Operação Roleta Russa
12 Patriarca
Notas iniciais
Ambas as mãos de Bucky Barnes estavam no volante, enquanto o sedan corria macio pelas estradas da Sicília. Os olhos azuis focados no caminho, enquanto sua mente voava longe. Ele pressentia que havia algo importante prestes a acontecer. O encontro de Roxanne com o pai seria tenso, dado o fato de que o antigo Dom já sabia o que a filha tinha feito em sua ausência...
Ainda assim, não era para esse assunto em particular que os pensamentos de Barnes queriam fugir, sua mente cismava em repassar as cenas de momentos antes, uma sequência detalhada de seu treinamento com Roxanne e, principalmente, a forma como tudo terminou.
Não era como se tivesse planejado ter uma ereção, mas lá estava aquela italianinha obstinada e teimosa, montada no colo dele e com uma faca encostada em sua garganta. Apenas aconteceu.
A bem da verdade Barnes sequer pensou em impedir aquilo, muito pelo contrário até, teria deixado as coisas acontecerem livremente sem qualquer ressalva.
Será que estava indo longe demais?
Seus olhos seguiram para Roxanne, que estava concentrada na paisagem do lado de fora, presa em seus próprios pensamentos e preocupações.
Barnes se sentiu idiota, haviam coisas tão mais importantes acontecendo, ele não podia parar o tempo para analisar seu desejo pela rainha da máfia, então empurrou tudo aquilo para um canto oculto de sua mente e disse a si mesmo que era apenas uma distração boba, apenas tesão e instinto, nada que fosse relevante o bastante para atrapalhar a missão dada a ele pelo Alto Conselho.
Mas mesmo naquele momento de pura negação, Bucky já não tinha mais tanta certeza da veracidade de suas desculpas...
— Você está bem? — Perguntou em voz alta, fazendo com que Roxanne focasse seus olhos negros nele por um instante.
A Donna piscou algumas vezes, arrumou a postura no banco, limpou a garganta e finalmente assentiu como se tudo estivesse perfeitamente sob seu controle.
Bucky perguntou a si mesmo se já a conhecia bem o bastante para entender todos os pequenos trejeitos que expressavam o desconforto e a mentira clara naquela resposta muda.
Ela obviamente não estava bem.
— Tem certeza? — Ele reforçou a pergunta, ganhando outro aceno prático. — O que pretende fazer sobre o seu pai?
— Não precisa se preocupar, James. — Roxanne soprou naquele tom neutro e prático que ela usava quando estava falando de negócios. — Eu tenho tudo sob controle, nada disso vai arriscar sua segurança. Eu prometo.
Bucky riu sem humor, movendo a cabeça de um lado para o outro, lembrando que era a segunda vez que a Donna interpretava a reação dele como sendo autopreservação.
— Não é com a minha segurança que eu estou preocupado. — Ele respondeu simples e Roxanne o encarou por alguns instantes, antes de apenas voltar a focar na paisagem, sem formular resposta alguma.
Era como um déjà vu da conversa que os dois tiveram mais cedo na cozinha da mansão, e Barnes novamente se viu com uma dúvida crucial em mente. Estava preocupado com quê então?
Naqueles últimos dias ele se flagrou com um novo comportamento instintivo bastante problemático, se pegou preocupado com Roxanne Domenichelli. E sabia que isso não era certo. Porque ter pensamentos nada puritanos sobre a italianinha era uma coisa, — atração física não significava nada, aquilo era apenas distração, — mas criar uma conexão emocional com a mulher que ele derrubaria do trono dali a um tempo era a pior coisa que Bucky Barnes podia fazer...
Era isso que estava acontecendo?
Observou o perfil de Roxanne, voltando os olhos para a estrada em seguida e apertando o volante. Os últimos dias passaram rápido por sua mente, Bucky tentou encontrar o momento exato em que havia cometido o erro de esquecer que aqueles flertes eram nada mais que uma distração, procurou entre suas memórias o ponto de virada, mas era como se Roxanne houvesse muito sutilmente se infiltrado na mente dele e... feito uma grande bagunça.
Ele não queria enfrentar os últimos acontecimentos, porque não era apenas o treinamento e seu corpo correspondendo a proximidade da italianinha. Eram as pequenas coisas; seu desejo tolo de chamar a atenção dela; a vontade de causar uma reação de ciúmes; o querer ser notado; o falar com ela mais do que havia falado com a maior parte das pessoas que conheceu naquele século, e sequer se dar conta disso, até que fosse dito em voz alta.
Roxanne talvez estivesse certa, uma italianinha quente havia derretido todo o gelo dentro de Bucky... E havia feito isso muito devagar, como a primavera chegando logo depois do inverno.
Essa constatação o deixou desconfortável, porque afinal Barnes sabia que era um cavalo de troia, precisava manter uma certa distância emocional de Roxanne Domenichelli para cumprir sua missão.
Não podia se preocupar com ela.
Talvez estivesse se deixando levar...
Hora de parar com os flertes e as brincadeiras tolas para chamar atenção, ele disse a si mesmo, decidindo focar mais na missão dada pelo Alto Conselho.
Era apenas por isso que estava ali na Sicília afinal.
