Ordem dos magos.

3 Capítulo 2 - o início


–2-

– O início -

Samuel correu até mim, e me deu um abraço forte.
– Anna. – ele disse num suspiro. – Precisamos conversar.
– Tudo bem. – falei.
Ele me levou para um canto em um salão enorme logo na entrada do casarão, e nos sentamos perto de uma janela.
– Quanto tempo... – ele começou a dizer quando interrompi.
– Por que me deixou pra trás? Por que fugiu e nunca deu noticias? Onde está.. minha mãe? – a expressão no rosto dele mudou completamente com as minhas perguntas.
– Eu não tive escolha. Jaffer, um mago que fazia parte dessa sociedade, dessa clã, ele era muito poderoso. Ele procurava cinco partes de um amuleto mágico, e uma das partes estava comigo na época, ele procurou em todos os cantos do mundo por esse amuleto, e nos encontrou, a única forma de te manter fora daquilo era fugir, você não tinha mostrado nenhuma ligação com magia daquela época, sua mãe era contra fugirmos, mas foi à forma de protegê-la. Sua mãe... Ela foi morta batalha entre nós, os magos do Manto contra os magos do Abismo.
– Minha mãe... era maga?
– Assim como todos da família. Você está destinada a fazer parte da ordem, assim como eu fiz, sua mãe fez, e todos os líderes de cinco clãs que moram aqui, no Manto.
– Então, eu sou uma maga? – falei rindo da situação impossível, meu pai morto me dizendo que eu era uma bruxa.
– Sim. E tenho mais coisas para te falar. – ele disse com um brilho no olhar. – eu sei que você não irá gostar.
– Como assim?
– Normalmente, as pessoas que são filhas ou filhos de magos, tem a tradição de serem casados com outros magos, e... casamentos por aqui são arranjados.
– Não acredito. – falei – é serio isso?
– Sim.
– Quando?
– Não tem data marcada ainda. Normalmente acontece no aniversário de 19 anos, mas como você não estava presente, ambos já tem 21, então, não sabemos ainda.
– E quem é ele?
– De noite irá conhecer. – Ele disse e logo depois um homem entrou no salão e chamou Samuel.
Fomos para uma sala de reuniões no andar de cima do casarão.
Chegamos à sala, havia uma mesa grande, com dez lugares, vi três casais. Todos já estavam sentados. Os homens se sentavam do lado direito da mesa, e as mulheres do esquerdo, meu pai foi para a cabeceira da mesa, e fiquei logo a sua esquerda, à minha frente sentava-se Klaus, ao seu lado, Caio, e depois um homem que não sabia quem era. Ao meu lado estavam três mulheres, todas se pareciam, provavelmente irmãs.
– Samuel, — disse o homem que não conhecia – Jaffer está voltando a atacar. Ele sabe que estamos agindo.
– Teremos de ser mais rápidos. Mais discretos. – disse meu pai.
– Mas como? – perguntou uma das mulheres – Não sabemos quando ele está nos rastreando ou não.
– Temos um manto a nosso favor. – disse Klaus – tudo o que fazemos aqui está protegido.
– Sim. – concordou Caio. – Mas teremos que começar a treinar mais magos para o futuro combate.
– E, — começou a falar o homem que eu não conhecia – agora que temos Anna conosco temos uma chance maior.
Uma chance maior? Esse cara sabe o que está falando? Eu curso artes em São Francisco.
– Tudo bem, comecem a formar treinos, batalhas, tudo o que for preciso para prepararmos os clãs para isso. – disse meu pai. – precisamos estar prontos.

A reunião durou mais alguns minutos, eles falavam coisas que eu não conseguia entender como ‘’o abismo e o manto são fontes inseparáveis’’, ou então ‘’a profecia dizia isso’’, ‘’ela sabia do destino’’. Fiquei perdida e sempre sentia que o assunto se tratava de mim e de minha mãe.
Sai da reunião com dor de cabeça, nada fazia sentido para mim. Meu pai estava ocupado demais com os problemas do Manto, então fui tomar um ar.

