Orfeu e os Renegados de Athena.
3 Orfeu e os "Renegados de Athena". #3
Notas iniciais
A bruma caiu sobre a cidade pacata de Athenas. As ruas eram desertas, exceto por uma pessoa que estava no centro da cidade, à frente de um chafariz que não mais funcionava. Seu rosto era radiante, seu sorriso iluminava a tudo em sua volta, como se a névoa se acanhasse em distorcer tamanha beleza; era Eurídice. Orfeu caminhava pela bruma, olhando para os lados. Vestia apenas a clássica túnica grega e sandálias. Estava atordoado, confuso, porém, quando seus olhos refletiram a imagem de Eurídice, sua confusão cambiou à felicidade. Com um largo sorriso, caminhou em direção a ela.
– Eurídice! Que bom que a encontrei, meu a...
Então, de trás do chafariz, surge um homem. Seus cabelos eram vermelhos e arrepiados como a flama, seu olhar era excentricamente vazio e seu corpo era envolto por uma armadura que lhe cobria por inteiro. Ele parou atrás de Eurídice, cuja expressão também mudara: estava desesperada, os olhos esbugalhados e a boca aberta, com um grito de pânico preso à garganta. O cavaleiro que surgira desenhou nos próprios lábios um sorriso cruel. Sua boca abriu e uma risada horripilante assaltou os ouvidos de Orfeu, que gritava para afastar-se dela.
Os passos de Orfeu logo o fizeram correr em encontro à Eurídice. Contudo, quando mais corria, com o braço estendido à frente para alcançá-la, mais distante eles ficaram. A névoa assume um tom avermelhado, os olhos da garota empalidecem e gotas de sangue pingando no chão ecoam pelas avenidas da cidade. Orfeu vê, diante de si, a morte de sua amada, em total passividade.
No seu quarto, ele finalmente acorda. O susto o faz ofegar, enquanto olha para os lados, ainda imerso no sonho que acabara de ter. Vendo que nada havia ao seu redor além do breu, e sentindo a cama sob seu corpo, acendeu uma lâmpada e passou a mão no rosto, limpando os olhos e tentando voltar à realidade.
– Foi apenas um sonho – dizia a si mesmo, até ter a mente inundada por outra suposição. – Mas, e se foi um aviso dos deuses? E se Eurídice corre perigo? Não, não, foi apenas um sonho! Não seja tolo, Orfeu!
Sacudiu a cabeça e foi ao banheiro lavar o rosto. Olhando-se no espelho, viu, no reflexo espelhado de seus olhos, a cena da morte de sua amada novamente. Arremessou mais um pouco de água contra o rosto e, mesmo sem o Sol ter se manifestado no horizonte, saiu em direção a casa dela. Queria ter certeza de ser apenas um sonho, e não arriscaria estar errado.
As ruas eram perigosas durante a noite. O silêncio, a penumbra, todo um cenário estranhamente favorável às crueldades que o homem é capaz de exercer, desde um simples assalto até violações vitais e de integridade. Contudo, era Orfeu, um cavaleiro de indiscutível poder de batalha, mesmo sem sua armadura. Ele não percebia, mas estava vestido exatamente como no seu sonho.
Chegou ao quarteirão onde estava a casa de Eurídice. Estava tudo muito calmo, então, em passadas ligeiras e tensas, aproximou-se da casa. Acendeu a luz da sala de estar e ficou pasmo; estava tudo revirado, parecia que havia passado com tornado ali dentro... ou um invasor. Então, reparou que ao fim de um pequeno corredor que se projetava da sala, havia uma luz avermelhada que iluminava a parede, como se estivesse em chamas. Ao correr em direção ao quarto da garota, notou que ela estava desmaiada, suspensa pela cintura sob o braço de um homem semelhante ao do sonho; olhar vazio e cabelos como fogo.
– Solte Eurídice agora!
Bradou, em desespero. Os olhos frios e isentos de qualquer emoção se voltaram contra ele. Orfeu encarou-o, e ficou assustado com o que viu; por detrás daquele olhar frio e a atitude baixa, o ápice do sofrimento humano enevoava sua alma. Ele pulou a janela, e Orfeu, após recuperar-se da visão que teve, o seguiu.
Quando viu que não o alcançaria normalmente, utilizou-se de sua velocidade que ultrapassava a barreira do som. Sua primeira passada criou um estouro, e logo ele surgiu ofegante (o uso dos poderes sobre-humanos dos cavaleiros são exaustivos, ainda mais para um cavaleiro cujo estresse o percorre há dia e que acaba de se recuperar de um pesadelo traumatizante) em frente ao seqüestrador; estavam em frente a um chafariz onde não circulava água.
– Solte ela aqui, ou terei que acabar com você — dizia Orfeu, tentando manter uma expressão de calma.
Não ouve resposta verbal, mas ele soltou Eurídice sobre o contorno do chafariz. Caminhou, em passos lentos, em direção a Orfeu, que estava sem armadura e sem sua lira.
– Athenas... – começou o cavaleiro provavelmente renegado, com uma voz quase sussurrante – Athenas é uma cidade bela, não é?
Orfeu ficou confuso, e podia jurar ter visto nos olhos dele, por um instante, um castanho vivo. Porém, no mesmo instante em que dera conta disso, os olhos tornaram à frieza.
– Bonita o suficiente para não precisar viver às margens da podridão do santuário.
– Não entendo o que quer dizer... – respondeu Orfeu.
– Não importa, são apenas delírios de um ex-combatente. Sua querida namorada virá comigo, quer queira ou não, e logo uma carta vai entrar debaixo de sua porta. Não se preocupe, não acontecerá com ela o que tem acontecido no santuário.
– O que tem...
Então, a fala de Orfeu foi interrompida por um golpe em seu estômago. “Não era para um golpe de alguém do seu nível ter tanta força”, imaginava, enquanto ajoelhava-se retraído com as mãos em frente ao local do golpe. Sua aura começou a emanar em um azul suave, que logo se viu combatida por uma energia vermelha e fervente, que se equiparava, ou superava, a sua.
– Não ouse, cavaleiro – disse o homem, enquanto estendia sua destra em direção à Eurídice. – Não queremos feridos, queremos?
Então, uma esfera vermelha como o Sol se arquitetou na palma e logo foi, espontaneamente, arremessada contra o chafariz, que explodiu. Eurídice foi mandada longe com o poder da explosão, e teve seu nome exclamado por Orfeu. Contudo, continuou inconsciente.
– Apenas aguarde, nobre cavaleiro. Sei de suas lendas, e não consigo olhar para você como alguém mau, ainda mais depois de contatar com seu cosmo. Contudo, não posso permitir que alguém como você interfira, e ela será a minha garantia. Aproveite os dias, Orfeu, que logo as coisas podem ficar terrivelmente pior. Aliás... – continuou – chame-me Feuer.
Feuer, então, colocou a garota sob o braço novamente e saiu, até perder-se na luz suave e amarelada que nascia no horizonte; Orfeu não sabia se era o Sol nascendo ou a energia cósmica de Feuer.
Permaneceu caído no chão, aos prantos, temendo o que poderia vir a acontecer.
– Eurídice...
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