Perdi a hora de acordar.

Havia passado boa parte da noite chorando como uma criança, nesse caso dormira muito pouco.

Continuei deitado mesmo sabendo que já era quase meio-dia, estava frio, por isso eu me cobria com dos pés ao pescoço com o edredom negro, aquele quarto estava mais empoeirado do que a sala obviamente, pois eles não recebiam muitas visitas, assim eu espirrava sem parar, meu nariz estava inchado e vermelho.

“Acho que estou doente...”

Notei que em cima da mesa de cabeceira havia um prato com morangos, estava com fome e fazia tempo que eu não comia nada, estiquei o braço para pegar o prato e o coloquei ao meu lado, peguei um e o coloquei perto da boca, mas senti um cheiro estranho.

Agradeço aos meus vários anos de estudos científicos para descobrir que aquele cheiro era de veneno.

Soltei o morango e empurrei o prato que caiu no chão espalhando os morangos envenenados.

“Oh meu deus...”

Agora estava realmente assustado, alguém tentara me matar, olhei ao redor encolhido no canto, quem será que trouxe os morangos?

Ouvi a porta se abrir, rapidamente fechei os olhos e fingi estar dormindo.

Semicerrei os olhos para ver quem estava no quarto, era Marshall, ele entrou devagar no quarto e pareceu não notar os morangos espalhados no chão, ele puxou uma cadeira que estava encostada na parede e a colocou ao lado da cama, sentou nela e olhou fixamente para mim.

Me controlei ao máximo para não corar, ele tocou meu rosto e deslizou a mão até a minha testa, pressionou os dedos como se estivesse medindo a minha temperatura, passou da minha testa aos meus cabelos os acariciando de leve.

Sua expressão estava um pouco preocupada, ele tirou a mão dos meus cabelos e levantou da cadeira a encostando no mesmo lugar, depois disso saiu do quarto sem fazer o mínimo barulho.

Sentei na cama tocando a minha própria testa, estava com febre, por isso sentia tanto frio e espirrava mais do que o normal.

Vesti algo decente que achei na mochila, e coloquei meu casaco, estava faminto, mas não ousaria comer nada daquele lugar, queria dizer aquilo para Marshall, mas eu não sabia se poderia confiar nele, também não queria sair do quarto, olhei meu relógio de pulso, por incrível que pareça era quase hora do baile.

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A hora do baile finalmente chegou, eu havia ficado trancado no quarto desde que acordei.

Entrei no banheiro da suíte e tranquei a porta, me despi e entrei na banheira , apesar de o quarto de hóspedes ser pequeno era tão bem arrumado como o resto da “casa”.

A água da banheira estava quente e perfeita, mergulhei a cabeça e fechei os olhos, fiquei um bom tempo na banheira pensando nele, por mais que eu tentasse esquecê-lo não conseguia.

Sai da banheira enrolei a toalha na cintura e abri a porta do banheiro indo para o quarto, tomei um susto ao ver Marshall sentado na cama.

–M-Marshall?! O que está fazendo aqui?!

Olhei para ele com o rosto inteiro corado, ele olhava para mim com uma expressão maliciosa.

Eu nunca havia o visto vestido daquela forma, ele usava uma roupa formal, mas a gravata vermelha estava desarrumada, o cabelo negro dele estava para trás com gel, ele estava muito bonito.

–Queria sua ajuda com isso

Ele levantou-se apontando para a gravata.

–Ah... claro que te ajudo, mas eu preciso trocar de roupa primeiro...

Gaguejei com o rosto queimando.

–Quando terminar me chame

Ele sorriu e saiu do quarto, suspirei e me vesti rápido, usei a roupa mais formal que eu trouxera, uma roupa que era digna de um príncipe, mas que eu só usava para ocasiões especiais.

Coloquei minha coroa dourada com cristais azuis na cabeça e ajeitei algumas medalhas na roupa.

Suspirei e mandei Marshall entrar, ele entrou no quarto me observando da cabeça aos pés.

–Você está ridículo

Ele riu alto.

Olhei irritado para ele e o puxei pela gravata para perto de mim, ele aguardou em silencio enquanto eu fazia o nó em sua gravata.

–Sua pele é de chiclete mesmo?

Ele perguntou estupidamente.

–Basicamente sim

Respondi terminando o nó da sua gravata.

Ele segurou na lateral dos meus ombros, aproximou o rosto do meu pescoço, o cheirando.

–Sempre quis provar do seu sangue doce...

Ele roçava os lábios em meu pescoço fazendo os cabelos da minha nuca se eriçarem, coloquei as mãos em seus ombros tentando o afastar.

–M-Marshall, pare por favor...

Murmurei corado.

Ele me empurrou com a expressão séria e simplesmente saiu do quarto, eu não sabia o caminho até onde o baile aconteceria então o segui tentando manter a postura.

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O salão de festas estava lotado, mas não de inúteis e desprezíveis demônios, os presentes pareciam pertencer a uma classe social mais alta que a maioria dos outros.

Cambaleava pelo salão ainda abalado e sentindo arrepios, já perdera Marshall de vista.

Percebi que eu não era o único governante que havia sido convidado, Flame, o príncipe do reino de fogo estava ao lado da mesa de comidas, tentando evitar o ponche.

“Reino Doce, Reino do Fogo, só falta o Reino Gelado...”

Senti alguém passar as mãos pelo meu abdômen, virei de supetão dando de cara com a psicopata da rainha gelada.

–Oi querido! Como esta bonito hoje

Ela mordeu o lábio inferior, me soltei da mão dela e resmunguei.

–Não me chame de “querido” sua louca

Me afastei o máximo que eu pude dela, decidi andar pelos corredores e procurar uma biblioteca se é que aquele lugar tinha uma.

Estava caminhando em um corredor mal iluminado, distraído e com os pensamentos distantes, algo me fez me arrepender de ter saído do salão.

Senti um forte impacto, como alguém chutando meus joelhos, gritei com a dor dilacerante e desabei no chão empoeirado, foi a maldita da Rainha Gelada, ela já se encontrava em cima de mim, pressionando meus pulsos contra o chão.

–Se você não será meu por bem, vai ser por mal meu principe

Ela mordeu o lábio inferior e se aproximou de mim, tentava chutá-la, mas meus joelhos não se moviam e meus braços estavam presos também.

Ela lambeu meu rosto começando do queixo e passando pelos lábios até a testa.

Eu tentava me soltar dela, estava desesperado e sentia náuseas.

Mas algo a impediu de seguir adiante.

Uma mão pálida apareceu do nada e socou o centro do rosto da rainha Gelada.

Marshall estava em pé na minha frente, ele tinha lágrimas nos olhos e uma expressão de nojo estampada nos olhos flamejantes.

–Por que fez isso com ele Simone?!

Ele rosnou cerrando os punhos, suas veias transpareciam na pele.

A rainha gelada se levantou e olhou Marshall talvez um pouco arrependida, eu conhecia bem a historia deles dois e o que passaram juntos á muitos anos atrás, eles tinham uma ligação de mãe e filho, mesmo ela querendo fazer aquilo comigo, provavelmente não queria que Marshall visse.

A rainha estalou os dedos em um som surdo e seu corpo sumiu, deixando para trás apenas flocos de neve que foram varridos pelo vento e sumiram junto a poeira.

O Rei dos vampiros encarava o nada com certa culpa, mas no fundo pensara ter feito a coisa certa, disso eu tinha certeza.