Notas iniciais
Oie! Cheguei! Sei que eu tinha postado no perfil que os capítulos de ORR seriam sábado, mas como não falei isso oficialmente aqui na fic, resolvi postar esse hoje e no próximo a gente segue o cronograma novo. Vamos conhecer a Roxie por dentro da perspectiva dela? Lembrando, ela é uma mafiosa, que pensa como mafiosa, então ela pode falar sobre crimes como se fossem nada, é a perspectiva dela. O ponto da narração não é dizer se ela tá certa ou errada. Boa leitura!

Quando o Sol ameaçou despontar no céu, jogando as nuances quentes preguiçosamente sobre os tons frios da madrugada, ela já estava com seus olhos escuros perdidos no horizonte. O corpo encostado no beiral da sacada, a camisola de seda esvoaçando no vento ainda frio da quase-manhã... Se Roxanne Domenichelli tivesse sido pintada em um quadro, provavelmente aquele seria o exato momento de referência, seria essa imagem dela que as pessoas observariam com curiosidade.

Porém a italiana de cabelos negros não era uma obra de arte a ser estudada por intelectos sensíveis. Se a história se lembrasse dela um dia, falaria de muitas coisas, — da garota que reergueu um império destruído pelo próprio pai; da Donna que modernizou a máfia; da noiva que enganou um líder nazista emergente, — porém jamais falariam daquele momento em particular, aquele estilhaço dela se perderia no tempo, esquecido e ignorado.

E isso era triste de formas que talvez não pudessem ser explicadas, porque de todas as suas versões, aquela figura parada na sacada de seu quarto, presa nesse pedacinho de tempo que antecedia o amanhecer, era provavelmente o fragmento mais genuíno dela.

Aquela era Roxanne Domenichelli de fato.

Uma figura melancólica, que passava muitas de suas noites em claro, tentando descobrir a melhor forma de lidar com o mundo que carregava em suas costas; a garota obrigada a crescer muito cedo, arrancada do seio da família e afastada de tudo que conhecia; a adolescente que assumiu para si uma missão impossível; a jovem que havia dedicado toda sua vida a um único propósito; a irmã que reconstruiu um império e estava noiva de um déspota apenas para trazer o irmão de volta para casa, mesmo que todos acreditassem que ele estava morto há anos.

Mas Roxanne não gostava nem de pensar nessa hipótese. Não podia.

Se cogitasse por um segundo que talvez Damian não pudesse mais ser salvo, ela não teria a força e o estômago para fazer tudo que era necessário. Porque não era apenas sobre unir um exército, depois de erguer um império do crime, não era apenas derramar sangue e tirar vidas, não era somente perseguir vingança a todo custo e levar justiça com punho de ferro...

Ah não, se fosse só isso Roxie faria de olhos fechados e uma mão nas costas. Porque de tudo que havia enfrentado em sua vida, se tornar a Donna foi a coisa mais certa e gratificante que fez. Ela tinha nascido para isso, era uma líder nata, mas só entendeu essa verdade quando a grandeza foi imposta a ela.

Roxanne nunca havia almejado ser a rainha da máfia, porém aquela coroa fictícia havia encaixado perfeitamente em sua cabeça e nada nunca pareceu tão certo. Porque ela sabia como cuidar das pessoas, e nenhum poder ou dinheiro seria capaz de corrompê-la como havia corrompido seu pai.

Porém, a máfia era apenas um degrau em direção ao topo de sua vingança, a parte difícil de tudo aquilo era mergulhar de cabeça no inferno... e ser obrigada a se deitar com o próprio diabo.

E por isso não podia duvidar que Damian estava vivo, por isso tinha que permanecer totalmente focada em sua missão. E era exatamente esse o gatilho para suas noites insones...

Porque parecia fácil falar de paciência, mas na prática... na prática aquela merda toda era uma maldita tortura que já durava muito tempo.

Sair atirando primeiro e perguntando depois não resolveria seus problemas, Roxanne estava naquilo há mais de dez anos, ela havia aprendido que precisava ser mais inteligente que uma organização secreta que foi capaz de se esconder a plena vista, se entranhando nas estruturas da sociedade tão profundamente que havia moldado o século...

E apesar de ter se tornado a Donna da máfia italiana na base da raça, ela sabia que era apenas uma garota de vinte e poucos anos, constantemente se perguntava se iria conseguir.

Estava mais perto do que nunca, sabia disso, mas esse era também o momento mais árduo, custoso e penoso de toda sua vida. Aquele último ano em que teve que seduzir Viktor Strovalenko a ponto de virar sua noiva era seu inferno particular, Roxie teve que abrir mão do orgulho, do ego e da dignidade de formas que poucas pessoas ao seu redor conseguiriam entender.

Estava cercada de aliados mais do que nunca, ainda assim, estava totalmente sozinha...

Ela respirou fundo, finalizando seu ritual matinal, aquele momento melancólico em que se permitia ser vulnerável e lamentar sua vida, a única hora em que visualizava seus medos e duvidava de si mesma. Então ela fechava os olhos e prendia o ar em seus pulmões até que respirar fosse a única opção, era nesse instante que guardava toda a dor no fundo de sua mente e vestia toda a convicção necessária para seguir em frente.

Por Damian. Era tudo por ele.

Essa pequena frase lhe renovava as forças e ela erguia a cabeça, pronta para começar sua rotina. Porque ter paciência era necessário, se casar com Viktor no dia seguinte ainda não resolveria seus problemas, — afinal ele era um maldito incompetente que ainda não havia conquistado um bando de velhos decrépitos e tomado aquela liderança de uma vez por todas, — sendo assim, enquanto isso ela tinha um império para governar e expandir.

Porque quando Damian voltasse para casa, ele encontraria o lugar perfeito para desfrutar de sua liberdade.

Era isso que Roxanne perguntava a si mesma todos os dias: “Estou construindo um pedaço de paraíso digno do meu irmão?”

E sim, estava ciente que as estruturas de tudo o que havia erguido estavam profundamente enraizadas em crimes, mas a Donna tinha a consciência limpa quanto a isso, afinal seus supostos crimes só eram categorizados assim porque um bando de homens tinha se reunido um dia e criado leis que só beneficiavam parte do mundo.

Ela traficava, falsificava, extorquia e praticava agiotagem, verdade, mas nada do que ela fazia prejudicava as pessoas que importavam...

Traficava obras de arte milionárias que não deviam estar em posse de nenhum museu, e usava o dinheiro disso para deixar seu povo mais seguro. Falsificava documentos para que pessoas pudessem transitar livremente por um mundo que não era justo com elas. Extorquia de políticos corruptos, afinal todo o dinheiro que tinham era arrancado do povo que ganhava migalhas em troca. E emprestava a riqueza que havia angariado com tudo isso para quem vinha buscar seu auxílio, cobrando aquilo de forma mais justa do que qualquer banco que aplicava juros abusivos.

Então, se o mundo queria chamá-la de criminosa, que chamasse, usava de violência e derramava sangue, verdade, mas não tratava seu povo como se eles fossem apenas números a serem conquistados, eles não eram votos que só valiam a cada quatro anos...

Roxanne tinha seu próprio código moral, sua própria forma de fazer justiça, e pouco importava que meio mundo tentasse colocá-la atrás das grades por isso, porque no fim todos eram criminosos hipócritas também, fazendo vista grossa para crimes de colarinho branco desde que isso beneficiasse apenas a eles.

Se quisessem fazer dela a vilã, que fizessem, não importava, porque Roxanne estava em paz. Suas crianças estavam na escola e não mais traficando drogas viciantes para qualquer gringo que pagasse mais. Suas mulheres tinham dignidade pela primeira vez e não precisavam mais apanhar caladas de seus maridos idiotas ou serem tratadas como inferiores. Dentro de sua ilha a justiça prevalecia, garotas não eram traficadas e abusadas como se nada valessem, pessoas não eram colocadas à margem da sociedade por serem diferentes, refugiados de outros países encontravam um lar ali.

E seus homens finalmente haviam aprendido respeito e honra. Era isso ou o sangue deles lavaria as ruas.

Nem todos concordavam ou estavam dispostos a seguí-la, obviamente haviam aqueles prontos para dar uma rasteira nela na menor oportunidade, mas Roxanne não se preocupava com isso. Ela não exigia lealdade, mas esse pormenor vinha de bom grado cedo ou tarde, e aqueles leais a ela sempre seriam prioridade.

Aquela era sua terra por direito e seu povo por dever. A Donna honrava isso e estava perfeitamente confortável sendo a lei, a juíza, o júri e o carrasco.

A Sicília estava sob seu mais absoluto controle, e nem sempre isso era tão divertido quanto podia parecer, verdade, mas se esse era o preço para que nenhuma criança fosse arrancada do seio de uma família que a amava, então Roxanne Domenichelli pagava com prazer.

Com suas convicções refeitas e energias renovadas — mesmo que não tivesse dormido mais que duas horas aquela noite — a Donna começou a se preparar para seu dia. Cuidou da pele e da pouca maquiagem que usava para trabalhar, escolhendo as roupas apropriadas.

As cinco da manhã em ponto estava abrindo a porta de seu quarto, totalmente pronta. Usava uma camisa de seda branca, com as mangas mais soltas e sem botões, o tecido leve formava um decote cruzado em “V”, deixando parte de suas clavículas a mostra, mas sendo discreto o suficiente para cobrir a maior parte de seus seios. Uma saia lápis bordô bem justa contornava suas curvas, descendo até os joelhos, mas se abrindo em uma fenda discreta na parte traseira apenas para facilitar a movimentação. Nos pés, scarpins, da mesma cor que a saia, arrematavam a composição. Quase não usava joias, apenas uma delicada pulseira de ouro e brincos pequenos, a única peça estravagante em seu corpo era a aliança com um solitário de diamantes que brilhava em seu dedo.