Sai do casarão e fui para um bosque que havia perto dele. Caminhei entre as árvores até chegar a um riacho, então parei e me sentei embaixo de uma árvore.
Ainda pensava em como minha mãe morreu, como me tornei de repente uma maga. Não fazia a mínima ideia de como reagir a isso.
O sol se punha dourado do outro lado do riacho, um vale cheio de morros se estendia até o horizonte. O som da água do riacho foi me tranquilizando, até que estava quase adormecendo, quando escutei passos atrás de mim, me levantei num pulo.
– Nós não vamos nos atrasar né? – escutei uma voz de criança. – Não podemos.
– Não, Jonathan. – disse uma voz de algum homem. – Vamos chegar a tempo para conhecer a nova garota. Relaxe.
– Tudo bem. – concordou a criança. – Amanha vamos sair de novo? Quero praticar mais.
– Tudo bem, sairemos amanhã. Ei, Jonathan, olha o céu, está da cor dos olhos da mamãe.
– Era assim? – a criança falou com uma voz melancólica.
– Sim, mas era ainda mais impressionante. – disse o homem.
À medida que a conversa ia chegando mais perto, eu ia me afastando, os dois chegaram na beira do riacho e o homem me viu. Ele era moreno claro, tinha olhos dourados como o pôr-do-sol, cabelos cacheados, alto, forte, e incrivelmente bonito.
– Quem é você? – ele perguntou em um tom sério. Fiquei quieta sem responder. Ele se aproximou de mim, e o menino ficou na beira no riacho nos olhando. – Quem é você? Não vou perguntar outra vez.
– Anna. – falei com a voz falhada.
– Anna, Anna Stone? – ele perguntou – A filha do Samuel?
– Sim... – falei e ele riu. – Qual a graça? – perguntei e ele me olhou surpreso.
– Nada demais. – ele disse ainda rindo. – Eu sou Nicholas, esse é meu irmão Jonathan.
– Oi. – falei para o menino.
– Olá. – ele disse sorrindo.
– Então, todos estão esperando por mim ou algo parecido? – perguntei
– Sim. – respondeu Nicholas – Hoje será uma grande noite. Se não quiser se atrasar, é melhor ir para o casarão.
– Então... – falei – nos vemos por ai.
– Claro que sim. – ele disse e voltou a rir.
Me senti incomodada com a presença repentina de Nicholas, e a forma com que ele falava. ‘’Nada demais’’?! Depois de rir na minha cara? Sério? Estava gostando ainda mais do lugar.

Fui quase correndo para o casarão. Quando cheguei lá, meu pai estava a minha procura.
– Filha, onde você estava?
– No riacho... Precisa tomar um ar. Desculpe.
– Tudo bem. Você precisa se arrumar, um jantar nos aguarda. Suba as escadas, vá para o segundo andar, entre na primeira porta a sua direita, pegue o vestido, tome um banho, esteja linda está noite filha.
– Ok. – falei e fui para as escadas.
Os corredores do casarão eram cheios de quadros antigos de pessoas com túnicas e cajados. Cheguei no segundo andar e abri a primeira porta a minha direita. O quarto que ela escondia era enorme. Quase do tamanho do meu apartamento em São Francisco.
São Francisco... Minha amiga deve ter ficado louca, sumi tem muito tempo.
Entrei no quarto, vi uma cama de casal, uma poltrona, um banheiro, e roupas masculinas jogadas em cima da cama. O quarto provavelmente era de meu pai. Ignorei o ‘’detalhe’’ e entrei no chuveiro. Tomei um banho de quase 20 minutos, coloquei o vestido, ele era branco, era leve, e muito bonito, prendi meu cabelo em uma trança raiz. Achei uma maquiagem, passei uma sombra preta que fazia com que meus olhos, que eram verdes, ficassem mais aparentes, e uma sandália no estilo grega, com várias tiras.
Quando terminei de me arrumar desci para o salão principal, e meu pai estava a minha espera.
– Você está linda, querida. Tenho um presente, — ele ergueu um colar com uma pedra roxa. – é ametista. Pertencia a sua mãe.
– Obrigada. – eu disse e ele colocou em meu pescoço.
– Vamos? – ele perguntou e estendeu o braço.
– Vamos. – falei e segurei o braço de meu pai, ele nos guiou até a porta do casarão.
Da porta, do lado de fora, conseguia ver as luzes na Praça do Manto. Fomos até praça, de perto era ainda mais bonito. Havia luzes de um lado para o outro da praça, pareciam vagalumes, todas as mesas já estavam ocupadas, sobraram duas cadeiras na mesa maior, a mais importante, nela estavam sentados todos que estavam presentes na ordem, e mais um homem. Nicholas.
Sentei-me com Nicholas à minha esquerda, e meu pai à minha direita. Senti novamente aquele incomodo. Ele me olhou e sorriu de forma sarcástica.
– Nos encontramos de novo. – ele disse sem olhar para mim.
– Parece que sim. – falei olhando para frente.
Meu pai se levantou e se fez silêncio total no manto. Nem os grilos não escutava.
– Boa noite, meus caros amigos, — ele disse – estamos aqui hoje para celebrar um noivado, um novo início, uma esperança, um sonho. Minha filha, Anna, como vocês sabem, está conosco. Ela iria se casar, com Nicholas, filho de Michael. – naquele exato momento parei de prestar atenção no que meu pai dizia.
Nicholas já sabia quem eu era, já sabia de tudo. Fingiu ser um desconhecido. Havia me conhecido, havia me apresentado o irmão. Ainda não acreditava na situação de me casar, mas já aceitava a ideia. Mas agora voltei minha decisão.
– Anna. – meu pai disse e continuei a prestar atenção. – Nicholas, aproveitem o jantar.
Comi silenciosamente. Aproveitar o jantar? Depois disso? Era meio difícil.
Olhei para Nicholas e ele estava com expressões de estar adorando aquilo. Como se tudo fizesse parte do seu plano maligno que estava prestes a dar certo.
Depois de quase uma hora, Nicholas se levantou foi para trás de minha cadeira e falou ao pé do meu ouvido.
– Vamos dar uma volta. Aposto que quer conversar.
Levantei-me e disse ao meu pai.
– Já volto.

