Operação Roleta Russa
20 Imprevisto
Bucky estava naquele escritório há mais tempo do que conseguia contar, ainda tremia, seu estômago embrulhado e o mal-estar persistente em todas as suas células. Benedetta havia trazido um lanche há algum tempo, porém ele não se sentia capaz de comer nada, colocaria tudo para fora, sem dúvida.
Não pensou que seria tão difícil.
Porém, aquelas horas desde a chegada de Viktor Strovalenko estavam sendo um martírio sem fim. No fundo, Barnes sempre soube que seria desconfortável assistir Roxanne posar de noiva daquele crápula, mas a Donna estava certa no que tinha dito em uma das primeiras conversas dos dois: Bucky não tinha estomago para tudo aquilo.
Ver sua italianinha pagando de enfermeira daquele maldito nazista fez seu sangue ferver, porém havia certo conforto em conhecê-la o bastante agora para decifrar o fingimento de cada palavra doce. Naquele ponto, chegou a pensar que daria conta do dia.
Mas então a primeira notícia péssima o socou direto na cara. A Hydra havia sofrido uma emboscada quando foi extrair a tecnologia Stark do DCD. Ninguém ali na sala parecia saber o que havia acontecido, mas Barnes sim... ele mesmo havia contado a Valentina sobre os planos de Strovalenko.
Na ocasião, pediu que a Condessa de Fontaine apenas realocasse a tecnologia para instalações mais seguras, porém, estava bem claro que a mulher traçou seus próprios planos. Um plano que gerou perdas para Roxanne. Um plano que fez com que Frank fosse preso.
Bucky se sentia um completo traidor, era como se fosse a mais suja das criaturas da terra. Tentou se convencer que ainda haveria um jeito de resolver aquilo, tentou se confortar com o fato de que, ao menos, Sam não estava envolvido naquela emboscada, mas nada disso aplacou o peso em sua consciência.
E aquele foi apenas o começo de toda a angústia do dia...
Se esforçou para manter o foco e a promessa que fizera a Roxanne. Mesmo com o desconforto constante, seguiu o plano e contou a Strovalenko todo o combinado com a Donna. Mas ele não estava preparado para o que veio depois.
Ver aquele maldito nazista de merda ser violento com Roxanne foi absurdamente angustiante, pouco importava que os olhos negros dela ordenassem que Barnes permanecesse no papel de Soldado Invernal. O ódio que tomava conta dele pouco a pouco era visceral e incontrolável. Mentalmente já havia matado Strovalenko cem vezes das formas mais cruéis que conhecia.
Mas ficou pior...
O próprio Bucky teve que machucar a mulher que amava. Aquilo foi o fim para ele, nunca havia se sentido tão terrível e imundo, era como se jamais fosse ficar limpo o bastante depois disso. Aquela imagem permaneceria grudada em sua mente de forma definitiva.
Pouco importava que tudo tivesse saído exatamente como planejado, a Donna parecia ter orquestrado tudo em detalhes milimétricos, mas, mesmo quando Strovalenko voltou ao escritório, momentos depois do almoço, para dizer que o Soldado Invernal permaneceria na Sicília e ficaria ainda mais atento a Roxanne Domenichelli, isso não pareceu uma vitória.
Barnes não sentia felicidade. Seu corpo era composto de ódio, angústia e arrependimento. Queria acabar com Strovalenko e todos os seus homens, então pegar sua italianinha e fugir o mais longe possível de tudo aquilo. Sem missão, sem governo, sem Alto Conselho, sem máfia, sem Hydra, sem irmão para salvar.
Podia parecer egoísta, mas não conseguia impedir esse pensamento...
A verdade era que já estava prestes a ficar louco naquele maldito escritório, foi quando a porta finalmente se abriu.
Roxanne entrou no cômodo, os olhos negros seguindo na direção de Barnes automaticamente, enquanto os dele analisavam o rosto feminino com atenção. Ela tinha um corte mínimo no lábio inferior, a bochecha estava um pouco inchada e havia esse hematoma arroxeado em sua pele clara.
— Viktor foi com os Werner verificar o estado do avião, pelo visto eles... — Ela começou, fechando a porta atrás de si, porém Bucky não permitiu que continuasse, cortando a distância entre os dois em um movimento rápido e desesperado.
— Me desculpa... — Ele murmurou, seus joelhos cedendo finalmente, um deles atingindo o chão, como se o peso do mundo fosse demais para carregar. Se agarrou as roupas de Roxanne, apenas um menino que implora por clemência. — Me perdoa...
— Hey, tudo bem... — A Donna tocou os cabelos masculinos de forma delicada, um carinho gentil, reconfortante e preocupado, que Barnes não acreditava merecer. — Eu estou bem. Tudo isso já era esperado e planejado, lembra?
Ela tentou fazer com que ele se levantasse, mas Bucky apenas se abraçou ao corpo feminino. Odiava o quão fraco estava se sentindo naquele momento, não importava quanta força tinha, quantos anos de treinamento, ou a quantidade de supersoro em seu sistema... Ele se sentia inútil.
Inútil e traidor.
— Não, nada está bem. — Foram as únicas palavras que conseguiu verbalizar.
Era como se o mundo pesasse em suas costas naquele instante, tanto pelas coisas que havia feito e que agora pareciam uma grande traição contra a mulher que ele amava, quanto pelas coisas que não podia fazer para protegê-la de tudo aquilo. Ser usado como ferramenta para machucá-la era apenas a gota d’água que fez um copo transbordar.
Aquela declaração quase mórbida fez com que Roxanne se abaixasse junto a Barnes, analisando o rosto masculino com preocupação, seus dedos delicados agora pousados sobre a barba, na altura do queixo, um olhar preocupado tomando conta dela.
— Viktor machucou você? — Ela questionou, e Barnes quase riu da ironia daquela pergunta.
A Donna não estava preocupada com nenhuma violência que ela mesma pudesse sofrer em tudo aquilo, mas a simples ideia de que um supersoldado tivesse se machucado parecia o maior crime já cometido.
— Ele machucou você, e pior, ele me fez ser o seu carrasco. — Bucky respondeu, e ter que dizer aquilo em voz alta pareceu abrir um talho de ponta a ponta em seu peito. E, a forma como o olhar de Roxanne oscilou, provou que para ela também tinha sido algo doloroso de ouvir.
