Notas iniciais
Oie! Sextou por aqui, com a visita nada agradável do corno mais odiado do mundo das fanfics... Vamos ver o que o Stragado vai aprontar e, pela primeira vez, ver em primeira mão como a Roxanne lida com ele. Eu acho que é prudente dizer que esse capitulo deve ser lido com cautela por quem é sensível a cenas de violência doméstica relacionamento tóxico e etc. Não acho a narração pesada o bastante para um aviso de gatilho, mas ainda assim, achei melhor deixar vocês cientes desse pormenor. Boa Leitura!

O silêncio pesado pairava dentro do carro de luxo, enquanto o motor roncava, correndo pelas curvas da Sicília.

Roxanne odiava estar dispersa, odiava que seu coração não quisesse cooperar com sua mente. Viktor havia acabado de pousar na ilha, sem qualquer aviso de Frank e, mesmo assim, os pensamentos dela queriam escapar para a noite passada, para um dia perfeito onde nada mais parecia existir um importar.

“Eu falei sério quando disse que te amo.”

Essa frase rodava em looping em sua mente, e parecia tão... certa.

Porque não eram apenas palavras, era mais que isso; olhares, sorrisos, pequenos gestos. Os detalhes.

Roxanne já tinha ouvido pessoas lhe declararem amor antes. Não era uma frase inédita em sua vida. Porém não demorou muito para que esse dito amor se provasse apenas uma mentira. Sempre foi assim. Nunca foi real ou duradouro, nunca foi “apesar de”, era apenas “por causa de”.

Sempre os detalhes...

Foi uma criança que desconhecia o amor verdadeiro vindo da figura masculina mais importante de sua vida. A carência desse sentimento deixou falhas perigosas na personalidade de Roxanne, uma menina carente de afeto tende a aceitar migalhas das pessoas erradas. Como saber que algo não era amor, se ela não conhecia o que devia ser esse sentimento de fato?

Foi manipulada e enganada. Teve que aprender do jeito difícil. Depois de um tempo, entendeu o que não era amor, percebeu que migalhas não eram o bastante.

Porém, a verdade é que acabou aceitando que talvez fosse indigna daquele sentimento...

O único que parecia lhe amar de verdade foi levado para longe aos cinco anos de idade. E, por mais que Roxanne gostasse de manter em seu peito a certeza de que Damian lembraria de tudo, lembraria dela, no fundo a incerteza desse fato era inegável.

Gastou sua vida querendo se amada, mesmo que não fosse romanticamente. Então, se tornou a Donna, rainha de um império do crime, e isso trouxe a ela algo que parecia muito com amor. Lealdade. E pareceu o bastante, supriu suas carências e lhe deu forças para seguir em frente, porque afinal, quando trouxesse Damian de volta para casa ela teria todo o amor do qual necessitava para ser feliz. E isso parecia o bastante...

Afinal, quando não se tem nada, o pouco parece muito.

Não esperava que um homem como James Bucky Barnes surgisse em sua vida e quisesse gastar tempo com ela. No fundo, Roxanne sempre imaginou que seriam apenas algumas sessões tórridas de sexo e mais nada. E tudo bem, afinal como podia pedir ou desejar mais? O que ela tinha para oferecer em troca? Era uma mulher comprometida com seus propósitos, a aliança de outro homem pesava em seu dedo...

E James era um herói, Roxanne sabia muito bem que, o que ela fazia para viver, era contra a índole de Barnes. Então, se ele a amava...

Se ele a amava como suas palavras, seus olhos, e seus gestos diziam... Ele não podia amar “por causa de”. Porque para James o império aos pés de Roxanne era um legado sujo e criminoso, o poder e influência dela não significavam nada, o título de Donna era apenas um problema. Então... se ele a amava...

Ele amava “apesar de” tudo isso.

Ele a amava do jeito que Roxanne nunca pensou ser digna... Do jeito que, lá em seu âmago, ela sempre desejou.

Mas a Donna sequer podia se dar ao luxo de ficar feliz com isso, porque Viktor estava de volta e parecia o pior momento possível para qualquer coisa boa acontecendo em sua vida.

Certo... ela tentou se acalmar e respirar fundo. Era apenas o Viktor, podia lidar com ele. Podia contornar qualquer problema e resolver a situação. E depois que o desgraçado fosse embora teria tempo o bastante para...

Para ser amada por James Barnes.

Roxanne quis sorrir com esse simples pensamento, mas dada a situação urgente que a cercava nem isso era possível. Quem diria que Viktor conseguiria se tornar ainda mais insuportável...

Chegaram na mansão rapidamente, a Donna sabia que teria trabalho pela frente. Não era impossível que Viktor pousasse sem Frank avisar, isso tinha acontecido no dia em que Barnes chegou à ilha, mas desde então eles haviam melhorado o sistema de comunicação para essas situações e ela havia estabelecido o protocolo com a pista de pouso.

Então, de um jeito ou de outro as coisas ainda estavam sob controle. Tudo daria certo.

Roxanne e James desceram do carro ainda calados, era visível o quão tenso o soldado estava enquanto a Donna dava telefonemas, ditava ordens e mandava mensagens. Em dez minutos os dois já estavam prontos para receber Viktor Strovalenko, já trocados e no escritório, como se apenas tivessem acordado pela manhã e estivessem lidando com a rotina normal do dia. Benedetta já estava de sobreaviso, assim como Nick e Corie, e embora o contato com Frank tivesse falhado Roxie estava confiante.

Mas Barnes parecia prestes a quebrar com a pressão, a forma assustada como os olhos azuis focavam na figura feminina a todo o instante fazia com que Roxanne temesse por ele. Um passo em falso poderia não apenas colocar tudo a perder, mas colocá-lo em uma situação de vida ou morte.

— James... — A Donna chamou, fechando as portas do escritório e se aproximando dele rapidamente. — Você precisa me ouvir, certo? — Pousou as mãos sobre o rosto masculino. — Não importa o que o Viktor fale ou faça, não saía do seu disfarce, entendeu?