Fomos para perto do bosque, havia um banco e logo me sentei. Ele parou a minha frente e ficou me olhando.
– O que? – perguntei.
– Você é bonita.
– Haha. Por que fingiu que não era meu...
– Noivo? – ele terminou a frase por mim e se aproximou. – queria ver sua cara, quando descobrisse.
Fiquei em silêncio. Ele se sentou ao meu lado, e me afastei para a ponta do banco.
– Relaxe, eu não mordo. – ele disse e olhou para mim. – então fale sobre você. Estou curioso.
– O que você quer saber?
– Sua história.
Minha história? Ok.
– Bom, você deve saber o que aparentemente todos por aqui sabem. Filha aparentemente órfã, morei em três orfanatos no Kansas, até que uma senhora me acolheu e me levou para São Francisco quando tinha quatorze anos...
– Não. – ele me interrompeu – Não essa história. Fale-me de você, quem você é. Preciso conhecer minha noiva. – ele riu.
– Até dois dias cursava artes, fui expulsa de três escolas, uma delas foi por briga, outra por quase explodir três vezes o laboratório de química e física, e a outra por... Bem, não importa. – continuei falando – Sabe, não acreditava em tudo isso, até hoje de manha, e não gosto da ideia me de casar, sou cética para quase tudo...
– Namora? – ele me interrompeu mais uma vez. Olhei para ele e pela primeira vez ele parecia realmente interessado.
– Não. – falei séria. – Me fale sobre você.
– Você irá descobrir. Afinal, vamos começar a dividir meu quarto. – fiquei em silêncio outra vez. – Não gosta da ideia?
Olhei para ele e não respondi.
– Olha, não sei o que você acha que vai conseguir comigo. Só não espere muito, na primeira oportunidade que eu tiver, saio desse lugar.
– Você sabe que não pode, certo?
– Ah não? E quem me obriga a ficar aqui?
– Todos. Eles, nós, precisamos de vocês aqui. Você é... Nossa chance.
– A chance de vocês? Como?
– Há muito tempo atrás, surgiu à profecia que iria acontecer à guerra, a guerra entre os magos do Manto e do Abismo, Jaffer, mais precisamente quer o amuleto para alcançar poder. E a única pessoa que pode realmente salvar todos, é literalmente você. Você é a escolhida.
– E como eles sabem?
– Nessa profecia, diziam que iria nascer um filho ou filha, do clã dos seus pais, com uma marca na barriga. E você tem. – depois que ele disse isso, ficamos em silêncio por quase dez minutos. – Tudo bem, é difícil pra processar, mas essa é sua vida agora. Vamos, o jantar já deve ter acabado.
Fomos até o casarão, quando cheguei à porta de entrada falei:
– Você dorme no chão.
– O quarto é meu, a cama é minha, eu durmo na cama, você dorme onde quiser. – ele disse como uma criança. – Ah, mas na cama é melhor viu?
Ignorei o que ele disse e subi para o quarto, ele entrou logo depois de mim e fechou a porta. Sentei-me na poltrona e tirei minhas sandálias. Percebi que havia novas roupas, peguei um short jeans e uma camiseta, fui para o banheiro, tranquei a porta e troquei de roupa.
Quando sai, ele estava sem camisa, na varanda. Ele tinha várias cicatrizes em suas costas, enquanto eu observava fiz barulho ao entrar no quarto e ele percebeu que olhava. Ele se virou rapidamente e se deitou na cama. Segui até a cama e senti seu olhar me seguindo, me deitei na outra beirada, quase caindo e fechei meus olhos, ainda sentindo meu rosto corar sabendo que ele ainda estava me olhando.