Com isso em mente, repetindo em looping para maior fixação, Bucky estacionou o sedan na mansão Domenichelli. Assim que passou pelas portas da sala, alguns passos atrás de Roxanne, ele percebeu que o clima do lugar estava absolutamente tenso.
Benedetta estava mais branca que o de costume, a Donna havia telefonado antes que eles deixassem a vinícola, por isso a governanta já estava a par da chegada de Vicenzo e já estava lidando com os preparativos para receber o antigo Dom.
Roxanne deu mais algumas ordens, impressionante como ela parecia perfeitamente no controle de tudo, incluindo das próprias emoções, no entanto, Barnes esteve no mesmo carro que a italiana por todo o caminho, e ele sabia que havia algo ali que ela estava mantendo bem ocultado de qualquer olhar.
Bom, era de se esperar que a eminência um confronto direto com o próprio pai causaria impacto em qualquer um...
— Melhor tomar um banho e se arrumar. — Roxanne parou com Barnes aos pés da escada. — Eu preciso que você...
— Finja ser o Soldado Invernal na frente do seu pai. — Ele completou, já sabendo exatamente qual seria seu papel em tudo aquilo.
Papel nenhum basicamente, seria como a dias atrás, ficar parado vendo enquanto tudo acontecia, sem poder esboçar reação alguma. Pelo menos seu disfarce era apenas provisório agora.
— Me desculpa. — A italiana falou, lendo o desconforto de Bucky. — Sei que não é uma coisa justa de se pedir.
Ela provavelmente pensava que isso traria lembranças ruins, e algumas vezes até trazia, mas naquele ponto esse era o menor de todos os problemas.
— Eu estava ciente dessa parte quando aceitei nosso acordo. — Barnes respondeu apaziguador.
O olhar dos dois se prendeu por um momento, mas Roxanne não deixou que durasse tempo algum, antes de assentir de forma prática e desviar o rosto. Bucky achou melhor assim, aqueles pequenos momentos de conexão estavam se mostrando um problema.
Ele subiu para se aprontar então.
Não sabia como a Donna lidaria com o próprio pai, ela não havia compartilhado detalhe algum e, no curso dos próximos minutos, Bucky tentou adivinhar o que viria, porque parecia improvável que Vicenzo aceitasse uma tomada de poder...
Por outro lado, era Roxanne Domenichelli, Barnes já estava ali há tempo o bastante para saber com convicção que a italiana com certeza teria todas as cartas na manga para lidar com o pai.
Sendo assim, só restou a ele esperar, encontrou Roxanne no corredor quase uma hora depois, quando o barulho de um carro entrando pelo portão os alertou.
Ela vestia roupas mais leves e claras, que lhe davam uma aparência mais jovem e inocente de certa forma. Barnes não sabia se aquilo era alguma estratégia, mas não teve tempo para esse questionamento. Vicenzo Domenichelli estava de volta.
— Roxanne? — Bucky chamou antes que eles descessem as escadas, e isso atraiu o olhar de obsidiana para ele. — Boa sorte.
O rosto feminino suavizou um pouco, um sorriso um tanto melancólico surgindo nos lábios fartos.
— Eu nunca tive um pingo de sorte em toda minha vida, James Barnes. — A italiana soprou calmamente, virando-se em seguida para descer os degraus, enquanto ainda era possível ouví-la murmurar: — Eu sempre tive apenas a mim mesma.
Algo nessa afirmação tão taciturna e convicta fez com que Barnes sentisse um nó desconfortável na garganta. Algo que ele tentou desconsiderar antes que criasse raízes, porque afinal estava tentando exercitar o seu “não se importar”.
Vicenzo passou pela grande porta da mansão naquele instante. Seus passos pesados e seu rosto fechado em uma fisionomia irritada, como se ele tivesse voado até ali remoendo toda a raiva do universo de uma vez.
— Papa! — Roxanne saudou em sua língua materna, agindo como se não soubesse da vinda do pai e, principalmente, o motivo por trás disso. — Que...
— Escritório, agora! — Vicenzo cortou duramente, usando seu inglês arranhado.
Sequer deu um segundo olhar para a filha, passando de cabeça erguida e rumando direto para o cômodo citado.
Roxanne seguiu naquela direção sem pressa, entrando no escritório com Barnes em seu encalço, ele parou próximo da mesinha de bebidas enquanto ela fechava a porta. Vicenzo já estava atrás da grande escrivaninha de mogno, sentado em sua cadeira como se fosse o rei de um império,
Ele certamente se achava um, ao menos.
— Como foi de viagem, Pa...
— Me poupe, Roxanne! — O antigo Dom interrompeu novamente, o tom elevado, sequer permitindo que Roxanne terminasse sua frase. — Estou farto de você interferindo em meus negócios.
Bucky notou que, por mais que Roxanne tenha tentado falar em italiano, o mais velho puxou o inglês de novo, como se fizesse questão de conversar naquela língua.
A Domenichelli mais nova não respondeu, parou onde estava, encarando o pai com uma calma invejável, os braços repousando em frente ao corpo em uma postura dócil que começou a incomodar Bucky. A Donna deixaria mesmo aquele velho careca ficar gritando com ela?
