Notas iniciais
Olá! Cheguei! Agora que o mistério todo ficou resolvido, a gente pode começar a conhecer os outros personagens e ver como a dinâmica do Bucky e da Roxanne vai se estabelecer... Boa leitura!

— Você não pode estar falando sério... — Corinne acusou, braços cruzados e a indignação em cada sílaba.

Não conseguia acreditar no que Roxanne tinha acabado de dizer. Ou melhor, não conseguia acreditar que Domenichelli havia convocado uma reunião de emergência no meio da madrugada para então dizer tudo aquilo.

O homem por trás do Soldado Invernal estava desperto, e por mais que todo mundo ali soubesse que cedo ou tarde algo assim acabaria acontecendo, Corinne nunca imaginou que Roxanne tentaria puxar o cara para o lado deles.

Mas devia ter previsto isso...

— Estou. — A Donna da máfia disse com sua calmaria irritante. — Ele pode ser útil.

Corinne respirou fundo, estavam nas instalações secretas da vinícola, Nick também estava presente e Frank os observava via vídeo. O homem conhecido como Bucky Barnes se encontrava preso na sala refrigerada, evidente que Roxanne havia desligado o resfriamento do lugar, porque afinal ela teria deixado o Soldado solto por aí durante a reunião. Foi a própria Corinne quem insistiu que eles mantivessem o homem em um lugar controlado.

Qual é? há menos de vinte e quatro horas o cara teria arrancado o próprio pau por ordem do Nazista Mor. É claro que Corinne não confiava nele.

— E ele vai ser útil como? — Questionou, querendo colocar um pouco de clareza na mente de Roxanne. — Por que precisaríamos dele? Pelo que Frank acabou de dizer se você tivesse deixado o cara fugir isso nos colocaria mais perto de acabar com a Hydra.

— O Viktor caçaria o James como se caça um animal selvagem. — Domenichelli argumentou em seu tom neutro.

— Mas isso faria com que alcançássemos o nosso objetivo bem mais rápido. Pessoas presas naqueles laboratórios seriam salvas mais rápido. — Corinne argumentou, afinal era uma daquelas situações matar uma pessoa ou matar cem. A equação era bem simples.

— Supostamente sim. — Roxanne se moveu pela sala com sua postura impecável de uma deusa. — Mas estaríamos mandando alguém para um abate certo. James é tão vitima quanto você, Pierre, meu irmão e todos os outros que podem estar presos nos laboratórios secretos. Por que a vida dele tem que valer menos?

Ela focou seus olhos escuros em Corinne e a francesa respirou fundo, seus lábios franzidos em uma careta de desgosto. Sabia que a Donna estava certa, porém tinha um péssimo pressentimento sobre Barnes, não conseguia colocar em palavras claras, mas havia algo que parecia não se encaixar.

Porém, Corinne entendia muito bem o posicionamento de Roxanne, sabia que era da índole daquela mulher dar uma oportunidade de justiça para aqueles que ela considerava vitimas da Hydra. Era exatamente esse comportamento que tinha dado a Corinne e Pierre um lar.

A verdade é que Roxanne sabia que Barnes não seria útil para nada dentro do plano, aquilo era apenas um argumento pronto e fácil. Ela simplesmente queria que ele ficasse.

Era isso que a Donna fazia...

E soava mesquinho e injusto se colocar contra algo que a beneficiou um dia... Afinal Roxanne estava tentando fazer por Barnes o mesmo que tinha feito pela própria Corinne.

Ainda assim, aquele sentimento ruim na boca do estômago da francesa persistia. E se Bucky Barnes não fosse tão confiável quanto Roxanne queria acreditar?

— O ponto aqui, Donna, é que você não pode sair resgatando vítimas da Hydra como quem resgata filhotes perdidos e indefesos. — Francesco opinou através do vídeo. — Com todo respeito, Corinne.

— Eu vou ignorar que me chamou de indefesa porque dessa vez concordo totalmente. — A francesa anuiu. — Roxie, quem garante que ele seja confiável?

— Ninguém podia garantir que você e o Pierre fossem confiáveis também. — A Donna argumentou neutra.