A italiana o obrigou a se levantar, como se não suportasse vê-lo ali de joelhos. As duas mãos femininas estavam no rosto masculino, os corpos praticamente colados e as íris focadas apenas umas nas outras.
— Olha, eu sei que foi difícil. — Disse, compassiva e carinhosa. — E eu sinto muito ter pedido pra você fazer isso.
Era um tanto ridículo que ela fosse o foco de toda a violência e mesmo assim estivesse tão empenhada em trazer conforto para Barnes.
— Eu devia proteger você. — Ele devolveu em um fio de voz.
— Eu não preciso que seja meu protetor, James... — Roxanne devolveu calmamente, seu rosto relaxando como se achasse doce e engraçado ele ter dito aquilo. — Mas você pode ser o meu parceiro. — Ela sorriu de forma amável. — Apenas acredite que eu posso lidar com isso. Tenho tudo sob controle. A única coisa que Strovalenko realmente poderia fazer que me machucaria, seria te levar para longe de mim.
Bucky nada disse, ele até queria, mas as palavras certas haviam sumido de sua mente, totalmente esmagadas pela culpa. Era evidente o quanto a Donna se importava com ele, o quanto ela o havia colocado em um lugar de importância dentro de seu círculo de confiança.
Um parceiro. A única coisa que poderia machucá-la.
Ele podia traçar uma lista de crimes e atitudes eticamente incorretas que envolviam a máfia italiana, porém nenhuma dessas coisas tinha peso o suficiente para equilibrar a balança agora, tudo parecia nada, perto da traição que ele havia cometido.
As informações que havia repassado a Valentina deixaram tudo mais difícil para Roxanne. Custaram a vida e a liberdade de pessoas com as quais ela se importava.
E a pior parte é que Barnes não sabia como consertar aquilo.
Além disso, agora suas mentiras eram ainda mais corrosivas. Podia se ajoelhar aos pés da Donna e implorar perdão o quanto quisesse, mas isso de nada valia, porque contar a verdade naquele instante era inviável. Só atrapalharia a vida de Roxanne. Seria ainda mais filha da puta se a desestabilizasse daquela forma, quando Viktor estava ali ao lado. Ela ficaria vulnerável, e o dano que Barnes causaria ao plano de resgatar Damian podia se tornar irreversível.
Naquele instante uma coisa se tornou muito clara na mente de Bucky: quando aquilo tudo acabasse e ele finalmente sofresse a punição por seus atos, a pior parte seria ver aquele olhar terno e preocupado da sua italianinha ser substituído por ódio puro.
Perdão não era mais uma opção.
E ele sabia... a pior parte é que ele sabia....
— Viktor te disse para ficar de olho em mim? — Roxanne perguntou, focando em questões práticas, afinal desconhecia os dilemas internos de Barnes.
Ele moveu a cabeça de forma afirmativa.
— Viu? Deu tudo certo. Valeu a pena. — Roxanne declarou em tom de incentivo.
Bucky não conseguia focar naquela conversa, seus olhos enchendo de lágrimas que ele tentava a todo custo não derramar, era extremamente dolorido assistir sua italianinha abrindo mão de sua própria integridade física apenas para que os dois pudessem ficar juntos, sem que o plano pra salvar Damian ficasse em risco.
Roxanne estava lutando por eles, mas Barnes a perderia de todo o jeito no fim. Não por qualquer interferência externa, por sua própria culpa.
— James... fala comigo. — A voz feminina veio doce e preocupada, o silêncio e a postura de Barnes claramente estavam sendo dolorosos para ela.
Ele respirou fundo, seus olhos tristes presos nas íris negras.
— Não posso... — Confidenciou com a única migalha de honestidade que poderia fornecer. — Nada nobre e altruísta sairia da minha boca agora.
A verdade era vergonhosa, Bucky não queria enfrentar as consequências de seus atos, só o que ele desejava era pedir que Roxanne largasse tudo; a missão, a máfia, a Sicília, o próprio irmão. Tudo.
Por ele.
Talvez se eles fugissem, se eles corressem o bastante, as mentiras e a culpa que Barnes estava deixando para trás não os alcançasse. Se eles abandonassem o mundo, talvez houvesse como preservar aquele sentimento que eles compartilhavam dentro de uma bolha...
Mas Bucky jamais abriria sua boca para dizer algo tão egoísta, ele nunca ousaria pedir que Roxanne abrisse mão de quem era por ele. Não seria certo.
No fim, só havia um destino possível. Ele teria que se responsabilizar por seus atos e arcar com as consequências...
Mas não ainda, e isso não tinha a ver apenas com o péssimo timing, a verdade é que Barnes não era capaz de abrir mão daquela fagulha de felicidade. Ele ainda estava vivendo de momentos roubados.
— Tudo bem... Eu sei que é difícil. — Roxanne entendeu aquilo à sua própria forma, afinal não sabia o que se passava na mente de Bucky. — Se quiser se afastar disso tudo, James...
— Eu não vou a lugar nenhum sem você. — Ele declarou, antes mesmo que ela conseguisse completar a frase.
— Me desculpa te fazer passar por tudo isso. — A italiana pediu, e Barnes rapidamente segurou as mãos femininas entre as suas.
— Não. Não peça desculpas. Você é a Donna. Eu sabia muito bem quais eram suas prioridades. — Ele disse com convicção. — Não deixe que meu egoísmo manche a sua causa. Seu irmão precisa de você.
Barnes não podia deixar que sua culpa oculta magoasse Roxanne. E, se ele não podia protegê-la, podia ser um bom parceiro. Talvez, se concertasse alguns de seus erros, no fim, ela ainda fosse capaz de guardar pelo menos uma lembrança boa do tempo que eles roubaram.
— Já tem noticias do Frank? — Questionou, sabendo que trazer o italiano de volta para casa era o mínimo que poderia fazer.
— Não ainda, mas já acionei meu contato na CIA e ela vai me avisar assim que souber onde ele está. — A Donna respondeu de forma prática. Mesmo no meio do caos completo ela ainda conseguia pensar em tudo.