Ele titubeou, suas duas mãos no corpo dela, os dedos apertados contra o tecido das roupas femininas como se Roxanne fosse escapar dali a qualquer instante e nunca mais voltar.

— Vamos seguir o plano. — Ela disse pausadamente, para passar alguma confiança a ele. — Você vai contar a verdade sobre a minha liderança e sobre o sumiço do meu pai, não importa o quanto sinta que isso não vai ser seguro para mim.

— Rox... — Barnes não conseguiu terminar, sua voz travou na garganta.

Roxanne encostou a testa na dele, suas mãos ainda firmes ao redor do rosto masculino.

— A gente vai passar por isso, amore mio. Vamos ficar bem. — Ela afirmou de forma doce. — Você simplesmente vai deixar que as coisas aconteçam como têm que acontecer, não vai intervir. Viktor vai me punir e você não vai esboçar uma só reação sobre isso. Entendeu?

O pavor completo tomou conta das íris azuis, era perceptível que os sentimentos de James tornariam aquilo tudo bem mais doloroso para ele.

Roxanne o acariciou, o sorriso mais calmo que ela conseguia esboçar estampado em seus lábios, pouco antes que ela o beijasse docemente.

— Prometa pra mim que não vai reagir a ele. — Outro beijo. — Que não vai fazer nada estúpido. — Mais um. Era possível sentir a angústia pairando entre eles. — O que ele mandar, você vai fazer, mesmo que isso me machuque.

A verdade é que Roxanne também estava começando a ficar apavorada, porque, se Barnes cometesse um erro mínimo, Viktor podia considerá-lo um ativo instável e então resolver levar o Soldado Invernal para uma sessão de disciplina e reprogramação. Isso não podia acontecer de forma alguma.

A simples possibilidade de perder James fazia com que o coração da Donna sangrasse. E se ela nunca mais conseguisse encontrá-lo? E se a Hydra conseguisse ativar o Soldado novamente? E se ele se esquecesse dela para sempre?

— James... Por favor. — Ela implorou, seu corpo sendo puxado de encontro ao masculino, o beijo se tornando mais sôfrego e desesperado.

A verdade é que não estava calma, tampouco confiante o bastante. Pela primeira vez realmente temia uma visita de Viktor Strovalenko...

O olhar dos dois se encontrou, o silêncio parecendo pesar uma tonelada, as mãos de Roxanne agora fechadas contra a lapela do terno escuro que Barnes usava, os nós de seus dedos esbranquiçados por causa da força desnecessária empregada naquele simples movimento.

Ela precisava que ele dissesse.

James respirou fundo, sua cabeça se movendo de forma afirmativa lentamente:

— Eu prometo.

As duas palavras mal haviam acabado de ecoar pelo escritório, quando o barulho das portas da frente sendo escancaradas tomou conta de tudo, o falatório em russo veio acompanhado dos xingamentos nada educados ou calmos de Viktor Strovalenko.

Roxanne e Barnes trocaram um ultimo olhar antes que ele voltasse a interpretar sua postura fria de Soldado Invernal e ela respirasse fundo, pousando as mãos sobre as maçanetas da porta dupla do escritório...

Vestiu a máscara da qual necessitava para atuar naquela situação, a simples herdeira italiana surpresa com a invasão em sua casa. E na verdade ela não teve que fingir, o choque completo abateu seu rosto assim que se deparou com a cena a sua frente: Viktor Strovalenko estava ensanguentado dos pés à cabeça, vários outros de seus homens tinham ferimentos visíveis também.

— Viktor... — Ela pronunciou o nome dele em tom premeditadamente assustado, enquanto cortava a pouca distância que os separava. Seus olhos automaticamente buscando por Frank, que não estava em parte alguma. — Dio mio... o que aconteceu?

Um pequeno caos se desenrolava ao redor. Os homens falavam todos ao mesmo tempo. Benedetta estava parada na entrada da cozinha com o choque claro estampado no rosto.

— Me traga o kit, Benedetta. — A Donna ordenou. — Agora.

Parou ao lado de Viktor um segundo depois, não ousando olhar para trás e ver qual era a reação de James à toda aquela cena.

— Anda, me deixa. Saiam daqui. Vão cuidar dos outros feridos. — Strovalenko claramente não estava feliz, gritava ordens irritadas em russo, e logo a maior parte dos homens saiu.

Frank ainda não estava em parte alguma.

Apenas duas figuras que Roxanne ainda não conhecia ficaram dentro da mansão, com uma liberdade que não se encaixava com subordinados. A Donna presumiu logo que o homem era Kurt Werner. Apenas um alemão comum, branco, velho, calvo, enrugado e com grandes olhos azuis e lábios finos. A outra figura, uma mulher de uns trinta e poucos anos, loira de estrutura óssea larga, rosto quadrado, e cabelos na altura do pescoço, era totalmente desconhecida, mas a julgar por alguns traços do rosto. talvez fosse parente de Werner.

O que esses nazistas de merda estão fazendo na minha casa? Roxanne pensava, enquanto procurava manter qualquer expressão de desgosto sob controle.

Já estava ajoelhada ao lado de Viktor, tentando decifrar de onde vinha todo aquele sangue que agora manchava o sofá claro.

— Não se preocupe, eu vou cuidar de você, querido. — Ela disse amável, recebendo de Benedetta o kit de primeiros socorros.

— É o mínimo. — Viktor não parecia particularmente amigável naquele dia, porém ele raramente o era, então não chegava a fazer diferença.

— Me diz o que aconteceu... — Roxanne incentivou com cautela, o nível certo de preocupação na voz. Era evidente que algo havia saído do planejado na missão de extração da tecnologia Stark, porém ela não devia saber dessa missão, então não podia perguntar diretamente.