— O que eu disse para você sobre suas americanizes? — Vicenzo prosseguiu em tom acusatório.
— Defina “americanizes”. — A mais nova pediu de forma simples.
— Sabe exatamente ao que eu me refiro. — De alguma forma a postura dela, tão calma e neutra acabou por fazer o patriarca Domenichelli abaixar o tom, embora não houvesse nada de carinho ou receptividade em sua voz. Mal parecia que estava falando com a própria filha.
— Na verdade, não sei, sempre tem algo sobre mim que o senhor está pronto para criticar, fica difícil adivinhar qual é o foco de sua desaprovação agora. — Roxanne respondeu e havia algo naquela frase que fez com que Bucky se mexesse desconfortável.
Ele sabia que não devia estar tão envolvido em tudo aquilo, a infância da Donna não era assunto seu e muito menos as desavenças e problemas dela com o pai. Ainda assim, Barnes cultivou em si essa aversão clara por Vicenzo Domenichelli.
Mas não estava tomando para si as dores de ninguém, o velho era um idiota, simples assim. Ele mal tinha olhado para o Soldado em todo aquele tempo, agindo como se Barnes fosse apenas um objeto inanimado parado ali em um canto.
Isso, era puramente natural e racional sentir raiva daquele homem, não tinha a ver com Roxanne...
— Você interferiu em negócios importantes meus. — O antigo Dom declarou, as duas mãos cruzadas sobre sua barriga proeminente. — A última vez que meus contatos foram vistos foi aqui na Sicília e chegou aos meus ouvidos que você coordenou uma operação no porto com esse Soldado de brinquedo e outros dois da ralé que costumam andar com você.
Barnes viu Roxanne prender a respiração, o maxilar feminino enrijecendo como se uma crítica a Corinne e Niccolo fosse mais ofensiva que algo dirigido a sua própria pessoa.
— Seus contatos? — Ela repetiu, a voz calma e controlada. — Quer dizer os estupradores que deixou caminharem pela ilha fazendo mal ao povo que você supostamente deveria proteger?
Bucky presumiu que Roxanne tenha tentado, mas foi incapaz de esconder toda a raiva de escorrer pela última frase.
— Ah, pelo amor de Deus, Roxanne! Essa utopia de proteger o povo não existe. É necessário quebrar alguns ovos para fazer uma boa omelete. — Vicenzo rebateu, movendo a mão direita no ar com displicência. — Não acredito que ordenou que o Soldado Invernal executasse Bartô e seus homens.
Espera. Então era isso que ele pensava? Que Roxanne havia conseguido sucesso em desmantelar aquela merda de operação nojenta, apenas porque deu ordens ao Soldado Invernal?
Bucky teve que se conter para não rir da ironia disso, porque afinal Roxanne havia pedido especificamente que ele não se envolvesse naquela ocasião.
Vicenzo não conhecia o poder da filha e claramente a subestimava.
E Roxanne alimentava essa ilusão. Barnes sabia que a vinícola era uma fachada para todos de fora, incluindo o próprio patriarca Domenichelli. A Donna havia aberto o lugar durante o blip e, para o restante do mundo, as instalações eram apenas um capricho bobo da jovem. Uma italiana metida com vinhos, era clichê e um bom disfarce. Para os olhos curiosos o lugar nem faturava tanto assim. Mas esse era apenas outro negócio extremamente bem sucedido da italiana.
— Eu também não acredito em muita coisa que você tem coragem de fazer, mas aqui estamos. — Ela moveu os ombros em displicência, não desmentiu ter usado o Soldado Invernal como trunfo.
— Acha que o dinheiro de Strovalenko vai sustentar essa organização para sempre? Estamos falidos, usar o brinquedo que ele te deu para destruir a minha operação mais lucrativa foi um erro colossal, menina! — Vicenzo ergueu o tom de voz novamente.
Roxanne não respondeu, o interessante é que ela poderia, afinal havia reerguido seu império totalmente antes de fazer qualquer negócio com Viktor Strovalenko, ela não precisava do dinheiro do líder nazista para nada.
O antigo Dom apenas não sabia disso.
— Você pode ter se sentado nessa cadeira durante o blip, mas não pense que sabe gerenciar essa organização. — Ele continuou, seu tom tão afiado quanto uma faca, como se quisesse ferir a própria filha. — A única coisa de útil que você fez nesse tempo foi se oferecer ao Strovalenko em troca de apoio financeiro.
Barnes fechou o punho, fazendo seu melhor para manter sua postura impassível.
Roxanne deu um passo para trás, ela não precisava se abalar com aquilo, afinal havia uma verdade e um motivo por trás do noivado com Strovalenko, ainda assim, o modo como ela respirou fundo e fechou os olhos por um instante, antes de mover as sobrancelhas minimamente, fez com que Bucky soubesse que aquelas palavras haviam atingido a italiana tão cruelmente quanto uma facada verdadeira.
— É isso que pensa de mim? — Ela questionou, sua voz oscilando entre a mágoa e a raiva. —Eu lhe mostrei melhorias significativas feitas nesses cinco anos e...