Um lembrete constante do fardo que havia escolhido carregar em nome de resgatar o irmão.

— Bongiorno, Italianinha. — O sotaque americano de timbre rouco lhe saudou em um misto de animação e provocação.

Barnes estava parado em frente a seu quarto, — trajando terno escuro e camisa branca sem gravata, a barba por fazer e o cabelo arrumado para parecer bagunçado, — encostado em um dos móveis despretensiosamente, como se soubesse com exatidão a hora em que Roxanne abriria a porta. E ele devia saber mesmo, ela era bastante pontual todos os dias.

— James... — Roxanne disse apenas, passando por ele como se não tivesse notado a provocação tola naquele “bom dia” pronunciado em um italiano arranhado, que o americano vinha apreendendo.

Faziam cinco dias que a parceria dos dois havia se estabelecido e que o Soldado Invernal e as ordens de Strovalenko não eram mais uma sombra entre eles. Naquele ponto, Roxanne já tinha aprendido a lidar com Barnes e seus flertes tolos e impróprios, com a forma como ele soltava palavras fáceis em italiano para provocar e com aquela estranha mania de encarar por tempo demais.

Na verdade, considerando todos os homens que a Donna tinha que aturar, lidar com James Barnes era fácil, divertido até...

E isso era um problema.

Não devia gostar tanto de dar respostas que o deixariam visivelmente irritadiço, não devia rir internamente dos flertes ridículos. Barnes era uma maldita distração.

E lá estava ele, com seu sorriso de canto charmoso, medindo Roxanne de cima a baixo nada discretamente, era quase irônico como íris de um azul tão gélido pudessem dar um olhar tão quente a alguém.

Roxanne odiava isso, porque estava acostumada com olhares indiscretos que pareciam querer arrancar suas roupas, — na verdade até se aproveitava disso como vantagem sobre seus adversários as vezes, — mas não era assim que James lhe encarava. As íris azuis deslizavam pelo corpo feminino como se desejassem ardentemente que ela mesma implorasse para ser despida.

E podia parecer a mesma coisa, mas não era, esse pequeno detalhe de diferença era o que as vezes causava um arrepio furtivo e incontrolável em Roxanne. Algo que ela obviamente ignorava de imediato. Não tinha tempo para distrações, permanecer focada era parte essencial de sua missão, um deslize tolo podia custar a vida de alguém.

A vida de Damian, mais precisamente.

— Dormiu bem? — Barnes questionou, descendo as escadas dois degraus atrás dela.

— Perfeitamente. — Mentiu sem sequer precisar de esforço, afinal não tinha qualquer intenção de revelar suas crises de insônia para um estranho.

Era um tanto ridículo na verdade, porque se pensasse bem, contar sobre Damian foi mais importante, porém Roxie considerava certos aspectos de si mesma algo íntimo, e suas madrugadas em claro na sacada de seu quarto eram uma dessas coisas.

Falar sobre Damian para alguém que tinha sofrido por noventa anos nas mãos da Hydra foi natural. Mas talvez Frank estivesse certo, talvez Roxanne tenha projetado algumas coisas em Barnes desde o segundo em que ele pisou na Sicília, talvez não fosse prudente confiar tão facilmente, como bem havia apontado Corinne... Porém era tarde demais para esse pensamento.

Roxie teve que fazer uma escolha quando encontrou com James Barnes em seu escritório, até podia deixar o homem ir embora, mas sabia que isso provavelmente resultaria na morte dele cedo ou tarde, porque Viktor não aceitaria algo assim nunca. Ele perseguiria o Soldado Invernal como um serial killer persegue sua próxima vítima.

E talvez isso fosse a melhor coisa que podia acontecer para a causa de Roxanne, ela sabia disso. A morte de Barnes podia significar salvar Damian mais rápido.

Parecia fácil.

Uma morte a mais na conta era nada, comparado a todo sangue que a Donna já havia derramado na vida.

Porém James Barnes não era como os outros homens que ela havia matado, ele não tinha feito nada terrível, ele não cometeu crimes contra a Sicília, ele não cruzou os limites... E ele era um herói.

Podia ser uma superstição boba, mas Roxanne não achava que mandar um homem que passou noventa anos sendo torturado pela Hydra, para a morte nas mãos dessa mesma organização, ajudaria a trazer seu irmão mais rápido para casa...

Se existisse equilíbrio cósmico, justiça divina, ou carma, talvez manter James Barnes seguro fosse a melhor coisa que Roxanne poderia fazer por Damian.

E sim, isso a manteria ao lado de Viktor Strovalenko por mais uma quantidade indeterminada de tempo, porém ela continuava no mesmo lugar que estava quando Barnes entrou pela porta de seu quarto, já teria que viver a tortura do inferno de todo o jeito.

No fim, seu destino já estava traçado de um jeito ou de outro, Roxanne havia aceitado isso quando montou o plano em sua mente, ela sabia que precisaria de estômago para se aproximar de um homem como Viktor. Ele se provou pior do que o esperado, mas enfim, ela fazia o que tinha que fazer.

Afinal, se não fizesse, quem o faria?

Roxie aprendeu desde muito cedo que ninguém viria ao seu resgate para nada na vida. O mundo podia estar cheio de heróis, mas ela não era digna de ser salva. Ninguém se importava. Ela se tornou sua própria heroína então.

Ou melhor dizendo, uma justiceira.

E estava perfeitamente bem com isso.

Quanto a James Barnes... Bom, de forma prática, ser a lei, juíza, júri e carrasco também era sobre decidir a inocência de alguém. Sendo assim, ele só seria tratado como inimigo se um dia agisse como um.

Até lá era um homem sob a proteção da Donna. Essa era a palavra final de Roxanne.

— Eu também dormi bem, obrigado por perguntar... — A voz masculina cortou o silêncio, quando ambos chegaram na cozinha.

— Saber a qualidade do seu sono é irrelevante para mim, James. A menos que haja algo errado com suas acomodações, mas nesse caso eu tenho certeza que você me diria. — Roxie declarou apenas.

Sua intenção não era ser grossa, mas estava trabalhando para estabelecer limites mais claros com Barnes. Não que o homem fosse ruim ou invasivo, ele era inoportuno algumas vezes, verdade, mas isso estava longe de ser algo desagradável.

E esse era o problema.

James Barnes era aquele tipo de homem charmoso, despretensiosamente engraçado, mas com um quê de honra e integridade que podia tirar o foco de uma mulher com facilidade. E Roxanne não podia se dar a esse luxo...

Entrou na cozinha primeiro, sabia que Benedetta chegaria mais tarde pois tinha aproveitado que Vicenzo não estava para ir no mercado municipal fazer compras para a mansão. Era o tipo de coisa que a governanta gostava de fazer bem cedo e pessoalmente, mas com o Patriarca Domenichelli em casa isso se tornava impossível, já que ele exigia a presença da mulher durante o café.

Roxanne achava ridículo, não quebraria a mão de ninguém cuidar das próprias refeições. Mas seu pai jamais tinha movido um único músculo para tocar em sequer um copo da cozinha, tudo era entregue a ele...

Deixou isso de lado, focando em ligar a cafeteira. Barnes por sua vez passou por ela, pegando algumas coisas para colocar na mesa, sem que ninguém tivesse que pedir.

— Você me tratava melhor antes, sabia? — Ele lançou casual, abrindo a geladeira para pegar o queijo e o leite.

Roxanne franziu as sobrancelhas enquanto via o americano se mover pela cozinha, não devia ser tão impactante assistir um homem adulto lidar com o próprio café da manhã, mas havia algo de quase mágico em ver James Barnes servir cereal em um pote.

Todos os homens com os quais ela tomava café da manhã costumavam esperar que alguém os servisse.

E sim, ele comia cereal, uma coisa bem americana que quase fez a pobre Benedetta infartar de horror um dia desses.

— Você falava menos antes. — Roxanne respondeu finalmente, piscando algumas vezes para espantar o deslumbramento para longe de si.

— E você odiava. — James rebateu divertido.

— Eu nunca disse isso. — Devolveu com um mover de ombros.

— Na verdade você insinuou algo assim, uma vez que eu estava parado bem aqui nessa cozinha. — Ele apontou em um misto de presunção e certeza.

Era verdade, odiava a forma como o Soldado Invernal se portava, o silêncio, o modo como ele era mecânico, e principalmente o fato de que a presença dele fazia com que Roxanne pensasse constantemente “será que é assim que Damian está vivendo?”.

Além disso, havia algo de broxante em um homem que tinha que seguir todas as suas ordens sem piscar. Supostamente devia ser um sonho de toda líder, mas Roxanne achava irritante até.

Desejava que as pessoas quisessem obedecer, como uma expressão de lealdade, não como uma resposta ao medo ou graças a uma lavagem cerebral macabra.

O resultado era o mesmo, verdade, mas as sutis diferenças eram tudo no fim das contas.

— Velhos de cento e tantos anos, como você, não deviam ter problemas de memória? — Ela acusou, pois foi a melhor coisa que encontrou para dizer no momento.

Estava parada ao lado da pia, esperando o café, Barnes caminhou até ali como um predador, perto o bastante para invadir seu espaço pessoal. Roxanne franziu as sobrancelhas tentando entender o que aquela aproximação repentina significava.

Seu corpo entrou em curto por um momento, a confusão tomando sua mente enquanto o perfume de James invadia seu olfato e lhe inebriava de formas que não pareciam certas. Havia algo de amadeirado, fresco e selvagem naquele cheiro, como um lobo branco correndo entre os eucaliptos no inverno.

Sua mente riu do quão especifico e idiota isso foi, a recriminando como se tivesse acabado de cometer um crime.

— Não existem velhos como eu... — James soprou bem perto, e então sorriu de canto, provando que aquela aproximação era apenas para pegar uma colher na gaveta quase ao lado de Roxanne.

Ela revirou os olhos teatralmente, voltando a focar em seu café.

