Notas iniciais
E aqui estou com mais um capitulo dos dilemas morais de Bucky Barnes kkkk Vamos ver o que esse povo da Sicília vai aprontar hoje.. Boa leitura!

Durante todos aqueles dias ali na Sicília, uma coisa começou a ficar cada vez mais clara para Bucky Barnes: Roxanne Domenichelli tinha absolutamente tudo sob controle. Mesmo os mais simples imprevistos pareciam absolutamente dentro do planejamento dela. Era como se a Donna tivesse um alfabeto inteiro de planos.

Então, vê-la com as duas mãos apoiadas na mesa de madeira, com o maxilar contraído de irritação e uma ruga de profunda preocupação no meio da testa era uma novidade para ele.

— Me diz de novo, como foi que isso aconteceu? — Ela estava brava, isso era explícito, mas mesmo nesse instante em que aquele problema inesperado havia explodido bem diante de seus olhos, ela ainda tinha uma voz controlada enquanto falava com um de seus subordinados.

— Foi como eu falei, Donna, ele não apareceu para seu passeio matinal depois do café e eu não o encontrei mais depois disso. — O cara respondeu, os olhos assustados de quem sabe que fez merda. — Me desculpe, não era algo que nenhum de nós esperava. Ninguém previu que seu pai fosse sair da ilha no meio da noite sem dar explicação...

Essa era a crise inesperada que Roxanne tinha nas mãos, Vicenzo Domenichelli havia desaparecido depois de limpar todos os três cofres da mansão. O dinheiro — uma pequena fortuna, suficiente para bancar uma boa vida por muito tempo — não era o problema, é claro. As únicas quantias mantidas nos cofres que o ex-Dom tinha acesso eram provindas dos pagamentos de Strovalenko, sendo assim, todo o capital oficial da Donna ainda estava intacto e seguro.

No entanto, ver o pai escapar de suas mãos, dois dias depois que o confrontou sobre a liderança da máfia, havia abalado Roxanne de forma visível.

— Ninguém previu... — Ela declarou com um suspirar profundo que parecia servir para reunir paciência. — Mas era por causa exatamente dos imprevistos que você estava incumbido de vigiar meu pai.

— Eu sei, Donna. Me desculpe. — O homem tinha o olhar baixo e parecia tremer da cabeça aos pés. — Estou disponível para qualquer punição que a senhora achar adequada.

Roxanne revirou os olhos, deixando que seu corpo caísse na cadeira atrás da grande mesa de mogno da vinícola.

— Já é punição o bastante que um velho de sessenta anos tenha escapado de você. — Ela declarou com um menear de cabeça entediado. — Saia daqui, fique a postos para receber ordens de Niccolo sobre as próximas etapas da busca.

— Sim, Donna. — O homem respondeu, deixando o escritório logo em seguida, depois de lançar um olhar assustado para Barnes, que estava parado em sua postura militar perto das estantes, fingindo ser o Soldado Invernal.

Assim que ficaram sozinhos, Bucky fechou a porta e saiu de seu papel, se jogando em sua poltrona de costume.

— Acha que ele está mentindo pra você? — Perguntou, analisando a aparência pensativa de Roxanne.

— Não. Eu acho que ele simplesmente subestimou meu pai. — Ela soprou, puxando um papel de cima da mesa e fazendo com que sua cadeira rodasse no eixo e ficasse de frente para a janela. — Acho que eu subestimei meu pai.

Ela leu o bilhete pelo que devia ser a décima vez, desde que o encontrou no escritório da mansão. Naquele ponto do dia até mesmo o próprio Bucky já havia decorado as curtas palavras do patriarca Domenichelli para sua filha.

“Fique com essa organização falida, com essa ilha ridícula e com essa casa velha. Tem razão, preciso me aposentar, ser o Dom nunca valeu o esforço.

Mas jamais me sujeitarei a seus termos. Se esse bando de idiota aceitou você, eles valem bem menos do que eu esperava.

Até nunca mais, Roxanne.
Vejo agora que me enganei sobre você. Nunca foi digna de ser minha filha. Devia ter morrido junto com aquela traidora da sua mãe.”

E era apenas isso. Essas foram as últimas palavras que a Donna teve do próprio pai. A julgar pelo teor daquele bilhete Roxanne estava bastante controlada até...

Barnes tinha passado metade daquelas horas pensando se havia algo que ele pudesse fazer, e a outra metade do tempo ele passou desejando ter quebrado o braço do antigo Dom aquele outro dia na mansão.

Logo depois que a fuga de Vicenzo foi descoberta, a Donna convocou uma reunião emergencial. O próprio Bucky pôde estar presente ao lado de Niccolo, enquanto Corinne e Francesco participaram por chamada de vídeo.

Já era de conhecimento de Roxanne que Vicenzo havia entrado em contato com seus antigos homens, Frank havia reportado isso no dia anterior, porém mesmo os que ainda eram leais ao patriarca Domenichelli não estavam dispostos a apoiar uma tomada de poder.

A Donna pensou que, depois de ver que não tinha aliados, seu pai finalmente cederia e aceitaria os termos dela, uma aposentadoria pacífica. No entanto ele achou uma terceira opção... Ele fugiu.

Corinne se ofereceu para voltar imediatamente para a Sicília, mas Roxanne não permitiu, disse que ela devia continuar com seu tempo em família. Nick montou uma equipe de busca e envolveu as Mamas, porém tanto Frank quanto a própria Donna achavam aquela empreitada inútil.

Vicenzo não seria encontrado.

Ele não havia fugido para buscar aliados e então voltar para destronar Roxanne. Ele fugiu, porque aquilo era a única coisa que realmente atingiria sua filha.

A Donna podia lidar com uma guerra por poder, podia lidar com qualquer confronto sorrateiro de seu pai. Ela tinha um exército a disposição e planos para basicamente qualquer coisa. Menos para o desprezo de Vicenzo.

No fim, o patriarca Domenichelli conhecia a filha muito bem...

Ele fez a única coisa que a atingiria de verdade.

Ao menos era isso que Francesco havia dito durante a reunião, com um tato invejável ao falar do assunto.

Bucky ainda lembrava do olhar no rosto de Roxanne, da decepção evidente e da dor que ela ocultou por trás da raiva.

Um dos objetivos finais dela desmoronou ali; seu pai não cederia, ele não ficaria seguro sob os cuidados da filha para ver quando ela trouxesse Damian para casa, ele nunca diria que sente muito.

Vicenzo tirou de Roxanne a última coisa que ele podia, sua própria presença e submissão.

— Talvez Francesco esteja errado. — Bucky tentou argumentar, incomodado com o silêncio e aproveitando que pela primeira vez no dia os dois estavam ali sozinhos. — Talvez seu pai tenha roubado todo aquele dinheiro para buscar por um trunfo para te derrubar.

A hipótese já tinha sido discutida na reunião, mas Barnes achou que dar um pouco de esperança para Roxanne seria melhor que nada. Mesmo que essa esperança significasse também uma guerra iminente.

Ela riu sem humor, ainda estava de costas para ele, a cadeira virada para a janela.

— Francesco não está errado. — A Donna respondeu e sua voz parecia um lamento. — E você também não estava...

— Eu? — Barnes repetiu, as sobrancelhas franzidas sem entender.

— Sim, aquele dia que treinamos juntos você me disse que sentimentos eram uma fraqueza e que eu me deixava levar pela raiva e parava de pensar. Você estava certo. — Roxanne explicou em um tom duro. — Eu não pensei direito sobre Vicenzo, porque ele é meu pai. Meus sentimentos me atrapalharam.

Barnes jamais imaginou que a Donna lembraria de um conselho que ele deu dias antes, no meio de uma luta. Imaginou menos ainda que ela acabaria interpretando aquilo de um jeito tão amplo e autocrítico.

— Não foi isso que eu quis dizer... — Ele tentou corrigir. — Eu me referia sobre uma luta corpo a corpo. Seus sentimentos te tornam humana e uma líder melhor.