— Eu sinto muito que isso tenha acontecido. — Barnes foi honesto, muito mais do que Roxanne podia imaginar.
— Não é sua culpa, James. — Ela não sabia o quão enganada estava. — Eu vou cuidar do Strovalenko e dos hóspedes inoportunos dele e depois vou atrás do Frank. Até lá, precisamos confiar que ele vai saber se cuidar sozinho. É só o governo norte-americano, ele dá conta.
— Vamos trazer ele de volta para casa. — Bucky garantiu com convicção. Era questão de honra. — Eu prometo pra você.
Roxanne sorriu de forma calma, como se aquele apoio fizesse toda a diferença.
— Eu tenho que ir agora... — Ela disse simples, tocando o rosto masculino uma vez mais. — Prometo que vai ficar tudo bem. Viktor nunca fica muito mais do que dois ou três dias, depois tudo volta ao normal. Metade dos russos já partiram no jato extra, inclusive, ele mandou caçarem o meu pai.
A italiana deu meia volta em direção a porta, mas Bucky segurou a mão feminina, impedindo que ela fosse longe.
— Roxanne... — Chamou e isso fez os olhares se encontrarem. — Eu posso te beijar?
Sabia que ela poderia negar, afinal seu rosto ainda tinha as marcas do que ele foi obrigado a fazer. No entanto, a italianinha sorriu, o tipo de sorriso que poderia tirar o peso do mundo dos ombros de um homem atormentado.
— Sempre que você quiser, amore mio. — Ela assegurou.
Bucky a puxou com delicadeza, cobrindo os lábios femininos com os seus em um beijo lento, que carregava toda a angústia e desespero que ele vinha escondendo dentro do peito durante todo aquele dia. Não queria pensar no fim, na dor de ver o ódio surgir nas íris amadas. Ele queria apenas preservar aquela doce bolha de felicidade, como um soldado que usa tampões de ouvido nas trincheiras, para negar a guerra que lhe cerca...
Teria ficado ali naquele escritório beijando Roxanne para sempre, se pudesse, porém a Sicília ainda estava infestada de nazistas inoportunos e as aparências tinham que ser mantidas.
Ela se foi. Saiu do escritório para ser a Donna, para jogar aquela partida de xadrez tão bem planejada, e as horas se arrastaram no restante da tarde. Bucky teve tempo de sobra para se sentir miserável, traidor e fraco, enquanto prometia a si mesmo que compensaria Roxanne de alguma forma. Ele ainda não sabia como, mas encontraria um jeito...
Ficou totalmente sozinho até o jantar, só então o Soldado Invernal foi convocado por Strovalenko para ficar plantado na sala, como se fosse um objeto de decoração em exposição.
Bucky pousou seus olhos em Werner, o homem que tinha o poder de lhe causar calafrios, porém notou que a filha, Helga, era ainda pior. Havia algo nos olhos dela que deixava todas as terminações do Soldado em alerta de um jeito muito desconfortável.
Além disso, era muito difícil estar no mesmo ambiente que Roxanne sem poder de fato olhar para ela. Quer dizer, a bem da verdade, poder olhar talvez fosse pior, porque então teria que assistir enquanto ela bancava a noiva perfeita para Strovalenko.
Desde que havia se libertado da Hydra, Bucky nunca teve tanta vontade de matar alguém, como tinha naquele momento...
— Eu estive pensando... — Kurt Werner iniciou o assunto, enquanto bebia uma taça de vinho. — O Soldado Invernal é um recurso que poderia ser melhor empregado em outros lugares. Não acha, Viktor? Se ele estivesse conosco durante a emboscada, nossos inimigos teriam sido dizimados.
Strovalenko bateu o garfo sobre a mesa, o que acabou disfarçando a forma como a taça de Roxanne atingiu a madeira com bem mais força do que o necessário.
— Não existe nada que o Soldado Invernal possa executar, que eu não possa fazer melhor. — O líder da Hydra retrucou em tom seco. — Talvez seja hora de nossa organização parar de se apoiar no supersoro.
— Você só diz isso porque não tem uma dose disponível para tomar. — Helga rebateu com um sorrisinho superior, mas recebeu um olhar repreensivo do pai. No entanto, ela não pareceu se importar, brincava com uma pequena faca de caça sobre a mesa, como se o jantar como um todo fosse entediante.
— Eu compreendo suas convicções, Viktor. E respeito isso. — Werner declarou em tom apaziguador. — De fato precisamos crescer por nossos próprios meios e não apoiados em muletas do passado. Mas não acho justo que um recurso valioso assim seja desperdiçado.
Barnes prendeu o ar nos pulmões, devia saber que Kurt Werner tentaria de tudo para colocar suas mãos no Soldado Invernal. Aquilo era ruim, muito ruim.
— Meu noivo estar preocupado com a minha segurança não me parece um desperdício, com todo o respeito, Senhor Werner. — Roxanne rebateu em tom cordial, sua mão sobre o braço de Strovalenko como se ela fosse uma doce noiva apenas, porém seus olhos abissais brilhando assassinos.
— É claro que não, querida. — Kurt respondeu de forma lisonjeira. — Mas alguns homens armados podem proteger sua vida muito bem, você não precisa de um supersoldado. Ele pode ser muito mais útil para a Hydra de outras formas. Existem coisas que a antiga liderança era contra serem exploradas, mas com nosso novo líder, acredito que exista espaço para visões mais modernas na forma de utilizar um recurso com o potencial do Soldado Invernal.
Strovalenko franziu minimamente as sobrancelhas, seu olhar pousando na noiva por alguns segundos, então seguindo para Werner. Ele parecia ponderar. Focou no Soldado Invernal então e novamente em Roxanne. Era bastante óbvio que estava pensando sobre a italiana ser confiável o suficiente ou não, pesando os prós e contras de deixá-la ser espionada por qualquer outro guarda-costas.
Havia um conflito claro no olhar verde-veneno, afinal ele estava interessado na ideia de Werner...
Merda.
— O que tem em mente? — Perguntou, focando no alemão.
