O mar estava muito calmo e o vento frio soprava lentamente, fazendo com que o atlântico norte parecesse apenas um grande nada vazio e abandonado. Bucky encarava o ondular da água, enquanto sua mente tentava adivinhar o rumo de sua vida, ou melhor, a forma de sua morte...

Eles já estavam há horas naquele iate, Roxanne já havia cuidado dos ferimentos de todos. Ela inclusive fez questão de olhar as costelas de Barnes, mesmo que ele tivesse garantido que já estava bem. Enquanto isso, Frank teve todas as oportunidades para apontar o traidor, mas não o fez. Talvez estivesse esperando para falar com a Donna à sós.

Por isso, Bucky acreditava que era exatamente naquele momento, enquanto Corinne guiava o iate e a Donna estava em uma cabine em reunião privada com Greco e Pisanni, que Francesco estaria contando a verdade.

Sendo assim, era apenas questão de tempo até que Barnes encontrasse seu destino derradeiro. Da próxima vez que encarasse o rosto de Roxanne haveria apenas ódio nos olhos negros que ele tanto amava.

Se é que ela olharia para ele outra vez... Talvez mandasse Nick matá-lo, ou quem sabe permitiria que Frank ou Corinne fizessem isso. Naquele instante, todas as formas terríveis de assassinar alguém passavam pela mente de Bucky e ele não conseguia imaginar qual delas a Donna escolheria.

Será que ele seria jogado ao mar para nunca ser achado? Ou será que seria levado de volta à Sicília para ser torturado por um tempo?

Não importava, seja lá qual fosse a decisão da Rainha da Máfia, Bucky sabia que merecia. Ele até poderia dizer que estava em paz com seu destino, porém, aquela pontada em seu coração, aquela certeza de que seria odiado eternamente pela mulher que amava, a pessoa que ele mais amou na vida... isso era pior que a morte.

Então ele esperou sozinho, no silêncio, enquanto os minutos passavam devagar. Pareceu demorar uma eternidade, mas eventualmente ouviu os passos de Roxanne se aproximando.

Ele não virou para olhar, mas sabia que era ela. Sabia pela forma de caminhar, pelo perfume que veio com a brisa. Todos os detalhes de Roxanne haviam grudado em Bucky, e ele não estava pronto para abrir mão, não ainda, queria manter o olhar amoroso dela na mente por mais um momento, por isso, mesmo quando ela parou exatamente ao lado e apoiou as mãos na grade de proteção, ele seguiu olhando o mar.

— Está arrependido? — A pergunta da Donna não era bem o que Barnes esperava. Sempre imaginou que ouviria algo mais ácido, irritado e talvez até cruel, mas não havia nada disso na voz dela.

Ele pensou por um momento antes de responder; estava arrependido? Não. Todas as mentiras que contou, todas as coisas que fez, tudo isso o levou aos momentos que roubou com Roxanne. Como poderia se arrepender disso? Se tivesse contado a verdade antes não teria vivido aqueles momentos e, em todos os seus mais de cem anos, Bucky nunca tinha estado mais feliz.

Não havia como se arrepender de algo assim.

— Eu só não queria que algumas coisas tivessem acontecido desse jeito. — Foi honesto, desejava que existisse uma versão da realidade onde ele tivesse encontrado um jeito de dizer a verdade sem perder a mulher que amava ou, quem sabe, uma versão em que ele a teria conhecido sem toda a complicação ao redor de suas vidas.

— Sinto muito... — A mão feminina pousou sobre a dele repentinamente e Bucky procurou os olhos negros, se surpreendendo ao não ver nada mais que carinho neles. Nada tinha mudado. — Sei que deixar aquele rastro de corpos para trás e fugir do país enquanto seu nome entra na lista de mais procurados, deve ser uma merda, principalmente porque você tinha conseguido um perdão presidencial.

Por um segundo Barnes teve esperança que a Donna tivesse ouvido a verdade e ainda assim decidido que o amor deles valia mais, por um mero instante ele acreditou que seria perdoado, mas as palavras que saíram dos lábios que ele tanto amava não deixavam nenhuma dúvida. Roxanne não sabia da verdade ainda.

— Não me importo com a fuga ou com a coisa de ser um criminoso procurado. Mas eu queria que isso não tivesse acontecido, queria que a CIA não tivesse capturado o Frank. — Ele respondeu, dando outro significado para sua frase anterior, mas mantendo a honestidade. Realmente não desejava que nada de ruim tivesse acontecido.

Era incerto o motivo de Francesco ainda não ter falado com a Donna, Bucky não conseguia pensar com clareza. Será que tinha se enganado e o braço direito de Roxanne não sabia de nada?

— Eu também, mas esse tipo de risco eu não tenho como controlar, faz parte da vida que eu levo. — A italiana prosseguiu com a conversa, dando um passo para mais perto do soldado. Ainda assim, eu sinto muito ter te arrastado pra isso.

— Para de dizer isso. — Pediu, se aproximando um passo dela também e tocando o rosto feminino com delicadeza, sentindo um alívio gigante com esse simples gesto. Era mais um pequeno momento roubado antes que tudo virasse tragédia. — Você não me arrastou para nada. Eu estou aqui porque quero estar, porque eu...

— Você me ama. — Roxanne completou certeiramente. — Mas me amar vem com um preço.

— Não importa, eu pago o preço que for, porque você vale a pena, Italianinha. — Bucky declarou, envolvendo a cintura dela, apenas porque precisava sentir que os dois ainda podiam ficar juntos.

— Como você faz isso? — O sorriso que a Donna abriu podia ofuscar até mesmo as estrelas.

