Roxanne Domenichelli não amava mentir. Porém, era inegável o quão boa era nisso. Sendo assim, a arte de manipular as pessoas a sua volta acabou sendo algo que ela desenvolveu naturalmente, como uma extensão de suas “habilidades especiais”.

Porém, quando montou aquele plano relâmpago em sua mente, nem ela pensou que daria tão certo. Mas simplesmente não podia permitir que Kurt Werner e a filha maldita dele colocassem aquelas mãos imundas em James.

Sabia que estaria colocando a missão de salvar Damian em risco. Entendia que aquele podia ser um tiro que sairia pela culatra. Porém, tinha que fazer.

A primeira parte do plano foi simples, deu uma dose menor de sedativo a Strovalenko naquela noite. Ele demoraria mais para dormir e acordaria com mais facilidade, era um risco, obviamente, na maior parte dos encontros dos dois Roxanne usava os sedativos para escapar de qualquer contato físico e se beneficiava da confusão mental de Viktor para agir como se o sexo tivesse acontecido.

Na maior parte do tempo era fácil, ele jamais admitira o lapso de memória, muito menos quando Roxanne o elogiava pela manhã. Sempre foi extremamente fácil manipular um homem com um ego muito grande e frágil.

Aquela noite, então, Roxanne corria riscos, mas não se importou com eles. Aproveitou o tempo com Strovalenko para traçar um caminho de migalhas que a ajudaria no fim da madrugada. Tinha que fazê-lo pensar que ela gostava dos Werner, ao mesmo tempo em que plantava uma sementinha de desconfiança.

Era necessário que Viktor acreditasse que havia um traidor em seu grupo, alguém que tinha entregado informações para o governo. Todas as pistas plantadas ao longo das horas apontariam para os Werner e isso seria providencialmente perfeito.

Em algum ponto da noite, ela disse que era ótimo que pai e filha fossem confiáveis e fiéis a Strovalenko, afinal, se eles ficariam em posse do Soldado Invernal, teriam poder o bastante para derrubar qualquer liderança... Deixou que Viktor dormisse com essa ideia em mente, conseguindo escapar de qualquer toque indesejado, já que ele estava machucado e fingindo não sentir dor.

Mas Roxanne não parou de verdade para pensar se havia mesmo um traidor entregando informações para o governo, haviam coisas mais importantes em jogo e essa foi apenas uma teoria usada contra Strovalenko e ignorada em seguida. Era hora de passar para a segunda parte do plano, e estava em conflito sobre o que precisaria fazer. Afinal aquilo colocava James em risco...

Roubou o livro vermelho que Strovalenko mantinha escondido e levava sempre consigo. Escreveu em um papel solto ordens em russo, para que o Soldado Invernal matasse o líder da Hydra, então escondeu isso entre as páginas. Depois, colocou o objeto debaixo da porta de Helga, esperando que ela mordesse a isca. Sabia que não podia deixar aquela mulher horrenda perto de James depois disso. A Donna não queria ariscar nem por um segundo que o Soldado Invernal viesse á tona.

Seria muito mais fácil se ele fosse imune às malditas palavras.

Quando a alemã mordeu a isca e desceu para a sala, uma nova fase do plano começou; Roxanne esperou o momento exato, entrou no quarto de Helga e roubou a faca dourada que a loira havia exibido durante todo jantar; logo em seguida, trancou a porta de Kurt para que ele não aparecesse antes da hora; então planejou sua aparência para simular que havia se envolvido em uma briga justa; por último, aumentou o volume do celular de Strovalenko ao máximo e pediu que uma das Mamas ligasse de número restrito dali há alguns minutos.

Era um plano frágil e com muitos furos, verdade. Porém, quando a Donna desceu aquelas escadas ela não se deu mais ao luxo de pensar na lista de coisas que podia dar errado, sabia dos riscos, sabia que estava arriscando a própria vida, mas de um jeito ou de outro James ficaria seguro.

Além disso, matar Helga Werner foi sim satisfatório, a Donna nunca negaria isso para si mesma. Quando finalmente pudesse matar Strovalenko também, seria ainda melhor.

Por fim, o plano deu incrivelmente certo e, a melhor parte, em um resultado um tanto inesperado, o idiota do Viktor acabou ainda mais apaixonado. Depois disso, foi muito fácil convencê-lo que com certeza haviam mais traidores dentro de seu grupo, era preciso investigar e descobrir quem tinha acabado com a operação de extração da tecnologia Stark.

E assim acabou, Viktor Strovalenko estava indo embora em seu jato particular naquela manhã para investigar um crime que não existia de fato, ciente de que sua noiva era a Donna da Máfia e deixando para trás o Soldado Invernal.

Felizmente, a morte dos Werner nem foi um prejuízo tão grande para a missão, Strovalenko daria um jeito de convencer seus apoiadores de que foi traído e isso não teria impacto em sua liderança, talvez até o fizesse mais forte perante os antigos da Hydra.

Quanto a Damian, os Werner não comandavam nenhuma instalação de pesquisa ativa, sendo assim, não estavam em posse do irmão de Roxanne. A busca continuava então.

Depois de ver o avião decolar, ela finalmente podia dirigir em paz de volta para a mansão. Não havia mais nenhum homem da Hydra em sua ilha. A prioridade agora era resgatar Frank.

Fez o caminho para sua casa com o coração aos saltos. Estava sozinha no carro, já que Strovalenko havia ordenado que o Soldado Invernal ficasse esperando na mansão.

Não teve tempo de trocar uma só palavra com Barnes desde que o sangue dos Werner foi derramado. Ainda não sabia como o americano reagiria a toda aquela violência e morte. Roxanne não estava arrependida, faria de novo para manter o homem que amava seguro.

Sim, ela o amava...

E como não amaria afinal? Sorriu com esse pensamento bobo, mesmo sabendo que suas ações recentes talvez afastassem os dois. James era um herói, ele podia não ver aquele assassinato com bons olhos, além disso, Roxanne estava ciente que dar aquele livro para Helga foi uma decisão perigosa que ela não tinha o direito de tomar sozinha. Infelizmente, não houve tempo para conversar sobre nada disso antes de colocar o plano em prática.

O que estava feito, estava feito. Ela teria que lidar com as reações de James quando chegasse na mansão. E esse era exatamente o motivo de seu coração estar batendo assustado. Não podia ou queria perdê-lo.

Deixou o carro no lugar de sempre e se dirigiu a entrada, havia dado o resto do dia de folga a Benedetta — afinal o filho dela estava desaparecido nas mãos do governo americano, — por isso não estranhou a casa totalmente vazia e silenciosa quando abriu a porta.

Levou menos de dois segundos para que James surgisse na divisa do escritório com a sala. Os olhos azuis gélidos se prendendo em Roxanne de um jeito que a deixava tensa e ansiosa.

— Oi... — Ela disse, o coração batendo tão depressa no peito que tudo ao redor parecia mais lento e denso.

— Ele já foi? — Barnes questionou, sem desviar os olhos dela por um só instante. A italiana moveu a cabeça de forma afirmativa. — Ótimo.

Ela sabia que eles teriam muito o que conversar, esperava pelas perguntas e estava pronta para dar todas as explicações. No entanto, James não disse uma só palavra enquanto cruzava o espaço entre os dois e agarrava Roxanne, puxando o corpo feminino de encontro ao dele.

A envolveu em um beijo ansioso que misturava paixão, angústia, saudade, desespero e, inegavelmente, tesão. O corpo de Roxanne entrou em curto, ela não esperava uma recepção tão intensa, suas pernas bambearam e seu coração saiu totalmente do ritmo.

A conversa claramente ficaria para depois.

Barnes agarrou a cintura feminina com o braço de vibranium e a puxou para cima, instintivamente Roxanne enlaçou os quadris dele com as pernas, seus saltos caindo no chão, enquanto o soldado caminhava com ela, sem nunca largar seus lábios.

Ele entrou no escritório. As mãos femininas nos fios castanhos e o fogo se arrastando por baixo da pele de Roxanne, incendiando suas veias com um tesão quase desesperado.

Os lábios se soltaram por um momento, a italiana ofegava com o nariz encostado no de Barnes, ele se moveu com ela, passando o braço livre sobre a grande escrivaninha de mogno. O som das coisas sendo arremessadas ao chão parecia tornar a urgência daquele momento ainda mais intensa. As mãos femininas já estavam lidando com os botões na camisa masculina, quando ela foi colocada sentada sobre o tampo de madeira.

Os movimentos desconexos das roupas sendo tiradas e das bocas se procurando fazia o interior de Roxanne se contorcer em uma expectativa quase dolorosa. A camisa de Barnes deslizou por seus braços fortes e o terno que a Donna vestia foi arremessado tão longe que o celular vou do bolso da peça e escorregou pelo chão.