Realmente acreditava nisso, afinal Roxanne era uma mulher descente. Algo estranho pra se dizer da rainha da máfia... Por isso ela era uma contradição tão grande e jogava Barnes no meio de um conflito moral com o qual ele ainda não conseguia lidar.

— Será? Eu cometi um erro estratégico grave, James. — A Donna declarou pensativa. Sua cadeira ainda virada para a janela, de modo que Bucky não podia ver sua postura. — Baseei todo meu curso de ação no pressuposto de que meu pai se importaria o bastante com a Sicília ou... comigo... e por isso escolheria ficar por perto.

Havia uma decepção clara no tom dela, além de irritação e algo mais que Barnes não conseguia decifrar no momento. Mas não pareciam sentimentos que Roxanne estava direcionando para Vicenzo, ela estava brava consigo mesma.

Bucky conhecia a sensação esmagadora de sentir o peso das próprias ações, já havia lidado com a culpa, se fosse honesto ainda lidava de vez em quando... Não parecia certo que a Donna passasse por isso, Vicenzo Domenichelli foi um maldito escroto.

Ela não tinha culpa disso.

— Ele não se importava com nada, então simplesmente pegou o dinheiro e partiu. — A italiana continuou, quase como se estivesse falando consigo mesma. — Ele não vai trazer a guerra até mim. Ódio ainda é um sentimento forte. Ele escolheu me dar desprezo. É pior que nada eu suponho. Não sou digna o bastante nem para ser inimiga dele.

Aquela última frase teve um efeito estranhamente doloroso em Barnes. Ele havia passado aqueles dias tentando convencer a si mesmo que não se importava com a Donna, que qualquer flerte que trocou com ela depois que treinaram juntos foi apenas coisa simples de convivência, humor tolo para passar o tempo.

Naquele exato instante sua certeza sobre isso estava começando a minguar.

— Roxanne... — Procurou algo para dizer, não sabia de onde vinha a urgência em fazer a italianinha se sentir melhor, mas... porra, ele não tinha sangue de barata, não é?

Era empatia básica, só isso.

— Preciso pensar em um curso de ação agora. Na forma certa de contar isso ao Viktor... — A Donna não deixou que ele formulasse frase alguma. — Eu preciso realmente ficar sozinha, James. Será que você pode...

— Claro. — Ele se colocou de pé, no fundo agradecendo por ser dispensado daquele jeito.

Era melhor assim.

Distância era o jeito mais fácil para não se importar...

Bom, ao menos foi isso que ele disse para si mesmo enquanto saía do escritório e fechava a porta. Porém estar fisicamente longe de Roxanne não fez com que sua mente se afastasse dela.

Bucky tentou se convencer que sua preocupação era puramente “profissional”, a Donna estava encarando a fuga de seu pai como uma derrota, e uma derrota dela era, por tabela, uma derrota do próprio Barnes, certo?

— Besteira... — Murmurou para si mesmo, enquanto deixava o galpão e caminhava para o grande casarão do vinhedo. Talvez fosse hora de parar de negar as coisas como um garotinho e encará-las como um homem. Tinha cem anos afinal.

Vicenzo Domenichelli não mudaria em nada a Operação Roleta Russa, o único motivo para que a fuga dele irritasse Bucky era porque estava explicito que isso havia abalado Roxanne.

Negar o problema claro que tinha em mãos não faria nada disso sumir.

Barnes respirou fundo, se não pudesse ser honesto consigo mesmo, então seria honesto com quem?

Tinha deixado aquela italianinha contraditória entrar na sua cabeça, e querendo ou não, estava preocupado com ela. Era isso. Teria que encarar o problema de frente e achar uma solução para ele.

Tentou arrumar as coisas de um jeito lógico; Roxanne Domenichelli era a rainha da máfia, mas ela também não era a pior pessoa do mundo, certo? Talvez houvesse uma forma de equilibrar aquilo para que se importar com ela não fosse um problema para a Operação Roleta Russa...

Barnes encontrou certa paz nessa pseudo-solução, principalmente quando notou que a oportunidade que havia buscado naqueles últimos dias enfim estava diante de seus olhos.

Com a fuga de Vicenzo, Niccolo montou missões de busca, sendo assim muitas das Mamas não estavam na vinícola naquele dia. Conseguir um telefone no casarão não seria difícil.

Além disso, com os preparativos do Ferragosto e a temporada de exportação de vinhos, Barnes sabia que várias ligações tinham sido feitas para os Estados Unidos. Uma chamada a mais passaria despercebida...

Com isso em mente, ele fez questão de ser visto por uma das poucas Mamas ali, indo para o sentido oposto, longe do casarão, em direção aos vinhedos, apenas para voltar depois, furtivamente, entrar por uma janela e conseguir um telefone. Foi muito mais fácil do que ele esperava.

Trancou a porta do cômodo em que estava e fechou as cortinas, nada de ser flagrado por outra italiana.

Depois de checar pela segunda vez que estava seguro ele enfim fez a ligação. Talvez encontrasse um meio termo para seus dilemas morais com aquela conversa...

A voz conhecida atendeu no segundo toque.

— Sam... — Bucky soprou o mais baixo que podia.

— Ah, meu deus, Bucky! — Wilson exclamou em alto e bom som do outro lado da linha. — Eu não acredito, graças a Deus. Onde você está? Você está bem?

Barnes acabou rindo daquele claro tom de urgência.

— Como vai senhor, Barnes? Estávamos preocupados com seu estado. — Uma voz feminina invadiu a ligação, e a julgar pelos sons de fundo o telefone tinha acabado de ser colocado no viva-voz.

— Essa é a Valentina? O que ela está fazendo com você, Sam? — Bucky questionou com um franzir de sobrancelhas.

O Capitão América não tinha conexão com o Alto Governo, aquele encontro só podia ser sobre assuntos da Operação Roleta Russa.

— Estávamos exatamente planejando uma ofensiva para encontrar você. — Wilson respondeu, corroborando a teoria. — Rastreamos Strovalenko e vimos que você não estava com ele. Pensei que estivesse morto. Ou pior...

A frase ficou sem fim, mas Barnes entendeu perfeitamente. Sam pensou que a Hydra havia colocado do Soldado Invernal de volta na criogenia.

Essa certeza de que havia alguém preocupado o bastante com seu bem estar, pronto para atacar a Hydra só pra resgatá-lo, fez com que Bucky sentisse uma gratidão indescritível. Algo que ele nunca seria capaz de colocar em palavras, mas que certamente significava muito para ele.

— Estou bem, mas as comunicações são limitadas. Não tenho muito tempo, inclusive. — Relatou, tentando ser o mais suscinto que podia. — Estou na Sicília.

— Com a Máfia Italiana? — Sam acertou de imediato, e seu tom confuso foi perceptível.

— Strovalenko ordenou que eu ficasse a serviço da noiva dele. — Barnes explicou, olhando através da cortina para ver se ainda estava seguro e oculto ali.

— Que merda... — A voz de Walker também veio através do telefone. — Ele está preso bem longe do alvo principal.

Bucky riu de canto quando notou que Sam devia ter infernizado a vida de Valentina para que ela conseguisse uma equipe de resgate. Não que John Walker fosse lá de grande utilidade, mas talvez fosse o melhor que o Alto Conselho tinha disponível no momento. Ele era um super soldado afinal.

— Vamos preparar uma operação para extrair você agora mesmo. — Wilson decidiu.

Barnes entendia que ficar na Sicília não estava nos planos iniciais para aquela missão, porém não precisou pensar muito antes de responder:

— Não, Sam. Eu estou bem... Na verdade, acho que estar na Sicília pode ser bom, Roxanne Domenichelli também tem interesse pessoal em derrubar o Strovalenko e algumas informações relevantes.

— Ela quer derrubar o próprio noivo? — Tanto Sam quanto Walker falaram quase ao mesmo tempo.

— É uma história longa que não tenho como explicar agora. Só liguei para dizer que a Operação Roleta Russa está de pé e que eu ainda estou focado em conseguir as informações que precisamos para prender Strovalenko. — Bucky explicou rapidamente. — Descobri que existem muito mais chefões da Hydra escondidos e várias outras bases comandadas por eles. Esses idiotas são bem mais fortes do que pensávamos. Não podemos agir contra o Strovalenko antes da hora, ou todos os outros membros vão desaparecer no mundo e isso nunca vai acabar de verdade.