Aquele homem e as investidas sem nexo dele...

Se sentou na frente de Barnes minutos depois, com seu café já em mãos, enquanto o americano já tomava seu cereal.

— Notícias sobre o Strovalenko? — Ele perguntou interessado, depois de alguns instantes de silêncio.

— Ele me ligou ontem... — Roxanne respondeu neutra, contendo uma careta de desgosto quando se lembrou de certas partes da conversa. Perdeu a fome de repente e deixou seu prato quase intocado de lado. — Provavelmente vai aparecer em breve, disse que está com saudades.

Barnes assentiu brevemente, sua colher descansando no pote de cereal e a mão direita dele se fechando em punho sobre a mesa, enquanto um vinco se formava entre suas sobrancelhas e seu olhar constrito se perdia em um lugar fictício em um indicativo de preocupação.

A Donna imaginou que a aparição iminente de Viktor teria aquele impacto mesmo, afinal ele ainda tinha posse daquelas malditas palavras e podia ativar o Soldado Invernal, ou pior, arrastá-lo dali e colocá-lo na criogenia, até que houvesse um método de controle mais permanente e eficiente. Pierre chegou a comentar que os cientistas da Hydra falavam de um composto químico usado na Sala Vermelha, algo que eles estavam tentando reproduzir há um tempo, mas sem terem acesso a cientista chefe de Dreykov, Melina Vostokoff, isso estava se provando quase impossível...

Roxanne se compadeceu do receio de Barnes, seus olhos escuros focados nele por alguns instantes. Sabia que o instinto de proteção em seu peito era apenas projeção, mas isso não importou naquele momento.

— Eu vou garantir que ele não te leve embora, James. — Declarou, sua mão deslizando sobre a mesa e pousando sobre a dele em um gesto de apoio. — Não se preocupe. Você está seguro aqui.

Os olhos gélidos desceram para aquele movimento, a surpresa cortou as feições de Barnes e só então Roxanne notou o que tinha acabado de fazer e se afastou imediatamente, arrumando o corpo na cadeira e agarrando sua xicara de café para ocupar as mãos.

— Agradeço por isso. Mas não estou preocupado comigo, sei me cuidar. — James respondeu, e aquela frase pareceu ter um milhão de pequenos significados que a Donna não foi capaz de decifrar totalmente.

Odiava que aquela fosse uma constante, Barnes não era um homem transparente, havia uma aura misteriosa que o cercava, quase como se existisse esse grande segredo escondido dentro de seus olhos azuis. Roxie sempre se achou ótima em entender as pessoas, em decifrar as motivações delas para assim prever seus passos. James Barnes era uma exceção chata para isso.

Talvez fossem efeitos remanescentes de ser um assassino fantasma por noventa anos, quer dizer, ele tinha sido treinado para ser um grande mistério, então algo disso ficaria grudado em sua personalidade. E talvez nem o próprio Barnes notasse isso.

A única coisa extremamente clara sobre aquele homem eram seus flertes. Era fácil notar que ele gostava do desafio, que o jogo da conquista era algo natural para ele.

Talvez nos tempos de juventude James fosse considerado um “garanhão”, era assim que chamavam nos anos 40, certo?

Roxanne conseguia entender então, que a insistência do ex-Sargento era apenas fruto das evasivas dela, uma hora ou outra ele se cansaria das negativas. Só precisava continuar se mantendo firme...

Eles terminaram o café da manhã em silêncio, ou melhor, James terminou seu cereal, enquanto a italiana encarava seu próprio prato totalmente sem apetite. Assim que ele apoiou sua colher no pote vazio, Roxanne se sentiu livre para pedir licença e levantar, pronta para tirar as coisas da mesa e não deixar bagunça acumulada para Benedetta, era o mínimo.

— Está muito bonita hoje, algo de especial vai acontecer? — Barnes lançou de repente, no segundo em que ela se levantou e virou de costas em direção a pia.

Olhou para ele por sobre o ombro, aquele olhar azul gélido lhe queimava, mas ela fez seu melhor para permanecer impassível a isso.

— Quer dizer então que nos outros dias eu estou feia? — Perguntou com um sorriso superior, pensando que a armadilha faria o americano recuar.

No entanto ele sorriu de canto, levantando-se também, seguindo para perto dela com as louças que havia usado em mãos.

— Eu acho que nem que você quisesse, Italianinha. — Soprou ao passar por ela.

Um sorriso escapou dos lábios dela, mas felizmente Barnes já estava de costas, colocando as louças sobre a pia e voltando para pegar o leite e o cereal.

— Sabia que é educado responder um elogio com outro? — Ele comentou casual, guardando cada coisa em seu lugar.

— Eu acho que você não precisa ter seu ego mais inflado por um elogio meu. Tenho certeza que o Nick e algumas das adoráveis senhoras da vinícola já fazem isso com bastante frequência. — Roxanne rebateu em um misto de ironia e deboche.

Sim, Barnes tinha muita atenção na vinícola, mas isso sequer chegava a ser uma surpresa. Ele era um homem charmoso, com uma beleza inegável. Claro que Roxanne havia notado, ela não era cega afinal.

Porém conhecia diversos homens bonitos e isso não mudava em nada a forma como interagia com eles. Barnes não era uma exceção... Seria um erro esquecer disso.

— Isso te incomoda? Não me diga que está com ciúmes? — Ele rebateu com um sorriso de canto cheio de presunção, mas seu tom era divertido, quase como quem faz uma acusação debochada e irônica.

Roxanne riu, não que ela quisesse, foi espontâneo demais para que tivesse tempo de controlar. Ele era irritantemente engraçado, caspita.

— Bem que você queria, Barnes. — Disse apenas, voltando para mesa afim de pegar as últimas coisas.

Ouviu a risada dele se espalhar pelo ambiente e lutou contra o próprio sorriso, mantendo o controle absoluto sobre si mesma. Não podia sucumbir àquele clima descontraído, sabia que acabaria se arrependendo disso.

Ela era a Donna da máfia, não era correto que desse atenção aos flertes pretensiosos e as gracinhas charmosas de um conquistador barato dos anos 40, além disso tinha um maldito compromisso com o diabo encarnado. Automaticamente seu polegar tocou a aliança no anelar, rodando a peça, em um discreto tique nervoso.

Quando se virou novamente parou onde estava, a visão de James colocando todas as louças na lavadora prendendo sua atenção como se presenciasse um tipo de milagre. E ele não lidou apenas com as coisas dele, cuidou de tudo que haviam usado durante o café.

Se virou na direção dela, afim de pegar a última xícara suja que estava entre as mãos femininas e foi então que os olhares se encontraram.

— O que? — James questionou, analisando a expressão no rosto de Roxanne e conseguindo decifrar rapidamente. — Eu sou um velho moderno, sei como usar uma lava louças. — Ele riu descontraído. — A Benedetta me ensinou ontem.

Ele colocou a última xicara dentro do aparelho e acionou o ciclo de lavagem. Roxanne limpou a garganta e balançou a cabeça para afastar aquela reação ridícula de si, não era grande coisa. Novamente apenas um homem adulto sendo funcional, ainda assim...

Caspita, algo tão banal não devia ser tão atraente.

— Saímos em cinco minutos. Eu não quero me atrasar. — Declarou firme, dando meia volta para deixar a cozinha.

Voltou a seu banheiro para escovar os dentes e checar à maquiagem, além de tirar um minuto para recobrar o controle sobre si mesma. Quando encontrou com Barnes, já na porta da mansão, Roxie estava com suas prioridades alinhadas novamente. Nada de distrações.

— Então, tem algo especial para acontecer hoje ou não? — Ele retomou o assunto de momentos antes.

— Na verdade não. — A Donna respondeu com um dar de ombros. — Eu me visto bem todos os dias, só isso.

Parte de ser líder, era manter as aparências e isso dizia respeito tanto as suas roupas quanto a todo o resto, as pessoas confiavam mais quando sentiam firmeza naquilo que viam.

— Eu reparei. — Barnes respondeu no tom de quem faz um elogio. — Mas a saia é novidade.

— Você não me conhece há tanto tempo assim pra saber o que é novidade no meu guarda-roupa ou não. — Roxanne rebateu, caminhando em direção ao carro.

James não respondeu com palavras, mas a expressão no rosto dele mostrou que ele não conseguiu discordar daquela afirmação.

— Vai dirigir? — Ela questionou, estendendo a chave do sedan.

Ele tinha feito isso naqueles últimos dias, mesmo depois que se libertou do Soldado Invernal, porém Roxanne perguntava a mesma coisa todas as manhãs.

Os dedos gelados de vibranium roçaram nos dela casualmente enquanto o chaveiro era tirado da mão feminina, e Roxie fez seu melhor para ignorar o arrepio tolo que isso lhe causou.

— Por que você tem aquele carrão, se ele vai ficar guardado o tempo todo? — James questionou, seguindo para o sedan sem grande empolgação.

— Porque aquele carro é para ocasiões especiais, não para trabalhar todos os dias. — Ela respondeu simples, tentando não sorrir para aquela pergunta.

Fez uma nota mental sobre James ter gostado de seu carro de luxo, mas na verdade sequer sabia o motivo de querer guardar essa informação boba.

— Que pena... — Ele soprou, enquanto assumia o banco do motorista.

Em minutos estavam ganhando as estradas, os olhos de Roxanne focados na paisagem, mesmo que não visse as coisas de fato, sua mente estava longe. Os pormenores de seu dia passando em seu pensamento como quem faz uma lista de tarefas. Pierre e Corinne viajariam naquela manhã, semestralmente eles levavam um carregamento de vinhos para alguns compradores fora do país e, por mais que a presença dos dois não fosse necessária nesse tramite, Roxanne sabia que era um momento em família deles. Levariam Martina e passariam alguns dias longe.