— Faço o que?

— Sempre diz todas as coisas certas. — Ela respondeu, apoiando os braços nos ombros de Bucky.

Ele riu de canto, se afogando nos olhos negros, enquanto aquela pergunta macabra e insistente ainda tentava agarrá-lo. Quanto tempo mais ele tinha?

Frank não havia falado nada porque talvez não soubesse, mas e se fosse apenas uma decisão estratégica? Adiar até que chegassem na Sicília...

Bucky puxou Roxanne para mais perto, envolvendo o corpo dela em um abraço apertado, como se isso pudesse proteger os dois das mentiras que ele mesmo havia contado. Ela afundou o rosto no peito dele como uma criança que precisa de colo e ele beijou o topo da cabeça dela.

— Frank disse que meu pai está morto. — Ela revelou baixinho, e era de fato apenas uma menina naquele momento.

Barnes compreendeu o motivo da conversa com Francesco ter demorado tanto. Mesmo que Vicenzo fosse um maldito, ele era pai da Roxanne, e ela claramente sentiu o impacto daquela notícia.

— Foi a CIA? — Ele perguntou, acariciando os cabelos negros devagar para transmitir algum conforto para sua italianinha.

— Não. Meu pai foi encontrado morto na Disney. — Disse aquilo como se tivesse alguma importância.

Bucky não perguntou, apenas a abraçou um pouco mais, dando o tempo e espaço para que ela compartilhasse se quisesse.

— Quando eu tinha dez anos ele me levou lá, foi a primeira vez que eu e o Damian andamos de avião, apenas algumas semanas antes de tudo virar tragédia. — Revelou depois de alguns segundos. — Acho que ele foi até lá pra relembrar... Então algum dos nossos inimigos o matou.

Evidente que depois de ser Dom por tantos anos, Vicenzo teria muitos inimigos, mas por algum motivo Barnes não acreditou que aquele homem teria qualquer pingo de afeto em seu coração pela filha, a ponto de ir em um parque de diversões para se lembrar dela. Porém, se Roxanne encontrava conforto nessa teoria, tudo bem.

— Sinto muito. — Bucky disse compassivo.

Se fosse honesto, estava até aliviado que Vicenzo não se tornaria um problema ou um risco para a Donna, porém, isso não impedia seu coração de se compadecer pela dor de sua amada. Era fácil notar que Roxanne sentiu a perda, talvez em algum lugar na mente dela ainda houvesse alguma esperança de recuperar a família por completo, de trazer Damian para casa e com isso fazer o pai admitir que sempre esteve errado.

Ela podia ser a rainha de um império do crime, mas isso não a impedia de ser também apenas uma menina que teve que crescer rápido demais e que por isso era carente de afeto.

— Ele fez a escolha dele. — Roxanne suspirou em tom resignado, apoiando o queixo no peitoral de Barnes para que seus olhares se encontrassem.

Ela não lamentaria mais do que aquilo, isso estava bem claro. Apesar de ser uma filha carente do afeto do pai, era também uma mulher madura, não fingiria que Vicenzo era uma boa pessoa. Aquele momento de tristeza não era por ele em si, e sim por todas as coisas que nunca foram, simplesmente porque ele não se dedicou a ser um homem e um pai melhor.

— Como você está? Ainda dói? — Ela mudou de assunto, tirando uma das mãos dos ombros de Barnes para tocar suavemente o ponto em que ele fora atingido pela arma alienígena de Valentina.

— Estou bem, te falei quando me examinou antes, o braço aparou a maior parte do disparo, logo não vai ter mais marca alguma. — Ele repetiu o que havia falado quando ela fez questão de limpar e medicar o ferimento. — Juro que não está doendo.

Roxanne assentiu devagar, pensativa por um momento, enquanto suas mãos subiam para o rosto de Barnes delicadamente.

— Não vamos mais sair em missão separados, entendeu? — Ela disse firme, embora seu tom carregasse muito carinho. — Chega de motins. Se quiser mesmo me proteger, me mantenha bem pertinho de você.

Bucky não conseguiu evitar sorrir, seus dedos de vibranium arrumando alguns fios do cabelo escuro enquanto ele mergulhava nos olhos que tanto amava.

— Isso vai ser um prazer imenso, Donna Mia.

Ela riu de canto, revirando os olhos para a forma como ele disse o apelido. E Barnes soube naquele exato instante que aquele era o momento. Ele precisava contar a verdade e aceitar seu destino, ele precisava acabar com tudo aquilo de uma vez.

— Roxanne, eu... — Sua garganta travou, as mãos tremeram.

— O que? — Ela perguntou, e a forma como os olhos negros pousaram nos azuis... merda.

Roxanne era tudo o que Bucky Barnes mais queria na vida.

Como conseguiria dizer algo que destruiria aquele olhar?

— Eu te amo, — Declarou com toda a honestidade que havia em seu coração. — Amo muito mais do que pensei que fosse possível amar alguém.

Roxanne sorriu, o tipo de sorriso que era capaz de mudar a vida de um homem. Barnes morreria e mataria por aquele sorriso, ele tinha certeza disso. Pouco importava que ele tivesse prometido que, depois da Hydra, nunca mais sujaria as mãos de sangue de novo, ele faria isso por sua italianinha. Faria qualquer coisa por ela.

— Eu também te amo, James.

Sim, Barnes faria qualquer coisa por Roxanne Domenichelli e, ainda assim, ele não conseguiu dizer a verdade.