— Melhorias? — Vicenzo repetiu com escárnio, interrompendo a filha e se colocando de pé para se aproximar dela. — Apenas besteiras de uma criança tola que acha que somos algum tipo de instituição social. Tudo que fez nesses cinco anos foi acabar com a tradição, brincar de princesa no castelo dando pão aos plebeus e além disso apenas prestou para arrumar aliados, fodendo com eles por dinheiro como uma puta barata. — Ele estava bem perto da filha agora.
— Bom, nunca te vi reclamar desse meu aliado enquanto viaja pelo mundo com ele. Quem será que é a verdadeira puta barata aqui? — Roxanne retrucou com um quê de deboche na voz.
— Sua moleca malcriada! — O patriarca Domenichelli esbravejou. E depois disso foi tudo muito rápido...
Vicenzo ergueu a mão no ar, prestes a dar um tabefe na própria filha, mas esse movimento nunca chegou a acontecer de fato. Bucky não saberia dizer se já tinha se movimentado naquela direção quando ouviu o primeiro insulto, ou se foi apenas seu reflexo extremamente rápido agindo, o fato é que demorou menos de um segundo para que o Soldado Invernal aparasse o pulso do antigo Dom no ar. Os dedos de vibranium segurando a mão do velho com tanta força e irritação, que Barnes soube que poderia quebrar aqueles ossos com a mesma facilidade que alguém quebra cascas de ovos.
Talvez ele até quisesse fazer isso.
O silêncio sepulcral se espalhou no escritório, os olhos de Vicenzo pousaram no Soldado em um misto de indignação e medo.
— O que pensa que está fazendo? — O velho perguntou e seu tom, embora firme, não tinha metade da agressividade que ele usava com a própria filha.
Bucky viu Roxanne franzir as sobrancelhas e negar sutilmente, como se pedisse para que ele não fizesse nenhuma loucura.
— Tenho ordens diretas do Senhor Strovalenko para proteger a Senhorita Domenichelli. — Barnes soprou firme e tão gelado quanto o inverno na alcunha do soldado que ele fingia ser. — Proteger de qualquer um.
Uma grande ruga se formou entre os olhos de Vicenzo, ele estava pronto para retrucar, mas Roxanne foi mais rápida.
— Pode soltar o meu pai, Soldado. — Ela ordenou, seus olhos presos em Bucky como se dissessem mil e uma coisas.
Ele soltou o punho do velho e deu um passo para trás, fingindo acatar de imediato, mas odiando cada segundo disso. Aquele velho havia ultrapassado todos os limites.
Vicenzo respirou fundo, arrumou a postura e ergueu a cabeça.
— Você vai pegar suas coisas e seu brinquedinho assassino e sair imediatamente da minha ilha. — Ele decretou em um tom cruel. — Vá ficar com seu noivo e cuide de mantê-lo feliz para que o dinheiro flua, em troca de meus homens que andam com ele. — Ele pousou os olhos na filha, mas era como se olhasse um pedaço de lixo jogado na sarjeta. — Enquanto isso, colocarei a Sicília de volta nos trilhos como tem que ser e expulsarem a escória que deixou morar no meu território. Chega de brincar de casinha, Roxanne.
Ela não se moveu, por três segundos inteiros encarou o próprio pai com uma expressão totalmente enigmática no rosto. Impossível dizer se estava com raiva, decepcionada, magoada ou tudo junto.
— Está me mandando embora da minha própria casa? — Perguntou e havia algo em seu tom que fez parecer que ela de fato havia levado um tapa, bem mais que um até.
— Essa casa não é sua, é minha, você não devia sequer ter voltado. A Sicília não é seu lugar. Saia agora, ou te enxotarei para fora com minhas próprias mãos. — Vicenzo retorquiu ainda mais duro e frio.
Barnes entendeu então porque o velho decrépito fez tanta questão de ter aquela conversa em inglês, era uma forma de mostrar que a filha não pertencia a Itália, de excluí-la. Ele a tratava como um estrangeira, a renegava. E isso era, de muitas maneiras, muito mais cruel que uma surra. O próprio pai estava negando a ela o direito de ser uma parte de sua terra natal.
Roxanne respirou fundo, sua postura mudando em coisas mínimas, os ombros ficando mais eretos, as mãos indo pousar suavemente atrás das costas, o queixo erguendo um pouco e os olhos se tornando mais sérios e estreitos. Poucas coisas com um impacto gigante na figura total.
— Eu gostaria de ver o senhor tentar, Papa. — Ela desafiou com um quê de escárnio na voz.
Bucky também ergueu um pouco mais o queixo, não existia um motivo exato, talvez só estivesse contagiado pela força que emanava de Roxanne naquele momento.
Entendeu enfim que ela estava testando Vicenzo até ali, dando a ele uma oportunidade de seguir conversando com a filha. Porém ele fez uma escolha bem clara quando quis expulsá-la da própria casa.... Agora ele teria que lidar com a Donna.
— Acha que seu Soldadinho vai me impedir? — O antigo Dom jogou de volta, tão senhor de si quanto a garota a sua frente.
— Deixe-me esclarecer algumas coisas... — Roxanne declarou, com a expressão calma de uma assassina fria. — Eu sou uma Domenichelli, você é apenas um agregado que se beneficiou de leis retrógradas para ficar no poder por todo esse tempo. Mas isso acabou.
