Operação Roleta Russa
23 Resgate

Por fora parecia apenas uma simples van do serviço de gás, ocultada da visão direta das câmeras externas da base secreta da CIA logo ali na frente, graças à vegetação natural, mas a aparente inocência daquele veículo escondia um aparato de armas e tecnologia que seria usado para resgatar Francesco Greco.
Reunidos ali dentro, Bucky, Niccolo e Corinne escutavam Roxanne repassar o plano, enquanto arrumavam seus comunicadores nos ouvidos.
— Hackear o sistema central deles para ter acesso às câmeras seria arriscado demais. Poderíamos disparar um alarme silencioso que avisaria da nossa presença muito cedo, o que colocaria vida do Frank em risco. Nesse caso, vamos invadir o mais discretamente que conseguirmos, para adiar ao máximo o acionamento do sistema de segurança e, quando isso acontecer, porque sabemos que vai, usaremos as bombas de fumaça para dar cobertura. — A Donna instruía pausadamente. — Lá dentro evitaremos o máximo de confronto possível, nosso único objetivo é resgatar o Francesco e sair rapidamente. Nada de mortes.
— Mas se isso tudo der errado a gente parte para o plano B, atira em todo mundo e tira meu homem de lá. — Nick completou de forma prática, enquanto engatilhava sua arma.
— Concordo. Gosto mais desse plano inclusive. — Corinne apontou, prendendo a munição em seu cinto. — Matar primeiro, perguntar depois. Sempre funcionou, por que estamos mudando agora?
— Vamos seguir o plano. Mortes apenas em último caso. — Roxanne decretou calmamente, sem dar uma resposta para a pergunta de LaRue.
Bucky respirou fundo, se armando com duas automáticas, além de algumas facas posicionadas em lugares estratégicos de seu traje. Ele também não sabia por qual motivo a Donna havia escolhido uma abordagem não-letal, mas no fundo estava satisfeito com isso. Não queria matar pessoas. Ainda mais agentes da CIA que só estavam cumprindo ordens.
No entanto, estava preocupado, dito em voz alta o plano até podia parecer simples, mas ele sabia muito bem que era perigoso e que as chances de tudo sair do controle eram muito grandes. Por mais preparados que fossem ainda era uma base do governo...
Foi por causa dessa preocupação que, quando todos começaram a descer da van, ele parou na porta, impedindo que Roxanne saísse.
— Ahn... — Começou sem jeito, colocando o braço de vibranium na passagem.
— O que? — A Donna focou o olhar nele de forma confusa.
— Eu acho que você devia ficar aqui. — Barnes disse com cautela.
— Como é? — Obviamente Roxanne não recebeu bem aquela sugestão.
— Vamos precisar de alguém pra... vigiar. — O Soldado explicou, tentando encontrar o argumento perfeito. — Ficar a postos caso algo saia do controle, sabe? Deixar o carro ligado, pra pegar a gente na saída, essas coisas.
Nada daquilo era verdade, Bucky só não queria arriscar a vida de Roxanne naquele resgate, principalmente quando ele sabia muito bem que só estavam fazendo aquilo por informações que ele mesmo havia dado a Valentina. Nunca se perdoaria se sua italianinha acabasse ferida naquela situação.
Se pudesse pedir que todos ficassem na van, Barnes entraria naquele lugar sozinho e tiraria Frank de lá. Era o mínimo que ele podia fazer depois de tudo.
— Não. — A Donna deixou bem claro, seus olhos de obsidiana focando em Bucky de forma dura. — Vocês precisam de mim lá. Confia nisso.
— Na verdade eu acho que o Barnes está certo. — Corinne interferiu casualmente.
Barnes nunca imaginou que conseguiria o apoio da francesa naquilo e, dada a surpresa de Roxanne, ela também não previu algo assim.
— Não, você não acha isso. — A italiana retrucou em tom ofendido.
— Você é a Donna da Máfia, é importante demais pra ficar dando sopa em um prédio cheio de agentes da CIA. Além disso, você sabe muito bem que eu e o Nick sozinhos poderíamos fazer esse resgate, e nesse caso ainda teremos o Barnes conosco, o risco disso é calculado. Ficaremos bem. Você não precisa estar lá. — Corinne colocou aquilo em um argumento bem claro e simples. — Você é a cabeça dessa operação, não os músculos.
A italianinha abriu e fechou a boca, a indignação clara em todas as suas feições. Seus olhos pousaram em Niccolo em busca de apoio, mas o homem ergueu as mãos em rendição.
— Me deixa fora disso. Hoje eu estou aqui com uma única prioridade: o Frank. Mas se for pra ser honesto, não acho que ele gostaria que você entrasse em um lugar assim, desculpe, Donna.
Vendo que os três ali concordavam com a mesma coisa, Roxanne respirou fundo, cruzando os braços, claramente irritada.
— Eu sei que podem fazer isso sozinhos. Mas é um erro. — Ela deixou bem claro, fixando as íris de obsidiana em Bucky por um segundo, porém, logo em seguida simplesmente deu um passo para trás. — Mas tudo bem, vocês são meus consiglieres, então ouvirei seus conselhos.
Os três se entreolharam, sem acreditar que realmente haviam conseguido convencer a Donna a ficar. Enquanto Corinne e Niccolo imediatamente começaram a andar, como se não quisessem dar oportunidade para a Rainha da Máfia mudar de ideia, Barnes ainda ficou ali por um instante.
— Não vai demorar muito. — Ele assegurou, pousando os olhos nela de forma carinhosa. — Vamos ficar bem, eu prometo. Ninguém vai se machucar.
— Você está errado. — Ela deixou claro, embora tenha usado um tom neutro. — Mas vai lá... — Apontou casualmente, quase com desdém. — Só saiba de uma coisa: você vai me pagar por esse pequeno motim, americano.
Ela disse aquilo de uma forma que não era de fato uma ameaça. Estava irritada, óbvio, mas era um irritada contornável. Desde que ela estivesse segura, tudo se resolveria quando Bucky trouxesse Frank de volta.
— Espero mesmo que seja minha italianinha falando isso, não a Donna. — Bucky riu de canto, olhando para trás por um segundo para checar se os outros dois continuavam a andar, sem prestar atenção na conversa. Sendo assim, o Soldado teve a ousadia de roubar um beijo muito rápido de Roxanne. — Te amo.
— Para de flertar comigo. — Ela estreitou os olhos e empinou o nariz de um jeito que na verdade foi muito adorável. — Eu te odeio, sabia disso?
— Odeia nada, italianinha. — Barnes respondeu divertido.
Sim, eles ficariam bem.
— Leva a Van pra uns três ou quatro quilômetros daqui, quando estivermos saindo avisamos e você volta. Isso vai evitar que eles descubram a sua posição quando os alarmes tocarem. — Ele instruiu de forma séria, mesmo sabendo que aquilo era uma baita ousadia. Estava dando ordens para a própria Donna da Máfia, de jeito nenhum aquilo sairia barato pra ele.