As palavras simplesmente não saíram de sua boca, ficaram travadas no fundo de sua garganta. Bucky sabia que perderia o amor de sua vida e a única verdade naquele momento era: ele estava com medo. Estava apavorado.

Cem anos e um maldito supersoro não valiam de nada, ele era apenas um homem covarde e egoísta. Era fraco e falho. Sua mente continuava a dizer "depois"; Depois que voltassem para a Sicília, depois que estivessem seguros, depois, depois, depois...

Depois quando?

Roxanne o puxou para mais perto e o beijou apaixonadamente, o corpo colado no dele, a língua buscando contato. E de repente todos os pensamentos, dúvidas, perguntas e autocriticas de Barnes se calaram, só havia ela.

Isso fazia dele uma péssima pessoa?

Bom... não importava.

Os dedos de vibranium envolveram os fios compridos na base da nuca, enquanto o braço direito de Bucky puxava o corpo de sua italianinha para mais perto, aprofundando o beijo ainda mais. Foi nesse instante que algo leve atingiu a cabeça do Soldado.

Ele ergueu o rosto e no reflexo agarrou uma segunda coisa no ar. Era uma simples bolinha de papel. Ali no andar de cima, onde ficava a cabine de comando, Corinne encarava o casal, encostada na grade de proteção, um sorriso de canto e outra bolinha de papel na mão direita.

— É sério? — Roxanne apontou a infantilidade de forma divertida.

— Vocês deviam estar agradecendo que eu não bati em um iceberg de propósito só pro Titanic de vocês afundar. — A francesa rebateu debochada e Bucky acabou rindo, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro em negação.

Dio mio, que mau-humor, nem parece que nossa missão foi um sucesso. — A Donna retrucou com um revirar de olhos.

— É claro que eu estou de mau-humor, eu sou a única vela nesse navio de casais. — Corinne declarou, jogado a terceira bolinha de papel em Roxanne, mas nunca acertando o alvo, porque Bucky aparou o objeto rapidamente. — Anda, vem trabalhar, nada de ficar beijando, só pode beijar em terra firme. Quem beija em alto-mar o navio afunda.

Roxanne riu alto, mas focou os olhos em Barnes e encolheu os ombros como quem diz que não tem escolha.

Ela deu o primeiro passo para subir a escada externa de acesso que levaria à Corinne, sua mão e a de Bucky ainda conectadas, como se não quisesse largá-lo de fato.

Ele a puxou de volta, roubando outro beijo, seu ego em êxtase por não precisarem mais esconder aquilo dos amigos.

— Eu juro por Deus que vou descer aí e chutar esse seu traseiro americano, Barnes. — Corinne gritou lá de cima e o casal finalmente se separou, ainda rindo.

Roxanne subiu as escadas rapidamente e Bucky encarou aquele caminho por alguns instantes, decidindo que iria junto, mesmo que fosse acabar levando uns tabefes de LaRue por isso.

Estava com o pé no primeiro degrau, sorrindo, feliz com aquela nova dinâmica de grupo, quando a voz masculina conhecida o deteve.

— Hey, Bello? — Nick tinha acabado de surgir na entrada para a parte interna do iate. — Frank quer falar com você.

Bucky sentiu o arrepio de mau-agouro percorrer seu corpo. Pelo visto ele sabia mesmo. Respirou fundo, seus olhos seguindo automaticamente para a escada que Roxanne havia subido, ela não estava mais à vista.

Tentou dizer a si mesmo que ao menos teve tempo de se despedir, de beijá-la uma última vez... Mas isso não foi consolo algum. A verdade era que não importava quanto tempo ele tinha roubado com sua italianinha, isso nunca seria o bastante.

Resignado com seu destino, ele seguiu Nick para a parte interna do iate. De certo Francesco achou melhor não contar nada para a Donna, ele resolveria o problema com as próprias mãos. Talvez como uma vingança pessoal por ter sido preso e espancado pela CIA por causa das informações que Barnes havia passado para Valentina.

Então Bucky estava no corredor da morte, um luxuoso corredor da morte em um iate caro. Sua vida passando por sua mente a cada passo dado. Já havia existido por muito mais tempo do que a maioria das pessoas, se nunca tivesse conhecido Roxanne Domenichelli encontrar a morte seria um alívio. Mas ele a conhecia agora, e de repente existir passou a ser algo mais, ir de uma luta para a outra já não era mais em vão. Ele teria lutado por ela por mais cem anos se preciso fosse, teria derramado sangue por ela, teria conquistado o mundo por ela, mas isso não fazia diferença nenhuma agora.

— Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo entre vocês, só pra constar. — Nick comentou animadamente enquanto seguiam pelo corredor. Ele ainda não sabia de nada pelo visto. — Um dia desses notei uma marca no pescoço dela e fiz a ligação lógica.

Por seu tom dava pra ver que ele aprovava, e que não estava julgando Bucky por ter escondido. Isso tornou a situação ainda mais difícil, porque, se não fossem todas as mentiras, Barnes teria chances de ser feliz na Sicília, ele se encaixava ali. Seria uma vida que ele gostaria de ter, mesmo considerando que estaria no coração da Máfia Italiana.

Niccolo encarou os olhos azuis por um instante, certamente julgando que o soldado estava preocupado por outros motivos.

— Frank é muito paternal quando se trata da Donna, mas não se preocupe, não vai ser nada tão assustador quanto conhecer o pai de uma mocinha nos anos quarenta. — Declarou de forma encorajadora, assim que eles pararam em frente a porta de uma das cabines.

Bucky sorriu um tanto melancólico, então era esse tipo de conversa que Nick achava que aconteceria naquela sala?