— Está me desafiando? — Ele riu, como se estivesse lidando com uma garotinha de cinco anos fazendo birra.
Barnes começou a ver o quão ridículo e irritante era ver as pessoas subestimarem Roxanne daquele jeito. Ela tinha muito autocontrole mesmo para permanecer sempre tão impassível diante desse tipo de coisa.
— Na verdade eu não preciso te desafiar. — A Donna respondeu com um sorriso ainda mais condescendente. — Eu já ganhei, Papa. Só o senhor não se deu conta disso ainda.
Vicenzo franziu as sobrancelhas, analisando a filha como se procurasse o blefe por trás das palavras dela.
— De onde eu vejo o senhor tem duas opções. — Roxanne prosseguiu, caminhando pelo espaço com a habilidade discursiva de uma verdadeira líder. — Pode tentar um confronto contra mim, ligue para seus supostos aliados, veja quantos deles ainda lhe são leais. Asseguro que não encontrará ninguém. Mas você pode tentar é claro. Eu farei como mandam as tradições retrógradas que você segue e lhe destronarei publicamente, o humilhando na frente de todos aqueles que um dia nutriram pelo senhor qualquer respeito e lhe tirando qualquer oportunidade de manter a dignidade enquanto envelhece.
Ela focou nos olhos do pai para passar toda a veracidade de suas palavras e ele parecia absolutamente surpreso com a afronta, como se nunca tivesse esperado algo assim.
— Ou.. — A Donna sorriu com a ferocidade de uma felina prestes a dar o bote. — Anuncie sua aposentadoria, saia de cena graciosamente, com um sorriso no rosto, como se realmente me apoiasse em minha empreitada. Uma mentira enorme, é claro, já que nunca me apoiou em nada na vida, mas que lhe garantira uma velhice minimamente digna, com o respeito daqueles que agora são leais a mim. Claro que não permanecerá sob o mesmo teto que eu, mas lhe oferecerei uma residência adequada aqui na ilha.
Ambos os Domenichelli se encararam por alguns segundos.
— Você está blefando. — Vicenzo argumentou, mas não parecia tão certo disso. Talvez ele conhecesse o bastante da filha para ver a verdade nela. — Ninguém nessa ilha apoiaria essa loucura, eles sabem que eu sou o único e verdadeiro Dom.
Roxanne comprimiu os lábios, aquela postura condescendente que Barnes conhecia tão bem estava lá, a forma como as sobrancelhas femininas se moveram era a expressão de um grande e debochado “será?”.
Vicenzo hesitou, calado, como se estivesse analisando sua interação com todas as pessoas a sua volta naquele último ano. Ele sabia que não tinha mais poder algum, isso ficou bem claro em sua fisionomia.
— O senhor pode escolher o que lhe for mais conveniente. — Roxanne deu de ombros de forma displicente. — Uma coisa ou outra, não importa para mim, não preciso de você, do seu apoio ou de sua aprovação em minha empreitada. — Ela ergueu o queixo de novo. — Acredite ou não eu já sou a rainha desse império. Quer pagar pra ver?
Os olhos negros focaram em Vicenzo, quase como se o estivesse desafiando a arriscar e pagar muito caro por isso. Bucky admitiu para si mesmo que havia algo de muito sexy em ver Roxanne Domenichelli colocar um velho decrépito em seu devido lugar.
— Eu sou o seu pai. — O antigo Dom acusou, como se a posição de progenitor desse a ele direitos irrefutáveis, como se aquela simples palavras de três letras o colocasse em um patamar tão alto que ele não precisava respeitar ou amar a filha, mas ela tinha o dever de fazer tudo isso por ele, sem nunca reclamar. Mesmo que ele não fizesse sequer o mínimo por ela e ainda a tratasse como lixo.
— Você é. — Roxanne respondeu de forma prática. — E esse é o único motivo pelo qual ainda está vivo.
Bucky soube que era a absoluta verdade. E pelo visto Vicenzo se deu conta disso também, estava bem explícito em seu olhar.
— Você tem até o Ferragosto para tomar uma decisão, Papa. — A Donna finalizou. — Aposentadoria, ou guerra?
Estava prestes a deixar a sala quando o antigo Dom teve a audácia de retrucar:
— Strovalenko vai saber disso.
Roxanne sorriu, quase como se aquilo já fosse esperado.
— É claro que vai. A sombra dele está a meu lado o tempo todo. — Ela apontou para o Soldado Invernal displicentemente. — Pretendia que isso soasse como ameaça? Ah, Papa, não me diga que a idade te fez ingênuo? Quem o senhor acha que ele vai apoiar? Você, o homem que ele mal suporta por educação? Ou eu, a futura esposa? Acha que ele vai preferir se casar com uma herdeira ou com uma rainha?
Foi um argumento forte o bastante para desestabilizar Vicenzo, porém Bucky não estava tão certo que Viktor Strovalenko aceitaria tão bem aquilo tudo, e talvez a própria Roxanne também não tivesse essa certeza. Mas ela era uma ótima mentirosa.
— Isso não vai acabar bem para você, Roxanne. — O velho decretou, como quem joga uma maldição. — Está se aliando as pessoas erradas.