— Espera... — Valentina tinha o tom de quem mata uma charada. — Sabe de tudo isso porque fez uma aliança com a noiva de Strovalenko?

Bucky fez uma careta involuntária ao ouvir Roxanne ser chamada daquele jeito.

— Eu tive que improvisar no caminho, mas ninguém sabe meu verdadeiro propósito aqui. — Ele explicou, achando que não era o momento de entrar em detalhes. — Roxanne tem sido uma boa fonte de informação. Acho mesmo que ela pode ajudar.

Talvez o certo fosse contar que a italiana era agora a Donna, e que tinha uma missão de vingança e resgate. Porém Barnes não abriu a boca para dizer nada disso...

Por que?

Nem ele mesmo saberia responder.

— Bom, é só uma garota, provável que queira fazer a coisa certa, podemos arrumar um acordo caso ela seja útil para a Operação. — Sam ponderou em voz alta e de repente aquilo parecia solução divina. Bucky quase respirou aliviado, quase, porque o restante da frase veio em tom divertido logo em seguida. — Não é como se ela fosse a líder da máfia, ela é só a filha do líder. Não é?

Barnes engoliu em seco. Se sentiu estupido. O governo nunca ofereceria um acordo para a rainha de uma das organizações criminosas mais famosas do mundo.

— Eu não seria tão ingênua a ponto de acreditar que a garota é uma santa. Inclusive existe uma infinidade de lacunas no passado dela. — Valentina completou séria e Bucky se sentiu estranhamente desconfortável. — Além disso, estamos falando de uma Domenichelli. Ela Aprendeu a mentir antes mesmo de respirar. Cuidado, Barnes.

— Não se preocupe comigo, sei minhas prioridades. — Rebateu em um tom frio, as palavras impregnando nele como veneno. — Só queria avisar que estou bem e que a Operação talvez demore mais que o esperado. Entrarei em contato novamente quando for possível.

— Certo. Obrigada, Sargento Barnes. — Valentina se despediu do outro lado da linha.

— Boa sorte, Bucky. — A voz de John veio logo depois.

Barnes estava tão tenso naquele momento que sequer pensou em revirar os olhos para o jeito amigável de Walker.

Em algum ponto daqueles últimos dias chegou mesmo a pensar que entrar em contato com o Estados Unidos ajudaria a resolver o conflito em que se encontrava, porém aquela ligação serviu apenas para reforçar o motivo do tal conflito...

Como pôde ser tão idiota?

— Buck... — Wilson soprou do outro lado da linha e a oscilação dos ruídos provou que ele se afastava dos outros, além de ter tirado o celular do viva-voz. — Tem certeza que está bem? Podemos abortar a coisa toda.

— Estou, Sam. — Barnes fez o melhor para soar firme. — A coisa com a Hydra é grande, tem gente inocente envolvida, preciso continuar isso.

— Olha, sei que tem capacidade de julgamento. Mas não se deixe enganar, certo? — Sam aconselhou do outro lado da linha, no tom de quem pode decifrar por entre coisas não ditas. — Pode ficar confuso estar tão perto dessa gente, porque mesmo em um antro de pessoas ruins você pode acabar encontrando traços de bondade.

— Foi isso que você viu na Karli, “um traço de bondade”? — Bucky não quis ser tão sarcástico quando respondeu, porém as palavras escaparam de sua boca antes que ele pensasse no quão idiota soaria.

— Não é a mesma coisa. Karli estava lutando por algo maior que ela. Estava disposta a morrer por suas convicções inclusive. O problema é que ela estava fazendo isso do jeito errado. — A resposta veio calma, naquele tom que era bem característico do novo Capitão América. — Mas não se engane, Bucky, você está no meio da máfia. É uma organização criminosa, certo? — Ele parecia genuinamente preocupado agora. — Odeio admitir, mas talvez Valentina esteja certa, não sei que tipo de acordo tem com a noiva de Strovalenko, mas cuidado, essa gente odeia o governo. Se souberem que você está infiltrado...

— Não vão saber. — Barnes garantiu, porque ele mesmo já havia pensado nisso.

— Cuidado, por favor. — Sam pediu em despedida.

— Não se preocupe. — Foram as últimas palavras de Bucky antes que ele desligasse o telefone.

Ficou parado dentro daquele cômodo fechado mais algum tempo, odiava admitir que buscou aquela ligação por motivos totalmente egoístas. Precisava de um pouco de paz de espirito, e se iludiu achando que Sam Wilson seria a pessoa a lhe dizer palavras reconfortantes...

O que queria de verdade era saber que talvez houvesse um jeito de deixar Roxanne de fora de tudo aquilo. Queria ouvir de alguém confiável que a Donna não era como a família que a cercava ou como a reputação que precedia a organização que ela chefiava...

Porque, no fundo, Bucky Barnes ainda sabia que não podia confiar na própria mente...

O que encontrou do outro lado da linha, no entanto, foi uma verdade muito mais impactante; enquanto estava ali na Sicília tendo pensamentos nada puritanos com a rainha da máfia, flertando com ela, esquecendo de suas prioridades óbvias e se divertindo com toda aquela distração. Sam Wilson, o Capitão América, seu único amigo vivo, estava prestes a pular de cabeça em um confronto com a Hydra apenas porque pensou que Bucky estava em perigo.

Então como Barnes poderia fazer menos do que se dedicar cem por cento àquela missão?

Não era apenas sobre o Alto Conselho. Era uma questão de princípios, Bucky tinha que fazer a coisa correta.

Além disso, provavelmente Sam estava certo, aquele traço de bondade que havia em todo lugar estava bagunçando a percepção de Barnes. Ele estava se deixando levar pelo convívio e estava esquecendo da realidade ao seu redor. Aquilo era uma organização criminosa.

Bucky passou a mão pelo rosto em um gesto de frustração. Talvez fosse hora de encarar a verdade. A atração que tinha por Roxanne estava nublando sua mente. Só podia ser isso, era de conhecimento comum que tesão tinha esse poder...

Respirou fundo, deixando a sala tão furtivamente quanto havia entrado, voltando para o mesmo caminho e propositalmente passando na frente da mesma Mama na volta para que assim ele tivesse um álibi caso a ligação para os Estados Unidos fosse questionada.

O restante do dia ele procurou se ocupar, fazer algo útil, um trabalho braçal de preferência, talvez o ajudasse a colocar as ideias no lugar...

Barnes sabia que tinha suas cotas de “merdas” feitas nas horas que o tesão batia; beijos nada inocentes dados escondidos; a mão por baixo da saia de garotas com as quais saía em encontros, mas não pretendia casar; a lábia para convencer algumas delas a se ajoelhar diante dele para algo bem diferente de uma oração; as fodas tórridas com outros soldados em lugares onde poderiam ser facilmente flagrados pelo restante do pelotão. Coisas que podiam até parecer pouco para alguém do século XXI, mas que seriam um completo escândalo nos anos 40.

Bucky não era um santo e ele sabia disso.

Então estar atraído por uma mulher bonita não era grande coisa. Realmente não era. O problema estava no fato de que essa tal mulher bonita fosse justamente uma mafiosa. A líder da máfia mais precisamente.

Mas podia lidar com o tesão.

Não é?

Barnes odiou não ser capaz de dar uma resposta firme para essa pergunta.

Durante o restante do dia ele fez uma lista mental de medidas de “contingência”. Ficar o menor tempo possível perto de Roxanne; não flertar com ela em hipótese alguma mais, coisa que já devia ter parado de fazer, inclusive; evitar contato visual; evitar conversas engraçadinhas ou desnecessárias... e mais uma porção de itens.

A lista longa foi dando a Bucky alguma confiança, de modo que, ao fim do dia, quando encontrou com a italianinha outra vez, ele realmente achou que podia lidar com a presença dela sem ser afetado.