— Obrigado. — Agradeceu com honestidade, afinal Pisanni foi o primeiro a lhe aceitar e aquela provavelmente era a última vez que o veria.

O italiano deve ter pensado que o agradecimento era por outro motivo, então apenas assentiu, dando um tapinha amigável no ombro do americano e o deixando ali no corredor, para voltar pelo mesmo caminho em seguida. Certamente Frank dissera que queria conversar a sós com Barnes.

Os olhos azuis gélidos focaram na porta fechada por um segundo, antes que a mão de vibranium girasse a maçaneta. Então era isso. Hora do fim.

Bucky adentrou o cômodo sem qualquer hesitação, era um pequeno escritório, Francesco estava sentado atrás da escrivaninha, uma arma em sua mão apoiada no tampo de madeira. Seus olhos eram indecifráveis.

— Você vai sentar? — O italiano questionou, apontando a cadeira logo a frente dele.

Bucky se aproximou de cabeça erguida, pouco preocupado com a arma, acomodou-se, ambas as mãos nos braços da cadeira. Nada disse, apenas esperou.

No fundo só desejava que aquilo acabasse ali, se Frank atirasse de uma vez nunca teria que ver o olhar de ódio no rosto de Roxanne, era um bom jeito de morrer.

— Então, Sargento Barnes... — A voz de Francesco Greco tinha uma calmaria quase sarcástica. Era com aquele homem que Roxanne havia aprendido a como ser uma mafiosa de certo. — Por que não começa me contando como se envolveu com a CIA?

Bucky respirou fundo, claro que não encontraria a morte antes que Frank tivesse certeza de tudo que havia acontecido. Saber os planos de Valentina e entender se Roxanne estava em perigo devia ser a prioridade máxima do italiano.

Os olhos azuis se mantiveram no rosto masculino e, a bem da verdade, Barnes ficou profundamente aliviado em poder contar tudo. Começou de seu encontro com Valentina, ou melhor, começou com o fato de que era sim amigo de Sam, contou sobre a trégua com Walker depois do escudo e de como isso o fez conhecer a diretora da CIA sem saber quem ela era de fato.

Falou da proposta da missão, do objetivo, do fingimento, da forma como foi parar na Sicília e de como isso lentamente o fez conhecer Roxanne melhor. Falou sobre o acordo com ela, e sobre os motivos de ter escolhido mentir. Não escondeu nada, inclusive o fato de que foi ele quem deu ao inimigo as informações que mais tarde levaram à captura do próprio Frank.

— Já naquela época eu não tinha intenção que as informações que passei para Valentina prejudicassem a Roxanne. Eu só não podia permitir que a tecnologia Stark caísse nas mãos da Hydra, tenho uma dívida com o Homem de Ferro que nunca vou poder pagar, eu matei os pais dele enquanto era o Soldado Invernal... — Confidenciou, não para se explicar, porque sabia que isso não mudaria nada, mas para que finalmente tudo ficasse às claras. — Mas não era pra isso terminar assim.

Francesco nada disse, então Barnes continuou contando. Eventualmente ele teve que dizer que se envolveu romanticamente com Roxanne, claro que manteve os detalhes íntimos privados, mas falou sobre seus sentimentos crescentes por ela. Sobre o conflito.

Cada evento foi narrado com precisão, inclusive a ida para os Estados Unidos e o resgate.

Frank continuou ali, a mão na arma, os olhos fixos em Bucky, era como se desse pra ver as engrenagens da cabeça dele trabalhando sem parar.

— Então deixa eu ver se entendi: está me dizendo que mesmo sabendo que eu possivelmente havia descoberto todos os seus segredos você ainda entrou nesse iate? — Ele resumiu a última parte em tom incrédulo.

— Pra onde mais eu iria? — Barnes apenas encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais óbvia de todas.

— Pra qualquer lugar, podia ter fugido, você saiu primeiro que todos nós daquele porão, podia ter pulado uma das janelas e ido embora. — Frank rebateu no mesmo tom.

— Os agentes estavam atrás da Roxanne, Walker tinha permissão para matar. — As palavras foram ditas como se aquela fosse a única explicação necessária.

— Você é o Soldado Invernal, está me dizendo que entrou nesse iate, apenas porque não viu oportunidade de fugir? — O italiano tinha um ar desconfiado e ao mesmo tempo casual. Bucky sabia que estava sendo testado, ele só não entendia o motivo disso. — Você mesmo acabou de dizer que Roxanne te ofereceu uma saída de tudo isso mais de uma vez.

— Eu vi oportunidades para fugir, eu só não quis fazer isso. — A resposta foi direta e clara.

— Por que? — O tom de Frank era quase acusatório. — Por um acaso você não sabe o que a Máfia faz com traidores?

— Eu faço uma ideia.

— E mesmo assim, aqui está você. Por quê?

Bucky riu de canto, julgando aquela pergunta muito estúpida.

— Você não ouviu tudo o que eu disse? — Retrucou simplesmente. — Eu me apaixonei pela Roxanne.

— Pessoas se apaixonam todos os dias, Bucky Barnes. Isso não quer dizer nada. — Frank argumentou com desdém. O que ele estava querendo saber?

Naquele ponto, Bucky já estava começando a ficar irritado. Podia ter contado muitas mentiras naquele caminho, mas seus sentimentos por sua italianinha eram completamente reais. Não aceitaria ninguém duvidando disso.

— Eu amo a Roxanne, eu morreria por ela, mataria por ela. — Deixou bem claro.

Frank apoiou um dos cotovelos na mesa, e o queixo repousou nessa mesma mão, enquanto a outra seguia firme na arma.