E por mais que Corinne soubesse que era a absoluta verdade, ela não estava pronta para dar o braço a torcer.

— É diferente, tínhamos uma divida de gratidão com você desde o primeiro momento. — Rebateu, tentando expressar seu desconforto com argumentos lógicos. — Esse homem não tem nada, ele é um herói americano, você está sendo ingênua.

Sabia que Roxanne estava fazendo isso, porque no fundo ela gostaria que alguém fizesse o mesmo por seu irmão desaparecido. Ainda assim era um risco.

— Talvez, mas essa foi a melhor solução que eu achei no momento, eu podia deixá-lo fugir, entregá-lo para o Viktor, mas julguei mais útil tentar fazer dele um aliado. — A Donna retorquiu calmamente.

Os olhos negros tocaram Corinne e ela se sentiu hipócrita e ingrata, não parecia justo não fornecer a outra pessoa a mesma sorte que teve um dia... Mas era por lembrar o quão ruim a vida tinha sido antes, que ela sabia exatamente quão boa a vida era agora.

Não podia arriscar isso por um Soldado Americano que jamais entenderia a lealdade que Corinne havia aprendido na Itália.

— Eu até entendo isso, mas precisava contar toda a história e o plano pra ele? — Tentou ser racional.

Roxanne assentiu, como se entendesse esse posicionamento.

— A verdade era a coisa mais convincente que eu podia dar a ele, Corie. Uma mentira não convenceria aquele homem. Eu dei um salto de fé. Mas não foi uma exceção. — Explicou apaziguadora. — Fiz o mesmo com você e com Pierre e vocês estão aqui, comigo, a lealdade de vocês se provou inestimável para mim. Minha fé valeu a pena no fim.

As duas trocaram um olhar cúmplice, Corinne tinha essa impressão que Roxanne podia ver dentro de si, como se a italiana soubesse de coisas que nunca tinham sido ditas, havia essa compreensão inerente nas íris de obsidiana...

A francesa respirou fundo, buscando pelo apoio de Frank com os olhos, já que Nick permanecia calado desde então.

— Aquele homem nunca vai ser leal a você, Donna. — Francesco disse com a cautela de alguém que quer desarmar uma bomba. — Corinne está certa, ele é um herói americano, cedo ou tarde seus métodos vão ser um impacto grande demais para ele. James Barnes não é um de nós.

Roxanne respirou fundo e assentiu, acolhendo a opinião de seu conselheiro, mas claramente não gostando daquelas palavras.

— Esse é o seu voto? — Ela perguntou firme.

Quando havia divergência sobre qualquer decisão da Donna os Três Grandes votavam, era assim que Roxanne havia construído aquele império. A Máfia tradicional tinha apenas um “consigliere” mas a Donna tinha três, era uma forma de garantir que as decisões fossem equilibradas e ponderadas.

Era apenas um dos pequenos detalhes que Corinne admirava naquela gestão. Roxanne era uma líder, não uma ditadora.

— É apenas uma advertência. — Francesco respondeu.

— Eu voto contra a permanência dele. — Corinne declarou, não desejando estender aquela conversa muito mais. Sabia que era injusto e egoísta, mas tinha que ser fiel a esse pressentimento corrosivo. — Não existe um só motivo para confiarmos em um estranho...

— Na verdade temos o melhor motivo de todos para confiarmos nele. — Niccolo se pronunciou finalmente, desencostando de onde estava e dando um passo para frente.

— E qual é esse motivo? — Corinne questionou.

— A Donna decidiu confiar nele com a verdade e ela não cometeu nenhum erro antes. — Nick encolheu os ombros como se fosse a coisa mais simples de todas. — Ela é a nossa líder, esse é o plano dela, a vingança dela, o irmão dela. Confio que minha Donna sabe o que é melhor para essa organização e tem total capacidade de reconhecer um possível aliado ou não.

Corinne respirou fundo, claro que Niccolo não estava errado, mas ela não podia mais se dar ao luxo de ignorar seus pressentimentos.