Os dedos de vibranium puxaram as alças grossas do vestido tubinho que ela usava e os lábios de James traçaram um caminho quente nos ombros delicados, passando pela clavícula até que chegassem ao pescoço. A língua provando a pele, antes que um chupão ardente fizesse cada terminação do corpo feminino entrar em curto. Roxanne gemeu um palavrão qualquer, suas unhas apertando o abdômen masculino, enquanto ela tentava sem muito sucesso desabotoar a calça que Barnes vestia.

Uma das mãos dele estava sobre o seio dela, apalpando com luxúria enquanto a outra estava enrolada nos fios negros, O toque de Roxanne perdeu um pouco do alcance. James estava encaixado entre as pernas dela, mas ao mesmo tempo parecia muito distante ainda.

Abraçou os quadris dele com as coxas, o puxando para mais perto fazendo com que a ereção evidente se chocasse com seu corpo. Barnes praticamente rosnou um palavrão carregado de tesão, capturando os lábios femininos de novo enquanto se movia rapidamente, o barulho de seus sapatos sendo chutados para longe. Essa sequência desconexa fazendo com que os corpos roçassem um no outro de forma enlouquecedora.

— Eu preciso de você. — James meio gemeu meio implorou contra os lábios femininos. E foi como se ele tivesse acabado de jogar um fósforo aceso sobre litros de gasolina.

Roxanne moveu a cabeça freneticamente, suas mãos seguindo da melhor forma que deu para o zíper do vestido, mas não conseguindo muito sucesso em abri-lo. Barnes se afastou dela minimamente então, os dedos de suas duas mãos parando no topo do decote e segurando ali de forma firme. Azuis e negros se encontraram por um segundo, o tesão evidente nas pupilas dilatadas e nas respirações desconexas. Foi nesse instante que, com um puxão firme e quase violento, James rasgou a peça que a Donna vestia em duas partes.

Os seios dela praticamente pularam para fora com o movimento bruto, o impacto da cena como um todo enviando uma pontada extremamente prazerosa para o ponto mais sensível do corpo feminino. Barnes abocanhou um dos mamilos, os gemidos de Roxanne se espalhando pelo cômodo enquanto as mãos masculinas se afastavam dela para lidar com as peças de roupa que ele ainda vestia.

A calça e a boxer preta ficaram no chão. As duas mãos fortes de James puxando a cintura da italiana para que ela se posicionasse mais na ponta da mesa. Ele tremia, a respiração fora do ritmo, cada movimento um tanto desesperado, puxou a calcinha de Roxanne de lado e posicionou sua ereção de encontro ao sexo dela, observando o que fazia a cada segundo e só parando naquele último instante, apenas para erguer os olhos azuis em direção aos negros na mesma hora em que a penetrou em uma estocada firme e dura.

Roxanne soprou uma sequência quase inteligível de palavrões, apertando James com as coxas para que ele fosse ainda mais fundo. Havia um desespero evidente na forma como o soldado se movia, cada estocada forte e rápida fazendo com que a mesa rangesse contra o chão. O som se misturando aos gemidos dos dois.

Toda a linguagem corporal de Barnes deixava explicito o que suas próprias palavras tinham dito momentos antes. Ele precisava dela. E essa mistura intoxicante de necessidade, angústia, desespero e tesão fazia o prazer se acumular no corpo de Roxanne de forma avassaladora.

James não parava de estocar um só segundo, apertando a italiana contra seu corpo cada vez mais forte, os lábios colados, as respirações misturadas, os sons de suas vozes entorpecidas de desejo deixando tudo ainda mais quente.

— Porra... — Ele soprou de repente, e a eminência do orgasmo masculino fez cada uma das terminações nervosas de Roxanne colapsarem e explodirem em um clímax absolutamente intenso, que ela fez questão de verbalizar.

Barnes continuou se movendo, cada vez mais devagar agora, os resquícios do orgasmo feminino fazendo com que o corpo dela tivesse espasmos involuntários vez ou outra. Tão incrivelmente bom que a Donna se sentia até mais mole.

Eles pararam então, mas ainda ficaram abraçados ali por uma infinidade de segundos, seus corpos se acalmando aos poucos, o contato íntimo de seus sexos sendo interrompido, mas suas testas seguindo coladas.

Roxanne ainda estava ofegante, eles finalmente afastaram o rosto alguns centímetros, o olhar dos dois se encontrando e um sorriso bonito surgindo no rosto do americano, fazendo com que o coração de Roxanne se alagasse de um alivio agradável.

— Achei que estaria bravo comigo... — Ela confidenciou baixinho.

— Por que? — Ele disse aquelas duas palavras no tom de quem acaba de ouvir o maior dos absurdos.

— Porque eu matei duas pessoas. — A Donna relembrou.

Barnes riu de canto, se separando dela para vestir a boxer.

— Nazistas. — Ele corrigiu, sentando-se na grande cadeira posicionada atrás da escrivaninha, vestindo nada além da peça preta.

James ficava muito bem ali, daquele exato jeito.

— Além disso, você estava me protegendo. Eu sei disso. — Ele continuou em tom compreensivo, então seus olhos azuis se prenderam no corpo de Roxanne, que tinha acabado de descer do tampo de mogno e agora se envolvia na camisa branca que o próprio Barnes usava momentos antes. Afinal seu vestido estava inutilizável. — Achei muito sexy na verdade.

Ela sorriu enquanto fechava o último botão, realmente aliviada que as coisas não tivessem mudado. Porém, sabia que ainda tinha algo sério a dizer, por isso contornou a escrivaninha e parou ao lado da cadeira que James ocupava, se encostando no tampo de mogno para que seu olhar pudesse encontrar o azul.

— Fui eu quem deu o livro vermelho pra Helga. — Declarou de forma direta. Não podia esconder algo assim dele, não seria justo.

— Eu cheguei a essa conclusão depois de pensar por um tempo na situação toda. — James não parecia surpreso, na verdade até encolheu os ombros em displicência.

— Isso não incomoda você? — Roxanne questionou de forma confusa.

— Somos parceiros. Eu confio nas suas decisões. — Ele declarou em tom compreensivo. — Além disso, você me falou que tinha tudo sob controle, lembra?

As duas mãos masculinas seguiram para a cintura de Roxanne, puxando o corpo dela um pouco mais para perto da cadeira. Nada havia mudado, mesmo com seus planos impulsivos e arriscados, James ainda a queria.

Isso fez o coração de Roxanne se encher de um sentimento bom, ela gostava de se sentir aceita daquela forma. Era novo, reconfortante e, naquele instante específico, —— com os olhos azuis tão fixos em seu corpo e com as mãos masculinas em sua cintura, — era bem quente também.

— Quer dizer que você gosta quando eu fico no controle? — Ela perguntou insinuativa, subindo na mesma cadeira em que Barnes estava, um joelho de cada lado do corpo masculino enquanto ela se sentava sobre ele.

— Não sei... — James sorriu de canto de um jeito que podia fazer as pernas de alguém tremerem. — Acho melhor você me mostrar como é quando você fica no controle, só pra eu ter certeza...

Roxanne riu, se curvando um pouco sobre ele para que pudessem se beijar novamente. Foi algo mais lento dessa vez, não só a forma como as línguas dançavam juntas, mas os toques que exploravam os corpos. Nenhum deles tinha pressa, apenas usufruindo das sensações prazerosas de compartilharem aquele momento.

Já estava ofegante e ao mesmo tempo plenamente relaxada quando Barnes cessou o beijo para focar os olhos gélidos nela de maneira intensa e cálida, como se estivesse decorando cada pequeno traço no rosto feminino.

— O que? — A Donna questionou, a felicidade plena exalando de cada um de seus poros.

— Nada. — Barnes soprou ajeitando alguns dos fios dela com carinho. — Eu só quero te olhar um pouquinho. Você é linda, sabia disso?

A italiana sorriu, desconsertada, desviando o olhar enquanto suas bochechas pareciam queimar.

Dio mio, a Rainha da Máfia fica corada, olha só. — James riu de forma divertida.

— Para, como você é bobo, Barnes. — Ela deu um tabefe no peitoral dele, mas ainda estava muito fraca por causa do recente orgasmo e do beijo quente e lento, então não teve força nenhuma naquele movimento. — Além disso, a Rainha da Máfia não fica corada coisa nenhuma.

— Ah não? — O americano rebateu naquele tom descontraído.

— Não. — O olhar dos dois se encontrou e Roxanne jurou que estava derretendo. —Mas talvez a sua italianinha fique.

Minha italianinha? — Ele colocou ênfase na palavra e isso fez o coração da Donna bater mais rápido. Ela assentiu com a cabeça.

Ele sorriu satisfeito, puxando o rosto dela para um beijo terno.