Assim como não podia questionar sobre a ausência de Frank. Um Viktor irritado e também pessoalmente ofendido podia ser uma bomba relógio. E, considerando que ele com certeza falaria com o Soldado Invernal ainda naquele dia, essa tal bomba relógio não podia explodir na hora errada.

— Fomos atacados. — Foi o velho alemão quem respondeu, sua voz desgostosa com o sotaque muito carregado.

— Atacados por quem? — A jovem Domenichelli continuou bancando a noiva preocupada, enquanto identificava que Viktor tinha algumas lacerações pelo rosto, provavelmente de uma briga física, e havia levado um tiro de raspão na lateral do abdômen, nada muito grave. Aquele monte de sangue não era dele. A julgar pelo quanto conhecia o novo líder da Hydra, a Donna presumiu que era tudo dos inimigos que eles haviam enfrentado.

— Foi uma emboscada do governo. — A voz feminina declarou, e Roxanne pousou os olhos nela, que tinha a atenção presa em um canto muito especifico da sala.

As íris negras da italiana se moveram na direção de Barnes, que aparentava ser apenas o Soldado Invernal naquele momento, parado em sua postura militar. Porém ela conhecia James o bastante agora, para notar o maxilar tenso e os olhos perturbados.

Julgou que a forma como a alemã loira olhava para o Soldado — como se ele fosse algum objeto de luxo em uma vitrine, que podia ser comprado pelo valor certo — devia incomodar. Roxanne estava bem incomodada, pelo menos.

— Aqueles malditos! — Viktor deu um soco repentino no braço do sofá e só então a Donna se deu conta que estava dispersa. — De alguma forma sabiam exatamente como seria a minha operação... A tecnologia sequer estava guardada lá. Mas eles vão pagar por isso. Eles vão queimar!

A Donna guardou aquela informação em mente, porém não tinha tempo para ponderar todas as implicações naquele instante. Além disso, um confronto com o governo, que havia resultado em feridos, era preocupante. Onde estava o Frank?

— Eles tinham um maldito supersoldado, acredita nessa merda? — Strovalenko ainda reclamava, totalmente indignado, enquanto Roxanne limpava os ferimentos dele. — Aquele idiota que apareceu vestido de Capitão América ano passado e não conseguiu segurar o manto por nem um mês, antes de fazer merda e perder o escuto para aquele... outro cara...

Pela visão periférica a Donna viu a forma como James se moveu desconfortável. Propositalmente, apertou um pouco um dos ferimentos de Viktor para que ele parasse antes de ofender o novo Capitão América com um comentário racista.

— Desculpe. — Pediu de forma doce, quando Strovalenko emitiu um som de dor.

— Pelo menos o passarinho metido a Capitão não apareceu para encher o saco e nós escapamos com pouco prejuízo. — O velho alemão declarou, sentando-se no sofá livre como se fosse o dono da casa.

Também estava sujo de sangue, porém não parecia ferido.

— E você é...? — Roxanne achou que era o momento de pedir por uma apresentação formal, afinal seria estranho se ela não perguntasse.

— Kurt Werner. — O alemão confirmou as suspeitas. — Essa é minha filha, Helga Werner.

A loira apenas moveu a cabeça sem grande comoção para Roxanne, seus olhos claros escapando furtivamente na direção do Soldado Invernal. Por um instante a Donna planejou uma forma “acidental” de jogar álcool e fogo naqueles globos oculares...

— São aliados. — Strovalenko emendou de forma rude. — Onde está sua hospitalidade, querida noiva?

— Sinto pela recepção inadequada. — Roxanne exibiu um sorriso falsamente dócil. — Mas o bem estar do meu noivo é mais importante que ser a anfitriã das visitas, tenho certeza que compreendem isso.

— Perfeitamente, respeito a seu homem acima de tudo. — Werner parecia satisfeito, como o bom machista retrógrado que com certeza era. — Vejo que a ensinou bem, Viktor.

Strovalenko pareceu satisfeito com o elogio, Roxanne fez seu melhor para não revirar os olhos, mas resolveu aproveitar a oportunidade para uma pergunta importante.

— O que aconteceu com o resto da equipe? — Sabia que não podia falar especificamente de Frank, sem colocar um alvo nas costas de seu conselheiro, por isso resolveu ser mais vaga em seu questionamento.

— Achei que sua preocupação fosse comigo. — Obviamente Viktor reagiu como um garoto mimado e com o ego ferido, como esperado.

— E é, só estou te distraindo, querido noivo. — A Donna já tinha a resposta perfeita na ponta da língua.

— A maior parte da equipe da nossa organização se saiu muito bem, vários agentes americanos abatidos. O pessoal italiano, no entanto, era absolutamente despreparado para lidar com tecnologia de grande porte. — Foi Helga Werner quem explicou, claramente destratando os homens da máfia italiana. Ela olhou para Benedetta, parada ali a postos e acenou para ela. — Me traga um vinho. Boa safra obviamente.

Roxanne fez um sinal discreto para sua governanta e logo a mãe de Frank saiu do cômodo.

— As baixas serão um problema para você, querido? — Continuou seu interrogatório em tom manso.

Estava extremamente preocupada com seu pessoal, com Frank em particular. Devia muito a ele. O que diria a Nick e a Benedetta caso o perdesse naquele tipo de missão? Roxanne sabia que esse erro a assombraria para sempre.

— Nada que fará diferença, ele vai receber apoio de muitos simpatizantes em breve. — Foi Kurt Werner quem respondeu, com a presunção irritante que apenas uma Cabeça da Hydra podia ter.

— Meu pai tem muita influência. — Helga completou naquele mesmo tom. — O nome dele é conhecido. Diferente de Strovalenko que surgiu para o mundo agora.

Roxanne admitiu internamente que afrontar o atual líder da organização daquele jeito era uma demonstração de muita ousadia. Começou a acumular informações sobre a filha de Werner em sua mente, para caso precisasse.