Ter uma vida para além dos negócios e das missões de justiça e vingança era essencial, e eles mereciam isso.

No fundo a Donna os invejava um pouco, eles tinham algo bom, real, forte, eram o porto-seguro um do outro e tinham encontrado amor incondicional em meio a tanto ódio que a vida jogou neles.

Roxie sabia que nunca teria algo assim, aprendeu desde cedo que o amor não era um luxo com o qual seria agraciada, e agora que havia alcançado o topo, isso se tornava ainda mais difícil. Não só porque estava noiva do próprio demônio, mas porque de fato não via isso acontecendo de nenhuma forma, nem mesmo depois de trazer Damian para casa. Ela sempre seria a Donna da máfia, aqueles em seu caminho teriam interesse nisso em primeira instância.

Porque no fim haviam apenas dois tipos de homem possíveis de entrar em sua vida, aqueles que amariam Roxanne por ser a Donna, e aqueles que não conseguiriam amá-la por esse mesmo motivo. Ou ficariam deslumbrados com o poder que ela possuía, ou não seriam capazes de lidar com ele...

Porém Roxie estava conformada com esse destino, e a bem da verdade ela só queria se livrar logo de Viktor Strovalenko, depois pouco importaria, Damian estaria em casa e ela focaria em ser a líder que a Sicília precisava. Romance talvez fosse superestimado.

Ainda assim, algumas vezes invejava Pierre e Corinne, ou mesmo Nick e Frank com seu relacionamento estranhamente moderno, porque eles tinham algo que ela sabia que nunca teria. Alguém que lhe amasse “apesar de” tudo, e não “por causa de” alguma coisa.

Novamente, pequenas diferenças que significavam muito.

— Qual o lance com o silêncio no carro? — A voz masculina lhe puxou de seus devaneios.

— Como? — Roxanne franziu as sobrancelhas, focando na figura de Barnes a seu lado.

— Você sempre fica em silêncio quando estamos no carro, pra onde sua mente vai? — Ele reformulou a pergunta.

Ninguém havia reparado nesse pormenor antes...

— É quando eu planejo meu dia ou então quando reviso os acontecimentos dele. — Roxanne respondeu neutra, seus olhos ainda no perfil masculino que seguia focado na estrada. — Isso te incomoda? — Ela chegou a própria conclusão antes que James desse uma resposta. — Deve incomodar, você e do tipo falante.

— Na verdade não sou... — Ele discordou, as sobrancelhas franzindo minimamente. — Mas eu era.

Esse silêncio parou no ar, algo que parecia pouco natural, porque a expressão no rosto de Barnes era enigmática, como se ele tivesse acabado de notar alguma verdade universal e não soubesse a melhor forma de lidar com isso.

— O que? — Roxanne questionou em um misto de curiosidade e interesse. Havia algo ali, com certeza.

— Nada não. — James moveu a mão de vibranium no ar em um gesto banal.

— Sério? — Ela devolveu, cruzando os braços. — Agora você vai bancar o caladão?

— Você disse que gostava de mim quando eu era calado. — Ele riu em um misto de descontração e deboche.

— Eu definitivamente nunca disse isso. — Roxanne rebateu convicta.

A verdade é que não devia gostar de versão nenhuma, mas acabava presa nos flertes ousados e no humor charmoso, como alguém se vê viciado em um sitcom bobo apenas pela descontração que isso traz.

Sabia que não devia se distrair com James Barnes, mas sendo honesta, gostava dessa tal distração que ele causava...

Ele permaneceu calado por um instante, as mãos no volante e os olhos na estrada, suas sobrancelhas franzidas como se ponderasse se devia ou não dizer algo em voz alta.

— Eu não sou de conversar muito com as pessoas. — Revelou, e foi uma surpresa. — Eu era antes da Hydra, mas isso ficou no gelo.

Roxanne entendeu de imediato, afinal desde os quatorze, quando descobriu o que podia ter acontecido com o irmão, ela começou a estudar sobre estresse pós-traumático, questões psicológicas e o cérebro no geral. Era esse o motivo principal de ter ido fazer medicina inclusive, para se especializar em neuro quando terminasse a graduação.

Tudo para estar apta a ajudar Damian.

Naquele instante, no entanto, isso lhe ajudou a entender James.

Era comum que as pessoas se tornassem mais introspectivas depois de um grande trauma, como se suas personalidades fossem soterradas pela dor e por aquela pessoa que tiveram que se tornar para sobreviver. Sendo assim, resgatar pequenas partes de si mesmo era um progresso bem grande...

E pelo visto James tinha feito isso sem perceber.

— Acho que o calor da Itália derreteu você. — Ela declarou descontraída, seu peito se enchendo de uma esperança genuína e um sorriso honesto surgindo em seu rosto, as covinhas em suas bochechas se tornando evidentes.

Se Barnes podia voltar a ser quem um dia foi, depois de noventa anos, Damian também poderia, não importava o que tivesse acontecido com ele em todo aquele tempo.

— Foi uma italianinha quente na verdade... — James respondeu, abrindo um de seus já característicos sorrisos de canto.

Roxanne desviou o olhar, negando algumas vezes, mas sendo incapaz de desfazer o sorriso já em seu rosto. Aquele americano era impossível mesmo.

— O que eu disse sobre flertar comigo? — Ela repreendeu, tentando soar firme, porém havia algo de divertimento em sua voz.

— Eu não estava flertando, eu sequer estava falando de você na verdade. — Barnes deu de ombros, encarando a estrada com a postura despretensiosa.

— E estava falando de quem então? — Roxanne não tinha planejado rebater tão rápido, mas as palavras apenas escorregaram por entre seus lábios com mais velocidade do que seu bom senso as processou.

— Eu conheço muitas italianinhas quentes. — A resposta do americano veio acompanhada de um sorriso superior. — Presumir que seja você é meio egocêntrico da sua parte.

A Donna arrumou sua postura no banco, a realidade lhe atingindo em cheio como um raio inesperado. Notou que por um instante havia esquecido totalmente de quem era e de quais eram suas prioridades.

Provavelmente aquele era apenas outro flerte de James Barnes, outra brincadeira tola dele, talvez não existisse nenhuma outra italiana, ou talvez existisse, afinal Roxanne não era a única mulher com a qual ele tinha contato, a vinícola tinha uma porção de italianas.

Mas esse não era o ponto ali...

O ex-sargento podia flertar como quisesse ou com quem quisesse, com ela ou com outras mil, isso não importava. Roxanne não tinha controle sobre isso. Mas ela tinha que possuir o controle absoluto de suas reações, e presumir, mesmo que por um segundo, que ela era a única não foi apenas egocêntrico de sua parte, foi um indicativo que estava se deixando levar.

Isso não podia acontecer.

— Eu acho que você está certo, me desculpe. — Soprou, irritada com a própria reação imediata.

Passar tanto tempo ao lado de James estava fazendo com que a dinâmica deles evoluísse para algo perigoso, Roxanne estava se acostumando com a presença dele, com a atenção que recebia dos olhos gélidos, com a rebeldia atraente, com o charme ironicamente divertido, isso não era bom. Não era certo...

Era pior ainda que a coisa estivesse acontecendo tão sorrateiramente bem debaixo de seu nariz, que ela não notou até que estivesse naquele carro presumindo que fosse a única mulher na vida dele. Uma que tinha sido importante o bastante para fazer diferença no processo de cura.

Era tudo sobre os detalhes. Sempre era.

E Roxanne sabia que à primeira vista aquilo parecia nada, um deslize tolo, que importância tinha? Mas ela também entendia muito bem que bastava um pequeno ramo de erva daninha esquecido na terra, para que logo um campo inteiro estivesse coberto.

Precisava ficar mais atenta...

Felizmente, logo chegaram na vinícola e ela pôde enfim mergulhar de cabeça no trabalho e se afastar da aura charmosa de James Barnes. Os tramites para o carregamento que Corinne e Pierre levariam ocuparam toda a sua manhã e, um pouco antes do almoço, Roxanne se despediu do casal e da pequena Martinna.

— Estaremos de volta antes do Ferragosto. — Pierre garantiu, se referindo ao feriado anual italiano, que naqueles últimos cinco anos era comemorado com um festival que acabava envolvendo toda a Sicília.

— Mantenham contato, por favor. — Roxanne pediu, mesmo sabendo que eles estariam perfeitamente seguros.

Havia feito tudo a seu alcance para que a existência dos LaRue fosse desconhecida da Hydra, para todos os efeitos eles haviam desaparecido do laboratório durante o blip, essa foi toda a cortina de fumaça necessária para o sumiço deles depois. Até o sobrenome que usavam oficialmente eram novas identidades totalmente limpas.

— Faremos isso. — Corinne garantiu, seus olhos focando alguns metros a esquerda. — Por favor, tome cuidado enquanto estamos fora.

Roxanne acompanhou o olhar e encontrou Barnes, que estava ocupado ajudando no carregamento de outros caminhões. Não que alguém tivesse pedido isso.

A italiana assentiu, conseguia compreender a postura arredia de Corie, ela tinha uma família para proteger afinal, não podia se dar ao luxo de confiar em qualquer um, principalmente depois de tudo que havia vivido...

Niccolo se aproximou dos amigos e despediu-se deles. Roxanne trocou um abraço com Corinne e depois deu um beijo na testa de Martinna.

Pierre buzinou animadamente, enquanto o caminhão deixava a vinícola, eles pegariam a balsa e estariam fora da ilha até o final do dia, depois ganhariam a estrada em uma viagem familiar descontraída e merecida. Pequenos luxos que a entrega de vinhos perfeitamente dentro da lei proporcionava.

Enquanto Roxanne via o veiculo sumir na curva ao fim da pista, o foco de Niccolo já estava em outro lugar.

— Ele faz sucesso, não é mesmo? — O italiano comentou, dando um toque sutil na Donna.