No entanto essa confiança tola começou a minguar já dentro do sedan, enquanto ele dirigia de volta para a mansão Domenichelli...

Mas não tinha a ver com a lista.... claro que não.

Era mais sobre o silêncio sepulcral lhe deixando incomodado.

Certo, talvez tivesse sim a ver com a lista.

Afinal não podia flertar, jogar conversa fora ou sequer olhar para a mulher a seu lado. Isso deixava o clima absurdamente estranho e não havia nada para quebrar o silêncio que parecia sufocar Bucky segundo a segundo.

Que merda.

Ele batucou os dedos no volante, de forma impaciente. Odiava aquela sensação. Estava acostumado com o silêncio, por que então isso passou a lhe incomodar justo naquele instante?

Realmente tentou abster, acelerar um pouco mais apenas para chegar mais rápido, porém sua mente lhe lembrou que havia algo que precisava ser conversado.

Algo relativo à missão. Portanto zona neutra.

— Decidiu o que vai falar para o Strovalenko? — Não queria que sua pergunta tivesse soado tão ansiosa, mas esse tom acabou escapando por entre uma ou outra sílaba.

O olhar escuro de Roxanne pousou em Bucky, ele tentou abster da euforia estupida e instantânea que isso causou em si e manteve sua própria atenção na estrada.

— Nada. — Ela disse finalmente, voltando seu olhar para a paisagem também. — Não posso falar nada. Se eu contar para ele sobre o sumiço do meu pai, então terei que contar os motivos que levaram meu pai a fugir. Isso tira o seu trunfo.

— Meu trunfo? — Bucky perguntou, suas sobrancelhas franzindo um pouco.

— Quando Viktor vier, e não vai demorar muito agora, porque ele provavelmente vai estar aqui no Ferragosto, é você quem vai contar a ele sobre eu ser a verdadeira líder da máfia italiana. — Roxanne respondeu neutra, e Barnes tentou conter a reação de desgosto absoluto de saber que Strovalenko estaria ali em tão pouco tempo. — Já tínhamos combinado isso, lembra?

— Sim, mas... — Ele não terminou a frase.

No fundo pensou que Roxanne mudaria os planos. A fuga de Vicenzo com a fortuna de Strovalenko era algo bem importante afinal.

— É como eu disse, não posso falar sobre meu pai sem explicar o motivo da fuga. É você quem precisa contar sobre eu ter assumido a liderança da Sicília, porque sem isso, você não vai ter nada realmente importante para dizer ao Viktor. Mentir para ele, ou inventar segredos pouco comprometedores, seria arriscar demais. Se você não tiver informações que provem que é útil aqui ele vai te levar embora. — A Donna delineou seu raciocínio de forma mais clara. — E, já que ele não vai querer o Soldado Invernal por perto roubando os holofotes...

Ela focou os olhos em Barnes e ele desavisadamente fez o mesmo, encarando dentro das íris negras para encontrar uma inquietação que não devia existir. Como poderia não se preocupar com Roxanne se ela demonstrava esse mesmo sentimento por ele em várias ocasiões?

Desviou o olhar rapidamente, tentando fugir daquela pergunta.

— Ele vai te colocar na criogenia de novo, James. — As palavras femininas vieram desconfortáveis. Isso realmente incomodava a Donna.

Bucky tentou dizer a si mesmo que Roxanne estava apenas projetando nele a situação com o irmão, que não era pessoal.

Mas essa desculpa não lhe trouxe qualquer frieza ou afastamento.

Pessoal ou não, Roxanne se preocupava com ele. E tirando Sam, que estava disposto a enfrentar uma organização nazista para resgatá-lo, Barnes não podia dizer isso de basicamente ninguém vivo.

— Melhor que seja você a contar a ele sobre minha liderança e sobre meu pai. Isso vai te fazer mais útil exatamente onde você está, porque vai reforçar que não sou confiável o bastante. — A Donna continuou, arrumando sua postura e voltando a encarar a paisagem. — Eu posso lidar com o que vier depois. Não é certo que meu erro com meu pai prejudique você.

Bucky se remexeu desconfortável, as palavras lhe atingindo muito mais do que ele gostaria. Roxanne estava pensando nele antes de pensar em si mesma. Não era burro, sabia que Strovalenko não receberia bem a notícia de que sua noiva era a líder da máfia e havia guardado segredo sobre isso, seria ainda pior quando a fuga de Vicenzo fosse revelada...

Barnes podia não entender ainda a forma como o líder nazista de merda costumava lidar com Roxanne, mas a julgar pelo que a própria dizia, não era bom.

Sendo assim, a Donna estava abrindo mão do próprio bem estar para que Bucky não corresse o risco de ser levado para a criogenia de novo.

Saber disso com tanta clareza tornava muito difícil não cair em conflito...

— Achei que tínhamos concordado que você pararia de me proteger. — Ele declarou um tanto frio, enquanto repetia mentalmente que um “traço de bondade” não mudava nada.

Roxanne era a líder de uma organização criminosa. Essa era a verdade.

Porém a verdade parecia tão “pouca coisa” diante das palavras doces e postura preocupada daquela italianinha...

— Concordei... — Ela soprou, então deu de ombros. — Mas menti. Faço muito isso. Acostume-se.

Aquela frase trouxe de imediato as palavras de Valentina de volta para a mente de Bucky. “Ela aprendeu a mentir antes mesmo de respirar.” Ele quase riu da ironia disso, porque quando a Condessa disse, naquele tom tenso, pareceu de fato algo terrível. Porém quando a própria Roxanne confirmou isso com todas as letras, pareceu tão... atraente.

Ele não planejou pousar os olhos na figura feminina, mas também não lembrou que havia se comprometido a não fazer isso. Quando se deu conta já estava focado nas íris abissais, que tinham acabado de parar nele também.

Que inferno.

— Você é um dos meus homens e está sob a minha proteção, esse é o único acordo que importa. — Roxanne declarou no tom de quem dá uma ordem que não pode ser refutada.

Aquilo teve um impacto imediato em Barnes. Ele apertou o volante com mais força como se estivesse se agarrando à própria sanidade, seus olhos voltando para a estrada rapidamente, agindo como alguém que precisa dirigir concentrado porque não possuí reflexos aguçados e extremamente confiáveis.

Porque ele com certeza não podia confiar em uma parte de si mesmo naquele instante...

— Exceto que eu não sou um dos seus homens. — Respondeu, fingindo não estar duelando com seu próprio desejo. — Não foi isso que você disse?

Pela visão periférica viu quando Roxanne revirou os olhos teatralmente.

— Vamos discutir analise morfológica das palavras agora, James? — Ela fez um movimento displicente com a mão esquerda. — Você ficou na Sicília por ideia minha, seguindo um plano que eu montei, e eu sou a Donna, então você é um dos meus aliados de ocasião e, enquanto for assim, não posso permitir que meus erros se tornem consequências que te prejudiquem. Fim. Faria isso por qualquer um ao meu redor. É o meu dever.

Bucky respirou fundo, tentando se concertar naquela penúltima frase. Roxanne faria aquilo por qualquer um, ele não era especial, não era mais importante que ninguém. Não era pessoal.

Ajudou um pouco com qualquer dose de desejo inoportuno que estivesse correndo pelas veias dele naquele instante, porém não ajudou em nada quando se tratava daquela admiração crescente que vinha ganhando espaço em Barnes nos últimos dias.

Aquilo não era um “traço de bondade”, aquilo era ter uma índole descente. Uma parte da Donna que apenas alguém próximo a ela conseguiria enxergar...

Essa constatação não trouxe qualquer alívio a Bucky, porque sendo assim, ele não poderia levar a opinião de Sam totalmente em conta, afinal Wilson só sabia o que estavam em arquivos, e aquilo sequer era um terço da verdadeira Roxanne Domenichelli.

Ou seja, Barnes estava sozinho nisso. Teria que confiar na própria mente.

— Além disso, eu posso lidar com o Viktor. — A italiana prosseguiu, alheia a todos os dilemas internos que Bucky enfrentava naquele momento. — Apenas certifique-se de não bancar o herói e vai dar tudo certo.