— Eu te amo, minha italianinha. — Declarou, e a honestidade daquelas palavras era tocante para Roxanne. Os lábios se encontraram de novo então. — Eu te amo, Donna Mia. — Outro beijo. — Eu te amo, Roxie. — James tinha as duas mãos no rosto feminino agora, novamente uma boca encontrou na outra. — Eu te amo Roxanne Domenichelli.

Os olhos negros estavam marejados, era como um sonho bom. Como se Barnes soubesse exatamente quais eram as inseguranças dela e então curasse isso aceitando cada pequena parte daquele quebra-cabeças de mulheres que ela era. Mesmo as mais difíceis de aceitar. No fundo, Roxanne ainda tinha medo de acordar de uma hora para outra. Porém, enquanto o sonho existisse, ela queria vivê-lo intensamente.

E io te voglio molto bene, Amore Mio. — Disse, e nada nunca pareceu tão certo. — Te amo muito, James Bucky Barnes.

Deus, o sorriso que ele abriu poderia ter iluminado uma cidade inteira.

— Ama? — A felicidade escorria em seu tom. Roxanne riu enquanto assentia. — Ué, mas você mesma disse, duas vezes: “Eu te odeio, sabia disso?”.

O tom irônico e a imitação do sotaque dela fez com que a Donna revirasse os olhos, mas o sorriso que deixava suas covinhas evidentes era honesto e contagiante.

— Bom, acho que você estava certo quando disse: “Odeia nada, Italianinha”. — Também copiou o sotaque dele.

Barnes riu, puxando o corpo feminino de encontro ao seu e encostando a cabeça no peito dela. Ficaram ali abraçados por uma infinidade de minutos, totalmente em silêncio.

Roxanne sabia que tinha coisa para resolver, mas não queria interromper aquele contato, não quando o aperto de James se tornava um pouco mais angustiado a cada instante, quase como se ele temesse que ela apenas sumiria no ar, o deixando sozinho para sempre.

Os dedos femininos estavam perdidos nos fios castanhos, o carinho indo e vindo lento e reconfortante, ela sabia que tinham sido vinte e quatro horas muito difíceis para Barnes, por isso se permitiu ficar ali com ele, apenas dando o consolo que ele parecia precisar tão desesperadamente.

— Roxanne? — O nome dela veio em um sopro que soou quase doloroso.

— Sim... — Ela respondeu e ambos se moveram para que seus olhos pudessem se encontrar.

Ainda estavam ali sentados do mesmo jeito, o corpo feminino sobre o masculino. Barnes ficou em silêncio por um longo momento, um olhar indecifrável em seu rosto bonito. Roxanne prendeu o ar por um segundo quando notou que amava tanto aquele homem que chegava a ser dolorido. Nunca tinha sentido algo assim antes.

— Eu tenho que te falar uma coisa... — Ele disse por fim.

Ela concordou com um aceno rápido. Barnes, no entanto, ficou calado por uma sequência longa de segundos, chegou a abrir a boca duas vezes, mas era como se não encontrasse as palavras. Na terceira tentativa um som ritmado se espalhou pelo escritório.

A interrupção fez com que Roxanne virasse a cabeça no mesmo instante. Os toques personalizados de seu celular faziam com que ela sequer precisasse olhar a tela para saber quem estava ligando.

— Um minuto. — Pediu com o dedo em riste. — Pode ser importante, é o toque da minha informante.

Desceu do colo de James, lembrando que era a segunda vez que uma conversa dos dois era interrompida por uma chamada telefônica. Voltariam ao assunto em breve.

Ela caçou o celular no chão e a atendeu no quarto toque:

— Alô.

— Fiquei sabendo que a Donna queria falar comigo. — A voz feminina veio do outro lado da linha. — Devo supor que é sobre seu homem que foi levado pelo governo?

A forma como a Mercadora do Poder era direta e sem rodeios sempre agradou Roxanne...

Tinha pedido que Corinne mandasse uma mensagem para a líder de Madripoor, só não imaginou que o retorno viria tão rápido.

— Sempre bem informada, por isso gosto tanto de fazer negócios com você. — Respondeu, sendo tão direta quanto a Mercadora. — Qual seu preço pela informação?

— Aqueles diamantes da última vez me agradaram bastante, uns cento e cinquenta daqueles devem bastar. — A resposta veio rápida e decidida.

Era um preço absurdo, porém Roxanne não discutiu, era a segurança de Frank em jogo afinal.

— Certo. Temos um acordo então. — Concordou rapidamente. — Devo enviar para Madripoor?

— Não, traga pessoalmente para Nova York, vamos nos encontrar e eu te dou a localização exata. — A mulher do outro lado da linha pediu. — Acho bom que prepare uma equipe de extração capacitada, Donna, você vai precisar.

Não era comum que se encontrassem fora da ilha mais criminosa do mundo, porém Roxanne não se preocupou com esse fato. O importante era saber onde Frank estava.

— Obrigada. — Disse apenas e a chamada foi encerrada em seguida.

— Vamos para Madripoor? — Barnes questionou, assim que Roxanne abaixou o aparelho.

Ele já estava de pé perto dela, um leve tom de preocupação em sua voz.

— Nova York. — A Donna corrigiu.

— É onde o Frank está? — Os dois caminharam para fora do escritório a fim de prepararem tudo para a viagem.

— Possivelmente. — Roxanne assentiu.

— Certo. — Eles já estavam subindo as escadas. — Vamos nos apressar então.

Estariam nos Estados Unidos ainda aquela tarde. Porém a Donna não estava realmente preocupada, sabia que trariam Francesco para casa. Não importava quantas pessoas ela teria que matar para isso...

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Bucky conseguia lembrar com clareza do dia em que se sentou no jato particular de Viktor Strovalenko e sobrevoou aquela ilha pela primeira vez, era estranho pensar no quanto tudo tinha mudado desde então...

No quanto ele havia mudado.

Naquela época, não queria ficar preso na Sicília, mas agora que estava sobrevoando aquele mesmo céu rumo a sua conhecida Nova York, tudo que Barnes desejava era permanecer no solo italiano, naquela terra que parecia um tanto sagrada agora.

Sabia da necessidade de voltar para os Estados Unidos para resgatar Francesco, porém, no fundo, Bucky estava com medo de não conseguir voltar...

— Tudo bem? — A voz suave de Roxanne perguntou.

Estavam sentados frente a frente no jato particular da italianinha, uma aeronave pequena, pouco parecida com a de Strovalenko, mas que lembrava bastante aquela que era de posse do Barão Zemo.

— Claro. — Assentiu com um movimento de cabeça. — Só estou preocupado com a segurança do Frank.

Não era inteiramente verdade, mas de todas as preocupações na mente de Bucky, essa era a única que ele podia de fato compartilhar.

— Ele vai ficar bem, vamos trazê-lo de volta pra casa. — A Donna assentiu com um sorriso apaziguador.

Era agradavelmente reconfortante que ela parecesse sempre estar no controle, Barnes poderia se acostumar com isso, se não estivesse tão oprimido pelo peso das próprias mentiras.

— Acabamos saindo de casa tão rápido que você nem terminou de falar o que queria. — A italiana questionou de forma casual. — O que era?

Bucky respirou fundo, novamente foi interrompido de contar a verdade, então resolveu adiar aquela revelação outra vez, pelo menos até que Frank estivesse livre.

Mas será que queria mesmo contar? No fundo sabia que estava criando desculpas sem fim para manter seu tempo roubado o máximo possível. Agora, dizia a si mesmo que desestabilizar Roxanne com essa verdade, justo quando ela precisava de todo seu autocontrole para resgatar Francesco Greco, seria arriscar a vida dela.

E sim, era um sentimento honesto, ele se preocupava com a sua italianinha, sabia que seria um risco afetar o emocional dela às vésperas de um confronto eminente com o Governo americano. Mas também era um desejo um tanto egoísta, porque não queria deixar a mulher que amava naquele instante, queria estar ao lado dela, porque, mesmo que Roxanne não precisasse de proteção, Barnes ainda tinha esse senso forte em seu peito.

E, além de tudo... Bucky queria viver essa realidade em que era amado por sua italianinha, porque aquelas palavras não saiam de sua mente: “io te voglio multo bene, Amore Mio. Eu te amo James Bucky Barnes”... Isso era tudo que ele queria, essa felicidade absoluta, mas sabia que tudo de bom se extinguiria quando a verdade fosse dita em voz alta.

Ele estava apavorado, a possibilidade de ver o amor virar ódio naquelas íris negras assombrava Bucky muito mais do que os pesadelos advindos das memórias do Soldado Invernal.

Então, sim, estava protelando. Estava ainda roubando tempo para viver dentro de sua bolha de amor. Suas desculpas, por mais corretas que parecessem, eram apenas um pretexto para cultivar aquele sentimento enquanto pudesse.