Roxanne franziu as sobrancelhas e abriu a boca totalmente indignada, mas Bucky não esperou resposta, deu um sorriso sem graça e se virou, apertando o passo para se juntar a Corie e Nick.
O trio seguiu o plano inicial à risca, encontraram um ponto cego no esquema de segurança do lugar e invadiram as instalações. Cada passo era dado com o máximo de discrição. Alguns guardas tiveram que ser nocauteados, mas isso foi feito silenciosamente, os corpos amarrados e amordaçados para que o trio prosseguisse.
— Estamos dentro. — O soldado sussurrou, para que Roxanne ouvisse através do comunicador, mas ela nada disse em resposta.
— A gente devia ter matado todos eles, só pra constar. — Corinne apontou como se fosse óbvio.
— Certo, Donna. — A voz de Niccolo soou no pequeno aparelho, como se ele tivesse recebido uma ordem.
Barnes se deu conta que não tinha escutado nada.
— O que ela falou? — Perguntou, gesticulando para que o pequeno grupo avançasse, se movendo nos pontos cegos das câmeras.
— Você não ouviu? — Corinne estranhou.
— Não. Deve ser problema no comunicador. — Bucky respondeu, tocando o objeto em sua orelha para ver se ele voltava a funcionar.
— Ela bloqueou você. — Nick deixou claro, como se tivesse acabado de receber essa informação.
Nesse momento Corinne teve que nocautear um agente de forma sorrateira.
— Rebeldia tem um preço. — A francesa disse casual, enquanto escondia o corpo desacordado em uma sala vazia para que o trio continuasse passando despercebido dentro do prédio.
A julgar pela velocidade em que estavam avançando, ficou bem claro que ninguém ali teria dificuldade em combater os agentes da CIA. Claro que não, todos do trio eram treinados para lutar contra a própria Hydra.
— E por que vocês não estão pagando o preço também? — Bucky jogou de volta em um tom levemente indignado, enquanto se ocultava atrás de uma pilastra, para esperar uma das câmeras se mover para o outro lado do corredor.
— O líder da rebelião sempre paga mais caro. — Nick rebateu através do comunicador. O olhar azul gélido encontrou o italiano há alguns metros dali, também se escondendo atrás de uma pilastra. — Palavras da Donna, não minhas. — Ele se defendeu rapidamente, apontando o comunicador, e Bucky apenas meneou a cabeça, sendo incapaz de disfarçar o sorriso no canto de seus lábios.
Italianinha impossível.
Eles continuaram avançando, evitando o saguão principal e a áreas muito movimentadas, até que um alarme começou a ecoar pelo prédio inteiro.
— Sabia que devíamos ter matado aqueles idiotas. — Corinne resmungou, checando a própria munição.
— A gente já sabia que seriamos notados cedo ou tarde, está tudo sob controle, é só seguirmos o plano. — Bucky gesticulou calmamente.
Era esperado que a CIA estivesse pronta para combater uma missão de resgate, afinal, para todos os efeitos, Frank era um agente da Hydra.
— Apenas tomem cuidado. — A voz de Roxanne soou no ouvido do soldado pela primeira vez, mas era claramente uma recomendação para o trio completo. — Não se machuquem, é uma ordem.
Não demorou para que os agentes começassem a chegar de todos os lados. Em um primeiro momento, apesar dos tiros inimigos virem de toda parte, avançar não foi tão difícil assim.
O trio trabalhava bem junto, e até então todos estavam seguindo a recomendação de Roxanne e disparando de forma não letal. Mas era visível que esse tipo de abordagem tornava a missão bem mais lenta.
Bucky assumiu a dianteira, usando o braço de vibranium como um tipo de escudo para manter seus dois companheiros seguros. Niccolo tinha jogado bombas de fumaça no corredor e a falta de visão prejudicava bastante os agentes ao redor.
Foi nesse instante que um tiro passou raspando perto de Corinne, levando um pedaço da parede que ela estava usando como cobertura e espalhando pó no meio da fumaça. A francesa olhou para o agente que teve a ousadia de tentar acertar a cabeça dela, e Barnes simplesmente soube que aquilo não acabaria bem para a CIA.
— Quer saber? Já que somos rebeldes, vamos fazer do jeito rápido. — A francesa decidiu, recarregando as duas automáticas e saindo de trás da parede que lhe ocultava, dando um tiro fatal em seu oponente e logo atingindo outros três da mesma forma.
— Até que enfim! — Nick também se preparou, visivelmente feliz por não precisar mais se preocupar em não matar os agentes.
— Merda. — Bucky suspirou decepcionado, devia saber que não poupariam ninguém. Embora uma abordagem letal fizesse daquela missão algo muito mais fácil e rápido, não era o que ele desejava. Pensou que poderia passar por tudo aquilo sem mais cadáveres na sua conta.
— Já percebeu agora que cometeu um erro, amore mio? — Enquanto os corpos continuavam sendo deixados para trás por Corinne e Nick, a voz de Roxanne soou no ouvido de Barnes de forma compassiva e, a julgar pela forma como o chamou, era claro que aquela comunicação estava fechada apenas entre os dois.
Naquele instante ele entendeu as palavras ditas pela Donna momentos antes.
— Por isso quis vir junto, não é? Você sabia que eles iriam se machucar. Nunca duvidou da nossa capacidade de fazer isso sozinhos, mas sempre esteve ciente que era a única capaz de impedir derramamento desnecessário de sangue... — O soldado comentou, enquanto caminhava por entre os corpos, seguindo seus dois companheiros sem precisar dar sequer um tiro.
— Eu já notei que não matar é importante pra você. Tentei fazer do seu jeito pra te dar um pouco de paz de espírito. — A italianinha comentou neutra. — Tem pessoas que eu preciso matar, por justiça, mas no caso desses agentes que só estão cumprindo ordens, isso não era uma necessidade. Queria fazer algo legal pra você. Mas, enfim. Agora vamos fazer do jeito rápido mesmo.
Bucky se sentiu um tremendo idiota.
— Me desculpa... — Pediu com honestidade. — Só queria te manter segura. Mas prometo que vou trazer todos eles de volta.
Roxanne apenas suspirou longamente. Ali em frente, Corie e Nick pareciam em algum tipo de jogo para ver quem derrubava mais agentes em menos tempo. Bucky nunca se sentiu tão estúpido e inútil quanto naquele momento.
— Você ainda me ama? — Ele perguntou baixinho, incomodado com o silêncio que a Donna deixou pairar.
Ela riu de forma irônica.
— Sério que é com isso que você está preocupado?
— É a única coisa que importa pra mim, Roxanne. — Bucky foi direto. Aquela era a pura verdade.
— Eu ainda te amo. — A resposta o fez suspirar de alívio. — Entendo a sua necessidade de tentar me proteger de tudo. Mas eu sou a Donna, você precisa confiar que sei o que estou fazendo.
— Sim, senhora. — Ele garantiu, seguindo pelo corredor por onde Corinne e Niccolo tinham acabado de passar. — Mas você fez o que eu pedi e está em uma posição segura, não é?