— Posso ter surgido para o mundo agora, mas foi no momento em que a Hydra mais precisava de mim. — Viktor rebateu, com a reação irritadiça esperada. O homem tinha o ego mais frágil do que cristal afinal.

— Ele não está errado, minha filha. — Kurt emendou em tom repreensivo.

Roxanne gostaria de estar mais focada naquela conversa, porém sua preocupação tinha um foco e a pequena rixa nazista estava levando o assunto para longe. Precisava saber de Frank.

— Com licença, eu vou pegar um comprimido para você tomar, querido, e pedir um cardápio especial para o almoço. — Ela se colocou de pé, dando meia volta e saindo enquanto os três na sala debatiam a importância de Strovalenko para a causa.

Passou ao lado de Barnes, o pequeno fragmento de olhar que os dois trocaram dizendo muito. A preocupação parecia emanar do americano, quase como se ele fosse o responsável por tudo de ruim que estava acontecendo ou que ainda iria acontecer... O mais terrível era que Roxanne sabia muito bem que o pior ainda estava por vir.

James teria que ser forte...

Parou na cozinha, Benedetta sendo ágil em pegar os remédios como se já soubesse as intenções da Donna.

— Tem algo errado. — A jovem Domenichelli declarou tensa.

— Acha que algo aconteceu com o Frank? — Benedetta era o tipo de matriarca que nunca se abalava, a prova estava em sua mão firme e carinhosa no ombro da mais jovem. — Tente se lembrar que ele sabe se virar, já está nesse mundo faz anos, bambina.

Apesar da evidente força, é claro que a mais velha estava preocupada, era mãe afinal.

— Preciso que pergunte. — Roxanne decidiu, sabendo que era uma jogada arriscada.

O acordo sobre situações delicadas já existia há tempos, por isso Benedetta já estava instruída sobre o que fazer. Havia coisas que ela podia especular, sendo uma simples governanta e mãe de Francesco. Ela não levantaria suspeitas e não faria mais do que irritar Viktor no nível normal, não era um risco tão alto...

Assim que Roxanne voltou para a sala com o copo de água e o comprimido, Benedetta chegou também com o vinho para as visitas.

— E o meu filho? — Ela perguntou com o tom desesperado que soava muito convincente. — Onde está o meu filho?

— Benedetta, por favor, não incomode os convidados. — A Donna cumpriu seu papel e repreendeu a governanta, antes que Viktor reagisse de forma exagerada. — Desculpem por isso, sabem como são as mães.

Ela sorriu como faria uma boa anfitriã, enquanto Benedetta deixava o ambiente.

— Devia controlar melhor suas empregadas. — Helga julgou com ironia, seu vinho já servido em uma taça de cristal.

— Mas já que falamos disso... — Roxanne preferiu ignorar o comentário, quando se ajoelhou ao lado de Strovalenko de novo, limpando o rosto dele com uma delicadeza desnecessária. — Francesco foi uma das baixas?

— Não. — A resposta fez o alívio imediato tomar conta do coração da Donna. Mas talvez fosse cedo demais para isso. — Ele foi burro o bastante em ser capturado. Honestamente espero que morra antes de chegar a interrogatório, ele sabe demais.

A jovem Domenichelli tentou não esboçar reação alguma, enquanto Viktor engolia o comprimido e virava o copo de água.

— É por isso que só trabalhamos com nosso próprio pessoal, pessoas dispostas a fazer sacrifícios ao invés de cair nas mãos das autoridades. — Werner disse como se fosse nada.

Roxanne sabia que o alemão estava se referindo às conhecidas capsulas da morte que os agentes da Hydra estouravam debaixo da língua caso fossem capturados por uma agência rival. Eles morriam com todos os segredos que sabiam.

Mas Francesco Greco não era um maldito nazista...

— Com licença... — A Donna pegou o copo vazio e se virou em direção a cozinha.

Os olhos azuis gélidos de Barnes, que ela encontrou no caminho, carregavam o peso daquela revelação de forma tensa. Tudo que Roxanne pôde fazer foi balbuciar um “calma”, antes de entrar na cozinha e se encostar em uma das paredes.

Certo, Frank estava com o governo americano, ser preso não era exatamente um grande evento para um homem da máfia, Roxanne tinha planos de segurança para casos assim, atenuantes e acobertamentos. Os crimes que praticava podiam ser driblados pelo montante certo de dinheiro na mão da pessoa adequada. Era assim que o mundo funcionava.

Porém, Francesco Greco não foi preso como um simples homem da máfia italiana. Ele foi preso tentando invadir um complexo de alta segurança, para roubar tecnologia Stark. E, se o governo sabia disso, o provável era que já soubesse também que a Hydra estava rastejando por solo americano outra vez.

Um agente da organização nazista mais perigosa do mundo não teria o mesmo tratamento e direitos que um simples homem da máfia. Seria muito pior. Pouco importava o que aquela constituição hipócrita dizia, Roxanne sabia que o problema seria muito maior.

Começou a digitar ordens rapidamente, precisava deixar Corinne e Niccolo a par de tudo, acionar algumas medidas de segurança e também tinha que estar um passo a frente quando se tratava dos recém-chegados. Afinal, todo aquele plano ainda tinha um objetivo central: resgatar o Damian. Saber se haviam outras instalações sob o domínio de Kurt Werner era muito importante naquele instante.

— E onde está o famoso Dom Domenichelli? — Roxanne ouviu o alemão perguntar lá da sala.

Merda. Era um péssimo momento para esse questionamento, revelar essa informação antes da hora podia ser ruim para a parte do plano que envolvia Barnes. Era o Soldado Invernal quem tinha que contar tudo a Strovalenko, afinal, embora isso ferrasse com a Donna, era o que garantiria a estadia de James na Sicília.

Ele tinha que parecer útil aos planos de Viktor.

— Vai saber, a organização dessa casa é péssima. — Felizmente, a resposta do líder da Hydra foi desinteressada.