Ela procurou com os olhos a pessoa de quem Nick falava, embora já soubesse, mesmo antes de focar em James Barnes. Ele estava colocando algumas caixas de madeira que transportavam várias garrafas de vinho dentro de um dos caminhões que sairia para uma entrega rápida pela cidade. O terno tinha ficado em um lugar qualquer e a camisa branca estava com alguns botões abertos, arregaçada ao máximo exibindo seus antebraços, tanto o de carne e osso quanto o de vibranium.

Carregava duas caixas ao mesmo tempo, ambas apoiadas sobre o ombro esquerdo, e uma dezena de olhares furtivos o admiravam naquele instante.

Havia uma certa mágica viril em ver aquele homem andar pela vinícola carregando peso como quem carrega isopor sem sequer derramar uma gota de suor... Mas é claro que essa pequena constatação foi repreendida por Roxanne assim que surgiu em sua mente. Aquilo era a definição de distração.

Como se soubesse que estava sendo observado, as íris gélidas focaram em Roxanne, ela sustentou esse olhar e James sorriu, erguendo sua mão direita em um aceno despojado que foi prontamente retribuído por Niccolo.

— Por que acha que ele faz sucesso? — A Donna questionou em tom desinteressado, virando-se para continuar a caminhar como se nada tivesse acontecido.

— Bom, ele é o americano mais bonito que eu já conheci, então... — Nick encolheu os ombros como se fosse a coisa mais óbvia de todas.

Roxanne soltou uma risadinha irônica.

— Você não conhece tantos americanos assim, conhece? — Rebateu com um olhar acusatório que evidenciava o exagero de Pissani.

Ele, é claro, não se deu por vencido.

— Mas você conhece, esteve cercada deles na faculdade, não é? — Comentou descontraído, enquanto a seguia pelo terreno do estacionamento. — Nosso Bello Gringo está na média?

— Ele é normal pra mim. — Ela encolheu os ombros, focando seus olhos no aparelho celular em sua mão, onde as planilhas logísticas da vinícola estavam abertas.

Não permitiu que sua mente ponderasse aquela questão, não havia utilidade alguma em ranquear a beleza de James Barnes, a constatação óbvia de que ele era sim homem bonito já era um inconveniente problemático o bastante. No fundo ela gostaria que ele fosse feio, chato e nada agradável de se conviver.

— A Georgina parece concordar comigo... — Nick declarou de repente e Roxanne, por puro instinto talvez, focou em Barnes novamente.

Ele estava acompanhado agora, Georgina Bianchi, uma das Mamas, caminhava ao lado dele com uma prancheta nas mãos e ambos concordavam com alguma coisa e riam um para o outro.

A Donna franziu as sobrancelhas, a cena ficando gravada em sua mente enquanto partes diferentes dela processavam as informações contidas ali. Não importava, foi a conclusão que ela permitiu que viesse à tona.

Georgina era uma Mama e, portanto, de confiança, essa era a única informação relevante. Ao menos foi isso que Roxanne disse a si mesma...

— Eles fazem um casal bem bonito, não acha? — Niccolo questionou casual, ainda focado na cena.

— Claro. — Roxanne respondeu no automático, voltando a olhar seu celular, fechando o arquivo da vinícola e abrindo uma pasta secreta e criptografada em seu servidor interno, onde estavam as coisas de seu outro negócio.

Aquela tarde Nick tinha que fazer algumas cobranças de empréstimos vencidos e foi nisso que a Donna focou, afinal pouco importava que James tivesse todo aquele charme americano que casava perfeitamente bem com a beleza inegável de Georgina...

Ela era bicampeã do Miss Ferragosto, com seus grandes olhos azuis, seu cabelo loiro-acobreado e seu corpo escultural. E teria ganhado a categoria +30 de novo se Roxanne não tivesse acabado com aquele show de horrores, por considerar uma coisa misógina e retrógrada. O Concurso de Beleza só existia para que os velhos vissem as moças de biquini e para que todo tipo de abuso rolasse nos bastidores, inclusive com as crianças, mas as pessoas continuavam se inscrevendo porque o prêmio em dinheiro era muito bom.

Georgina foi inclusive uma das peças chave para acabar com o esquema quando expôs a coisa toda para a Donna. Em retribuição Roxanne a convidou para integrar as Mamas, uma forma mais digna de fazer dinheiro e ajudar a família.

Ela era uma boa mulher.

Então sim, Georgina e Barnes obviamente faziam um casal muito bonito, mas Roxanne não queria pensar nisso, porque se o fizesse teria que processar o estranho incômodo que essa constatação causava.

— Obviamente ele faria um casal bem mais bonito comigo. — Niccolo cantarolou divertido, enquanto eles continuavam a seguir em direção a um dos sedans. — Frank aprovaria, seriamos o trisal do século.

Roxanne não riu ou respondeu, ela sequer esboçou reação alguma na verdade, seus olhos ainda estavam focados na tela de seu celular, mas sua mente lhe mostrava uma reprodução exata da cena entre James e Georgina instantes atrás. E ela nem saberia dizer o motivo disso.

Vai ver estivesse apenas preocupada porque há alguns dias Barnes não tinha poder de escolha e uma aproximação daquela seria errada, mas agora não havia nada que o impedisse de fazer o que queria e Roxie não tinha mais que se preocupar com isso.

Ela tentou repetir essa resolução para si mesma algumas vezes.

— Você está bem? — Niccolo perguntou de repente, o olhar preocupado pousando sobre a Donna.

— Claro, só estou repassando umas coisas. — Ela respondeu, ajeitando sua postura quando pararam ao lado do carro.

— Anda muito focada no trabalho nessas últimas semanas. — Ele comentou e seu tom era de certa forma reconfortante.

Aquilo era o mais perto que Roxanne já teve de alguém cuidando de seu bem estar. E por mais que soubesse que podia tomar conta de si mesma, e que no fundo não devia esperar que ninguém se preocupasse, é evidente que gostava de saber que alguém nutria certo carinho por ela, nem que fosse por lealdade.

— Você fala como se fosse ruim. — Desconversou, oferecendo a Nick um sorriso constrito.

— Não é, mas sabe o que o Frank diz, é preciso ter algo fora do trabalho que te divirta e traga prazer. É o que garante que você não sucumba aos problemas cedo ou tarde. — Nick respondeu e por um segundo pareceu mesmo com Francesco falando.

— Eu vou me divertir no Ferragosto. — A Donna declarou, como se isso resolvesse tudo.

— Um dia de festividade no ano não conta e você sabe disso. Tem que ser uma coisa mais frequente na sua vida, Donna. — A resposta tinha um tom suave de repreensão.

Roxanne sorriu, pousando sua mão no ombro de Niccolo com carinho na intenção de apaziguar o coração dele. Não podia permitir que as pessoas sob seu comando se preocupassem com ela, eles tinham que estar seguros que ela própria dava conta de qualquer coisa.

— Quando o Damian estiver de volta eu vou ter todo o tempo do mundo para diversão, Nick. — Afirmou em um tom otimista, forçando um sorriso ainda maior até que suas covinhas aparecessem. — Eu estou bem, sério. Além disso, eu me divirto enquanto treino, por exemplo.

— Mentira, você odeia, faz por pura disciplina. — Niccolo retrucou divertido e ambos riram porque era a pura verdade.

— Bom venha treinar comigo hoje e eu com certeza vou me divertir. — A morena sugeriu casualmente.

Niccolo fez uma careta.

— É contra os meus princípios lutar com a Donna. — Respondeu com a cautela de quem não quer ofender, Roxanne sorriu apaziguadora.

A hierarquia era algo extremamente importante para Nick Pisanni, talvez porque por toda a vida ele tenha desejado fazer parte da máfia, mas sua condição congênita o tornava alguém malquisto pela organização, isso sem falar em sua sexualidade. O próprio Frank teve que esconder a dele por anos e anos para conseguir se manter como um dos homens de Vicenzo. Pouco importava que ele fosse um primo, os costumes retrógrados daquele lugar o teriam expurgado caso seu relacionamento com Nick tivesse vindo à tona naquela época.

Mas Roxanne nunca viu nada disso como fatores que tirassem o valor de alguém, pouco importava que Niccolo tivesse uma doença autoimune que o fizesse perder todos os pelos do corpo, menos ainda importava a orientação sexual dele ou o relacionamento aberto que mantinha com Francesco. Pisanni era um de seus homens de maior confiança porque havia se provado digno disso quando a chance lhe foi ofertada, simples assim.

A Donna não trocaria nenhum de seus Três Grandes por ninguém.

— Tudo bem, eu peço a companhia de uma das Mamas. — Ela declarou por fim, rindo de canto para os costumes que Nick insistia em manter.

Uma ideia cruzou a mente da italiana então, assim que ela lembrou de algo que havia ocorrido uns dias antes:

— Ou talvez eu siga o conselho da Corinne e veja como me saio contra um super soldado.

Na ocasião pedir que Barnes participasse de um treino era algo fora de cogitação, mas agora ele podia ser realmente útil, afinal sabia mais das técnicas de combate da Hydra do que qualquer um dos LaRue.

Niccolo arregalou os olhos como se Roxanne tivesse acabado de dizer que deixaria alguém praticar tiro ao alvo na cabeça dela.

— Eu vou ficar bem, Nick. — Ela riu, tentando acalmá-lo.

— Longe de mim duvidar da sua capacidade, Donna... mas... — Não deixou que ele terminasse.

— Então não duvide.

O homem assentiu, mudando de assunto:

— Bom, vou cuidar dos meus afazeres, tem várias cobranças a serem feitas hoje.

— Certo. Tenha cuidado. — A Donna instruiu, enviando os nomes para o celular de Niccolo através de uma rede sigilosa.

— Eu sempre tenho. — Ele garantiu, entrando no sedan e dando a partida.

Roxanne ficou ali parada enquanto Niccolo fazia questão de buzinar para Barnes antes de passar pelos portões da vinícola.