— Óbvio, eu não sou burra. Agora foca na missão e faça o favor de voltar inteiro e em ótimo estado, porque já avisei que quando estivermos sozinhos você vai pagar por esse seu ato de rebeldia. — Roxanne ordenou séria, mas algo em seu tom deixava bem claro que Bucky adoraria aquela punição.
— Sim, Donna Mia. — Ele soprou de volta, pouco antes do comunicador chiar e as vozes de Corie e Nick voltarem a ser audíveis.
— Limpo. — A francesa falava.
— Analisando a planta do prédio o provável é que Frank esteja no subsolo. — A Donna instruiu.
O trio procurou as escadas então, descendo os degraus enquanto o alarme continuava soando. Infelizmente a planta do lugar era feita para dificultar acesso pelas escadas, sendo assim, eles tinham que cruzar o piso inteiro, para poderem descer mais um andar.
Durante esse caminho, Bucky tentou impedir que Niccolo e Corinne matassem os agentes engravatados daquele lugar, que claramente era uma ala apenas burocrática. A estratégia dele era simples, nocautear cada um dos pobres coitados que estavam no lugar errado e na hora errada, antes que eles encontrassem um destino bastante cruel e derradeiro.
— Sério? — Nick focou no soldado de forma incrédula. — Você não pode começar uma rebelião e desistir dela no meio do caminho, Bello.
Barnes apenas riu de canto e encolheu os ombros como quem diz "desculpe", enquanto Corinne passava ao lado deles revirando os olhos, abrindo a porta do próximo lance de escadas que eles tinham que descer. Não havia mais nenhum agente subindo, o que na verdade parecia bem estranho.
— Gostaria de comunicar ao senhor Niccolo Pissani que se ele continuar nesse motim, ele vai trabalhar na vinícola na próxima semana, enquanto o Frank trabalha no... — A voz divertida da Donna soava pelo comunicador, até que só havia estática.
O trio se entreolhou com a mesma expressão confusa, já que nenhum deles chegou a ouvir o final da frase.
— Roxanne? — Bucky chamou, enquanto empurrava a pesada porta de ferro no final da escada.
— Jam..s? Es... me ...vindo? — A voz da italianinha veio toda cortada.
Barnes estava prestes a tentar chamar novamente, quando um tipo de curto circuito fez o comunicador lhe dar um choque. Ele jogou o pequeno aparelho no chão no impulso, ao mesmo tempo em que Corinne e Niccolo faziam o mesmo.
— O que aconteceu? — A francesa perguntou, esfregando a própria orelha.
— Interferência do sinal eu acho. — Bucky disse desconfiado, movendo sua mão de vibranium enquanto sentia como se eletricidade estática a percorresse o tempo todo. — Meu braço também está estranho.
— Vamos nos apressar então. — Nick declarou e todos concordaram.
O corredor em que estavam se dividia em dois, ambos os lados com diversas portas de ferro também fechadas. O trio se entreolhou e, sem palavras, chegaram na mesma conclusão: não era uma boa ideia se separarem.
Conforme seguiam todos juntos pela esquerda, checando o interior de cada uma das saletas através dos pequenos vidros blindados que todas as portas de ferro tinham, Bucky se sentia cada vez mais desconfortável. Algo ali não estava certo. Onde estavam os outros agentes? E por que parecia que havia um tipo de campo magnético envolvendo todo aquele lugar?
Ele moveu o braço de vibranium no próprio eixo, para ver se a sensação de desconforto desaparecia, mas era mesmo como se houvesse uma corrente elétrica muito fraca serpenteando no metal. No entanto, não teve qualquer chance de formar uma teoria sobre isso...
— Ele está aqui! — Niccolo gritou em um misto de felicidade e euforia, apontando a porta freneticamente.
Corinne e o italiano tentaram jogar os corpos contra o metal, mas ele nem se moveu.
— Posso? — Barnes perguntou e os outros dois se afastaram.
O soldado puxou a maçaneta com os dedos de vibranium, notando que aquele incômodo havia afetado um pouco sua força, embora a porta tenha se aberto no fim.
Francesco Greco estava sentado, no que era claramente uma sala de interrogatório, com a expressão pacífica e casual. Não fossem os ferimentos e sangue seco em seu rosto ou o fato de suas mãos estarem algemadas na mesa, qualquer um poderia pensar que o homem estava ali apenas aguardando o jantar.
Talvez isso demonstrasse o quão seguro estava de que seria resgatado.
Os olhos dele passaram rapidamente por Bucky, porém focaram em Niccolo logo em seguida.
— Você demorou... — Declarou com um sorriso galanteador no rosto machucado.
— É o meu cabelo que dá muito trabalho, desculpe. — Nick respondeu, passando a mão em sua careca para ilustrar a piada.
Os dois sorriram um para o outro, como se estivessem roubando aquele pequeno segundo de felicidade no meio do caos completo que os cercava. Bucky com certeza entendia isso. Em seguida, Niccolo começou a procurar uma forma de soltar Frank das algemas.
— Será que você pode...? — Apontou para Barnes, mas antes que o soldado pudesse se aproximar o som de um disparo preencheu a sala.
Francesco estava solto, Corinne tinha acabado de arrebentar a corrente da algema com um tiro. Automaticamente todos os olhares pousaram na francesa, a audição zunindo por causa do som agudo.
— Eu tinha munição sobrando. — Ela encolheu os ombros casualmente.
— Eu preferia que você tivesse preservado a sua munição e os nossos tímpanos. — Nick retrucou, ajudando Frank a se levantar.
— Você está bem? — Bucky perguntou para o homem que estava sendo resgatado.
— Onde está a Roxanne? — Francesco ignorou o soldado e focou nos outros dois. Niccolo apenas apontou para cima em resposta, recebendo um olhar totalmente incrédulo de imediato. — Espera. Ela ficou de fora?
— Barnes fez ela ficar. Era mais seguro. — Corinne explicou, enquanto Nick aparava o corpo do namorado e o ajudava a andar para fora da saleta.
Os olhos de Frank focaram em Bucky por alguns instantes. Era a segunda vez que isso acontecia, mas era muito difícil entender que tipo de olhar analítico era aquele.
— Vamos pra casa, esse lugar fede e eu preciso de um bom vinho. — O italiano disse por fim. — Além disso, tenho muita coisa pra contar. — Soltou aquelas palavras com os olhos ainda presos em Barnes e um arrepio de mau-agouro cruzou o corpo do soldado.
Não podia ser, podia?
Bucky se obrigou a esquecer isso, não era hora de paranoia, ainda precisavam sair dali e era incerto que tipo de obstáculo enfrentariam até estarem em segurança.
Ele avançou na frente, liderando o quarteto com cautela, mas antes que alcançasse as escadas algo o deteve repentinamente, era como se houvesse um vidro invisível bem no caminho.
— Tem alguma coisa errada... — Ele avisou, tocando a barreira com os dedos de vibranium e vendo uma interferência magnética mostrar que aquela coisa se estendia por toda a parte, do chão ao teto.
Antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa, do outro lado da barreira agentes extremamente bem equipados apareceram de toda a parte. Tinham acabado de cair em uma armadilha, por isso foi tão fácil entrar ali.
Bucky tentou socar o campo magnético e Corinne tentou um tiro, mas seja lá qual fosse aquela tecnologia, ela era bem mais resistente que o punho de vibranium ou balas de calibre comum.
De repente, todos aqueles agentes abriram espaço para uma figura feminina se aproximar. Valentina de Allegra Fontaine estava ali, acompanhada de perto por John Walker.
— Honestamente, achei que a missão de resgate seria chefiada pela Hydra... — Ela soltou em um tom quase casual. Seus olhos fixos em Barnes de um jeito que não podia significar nada de bom.
— Dio mio, essa mulher não tinha um amigo pra falar desse cabelo horrível? — Nick soltou do nada, arrancando uma risadinha de Frank.
O comentário foi totalmente ignorado pela Condessa.
— É muito interessante os ratos que pegamos com a ratoeira certa. — Ela ainda tinha os olhos presos em Barnes, havia ódio ali. Será que ela sabia de alguma coisa ou só estava fingindo?
Para todos os efeitos, Bucky ainda era um agente infiltrado focado na Operação Roleta Russa, ele esperava que isso fosse o bastante para que seu disfarce não acabasse indo por terra bem ali, na frente de seus novos amigos. Uma palavra errada da Condessa ou de Walker e todas as mentiras que tinha contado seriam expostas, ele sequer teria chance de tirar a equipe de Roxanne do prédio antes de ser declarado um traidor por eles.
Mas não podia morrer sem ver sua italianinha pelo menos mais uma vez.
— Tem menos deles do que eu esperava, Diretora. — Walker comentou, observando o grupo com a prepotência que lhe era inerente. Idiota.
— Eles não precisam de números se tem o maior assassino de todos os tempos do lado deles. — Valentina debochou, medindo Bucky de baixo a cima.
Corinne tentou dar outro tiro, que teria acertado a testa da Diretora da CIA se não fosse a barreira.
— Vamos pular as inutilidades, por favor. Eu tenho apenas uma pergunta. Onde está Roxanne Domenichelli?
— Eles sabem. Sabem de tudo. — Francesco soprou.
Agora que a CIA já tinha conhecimento que Roxanne não era apenas a herdeira e sim a Donna da máfia, Bucky entendeu depressa demais que a italiana estava em risco.
— Imagino que esse fosse um segredinho que todos vocês queriam muito esconder, não é? — Valentina provocou.
— Ela está na Sicília. Não veio junto, era perigoso. — Barnes respondeu, tentando contornar a situação.
Estava torcendo para ainda ter pelo menos o benefício da dúvida.
— Está me dizendo que a Donna é uma covarde? — A Condessa devolveu perspicaz.
— Roxanne é a mulher mais importante da Itália, acha mesmo que ela ariscaria a vida por um subordinado qualquer? — O soldado ainda tentou argumentar.
— Por um subordinado qualquer não, mas o senhor Greco é especial, não é? — Os lábios da mulher se franziram em deboche. — Ninguém faz um aborto na companhia de um subordinado qualquer.
Bucky olhou para trás com as sobrancelhas franzidas em evidente confusão. Roxanne tinha feito um aborto? Quando? Por quê? No entanto não era o momento de verbalizar essas perguntas, a voz de Valentina dando ordens para John Walker deixou isso bem claro.
— Ela está por perto, vasculhem tudo.
— Você tentou... — Niccolo soprou resignado.
Bucky sabia muito bem que um encontro da Condessa com Roxanne acabaria muito mal para ele. Todas as mentiras que vinha escondendo ficariam expostas assim que Valentina achasse uma forma de tirar vantagem disso.
Mas, para todos os outros, a eminente captura da Donna não chegava a preocupar, isso era visível. Certamente haviam planos de contingência caso ela fosse presa, além disso, nenhuma acusação feita pela CIA se manteria sem as provas necessárias, e Barnes podia apostar seu outro braço bom que eles não encontrariam nada para incriminar a italiana. Ela seria apenas uma garota no lugar errado, com uma família e um noivo que não prestavam, mas isso não era crime algum. Apesar do risco que o próprio Bucky corria, Roxanne ficaria bem, até o fim do dia ela já estaria livre, certamente.
— Em breve vocês terão companhia. — Walker provocou, fazendo sinais para que a equipe de agentes começasse a subir.
— Na verdade... — Valentina ergueu um dos dedos como se tivesse acabado de pensar em alguma coisa. — Essa não é uma missão de busca e captura. Vocês têm permissão de usar força letal, Roxanne Domenichelli é um indivíduo de alta periculosidade.
— Senhora? — Um dos agentes soltou em choque.
Aquele não era o procedimento padrão. Bucky focou os olhos em John, esperando que ele se recusasse a fazer algo assim. Era como se ninguém atrás dele respirasse. Mas Walker seria sempre aquele soldadinho do governo que aceitava ordens de seus superiores sem questionar e que nunca se importava em sujar as mãos de sangue, ele desviou o olhar e apenas assentiu para sua chefe.
— Atirem para matar. — Valentina deixou claro, dizendo aquela frase como quem pede um café expresso a um subordinado pela manhã.
Barnes socou a barreira, sabendo que teria que sair naquele instante. Não podia permitir que nada acontecesse com Roxanne.
— Vamos extirpar o mal direto pela raiz. — A Condessa continuou falando enquanto os agentes se moviam escada acima. Então abriu um sorriso irônico que mais parecia uma ameaça, focada totalmente em Barnes. — Mais tarde, depois que eu cuidar de toda a bagunça, eu volto para ver que tipo de assunto vocês quatro conversaram nesse tempo.
O olhar dela seguiu para Frank logo em seguida, Bucky também acabou fazendo o mesmo caminho e então, como um simples interruptor que se acende, ele percebeu. Francesco Greco já sabia de tudo.
Focando em Valentina ele viu que aquilo era um tipo de vingança pessoal, seja lá como, ela também havia descoberto que Barnes vinha mentindo. Sendo assim, a Operação Roleta Russa não existia mais, depois de Barnes se comprometer daquela forma não havia outra maneira de infiltrar alguém.
Por isso a Condessa decidiu matar Roxanne, era o único jeito de acabar com a Máfia Italiana. E ela nem se preocuparia em contar a verdade sobre Bucky para ninguém, da boca dela não teria tanto valor assim. Ela deixaria os quatro ali, para que Corinne e Niccolo soubessem pelo próprio Frank. Para que todos eles se dessem conta ao mesmo tempo que só estavam ali porque um homem que eles acolheram como um igual havia dado informações confidenciais para a CIA. Valentina queria que os três conseglieres da Donna tivessem todo tempo do mundo para entender que a mulher que eles juraram seguir estava sendo caçada e correndo risco de vida por causa do Soldado no qual ela decidiu confiar.