— Você tem razão, não existe nada que o Soldado Invernal pode fazer, que você ou meia dúzia de homens bem treinados não possam. O tempo das missões já passou. Mas entregue esse recurso para mim, eu vou garantir que ele seja útil de verdade. — Werner foi totalmente direto. — E em troca, vou apoiá-lo publicamente em qualquer decisão. Todos da velha guarda que ainda estiverem vivos, eu ajudo a trazer para o seu lado.
Barnes não se movia, sentia que os planos tão bem montados de Roxanne estavam desmoronando rápido demais. Strovalenko não desperdiçaria uma oportunidade daquelas.
Era a aliança que faltava para o homem atingir o topo de verdade. Ele não desconfiava da noiva o suficiente para negar e perder essa oportunidade.
Se Bucky ainda desse a mínima para a Operação Roleta Russa, aquela seria uma boa coisa, afinal ele seria levado para o coração da Hydra. Nas mãos de um maldito que não tinha escrúpulos e que sempre quis explorar o Soldado Invernal de jeitos cruéis, mas ainda assim, exatamente no melhor lugar para a missão. Porém, não dava mais a mínima para as ordens de Valentina.
Ainda assim, quanto mais rápido Viktor Strovalenko atingisse o topo, mais rápido Roxanne poderia se casar, cumprir a missão, e se livrar dele.
O que Bucky devia fazer então? Se estragasse o disfarce, fazendo qualquer coisa para impedir aquele acordo, teria que fugir, afinal não poderia ficar ao lado de Roxanne sem que ela também fosse implicada. Se mantivesse o disfarce, seria levado para longe dela, mas pelo menos poderia ser útil de alguma forma.
Talvez fosse esse o jeito de consertar tudo...
— Pensarei nisso. — Strovalenko declarou, deixando a sentença do Soldado suspensa no ar.
Bucky decidiu que fosse como fosse, ele não estragaria o disfarce. E isso nada tinha a ver com a Operação Roleta Russa. Se fosse levado para qualquer instalação da Hydra podia ser útil para Roxanne passando informações de dentro, talvez até encontrasse o irmão dela mais fácil. Era um jeito de compensar a Donna por todas as mentiras. Não que ele esperasse ser perdoado por causa dessa atitude. Mas se conseguisse, ao menos, alcançar a morte sem um olhar de ódio vindo da mulher que amava, então já estaria satisfeito.
Pouco importava o que sofreria nas mãos de Kurt Werner.
— Tenho certeza que vai ser um acordo muito proveitoso para todos os envolvidos. — Helga declarou, os olhos fixos no Soldado Invernal de uma forma que causava náuseas instantâneas em Bucky. Pousou sua faca de caça ao lado dos talheres, pouco se importando que o objeto dourado destoasse da prataria. — Posso até aprender a falar russo de forma apropriada para ajudar a cuidar de um ativo tão prec...
Antes mesmo de terminar a frase, a loira foi interrompida pelo seu próprio gritinho agudo de susto, arrastando a cadeira para trás repentinamente e se levantando toda encharcada de vinho.
— Ah meu deus, desculpe! — Roxanne pediu, pegando a garrafa que ela havia acabado de derrubar na mesa, depois de esbarrar no objeto aparentemente sem querer. — Como eu sou desastrada.
Isso colocou fim no assunto Soldado Invernal e também no jantar, entre pedidos de desculpas e uma saída estratégica de Helga para se limpar, o grupo foi se dispersando. Barnes e Roxanne trocaram um olhar curto demais para ser decifrável e logo Strovalenko estava conduzindo a italiana para o andar de cima.
— Passe a noite aqui, esperando por novas ordens. — Foi a última coisa que o líder da Hydra disse.
Bucky sequer estava surpreso por não ter permissão de subir para o próprio quarto. A bem da verdade, talvez fosse melhor não estar dividindo parede com o cômodo onde Strovalenko estaria dormindo com Roxanne. Não tinha estômago para isso.
Passou o dia todo tão consumido por culpa e angústia que sequer teve tempo de pensar sobre a pior parte de ter Viktor Strovalenko por perto. Ele era o maldito noivo, e estaria dividindo a cama com a italiana depois de um bom tempo longe.
O rosto de Barnes se contorceu em desgosto, a bile lhe subindo a garganta, a raiva borbulhando em suas veias e qualquer esperança de paz naquela noite se esvaindo dele. Não suportava sequer pensar naquilo.
Tudo ficava ainda mais triste quando ele se dava conta que era totalmente incerto se conseguiria um último segundo a sós com Roxanne, antes de ser arrastado da Sicília por Kurt Werner.
Talvez aquele momento no escritório tivesse sido o último.
Bucky tentou se consolar com o fato de que, ao menos, teria um Ferragosto perfeito para guardar na memória...
Ainda estava parado exatamente no mesmo lugar, tentando não pensar em tudo que Roxanne estaria passando no andar de cima, quando Benedetta surgiu na sala.
— Venha comer, Bambino. — Ela sussurrou, gesticulando com a mão direita. — Ninguém mais vai aparecer por hoje.
Barnes foi por puro costume, não sentia fome alguma, na verdade, seu estômago ainda estava totalmente embrulhado. Se sentou na mesa da cozinha e foi servido com um prato de massa com molho branco, que até parecia apetitoso, mas não lhe despertou desejo algum.
— Não tinha que se preocupar comigo, Benedetta. — Ele disse, sabendo que a governanta já tinha outras coisas ocupando sua mente. O filho dela estava preso afinal.
Tudo parecia ainda pior quando Bucky lembrava que era o responsável por isso...
— A Donna me instruiu. — Ela comentou neutra, dando a ele um sorriso maternal em seguida. — Além disso, eu gosto de cuidar das pessoas. — Deu-lhe um tapinha no ombro. — Você é um menino bom, Barnes.
Não sou não. Ele sabia disso com convicção, mas não era algo que poderia verbalizar.
— Eu sinto muito pelo Frank. — Pediu, mesmo sabendo que Benedetta não compreenderia o motivo exato da frase e veria apenas como educação.
— Meu filho está nisso a vida toda, não é a primeira vez que as autoridades colocam as mãos nele. — Benedetta comentou em tom neutro. — A Donna vai dar um jeito. Niccolo e Corinne já embarcaram para os Estados Unidos e vão descobrir o paradeiro do meu Francesco.