— Ciao, Bello! — O italiano acenou efusivamente.

A Donna apenas riu de canto e continuou ali onde estava, os olhos presos no “casal” que tinha voltado a conversar...

Barnes parou ao lado do caminhão, sua postura ereta e os braços cruzados, enquanto Georgina falava, arrumando o cabelo vez ou outra. Roxanne conhecia o bastante de linguagem corporal para saber que a mulher estava flertando com o americano, não que isso importasse.

Eles podiam fazer o que bem quisessem, mas teria que ser depois...

Caminhou naquela direção, atraindo o olhar gélido quase instantaneamente. A postura de James mudou, seus braços descruzando e sua mão esquerda parando em seu bolso conforme ele se encostava no caminhão despretensiosamente.

Georgina notou o comportamento do americano e olhou por sobre o ombro, seu corpo se aprumando no mesmo instante.

— Donna. — Ela disse respeitosamente, movendo a cabeça em um cumprimento que era quase uma reverência.

— Georgina. — Roxanne respondeu com um sorriso cortês e nada precisou dizer para que a mulher entendesse que devia se retirar.

— Alguma coisa errada? — James questionou, ainda parado no mesmo lugar, enquanto via a moça de cabelos loiro-acobreados se afastando.

— Não, por que teria? — A Donna respondeu simples e o olhar gélido se estreitou minimamente, como se procurasse mentiras por trás das palavras.

Mas não havia nenhuma, Roxanne reforçou para si mesma.

— Imaginei que teria algo a dizer sobre as outras italianas ao meu redor. — Barnes jogou com um sorriso presunçoso e insinuativo.

Os olhos negros piscaram com calma e um tanto de tédio. O ego daquele americano não podia ser tão grande assim...

— Você é um homem adulto em posse de seu livre arbítrio. O que você faz ou deixa de fazer não é da minha conta, desde que, é claro, não seja prejudicial para a missão. — Declarou sem qualquer comoção na voz.

— E suponho que ficar perto dela seja prejudicial para a missão... — O homem disse no tom de quem adivinha algo.

Roxanne quis rir, mas se manteve calma e impassível.

— De modo algum, Georgina faz parte das Mamas e é de confiança, ela também é adulta e sabe o que faz. — Respondeu, os olhos focados nos dele sem qualquer perturbação. — Na verdade, pode ser uma boa ideia encontrar uma companhia que te interesse enquanto você está aqui, não sabemos por quanto tempo nosso acordo vai se estender e eu me sentiria péssima se isso te privasse de contato humano. Você não precisa ficar solitário.

Embora as palavras tenham saído dos lábios femininos sem qualquer perturbação, elas deixaram um gosto estranho no caminho. Algo que Roxie não se preocupou em entender naquele momento.

— Eu não tenho interesse na companhia dela, eu só estava sendo amigável. — James cruzou os braços, encolhendo os ombros, sua explicação tinha um tom de quem está um tanto ofendido.

Por algum motivo a Donna quis sorrir, mas não o fez, apenas apresentou sua fisionomia neutra de desinteresse.

— Não é da minha conta, de toda a forma. — Soltou, passando para o assunto que lhe levou até ali. — Eu vim para te pedir um favor, James.

Os olhos gélidos focaram no rosto feminino com interesse, Barnes se desencostou do caminhão e deu dois passos na direção de Roxanne, como se tivesse ansiado por um pedido dela por toda a vida.

— Estou ouvindo. — Afirmou, e cada uma das suas microexpressões corroborava com isso.

Roxanne procurou manter suas reações sob controle, algo sobre estar ali parada na frente de James Barnes enquanto ele a encarava daquela forma tão interessada tinha um efeito estranho nela...

Era como ver o mar da segurança da orla, quando não se sabe nadar. A compreensão que se afogaria cedo ou tarde, caso cometesse a tolice de mergulhar, estava lá, gritando persistente, como um instinto de sobrevivência, mas, por um segundo apenas, o encanto se tornava tão hipnótico que sua mente cogitava como seria molhar os pés nas ondas.

E talvez fosse uma comparação inútil, porque Roxanne Domenichelli era uma ótima nadadora, mas ainda assim, esse era exatamente o sentimento naquele momento.

— Gostaria que treinasse comigo... — Ela disse enfim, ignorando os devaneios lúdicos e as metáforas incongruentes e focando na realidade palpável. — Que fosse meu treinador na verdade. Corinne ficará fora por uns dias e eu acho que agora que tem controle total sobre si mesmo de novo, seria útil que treinássemos juntos. Você sabe mais das técnicas de luta da Hydra do que qualquer um.

Por um instante os olhos de Barnes chegaram a brilhar, mas algo cortou a mente dele e esse brilho morreu antes mesmo de tomar conta das íris azuis.

— Não acho uma boa ideia... — Ele respondeu constrito e um tanto envergonhado.

— Oh... Certo. — Roxanne foi pega de surpresa, porém presumiu depressa que depois de passar anos como Soldado Invernal, aquele tipo de atividade deixava o americano desconfortável. Pierre tinha um posicionamento parecido. — Tudo bem, entendo que não queira.

Ela deu a conversa por encerrada, nenhum pouco ofendida com a negativa e sequer cogitando insistir.

— Não tem problema. Obrigada. — Moveu os calcanhares para dar meia volta e já tinha se afastado um passo, quando a mão direita de Barnes tocou seu pulso. Apenas um resvalar de dedos como se ele quisesse chamar a atenção de Roxanne.

Ela se virou novamente, seu olhar encontrando o dele, muito mais perto agora. Franziu as sobrancelhas, notando que James parecia um tanto constrangido naquele momento.

— Eu poderia machucar você. — Ele soprou quase baixo demais.

Roxie devia ter se ofendido, porém o sorriso em seu rosto veio mais rápido.

— Vou ignorar o quão ofensivo foi a forma como você acabou de me subestimar. — Suas palavras teriam saído sérias para qualquer outro, mas naquele momento tinham um quê de descontração.

Que inferno, não devia achar encantador o fato de Barnes parecer tão preocupado com a possibilidade de lhe ferir.

— Não estou te subestimando, mas eu sou um super soldado com um braço de vibranium. — Ele ergueu a mão de metal, falando dela como se fosse algo terrivelmente perigoso, e Roxanne sabia que até era verdade, mas naquele instante achou aquela parte do corpo dele estranhamente atraente.

Será que estava ficando louca?

— Eu sei. — Ela empurrou seus pensamentos intrusos de volta para um lugar escondido de sua mente e voltou a focar no que importava. — Por isso estou pedindo sua ajuda, você foi supostamente o melhor ativo que a Hydra já teve. Se você me treinasse eu estaria preparada para qualquer coisa. Mas eu entendo se não quiser, não tem problema. Sério.

Estava prestes a dar meia volta outra vez, quando Barnes tornou a lhe segurar, um toque de fato, os dedos de vibranium delicadamente no pulso dela, a temperatura gelada e a rigidez do material contra a pele macia causando um arrepio instantâneo e incontrolável em Roxanne.

— Tudo bem, podemos tentar. — James concordou e, por um instante, quando focou nos olhos negros, Roxie teve a impressão que ele podia ver através de todas as suas barreiras, era como se ele fosse capaz de ler cada um dos sinais que o corpo dela dava sem permissão.

— Obrigada. — Ela agradeceu, interrompendo aquele contato e se afastando tão rápido quanto alguém se afastaria de um precipício que está desabando.

— Mas não acho que vim vestido pra isso. — Ele declarou antes que ela pudesse dar outros passos.

— Não se preocupe, eu dou um jeito nisso. — A Donna respondeu, sabendo que uma ligação resolveria o problema. — Nos vemos daqui uma hora e meia lá embaixo na academia. Pode continuar sua conversa com a Georgina agora, desculpa ter interrompido.

— Eu não estava conversando com ela. Ela estava conversando comigo. — Barnes se apressou em responder, como se aquela pequena diferença fosse crucial.

O problema era que Roxanne sabia melhor que ninguém o impacto que esses pequenos detalhes tinham... Talvez por isso, quando ela se afastou, um sorriso discreto enfeitava seus lábios.

Por que estava tão satisfeita em saber daquilo?

Ela tentou abster daquelas bobagens, procurou focar no trabalho para que isso afastasse qualquer distração tola que sua mente pudesse inventar. Porém sentiu que estava sendo sabotada pelo próprio subconsciente, porque aquela uma hora e meia se arrastou, e a cada segundo Roxanne parecia ficar mais ansiosa para o treinamento que viria.

Ela acabou descendo para a academia meia hora mais cedo, cuidou de arrumar o tatame, prendeu o cabelo em uma trança e então se trocou. Usava um conjunto básico de um tecido próprio para roupas daquele estilo; shorts e um top de alta sustentação, ambas as peças de um azul acinzentado. Dispensou os tênis, sabendo que eles poderiam atrapalhar ou machucar o adversário, preferindo ficar descalça.

Estava se alongando quando James apareceu, quinze minutos mais cedo, ela viu no relógio. Havia uma certa ansiedade na postura dele, algo com o qual Roxanne tentou não se identificar. Por que estava tão tensa? Não era sequer a primeira vez que os dois ficavam sozinhos naquela academia subterrânea.

— Pedi para a Benedetta enviar algumas coisas suas pelo motoboy. — Ignorou as sabotagens de sua mente tola e apontou para o banco em um canto, onde haviam dois pacotes, um deles entregue ali há alguns minutos apenas.

James assentiu, seus olhos gélidos deslizando pelo corpo feminino sem qualquer discrição antes que ele caminhasse até o banco, pegasse suas coisas e fosse direto para o banheiro da academia...

Cinco minutos depois estava de volta, pés descalços também, calça de moletom clara e uma regata tão justa que parecia destacar os músculos de seu braço e evidenciar cada gominho em seu abdômen definido.