Vicenzo claramente falava de Strovalenko, mesmo assim um arrepio desconfortável correu o corpo de Barnes, afinal era ele próprio a pessoa errada a quem Roxanne estava se aliando de verdade....
— Bom... tal pai, tal filha. Não é isso que dizem? — A Donna respondeu com um sorriso cruel e o mais velho franziu as sobrancelhas.
As alianças erradas do antigo Dom haviam destruído aquela família.
— Até o Ferragosto, não esqueça. — A italiana decretou, dando a conversa por encerrada e fazendo um gesto para Bucky. — Vamos, Soldado.
Ele saiu atrás dela imediatamente, deixando Vicenzo para trás.
Para Barnes era absolutamente incerto se aquela conversa teria o efeito esperado, será que Roxanne estaria pronta caso o pai declarasse guerra?
A seguiu escada acima, sendo puxado para o quarto feminino de forma apressada, para que a porta atrás deles fosse fechada logo em seguida.
Era a primeira vez que entrava naquele cômodo desde o dia em que havia conhecido Roxanne. Foi algo estranho e tolo de se pensar naquele momento, mas foi inevitável.
— Olha, isso foi... — Bucky começou, tentando colocar algumas palavras no silêncio antes que sua mente criasse alguma ideia perigosa que o fizesse cair em tentação.
— O que você estava pensando?! — Roxanne o interrompeu em um sussurro exasperado.
— Como? — Ele franziu as sobrancelhas sem entender.
— Segurando a mão do meu pai daquele jeito. — Ela revelou ainda no mesmo tom.
— Eu estava defendendo você. — Barnes rebateu da forma mais óbvia possível.
— As custas do seu disfarce? — A indignação da italiana era clara, seus sussurros tinham pretensão de serem gritos, o que tornava a coisa meio engraçada.
— Strovalenko mandou o Soldado Invernal te proteger, estou perfeitamente dentro do disfarce. — O mover de ombros despreocupado de Barnes fez com que a morena revirasse os olhos exageradamente.
— Viktor nunca te mandaria me proteger do meu próprio pai, na verdade ele inclusive adora que eu seja disciplinada. — Ela argumentou, cruzando os braços na frente do corpo. — Você apenas reagiu, não pensou no que estava fazendo, pensou?
Não, ele de fato não havia pensado em nada.
— Seu pai não sabe as coisas que Strovalenko falou pra mim, então está tudo em ordem. — Jogou as palavras como se estivesse tudo sob controle.
Não era bem verdade, afinal Strovalenko sequer havia pedido que Roxanne fosse protegida de nada, qualquer conversa casual entre Vicenzo e Viktor poderia revelar isso. Se é que o patriarca Domenichelli já não estava ciente daquilo.
De fato Bucky colocou tudo a perder... Mas foi por um motivo plausível, tudo bem que ele tinha dito a si mesmo que não podia se preocupar com Roxanne, porém não ficaria parado enquanto ela levava um tabefe do próprio pai, certo? Aquilo era o básico, faria o mesmo por qualquer pessoa.
Não era pessoal.
— Você está arriscando muito por motivo algum, Barnes. — A italiana acusou, meneando a cabeça, claramente desaprovando as atitudes do ex-Soldado.
— Por motivo algum? — A indignação de Bucky escorreu por suas palavras. Eles ainda falavam aos sussurros. — Ele estava prestes a te dar um tapa na cara!
— E daí? — Roxanne devolveu da forma mais simples e banal possível. Como se estivessem falando de algo corriqueiro.
Barnes franziu as sobrancelhas, seus olhos gélidos focando nas íris escuras e o entendimento vindo aterrador. Não podia ser...
— Ele já fez isso antes?
Roxanne desviou o olhar e respirou fundo, o desconforto naquele gesto sendo toda a resposta que Bucky precisava.
Mas que merda.
— Olha só, James... — O tom dela mudou para algo apaziguador e quase doce. — Eu acho que você devia rever sua decisão, se você não tem autocontrole diante das coisas que meu pai faz comigo, então você com certeza não tem estômago para estar aqui quando o Strovalenko vier.
Barnes tentou ignorar o pressentimento ruim que revirou seu estômago.
— Queria que eu ficasse parado enquanto ele te machucava? — Tentou defender sua atitude.
— É exatamente isso, James. — Roxanne assentiu neutra. — Eu te disse que não preciso ser protegida por ninguém, então contenha sua necessidade empírica de ser um herói, porque aqui na Sicília isso não vale de nada. — Ela focou nos olhos dele novamente. — Estamos trabalhando em prol de um objetivo e temos que escolher nossas prioridades a cada passo.
— E sua integridade física não é uma prioridade por acaso? — Bucky rebateu de imediato, havia essa irritação crescente nele, nem o próprio era capaz de decifrar o motivo.
Roxanne parou, a forma como o olhar dela apagou totalmente, a melancolia pareceu tomar conta dela, sua postura naquele instante se assemelhava a de um adulto prestes a dizer para uma criança de cinco anos que Papai Noel não existe e que naquele natal não haverá nenhum presente.
— Eu pensei que você fosse um pouco mais esperto que isso... — Ela soprou constrita. — Você acha honestamente que um tapa é a pior coisa que já aconteceu comigo? A minha integridade física foi a primeira coisa da qual eu abri mão nesse caminho.