Bucky se deu conta que nem para isso aquelas pessoas precisavam dele. Ele podia ter estragado tudo, porém Roxanne e os outros lidariam com isso com maestria, com ou sem ajuda. Eles não precisavam de um supersoldado.
Percebeu que partir com Werner era mesmo a única coisa de realmente útil que poderia fazer pela Donna. A única coisa que ela não conseguiria fazer sozinha.
E talvez tenha assumido para si mesmo, naquele instante, que trazer Damian Domenichelli de volta para casa, talvez fosse a única coisa capaz de equilibrar um pouco aquela balança. Era certo que morreria de todo jeito por sua traição, sabia disso desde o princípio, porém, resgatar o irmão de Roxanne podia ser importante o bastante para que sua italianinha não o odiasse no final de tudo. Para deixar uma lembrança realmente boa com ela...
Era estúpido, Barnes no fundo entendia isso, se deixar levar pela Hydra de novo daquele jeito. Porém, tinha aceitado fazer parte da maldita Operação Roleta Russa por bem menos. Podia fazer o mesmo pela mulher que amava.
E se no fim fosse apenas uma missão suicida, se no fim morresse nas mãos de seus antigos captores sem obter sucesso algum em encontrar Damian, ainda seria um sacrifício que valeria a pena.
Por Roxanne.
— A comida está ruim? — Benedetta questionou, os olhos focados no macarrão que Bucky cutucava com o garfo sem perceber.
— Não, está ótima, como sempre, eu só... — Ele não terminou a frase, não tinha como explicar que estava se sentindo miserável.
A governanta respirou fundo, focando em Barnes com olhos cálidos e maternais.
— Ela está bem. — Garantiu, com um sorriso discreto de quem sabe de tudo.
Será que ela sabia mesmo?
Bucky não tinha como ter certeza, ele e Roxanne costumavam ser discretos em locais públicos, mas Benedetta era a governanta e conhecia a jovem Domenichelli muito bem, então...
Mesmo assim, ele não disse nada que confirmasse as suspeitas. A Donna havia pedido por segredo e, ao menos isso, ele podia fazer.
No entanto, queria perguntar como Benedetta podia ter tanta certeza que Roxanne estava bem, sozinha naquele quarto com Viktor Strovalenko. A governanta pareceu ler aquela pergunta nos olhos azuis dele.
— As noites são seguras para ela, bambino. — Respondeu em tom baixo. — Roxanne é médica, ela conhece gotinhas milagrosas que fazem um homem dormir a noite toda e acordar sem lembrar exatamente o que aconteceu. Ela vai para o banho e quando volta ele já está apagado. Demorou um tempo para conseguir a rotina certa, mas agora ela já aprendeu a escapar dele.
Barnes não tinha intenção de ser indiscreto, mas com certeza seu suspiro de alívio foi perceptível. Graças a Deus, Roxanne tinha um plano para tudo.
Benedetta sorriu compassiva, pousando a mão no ombro masculino por um instante, como se lhe passasse apoio.
— Não se preocupe demais com as coisas. Roxanne sempre dá um jeito. Ela é muito mais inteligente do que a maioria imagina. — Aconselhou, naquele tom acolhedor e maternal. — Boa noite, bambino.
— Obrigado, Benedetta. — Foi tudo que Bucky disse.
A governanta deixou a mansão logo depois, e ele ficou ali na cozinha com seu prato de macarrão intocado por mais alguns minutos, até que guardou a refeição no micro-ondas e voltou para seu lugar na sala.
Talvez Strovalenko estivesse dopado, mas arriscar o disfarce por nada era bobagem. Melhor ficar onde o idiota havia mandado...
Era difícil dizer se as horas passavam de verdade ou não, os ponteiros do relógio na parede corriam normalmente, mas Barnes não sentia de fato o fluxo do tempo. Parado ali, no silêncio da mansão, enquanto a noite avançava, tudo que ele tinha como companhia eram os próprios pensamentos, a culpa corrosiva, e a iminência de uma separação que talvez sequer tivesse despedida.
Quando o som de passos leves ecoou das escadas, os olhos gélidos seguiram naquela direção cheios de esperança. Tudo que Bucky queria era ver sua Italianinha a sós. Aquela podia ser a última vez, já que o destino dele podia estar nas mãos de Kurt Werner dali para frente...
No entanto, a pessoa que descia as escadas, apesar de ser uma mulher, não era morena, tampouco italiana.
— Olá, Soldado... — Helga soprou quando alcançou o degrau mais baixo. O sorriso em seus lábios era como o prenuncio de problemas certos. — O que acha de subirmos para o meu quarto?
Barnes já havia voltado para sua postura militar, o olhar frio e distante, apenas um curto segundo para pensar em uma resposta que não colocasse tudo a perder.
— Minhas ordens são ficar aqui. — Ele devolveu frio, os olhos longe da figura feminina, embora estivesse atento aos movimentos da loira pela visão periférica.
— Claro... — Ela soltou, a palavra no tom de quem não dá a mínima. — Então acho que vamos ter que mudar suas ordens...
Helga colocou a mão na parte traseira do cós, por um instante Bucky imaginou que ela sacaria uma arma, porém o objeto em sua posse era infinitamente menos ofensivo. A filha de Werner apenas não sabia disso.
O livro vermelho da Hydra estampado com uma estrela foi aberto nas mãos femininas, era incerto dizer como Helga havia conseguido posse do objeto, porém o mais provável era que Strovalenko não soubesse ou estivesse de acordo com aquilo.
Será que ela havia roubado?
Barnes se viu frente a frente com um problema, o que devia fazer quando as palavras fossem ditas? Manter o disfarce e obedecer a sua nova mestre — mesmo tendo uma ideia bastante concreta das coisas sexuais que seria ordenado a fazer, — ou ariscar expor seu disfarce para manter a dignidade?
Ele não tinha tempo de pensar em nada, essa era a verdade. A primeira palavra ecoou na sala e, embora não tivesse mais qualquer efeito em sua mente, ainda parecia uma maldição... No entanto, antes que a segunda palavra viesse, outra voz feminina predominou sobre a da alemã.