— Eu não gosto do rumo quer isso está tomando. — Ele respondeu, e foi quase como uma nota mental, enquanto passava com o carro pelos portões automáticos da mansão.

— Eu nunca disse que você ia gostar. — Roxanne rebateu em um tom despreocupado.

E talvez esse fosse exatamente o problema. Ela se preocupava muito pouco consigo própria, com o próprio bem-estar ou segurança.

Isso fazia com que Barnes se sentisse impelido a suprir essa falta de autopreservação da italianinha.

Ele tinha que se preocupar com ela, já que a própria nunca fazia isso por si mesma.

— Sabe, no meu país temos uma expressão para nos referirmos a pessoas como você... — Bucky comentou de repente, seu tom descontraído um tanto improvisado.

Estacionou o sedan no lugar de sempre sem pressa.

— Megera? — Roxanne tentou adivinhar e isso arrancou um sorriso involuntário dele.

— Maníaca por controle. — Corrigiu ganhando um longo revirar dos olhos negros.

— Sou a rainha da máfia, como você bem gosta de dizer, ser “maníaca por controle” está embutido no trabalho. — Ela deu de ombros como se fosse algo sem importância.

— Olha, se isso é uma questão de trabalho você está precisando de verdade tirar um dia de folga. — Bucky retrucou em uma resposta involuntária.

Não pretendia ser tão descontraído, não pretendia arrancar uma risada honesta de Roxanne e, com certeza, não pretendia que seu coração tivesse saltado meia dúzia de batidas por causa disso.

Mas suas pretensões de nada importaram, essas três coisas aconteceram...

Desligou o motor do carro, seus olhos gélidos encontrando as íris escuras de Roxanne na penumbra do veículo. Ela soltou o cinto devagar, três segundos de silêncio completo, embora tenha parecido bem mais...

Um instante parado no tempo, onde a ausência de sons não incomodou em nada. Qualquer lista mental que Bucky passou o dia montando simplesmente sumiu, cada um de seus dilemas morais parou de importar, ele teria jogado tudo isso para o alto se pudesse apenas tocar em Roxanne Domenichelli.

Foram apenas três malditos segundos...

Só isso, e um dia inteiro de debate interno foi deixado de lado.

Quando Roxanne abriu a porta e quebrou o magnetismo do momento, Bucky piscou algumas vezes. E se tivesse analisado toda aquela situação da forma errada?

Ele não se permitiu responder a essa pergunta, mas ela ficou em sua mente no decorrer das próximas horas; durante o jantar; no tempo que levou para organizar a cozinha; quando se despediu de Roxanne no corredor; durante o banho extremamente longo que Bucky tomou; e madrugada adentro, enquanto rolava de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir...

O relógio sobre a cômoda indicava duas e meia da manhã, Barnes estava deitado, suas costas contra o colchão macio, os lençóis revoltos ao redor de seu corpo semi nu, ele vestia nada além de uma boxer azul marinho, a mão de vibranium apoiada displicentemente sobre o abdômen definido e os olhos gélidos focados no teto.

Tinha mesmo analisado toda aquela situação da forma errada, não é?

— Vamos, Bucky, admita... — Sussurrou, irritado consigo mesmo. — Não é só tesão...

Talvez fosse, no começo. Com certeza era, quando entrou no quarto ao lado pela primeira vez e encarou aquela italiana linda em uma lingerie reveladora. Mas agora...

Não era só isso.

Porque o tesão e a própria natureza da missão fizeram apenas com que Bucky tivesse que prestar muita atenção na Donna. E foi assim que ela, sorrateira e despretensiosamente, começou a se infiltrar nele, com pequenas gentilezas e atos nobres, através de longos olhares e risadas que ele mesmo roubava dela, nas mínimas coisas e nas grandes também. Nas respostas atravessadas, nas ordens não dadas, no respeito evidente, na proteção velada.

Roxanne Domenichelli se infiltrou, não apenas na mente de Bucky Barnes, mas também... no coração dele.

Era isso, não era?

Tinha sentimentos por ela...

Por isso se preocupava, mesmo quando dizia a si mesmo para não fazer. Por isso queria a atenção dela a qualquer custo, podia ter sido apenas ego ferido antes, mas não era mais. Por isso era tão fácil falar com ela, flertar com ela, estar perto dela. Por isso qualquer lista ou convicção não conseguia resistir a três simples segundos.

Tinha sentimentos por Roxanne Domenichelli...

Não era apenas tesão. E tesão por si só já seria bem complicado, tirar aquela italianinha da cabeça já custaria a sanidade de Bucky. Mas tirar ela do coração... Que merda.

Ele jogou as pernas para fora da cama, agarrando sua calça de moletom que estava jogada por ali. Precisava urgentemente de ar.

Tinha sentimentos pela Rainha da Máfia...

E isso era a pior coisa que podia acontecer com ele.

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O mar batia nas rochas lá embaixo, seu barulho era reconfortante de alguma forma, e a escuridão da madrugada fazia daquela visão algo estranhamente atrativo para Roxanne Domenichelli.

Existia algo de muito solitário ali naquela paisagem; a madrugada escura, o vento frio, as ondas tremulando calmas. Tudo parecia um pouco mais melancólico. E Roxie sabia que parte desse sentimento estava nela apenas, mas essa era exatamente a magia... Não existia nenhum outro lugar no mundo que pudesse refletir suas próprias emoções tão bem quanto a vista daquela sacada.

Parecia algo ridículo para se pensar, mas era exatamente assim que Roxanne se sentia, ali, no seu santuário particular, no meio da madrugada, ela acreditava de verdade que era parte de algo maior, como se a ilha fosse uma extensão dela, e ambas compartilhassem sempre o mesmo sentimento.

Uma bobagem, a Donna sabia disso, mas não deixava de ser reconfortante. Aquela casa, aquela ilha, aquela vista... tudo isso estava nas veias dela. Seu lar. Não havia absolutamente nada no mundo que fizesse Roxanne Domenichelli se sentir daquele jeito. Pertencente.

Talvez fosse apenas um efeito colateral de ter sido afastada daquele lugar tão cedo, porque o sofrimento de não estar ali a consumiu por anos e anos. Até que se esqueceu do motivo pelo qual sofria e quase aceitou que todas as pessoas no mundo se sentiam daquele jeito. Mas foi só o perfume de maresia invadir seu olfato, quando ela retornou, que a convicção simplesmente tomou conta de Roxie. Aquele era seu lar, era disso que sentia falta.

Ela tentou focar nessas crenças naquele momento em particular, porque caramba, tinha sido um péssimo dia. Passou a noite inteira convencendo Corie, Nick e Frank que estava bem, que tinha tudo sob controle, mostrando para eles que a fuga de seu pai não afetaria os planos. Que ela não estava abalada com isso. Repetiu tantas vezes que os convenceu.

Gostaria de ter convencido a si mesma também.

A fuga de seu pai foi uma derrota amarga, um golpe direto em seu coração. A prova de que ele não nutria qualquer sentimento de carinho pela própria filha...

E Roxanne disse a si mesma e a todos os outros que não importava, que não era uma surpresa, que não fazia a menor diferença porque ela sempre soube quem Vicenzo Domenichelli era de verdade.

Ainda assim... Aquela merda doía.

Uma dorzinha ardida e pesada que não se sabe de onde vem, mas que toma conta de tudo como uma avalanche. A pior parte é que Roxanne sabia que não devia estar surpresa, porém isso em nada mudava sua decepção.

Ela apoiou sua taça de vinho no parapeito da sacada, logo ao lado da garrafa e do seu celular, respirou fundo, o relógio marcava duas e quarenta, sequer havia tentado dormir ainda.

Depois que se recolheu, por volta das dez, havia falado com seus conselheiros por mensagem e depois tomou um longo banho, vestindo um baby doll preto, composto por duas peças. A parte de cima toda feita em renda, emoldurando o corpo de Roxanne em uma lingerie que descia pelo abdômen e parava acima do umbigo. A parte de baixo era um shorts curto e mais leve, que mesclava seda e renda de forma delicada. Ambas as peças estavam cobertas por um robe de tule levemente transparente.