A verdade atingiu Bucky como um soco no estômago, dolorido e cruel, as palavras disseram muito mais do que o óbvio e um frio estranho se alastrou por seu corpo, a pontada aguda cortando seu coração de forma dolorida.
Inferno...
Ele começou a suar frio, uma sequência macabra de imagens povoando sua mente. Como demorou tanto para se dar conta?
A pior parte foi notar que Roxanne vivia aquela realidade absolutamente sozinha, porque para o mundo ela era a Donna, perfeitamente no controle todo o tempo, uma imagem de força e poder.
“A minha integridade física foi a primeira coisa da qual eu abri mão nesse caminho.” Essa frase assombraria Bucky Barnes tão cruelmente quanto seus próprios pesadelos.
E ele tentou abster, empurrar aquilo para o fundo da mente. Não se importar, porque sabia que não devia, mas foi inevitável...
— Eu sinto muito, James. — Roxanne soprou, seu tom difícil de decifrar naquele momento. — Eu obviamente cometi um erro quando pensei que você teria estômago para lidar com isso. Vou providenciar seu transporte para um lugar seguro e tranquilo até que tudo acabe.
Como ela podia simplesmente agir como se nada daquilo fosse grande coisa?
Barnes não sabia se admirava aquela força, ou se ficava irritado com o senso de preservação quase nulo de Roxanne.
Tudo isso por alguém que ela sequer sabia se ainda estava vivo? Será que valia a pena?
— Eu não vou pra lugar nenhum. Temos um acordo, lembra? — Ele declarou por fim.
— Acordos mudam. — Roxanne rebateu firme. — Eu não posso permitir que seus instintos heroicos acabem se tornando um problema para a minha causa e para a sua própria segurança.
Bucky cruzou os braços, de repente ele se deu conta que estava mesmo correndo o risco de ser afastado da Sicília. De jeito nenhum permitiria que isso acontecesse...
... porque tinha uma missão dada pelo Alto Conselho, é claro. Esse era o único motivo pelo qual queria permanecer na ilha.
— Então você vai me mandar embora como se eu fosse um cachorro vira-lata, é isso? — Ele jogou e sequer precisou fingir sua indignação.
— Eu estou tentando te manter vivo, você podia ser um pouco mais agradecido. — A Italiana devolveu no mesmo tom.
— Quem é que não está contendo a necessidade empírica de ser um herói agora, hein? — Ele acusou em um misto de deboche e sarcasmo.
Roxanne revirou os olhos teatralmente.
— Acredite, não tem absolutamente nada de heroico em mim.
Azuis e negros se encontraram, Barnes soube que havia convicção genuína nas palavras da Donna, ele não sabia o que devia pensar disso.
Por um lado, de fato ela não era uma heroína, a natureza de suas atividades criminosas a fazia por definição o oposto disso, ainda assim, Roxanne Domenichelli estava abdicando da própria integridade física pela simples esperança de achar um irmão que podia ou não estar vivo. E isso não era por si só um ato heroico?
— Então me deixe ficar. — Ele rebateu, torcendo para que aquilo lhe servisse de argumento. — Para de tentar salvar minha vida, se o Strovalenko me descobrir, que seja, ele vai pensar que a programação do Soldado acabou de dar defeito e vai fazer o que achar melhor. Você sabe muito bem que nada disso vai recair sobre você, eu serei o inimigo número um dele e pronto. Talvez seja até bom pra você e a sua causa.
Roxanne ficou calada por alguns instantes, analisando Barnes como se quisesse entender algo importante sobre ele.
— Por que você está fazendo isso, James? Você sequer precisa. — Ela ponderou, mas não havia desconfiança em sua voz, apenas admiração talvez.
— Bom, você mesma falou, eles foderam com a minha vida. Vingança não é um bom motivo? — Ele tentou usar os argumentos que a Donna mesmo havia dado dias antes. — Eu não vou conseguir ficar sentado em um lugar seguro enquanto a organização nazista que me torturou por noventa anos cresce sorrateiramente dentro da sociedade outra vez.
Aquele final era parte da verdade, porém haviam mais alguns detalhes ali. A versão curta justificava a motivação de Barnes com algo simples, ele tinha uma missão do Alto Conselho pra cumprir e ficar na Sicília era um meio para o fim.
A versão longa... Bom, nem o próprio Barnes conseguia entender direito suas motivações reais.
Ou talvez ele só não quisesse admitir ainda, porque seria um problema dos grandes, e Bucky sabia bem disso.
A última coisa que precisava naquele momento era se envolver em um conflito moral...
— Você tem que parar de tentar me salvar, proteger, defender, ou seja lá que outra palavra nobre esteja no seu vocabulário, entendeu? — Roxanne advertiu, aceitando a coisa de vingança. Ela própria era motivada por isso afinal. — Se prepare para coisas ruins, James, porque elas vão vir.
Aquele conselho soou mórbido demais, mas Bucky tentou abster do desconforto que isso lhe causou.
— Entendi, Donna. — Ele tentou trazer um pouco de humor para a conversa, para espantar aquele clima pesado. — Posso fazer isso, se você parar de tentar salvar minha vida, que acha? Também não preciso ser protegido.