— Helga? — Roxanne chamou da escada.
A loira respirou fundo, como se o fato de ser interrompida a irritasse de verdade. Os olhos de Barnes foram atraídos para a figura da Donna, ela descia as escadas de uma forma imponente, um longo robe negro de mangas compridas e plumas se arrastando pelos degraus. Porém o coração do Soldado não saiu do prumo por causa da beleza inegável, foi a preocupação que o abateu de imediato, Roxanne estava machucada.
Seu rosto tinha sangue, marcas finas em sua pele, arranhões talvez, e parte de seu robe estava rasgado, nos braços especialmente, como se ela tivesse se envolvido em uma luta corpo a corpo. A mente de Bucky acusou Strovalenko automaticamente, no entanto algo naqueles ferimentos não combinava com a força e brutalidade do maldito nazista de merda...
O que infernos estava acontecendo?
— O que aconteceu com você. — Helga perguntou, analisando a morena. — Algum problema?
Roxanne sorriu, como se seu estado caótico fosse nada.
— Vejo que recebeu o meu presente. — Ela declarou. Seus olhos focando no livro vermelho nas mãos da alemã.
A Donna havia dado aquele livro para Helga? Barnes estava tão confuso que não conseguia mais encontrar lógica no que se passava diante de seus olhos.
— Você deixou isso debaixo da minha porta? — A loira também parecia surpresa. — Que inesperado.
Bucky quis entender o que estava acontecendo, porém, a Donna não lhe deu qualquer olhar que explicasse nada. Na verdade, ela se aproximou ainda mais de Helga, um sorriso quase inocente no rosto machucado.
— Era isso que você queria, não é? Poder sobre o Soldado Invernal? — Perguntou, no tom amigável de quem já sabe de tudo. — Era isso que você faria quando ele estivesse sob posse do seu pai, certo?
O que você está fazendo Roxanne? A pergunta girava em looping na mente de Barnes. Nenhuma resposta clareando suas ideias. Ele continuava sentado, parado no mesmo lugar, mantendo o disfarce que tanto odiava.
— Eu não desperdiço bons ativos, querida. — Helga riu de canto, agindo com superioridade.
— Não... — O sorriso inocente da italiana desapareceu totalmente. — Você usa a incapacidade deles de consentir para seu próprio benefício.
Só nesse momento Bucky conseguiu ver a verdadeira Donna ali, aquela mesma que havia acabado com uma operação de tráfico de mulheres, a mesma que havia invadido o hospital de um médico pedófilo. Ela estava furiosa.
— Ah, olha só, ela julga. Que gracinha. — A filha de Werner não parecia pressentir o perigo, como alguém que vê o céu calmo e não imagina a tempestade que está a caminho. — Como eu disse, ele pode fazer coisas incríveis com aquela mão de vibranium, se você souber ser criativa o bastante.
Roxanne riu, o sorrisinho de canto típico da Rainha da Máfia. O tipo que indicava o checkmate iminente. Ela se curvou um pouco para mais perto de Helga, como quem está prestes a sussurrar um segredo. Apenas dois passos separavam as duas agora.
— Acredite em mim... eu sei. — Revelou, fazendo com que a alemã franzisse as sobrancelhas de forma confusa.
— Vocês... — Helga alternou o olhar entre Bucky e Roxanne, como se finalmente matasse a charada.
Barnes não conseguia compreender o motivo de deixar aquela mulher descobrir um segredo tão perigoso...
— Mas você nunca vai saber como é. — A Donna declarou de uma forma quase cínica. — Porque nunca vai colocar suas garras nojentas nele.
Helga abriu a boca para dizer alguma coisa, porém nenhum som saiu, Roxanne moveu a mão direita rapidamente, a réstia dourada passando diante dos olhos de Barnes, antes que o rubro do sangue, jorrando por toda a parte, espirrasse sobre a italiana.
A loira caiu de joelhos, as duas mãos seguindo automaticamente para a garganta que tinha acabado de ser cortada, os olhos negros de Roxanne encarando a mulher de cima de forma fria e quase entediada.
A Donna tinha acabado de matar a sangue frio a filha de um dos líderes da Hydra.
Helga engasgava no próprio sangue, que continuava a se espalhar, manchando o tapete caro, o carmesim do liquido vital se misturando com o vermelho do livro da Hydra, caído ali ao lado. Bucky já estava de pé, a surpresa e o choque evidentes em seus olhos gélidos.
Aquilo era péssimo, Roxanne tinha acabado de colocar tudo a perder.
Ele deu o primeiro passo para se mover em direção a ela, mas o dedo manchado de sague se ergueu em riste. Espera, aquela era a faca de caça com a qual Helga brincava durante o jantar? Como Roxanne tinha conseguido aquilo?
— Não. — Ela disse em advertência, para que ele não se movesse. — Fica onde você está, tem muito sangue e você não pode se sujar com ele. Vai acabar em breve.
Era quase assustador com o quão no controle a Donna parecia estar naquele momento, mesmo tendo feito algo que Barnes julgava apenas como uma grande impulsividade.
— O que você...? — Ele tentou perguntar, mas o som alto de um celular tocando se espalhou pela casa, vindo do andar de cima.
Barnes sentiu o pânico completo se espalhar por seu corpo. Alguém acordaria e era o pior momento para isso. Roxanne, no entanto, apenas focou no relógio de parede e sorriu, satisfeita.
— Bem na hora... — Ela declarou, enquanto se movia pela sala e derrubava várias coisas de propósito, o som se espalhando ainda mais pela mansão, ecoando no silêncio típico da madrugada e se misturando com o toque incessante do celular no andar de cima.
Barnes tentou entender o que estava acontecendo naquele curto segundo. Repassou o plano para ver se havia perdido algum detalhe, porém não havia nada. A Donna pretendia que ele contasse a verdade para Strovalenko, assim o Soldado Invernal seria útil na Sicília, depois disso, eles manteriam a linha de ação inicial: esperar o líder da Hydra conquistar mais aliados para se tornar de fato a primeira Cabeça da organização e, assim, o casamento acontecer. Nesse sentido, os Werner eram importantes, porque concediam prestigio a Viktor. Roxanne havia chegado a comentar, inclusive, que nada podia acontecer com Kurt Werner, ou isso seria ruim para a imagem de Strovalenko, ou seja, prejudicial para o plano de resgatar Damian...