A Donna respirou fundo, puxando a taça para sorver um gole da bebida alcoólica com calma. As vezes queria desligar a mente por alguns minutos. Isso seria ótimo... Mas nada do que Roxanne havia tentado no decorrer da vida funcionou, depois que se tornou Donna ficou ainda pior. Sua mente estava sempre trabalhando.

Estava prestes a pousar novamente sua taça sobre o parapeito, quando uma movimentação a sua esquerda chamou-lhe a atenção. James Barnes tinha acabado de abrir as duas portas que davam acesso a sua própria sacada...

Cerca de seis metros separavam os dois cubículos com beirais feitos de madeira envernizada, cada uma das sacadas com pouco mais de dois metros, ambas lado a lado, com vista privilegiada do mar.

Roxanne nunca tinha imaginado Barnes como um homem que ficava parado em sacadas, mas ele fez exatamente isso, pousou as mãos sobre o beiral e respirou fundo, usava nada mais que uma calça de moletom, como no dia em que ela o encontrou no escritório da mansão. Seus músculos definidos banhados pela luz da lua minguante e algumas cicatrizes espalhadas por seu dorso nu.

A Donna ficou surpresa de não ser notada ali logo de imediato, porém isso era justificável, porque James parecia um tanto perturbado naquele momento, como alguém que está fugindo de uma batalha que não pode vencer. E embora fosse uma visão enigmática e magnética, quase como uma obra de arte esculpida pelas mãos de um artista em sua crise mais genial, ela não achou certo observar aquele momento sorrateiramente, parecia íntimo, por isso limpou a garganta, para que o som alertasse Barnes.

Os olhos azuis seguiram na direção de Roxanne, pareciam o próprio mar revolto naquele momento. A atenção do americano desceu pelo corpo feminino devagar, quente de uma forma que não parecia certa em uma noite tomada por aquela brisa tão fria. Então ele riu de canto, como se alguém tivesse acabado de soprar uma piada irônica em seu ouvido. Uma péssima piada que ainda assim não conseguia deixar de cativá-lo.

Roxie pensou em algo apropriado para dizer, porém nenhuma palavra lhe veio à mente. Não era a primeira vez que os dois acabavam se encontrando em trajes quase íntimos, mas ela simplesmente sabia que não era um bom momento para isso acontecer, não ali na sacada de seu quarto, não naquele dia em particular. Era exatamente o lugar e o instante em que ela estaria mais vulnerável.

Sabia que o prudente era desejar boa noite, dar meia volta e entrar em seu quarto. Ainda assim, Roxanne ficou parada exatamente no mesmo lugar, seus olhos presos no mar revolto nas íris de Barnes, enquanto ele se movia em direção ao beiral lateral da sacada, para ficar de frente para ela.

Havia algo no ar, como se a intensidade de James estivesse emanando e tomando conta de tudo. Os olhos negros de Roxanne desceram devagar pelo corpo masculino, passando pela barba rala, seguindo o contorno da mandíbula, pelo pomo de adão proeminente e pelas clavículas, escorregando pelos ombros largos e braços, focando na forma como os dedos dele se fechavam contra a madeira do beiral, ambas as mãos com características tão opostas e ao mesmo tempo tão másculas...

James Barnes era um homem incrivelmente bonito.

Quer dizer isso era visível, mas a beleza dele era menos óbvia também, porque Roxanne esteve cercada de homens lindos por toda a vida, e nunca viu beleza real neles, sempre foi sobre detalhes para ela, sobre as coisas por trás das palavras, sobre os pequenos gestos. Aquele americano estupidamente velho era bonito demais, não apenas por ter um corpo conservado no sofrimento da criogenia e mantido com um supersoro cruel, a beleza dele estava também nas pequenas coisas.

E talvez fossem exatamente os pequenos detalhes que o tornavam um perigo tão grande naquele exato momento.

Porque a metáfora de dias antes seguia sendo real, James Barnes era, assim como seus olhos oceânicos, um mar revolto no auge da ressaca, atraente e misterioso, com um pingo nada moderado de perigo, puxando qualquer coisa para o fundo. E se afogar nunca pareceu tão bom.

Roxanne levou a taça de vinho aos lábios, desejando que o álcool borrasse essas ideias tolas. A aliança em seu dedo anelar parecia apertar e pesar mais do que nunca aquela noite.

Barnes acompanhou o movimento dela com olhos atentos, ele ainda se segurava no beiral, quase como se estivesse tentando impedir a si mesmo de fazer algo impulsivo e tolo.

Pois é, Roxie com certeza conhecia essa sensação.

Ele meneou a cabeça, rindo de canto e ela pude jurar que ouviu um “ah foda-se” ser soprado no ar, segundos antes que James, em um movimento rápido, pulasse de uma sacada para outra. Um salto de praticamente seis metros, antes que ele pousasse perfeitamente no cubículo em que a Donna estava.

Ela parou de respirar enquanto James cortava a distância entre os dois em passos decididos, seu coração saindo totalmente do prumo, o ar estrangulado em seus pulmões e as palavras perdidas no fundo de sua garganta.

Ele estava tão perto agora que era como se seu perfume pudesse vencer o cheiro de maresia, menos de meio metro, os olhos azuis intensamente presos nos negros, a mão de vibranium seguiu para o beiral de madeira e Barnes se apossou da garrafa de vinho, para então dar um longo gole direto do gargalo.

Roxanne acompanhou, um tanto hipnotizada, quando uma pequena gota rubra escorreu do canto dos lábios masculinos e desceu pelo corpo dele, atravessando peitoral, escorregando pelo abdômen definido e seguindo por um caminho perigoso e tentador que os oblíquos externos faziam. Caminho da felicidade, era assim que alguns colegas da classe de anatomia chamavam.

— Obrigado... — A voz um pouco rouca de James puxou Roxie bruscamente de volta para a razão.

Ele pousou a garrafa de vinho onde estava antes, um sorriso de canto em seus lábios, como se tudo aquilo fosse algo perfeitamente comum e corriqueiro de se fazer. Roxanne não queria, mas acabou rindo, meneando a cabeça algumas vezes, mal conseguindo acreditar naquela situação.

— Sabe que isso foi uma exibição desnecessária da sua parte, não é? — Ela acusou, pousando sua taça no parapeito e mantando sua mão esquerda sobre a madeira. — Existem portas nessa casa.

— Se eu tivesse batido na porta do seu quarto você teria aberto? — James retrucou no tom presunçoso de quem já sabe a resposta.

Seus olhos gélidos queimaram o corpo de Roxie, deslizando através do robe de tule e focando em todos os lugares que a pele dela estava quase exposta pela transparência do tecido.

— Claro que não. — A Donna respondeu, tentando ignorar o efeito que aquela encarada tão explícita tinha em seu corpo. Ela moveu a mão direita, estalando os dedos na altura de seu próprio decote em um gesto rápido. — Meus olhos estão aqui em cima, Sargento.

Ele riu de canto, um som sensual de diversão saindo do fundo de sua garganta, o tipo de atitude despreocupada e descolada que teve impacto diretamente entre as coxas de Roxie.

O olhar dos dois se encontrou por alguns segundos e Barnes tornou a se apossar da garrafa de vinho.

— Se você não pretendia abrir a porta, então não foi uma exibição desnecessária da minha parte. — Ele disse finalmente, se afastando um pouco dela, para encostar-se no beiral lateral, por onde tinha acabado de pular.

Apoiou os cotovelos e as costas na proteção de madeira, esticando as pernas para melhor se acomodar, o movimento deixando seu abdômen e aquele caminho de músculos ainda mais em evidência.

Inferno de americano. Roxanne desviou o olhar, sorvendo um gole de vinho enquanto encarava o mar escuro lá embaixo.

Ela gostaria que a atenção de James tivesse seguido para qualquer outro lugar, mas suas íris continuaram no corpo dela daquele jeito ardente que falava muito mais do que qualquer palavra.