— Pode até ser, mas a herdeira vale a pena. — Kurt rebateu em um tom que vez Roxanne ter náuseas. — Bonita como poucas.

— Roxanne é digna de ocupar o cargo de esposa. — Viktor comentava presunçoso, enquanto ela teclava ordens freneticamente e enviava por mensagem. — Eu tenho bom gosto.

— Se você gosta do tipinho. — A voz de Helga parecia próxima e isso deixou a Donna alerta.

— Mas vamos falar de coisas mais produtivas... — Kurt cortou. — Quase não reconheci o Soldado Invernal.

Instintivamente, Roxanne sabia que toda a atenção da sala estava em Barnes. A tensão se espalhou por seu corpo de forma inevitável e ela guardou o celular no bolso depois de mandar a última mensagem.

— Minha noiva gosta de vestir soldados como se fossem bonecas. Coisa do Dom, que a ensinou que aparência importa. Uma besteira. — Viktor disse sem grande interesse.

— Pois eu gostei... — A voz de Helga estava ainda mais perto.

Roxanne se moveu a tempo de ver a alemã prestes a tocar o rosto de James como se ele fosse algum tipo de animal exótico e magnético.

— Vocês devem estar exaustos. — Disse em voz alta, fazendo com que Helga se assustasse. — Já tem um quarto a disposição para cada um. Relaxem com um bom banho pra tirar o sangue da batalha e logo o almoço será servido.

Como estava indicando a direção, Helga teve que se afastar antes mesmo de conseguir colocar aquelas patas nazistas imundas em Barnes. Enfiar agulhas abaixo das unhas daquela mulherzinha e depois queimar cada um dos dedos dela com soda caustica parecia muito atrativo para a Donna naquele momento.

— É uma ótima ideia. — Kurt acatou a sugestão prontamente. — Vamos falar sobre o seu ativo depois.

— Essa é uma conversa da qual eu gostaria muito de participar. — Helga teve a ousadia de dizer.

Roxanne fez um aceno rápido e Benedetta guiou os convidados escada acima.

As íris negras pousaram rapidamente em James, a pergunta muda “você está bem?” pairando no ar. O Soldado moveu a cabeça de forma afirmativa tão sutilmente que foi imperceptível. A Donna voltou a focar em Strovalenko, que estava deitado no sofá com os olhos fechados.

— E você, adorado noivo? Pretende subir para descansar? — Ela perguntou, posando de boa noiva.

Viktor abriu os olhos e a observou por dois ou três segundos, o rosto ainda parcialmente sujo de sangue, os nós dos dedos esfolados, deixando claro que havia entrado naquela briga de cabeça.

— Agora não. — Ele disse, se colocando de pé e ignorando a fisgada de dor que o fez se curvar por instinto. — Tenho uma reunião para fazer. — Deu o primeiro passo em direção ao escritório. — Vamos, Soldat.

Barnes se moveu de imediato, seus olhos gélidos pousando em Roxanne pelas costas de Strovalenko. Era a hora então. As portas se fecharam na cara da Donna e os dois homens ficaram sozinhos.

Agora restava confiar que James faria o que prometeu e que teria o sangue frio o bastante para entregá-la de forma convincente...

Enquanto isso, Roxanne só podia esperar, usando aquele tempo para resolver o máximo de problemas que conseguia.

Ligou para Corinne, com Strovalenko e seus homens na ilha os LaRue tinham que se manter discretos, por isso pediu que a francesa embarcasse com a família para os Estados Unidos, a fim de descobrir o paradeiro e a situação de Frank. Niccolo também queria ir, o que era absolutamente compreensível e, por mais que a Donna precisasse dele na Sicília, sabia que Nick nunca se concentraria em suas atribuições quando o homem que ele amava estava correndo perigo. Sendo assim, delegou a Jack e Georgina a tarefa de saber o estado dos italianos feridos e descobrir quem eram as baixas, para avisar as famílias.

Naquele curto tempo, a informação inicial coletada dizia que os russos haviam usado os italianos como escudo, isca e distração, ou seja, eles só se saíram melhor — como Werner havia citado — porque foram filhos da puta em todos os níveis.

A Donna jurou que os faria a Hydra pagar por tudo aquilo, assim que fosse possível.

Tinha acabado de resolver todas essas coisas, e estava com a atenção fixa nas portas do escritório, tensa com o resultado da conversa de James e Strovalenko, que estava se estendendo mais do que o esperado, quando a voz de Helga soou pelo cômodo:

— Imaginei que uma casa como essa teria mais suítes.

A alemã certamente se referia ao fato de ter sido deixada em um quarto comum.

— Sinto muitíssimo que achou as acomodações inapropriadas. — Roxanne respondeu, vendo ali uma oportunidade única de conseguir informação. — Imagino que como herdeira da Hydra, deva ficar em instalações muito mais equipadas e tecnológicas do que essa simples residência. Sinto que o padrão não seja adequado para alguém do seu nível.

Massagear o ego das pessoas eram sempre um jeito de conseguir vantagem, além disso, se Helga confirmasse, então estaria provado que de fato os Werner possuíam instalações. Podiam estar em posse de Damian ou de qualquer outra cobaia então.

— Na verdade as instalações não são lá grandes coisas, se quer saber, um monte de muquifo abandonado e desativado, que já foi totalmente evacuado pelo governo. — A loira deu de ombros com desdém. — Viktor tem uma boa instalação, talvez eu fique por lá, por um tempo. Papai gosta de me ter por perto.

Roxanne desconsiderou a relação estranha de pai e filha, assim como não ligou para a clara insinuação sobre Viktor, focou apenas no importante: eles não tinham uma base, ou seja, não podiam estar chefiando nenhum projeto de experiências...

— Tenho certeza que vocês serão muito bem-vindos. — Disse apenas, um sorriso cordial e falso no rosto.

— É claro que seremos, somos a nata da Hydra. Meu pai é uma das Cabeças mais antigas da organização, talvez o último ainda vivo. — Helga empinou o nariz em presunção. — Seu noivo tem sorte de nos ter por perto. Ainda que não seja exatamente digno da nossa presença.