— Bom, você é um assassino com mais de cem anos, já viveu o bastante, morrer e matar não é exatamente uma grande coisa nesse contexto... — Comentou neutro.

Barnes não respondeu, podia ter falado que matar era algo que ele havia jurado não fazer mais, e que estar disposto a quebrar essa promessa por Roxanne era sim uma grande coisa, mas julgou que isso não faria diferença alguma naquele momento.

— O que me intriga é: você está aqui dizendo que se apaixonou, que a ama, que morreria e mataria pela Donna... — Francesco foi falando depois de pensar por um tempo. — Então por que não contou a verdade? Por que não disse a ela que é um espião e aceitou a morte pela mão dela?

Eram perguntas pertinentes.

— Acho que agora não faz mais diferença, não é? — Os ombros do soldado apenas se encolheram. Aquela conversa não levaria a lugar nenhum, essa era verdade.

— Pode ser, ainda assim, quero uma resposta. — Frank insistiu. —Você não contou a ela porque está com medo da morte, Barnes?

Uma risada seca e sem humor escapou pelas narinas de Bucky. Dizer que ele tinha medo da morte era uma grande piada.

— É como você falou, eu tenho cem anos... A morte não me assusta, morrer é fácil, Frank. — Declarou apenas, focando nos olhos do italiano por alguns instantes, antes de confessar a verdade crua: — Eu não contei porque... porque eu não suportaria ver o ódio no olhar dela, não contei porque eu não queria que acabasse, eu estava roubando tempo com ela, mesmo sabendo que isso acabaria em tragédia cedo ou tarde. Eu só... eu fui fraco e egoísta. E sim, eu tive medo, medo de encarar os erros que eu cometi no caminho quando eles atingissem a única pessoa que eu não queria que se machucasse. Ela.

A respiração saiu pesada dos pulmões de Barnes, aquela era a última verdade guardada, seus erros e fraquezas estavam na mesa. Ele estava pronto pra morrer.

Francesco Greco ficou em absoluto silêncio, o indicador direito batendo freneticamente sobre a arma que ele ainda tinha em mãos, os olhos focados no rosto do americano.

Por uma infinidade de tempo nada foi dito, ele não desviou o olhar, ele não parou de bater na arma.

— Você vai atirar em mim agora? — Bucky questionou, aquela demora o deixando desconfortável de um jeito estranho.

De certo Frank estava pensando se devia contar tudo para Roxanne ou não. Se devia fazer da morte algo lento e doloroso ou só acabar com tudo de uma vez.

Bucky sabia que merecia a tortura, mas esperava que o italiano levasse em conta o risco de manter um supersoldado em cativeiro. Não que ele pretendesse fazer alguma coisa para escapar ou revidar, mas ter que encarar os olhos da Donna, ter que ver o ódio e a decepção dela, isso sim seria tortura...

— Você a ama? — A pergunta que finalmente ecoou pelo escritório foi a mais estranha possível.

— Sim. — Bucky respondeu com certeza completa.

— Quanto?

— Eu já disse, eu morreria e mataria por ela.

— Pois é, você disse, mas estabelecemos aqui que morrer e matar por ela é fácil. Qualquer um pode morrer e matar pela Donna, Bucky, todos nós nos comprometemos a isso quando juramos lealdade a ela. — Frank explicou, analisando o rosto do americano com muita atenção. — O que eu quero saber é se você é só mais um homem como muitos outros que orbitam a vida a dela, ou se você é algo mais que isso... — Os olhos dele focaram nos azuis gélidos, sérios, implacáveis. — Você viveria por ela?

Barnes franziu as sobrancelhas para a pergunta totalmente inusitada. O que aquilo queria dizer?

— Viveria por ela da mesma forma que ela tem vivido pelo Damian? — O consegliere da Donna explicou.

Era sobre abnegação, entrega, sacrifício. Sobre abrir mão de tudo em nome de outra pessoa. Sobre fazer dela a única prioridade.

— Com certeza. — Bucky confirmou sem precisar pensar. — Mas isso não faz diferença nenhuma agora, não é?

Frank se levantou de sua cadeira, a arma ainda em mãos.

— Ela gosta de você. Provavelmente te ama. — Disse em um tom que era difícil de decifrar. — Eu sei disso porque a conheço bem, eu não sei se você já sabe, mas mesmo que saiba, não acho que tenha ideia real do quanto isso significa, não pra alguém com o passado que ela tem. — Ele estava encostado na mesa quase ao lado de Bucky, as mãos cruzadas na frente do corpo com a arma entre elas. — Mas acredite em mim quando eu digo, significa muito.

— Onde você quer chegar? — As sobrancelhas masculinas estavam franzidas em confusão. Não era o rumo que esperava para aquela conversa.

— Roxanne está obcecada por encontrar o irmão tem mais de uma década. E, por mais que eu admire a garra dela e a forma abnegada como ela bola seus planos, isso também me preocupa. — Frank confidenciou com um suspiro pesado. — Ela é a Donna da Máfia, Bucky, a melhor que tivemos desde que se tem registros, ela uniu nosso povo, ela melhorou nossa vida, ela é importante demais e, mesmo assim, está disposta a fingir submissão para um homem como Strovalenko, por causa do irmão.