— Teve outro pesadelo? — A Donna perguntou casualmente, quando o silêncio começou a ficar sufocante.

Barnes tinha dito, no dia em que ela o encontrou no escritório da mansão, que seu gatilho para voltar a si foi um pesadelo, por isso Roxanne presumiu que esses sonhos perturbadores eram frequentes. Isso explicaria a postura dele quando saiu do quarto ainda há pouco.

— Algo assim... — Ele moveu os ombros antes de dar um gole na garrafa de vinho.

O olhar dos dois se encontrou de novo, mas Roxanne não conseguiu decifrar aquela resposta.

— E você? Algum motivo especial para estar acordada essa hora? — James devolveu a pergunta. — Foi um pesadelo?

Roxanne sorriu, claro que não entraria em detalhes sobre sua insônia.

— Algo assim... — Ela se limitou a repetir as exatas palavras de Barnes, como se isso fosse uma piada interna.

Ele sorriu também, entendendo a ironia ali e erguendo minimamente a garrafa como quem faz um brinde, para então beber o vinho. A Donna virou sua taça, sorvendo o último gole, antes de apoiar o objeto de cristal sobre o beiral de madeira.

— Devia reconsiderar o que eu disse sobre um dia de folga. — James declarou casualmente. — Você com certeza merece a felicidade disso.

Roxanne franziu minimamente as sobrancelhas, podia contar nos dedos as pessoas que já haviam dito que ela precisava de uma folga, mas não se lembrava de uma só que houvesse afirmado que ela merecia felicidade.

Nem a felicidade de um simples dia livre, nem felicidade alguma...

Na verdade, a própria Roxie não pensava algo assim há anos. Ela sabia que merecia muitas coisas; o direito de governar a máfia, a vingança sobre a Hydra... Mas felicidade?

Não.

A última vez que Roxanne Domenichelli acreditou que merecia felicidade, ou algo minimamente parecido com isso, ela tinha quatorze anos. Presa em um internato muito longe de casa, isolada do mundo, cercada por pessoas que a odiavam, nas mãos de um maldito que fez questão de deixar bem claro que meninas como ela não mereciam absolutamente nada de bom.

“Ninguém vai vir salvar você, porque ninguém se importa.”

Bom... ela se salvou sozinha então...

E agora era tudo passado, não importava mais.

Meneou a cabeça, espantando as lembranças e desconsiderando as palavras de James. Seria inútil argumentar sobre felicidade e merecimento, havia muito que ele nunca saberia sobre ela.

— Pode me devolver meu vinho? — Pediu, apontando a garrafa que o americano mantinha cativa.

Ele sorriu de canto, se desencostou do beiral e caminhando na direção de Roxanne como um predador. Ela sentiu todo o ar do ambiente ser sugado, James Barnes era mesmo uma maldita obra de arte, uma tão magnética que focar em qualquer outra coisa parecia impossível.

A cada passo Roxanne se tornava absolutamente ciente da proximidade deles, as coisas sumindo de sua mente, todas as sombras em seu pensamento sendo banhadas pelo azul gélido dos olhos oceânicos de James. Pois é... se afogar seria mesmo agradável.

Ele parou perto demais, dentro do espaço pessoal dela. Curvou a garrafa de vinho e encheu a taça, não que Roxie tivesse visto, ela até gostaria de ter olhado para qualquer outra coisa, mas a verdade é que não conseguia abandonar os olhos azuis. Estava encarando a paisagem de sua sacada por horas naquela madrugada, todavia isso não lhe trouxe metade da calmaria que o mar revolto encapsulado nas íris de James Barnes deu a ela naquele instante.

Ele pousou a garrafa de vinho sobre o beiral de madeira, mas não se afastou, ficou exatamente onde estava, esperando em silêncio que Roxanne bebesse. Porém ela também não se moveu, sua respiração indo e vindo muito devagar.

Os segundos escorreram entre eles, nada além do som distante das ondas quebrando com suavidade nas rochas e do vento cantando através das areias da praia lá embaixo.

Os cabelos de Roxanne balançavam na brisa gelada, serpenteando uma das mechas direto no rosto dela e fazendo com que os fios grudassem em seus lábios. Ainda assim ela não se moveu. Estava tentando guardar a calmaria azul e a ausência de sombras em sua mente, capturar aquele exato instante como quem captura vagalumes em potes de vibro.

O toque gelado do vibranium roçou nos dedos femininos quando James tirou a taça das mãos da Donna, ela levou um instante para processar isso, o objeto de cristal sendo abandonado ao lado da garrafa quando ele se aproximou mais um passo.

A mão direita masculina subiu para o rosto de Roxanne, e ela gostaria de dizer que a forma como os dedos suavemente ásperos acariciaram sua bochecha, colocando aquela mecha rebelde de volta no lugar, fez com que um conhecido arrepio de asco cortasse seu corpo de forma desconfortável, porque essa seria a reação padrão para a grande maioria dos toques masculinos, principalmente os inesperados, mas não foi isso que aconteceu... O arrepio ainda veio, verdade, mas um diferente, quente, confortável.

Um milhão de borboletas congeladas sacudiram as asas e aquela sensação foi tão intensa e comovente que Roxie se sentiu quebrar em um número igual de pedacinhos, como se fosse uma menina de novo, uma que ainda acredita em coisas boas.

Ao mesmo tempo, enquanto os olhos azuis acompanhavam os fios negros desgrudarem dos lábios dela, algo quente subiu pelas pernas de Roxanne, se acumulando entre suas coxas como uma promessa...

Os dedos de James deslizaram perto da mandíbula feminina, ele deu outro passo, extinguindo qualquer distância completamente, segurando o rosto dela com uma delicadeza quase irreal.

Roxie notou, com um lampejo de sanidade, o que estava prestes a acontecer ali.

— James... — Soprou em advertência, sua voz saindo em um tom quebrado. — Não devíamos fazer isso.

Não havia um único pingo de convicção naquelas palavras, era como se Roxanne nunca tivesse dado uma ordem na vida. Talvez porque aquilo não fosse uma ordem, sequer era um pedido, era apenas o que devia ser dito.

Era tudo sobre deveres afinal de contas, não era?

Barnes não se afastou mesmo assim, ele sequer se moveu, sua mão direita ainda segurando o rosto de Roxanne e seus olhos azuis nos dela.

— Por que? — Ele perguntou, como se fosse um desafio. — Me diz que nunca pensou nisso.

Ah, ela tinha pensado. Desde aquele treinamento Roxie pensou sobre isso, mesmo que não quisesse pensar. Porque sua cabeça não parava por um só minuto afinal.

E se permitisse a si mesmo a distração que parecia tão atrativa?

E se aproveitasse do alivio momentâneo de ser tocada por alguém que ela queria que lhe tocasse?

E se...

E se?

Essas duas palavras tão curtas haviam assombrado o pensamento de Roxanne Domenichelli muito mais do que ela gostaria de admitir.

Mas naquele instante não ajudaria em nada dizer isso em voz alta, ela preferiu responder a primeira pergunta de James então. Por que?

Por que o “e se” não podia acontecer?

— Porque você está louco. Porque vamos nos arrepender disso de manhã. Porque isso não vai dar certo. Porque ainda vamos ter que conviver depois. Porque você é uma maldita distração. Porque eu tenho deveres e obrigações que não condizem com isso... — Ela recitou com facilidade, afinal já havia dito aquilo em looping para si mesmas várias vezes. — Porque eu sou comprometida.

— É uma lista razoável de motivos. — James admitiu e parecia quase ridículo que tenha sorrido no meio daquela situação.

— É sim. — Roxanne afirmou, porque precisava convencer a si mesma.

Barnes moveu a cabeça como quem concorda, porém não se afastou, não a soltou, muito pelo contrário até, a mão de vibranium seguiu para o lado oposto segurando o rosto feminino com até mais delicadeza.

— Eu tenho uma lista dessas também. — Ele confidenciou. — É bem longa. Mas sabe o que é estranho? — Roxanne franziu as sobrancelhas o incentivando a continuar. — Nenhuma das nossas listas diz a coisa mais importante de todas.