Porque, a única verdade relevante era que Bucky Barnes tinha sido privado de qualquer mínima migalha de coisas boas por décadas, obrigado a viver em agonia constante, e, agora que tinha algo tão puro, precioso, intenso e perfeito na palma da mão, algo que o fazia verdadeiramente feliz, estava encantado demais com o brilho reconfortante daquilo. Não estava pronto para ver tudo que mais queria escorrer por entre seus dedos como areia seca ao vento.

— Acho que não era nada importante, até já esqueci. — Mentiu, prometendo a si mesmo que contaria a verdade no momento apropriado.

Mas até lá precisava fazer todos os segundos valerem a pena.

— Tem certeza? — Roxanne franziu levemente as sobrancelhas. — Parecia importante.

— Se fosse importante eu não teria esquecido. — Ele apenas encolheu os ombros, torcendo para que sua desculpa fosse boa o bastante.

A Donna pensou por alguns instantes e se deu por satisfeita.

— Devia ser uma das suas piadocas de americano. — Ela jogou de volta, um sorriso bonito em seus lábios fartos.

— Eu não faço “piadocas de americano”. — Barnes devolveu, se fazendo de ofendido, apenas porque sabia que isso faria sua italianinha rir.

— Você tem um humor peculiar, Amore Mio. Todo mundo já reparou. — Ela rebateu como se fosse a coisa mais óbvia.

Amore Mio. Bucky realmente gostava de ser chamado assim...

— Isso eu não posso negar. — Ele sorriu abertamente.

Roxanne soltou seu cinto e se levantou, sentando-se no colo de Barnes e envolvendo as mãos no pescoço dele apenas para estalar um beijo nos lábios masculinos. Piloto e Copiloto estavam fechados na cabine e, por não haver comissárias de bordo naquele jato, os dois tinham esses pequenos instantes de privacidade secreta antes de pousarem.

— Admiro o quão segura e despreocupada você sempre está, diante dos problemas e desafios, sabia? — Bucky declarou, o braço direito ao redor da cintura feminina, os dedos de vibranium brincando com os fios negros.

— Isso é porque eu sei que vamos resgatar o Frank, e no panorama geral foi uma vitória contra Strovalenko. — Roxanne respondeu simples. — Além disso, eu sou a Donna, momentos de crise são o padrão na minha rotina. Antes de você entrar na minha vida eu estava tão focada nisso que me esqueci que também preciso respirar. Você tinha razão quando me disse que, se eu não posso me dar ao luxo de certas coisas, então que vantagem existe em ser a Rainha da Máfia...

— Está dizendo que eu sou seu luxo? — Ele sorriu de canto em descontração, mas na verdade seu coração batia apressado. Amava saber que havia causado uma mudança positiva na vida de sua italianinha.

— Não seja presunçoso... — Ela deu um tapa de leve no ombro dele. — Só acho que se não encontrarmos um jeito de ser felizes nos pequenos momentos entre as crises, então nunca vamos encontrar tempo pra isso. Nem todo dia pode ser Ferragosto, mas eu quero me sentir como em Ferragosto todo dia, nem que seja por alguns minutos roubados, entende?

Os olhos azuis focaram no rosto feminino com evidente surpresa, ele não esperava que ela usasse aquela frase específica. Era como se os dois estivessem sincronizados em pensamento iguais, mesmo que por motivos diferentes.

— Entendo perfeitamente. — Bucky respondeu, puxando Roxanne para um novo beijo.

Até que o piloto anunciasse pelos autofalantes que estavam prestes a pousar, o casal pôde usufruir desse pequeno instante dentro de sua bolha, estariam prontos para qualquer missão quando tivessem que executá-la, porém, até lá, se dariam ao luxo de serem felizes como podiam...

Barnes esperava que pousassem em uma parte isolada e herma da cidade, porém o hangar onde o jato particular aterrissou era um pequeno aeroporto comercial.

— Não tem como entrar no espaço aéreo americano sem permissão. — Roxanne explicou, quando os dois pegaram um SUV preto que já estava separado para ela. — Viemos em um voo com todas as permissões. Eu não sou procurada, pelo menos não ainda. — Ela riu. — Sendo assim, posso seguir os procedimentos legais uma última vez.

Barnes sabia que depois que resgatassem Frank o status da Donna nos Estados Unidos mudaria, com certeza o governo não teria jurisdição para prendê-la na Sicília, porém, Roxanne estaria em risco em qualquer outro país que tinha politica de deportação.

A informação que Bucky tinha dado para Valentina custaria a liberdade da mulher que ele amava. Ela seria basicamente uma prisioneira da própria ilha depois que concertasse um erro que ele cometeu.

— Você não me disse quem é seu contato. — Ele comentou, tentando focar em qualquer outra coisa que não fosse a própria culpa.

Dirigia o SUV em direção ao centro de Nova York, seguindo as instruções dadas pela própria Donna.

— Mercadora do Poder. — Ela respondeu simples. — Vamos nos encontrar em um lugar público.

Barnes franziu as sobrancelhas, pensou que Roxanne tivesse errado a pronuncia, porém algo lhe surpreendeu um pouco mais:

— Pessoalmente? Mas ninguém sabe quem ele é.

A italiana riu de canto, seu olhar dizendo que ela sabia bem mais que Bucky.

— Claro que não sabem quem ele é, porque é uma ela.

Então não era um simples erro de pronuncia. Interessante...

Barnes ainda guardava rancor do cara, ou melhor, da mulher, líder de Madripoor, por causa do supersoro. Seria ótimo olhar para a cara da cretina finalmente. E, embora ele soubesse que era uma informante de Roxanne, ele ainda queria acertar as coisas. Mas primeiro descobriria o paradeiro de Frank, depois pensaria em algum plano. Só o fato de saber a identidade da Mercadora do Poder seria um progresso.

Teve que estacionar o veículo bem longe do ponto de encontro, ele e Roxanne desceram do carro, usavam bonés, óculos escuros e jaqueta, vestidos para se misturarem. Foram andando pela calçada, adentrando o parque que sediava uma típica feira de rua com barracas de artesanatos e lembrancinhas, food trucks e todo tipo de coisa que não tinha valor real, mas atraiam a atenção de uma pequena multidão.

Não era estranho que um encontro dessa importância acontecesse em um lugar como aquele, afinal o movimento era um ótimo disfarce e ainda servia de distração caso algo saísse do controle. Típica estratégia de agente secreto. Interessante a Mercadora do Poder estar familiarizada com essa técnica...

Roxanne parou em uma das barracas que vendia tênis de marca, claramente falsificados. Bucky olhou ao redor e não viu nada que parecesse suspeito. Se a Mercadora fosse mesmo aparecer — o que no fundo ele duvidava — ela não estava armando uma emboscada, ele já teria notado caso estivessem sendo seguidos ou observados por uma equipe de longe.

Uma mulher vinha andando por entre a multidão, cabeça erguida, rosto a mostra, uma grande bolsa tipo sacola no ombro esquerdo, que parecia conter algumas frutas. Era desconhecida, porém algo em sua postura, em seu jeito de andar talvez, parecia muito familiar...

Ela parou perto de Roxanne, focando nos tênis como se estivesse apenas observando os modelos, enquanto o cara responsável pela barraca estava mais preocupado em paquerar a moça que vendia bijuterias logo ao lado.

— Donna, é sempre um prazer te ver. — A voz feminina veio soprada em um sussurro discreto.

Algo no timbre e no sotaque fez com que Barnes tivesse a mesma sensação de familiaridade outra vez. Então aquela era a Mercadora do Poder? Não havia nada de impressionante nela. Existiriam pelo menos vinte mulheres quase se ele desse uma leve olhada ao redor.

— Igualmente. — Roxanne respondeu, pegando no bolso um saquinho preto com os diamantes que ela havia tirado do cofre antes de deixar a ilha. O objeto foi colocado discretamente em um dos tênis e a italiana continuou agindo normalmente.

— Vou levar esse. — A Mercadora pegou os calçados, os mostrando para o dono da barraca rapidamente e os colocando direto em sua bolsa, logo depois de dar ao homem uma nota de cem dólares que o fez ter que sair dali em busca de troco.

Os olhos da desconhecida pousaram discretamente em Bucky, um sorriso mínimo em seus lábios, quase como se ela achasse engraçada ou irônica a presença dele ali.

Algo naquele olhar causou nele uma sensação de déjà vu. Será que já conhecia aquela mulher de algum lugar?

— Se soubesse que tinha um ativo tão valioso eu não teria pedido diamantes. — Ela disse em um quase sussurro, porém não parecia de fato surpresa com a presença do Soldado Invernal ali, quase como se ela já soubesse que o encontraria ao lado de Roxanne.

Mas devia ser apenas impressão, certo?

