agradar-nos com sua música. Creio que deva ser algo muito urgente para trazê-lo até aqui. Aliás, você pode tomar conta desse homem, não? Você, soldado, retire-se.
O soldado assentiu com a cabeça, entregou a corrente a Orfeu (que vestia sua armadura por baixo de um longo manto que o enrolava o corpo), e saiu. O prisioneiro vira e mexe se debatia e grunhia, mas um puxão da corrente fazia-o beijar o chão e se silenciar por alguns instantes. Finalmente, quando o soldado se retirou (demorava, afinal, a sala era imensa), Orfeu se pronunciou.
- Quanto à gravidade da situação, Mestre, vou deixar que a interprete a seu bel-prazer. O senhor deve lembrar-se dos muitos candidatos a cavaleiros e “soldados-prodígio” que, após uma série de atentados, foram barradas do santuário. Pois bem, este era um deles, se não me falha a memória. Ele tentou me atacar durante o fim da tarde de ontem, senhor, e mostrou bastante raiva para com Athena e o santuário em geral. Acredito que haja, logo, atentados contra Athenas. Temo pelos civis, mas não duvido que alguns deles, poderosos como eram, possam combater de frente até mesmo alguns cavaleiros de prata.
- E quer que eu mande cavaleiros de ouro cuidarem de renegados como eles, Orfeu? – Interrogou o Grande Mestre com um tom de desaprovação, deixando por sua voz escapar o quão ridícula achava a ideia.
- Não sei, meu senhor. Queria que desse as ordens de como proceder.
- Quanto a esse homem, Orfeu, mande trancafiá-lo. – Disse, varrendo o ar com a mão, como se aquele homem não passasse de um zé-ninguém. – E boatos correm rápidos pelo santuário – continuou –, e ouvi falar de um grupo que tem causado bastante caos aos cidadãos de uma cidade próxima a Athenas. Mandarei que alguns soldados vão dar uma olhada pela região, e pelo que me for reportado, verei o que fazer. Se bem que eu aposto que os próprios soldados são capazes de cuidar desses aí.
- Como o senhor desejar, Majestade. Irei me retirar.
Embora assentindo a decisão do Grande Mestre, Orfeu duvidava que eles fossem, de fato, capazes de cuidar disso. Aliás, duvidava que ele próprio fosse capaz de cuidar de todos em um intervalo pequeno de tempo. Ele se lembrava de quando eles treinavam, e havia quem dissesse que poderiam chegar aos níveis dos cavaleiros de ouro se passassem a possuir uma armadura. Porém, não se oporia ao Grande Mestre do santuário. O tempo havia de lhe dar a luz da situação. Por ora, apenas aguardaria e se atentaria.
Ele deixou que os soldados cuidassem de trancar o homem na prisão de Athenas, amarrado às sete chaves. Aos berros, ele gritava para Orfeu enquanto era levado para a sua solitária: “Vocês pagarão! Vocês cavaleiros e todos os cidadãos desse lixo! Seus dias estão contados, seus mal...”, então, amordaçaram-no para não apavorar os cidadãos.
Neste primeiro dia após o encontro com o rebelde, não havia se encontrado com Eurídice. Ela estava a cuidar dos velhos da vila aos pés das Doze Casas, e Orfeu estava ocupado com o assunto dos rebeldes. Estava preocupado (ainda mais após as ameaças à Athenas, e não só ao santuário) com os civis. Porém, sua real preocupação era com Eurídice. O romance dos dois era badalado e do conhecimento de todos, bem como o poder dele como cavaleiro. Temia que ela fosse vítima, ou ainda pior... Temia que a usassem. Será que usariam? Seriam eles, disciplinados dentro dos muros do santuário, tão baixos assim? Vocês podem pensar nisso enquanto a história corre.
Orfeu, após uma rápida e melancólica olhada pelos campos de treinamento e coliseu, foi para a sua casa para dormir. A situação toda tinha feito a insônia atacá-lo, e nem mesmo Orfeu era capaz de lutar contra ela e o estresse. Com os dedos entrelaçados atrás da cabeça, fitou o breu que o envolvia. Sua mente viajou por vários minutos até finalmente desanuviá-la e dormir. Preferiria ter continuado com sua companheira insônia.
Fale com o autor