De novo ela estava adulando o pai ao extremo e deixando claro que não tinha nenhum apresso por Viktor, como se ele fosse inferior de alguma forma. Mas outra informação relevante, e bem mais importante, acabou vindo de brinde, aquele “talvez o último vivo”, provava que os Werner também não tinham qualquer informação sobre as outras Cabeças da Hydra. Eles não sabiam o paradeiro do Representante.

— Bom, espero que goste de risoto. — Respondeu, mudando de assunto e fingindo não entender as insinuações.

Helga a mediu de baixo acima, no rosto um sorrisinho de deboche, típica reação de quem acha que é muito superior e a outra pessoa sequer vale a pena.

Roxanne imaginou que a conversa estava encerrada e se preparou para deixar a sala, honestamente não tinha qualquer pretensão de se tornar amiga da nazista loira e muito menos de gastar com ela qualquer segundo além do estritamente necessário. Era a Donna da Máfia tinha muito mais o que fazer.

— Então... Fiquei sabendo que ficou em posse do Soldado Invernal todo esse tempo. — A declaração em tom insinuativo fez com que Roxanne parasse onde estava. — Como ele é?

Ela se virou lentamente, contendo toda a raiva dentro de seu corpo.

— Um funcionário adequado. — Respondeu, não gostando do rumo da conversa. — Mas cá entre nós, um pouco enfadonho.

— Isso é porque tenho certeza que você não soube ser criativa o bastante em suas ordens. — Helga deu uma piscadinha cúmplice. — Ele deve saber fazer maravilhas com aquela mão de vibranium. Se é que me entende.

A Donna formulou mentalmente todas as muitas maneiras cruéis e dolorosas de matar alguém. Se aquela abusada maldita não fosse filha de um dos cabeças da Hydra, ela certamente já estaria virando comida de tubarão naquele momento.

Ou então presa no subsolo da vinícola, gritando e implorando pela morte.

— Desculpe, não entendo não. — Respondeu, com um sorriso inocente que escondia perfeitamente suas verdadeiras intenções. Roxanne via tudo vermelho.

Helga estava prestes a retrucar, quando as portas do escritório se abriram em um rompante. Roxanne não precisou que Strovalenko dissesse uma só palavra, ela já sabia que ele estava no limite do ódio apenas por sua postura. James havia seguido o combinado.

— Ah, Viktor... — A filha de Werner não pareceu notar o clima pesado que se instaurou no ar imediatamente. — Eu estava agora mesmo dizendo que sua noiva é muito recatada. Acho até que entendo as gêmeas agora.

A Donna desconsiderou a clara provocação, e a bem da verdade Strovalenko também pareceu sequer ouvir as palavras ditas, ele cruzou o espaço até sua noiva em passos duros, os olhos fixos e vidrados de raiva.

— Com licença, Helga, eu e a senhorita Domenichelli temos assuntos para tratar. — Agarrou o braço da italiana e praticamente a arrastou para o escritório.

Os olhos negros de Roxanne encontraram os azuis gélidos de Barnes, a forma como as íris oscilavam entre medo, culpa e angústia era um golpe cruel no coração da italiana. Ela já imaginava o que viria pela frente...

Irritar Strovalenko era previsível e imprevisível na mesma medida. Previsível porque ele sempre reagiria. Quanto mais seu ego fosse afetado pior seria a retaliação, mas ela viria, isso era certo. Porém, também era imprevisível, afinal não havia como calcular qual forma vil e cruel ele usaria para revidar, seria violenta e dolorosa, isso era certo, mas em que nível?

A bem da verdade, Roxanne já entrou naquele jogo sabendo que sua integridade física não podia ser garantida. Ela não se importava com a dor, alguns socos, tapas, ou qualquer que fosse a agressão que Viktor usasse para mostrar sua forma e superioridade, só serviam para provar o quão fraco ele era. Principalmente quando a Donna sabia que poderia vencê-lo em um confronto de verdade.

Sendo assim, quando decidiu que Barnes teria que contar sobre a real liderança da Máfia para Strovalenko, a fim de proteger o disfarce de Soldado Invernal, Roxanne já estava preparada e até conformada com os hematomas que isso deixaria.

O problema é que ela não imaginou que ver aquele combo pesado e sufocante de sentimentos nos olhos azuis de James fosse ser muito mais dolorido do que qualquer golpe.

Aquilo deixaria uma marca bem pior do que um hematoma roxo sobre a pele.

— Feche a porta, Soldat. — Strovalenko ordenou, esperando que os três estivessem isolados no escritório, antes de jogar Roxanne contra o chão de qualquer jeito.

Não chegou a machucar de verdade, principalmente porque o tiro de raspão de certo havia minguado um pouco da força de Viktor. Porém, Roxanne sabia que atuar da forma certa era imprescindível para que tudo saísse como planejado.

O problema era que: quanto mais indefesa, machucada e assustada ela parecesse, pior e mais difícil seria para James assistir...

— Quanto tempo você pensou que conseguiria esconder seu planinho de mim, hein? — Strovalenko havia se abaixado e segurava o queixo dela de forma violenta, gritando a centímetros de seu rosto.

— Do que você...? — A italiana fingiu não entender o que estava acontecendo.

— Não ouse me fazer de idiota! — A bofetada atingiu o rosto feminino em um estalo agudo, antes que ela pudesse terminar a frase. — Eu já sei de tudo!

Roxanne piscou, vendo estrelas por um segundo, Viktor já havia batido bem mais forte, pelo visto ele estava mesmo com dor naquele ferimento.

Ao erguer novamente o rosto, com a mão no lugar do tapa, ela teve apenas um milésimo de segundo para pensar. Barnes estava prestes a intervir e isso seria a pior coisa que poderia acontecer para o plano como um todo.