A mente de Roxanne se dividiu nessas duas vertentes opostas, agradecer Benedetta pela escolha das peças, ou se arrepender amargamente de ter convidado o americano para o treino. Ignorou as duas, fingindo que nada ali lhe afetava e desviando o olhar enquanto seguia em direção ao segundo pacote.

Esse não tinha sido entregue pelo motoboy, Roxanne o havia tirado direto do cofre de seu escritório, era a maleta que ela havia comprado de Giovanni, os mesmos braceletes que trouxe para a vinícola um dia depois que fez o acordo com Barnes.

— Precisa disso? — Ele perguntou, enquanto ela encaixava as peças nos pulsos e checava as lâminas escondidas sob o metal.

— Você tem um braço de vibranium, não tem? — Respondeu neutra. — É justo que eu tenha proteção à altura.

James se deu por vencido, acompanhando Roxanne com o olhar enquanto ela caminhava para o tatame.

— Então, como quer fazer isso? — A italiana questionou.

— Uau, a rainha da máfia vai mesmo me deixar ficar no controle? — Apesar do divertimento em sua voz, Barnes pareceu genuinamente surpreso e empolgado com isso.

— Acho que já estou arrependida de ter pedido sua ajuda, velhote. — Roxanne rebateu com deboche, arrancando uma risada honesta do americano.

— Vamos começar vendo o que você sabe. — Ele apontou para que ela erguesse os punhos e se colocasse em posição de combate.

Roxanne começou a dar passos lentos pelo tatame, a guarda alta e a atenção em qualquer brecha de ataque.

— E só pra constar, o que você trata como velhice eu chamo de experiência. — James lançou em um misto de presunção e divertimento, sua postura relaxada o bastante para que a Donna visse uma oportunidade.

Ela avançou, tentando atingi-lo com um chute que supostamente devia acertar a lateral direita do abdômen masculino. Barnes segurou a perna de sua oponente no ar, os dedos de carne e osso na pele dela de um jeito firme impossível de ignorar.

— Posso te ensinar muita coisa, italianinha. — Ele soprou em um misto de insinuação e provocação.

Roxanne se esquivou dele bruscamente e voltou para sua postura.

— Sabia que é meio babaca da sua parte chamar toda a mulher que conhece aqui na Sicília de italianinha? — Ela retrucou, enquanto rodeava o homem procurando pelo melhor ângulo.

Fez outra tentativa de ataque que foi prontamente defendida.

— Se queria exclusividade era só me dizer. — James riu. Sua postura ainda normal e relaxada, como se ele sequer tivesse tentando.

A Donna enrijeceu o maxilar, notando o quão difícil era se manter senhora de suas reações quando estava em luta. A raiva parecia fluir dela.

E havia muito desse sentimento acumulado em toda sua vida.

Tentou atacar de novo, um soco dessa vez, Barnes desviou, barrando o golpe com um movimento rápido da mão direita, e aparando o chute que ela tentou dar logo em seguida.

— É só isso? — Ele perguntou, dando dois passos para trás com um sorriso de canto.

Idiota.

Roxanne avançou novamente, algo feroz dominando seus movimentos, tentou um combo de golpes ensinado por Corinne, mas a sequência foi rebatida por apenas uma mão de James, como se ele já soubesse cada uma das decisões que ela tomaria, segundos antes de acontecerem.

A respiração dela estava saindo do prumo aos poucos, seu cabelo fugindo da trança com os movimentos bruscos. Tentou enganar o seu oponente, abrindo a guarda dele um lado, para golpear do outro. James barrou esse ataque, puxando o corpo dela de encontro ao seu, as costas femininas batendo no peitoral masculino em um baque seco, enquanto o braço direito dele cingia o abdômen dela com firmeza.

— A raiva não te ajuda, ela só te atrapalha. — Ele soprou sério, como se naqueles curtos minutos tivesse analisado cada uma das fraquezas da Donna. — Esse sempre foi o maior trunfo do Soldado Invernal, ele não tinha raiva, ele não tinha compaixão, ele não tinha nada. Era o que o tornava imbatível. E todos os membros da Hydra são treinados para estar o mais perto disso possível, sentimentos são fraquezas.

Algo naquele tom deixou Roxanne tão irritada que ela tentou atingi-lo com uma cabeçada para trás, porém tudo que conseguiu foi falhar grandemente nisso, quando Barnes lhe empurrou para frente com delicadeza demais para quem estava no meio de uma luta.

— Você claramente não tem a força, a técnica ou a velocidade pra me vencer. Então vai ter que ser mais esperta. Para de tentar superar o seu oponente onde ele é mais forte, encontre a fraqueza dele, usando o que você tem de melhor. — Ele instruiu, seus pés se movendo um pouco pelo tatame agora, quase como se estivesse espelhando os movimentos que Roxie ainda estava pensando em fazer.

Ela praticamente ignorou aquelas palavras, irritada demais no momento para admitir que o maldito americano estava mesmo vários níveis além em qualquer técnica de luta que ela pensasse em usar. Pouco importava que tivesse feito aulas em várias modalidades desde os dezesseis anos e que Corinne houvesse ensinado muito. Roxanne não estava à altura de alguém com o conhecimento do Soldado Invernal.

Mudou a tática então, atacando por baixo no intuito de atingir as pernas dele, ato falho que a fez acabar no chão como uma completa amadora.

— Tudo bem? — Barnes questionou, a encarando de cima, sua mão de vibranium apoiada nas costas como se ele se recusasse a usá-la.

Roxanne impulsionou as pernas pra trás, virando sobre o próprio corpo para ficar de pé em um movimento pensado e ágil. Os olhos azuis a mediram por alguns instantes, um sorriso mínimo nos lábios masculinos.

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A Donna se sentiu uma criança brincando de lutinha com um adulto que tinha duas vezes seu tamanho.

— Você nem está se esforçando. Para de ser condescendente. — Ela criticou e ordenou na mesma proporção, a raiva escapando de suas palavras muito mais do que gostaria de demonstrar.

— Ah, olha só quem fala, você é condescendente comigo o tempo todo... — James rebateu, enquanto os passos dos dois rodeava o tatame lentamente, pé ante pé. — É ruim, não é?

— Eu seria menos condescendente se o seu ego fosse um pouquinho menor. — Roxanne devolveu sarcástica, aproveitando esse momento para avançar na direção dele.

Barnes a deteve com uma única mão, a virando sem dificuldade, apenas para empurrá-la contra uma das paredes e prendê-la ali, mantendo um dos braços dela para trás e a imobilizando com o corpo.

— Bom, o que eu posso dizer, eu sou um homem grande, tudo em mim segue esse padrão. — Ele murmurou contra o ouvido dela e algo no timbre rouco causou uma série de arrepios inoportunos que acenderam cada terminação nervosa do corpo de Roxanne.

Ela arfou, ciente da proximidade absurda dos corpos, a raiva se misturando com algo ainda mais quente em suas veias. Aquele som pareceu desestabilizar James por um curto instante, a brecha perfeita para que a Donna pisasse no pé dele e virasse o corpo rapidamente, o punho seguindo direto, sem mirar, um golpe que acabou atingindo o rosto do americano.

Roxanne parou onde estava, os olhos gélidos lhe encontraram enquanto Barnes levava dois dedos aos lábios onde um fino corte vertia um filete mínimo de sangue. Ela estava pronta para pedir desculpas, mas ele sorriu, quase ferino, sua língua passando pelo ferimento e estancando o sangue instantaneamente.

— Belo soco, mas vai precisar de muito mais que isso pra me derrubar. — O desafio e presunção naquelas palavras atiçaram a ira dentro da Donna.

Ela avançou, seus movimentos repletos de confiança pelo golpe anterior, mas talvez esse tenha sido seu erro, porque Barnes lhe barrou facilmente, ela teria ido ao chão se ele não tivesse segurado no último segundo.

— O que eu te disse sobre a raiva? — Ele questionou, enquanto a italiana se aprumava uma vez mais. — Você só está agindo por impulso, não está pensando. Eu sei que você é mais inteligente que a maioria, Roxanne, use isso.

O nome dela nos lábios dele fez com que algo estranho despertasse rápido demais no corpo feminino, a Donna ignorou qualquer sensação, canalizando tudo aquilo em forma de fúria, enquanto ela se preparava para outra sequência de golpes.

Dessa vez ela foi parar no chão, Barnes não a segurou quando fez com que perdesse o equilibrou com um empurrão certeiro.

— Acho que já é o bastante. — Ele disse simples.

— Não. Vamos continuar. — Roxanne rebateu com determinação.

Ela tentou de novo, uma sequência ainda mais violenta de golpes, a fúria escorrendo por sua pele em forma de suor, seu cabelo praticamente todo solto agora. Barnes se esquivou, mas a Donna não parou, continuou atacando e atacando, uma vez após a outra, enquanto ele prosseguia barrando cada um dos golpes com a mão direita, ainda se recusando a usar a de vibranium.

Roxie fez algo errado, talvez quando tentou um chute que não atingiu o alvo e que abriu uma brecha, que oponente usou em benefício próprio...

Ela estava no chão de novo, ofegante, suada, e totalmente furiosa.

— Chega. — Barnes decretou a encarando de cima outra vez. A verdadeira imagem da perfeição, sem um único fio de cabelo fora do lugar e com nenhuma mínima gotícula de suor no corpo másculo.

— Não! — Roxanne se moveu, batendo no tatame para descontar a raiva e se colocando de pé.

Recomeçaram a luta, ela chegou a atingir o corpo dele dessa vez, porém era como se cada músculo daquele americano irritante fosse feito de mármore e ele sequer sentisse o impacto dos golpes.

— Você não pode me vencer. E tudo bem, podemos trabalhar nisso aos poucos. Vamos parar agora. — Ele declarou quando ela acabou no chão novamente.