— E já que vocês gostam tanto de uma fumaça. — A Diretora da CIA cantarolou, se referindo às bombas que foram usadas na invasão. Segundos depois fumaça começou a sair do chão, do lado em que Bucky e os outros estavam presos. A mulher lançou um último olhar para o grupo e sumiu escada acima, ordenando que três agentes ficassem de guarda.
Barnes ainda não tinha parado de socar o vidro, totalmente compenetrado nessa tarefa, cada vez que seu punho de vibranium batia na barreira eletromagnética era como se uma descarga de choque atravessasse seu corpo, vinda através do metal. Mas ele não se importava, não podia desistir, não quando Roxanne estava correndo risco de vida.
Tudo que ele podia fazer, enquanto continuava a socar e ouvia Corinne e Niccolo descarregarem suas armas na barreira, era torcer para que a Donna simplesmente pegasse aquela van e dirigisse para bem longe dali. Mas ele sabia muito bem que ela nunca deixaria sua equipe para trás.
E por isso ele não podia parar de tentar.
Em questão de segundos a fumaça tomou conta daquele corredor e ficou bem claro que tinha alguma coisa ali no meio, Frank foi o primeiro a cair de joelhos por estar mais fraco, sendo amparado por Nick que logo começou a tossir também.
Considerando as coisas que Valentina tinha dito era improvável que a fumaça fosse venenosa, porém, aquilo com certeza estava minando a força de todos eles segundo a segundo. Devia ser algum tipo de gás para fazê-los apagar, assim só acordariam novamente quando Roxanne estivesse... Barnes sequer se permitiu pensar nessa palavra, continuou golpeando a barreira repetidamente.
Estava ficando mais fraco, podia sentir isso, fora ele, a única pessoa do pequeno grupo que se mantinha de pé era Corinne, Nick já estava no chão com Frank, a cacofonia de sons da tosse de todos eles se misturando de uma forma desesperadora.
— Não vamos conseguir. — Corie soprou rouca e sem fôlego.
Temos que conseguir. Bucky pensou, enquanto socava a barreira de novo, dessa vez forçando seu punho de vibranium contra a eletricidade estática, ignorando totalmente o choque que isso provocava em seu corpo.
Era como estar na Hydra de novo, sentado naquela maldita cadeira, enquanto a eletricidade se forçava por cada uma de suas veias e nervos. Barnes ouviu a própria voz cortar o ar em um grito que misturava agonia e raiva. Toda as luzes do corredor piscando enquanto o punho continuava a ser forçado pela barreira e os agentes ali de guarda, claramente com medo, se escondiam atrás de suas armas.
Ele não parou, o rosto de Roxanne em sua mente, porque tudo que importava era ela.
As lâmpadas começaram a explodir por todo o corredor, a única fonte de luz se tornando aquela barreira de energia que parecia estar rachando cada vez que Barnes forçava mais um pouco o braço de vibranium. Suas pernas tremiam, a fumaça se agarrando a seus pulmões roubando todo o ar.
Só mais um pouco.
Barnes não desistiu. Todo aquele soro colocado de forma forçada em suas veias; o braço metálico que foi dado a ele porque o seu tinha sido arrancado pela morte naquela geleira; as malditas décadas que ele passou coberto de sangue por causa da Hydra; tudo aquilo tinha que valer alguma coisa.
Servir para alguma coisa.
Precisava chegar até Roxanne, mesmo que fosse a última coisa que ele fosse fazer na vida. Mesmo que morresse pelas mãos dela depois. Primeiro ele precisava deixá-la em segurança.
Nada importava além disso.
O barulho de algo se quebrando sobrepujou o grito de Bucky, em seguida, a escuridão completa engoliu tudo, apenas as respirações ofegantes do trio atrás de Barnes indo e vindo rapidamente, como se o ar tivesse voltado para seus pulmões.
Bucky estava no chão, o resquício da eletricidade ainda correndo pelo corpo dele enquanto a fumaça se dissipava pelo corredor. A barreira estava destruída. Não teve tempo de pensar nisso, sua audição captou um gatilho sendo pressionado e ele mal teve chance de rolar para a esquerda, antes que a rajada de tiros atingisse o lugar onde estivera há segundos.
Se colocou de pé muito mais rápido do que achava ser capaz, avançando sobre seu oponente e puxando a arma da mão dele antes que uma segunda saraivada de tiros viesse. O primeiro agente caiu depressa, nocauteado por um único soco, mas não morto. O segundo também não durou muito, seu corpo desacordado atingiu o chão ao mesmo tempo em que as luzes de emergência daquele andar se acendiam. Nick e Corinne já ajudavam Frank a se levantar, todos tossindo juntos e se apoiando uns nos outros, visivelmente afetados pela fumaça que ainda se dissipava.
Bucky não precisou procurar muito para encontrar o terceiro agente, ele tinha a arma apontada para o lugar errado, talvez por causa do escuro que dominava tudo até o segundo anterior. Os olhos azuis gélidos acompanharam o cano da arma e naquele átimo ficou claro que Francesco Greco estava na mira.
Naquele pequeno instante a percepção da verdade cruzou o pensamento de Barnes, se Frank morresse ali, todas as mentiras morreriam com ele. Roxanne nunca ficaria sabendo daquela traição. Seria fácil...
Quando o gatilho foi puxado pelas mãos trêmulas do agente Barnes já estava na linha de tiro, o projetil atingindo seu ombro de vibranium e ricocheteando para o lado oposto. No instante seguinte esse oponente já tinha sido derrubado também.
Virou para trás e por um instante seu olhar cruzou com o de um Frank ainda grogue de gás. Pois é, seria fácil deixar aquele homem morrer ali, mas também seria errado.
Barnes não era esse tipo de pessoa.
Todas as mentiras que havia contado para Roxanne custariam caro, mas Bucky jamais permitiria que Frank ou qualquer outra pessoa pagasse por isso no lugar dele.
— Todo mundo bem? — Ele perguntou, recebendo um aceno fraco dos amigos.
— Vai... — Corinne pediu quase sem voz.
Eles ficariam bem, sendo assim Barnes não esperou nem mais um segundo para subir as escadas correndo, pulando os degraus de cinco em cinco.
Tinha que chegar em Roxanne antes de Walker.
Cortou o primeiro lance de escadas e começou a atravessar aquele andar para encontrar o próximo, corria o mais rápido que o supersoro permitia, as pernas ainda estranhas pelo tanto de eletricidade que havia atravessado seu corpo.
Tinha que subir mais um lance de escadas e chegar do lado de fora. Com sorte Walker e seu pequeno exército de agentes procurariam nos lugares errados primeiro, por não saberem que Roxanne estava estacionada alguns quilômetros longe dali.
Ele já podia ver o acesso ao segundo lance de escadas quando algo veio do nada e o atingiu com força. Bucky sequer viu o que era antes do disparo de energia pura o jogar no ar, fazendo com que ele atravessasse uma das portas de madeira daquela área cheia de salas burocráticas.