O tom de preocupação genuína na voz do italiano era muito perceptível. Ele se moveu ao redor da mesa e voltou para sua cadeira antes de continuar:

— E, como eu disse, admiro a abnegação dela, mas não é seguro, nunca foi, Viktor Strovalenko não é um homem estável, você viu a forma como ele ama violência. Por mais que a Donna tenha planos de contingência, Strovalenko não vai assumir a Hydra amanhã, honestamente ele pode nunca assumir. Quanto tempo mais Roxanne vai se subjugar a ele? Quanto tempo até que ele comece a querer passar mais tempo com ela? Quanto tempo até que os planos dela falhem e ele comece a fazer com ela a mesma coisa que faz com outras mulheres?

A visão de todas aquelas coisas causou desconforto físico em Bucky, suas duas mãos se agarrando nos braços da cadeira, o objeto fazendo um som seco quando trincou sob o aperto do vibranium.

— Pois é, essa é a sensação... — Francesco apontou e naquele momento era bem óbvio que a preocupação dos dois homens era equivalente. — Eu me tornei o que chamam de "Homem Feito" muito cedo, eu galguei meu lugar na máfia escondendo quem eu era do mundo que me cercava, me privando do homem que eu amava porque sabia que isso mataria nós dois, e mesmo assim, mesmo sabendo que nunca seria aceito pelo meu meio, eu sempre protegi o meu Dom. Esse é o meu trabalho. Mas cada vez que Viktor Strovalenko pisa na Sicília, cada vez que ele toca na Donna que eu escolhi e que jurei proteger com a minha vida, cada vez que ele passa uma noite do lado da garota que eu amo como amaria uma filha, eu sei que não estou cumprindo o meu trabalho.

Naquele instante foi muito fácil enxergar Frank como esse pai em agonia profunda. Bucky entendia isso, afinal ele vinha tentando evitar pensar no noivado de Roxanne, vinha tentando acreditar que ela poderia lidar com tudo aquilo, mas a verdade é que estava se enganando todo o tempo, apenas para respeitar o espaço dela. Ele também odiava aquele maldito noivado.

— E não me entenda mal, eu a seguiria até o inferno, mas se eu sei que posso impedi-la de beijar o demônio, é o meu dever fazer isso. — Frank prosseguiu e dava pra ver que tinha pensado muito tempo no assunto. — No entanto, eu nunca fui capaz de oferecer a ela uma alternativa viável que ainda nos levasse a Damian. E ela não vai desistir dele.

De repente, Bucky teve um vislumbre do que poderia acontecer.

— Você pretende me entregar para o Strovalenko, porque isso vai fazer com que ele alcance o poder mais rápido. — Presumiu, dizendo aquilo com a voz neutra.

— Isso te faz repensar ter entrado nesse iate? — O italiano questionou com um leve sorriso de canto.

— Não. Isso vai colocar Roxanne mais perto do irmão dela e um pouco mais longe do Strovalenko, pelo menos eu vou ter sido útil pra ela de alguma forma. — Barnes respondeu calmo e controlado. Era um jeito de compensar tudo. — Eu vou cooperar com você, Frank, não me importo de ir parar nas mãos da Hydra de novo. Farei por ela.

Os olhos de Francesco examinaram o americano, procurando qualquer indicio de mentira ou dúvida, mas não havia nada. Um dia voltar a estar nas garras da Hydra tinha sido o pior pesadelo de Bucky, perder o controle do próprio corpo e livre arbítrio outra vez era tudo que o fazia acordar em pânico durante a noite. Porém, depois de Roxanne... droga, a verdade é que ele enfrentaria outros cem anos de gelo, sangue e dor, só para dar a ela a mínima chance de ser feliz.

Frank respirou fundo e finalmente guardou sua arma.

— Eu gosto de você, Bucky Barnes. — Disse com um sorriso sagaz. — Mas não é para nada disso que preciso da sua cooperação.

Novamente a expressão do americano foi de completa confusão.

— Quando entendi que você foi enviado como um espião, pensei em te matar e, sim, pensei em te entregar para o Strovalenko, mas eu vi a forma como você lutou pela Roxanne hoje, vi você salvando minha vida, e mais que isso, eu vi como ela olha pra você... — O italiano começou a explicar e, só então, Bucky notou que estava sendo observado e testado o dia todo. — Nick disse que a Donna está feliz, que nunca viu ela assim. E, pra ser honesto, eu também nunca vi ela feliz.

O coração de Bucky se apertou de um jeito agridoce ao saber disso, amava fazer sua italianinha feliz, odiava saber que ele havia ferrado com isso desde o começo. Era sufocante entender que ele fez a diferença na vida dela e estava estragando tudo mesmo assim.

— Então eu preciso que você faça o que nem eu, nem o Nick, nem a Corinne conseguiríamos fazer... — Francesco disse por fim. — Preciso que convença a Roxanne a se afastar do Strovalenko. Esse homem precisa morrer, Bucky, a conexão com a Hydra precisa ser quebrada antes que ela se torne a corda que vai nos enforcar. Não é seguro para a Donna e nem para nenhum de nós.

A boca do americano abriu e fechou algumas vezes. Porra, aquilo era tudo que ele mais queria. Afastar Roxanne de Strovalenko foi algo que ele quis fazer desde o momento em que entendeu o que aquele maldito noivado significava.

Não, na verdade ele queria a italianinha longe daquele nazista de merda desde que colocou os olhos nela pela primeira vez.

Mas havia um problema bem grande ali...

— Roxanne não vai abrir mão do Damian, Frank.

Bucky sequer teria coragem de pedir algo assim. Ele até queria, mas falar para a Donna esquecer o irmão era desonesto, cruel, egoísta e desrespeitoso.

— Ela não tem que abrir mão dele, só preciso que você diga pra ela que tem outro jeito. — O italiano respondeu em tom aflito. — Um jeito que a afaste da cama de um homem desprezível daqueles.