Não havia mais nada além disso, absolutamente nenhum detalhe que explicava aquele assassinato de Helga Werner. Aquilo não podia ter acontecido.
Quando o som no andar de cima se extinguiu, Roxanne voltou para o mesmo lugar de antes, bem ali perto do cadáver no chão, enquanto uma porta se abria e os passos pesados vinham em direção a escada.
— Mas que porra...? — Viktor Strovalenko soprou, analisando a cena em um misto de choque e confusão.
Ele estava com os cabelos bagunçados e os olhos sonolentos de quem havia acordado no susto. Parecia um tanto desnorteado ao descer os degraus com uma arma em punho, seus olhos verde-veneno vasculhando o ambiente; a bagunça caótica; o rosto machucado de Roxanne; a faca na mão dela; o corpo de Helga no meio de uma poça de sangue...
Barnes tinha a respiração desconexa, lutando para manter o disfarce, mas pronto para agir, evidente que não deixaria ninguém machucar sua italianinha, não importava o que ela tinha feito, ele a tiraria da ilha em segurança. Que se fodessem os planos.
No entanto, Strovalenko parou os olhos no livro vermelho no chão, algo de susto atravessando seu rosto antes que ele rapidamente focasse a atenção no Soldado Invernal.
— Acho que ela pretendia trair você. — Roxanne soprou, sua voz um misto de surpresa, temor e carinho, quase como se quisesse atrair a atenção do noivo e tirá-la de Barnes.
Funcionou, ele focou no rosto da noiva outra vez. A confusão evidente em sua postura sendo a primeira e única coisa com a qual Barnes se identificou, quando se tratava daquele homem. O líder da Hydra parecia um tanto grogue, talvez por causa das tais gotinhas que Benedetta havia citado, ainda assim, estava desperto o bastante para abrir a boca, formulando uma pergunta...
Porém, antes que as palavras fossem ditas o estrondo de uma porta abrindo no andar de cima fez com que as atenções se voltassem para a escada. Kurt Werner desceu os degraus rapidamente, a arma em punho, os olhos atentos, ele viu e entendeu tudo depressa demais...
— Minha filha! — Gritou em alemão, erguendo a mira na direção de Roxanne. — O que você fez, sua maldita!
Bucky se moveu um passo, porém seu movimento foi inútil, antes que ele se aproximasse mais que isso Werner já estava sob outra mira.
— Não se mexa. — Strovalenko ordenou, dando um passo para colocar seu corpo em frente da noiva.
A Donna, ocultada de qualquer outra visão que não fosse a de Barnes, deu um sorrisinho de canto, seus olhos escuros pousando nos azuis antes que ela piscasse de forma cúmplice.
Porra, aquilo tudo era um plano?
— Ela matou a minha filha, eu exijo sangue! — Werner esbravejava, alterado. A chance de acabar em tragédia era enorme.
— O que eu exijo saber, é o motivo de sua filha estar com isso! — Strovalenko ergueu o tom, apontando o livro vermelho em meio ao sangue, era óbvio que estava um tanto grogue, mas mantinha a postura muito firme.
Automaticamente o líder da Hydra deu uma sutil olhada sobre o ombro, como se pedisse uma explicação para Roxanne.
— Eu só desci para beber um copo de água e a encontrei aqui, ela estava recitando as palavras para o Soldado Invernal. Honestamente eu não faço ideia do que ela pretendia ordenar... — Começou em tom inocente. — Quando me viu, ela me atacou, e eu tive que me defender do jeito que deu. Consegui pegar a faca que ela estava usando para me atacar e bom... não planejei isso, mas era eu ou ela.
Foi só então que Barnes finalmente entendeu. Os ferimentos no rosto da italiana, as roupas rasgadas, a faca dourada, a quebração de coisas ao redor. A Donna havia montado uma cena que justificasse o assassinato de Helga.
Tudo que estava acontecendo ali era perfeitamente calculado. Era provável que Roxanne tivesse planejado até mesmo a ligação que acordou Strovalenko no momento exato e, a julgar pelo barulho que antecedeu a aparição de Kurt, possivelmente ele tinha sido preso em seu quarto para não chegar ali antes da hora.
Mas não tinha jeito de tudo aquilo dar certo, tinha?
E por que matar a filha de Werner?
— Mentirosa! — Kurt acusou, mas não ousou mirar novamente, já que Strovalenko colocou o dedo em cima do gatilho em ameaça.
O líder da Hydra se moveu uns passos, estava quase frente a frente com Roxanne agora.
— Eu estou dizendo a pura verdade, Viktor. — A italiana declarou de forma segura. — Mas você não precisa acreditar em mim se não quiser. Faça o que achar apropriado. — Ela deu a faca ensanguentada na mão dele em um gesto de confiança que aos olhos de Barnes pareceu muito perigoso.
— Você não pode acreditar nessa mulher. — Werner tentou argumentar com Strovalenko. — Ela matou a minha filha por motivos mesquinhos, eu tenho certeza! Talvez esteja tentando derrubar seus aliados. — Ele fazia acusações certeiras. — Aposto que falou mal de mim e da minha filha para você.
Viktor focou seus olhos verde-veneno na noiva, suas sobrancelhas se franzindo minimamente como se ele pensasse. Bucky agradecia que ninguém se importasse com ele ali parado, o Soldado Invernal era como parte da própria mobília, não era relevante naquele instante. Isso era ótimo, pois seu coração batia tão apressado e descontrolado que talvez não estivesse sustentando aquele disfarce tão bem quanto deveria. Não sabia o que esperar, a tensão no ar era palpável, parecia que estavam todos sobre uma bomba prestes a explodir.
Strovalenko, por fim, riu de canto, como se um fato curioso lhe tivesse surgido na mente. Ele manteve a arma erguida, mas colocou a faca de caça dourada sobre a mesinha ao lado do sofá. Então se abaixou para pegar o livro de capa vermelha, que agora pingava sangue, foi quando uma pequena folha escorregou por entre as páginas, mas não chegou a cair no chão.