Caiu sobre uma das mesas, mas o impacto do móvel quebrando não foi nada comparado ao disparo que o havia jogado ali. Ele certeza que, se não fosse um supersoldado, uma de suas costelas estaria quebrada agora, e que teria sido muito pior se a rajada de energia, ou de seja lá o que fosse, não tivesse vindo do lado esquerdo e batido no vibranium primeiro.
Se levantou meio zonzo, parte de sua jaqueta de couro havia queimado totalmente, o buraco aberto mostrando o ferimento no lado esquerdo do abdômen de Barnes. Não era nada fatal, a energia foi quente o bastante para cauterizar a ferida instantaneamente, mas ele teve certeza que estaria morto se tivesse recebido o disparo direto no peito, visto que nenhum supersoro o protegeria daquilo.
Amém braço de vibranium.
— Gostou do meu novo brinquedo? — A voz de Valentina veio da sala do lado oposto do corredor. — Interessante o que a gente consegue por aí nos dias de hoje.
Bucky encarou a mulher que portava um tipo de armamento que só podia ser alienígena. Era uma longa lança metálica que disparava pela ponta. Naquele momento pouco importava se era da invasão de Nova York ou de uma das duas invasões posteriores de Thanos, a única certeza que o soldado tinha era que não podia ser atingido por uma daquelas rajadas.
Valentina apontou a lança de novo, era tão comprida quanto a altura da própria mulher e o sinal luminoso indicava que recarregava rápido, mas não instantaneamente. Barnes teve apenas dois segundos para desviar do disparo. A energia levou metade da parede e levantou pó por toda parte.
Em seguida ele sabia que não tinha tempo para pensar, avançou pelo corredor rapidamente e alcançou Valentina no mesmo instante em que ela apertava o gatilho, o braço de vibranium empurrou o metal alienígena para cima no último segundo e o disparo atingiu o teto, os escombros caindo por toda a parte, pedaços da estrutura, metal madeira e pó.
Barnes se apossou da lança enquanto rolava para um lado e Valentina para outro. A Condessa já terminou o movimento sacando sua arma comum e disparando o pente inteiro. Mas um calibre 38 jamais seria um problema para o vibranium, antes mesmo que a munição acabasse o soldado havia aparado todas as balas com a palma esquerda e puxado o revólver das mãos femininas para jogá-lo no chão.
A Diretora da CIA até tentou lutar, mas suas habilidades, apesar de boas, não eram o bastante naquele momento. Bucky tinha plena certeza que já podia ter matado a mulher se quisesse, ainda mais porque a lança alienígena estava firme na mão direita dele.
— No fundo, eu sempre soube que você era um criminoso, Bucky Barnes. — Valentina cuspiu quando foi encurralada contra a parede.
Ele podia ter se abalado com isso, mas não sentiu nada mais que desdém naquele momento.
— Prefiro ser um criminoso do que ser igual a você. — Declarou com convicção. — Alto Conselho, né? Eu devia saber que não dava pra confiar em nada que saia da sua boca.
Usou a lança então, mas não como uma arma e sim como o simples pedaço de metal que era, a empunhando em um golpe certeiro na direção de Valentina. A mulher fechou os olhos esperando a morte certa, porém, ao invés disso, Barnes fincou a ponta exatamente ao lado dela, contorcendo objeto no meio com facilidade e enfiando a parte inferior do outro lado, como uma braçadeira que prenderia a Condessa na parede.
— Eu me demito! — Bucky disse em um misto de diversão e sarcasmo, então apenas deu as costas.
Precisava achar Roxanne.
— Acha mesmo que pode fugir do que fez? Ela nunca vai te aceitar! Você vai morrer por isso!
Ele voltou alguns passos, enfiando um punhado de papel que achou em uma das mesas dentro da boca de Valentina para que ela se calasse.
Mas no fundo Bucky Barnes sabia que a Condesse estava certa, agora era apenas uma questão de tempo até que ele pagasse por cada uma de suas mentiras com a própria vida...
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Assim que Roxanne ouviu o comunicador parar, o coração dela parou junto. Soube que algo estava errado e se odiou por ter permitido que sua equipe entrasse sozinha naquele lugar.
Imediatamente ela ligou a van e dirigiu até a entrada da CIA, amaldiçoando cada quilometro que havia se afastado do prédio e que custou minutos preciosos de trajeto. Sabia que o trio havia invadido por outro lugar, mas o alarme havia mobilizado toda a segurança para dentro do prédio e deixou a frente dele vazia. Tudo que a Donna teve que fazer foi atravessar os portões com o veículo.
Se armou antes de entrar pela porta da frente. Estava tudo silencioso ali, o que tornava o som do coração dela disparado ainda mais perceptível. Sabia que não podia perder a calma, precisava resgatar sua equipe e talvez tivesse a entrada surpresa como vantagem.
Passo ante passo ela começou a cruzar o primeiro andar, procurando pelas escadas que a levariam para o piso inferior. Havia um rastro de corpos pelo caminho.
Nem bem havia atravessado os dez primeiros metros quando o barulho ritmado de um esquadrão se espalhou pelo espaço, um homem gritava ordens.
Roxanne respirou fundo e em um segundo analisou a situação da forma mais fria que conseguia. Não podia enfrentar todos aqueles homens, sendo assim, ela entrou em uma das salas e esperou. De onde estava podia ouvir os sons abafados dos agentes conversando, estavam procurando por ela e o líder deles ordenou que vasculhassem todo o perímetro.
A italiana esperou ali com a impaciência batendo em seu peito, se estavam procurando por ela talvez sua equipe ainda estivesse viva e ainda houvesse esperança. James estava com eles, tinha que confiar que ele era treinado e preparado para lidar com emboscadas e que ele protegeria os outros.
Porém, confiar não a impedia de estar preocupada. Nunca temeu tanto pela vida de alguém como estava temendo naquele momento.
Sempre se achou indigna de qualquer pingo de felicidade, encontrar Damian era seu único objetivo porque Roxanne sempre soube que ter o irmão de volta era a melhor coisa que podia acontecer com ela. Mas então James apareceu e de repente ofereceu a ela tudo que parecia ser possível apenas em sonho.
Roxanne não podia perdê-lo.
A julgar pela movimentação ao redor, uma parte da equipe de agentes tinha encontrado a van, e agora estavam vasculhando o prédio, se separando em equipes. A Donna sabia que não poderia ficar escondida ali por tanto tempo, seria encontrada em breve, então se preparou para o confronto.
Apontou a metralhadora para a porta e assim que a maçaneta virou, ela puxou o gatilho. Fazer aquilo sem derramar sangue não era mais uma opção. Rapidamente jogou algumas bombas de fumaça, isso deu a ela alguma mobilidade pelo espaço e a possibilidade de sair da sala conforme atirava nos alvos que vinham aparecendo.
Não era militar, mas passou anos treinando para lidar com a Hydra, então podia bater de frente com alguns agentes. Enquanto as balas voavam e a fumaça lhe dava cobertura, Roxanne continuou, metodicamente, derrubando os oponentes que apareciam. No entanto ela sabia que estava em desvantagem, precisava de um plano. Sua munição não duraria para sempre, muito menos as bombas de fumaça.