— Qual jeito?

Frank meneou a cabeça para a pergunta e apenas suspirou cansado.

— Honestamente eu não sei, Bucky, mas presumo que seja o jeito difícil, não é? — Ele encolheu os ombros. — O jeito "procurando uma agulha no palheiro". O jeito que ela não aceitaria de forma alguma se a sugestão viesse de mim, do Nick ou da Corie, mas espero que ela aceite quando vier de você, porque, de verdade, eu espero que ela te ame o bastante pra isso. — Parou por um instante, focando nos olhos azuis e usando aquele tom paternal. — Não que eu tenha pretensões que ela te ame mais do que ama o Damian, ela nunca vai desistir dele por você, porém, pode ser que ela te ame de forma equivalente... Então ela vai decidir equilibrar as coisas.

Barnes não podia mentir, já havia se imaginado várias vezes pedindo para que Roxanne desistisse do noivado com Strovalenko, porém sempre julgou esse apenas um desejo egoísta, um capricho de seu ego masculino que simplesmente não queria dividir. Mas quando Francesco colocava em palavras, ficava tão claro o quão importante e urgente aquilo era. Não se tratava de um simples capricho ou de egoísmo. A Donna não estava segura.

— Espero que ela veja que quando começamos esse plano não tínhamos você. — O italiano prosseguiu. — Acho que você é um trunfo, Bucky, um supersoldado treinado pela própria Hydra com cem anos de idade... Se existe uma forma de achar o Damian, que não envolva essa organização de merda e esse homem maldito, eu realmente acho que essa forma é você.

Nunca se imaginou como alguém útil dentro da operação de Roxanne, mas vendo pelo ponto de vista de Frank toda a perspectiva mudava. Bucky podia fazer a diferença, podia ajudar, podia dar para sua italianinha aquilo que ela mais queria; o irmão de volta.

Sim, ele faria isso. Estava totalmente disposto. Só tinha um problema...

— Mas e todas as mentiras que eu contei até aqui? — Questionou de forma tensa, vendo que mais uma vez toda a merda girava em torno dos segredos que havia escondido.

— Ah, Bucky, você chegou até aqui do jeito errado, mas eu acho que ficou pelos motivos certos. — Francesco declarou de forma compassiva. — Não vou mentir, conhecendo o passado de Roxanne, mesmo que ela te ame muito, ela te mataria se soubesse agora... Droga, eu acho que ela me mataria se soubesse o teor dessa conversa que estou tendo com você.

O peso daquela reunião ficou bem claro naquelas palavras. Frank estava arriscando tudo ali, apenas pela chance de afastar Roxanne de Strovalenko.

— Só que eu também sei que ela pode ser razoável. — Prosseguiu, em tom otimista. — Antigamente isso de boas intenções e amor não importaria de nada, qualquer ligação com as autoridades faria de você um homem morto. Mas antigamente eu também seria um homem morto por ser quem eu sou, antigamente Nick nunca seria aceito como um Homem Feito, quem dirá como Consegliere, o mesmo pode ser dito sobre a Corinne, uma mulher negra, ou sobre as Mamas e os Outsides, nenhum deles teria espaço na Máfia. A Donna mudou tudo isso, ela moldou as regras de acordo com os desejos dela.

A respiração de Bucky saiu um pouco do prumo, suas mãos tremendo, como se pela primeira vez ele conseguisse ver a luz no final de um túnel muito escuro, enquanto Frank continuava a falar:

— Eu acredito que se esperarmos o momento certo de contar, se resgatarmos o Damian e eu advogar a seu favor, ela vai ver o seu valor e sua importância para além das coisas que você escondeu dela. Não é uma garantia, mas talvez ela te perdoe, se fizermos tudo direitinho.

E lá estava. Algo que Barnes ansiou desde que seu coração bateu mais forte por Roxanne Domenichelli. Esperança.

Os olhos azuis se encheram de lágrimas. Uma chance. Era só isso que ele queria. Uma única chance de conseguir o perdão da mulher que ele amava. E ali estava Frank, contra todas as probabilidades, lhe oferecendo isso de bandeja.

É claro que Bucky aceitaria, porém, algo que ele tinha ouvido Francesco falar para a Donna tempos antes lhe voltou à mente.

— Mas e se não conseguirmos resgatar o Damian? E se ele estiver morto. — Colocou em palavras, sabendo que o próprio italiano já havia levantado essa hipótese.

Francesco Greco encarou o nada por alguns instantes, algo sombrio tomando conta de suas feições.

— Então que Deus nos ajude, Bucky. — Murmurou em tom mórbido. — Não acho que eu e você vamos sobreviver a isso.

Bucky se deu conta que suas mentiras agora não eram apenas suas, depois daquela conversa Frank era um cúmplice, tão culpado quanto. Um traidor também.

— Você está arriscando sua vida por mim, não precisa fazer isso, pode contar a verdade a ela. — Deixou claro, porque obviamente não queria que outras pessoas acabassem se ferindo por sua causa. Mesmo que isso significasse uma chance com Roxanne.

— Você não entendeu, não é mesmo? — Frank deu um sorriso melancólico. — Eu não estou fazendo isso por você, Bucky, estou fazendo por ela.

Ele pousou os olhos nas íris azuis por um momento, havia algo pesado ali. Bucky se mexeu desconfortável.

— Não é só por causa do Strovalenko, e pela felicidade que a Donna merece... — O italiano continuou em seu tom tenso. — É porque ela não vai aguentar essa facada emocional vinda de você, eu sei o que vai significar pra ela. Então só estou tentando moldar a situação para que Roxanne pense por si mesma quando a hora for mais apropriada, e não através dos gatilhos que isso vai despertar. Saber da verdade agora acabaria com ela tanto quanto descobrir que Damian está morto, honestamente, eu acho que seria até pior.