— Você o colocou aqui para me espionar... — Ela disse amarga, se referindo ao Soldado Invernal, assim poderia lançar a James um olhar que o impediria de sair da encenação. Voltou a atenção para Strovalenko logo em seguida, pois não podia correr o risco de levantar suspeitas. — Eu sou a sua noiva!

Viktor tinha um olhar cruel, que não combinava em nada com o seu sorriso satisfeito. Ele gostava da violência gratuita de tudo aquilo.

— Agora você vai entender que não deve mentir pra mim. — Agarrou Roxanne pelos cabelos, porém todas as suas microexpressões acusaram a dor que atravessou seu corpo. Ele não demorou a se recompor, mas claramente repensou sua linha de ação. — Mas vamos fazer de um jeito novo...

A soltou bruscamente e se levantou, virando as costas e caminhando na direção do Soldado Invernal. Roxanne previu que nada bom viria disso e começou a rezar para que James tivesse estômago o bastante para seguir o plano.

— Bata nela. — A ordem veio direta.

Os olhos negros focados nos azuis tentavam passar segurança. Viktor ainda estava de costas, então a Donna teve oportunidade de balbuciar um “você prometeu”, que finalmente fez com que Barnes se movesse.

Ele parou na frente dela, parecia muito maior naquele instante, ainda assim seu olhar era o de um menino assustado. Strovalenko havia se virado de frente para cena, porém o Soldado estava de costas para o líder da Hydra agora. Isso era bom, porque não havia forma daquele olhar passar desapercebido.

O tapa veio então, um movimento expansivo que na verdade quase não teve peso, Roxanne jogou o corpo para o lado em pura atuação, sua exclamação de dor vindo no tempo exato, como se ela tivesse ensaiado isso a vida toda. Tinha sorte de ser uma excelente mentirosa.

Quando ela ergueu os olhos de novo, o cabelo sobre o rosto e a mão na bochecha, James parecia aterrorizado. Strovalenko, no entanto, não tinha a fisionomia de alguém que não está satisfeito com o serviço.

— Com a outra mão, idiota! — Ele perdeu a paciência e ergueu o tom de voz.

Os lábios de James se moveram em um perceptível “perdão”, antes que o metal atingisse o rosto de Roxanne, foi leve, ela sabia disso com convicção, mesmo assim o gosto ocre de sangue invadiu seu paladar, talvez de um corte por dentro da bochecha.

Ela soube que Barnes não levaria aquela farsa muito mais longe, por mais que ele tivesse prometido e por mais que soubesse a importância de manter as aparências, por causa da missão de resgatar Damian, a verdade é que ele não precisava se submeter, não mais. Estava sendo visivelmente doloroso, além disso ele era um herói, não tinha estômago pra esse tipo de crueldade.

— Você não entende, querido... Eu fiz isso por você. — Roxanne tentou encurtar o processo, e passar para a conversa de uma vez, talvez por não estar sendo violento com suas próprias mãos, Viktor ficasse suscetível a falar para extravasar a raiva.

— Você acha que eu sou burro? — Ele atravessou na frente do Soldado em passos pesados. — Como mentir pra mim, pode ser por mim?

Os cabelos negros de Roxanne estavam emaranhados nos punhos de Strovalenko, ela teve que conter seu instinto de revidar ou encarar aquele maldito com mais prepotência do que o certo naquela situação. O fato de que ele parecia acreditar com tanta facilidade na fragilidade e fraqueza dela tornava a coisa toda quase divertida para a Donna.

Havia apenas uma certeza, e era isso que mantinha a italiana em um nível emocional distante e superior de toda aquela a cena. Era o que tornava tudo mais fácil. Viktor Strovalenko já estava morto, ele só não sabia disso ainda.

Era tudo uma questão de tempo naquele ponto...

Ela faria questão de fazer o sangue dele escorrer, assim que encontrasse Damian.

— Não era uma mentira, era uma surpresa. — Roxanne contou, sua voz controlada para parecer doce e levemente ofendida, seus olhos seguiram para Barnes, ela queria que ele soubesse que tudo estava bem e nada era tão ruim quanto parecia. — Uma surpresa que o seu soldadinho bisbilhoteiro estragou.

Strovalenko franziu as sobrancelhas, o aperto contra os fios de Roxanne afrouxando um pouco. Patético o quão facilmente havia mordido a isca.

Honestamente, a Donna imaginou que seria mais difícil.

— Explique! — Ele exigiu, no tom prepotente de quem tem certeza absoluta que está no controle. Tão idiota.

— Meu pai nunca gostou de você, era questão de tempo até que ele quisesse desfazer esse acordo. Ele estava te enganando para conseguir mais dinheiro e em breve nos faria romper o noivado. — Roxanne passou a traçar sua teia de mentiras, enquanto se arrumava um pouco melhor no chão. — Algo sobre uma desavença antiga dele com a Hydra. Não sei a história direito, eu provavelmente era muito nova.

Entregar algumas verdades era o que fazia de suas mentiras algo tão crível. Não era difícil, na verdade, a italiana achava que estava no sangue. As Domenichelli sempre foram boas mentirosas afinal.

— De fato a Hydra tinha assuntos na Sicília há uns anos... — Strovalenko ponderou, é claro que ele já tinha ouvido os rumores. — Mas também nunca me importou, não é da minha época.

— O Dom nunca aprovou nossa aliança. Ele era um risco pra você. Então eu planejei uma retomada de poder. Por você, Viktor. — Roxanne prosseguiu, usando um tom falsamente apaixonado. — Porque quando nos casarmos você vai poder liderar tudo.

Era o golpe final, oferecer a ele todo o poder de bandeja, algo tentador demais para negar ou ignorar. Porém, parte de todo aquele plano também contava com a desconfiança e paranoia de Strovalenko, ele não podia confiar cegamente na noiva, pois, caso o fizesse, o Soldado Invernal não teria utilidade nenhuma ali.