— Frank tem o voto de minerva então. — Roxanne declarou, focando as íris na tela que transmitia o vídeo.

Os olhos de Francesco focaram em Corinne por alguns instantes, ele era o membro mais antigo ali, o homem que havia servido a máfia sua vida toda, o que conhecia aquele meio melhor do que qualquer um, o que já estivera sob as ordens do antigo Dom. O único que seria aceito em gestões antigas, mas que para isso teve que esconder uma parte de si por anos e anos.

— Faremos como a Donna quer. — Ele declarou firme.

Por que afinal, Francesco Greco era também o primeiro a ter confiado que Roxanne poderia se tornar a líder que a Sicília precisava. Ele podia ter todas as objeções aos planos dela e falaria sobre isso abertamente, mas nunca votaria contra uma decisão dela.

Corinne ergueu as mãos em rendição, no fundo já sabia que seria voto vencido, mas isso não importava realmente, porque o que contava ali era que podia dizer o que pensava, podia se opor a Roxanne nas reuniões e nunca sofreria retaliação por isso.

A Donna não se irritava por ouvir opiniões contrarias as suas, era exatamente por isso que havia unido três conselheiros...

E por mais que fosse uma italiana teimosa, Roxie pensaria no que ouviu, Corinne sabia disso.

— Tudo bem. — Admitiu sua derrota como uma boa perdedora. — Mas se algo der errado eu mesma vou matar o ex-garoto da Hydra.

— De acordo. — Frank anuiu satisfeito.

— Por mim tudo bem. — Niccolo encolheu os ombros.

— Chegamos em um consenso então. — Roxanne decretou, oferecendo a eles um sorriso acolhedor. — Reunião encerrada. Podem voltar pra casa, obrigada por estarem disponíveis tão rápido e desculpem por chamar tão tarde.

E ali estava, outro pequeno detalhe que Corinne admirava. A Donna tratava todos ao seu redor com respeito, ela não agia como se eles lhe devessem nada, e era isso que conquistava a lealdade de todos ao seu redor...

— Bom, eu mantenho vocês informados então. Acredito que Strovalenko vai permanecer ocupado por todo esse mês ainda, ele está tentando angariar apoiadores e por isso precisa ficar por perto de seus novos interesses. Ele não compartilhou nenhum plano de retornar para a Sicília e acredito que não vai fazer isso por todo o mês. — Francesco informou e todo mundo ali compartilhava do mesmo sentimento de alívio.

No fundo todos eles sabiam que a presença de Viktor Strovalenko era muito mais que um contratempo para os negócios e planos. Aquilo era uma tortura particular para Roxanne.

Não importava o quanto eles se planejassem, e o quanto tentassem evitar o pior, eventualmente Roxie tinha que manter as aparências e ser, infelizmente, a noiva daquele homem. Na prática.

Corinne sentia náuseas só de pensar nisso. Mesmo que Roxanne nunca tivesse dito uma única palavra sobre as coisas que precisava fazer quando as portas de seu quarto se fechavam. Ela era a Donna afinal, carregava seus fardos sozinha, de cabeça erguida, aqueles a seu redor eram beneficiados pela paz do não saber.

Mas Corinne era mulher, uma que esteve nas mãos da Hydra e antes disso nas ruas por tempo demais. Ela sabia.

E aquele era apenas outro motivo pelo qual teria entregado a cabeça de Bucky Barnes em uma bandeja de ouro, porque naquele ponto já estava bem claro que ele podia ser a chave para acabar com aquilo tudo mais rápido. Quanto mais cedo Strovalenko ganhasse o respeito dos velhos nazistas e liderasse completamente aquela organização, mais cedo Roxanne poderia se casar, e só assim ela finalmente se livraria daquele homem nojento...

A Donna estava pagando por aquele plano com algo muito mais valioso que dinheiro ou bens materiais. E podia ser compreensível que ela fizesse isso para salvar o irmão, porém naquela madrugada ela havia escolhido a segurança de Bucky Barnes acima de seu próprio bem estar.

Corinne desconfiava que aquele Soldado jamais conseguiria entender ou talvez sequer imaginar que a segurança dele estava sendo comprada meses e meses da dignidade de Roxanne. E essa era a pior parte.