— Nossa parceria de negócios funcionou muito bem até aqui, não vejo motivo para estragarmos isso. — Roxanne se colocou entre Bucky e a Mercadora, sua postura firme, quase agressiva.

No fundo ele não tinha como negar que achava um tesão quando sua italianinha fazia aquilo.

— Nada como entender os limites que não podemos cruzar. — A Mercadora do Poder disse apenas, recebendo seu troco do dono da barraca, e deixando um papel cair no chão discretamente. — Boa sorte, você e o Senhor América vão precisar.

Aquela última frase fez algo estalar na mente de Bucky. Já tinha escutado aquilo antes.

Mas não podia ser, podia?

Enquanto Roxanne pegava o papel, os olhos azuis acompanharam a direção em que a Mercadora seguia, fazendo automaticamente um mapa mental da rota dela. Tinha que encontrar um jeito de tirar a prova sobre suas suspeitas.

— Ele está com a CIA. — A Donna declarou, e Barnes viu que essas três letras estavam no papel junto com dois grupos de sequências numéricas.

— Coordenadas? — Ele questionou, porque eram isso que os números pareciam indicar. Latitude e Longitude.

— Com certeza. — Roxanne assentiu convicta.

— E confia que essa informação é verdadeira? Confia nela? — Barnes sabia que bater de frente com a CIA não seria fácil, fazer isso por uma pista falsa seria dar um tiro no próprio pé. — Sabe quem ela é?

— Ela não teria a fama que tem, se quebrasse os acordos que faz. Eu paguei pela informação, então ela é verídica, é assim que funciona com a Mercadora do Poder. — A Donna explicou, e isso deixou no ar que as duas deviam fazer negócio com alguma frequência.

Era até esperado, na verdade. Não que Bucky gostasse de ver Roxanne envolvida com alguém que foi irresponsável o bastante para reproduzir o supersoro. E isso seria ainda pior se as suspeitas dele se provassem reais...

— Mas não sei a identidade real dela. Esteve sempre com um rosto diferente das poucas vezes que nos vimos, tecnologia, suponho. Pra mim foi sempre apenas a Mercadora do Poder. — A italiana continuou. — Parte de fazer negócios com alguém como ela é não ultrapassar limites, A Mercadora não usaria um codinome se quisesse ser identificada, eu respeitei isso. Chame de sororidade se quiser. Somos ambas rainhas de um império do crime afinal.

— Certo. Faz sentido. — Ele apenas concordou. — Fica aqui então, que eu vou pegar o carro.

Era a oportunidade perfeita.

— Eu posso andar com você até lá. — Roxanne ofereceu, mas Bucky negou.

— Ou pode comprar alguma coisa pra gente comer enquanto isso, assim não perdemos tempo. — Sugeriu, torcendo para que a italianinha aceitasse.

— Preferência? — A pergunta pessoal quase o fez suspirar de alívio. Não podia lidar com uma desconfiança da Donna naquele momento.

— A coisa mais americana que eles tiverem. — Disse apenas, se virando e seguindo na direção do carro.

No entanto, assim que saiu do campo de visão de Roxanne, ele mudou o rumo e começou a acompanhar seu mapa mental. Precisava encontrar a Mercadora do Poder. Correu dois ou três quarteirões, sua velocidade apurada sendo de grande ajuda na situação. Parou sobre o viaduto, olhando de um lado para o outro e não encontrando sinal algum da mulher. Se debruçou sobre o parapeito de proteção, e logo avistou seu alvo lá embaixo, seguindo em direção a um carro estrategicamente estacionado em local discreto e que fornecia saída rápida para as principais vias de circulação.

Barnes não pensou muito antes de saltar lá de cima. Seus dois pés batendo firmes no chão, cerca de dois metros a frente da Mercadora. Ela se assustou em um primeiro momento, mas levou apenas um segundo para se colocar em posição de ataque.

Ele bloqueou um chute alto com facilidade, jogando o corpo feminino contra o veículo e a imobilizando ali.

— Por que não pulamos essa parte? — Declarou. Seus dedos seguindo rapidamente para a lateral do rosto da Mercadora. — Você sabe que não pode me vencer, Sharon.

O toque de vibranium causou interferência na máscara holográfica que ela usava, o rosto verdadeiro da loira sendo revelado por trás do disfarce. Exatamente como tinha acontecido muitos meses antes, quando ela apareceu no ataque dos Apátridas usando aquela mesma tecnologia de ocultação.

— Você mentiu pra mim e para o Sam! — Bucky acusou, dando um passo para trás em um misto de indignação, raiva e surpresa.

Quando ouviu aquele apelido, “Senhor América”, foi impossível ignorar que já o tinha ouvido antes, Sharon havia chamado Barnes assim, quando ele, Sam e Zemo encontraram com ela em Madripoor. Mas, no fundo, o ex-sargento desejava que suas suspeitas estivessem erradas.

Ela não podia ter descido tão baixo assim... Não era sobre o tráfico de informações secretas, ou a venda de obras de arte no mercado negro, sequer era sobre ser a pessoa mais influente e perigosa em Madripoor. Cinco anos tendo que sobreviver sozinha, fugindo do governo americano por pura injustiça tornavam esses crimes algo compreensível. Mas Sharon Carter costumava ser aliada de Steve, como ela pôde chegar ao ponto de reproduzir o supersoro daquele jeito?

— Menti? Eu não lembro de vocês terem me perguntando quem era o Mercador do Poder. — Ela respondeu quase cínica. — Achou que eu tinha todas aquelas obras de arte como?

— Você estava fabricando soro, Sharon. Pessoas se machucaram. — Bucky retrucou em clara indignação. — O Sam podia ter morrido no confronto com aqueles supersoldados radicais que você ajudou a criar quando o seu soro caiu nas mãos erradas!

— Eu fiz o que eu tinha que fazer. — A Carter se justificou sem um pingo de remorso. — E quer saber? Isso não é da sua conta. Acho que você tem coisas mais importantes para se preocupar...

— Eu vou garantir que o Capitão América saiba quem você é de verdade. — Barnes deixou claro. Encontraria um jeito de contactar Sam e repassar a informação. — Você voltou para a CIA apenas para lucrar com as informações confidenciais que tem acesso por ser uma agente.

— Informações essas que estão sendo de grande utilidade para a Donna agora, não é? — A loira rebateu, como se acusasse Bucky de hipocrisia. — Além disso, você não vai revelar minha identidade. Porque se o Sam vier atrás de mim a primeira coisa que eu vou fazer é contar o seu segredo para Roxanne também.

Ele deu outro passo para trás.

— Não tem segredo nenhum para contar. — Mentiu, usando um tom seguro.

— Será? — Ela acusou, estreitando o olhar. — Pensa que não sei da sua missão? Se disfarçar de Soldado Invernal para destruir a Hydra de dentro. Mas então você acabou preso na Sicília, e fez um acordo com a Donna, que é totalmente baseado em suas mentiras. — Ela citou todos os passos dele. — Que Roxanne se apaixonou por você ficou bem óbvio pra mim, agora, considerando que em nenhum momento você informou a Valentina que a jovem Domenichelli é a própria Donna da Máfia, acho que você também se apaixonou por ela, não é?

— Como sabe o que eu falei ou não para a Valentina? — Ele questionou entre confuso e desconfiado.

— Ela coloca tudo no relatório, é claro. — Sharon respondeu da forma mais óbvia de todas, mas ao notar as sobrancelhas franzidas de Barnes ela realmente pareceu surpresa. — Ah meu Deus, você não sabe... — Soprou em um misto de divertimento e ironia. — Valentina de Fontaine é a Diretora da CIA, Bucky.

— Não... — Ele deu outro passo para trás, a revelação se espalhando em ramificações problemáticas demais para ignorar. — Ela é do Alto Conselho...

Isso tornava as verdades que tinha que contar a Roxanne ainda mais cruzeis, afinal trabalhando para o Alto Conselho ele já seria visto como um inimigo da máfia e aliado do governo. Mas trabalhando para a CIA... Isso tornava tudo ainda pior, principalmente agora que a agência tinha capturado Francesco Greco.

— Sério que você acreditou nisso? — Sharon rebateu. — O Alto Conselho é só uma organização não-governamental de fachada que existe para fazer Valentina parecer mais amigável quando lida com alguns assuntos. Depois do que aconteceu com a SHEILD era preciso uma certa neutralidade. Sabe como é... — Ela encolheu os ombros como se não se importasse realmente. — Achei mesmo que você fosse mais esperto, Bucky.

Ele fechou os olhos por um momento, absorvendo que, novamente, tinha sido manipulado por uma organização do governo. Se sentiu idiota por ter se mantido fiel à Operação Roleta Russa por tanto tempo, a culpa esmagou ainda mais seus ombros por ter passado informações para Valentina.