Barnes engoliu em seco, no fundo sabia que seria uma decepção para sua italianinha, mas ouvir isso de Frank deixou ainda mais claro o peso e o preço de cada uma das mentiras que contou.

Nunca quis magoar Roxanne, mas ele acabaria, irremediavelmente, partindo o coração dela.

Precisava agarrar aquela oportunidade de ouro, para que o dano fosse menor. Então ele passaria a vida inteira se redimindo por cada pequena coisa que escondeu da mulher que amava.

— Então, temos um acordo? — Francesco perguntou finalmente, ficando de pé e estendendo a mão direita.

— Eu vou fazer meu melhor. — Bucky selou aquele trato, sabendo sem a menor sombra de dúvidas que era o melhor para Roxanne. — Assim que voltarmos para casa eu vou conversar com ela sobre o Strovalenko.

Quanto mais cedo aquele noivado de merda acabasse, melhor. Então eles se empenhariam em achar Damian o mais rápido possível. Bucky ainda não sabia como, mas ele pensaria em algo.

— Obrigado, Frank. — Disse com honestidade, enquanto levantava para sair.

— Não me faça me arrepender disso, Barnes. — O italiano advertiu em seu tom paternal.

— Não vou.

Quando deixou a cabine, cruzando aquele caminho que há minutos parecia o corredor da morte, Bucky se sentia mais leve, otimista. Havia esperança pela primeira vez e ele agarraria isso com tudo que tinha. Não desperdiçaria a chance de fazer dar certo.

Caminhou direto para o segundo andar do iate, onde estava localizada a cabine de controle. Corinne estava no manche, enquanto conversava com Nick, e a Donna estava mais ao fundo, usando o telefone via satélite, provavelmente para falar com alguém na Sicília.

— Achamos que o Frank tinha te matado e jogado seu corpo no mar. — Corie debochou, assim que viu Barnes entrar no espaço.

— Foi só uma conversa de cavalheiros. — Respondeu simples, segurando o olhar de Roxanne assim que ela ergueu a cabeça para ele.

— Já passou mais tempo com ele do que comigo, achei isso um absurdo. — Nick protestou divertido, então se colocou de pé. — Agora boa noite, 'tá frio e eu tenho braços fortes pra me aquecer.

Ele foi saindo enquanto Corinne revirava os olhos teatralmente.

— Eu vou mesmo afundar esse barquinho. — Ela ameaçou com um sorriso de canto.

— Para de ser invejosa, que quando você fica de beijo com o seu gostosão ninguém reclama. — Niccolo rebateu, acenando um tchau para Bucky antes de descer as escadas.

Corinne olhou para ele por um segundo e notou que o americano e a Donna ainda trocavam um longo olhar.

— Boa sorte com isso. — Ela declarou de repente apontando o manche.

— Pra onde você vai? — Bucky perguntou enquanto a Francesa se afastava.

— Pra algum lugar onde eu não precise segurar vela, é claro. — Rebateu em um misto de ironia e divertimento.

Logo em seguida, Bucky e Roxanne estavam sozinhos no espaço. Enquanto ele colocava o iate no piloto automático a Donna desligava o telefone.

— Onde você estava? — Ela perguntou, se levantando e caminhando até ele.

— Frank me chamou para uma conversa. — Barnes explicou. — Ele queria saber minhas intenções com você.

Aquilo não deixava de ser verdade, por isso foi algo confortável de ser dito.

— Ele é muito paternal comigo. — Roxanne respondeu, nada surpresa com a atitude de Frank. — E o que você disse pra ele?

— A verdade. — Bucky quase riu da honestidade contida naquela frase, então agarrou a cintura da italianinha e a puxou para perto. — Que eu te amo mais que tudo nesse mundo e que faria absolutamente qualquer coisa por você.

Os olhos azuis se prenderam nos negros, cheios de uma intensidade apaixonada.

— E falou com essa voz sedutora? — A Donna sorriu de canto, pousando suas duas mãos no peitoral masculino. — Porque se falou, acho que o Nick vai cortar sua garganta.

Bucky riu, o tipo de risada leve e casual, que não tinha mais o peso do fim e vinha carregada de esperança.

— Problemas? — Perguntou em seguida, apontando o telefone via satélite com a cabeça.

— Não, só estava avisando que deu tudo certo para a Jack e resolvendo algumas pendências dos últimos dois dias, assim podemos tirar uma folga amanhã. Acho que a gente merece. — Roxanne explicou casualmente.

O sorriso de Barnes aumentou ainda mais. Seria uma oportunidade perfeita para que eles conversassem sobre Strovalenko, claro. Mas aquela felicidade latente em seu peito tinha também outro motivo. Não estava mais roubando tempo com a sua italianinha.

Pela primeira vez, ele podia planejar um futuro com ela. E a verdade é que Bucky não pensava no futuro com uma centelha de felicidade no peito desde 1943.

— Eu vou amar passar o dia todo na cama com você, Italianinha. — Roubou um beijo rápido dos lábios dela.

— Eu não disse que vou ficar o dia todo na cama, americano abusado. — Ela deu um tabefe no peitoral se fingindo de indignada.

— Ah, mas você vai, confia em mim. — Bucky soprou, pousado um beijo no pescoço feminino.

Roxanne riu, o melhor som do universo todo, e... porra, o futuro nunca soou tão doce.