Estendeu a mão direita como se estivesse propondo um novo acordo.
— Certo. São termos aceitáveis pra mim. — Roxanne se deu por satisfeita, aceitando o aperto de mão que Barnes ofereceu.
— Ótimo. — Ele assentiu, tentando ignorar as sensações que aquele simples toque lhe proporcionou.
Foco na missão, Bucky...
— O que acha que seu pai vai fazer agora? — Perguntou, apenas para focar em algo mais útil.
— Não importa. — A Donna interrompeu o contato dos dois e se afastou alguns passos. —Meu pai é uma peça fora do tabuleiro há tempos, James. Qualquer atitude dele agora é mera burocracia.
— Não acha que ele pode revidar? — Se surpreendeu um pouco com o quão calma e segura Roxanne estava.
— Ele pode tentar, mas não vai encontrar apoio na Sicília para isso. — Ela explicou com um dar de ombros. — Eu cuidei de colocar os poucos homens que ainda o seguiriam no exército de Viktor e se eles planejarem algo contra mim eu saberei.
— Frank não está infiltrado apenas no time do Strovalenko... — Bucky deduziu certeiramente e a Donna assentiu com um sorriso simples.
Francesco Greco era mesmo um dos homens de maior confiança dela.
— Na verdade, meu pai não tem escolha a não ser se aposentar e ficar em segurança, sob os meus cuidados.
— E é exatamente isso que você quer. — Barnes tentou não parecer tão surpreso quando disse aquilo.
— Eu quero que ele esteja por perto quando eu trouxer o Damian de volta. Quero que ele veja que eu reconstruí tudo que ele destruiu. Seja a família ou os negócios. — Roxanne explicou e havia um certo tom esperançoso em sua voz. — Um dia ele ainda vai dizer que sente muito.
Barnes entendeu então, e foi bem triste e revoltante ver as coisas com clareza... Roxanne havia reconstruído um império do crime, feito um exército ser leal a ela e, ainda assim, estava esperando o amor e a provação de um homem que nunca lhe daria essas coisas...
Um pensamento mórbido cortou a mente de Bucky naquele instante: Se Damian estivesse morto, Roxanne estaria fazendo tudo aquilo por nada então.
Afinal, já que ela claramente nunca teria o amor do pai e, já talvez nunca recuperasse o irmão, a única coisa que lhe restaria seria o império do crime. Exatamente aquilo que Bucky estava ali para destruir.
Ele se sentiu repentinamente doente com essa percepção. Era como se todos os seus ossos estivessem congelando de novo. No fim daquilo tudo Roxanne o odiaria de um jeito ou de outro, não é?
Porque ou ele arrancaria dela a única coisa que havia sobrado, — o tal império do crime, — ou, caso tudo que ela queria desse mesmo certo, Bucky então acabaria por arrancar a própria Donna do seio de uma família que ela tanto sonhava em reunir, e a jogaria direto na prisão...
— Agora é melhor você ir. — Ela declarou neutra. — Ficar tanto tempo aqui no meu quarto pode levantar suspeitas.
— Para todos os efeitos eu sou o Soldado Invernal, eu poderia ficar a noite toda aqui nesse quarto com você e isso não levantaria suspeitas de ninguém. — Barnes respondeu sem pensar muito, porque ainda estava um tanto desnorteado com seus próprios pensamentos.
Ele só notou o duplo sentido dentro daquela frase quando a expressão no rosto bonito de Roxanne denunciou isso.
— Acho que vou incluir a extinção dos seus flertes no nosso acordo de estadia. — Ela acusou, mas havia um quê de diversão em sua voz e covinhas em suas bochechas.
Era péssimo que Barnes gostasse tanto de ver aquela mulher rir de suas bobagens.
— Nada disso, já apertei sua mão e tudo, devia ter pensado antes, agora é tarde demais para mudar as condições do acordo. — Ele rebateu, e embora seu bom-humor não fosse totalmente verdadeiro era proposital. Queria ver um sorriso no rosto da italianinha, nem que fosse por apenas um instante. — Além disso, admita que você se diverte com os meus flertes, já te vi rir algumas vezes, inclusive.
Roxanne revirou os olhos, e tentou parecer impassível, mas os adoráveis furinhos em suas bochechas a denunciavam.
Barnes se sentiu péssimo naquele conflito interno, como podia gostar tanto de ver alguém sorrir se ele seria o motivo pelo qual essa pessoa perderia tudo que havia construído?
Um império de crimes, ele tentou lembrar, mas mesmo suas noções de certo e errado pareciam confusas agora.
— Pode ir, Soldado. — Roxanne abriu a porta e o mandou embora, mas havia um sorriso honesto e bonito em seu rosto.
A vida nunca pareceu tão injusta...
Bucky saiu, tentando abster de tudo aquilo, tentando voltar a ser prático. Não podia se envolver ou se importar, o problema é que talvez fosse meio tarde para tentar impedir essas duas coisas de acontecerem.
Já estava em um conflito moral, não é?
E o que faria então?
Ele não sabia, talvez fosse a hora de achar um jeito e ligar para os Estados Unidos...
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