Quando encarou Sharon novamente, conseguiu até apreciar o fato de que ela estivesse fodendo com a CIA e vendendo segredos de Estado bem debaixo do nariz deles.

— Temos um acordo então, Mercadora. — Declarou decidido. — Um segredo por outro. Mas se suas ações prejudicarem o Sam de qualquer forma, ou se você tentar reproduzir aquele soro maldito outra vez, eu mesmo vou atrás de você.

Sharon riu de canto daquela ameaça.

— O soro foi um erro do qual não me orgulho, o prejuízo já foi lição suficiente. Quanto ao Sam, eu jamais o machucaria, ele é meu amigo, um dos poucos que cumpriram com a palavra. — Ela deixou claro. — Além disso, achei que não fosse mais um assassino, Barnes.

— Para tudo nessa vida existe uma exceção. — Ele respondeu neutro. — Temos ou não um acordo?

— Sabe que essa coisa de Rei Consorte da Máfia ficou bem em você? — A loira riu, estendendo a mão direita. — Espero que tenhamos mais oportunidade de fazer negócios daqui pra frente.

— E eu espero não te ver nunca mais. — Barnes retrucou, enquanto os dois trocavam um aperto de mão para selar o acordo.

Deu a conversa por encerrada e se virou para ir embora.

— Felicidades ao casal. — Sharon ainda desejou, antes de entrar em seu carro e sair dali.

Minutos depois, Bucky também estava no próprio veículo, estacionando o mais próximo que podia de um dos foodtrucks onde Roxanne já esperava. Sua cabeça dava voltas com as novas informações que tinha, porém o sorriso bonito que a italianinha abriu quando pousou os olhos nele fez com que tudo dissipasse por um instante.

— Você demorou. — Ela comentou enquanto entrava no carro, suas mãos cheias de sacolas para viagem. — Esqueceu que Nova York não é como a Sicília e tem trânsito por toda a parte?

Ele podia confirmar, podia se beneficiar da omissão, mas estava tão cansado de cultivar mentiras que decidiu que não regaria aquela até que crescesse e se tornasse uma planta carnívora como todas as outras.

— Eu fui atrás da Mercadora do Poder. — Respondeu com honestidade.

— O quê? — O choque no rosto de Roxanne foi explícito. — Por quê?

Ela tinha acabado de bater a porta do carro e estava sentada ao lado dele.

— Desconfiei que ela podia ser alguém que eu conheço. Era algo na postura e na voz, além disso, ela me chamou de Senhor América, foi a pista final. — Bucky explicou, medindo as reações da Donna. — Eu a confrontei. Era mesmo a pessoa que eu pensei.

Roxanne o encarou por alguns segundos, a cor sumiu de seu rosto, seus olhos se tornaram vazios de um jeito que fez o coração de Barnes doer. Ela estava totalmente ofendida, era perceptível, por um instante ele pensou que a italiana apenas sairia do carro e nunca mais falaria com ele de novo...

Porém ela respirou fundo, quase como se estivesse trabalhando para regular as próprias emoções, tentando se convencer que não tinha motivo para ficar com raiva ou reagir de forma impensada.

— Por que não me falou o que ia fazer? — A pergunta veio calma e ponderada, Bucky já conhecia a Donna o bastante agora para ver que ela procurava não tirar conclusões precipitadas. — Espera. Foi por isso que me perguntou se eu sabia quem ela era?

Ele assentiu. No fundo já desconfiava que Roxanne não gostaria de saber que ele tinha agido pelas costas dela, porém, por ter contado logo, ele imaginou que a conversa seria mais fácil.

Mas aquilo parecia ter atingido a italiana, quase como se ele tivesse cutucado uma ferida que nunca cicatrizou, como se a confiança dela já tivesse sido traída antes.

— Eu não tinha certeza se estava certo, precisava tirar a prova, mas você já tinha muita coisa na cabeça e eu não queria comprometer sua relação com a Mercadora, por isso fui sozinho. — Ele explicou da melhor forma que pôde, era uma meia verdade, porém era o melhor que podia dar a Roxanne no momento. — Desculpe.

Os olhos negros desviaram dele, Bucky sentiu uma dor física. E se aquela pequena transgressão já fosse demais para a Donna? E se ele a perdesse por aquela coisa tão estúpida?

Ela encarou as ruas movimentadas por alguns segundos, como se estivesse em debate interno consigo mesma, sua postura tensa, seus dedos se remexendo um no outro. Barnes tinha feito terapia por tempo o bastante para entender que tinha disparado um gatilho em Roxanne. No entanto, ela claramente estava tentando lutar contra as reações emocionais desproporcionais que esse tipo de coisa causava.

Era difícil dizer se a italiana estava decepcionada, brava ou triste, porém era bem claro que ela não queria dizer absolutamente nada antes de processar os próprios sentimentos.

Bucky notou que, se algo simples tinha esbarrado em um gatilho, a verdade completa sobre a Operação Roleta Russa realmente destruiria tudo de bom que existia entre os dois...

— Certo. — A Donna disse finalmente, depois de respirar bem fundo e arrumar a postura. — Eu fiz a coisa do livro sem te contar, então acho que é justo você omitir que estava indo atrás da líder de Madripoor sozinho enquanto me mandava comprar cachorro-quente.

Ela tirou um dos lanches da sacola e o entregou na mão dele. Ficou claro que havia usado aqueles segundos pra encontrar uma justificativa para as ações de Bucky, e estava argumentando em voz alta, como se precisasse convencer a si mesma que a atitude dele não era tão ruim assim.

Claro que ela não sabia que aquele maldito livro vermelho não significava nada, porém Barnes ficou tão aliviado de ver os olhos negros focarem nele de modo ameno de novo, que apenas agradeceu pela falsa inocência que lhe foi atribuída.

As verdades corrosivas que ele escondia teriam que ficar enterradas por mais um tempo. Estava menos preparado para perder Roxanne do que havia imaginado, aquele pequeno momento de pânico completo provou isso muito bem.

— Obrigada por me contar. Podemos só não agir sem falar um para o outro daqui pra frente? — Ela pediu em tom neutro, pegando seu próprio lanche da sacola de papel.

— Claro. — Ele garantiu com um movimento rápido de cabeça.

Roxanne assentiu também, porém ainda havia uma grande dose de preocupação em seu olhar.

— Mas se você confrontou a Mercadora e ela era mesmo uma conhecida, então o seu disfarce foi exposto. — A Donna ponderou e era perceptível que estava tentando entender a crise que tinha em mãos, para lidar com os possíveis efeitos colaterais.

Evidente que ela se preocuparia com o impacto disso na missão principal de resgatar Damian e derrubar a Hydra, afinal, a mentira sobre Barnes ainda ser o Soldado Invernal era o que evitava maiores problemas com Strovalenko.

— Foi. A Mercadora sabe que eu sou apenas eu mesmo e não o Soldado Invernal. — Bucky admitiu. — Mas como eu sei quem ela é, fica um segredo por outro.

— Justo... — Roxanne soltou, mas ainda não parecia convencida. — Mas você tem certeza que está mesmo seguro? Uma informação dessas valeria uma fortuna para Strovalenko.

Barnes sabia que era uma conversa séria e uma situação tensa, porém não conseguiu evitar um sorriso ao ouvir aquilo. Sentir que sua italianinha não se preocupava apenas com a missão, mas com ele também, logo depois de ter passado os últimos segundos pensando que a perderia definitivamente por uma coisa tão boba quanto ir atrás da Mercadora, era um alento grande demais para que ele conseguisse ignorar.

— É como você disse, ela não seria a Mercadora do Poder se desonrasse seus acordos. Ela não vai dizer nada, tem muito a perder também. — Ele garantiu, acreditava mesmo que seu segredo estaria seguro.

— “Muito” quanto? — Roxanne quis saber.

Bucky decidiu que compartilhar aquela verdade com ela era o justo a se fazer, desde que a Mercadora não ficasse sabendo disso, tudo estaria bem...

— O nome dela é Sharon Carter, era amiga do Steve, me ajudou a fugir do governo depois que me acusaram de explodir aquela bomba na ONU, ela estava foragida desde então. — Ele começou a contar. — Depois encontrei com ela de novo, quando Zemo me levou para Madripoor atrás da fonte do soro dos Apátridas. Depois ela conseguiu uma anistia por causa do Capitão América, o novo, no caso. E trabalha na CIA agora, a julgar pela informação que acabou de te vender, está se aproveitando disso.

Na verdade, foi um alívio poder dizer tudo aquilo sem ficar pensando demais nos detalhes, era a verdade afinal, e por já ter mencionado a ida a Madripoor e os Apátridas para Roxanne antes, tudo se encaixava. A única coisa de fora foi sua amizade com Sam, porém, naquele ponto da confusão toda os dois ainda não eram realmente amigos.

— Como eu disse, ela tem tanto a perder quanto eu. — Terminou com segurança.