Os despistou em um dos corredores, atirando nas câmeras no caminho, ganhou alguma vantagem e entrou em outra das salas, a última bomba de fumaça lhe dando cobertura. Se sua audição não estava muito prejudicada pelos tiros trocados havia uma briga acontecendo no andar de baixo, mas Roxanne não podia se preocupar com isso naquele momento.
Bloqueou a porta e analisou o ambiente, procurando por uma estratégia, era questão de segundos até ser encontrada. Viu sua saída no teto, mas antes de subir no duto de ar, ela jogou uma das cadeiras pela janela. O barulho revelou sua posição e Roxanne não teve muito mais que um ou dois minutos para entrar no esconderijo.
Assim que os agentes invadiram a sala, destruindo as mesas que bloqueavam a porta, viram o vidro quebrado. Um deles caminhou até a janela e olhou lá fora.
— Alvo escapou por uma das janelas da área sul. — O homem falou por seu comunicador.
Ele claramente recebeu alguma ordem, e nesse mesmo instante algo fez o chão tremer.
— Sentiu isso? — O colega perguntou, olhando sobre o ombro com a arma em punho.
— Parece que foi no andar de baixo. — O outro respondeu.
A explosão, ou seja o que fosse, não parecia tão próxima assim, mas foi potente o bastante para ter seu tremor sentido ali. Roxanne só pôde desejar que James e os outros estivessem bem, enquanto fechava os olhos para conter qualquer som que pudesse escapar de sua boca.
— Eu odeio esse trabalho. — Um deles resmungou. — Vamos logo achar a garota.
Logo a sala estava vazia e Roxanne enfim pôde desder do tudo de ar. A julgar pela ausência total de sons, a luta no andar de baixo havia acabado. Só esteja bem, James, por favor. Pensou, enquanto checava se era seguro sair. Avançou pelo corredor, procurando pelo melhor jeito de acessar as escadas.
Tinha acabado de passar por uma das salas quando ouviu o clique característico da trava de uma arma.
— Não se mexa. — A voz ordenou seriamente.
Merda... Roxanne sabia que um movimento brusco era muito arriscado naquele instante. O homem parado do lado esquerdo dela estava ali esperando para emboscá-la. Difícil dizer se tinha adivinhado a estratégia da fuga falsa ou se apenas quis se precaver ficando por perto de guarda.
— Eu sabia que você não ia simplesmente fugir e deixar o seu pessoal para trás. — Ele revelou qual das duas opções era a verdadeira. — Mãos pra cima e se vira devagar.
Roxanne fez o que foi ordenado, e reconheceu o homem de imediato, afinal ele havia virado sensação da mídia por um tempo. John Walker.
Os olhos dele se estreitaram levemente e a Donna viu aquele brilho característico nas íris masculinas. Ele sabia quem ela era e tinha acabado de subestimá-la. Podia apostar que o pensamento que passou pela mente do homem foi "ela não parece tão perigosa". E Roxanne sabia explorar esse tipo de situação muito bem.
— Por favor, não me machuca, Capitão América. — Disse, jogando a arma no chão repentinamente e arregalando os olhos de forma assustada e vulnerável.
O titulo fez a postura dele mudar sutilmente, Roxanne riu disso internamente. Homens eram básicos, gostavam de parecer mais nobres e honrados, principalmente aos olhos das mulheres.
— Tudo bem. — Ele apaziguou no tom de quem vai ser o policial bom. — Ninguém tem que morrer. Mas você vai ficar detida, se vira por favor e começa a andar.
Tão fácil. A Donna revirou os olhos logo que deu as costas, o cara claramente tinha ordens pra matar, mas não achou que ela representasse tanto perigo assim.
Enquanto caminhava fingindo, obedecer às instruções dele, Roxanne movimentou um pouco o punho, os braceletes de vibranium escondidos por baixo de sua blusa se revelaram um pouco. Ela contou até três antes de, repentinamente, fazer a lâmina escondida ali surgir e se virar, abaixando enquanto Walker mal tinha tempo de reagir.
Atingiu a coxa do homem e ele errou o tiro que disparou no susto. Passou por debaixo das pernas dele e usou a lâmina de novo, desferindo um golpe na panturrilha do adversário, para que isso o deixasse mais lento.
— Você é mesmo tão estúpido? — Ela já estava de pé atrás dele. —Você não é o Capitão América, idiota.
A irritação cortou o rosto do homem e ele tentou acertá-la com uma rajada de tiros enquanto Roxanne corria para o lado oposto, o mesmo do qual tinha vindo, para tentar recuperar a metralhadora que havia jogado no chão.
Ela só não contava com o fato de que John Walker fosse um pouco mais esperto do que parecia. Ele usou a própria arma, a arremessando como um disco de hóquei, para que isso afastasse a metralhadora antes que a italiana a alcançasse.
Sabia que estava lidando com um supersoldado, haviam os rumores e o próprio Strovalenko tinha comentado que a CIA tinha um dentre seus agentes. O fato de as armas terem atravessado metros para longe no corredor só provou isso.
Inferno. Roxanne sabia muito bem que em uma luta corpo a corpo ela não tinha qualquer vantagem. Até conseguiu escapar dos primeiros golpes do homem, mas eventualmente foi agarrada pelo cabelo e jogada contra uma parede. Todo seu corpo protestando de dor.
— Você cometeu um grande erro, garota. — Ele a puxou do chão e, arrancou os braceletes dela antes que a Donna pudesse pensar em atingi-lo.
As peças caíram em um baque metálico e o corpo feminino foi prensado na parede com violência. As duas mãos masculinas no pescoço dela. A Donna começou a sentir os pulmões estrangularem em busca de ar. Ela tentou pensar em um plano para escapar, enquanto a cabeça latejava pela privação de oxigênio. Não podia entrar em desespero, isso seria sua morte certa.
Ninguém vai vir te salvar. A frase ecoou na mente de Roxanne como uma maldição. Ela sabia que estava sozinha. Garotas como você não merecem ser salvas.
— Walker! — O grito colérico cortou o ar.
James surgiu no extremo oposto do corredor, seus olhos azuis escurecidos de ódio puro. Por um segundo, a italiana pensou que estivesse alucinando pela falta de ar.
— Não se aproxima ou eu vou... — John começou a dizer, mas sequer terminou a frase antes que Barnes se lançasse contra ele.
O corpo de Roxanne despencou para o chão enquanto os dois homens atravessavam uma das paredes. O ar voltando aos pulmões dela todo de uma vez só e a fazendo arfar enquanto segurava o pescoço.
Ainda meio grogue por causa da privação de ar, ela saiu caçando os braceletes. Só quando as peças estavam de volta em seus punhos foi que percebeu que não estava mais lutando.
Ela foi salva. James veio salvá-la.
Um sentimento estranho se apossou de Roxanne quando um suspiro de profundo alívio escapou de seus pulmões. Era como se um peso de uma tonelada tivesse acabado de sair dos ombros dela. Como se ela tivesse acordado do meio da noite depois de um pesadelo terrível e se dado conta que nenhum de seus medos era real.