— Nunca! — A resposta não era mais que um rosnado de obstinação preso em sua garganta.

Ela avançou sobre ele pegando impulso, tentando um golpe alto ensinado por Corinne, que consistia em usar as pernas para prensar o pescoço do oponente afim de jogá-lo no chão. De primeira pareceu surtir efeito, porém quando os dois caíram no tatame, rolando um por cima do outro, Roxanne notou que só estava acontecendo daquele jeito porque Barnes permitiu.

— Eu já teria matado você se eu quisesse, sabia? — A prensou sem dificuldade alguma abaixo do corpo dele.

— Mas eu ainda estou respirando, e se consigo respirar, eu consigo lutar. — A italiana rebateu em um misto de fúria e teimosia.

Ela tentou atingir Barnes, mas ele usou a mão de vibranium pela primeira vez, segurando ambos os pulsos femininos contra o chão, acima da cabeça dela. O movimento fazendo com que eles ficassem ainda mais perto.

— Não é verdade. Você não pode lutar se está imobilizada, viu? — Ele soprou, com um sorriso brincando no canto dos lábios.

Roxanne respirou fundo, não havia nada mais além de Barnes, era como se ele estivesse em todo o lugar, colado no corpo dela, o peso a mantendo imobilizada e plenamente ciente de cada mínimo contato. O cheiro viril de eucaliptos no inverno era inebriante, a respiração calma dele batia no rosto feminino e os dedos fortes de vibranium prendiam os pulsos dela.

Não tinha como vencer...

Ela umedeceu os lábios instintivamente, incapaz de admitir sua derrota. Os olhos azuis focaram naquele movimento, seguindo o deslizar da língua através da boca feminina como se isso fosse hipnótico.

...ou será que tinha?

Roxanne se remexeu abaixo do corpo masculino, soltando um gemido de desconforto e respirando fundo, apenas para deixar que todo o ar escapasse através de sua boca entreaberta.

Barnes prendeu a respiração. O olhar dos dois se encontrou. Roxanne piscou devagar, prendeu o sorriso entre os dentes e moveu a única parte do corpo que ainda conseguia, a cabeça, seus lábios tocando o ponto exato entre a bochecha e o canto da boca masculina, a barba rala pinicando sua pele como eletricidade estática.

James engoliu em seco, surpreso e atordoado, a mão de vibranium afrouxou o aperto enquanto ele vasculhava os olhos escuros em busca de respostas. O coração de Roxanne batia aos saltos, seu corpo inteiro arrepiado de uma forma que não devia ser certa, ela conseguiu mover as duas mãos, seu toque deslizando suavemente na barba masculina, enquanto ele inclinava um pouco o rosto na direção dela, os narizes se tocando e as bocas tão perto agora que as respirações se misturavam.

A Donna sorriu, parando um segundo antes e não dando a Barnes o que ele tanto parecia ansiar, ao invés disso usou o peso do corpo e a força das pernas para rolar por cima dele, as mãos descendo um pouco para a base da mandíbula masculina.

— E... você está morto. — Ela sussurrou contra os lábios dele, cada palavra fazendo com que o roçar torturante parecesse mais cruel. Para ilustrar Roxie fechou o punho, a lâmina em seu bracelete sendo revelada e parando no espaço exato entre o pescoço e o queixo de seu oponente.

Barnes riu, o som o rouco sendo um misto de ironia e algo mais que fez fogo dançar sob a pele de Roxanne.

— Eu venci você. — Ela reforçou, ainda perto demais, estava praticamente montada nele, uma coxa em cada lado do quadril masculino e a faca do bracelete firme contra a garganta de James.

— Isso não valeu... — Ele soprou em um misto de divertimento e excitação, levantando o tronco sem medo da lâmina e praticamente se sentando, obrigando Roxanne a acompanhar esse movimento, para que seus lábios não se encontrassem no meio do caminho. Ambas as mãos dele estavam na cintura dela agora, e existia a ciência absoluta de que haviam partes muito especificas de seus corpos pressionadas uma contra a outra, separadas apenas por suas roupas.

— Por que não? — A Donna questionou, incapaz de se afastar, mesmo que uma parte de sua mente acusasse que ela devia.

— Algo assim não funcionaria com nenhum agente da Hydra. — Barnes respondeu, seus olhos azuis focados nas íris escuras.

— Não mesmo, porque essa não é a fraqueza de nenhum agente da Hydra. Ela é a sua. — Roxanne rebateu superior. — Você me mandou usar a minha inteligência e achar a sua fraqueza, eu fiz isso.

Havia esse sorriso presunçoso nos lábios femininos, ela podia ter abaixado a lâmina, mas não fez isso, seja porque não quis, ou apenas porque esqueceu, já que aquela proximidade inebriante parecia hipnótica.

— Foi jogo sujo e você sabe muito bem disso. — James rebateu, mas ele não parecia ofendido ou irritado, se bem que era difícil analisar as reações dele com clareza, porque o toque dos dedos masculinos na pele da cintura feminina enviava arrepios incontroláveis por todo o corpo de Roxie.

— Como você bem disse, eu sou a rainha da máfia, achou mesmo que eu jogaria limpo? — Ela soprou de volta, sua respiração ficando mais pesada conforme era possível sentir o corpo de Barnes reagir entre suas pernas.

— Quem é que está flertando com quem agora, hein, Italianinha? — Ele sorriu, seus dedos apertando a cintura dela sutilmente, a puxando um pouco para baixo como se não fosse proposital, como se fosse uma reação instintiva de seu corpo chamando pelo dela.

Roxanne tentou manter o foco, fingiu não saber o que acontecia entre suas coxas, como se James não ficasse cada vez mais duro com o passar dos segundos. A ereção dele pressionando exatamente o ponto mais sensível do corpo dela.

— Eu não estou flertando com ninguém. — Rebateu firme, erguendo um pouco o nariz. — E já mandei parar de me chamar assim, usa o seu apelido com a tal italianinha quente.

Não quis soar tão irritada, na verdade, sequer planejou dizer aquilo, as palavras apenas escorregaram de seus lábios, como se ela não tivesse mais nenhum autocontrole, por estar usando cada pingo dele para impedir seu corpo de rebolar sobre o de James.

— É exatamente isso que eu estou fazendo. — Ele soprou de volta. A mão direita subindo para o rosto dela e deslizando um toque leve da bochecha para a nuca. — Você é a única mulher que eu chamo de Italianinha. Porque você a única pessoa na Sicília que interessa pra mim.

O corpo de Roxanne tremeu, seu coração fora do ritmo e a respiração saindo rápida por seus lábios entreabertos. Ela teve certeza que era mentira, que aquilo tudo só podia ser a ereção inegável dele falando mais alto. Somente uma reação em cadeia do tesão que agia no sistema nervoso de Barnes como uma droga e o fazia dizer loucuras tolas.

Mas a pior parte foi que ela quis acreditar.

Todos os sinais de alerta soaram em sua mente então. Roxanne respirou fundo, notando a ironia da situação; já sabia que James desejava seu corpo, óbvio que sabia, não era burra, além disso nunca foi novidade homens interessados nesse tipo de envolvimento apenas físico com ela. E mesmo sabendo a verdade, foi justamente na mentira que ela tanto quis acreditar.

Por que talvez quisesse ser importante o bastante para ser mais que o mero desejo de alguém. Ela queria ser a única.

Estupidez total. Sonhos tolos de uma garotinha iludida que Roxanne havia matado ainda na adolescência.

Ela aprendeu desde muito cedo a não acreditar nas mentiras de um homem com tesão.

— Você está desperdiçando seu tempo, James Barnes. — Declarou, sabendo que estavam indo longe demais. Tinha que evitar distrações, e não sentar no colo da maior distração de todas. — Desiste dessa bobagem de uma vez.

Ela recolheu a lâmina para dentro do bracelete e ele sorriu de canto, e que inferno, ficava mesmo bonito sorrindo.

— Acabei de perceber que temos uma coisa muito interessante em comum. — James comentou, sua mão direita nos cabelos dela ali perto da nuca, seus dedos desenhando caminhos imaginários na pele feminina. — Nós dois nunca desistirmos de uma luta quando sabemos que temos uma chance de ganhar.

Roxanne não respondeu, ela até pensou em algo inteligente que acabasse com tudo aquilo, porém um toque inconfundível de seu telefone a fez levantar imediatamente, sem que Barnes tivesse tempo de impedir.

Apenas uma pessoa possuía aquele toque personalizado. Frank.

Era uma mensagem curta, o tipo que era mandada quando Francesco não tinha tempo de ligar ou dizer nada mais detalhado.

Roxanne sentiu o mundo cair sobre seus ombros de novo, a realidade lhe atingindo como um soco na cara. Aquele treinamento inapropriado fez com que ela esquecesse por alguns minutos da realidade que a cercava.

— O que aconteceu? — James questionou, se colocando de pé e averiguando o rosto feminino.

Ela havia acabado de se lembrar do porquê não podia ceder a nenhuma distração.

— Meu pai está vindo pra casa mais cedo. — Roxanne contou o que a mensagem dizia. — Ele já sabe o que aconteceu no porto.

Certamente teria uma bela discussão em família em breve. Pelo menos, Viktor não estava vindo junto pra piorar as coisas...

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado da Roxie, particularmente eu amo essa dualidade dela, ela é foda, rainha de um império e ainda assim é só uma garota carente de amor e carinho, porque não teve isso a vida toda e agora nem pode ousar sonhar com essas coisas porque tá noiva de um maluco. Eu acho que esse capitulo deixa bem claro o quão obstinada, perseverante e abnegada ela é. E é evidente que ela não é tão imune ao Bucky quanto quer fazer ele pensar, quem seria imune a esse homem? Enfim... a coisa esquentou não é mesmo? Vamos ver que tretas teremos no próximo. Nos vemos no sábado Beijos e até!