Roxanne assentiu finalmente, parecia menos preocupada agora, mas ficou calada por alguns instantes, dando uma mordida em seu lanche enquanto parecia pensar.

— A Mercadora do poder trabalhando na CIA para vender os segredos de Estado... — Comentou por fim, meneando a cabeça de um lado para o outro. — Acho que vou precisar rever meus negócios com ela. Ter envolvimento com uma agente da CIA não é interessante pra mim.

— Mesmo que ela esteja contra eles? — Bucky questionou, sentindo seu coração bater apertado. Afinal ele teoricamente também trabalhava para a CIA. E realmente não achava que conseguiria explicar que fez isso sem saber.

— Será que ela está mesmo contra eles, ou só está fazendo o que é melhor no momento? Quanto tempo até ser mais vantagem cooperar com o Governo? Ela é um risco. — Roxanne explicou direta. — Se não fosse uma informante externa, sem vínculos reais com a máfia, eu ordenaria a morte dela agora mesmo.

Barnes mordeu seu cachorro-quente para disfarçar seu desconforto. Sempre soube que a verdade seria sua sentença de morte, mas agora, ele tinha certeza absoluta que não haveria qualquer escapatória.

— Mas ela é a rainha de Madripoor, acho que não é uma briga inteligente para comprarmos se pudermos evitar, ainda mais agora que ela sabe seu segredo. — A Donna ainda ponderava, voltando ao tom casual que tinha quando compartilhava planos com Bucky. — Manteremos uma distância cautelosa, mas não cortaremos laços para não levantar suspeitas.

Ele apenas assentiu, mastigando o alimento que parecia ter gosto de veneno por causa do remorso amargando sua boca. Podia sentir seu tempo roubado se esvaindo de seus dedos cada vez mais rápido. Não demoraria muito mais até que tudo acabasse em tragédia.

— Além disso, agora estou meio puta que ela te conhecia, era sua amiga, olhou na sua cara, pensou que você tinha voltado a ser o Soldado Invernal e nem tentou te ajudar, na verdade pelo jeito como ela falou ela te usaria como mercadoria. — A indignação da Donna puxou Barnes de volta para a realidade.

Não podia se lembrar ou afundar na culpa, tinha que fazer com que seus últimos momentos ao lado da mulher que amava valessem à pena.

— Eu nunca disse que ela era minha amiga. Disse que era amiga do Steve. — Ele respondeu simples, terminando o cachorro-quente e se virando na direção do volante. — Mas não importa mais. Vamos focar no resgate do Frank, isso é bem mais urgente.

— Você está certo. — Roxanne assentiu, juntando todo o lixo do carro e o jogando na sacola de papel para ser colocado em algum cesto depois.

Barnes deu a partida, ficariam em um hotel ali mesmo em Nova York para planejar melhor o resgate. Depois de escolherem o quarto — uma suíte presidencial no último andar do edifício — a Donna fez uma conferencia virtual com Corinne e Niccolo.

Os dois estavam em Washington desde que foram mandados para os Estados Unidos, tentando conseguir pistas sobre o paradeiro de Frank. Porém, com as novas coordenadas fornecidas pela Mercadora do Poder, agora todos sabiam que a localização oficial de Francesco era uma base da CIA no Arizona.

Provavelmente o estavam mantendo no subsolo do lugar, sendo interrogado de formas pouco ortodoxas e que feriam os direitos humanos. Se ele tivesse sido preso oficialmente sua localização seria pública, ele teria um julgamento justo e, é claro, poderia ser livrado de todos aqueles crimes com a quantidade certa de dinheiro no bolso de juízes mais amigáveis. Porém, por ter sido capturado como um membro da Hydra, Frank não seria tratado como um criminoso comum.

Por isso, a única forma de levá-lo de volta para casa seria invadindo o lugar para executar o resgate e depois a fuga. Os riscos eram incontáveis, os obstáculos maiores ainda.

Porém, foi interessante para Bucky notar que Roxanne tinha um modo de agir totalmente diferente da Hydra. Afinal a organização nazista teria usado força bruta para entrar, matando qualquer um no caminho. A Donna queria fazer de forma mais discreta, com o mínimo de confronto possível, sem chamar atenção.

Isso exigia um plano meticuloso, então, pelo resto da tarde os quatro ficaram em chamada, usando uma linha segura e criptografada, para estudarem as plantas do prédio, rotas de fuga, alternativas de emergência e listarem tudo que seria necessário para resgatar Frank.

Por fim, Corinne ficou responsável por conseguir os cartões de acesso que eles precisavam para transitar dentro do prédio, enquanto Nick juntaria todas as armas. Quando eles desligaram já era noite. Combinaram de se encontrar no Arizona no outro dia depois do almoço, assim iniciariam a missão ao anoitecer. Roxanne ainda ficou no telefone por alguns minutos, dando ordens para algumas Mamas, falando com contatos americanos para conseguir transporte e equipamento. Enfim, sendo a Donna.

No geral Bucky amava ver enquanto ela trabalhava, porém, naquele dia em particular sua cabeça estava tão pesada de preocupações que ele sequer conseguiu prestar atenção naquilo.

Caminhou pelo quarto de hotel de forma impaciente. Se é que aquilo podia ser chamado de quarto... Era um espaço imenso divido em três cômodos distintos. O quarto em si tinha uma enorme cama kingsize com travesseiros macios, um closet adjacente, uma cômoda, uma grande televisão de plasma e um divã próximo a grande varanda que dava vista para a cidade.

O cômodo ao lado podia ser chamado de sala, um grande sofá, mesa para refeições, frigobar e cafeteira a disposição, também com acesso a uma segunda varanda com vista externa e portas de vidro.

Fora isso, do quarto era possível acessar um banheiro luxuoso com banheira de hidromassagem, um sistema de som ambiente e sauna a vapor integrada.

Bucky achava um luxo desnecessário, ainda mais para uma estadia de menos de vinte e quatro horas, mas haviam tantas outras preocupações em sua mente que ele nem ligou de fato para o quarto de hotel.

Naquele instante, mesmo suas mentiras estavam em segundo plano. Perder Roxanne para a verdade de suas ações soava quase reconfortante perto do receio de perdê-la em uma missão contra um prédio inteiro de agentes da CIA. Era improvável que um local como aquele fosse fácil de invadir, haveriam guardas e armamento pesado, além de sistemas de segurança complexos.

E, por mais que ele soubesse que a Donna cismava em dizer que não precisava de proteção, ele não conseguia relaxar sabendo que ela estaria em risco constante durante aquele resgate. Ela podia se machucar gravemente, ou pior... Era isso que assombrava Barnes de verdade.

— James? — A voz feminina chamou e automaticamente os olhos azuis seguiram naquela direção. — Tudo bem? Você parece preocupado, é a coisa com a Mercadora?

Uma risada sem humor escapou da garganta de Bucky.

— Sharon é a última das minhas preocupações. — Deixou claro, caminhando em direção ao divã onde Roxanne estava sentada.

— Então qual é o problema? — Ela questionou, erguendo um pouco a cabeça para que os dois se encarassem, já que ele estava bem perto agora, mas permanecia de pé.

— O “problema” é que vamos entrar em uma instalação protegida do governo amanhã e você não é um supersoldado. — Declarou, com os olhos azuis intensamente focados na italiana. — A única coisa que me preocupa agora é a sua segurança e o seu bem-estar.

— Eu sei como me defender, James. — A Donna rebateu com as palavras esperadas, mas o sorriso em seu rosto dizia que talvez ela gostasse da preocupação dele.

— Eu não duvido disso. — Bucky declarou simples. — Mas me preocupo com você mesmo assim. A simples possibilidade de que você se machuque no meio disso tudo me apavora.

Roxanne ainda tinha aquele sorriso ameno no rosto quando tocou a mão de Barnes e o fez se sentar ao lado dela. Segurou o rosto dele então, seus olhos negros focados nas íris azuis.

— Eu vou ficar bem. — Garantiu com segurança. — Nós vamos ficar bem. Depois de amanhã já estaremos em casa novamente, nós cinco.

Bucky respirou fundo, assentiu brevemente, desejando acreditar naquelas palavras mais que tudo. Roxanne curvou um pouco o corpo e deixou um beijo doce nos lábios masculinos, fazendo com que ele suspirasse como se o peso de mil mundos tivesse acabado de sair de seus ombros.

— O que foi? — A Donna franziu as sobrancelhas, provavelmente estranhando a reação.

— É a primeira vez que você me beija desde o carro. — Barnes revelou constrito. — No fundo eu não sabia se você ainda estava chateada.

— Podia ter perguntado. — Roxanne sorriu leve. — Ou podia ter simplesmente me beijado, já que queria tanto.

