Marshall me mandou sentar no sofá, obedeci e olhei ao meu redor.

A sala de estar dos Abadeer era maior que a do meu castelo com toda a certeza, mas era tão macabra como o resto daquele lugar.

As paredes eram negras e a pintura estava descascando nas extremidades, tinham quatro sofás cinzentos, incluindo o que eu estava sentado, havia também uma grande lareira, e nas extremidades em que as paredes se encontravam penduradas quatro estatuas, que eram gárgulas com presas salientes, asas dilaceradas e expressões malignas, piso era coberto por um carpete vermelho empoeirado o que estava me fazendo espirrar.

“Maldita alergia”

Pensei espirrando nas mangas do meu casaco cor-de-rosa, que me cobriam a boca.

Olhei para Marshall que estava sentado no sofá na frente do meu, ele estava curvado sobre os joelhos apoiado neles com os antebraços, me fitava com seus olhos vermelhos e intensos, suas bochechas estavam levemente coradas que me estranhou um pouco.

Senti um frio na barriga ao ouvir o som da porta no lado direito da sala.

Marshall revirou os olhos e se curvou ainda mais, ficando em uma posição despreocupada, talvez ele quisesse ser ainda mais rebelde do que o normal na presença da mãe.

Eu por minha vez me endireitei no sofá e tirei rapidamente o casaco o enfiando dentro da mochila, eu já estava com uma calça formal cinza, e depois que tirei o casaco deixei a mostra um paletó também cinza e com uma gravata cor-de-rosa.

Marshall deu uma risada abafada ao me ver, procurei não me irritar com aquilo e continuei com a pose formal esperando Hunssietta entrar na sala.

Minha respiração estava pesada, meu peito subia e descia lentamente, eu temia aquela conversa e todas que teríamos, Marshall estava sério e continuava me encarando.

Hunssietta entrou na sala, meu corpo tremeu ao vê-la, ela usava uma saia justa e preta que batia nos joelhos, um blazer de mesma cor e sapatos de salto, seu cabelo oleoso estava preso em um coque perfeito no topo da cabeça, o rosto dela era o mais medonho, grandes olhos amarelos com pupilas avermelhadas, sua boca inteira era com dentes afiados e salientes, o rosto era tão magro que os ossos sobressaiam em sua pele, tinha orelhas pontudas e uma expressão estranha.

Ela se aproximou de Marshall sem sequer olhar para mim, apertou a bochecha dele puxando devagar, oque o deixou constrangido a ponto de se afastar dela.

–Senti saudades filhinho!

Ela exclamou sorrindo de forma medonha, ele resmungou baixo e a ignorou friamente.

Ela olhou para mim e seu sorriso desapareceu, me levantei ereto e estendi a mão para ela.

–Sou o príncipe Gumball, governante do Reino Doce

Ela apertou minha mão com uma força exagerada.

–Sim, eu sei que é principezinho, eu sou Hunssietta Abadeer, governante da Noitosfera

“Sim eu sei quem é demônio”

Tive vontade de dizer, mas isso me renderia um belo de um castigo.

–Príncipe Gumball, creio que nós temos assuntos a resolver.

–Ah... é claro

Eu não fazia a mínima ideia do que teria que conversar com ela, mas sentei no sofá e ela ao meu lado.

Passamos pelo menos uma hora conversando sobre entediantes assuntos políticos, ela quis saber detalhe por detalhe como eu governava meu povo e meu reino, e eu não tive a vontade de saber como ela governava, pois sabia que aquele lugar era literalmente o inferno, no final da conversa ela me convidou para um grande baile que aconteceria no dia seguinte, ou melhor noite seguinte já que era sempre noite lá, claro que tive que aceitar o convite.

Depois que ela saiu da sala Marshall veio até mim.

–Desculpe por te fazer conversar com ela

Ele passou a mão na nuca, eu sorri e peguei minha mochila.

–Tudo bem Marshall, eu estou acostumado

Ele pegou meu braço e me arrastou para dentro da mansão, andamos por vários cômodos, subimos varias escadas até chegar em um corredor cheio de portas, ele foi até um delas e a abriu.

–Esse quarto está vazio, pode ficar nele...

Entrei no quarto, não era muito grande, havia apenas uma cama, um armário um banheiro, duas janelas e uma mesa de cabeceira.

–Obrigado Marshall

Disse olhando para ele que estava encostado na porta, fiquei olhando dentro dos olhos dele e ele nos meus por alguns segundos, ele se aproximou de mim me fazendo corar um pouco assim como ele mesmo.

–Gum... tem algo que eu queria te dizer...

Ele sibilou, a tocou meu ombro com receio.

–Estou ouvindo...

Disse com o rosto ainda mais corado, ele deslizou a mão lentamente até o meu pescoço e abriu a boca para falar algo, mas alguém entrou no quarto fazendo com que nos dois nos afastássemos um do outro.

Era um demônio pequeno e vermelho, ele parecia um pouco assustado com Marshall, que se virou de costas para mim, o encarando.

–S-senhor Abadeer... sua mãe o espera na sala de jantar, mas ela disse que queria que o cor-de-rosa não comparecesse...

Ele gaguejou com as pernas tremendo.

–Diga a ela que só vou se o Gumball também for

Marshall retrucou.

–Mas senhor...

–Não ouviu inútil? Eu não vou deixá-lo morrer de fome

Marshall rangeu entre dentes, fazendo o pequeno demônio estremecer ainda mais.

Coloquei a mão no ombro de Marshall.

–Tudo bem, eu trouxe comida, pode ir.

Marshall se virou para mim e tentou retrucar, mas eu o convenci que estava tudo bem e ele seguiu o demônio para a sala de jantar me deixando sozinho no quarto.

“Marshall... o que está acontecendo comigo?”

Sentei na cama, abraçado aos joelhos, meus pensamentos não eram outros a não ser o vampiro rebelde.

Meu coração pulsava mais forte quando eu estava perto dele, eu não parava de pensar nele um segundo sequer e eu ansiava a sensação que senti ao abraça-lo.

Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto ao pensar que quando voltássemos para casa ele me tratasse com indiferença como sempre fez.

–Qual o meu problema?!

Falei um pouco alto de mais cobrindo o rosto com as mãos.

Eu sempre quis provar que não era apenas um príncipe certinho e mimado, mas não era para o meu povo que eu queria provar...

“Sempre quis provar isso para ele!”

Pensava querendo poder gritar aquilo.

“Eu sempre quis que ele me notassse!”

“Porque eu estou fazendo isso?!”

Se repente a resposta para tudo que eu estava sentindo explodiu como uma bomba atômica na minha cabeça confusa.

As lágrimas cessaram e eu encarei o nada como se estivesse levado um choque, e pronuncei cada palavra com cuidado como se eu estivesse em um campo minado e um passo em falso eu desabaria.

–Eu... amo o Marshall...

A resposta sempre esteve tão clara?