— E o que seria essa coisa? — A Donna questionou, totalmente presa no magnetismo daquele homem.

— “Porque eu não quero”. — James respondeu de forma simples.

Aquela verdade atingiu Roxanne como um golpe fatal, nenhum deles tinha adicionado esse item na lista porque ambos queriam aquilo. O coração dela estava totalmente fora do ritmo, batendo tão apressado que ela jurava que ele poderia ouvir.

— Me manda soltar você. — Barnes pediu em um sopro. — Fala que é pra eu pular a sacada de volta para o meu quarto. — Ele sorriu, curvando um pouco o rosto para depositar um beijo exatamente no canto dos lábios de Roxanne, como ela tinha feito na sala de treinamento dias antes. — Diz que você não quer isso. — Era um desafio agora, dito olhos nos olhos. — Diz. — Ele fez a mesma coisa do outro lado dos lábios dela — Já que você conta tantas mentiras, então mente que não deseja esse beijo e eu até finjo que acredito.

Roxie sentia que estava derretendo nas mãos dele, incapaz de articular as palavras. Ela sabia que aquele era seu momento mais vulnerável, sabia de tantas e tantas coisas que rodavam em looping em sua lista. E ela também sabia que ele estava certo. Ela queria aquele beijo.

— James... — Tentou se agarrar a sanidade de seus propósitos, seu polegar cutucando freneticamente a aliança em seu anelar.

Barnes notou esse movimento, sua mão de vibranium abandonando o rosto dela para então segurar os dedos femininos e deslizar a aliança para fora deles, jogando a joia sacada abaixo em um momento rápido demais para ser impedido.

Os lábios dele se moveram em um sorriso vitorioso e satisfeito e Roxanne acabou rindo de forma honesta e inesperada.

— Eu te odeio, sabia disso? — Ela meneou a cabeça em reprovação, mas não conseguia impedir o sorriso de continuar em seu rosto.

Americano impossível.

— Não me odeia nada, Italianinha. — James retrucou, segurando o rosto dela com ambas as mãos novamente.

Ele se curvou sobre ela devagar, seus lábios tocando os lábios femininos suavemente, quase uma caricia apenas, sequer poderia ser considerado um selinho. A corrente elétrica que atravessou o rosto de Roxanne fez com que todo o resto simplesmente desaparecesse. Azuis e negros se encontraram quando Barnes afastou-se alguns centímetros. As respirações suspensas em expectativa.

A ponta dos dedos de Roxie tocaram o abdômen masculino, sua cabeça se movendo minimamente em concordância. A distância entre eles acabou definitivamente, seus lábios se encontrando no meio do caminho, as bocas se movendo devagar uma sobre a outra, sem pressa alguma.

A mão de vibranium deixou o rosto de Roxanne, e envolveu a cintura dela, puxando-a ainda mais para perto, como se isso fosse possível. O toque dela subiu para o pescoço de James, suas unhas na nuca dele, enquanto os dedos masculinos aos poucos se infiltravam entre os fios escuros femininos.

Pela primeira vez houve silêncio absoluto na mente da Donna, todos os seus pensamentos se calando, sumindo, afogados na sensação delirante da língua de Barnes deslizando de encontro a dela.

Havia apenas ele, como se James fosse muito maior que os poucos centímetros de altura que os separavam, como se ele pudesse ocupar um mundo inteiro com seu perfume de eucaliptos no inverno.

Roxanne estava derretendo, suas pernas bambas, seu coração frenético, seu estômago congelado e o fogo em suas veias, um delírio febril incendiando a cada movimento de Barnes. Ele a beijava com vontade e entrega, seus lábios sugando os dela vez ou outra, seus dedos da mão direita apertando os fios escuros enquanto o braço de vibranium mantinha o corpo feminino firme e colado ao dele.

O toque dela não tinha pressa, suas unhas de uma mão traçando caminhos imaginários na nuca de James, seus dedos da outra subindo pelos músculos do braço, apreciando cada tensionar que os movimentos dele geravam.

Respirar parecia absolutamente desnecessário, havia apenas a necessidade empírica de mais contato dos corpos, Roxanne tremia, cada terminação nervosa em curto de um jeito insanamente bom, o toque de James descia pelo corpo dela agora; costas e braços. A mão de vibranium ainda a segurando firme, enquanto a outra fazia seu caminho para dentro do robe de tule, procurando uma forma de alcançar a pele que estava exposta por debaixo da peça.

Ela contornava os músculos do abdômen dele com os dedos, quase como se estivesse contando cada gominho. Queimando e derretendo, tudo ao mesmo tempo. Roxanne engoliu um gemido quando o toque áspero de James alcançou a pele dela, contornando a linha da cintura, se tornando uma pegada de verdade, firme e possesiva, de um jeito que fez o corpo feminino formigar em lugares muito específicos.

Aquilo era loucura completa.

Os lábios se separaram, as respirações desconexas soprando uma na outra.

— Você vai ser minha ruína, Italianinha... — James soprou baixinho, depositando outro beijo rápido na boca de Roxanne e então outro.

Ela tentou recobrar a sanidade antes que enfiassem os pés pelas mãos. Não que isso não soasse absolutamente tentador no momento...

Escorregou seu toque pelo corpo masculino de novo, como se estivesse gravando cada músculo na memória.

— Acho que esse é um bom momento pra você usar suas habilidades incríveis de super soldado... e ir procurar a aliança que você jogou lá embaixo na areia. — Soprou contra os lábios dele em tom divertido. — Eu ainda vou precisar dela.

James riu, seus olhos azuis se abrindo lentamente e seu rosto se afastando um pouco. Eles se encararam por alguns instantes, o clima frenético os conectando. Encostou nela totalmente, pressionando um corpo contra o outro, deixando claro o quanto aquele beijo o havia afetado, já que seria impossível não notar sua ereção colada no ventre de Roxanne.

Ela prendeu o sorriso com os dentes, enquanto os olhos azuis dele escorregavam para o decote emoldurado por renda, que agora estava exposto porque o robe havia se aberto totalmente. Barnes deslizou seu toque pelo corpo feminino, indo naquela direção, mas a Donna segurou a mão dele antes que o objetivo fosse alcançado.

— Agora, Sargento. — Reforçou divertida, finalmente cortando o contato entre os dois quando se afastou alguns passos. — As cinco da manhã espero que esteja com aquela aliança em mãos, me esperando lá no corredor como todos os dias.

James sorriu de canto, o tipo de sorriso cretino que podia tirar o ar de uma mulher.

— Isso é crueldade, Roxanne Domenichelli. — Ele declarou, enquanto ela deslizava o olhar por todo o corpo masculino focando por um segundo a mais na ereção delimitada na calça de moletom, antes de pousar as íris nos olhos azuis de novo.

— Tente dizer isso sem o sorriso no rosto, James Barnes, e talvez eu acredite que foi uma reclamação. — Respondeu com um sorriso de canto, recuperando sua taça e sua garrafa de vinho e dando meia volta para entrar em seu quarto.

A última coisa que viu antes de fechar as portas da sacada foi o olhar predador no rosto másculo. Ela tentou não sorrir, mas foi inútil.

Aquele americano impossível era com certeza uma distração inesperada...

Uma grande e deliciosa distração.

Notas finais
Eu acho que eu não preciso nem dizer que esse é o meu capitulo preferido até agora, né? Amo o fato de que o Bucky tava "meu deus pior coisa que já me aconteceu na vida e agora?" e literalmente 10 minutos depois tava "e aí vamo se beija?" kkkkkkkkkkkk Tenho que confessar que fico com dó da Roxanne, porque convenhamos, ela nem tem chances QUEM resiste a um homem desse? Ele se empenha pra conseguir o que quer, é difícil gente kkkkkkkkkk Surtos a parte, esse capitulo teve coisas importantes também, a gente tá começando a ver que não vai rolar acordo pra aliviar a barra pra Roxie, o Bucky vai acabar ficando entre a cruz e a espada. É... vamos ver o que vem por aí agora. Semana de vem tô de volta. Beijos e até!