Bucky sorriu também, seus dedos deslizando na nuca feminina para puxá-la em sua direção. Seus lábios tocaram os dela em um beijo lento e apaixonado. Aquelas últimas horas haviam deixado uma coisa bem clara: ele estava em paz com morrer pelas mãos de Roxanne quando toda a verdade viesse à tona, porém, qualquer realidade em que ele a perderia e sobreviveria para lidar com a dor, era insuportável e impensável...

Quando se separaram, os dedos dele deslizaram nos fios dela sem pressa.

— Bom, não tem muito mais o que possamos fazer agora. Está tudo resolvido. — Roxanne comentou casual. — Amanhã nós agimos e resgatamos o Frank. Quer aproveitar o tempo livre para dar uma volta por Nova York?

Barnes franziu as sobrancelhas, não esperava que a Donna tivesse ânimo ou cabeça para esse tipo de coisa as vésperas de invadir um prédio da CIA.

— Sério? — Ele soprou, sem entender aquele convite.

— Eu acho que depois do que vamos fazer amanhã não poderemos voltar aqui por bom um tempo. — Ela explicou, seu tom ficando um pouco mais pesado. — Sei que viveu nessa cidade com Steve Rogers quando eram jovens. Se quiser se despedir...

Bucky entendeu finalmente, talvez a Donna não tivesse mesmo cabeça para programas casuais naquele momento, porém queria dar a ele a oportunidade de ter uma última noite em sua cidade natal. Isso dizia muito sobre o quanto ela se importava.

— A menos que você não queria fazer isso... — Roxanne murmurou, sua voz quase entalada na garganta.

— Sair para dar uma volta em Nova York? — Barnes não entendeu a postura repentinamente tensa e os olhos tristes da italiana.

— Ir comigo para o Arizona. — Ela corrigiu e ele franziu as sobrancelhas. — Eu andei pensando, essa seria a oportunidade perfeita pra você fugir, James.

— Fugir? — Repetiu incrédulo.

— Você não precisa dedicar sua vida a uma vingança contra a Hydra. Eles já tiraram demais de você. — A Donna começou, segurando a mão direita de Barnes de forma carinhosa. — Posso forjar sua morte e dizer ao Strovalenko que aconteceu durante resgate do Frank. Ele ficar puto comigo por um tempo, mas vai acabar entendendo que o resgate de alguém que sabia tanto era necessário, e você vai ter sido apenas uma baixa no meio disso, ele não vai te caçar pelo globo se achar que você está morto. Ninguém vai. É sua oportunidade de viver uma vida normal.

— Uma vida normal longe de você. — Bucky completou com o único detalhe relevante.

Roxanne aproximou o corpo um pouco mais, um sorriso triste em seu rosto bonito, os olhos negros marejados.

— Eu sou a rainha da Máfia, Amore Mio, perto de mim você nunca vai ser o herói que devia ser. — As palavras saíram doloridas. — Eu não posso parar de fazer o que eu faço, mas eu também não quero que você se torne um criminoso por minha causa, e é isso que vai acontecer se for comigo amanhã.

O peito de Bucky ardia, seus lábios tremiam.

— Achei que você me amasse e que a única coisa que poderia te machucar seria se me levassem para longe... — Ele argumentou.

— E eu te amo. — Roxanne garantiu. — E por isso estou te oferecendo a vida que você merece, porque o mundo já tirou demais de você.

A primeira lágrima rolou pelo rosto feminino e só então Barnes se deu conta do tamanho daquele gesto. Era irônico notar que uma das pessoas mais altruístas que ele havia conhecido na vida era justamente a rainha da Máfia.

Nem todo mundo seria capaz de suportar a dor de abrir mão de alguém que amava apenas porque isso era o melhor para a outra pessoa. Porra, nem ele próprio conseguia, era por isso que vinha escondendo toda a verdade, só para poder roubar qualquer segundo que fosse ao lado daquela mulher...

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Roxanne respirou fundo, engoliu o nó em sua garganta, segurou as lágrimas e continuou:

— Sem crimes, sem Hydra, sem sangue, sem ser perseguido, sem que o nome do Soldado Invernal seja sempre uma sombra. Você pode recomeçar onde quiser, nome novo, vida nova. Eu te consigo os documentos, te dou o dinheiro, a gente consegue uma tecnologia holográfica que oculte seu braço. E você vai ser livre, James Barnes. Finalmente.

Era uma boa vida, era inclusive uma solução para a tragédia eminente em seu destino, se partisse naquele momento a Donna nunca saberia as verdades amargas que ele vinha escondendo, o amor dela permaneceria para sempre nas memórias de Bucky e o que eles viveram nunca seria maculado por algo tão corrosivo quanto a decepção ou o ódio. Ele ficaria vivo, livre da Hydra e poderia começar uma vida nova em qualquer lugar...

— Só tem um problema, Donna... — Declarou, por fim, com um sorriso de canto. — Eu não quero ser livre. Eu quero ficar com você.

Qualquer outra realidade em que ele teria que viver sabendo que havia perdido Roxanne não era sequer uma possibilidade. Bucky via isso com clareza agora.

— Mas... — Ela tentou argumentar, ele não permitiu.

— Não... — Moveu a mão em um gesto displicente. — Esquece isso de herói, não é verdade, qualquer coisa que eu tenha feito nos últimos cem anos foi escolha de outra pessoa ou imposição de um destino de merda. — Revelou com um dar de ombros. — Eu não fui voluntário para a guerra como o Steve, eu nunca tive essa nobreza. Fui convocado, obrigado. Depois disso o destino me levou de um campo de batalha a outro, perseguindo um ideal de nobreza que nunca foi meu de verdade, era do Steve. Então veio o gelo, a Hydra, o Soldado Invernal, o sangue, décadas de ordens e imposições, nenhum livre-arbítrio. Quando voltei a mim, tentei fugir, mas o destino me pegou, e de repente eu tinha esse fardo, porque sabia que existia uma dívida pra quitar, a única coisa que eu podia fazer era continuar lutando, pra que mais eu serviria? Em Wakanda pensei que havia acabado, mas Thanos veio e novamente fui convocado para cumprir meu dever. De um jeito ou de outro, as coisas sempre acabaram em uma luta que eu não escolhi. Mesmo contra os Apátridas, era algo que eu tinha que fazer, questão de dever e esse tipo de coisas. Nunca foi uma escolha, mesmo quando a liberdade parecia estar na minha mão ela era apenas uma ilusão, entende isso?

Quase riu dessa longa constatação, porque afinal mesmo colocar os pés na Sicília não foi escolha dele.

— Eu não escolhi ser um herói, eu não sou como Steve Rogers ou Tony Stark. Eu fui convocado para a guerra e depois o destino me deu uma divida que eu carreguei como um fardo. — Resumiu em uma só frase. — Mas estou cansado de pagar por isso. Não sei se você está certa e eu mereço mesmo liberdade, mas se você estiver, então quero a liberdade de escolher uma coisa pelo meu simples querer.

Pousou seus olhos azuis no rosto feminino com convicção. Porque aquilo era importante, talvez a coisa mais importante que ele já tinha dito na vida.

— E é você, Roxanne Domenichelli. Você é, depois de décadas e talvez na vida toda, a minha escolha convicta. — Declarou sem desviar o olhar. — Eu escolho os crimes nobres, a máfia italiana reformada, o sangue derramado dos seus inimigos, os planos perigosos, o risco eminente, as missões com final inesperado e todo o resto. Não é por vingança, não é por causa da Hydra, eu escolho tudo isso ciente e consciente, só pra estar com você. Eu não preciso ser um herói. Se quer tanto me dar liberdade, então me dê a liberdade de ficar ao seu lado. Porque, enquanto você ainda me quiser, é com você que eu quero estar, Donna Mia.

— Enquanto eu te quiser? — Ela repetiu, sorrindo em meio as lágrimas que rolavam por seu rosto bonito.

— Sim. — Bucky concordou imediatamente.

Era isso, pouco importava a tragédia eminente, pouco importava a Operação Roleta Russa ou a morte certa. Era com a sua italianinha que Bucky queria ficar e, se teria que entrar na lista de criminosos procurados por isso, então tudo bem. Não seria sua primeira vez mesmo, mas dessa vez ele estaria lá por escolha. Uma escolha que valia a pena.

— Bom... — Roxanne respirou fundo, um sorriso ainda maior em seu rosto enquanto ela limpava as lágrimas. — Então acho que podemos começar com “pra sempre”.

— Pra sempre parece ótimo pra mim. — Bucky a puxou para mais um beijo.

Pra sempre, enquanto o pra sempre durasse...

Sabia que não teria muito tempo, sabia do final que o aguardava. Contaria a verdade quando a Donna estivesse novamente segura na Sicília, até lá, faria cada segundo valer a pena.

O para sempre nunca tinha parecido um tempo tão curto.