— Na verdade, Roxanne disse, ainda agora antes de dormirmos, que eu devia cooperar com vocês. — O líder da Hydra revelou, usando um tom quase cínico. — Disse que gostou de você e da sua filha. Fez planos para que a estadia dos dois se tornassem mais confortáveis. Falou até que sua Helga merecia uma suíte. — Pegou a pequena folha solta e passou os olhos por ela enquanto ainda falava. — Minha noiva comentou, inclusive, que eu tinha sorte de ter alguém para confiar nesse meio, principalmente depois de uma emboscada... Sugeriu que eu devia pedir que você gerenciasse o interrogatório dos nossos homens, porque o Governo não teria nos interceptado sem informação externa.
A confusão estava no olhar de Kurt Werner, ele voltou a examinar o corpo da filha e Roxanne, quase como se estivesse tentando fazer uma conta que não bate.
Bucky já tinha informação o bastante para entender muito bem que a Donna havia planejado tudo, até mesmo aquela aparente conversa casual antes de dormir era pra preparar Viktor Strovalenko para o que viria a seguir.
Roxanne não era a Rainha da Máfia Italiana por acaso... Ela era, de fato, uma gênia do crime.
— E sabe, eu acho que minha querida noiva estava certa. — Strovalenko declarou, seu tom tão venenoso quanto seu olhar. — Tem um traidor infiltrado entre o meu pessoal. Um traidor maldito que estava tentando roubar minha coroa... — Ele ergueu o livro vermelho. — E o meu poder.
— Você não pode mesmo acreditar nisso... — Werner cuspiu com escárnio, mas ele tinha os olhos de quem está preocupado.
Será que Roxanne acreditava mesmo que alguém de dentro deu a informação para o governo, ou será que tinha dito aquilo apenas para colocar a dúvida na mente do noivo? Bucky buscou os olhos negros para tentar enxergar qualquer resposta, porém havia apenas um abismo indecifrável naquelas íris.
— Talvez eu não possa acreditar mesmo. — Strovalenko prosseguiu. — Mas sei que posso acreditar que sua filha estava tentando me matar. — Ele mostrou a folha solta para Werner. — É o que diz aqui, e, considerando que ela não falava russo, faz sentido ter anotado a frase com a pronúncia certa para não esquecer. Ela roubou as palavras-gatilho e estava tentando ordenar que o meu Soldado me matasse.
Será que até nisso Roxanne havia pensado?
Barnes não podia ver o conteúdo da página, mas ficou bem claro que era uma ordem em russo, escrita da forma que se falava.
O silêncio completo tomou conta da mansão por alguns segundos, os olhos verde-veneno presos nos de Werner, até que o alemão tentou se mover, prestes a puxar o gatilho... Strovalenko podia estar meio grogue ainda, porém era maior, mais rápido, mais forte e mais bem treinado que um velho como Kurt, que havia passado sua vida toda escondido atrás de seus homens, explorando quem pudesse para benefício próprio.
Não foi uma briga justa. Viktor, em um movimento rápido, desviou da arma e a arrancou de seu oponente, dando uma cotovelada certeira no rosto de Werner, para depois atingí-lo com um golpe. O mais velho estava no chão em questão de segundos, o líder da Hydra lhe encarando de cima.
Kurt Werner tentou dizer alguma coisa, porém o único som na mansão Domenichelli foi o de três tiros seguidos. O pai de Helga estava morto também.
Strovalenko respirou fundo, a arma ainda fumaceando em sua mão. O homem não parecia particularmente feliz com tudo aquilo, porém havia um brilho de sadismo em seu olhar. Ele gostava de matar.
Bucky não ousou se mexer, não fazia ideia do quão ariscado seu disfarce estava, o do que aconteceria a seguir. O líder da Hydra, porém, sequer olhou para o Soldado Invernal.
— Você estava certa, tinha mesmo um traidor entre os meus. — A voz tinha uma dose clara de irritação, mas esse sentimento não era destinado a Roxanne. — Estavam tramando contra mim. Eu nem sei como essa maldita conseguiu roubar esse livro...
Strovalenko se virou na direção da noiva, o objeto com a estrela negra na capa ficando na mesinha ao lado do sofá, junto com a faca dourada e a arma.
— Eu nem sabia que esse livro existia. — Roxanne disse apenas, obviamente uma mentira. É claro que Frank havia contado do livro em algum ponto. — Você está bem? Está machucado?
Viktor moveu a cabeça em negativa, muito perto da noiva agora. Ele tocou a pele dela com aparente delicadeza, como se quisesse ver os arranhões que ela tinha no rosto. Bucky sentiu náuseas, honestamente queria que o corpo daquele nazista de merda também estivesse sangrando no chão.
— Pelo visto você salvou a minha vida, Roxie. — Ele a puxou para perto, como se nunca tivesse sido um maldito cretino violento. Barnes fechou o punho tão forte que o vibranium rangeu.
Strovalenko puxou o corpo da italiana para um abraço. A Donna, por sua vez, pousou seu queixo no ombro direito dele, um sorriso satisfeito surgindo em seu rosto manchado de sangue, suas íris negras focando nos olhos azuis de Bucky finalmente.
— Eu nunca deixaria nada de ruim acontecer com o homem que eu amo. — Ela declarou, e estava muito claro que não tinha dito aquilo para o próprio noivo.
Barnes entendeu a motivação para tudo aquilo finalmente, era por causa dele.
A Donna havia arriscado o plano todo, só para mantê-lo por perto. Só para protegê-lo das garras dos Werner. Ela arquitetou tudo aquilo em poucas horas, indo contra as próprias instruções apenas por Bucky.
Era uma insanidade completa, certamente. Uma atrocidade por alguns pontos de vista. Porém, parado ali no meio da sala, sobre o mesmo tapete coberto com o sangue dos Werner e com os olhos negros da sua italianinha tão intensamente focados nos seus, ele não se importou nem um pouco com as implicações morais e éticas de tudo isso.
O impacto de estar envolvido com a rainha da máfia nunca foi mais intenso, explicito e evidente. Não havia como negar quem Roxanne era. Ela tinha um lado sombrio.
E Bucky Barnes percebeu que... ele amava esse lado também.
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