Ou seja, era necessário que Viktor fosse seduzido pelas mentiras, porém, ainda nutrisse uma ponta de desconfiança. Só assim a segurança de James na Sicília estaria garantida.

— E porque não me contou? — Ele perguntou com um estreitar mínimo dos olhos verde-veneno.

Felizmente a Donna havia estudado aquele homem à exaustão, até o ponto em que ele se tornasse bastante previsível... Viktor era então apenas uma marionete incapaz de enxergar as cordas, nada mais que isso. Podia botar medo em qualquer pessoa do mundo, mas não em Roxanne Domenichelli.

— Eu queria ter certeza de estar no poder primeiro. Pensei que poderia subjugar meu pai... — Ela respondeu em um tom propositalmente atropelado.

— Mas ele fugiu e estragou seus planos... — Viktor completou sem emoção, analisando o rosto feminino com cautela.

Verdes e negros se encontraram e, desavisadamente, o homem a frente da organização secreta mais perigosa do mundo se perdeu naqueles lagos abissais indecifráveis. Pouco importava que ele fosse o capitão de um navio, foi enganado pelo canto de uma sereia da mesma forma que um simples marinheiro... e então se afogou.

— Ou você só está dizendo tudo isso porque te peguei na mentira. — Ele lançou em tom superior, se sentindo um nível acima como se tivesse matado uma grande charada.

Homem ao mar...

Lá estava a desconfiança que manteria James Barnes na Sicília.

— Eu sempre fui nada mais que uma excelente noiva, Viktor. Como pode desconfiar de mim? — A Donna se fez de indignada. — Estou te dizendo toda a verdade.

Se fazer de inocente era muito fácil, mas bancar uma inocente que inspirasse o nível certo de desconfiança... Isso sim era uma arte.

Strovalenko encarou a noiva de cima por alguns instantes, então olhou por sobre o ombro para o Soldado Invernal. Ele era tão transparente para Roxanne, que ela podia ver as engrenagens daquela cabecinha oca girando.

O líder da Hydra deve ter se achado muito inteligente quando sorriu de forma cordial para a noiva, mas a Donna já sabia que era uma encenação, antes mesmo que o idiota abrisse a boca.

— Tem razão, querida noiva. Não tenho motivos para duvidar de você. — Estendeu a mão na direção dela. Ele era péssimo naquilo.

Evidente que estava desconfiado e que tramaria pelas costas da italiana, mandando que o Soldado Invernal continuasse a vigiar todos os passos dela. Strovalenko só não desconfiava que era exatamente isso que a Donna queria.

Se manipulação era uma arte, então Roxanne Domenichelli tinha acabado de criar uma obra prima...

Viktor a conduziu para fora do cômodo, a amparando como se fosse mesmo um homem descente e carinhoso. As íris escuras de Roxanne tocaram as de Barnes antes que ela deixasse o escritório. Queria saber o que o americano estava pensando de tudo aquilo, mas um único olhar não era o bastante para responder uma pergunta tão complexa.

O Soldado ficou para trás então. E Viktor, como de costume, deu a Benedetta e às visitas uma desculpa qualquer para o estado da noiva: “ela tropeçou e caiu”. Qualquer mentira ridícula que escondesse suas tendencias violências e toda a toxicidade daquele relacionamento.

Não podia ser mais ridículo.

Mas Roxanne não se importava de verdade, não fazia diferença que todos os outros membros da Hydra pensassem que ela era uma vítima, fraca e abusada pelo noivo, ela sabia muito bem que não era.

E os pequenos detalhes, como sempre, faziam toda a diferença.

Pelas próximas horas, Strovalenko bancaria o noivo perfeito, cheio de cuidados e palavras doces, como se isso realmente pudesse apagar a violência, como se compensasse as coisas. O ciclo exato de um relacionamento tóxico seria reproduzido. O terror de tantas mulheres era apenas um livro que Roxanne conhecia de cór e salteado. Ela aprendeu a usar tudo isso em seu favor.

Enquanto bancava a vítima, ela seguia sendo uma das vilãs, nessa história sem heróis.

E assim, Viktor Strovalenko continuava a dançar uma música que ele sequer sabia que estava tocando. Ele se achava o magnifico líder, o grande homem no poder de tudo, e mal sabia que toda sua masculinidade tóxica estava sendo usada como arma secreta contra ele mesmo.

Dali a algumas horas, talvez depois do almoço, ele daria as novas ordens de Barnes, diria que o Soldado Invernal permaneceria na Sicília de olho na noiva pouco confiável. Porque afinal, ele podia estar usando palavras doces com Roxanne, mas no fundo estava tentando esconder que ainda desconfiava dela.

Tudo de acordo com o plano.

Logo aquele maldito idiota iria embora e a Donna voltaria a sua rotina, com James ao seu lado. E assim continuaria, até que ela pudesse acabar com aquela missão, resgatar Damian, fazer Strovalenko engasgar no próprio sangue e, por fim, queimar a Hydra até que não sobrasse um só agente desgarrado para contar a história.

No fim teria tudo que sempre quis, não importava em quantas cabeças ocas, machistas, nazistas e retrógradas ela tivesse que pisar no processo...

Notas finais
É... não é a toa que essa mulher é a Donna, não é mesmo? Eu amo que o Strovalenko é uma sombra muito pesada na narrativa do Bucky, mas quando a gente vê isso da perspectiva da Roxie, esse bicho-papão é só um idiota que ela tem extremamente sob controle. E, obviamente o lado dela de mente criminosa e manipuladora, que a gente quase não vê quando ela tá derretida de amor perto do Bucky, fica bastante aflorado em situações assim... Sou cadelinha dela, nem minto. Obviamente nem tudo são flores, porque rolou um problema ali envolvendo o governo, que tá na cara que foi gerado pelas informações que o Bucky deu para a Valentina. E com isso o Frank se ferrou. No próximo a gente vê como vai estar a cabeça do Bucky em tudo isso. Nos vemos no dia 03 Beijos e até!