Com os olhos cheios de lágrimas, por um motivo que nem ela mesmo entendia, a italiana virou a cabeça a procura de James. Ele estava em uma das salas, sua figura era visível através da parede estourada.
Walker estava no chão, sendo atingido um golpe após o outro, como se Barnes não conseguisse ver mais nada na sua frente. Ele ia acabar matando o idiota daquele jeito.
— James! — Roxanne chamou, mas o sargento não parou, como se uma parte muito primitiva de seu cérebro tivesse sido ativada e só houvesse ódio nele.
A italiana levantou, apoiando o corpo na parede e caminhou até lá.
— James, já chega! — Tentou fazê-lo parar, mas sua primeira tentativa não foi o bastante.
Vendo que, por mais que Walker fosse uma supersoldado, ele não sobreviveria a mais socos daqueles, Roxanne colocou as duas mãos no meio do caminho dos golpes, entre Barnes e o rosto ensanguentado do idiota no chão. O punho de vibranium travou no ar no mesmo instante
— Você não quer fazer isso. — Ela disse carinhosamente.
Não nutria qualquer afeição pelo idiota loiro, agora desacordado, mas sabia que manter as mãos limpas era importante para James, por causa de todo o passado sanguento que a Hydra havia colocado sobre os ombros dele.
— Ele tem que morrer por tocar em você! — A resposta era um misto de instinto, cólera e descontrole, os olhos azuis gélidos ainda estavam totalmente focados no oponente.
— Ele não vale a pena. — A Donna foi se movendo devagar para que Barnes fizesse o mesmo, até que os dois estivessem de pé, se afastando de Walker. — Você vai se arrepender disso
— Nunca vou me arrepender de defender você! — James ainda parecia prestes a voltar e terminar o serviço.
Roxanne não permitiu, colocando o próprio corpo na passagem, um sorriso emocionado em seus lábios, saber que aquele homem estava disposto abrir mão de uma convicção tão pessoal por ela era comovente. E por isso mesmo não podia permitir, não era certo.
Por mais que até quisesse John Walker morto. Não queria que James tivesse que se despedaçar para mantê-la inteira.
— Mas eu já estou segura agora, amore mio. — Pousou as duas mãos no rosto masculino.
Só então James pareceu entender isso com clareza, seus olhos azuis focando nos negros pela primeira vez, esquadrinhando o rosto feminino em seguida para se certificar que ela estava bem e inteira.
Roxanne estava prestes a dizer alguma coisa quando foi puxada de encontro ao corpo masculino, os braços fortes a envolvendo em um misto de cuidado e preocupação, enquanto os lábios dele procuravam os dela.
A italiana correspondeu de imediato, a angústia toda daqueles últimos momentos fazendo com que as línguas buscarem uma à outra de forma desesperada. Ela conseguia entender aquele sentimento agoniante de achar que ia perder alguém que amava, no entanto, a forma como Barnes a segurava tinha algo mais intenso que um simples reencontro, algo agridoce talvez. Mas Roxanne não pensou nisso naquele instante, porque ela se sentia mais amada que nunca.
Finalmente havia entendido que não estava sozinha, que era digna de ser salva. E isso era tudo que ela nem sabia que queria.
Alguém limpou a garganta ali perto e o casal se separou no mesmo mento. Corinne, Nick e Frank encaravam parados ali no meio do corredor.
Pelo visto o segredo que Roxanne tinha com James não era mais tão secreto assim.
— A gente já pode ir, ou vocês ainda precisam de um minuto? — Corie apontou para a saída em um misto de ironia e deboche.
Roxanne apenas riu de canto, enquanto focava seus olhos em Francesco, que vinha aparado por Niccolo.
— Você está bem? — Ela perguntou se aproximando dele. — Eles machucaram você?
— Não tinham como me machucar. — Frank tocou o rosto dela de forma fraterna. — Eu sabia que você viria, Donna.
Nick limpou a garganta de forma exagerada e forçada.
— Vocês. — Frank corrigiu. — Vocês viriam. — Ele pousou os olhos em James por um segundo. — Vamos sair daqui de uma vez, odeio os Estados Unidos.
O grupo seguiu pelo corredor, ainda tiveram que enfrentar alguns agentes na saída, e despistar mais alguns depois que Corinne assumiu a direção da van e eles começaram a ser perseguidos, porém, antes mesmo do pôr do sol, estavam fora do radar daqueles malditos.
— Espera... — Nick, que se encontrava no banco da frente ao lado de Corinne, pareceu se dar conta de alguma coisa. — A gente acabou ferrar e escapar de um exército da CIA?
— É isso aí! — A Francesa comemorou e os dois bateram as mãos como se tivessem feito tudo sozinhos.
Na parte de trás da van, Roxanne riu, limpando alguns ferimentos de Frank sob o olhar atento de James. Estavam todos bem, apenas alguns arranhões, contusões e cortes, nada que fosse durar. Barnes, que já estava com uma camiseta nova, pois sua jaqueta foi destruída, tinha um ferimento de queimadura no abdômen, mas garantiu que também estava bem.
A missão de resgate foi um sucesso.
— E agora? — O americano perguntou, os olhos azuis intensamente focados em Frank, como se de uma hora pra outra o italiano fosse dizer algo.
Roxanne presumiu que James estava esperando informações sobre tudo que havia acontecido desde que Frank foi capturado, para saber se a CIA seria um problema. Mas ela achou melhor conversarem sobre isso uma outra hora, o importante era que estavam todos bem. Tinham o direito de curtir a vitória antes de pensar nas complicações do que fizeram.
E, de toda forma, não era como se as autoridades norte-americanas um dia tivessem gostado da Máfia Italiana. Eles ficariam bem, teriam que rever algumas coisas de logística e estratégia, mas ficariam bem.
— Agora nós vamos pra casa. — A Donna respondeu, focando seus olhos em Barnes e sorrindo. Mal podia esperar pra estar nos braços dele, isolados do mundo naquela bolha de amor que eles cultivavam na Sicília.
No entanto, sair dos Estados Unidos via ar, da mesma forma que haviam entrado, era muito perigoso, por isso, cerca de uma hora depois todos eles tinham embarcado em um iate particular.
Estavam indo pra casa, a costa norte-americana se afastando aos poucos no horizonte.
— Sinto muito que tenha que dizer adeus. — Roxanne parou ao lado de James na proa, enquanto ele encarava a paisagem com as mãos no bolso.
Imaginava que fosse difícil para ele saber que estava deixando seu país para trás e que agora era um fugitivo e um criminoso.
Os olhos azuis pousaram nos dela e a italiana teve que perder o ar por um segundo, não só porque James era uma visão e tanto ali sob as luzes laranjas e roxas do final de tarde, mas porque a intensidade daquelas íris gélidas eram tão hipnotizantes quanto o mar no qual eles flutuavam naquele instante.
— Estou exatamente onde eu queria estar, Donna Mia.
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