— E o meu pai? — Domenichelli questionou, ainda falando com Frank.

— Ele está aproveitando o luxo que o cerca e tentando conseguir lucro. Sinto que Viktor vai dar um tiro nele a qualquer momento. — A resposta veio despreocupada.

— Não deixe que aconteça, não posso me casar com um homem que matou meu pai, manter um relacionamento com Strovalenko depois disso levantaria suspeitas demais. — Roxanne rebateu prática.

— Eu sei, Donna, vou manter o seu pai seguro, não que ele mereça. — Frank declarou apenas. — Mantenho contato.

Ele se despediu de todos e desligou em seguida.

Roxanne respirou fundo, provavelmente pensava no pai, Corinne sabia que a Donna não nutria um grande amor pelo ex-Dom, mas não deixaria que ele fosse morto. Fazia parte do plano manter Vicenzo vivo, assim poderia ver a máfia prosperar e Damian ser resgatado e voltar para a casa.

Roxie queria provar que era boa o bastante.

Corinne achava um tanto sem sentido provar algo para um homem que não se importava com nada além de dinheiro. E sendo honesta, ela achava que Roxanne estava esperando um pedido de desculpas que nunca viria.

Vicenzo nunca admitiria que cometeu um erro quando subestimou a filha, ele nunca diria que ferrou tudo ao não acreditar na própria esposa.

Talvez no fundo, uma parte de Roxanne ainda fosse apenas uma garotinha carente do afeto que lhe foi negado, querendo provar ao pai o próprio valor, como se isso fosse torná-la digna de um amor que nunca esteve disponível para ela.

Era assim que Corinne via, mas jamais diria isso em voz alta é claro. Podia não chamar a jovem Domenichelli de “Donna”, mas a respeitava como tal.

Todavia, apesar de tudo, LaRue podia ver por trás dos muros perfeitamente erguidos ao redor da rainha da máfia...

A Donna era implacável com seus inimigos, justa e benevolente com seus aliados; estava cercada de gente que morreria por ela, ainda assim... estava sozinha. Porque todas as pessoas ao seu redor amavam a líder forte e poderosa, mas no fundo Roxanne Domenichelli queria alguém que amasse suas fraquezas, falhas e vulnerabilidades.

Ela inspirava lealdade com facilidade. Mas estava buscando por amor incondicional.

E talvez por isso Corinne estivesse tão empenhada em protegê-la, porque enquanto o mundo via a mulher e a rainha, LaRue via a menina que teve que conquistar um império para ser vista e ouvida...

Assim que Frank desligou, Roxanne caminhou para o painel digital e abriu a porta que prendia Bucky Barnes.

— Terminamos, James. — A Donna acenou para que ele saísse. — Obrigada pela paciência.

Os olhos azuis do homem mediram todos os presentes por alguns instantes.

— Se estavam decidindo minha vida eu acho que devia estar presente pra me defender, certo? — Ele lançou ácido.

— Gostava mais da sua versão calada. — Corinne rebateu, cruzando os braços e estreitando os olhos.

— Não liga pra ela, Bello. — Nick fez um gesto banal com a mão direita, em seguida abriu os braços de forma receptiva. — Benvenuto in famiglia

Sim, ele abraçou o americano como se os dois fossem velhos amigos. Típico do Niccolo. Não que Barnes tenha de fato abraçado de volta.

— Puxa-saco. — Corinne revirou os olhos em um misto de tédio e incredulidade. — Nos vemos de manhã.

Não prolongaria sua estadia ali, queria voltar para sua família.

Enquanto Nick tagarelava coisas sem sentidos para o ex-garoto da Hydra, Roxanne se aproximou de LaRue.

— Corie? — Chamou antes que a francesa alcançasse as escadas. — Obrigada.

Corinne assentiu uma única vez, sabia que seus receios eram compreendidos. Desejou que isso fosse o bastante e que no fim Roxanne estivesse certa em dar aquele voto de confiança para o americano.

Era melhor que Bucky Barnes valesse a pena, porque com certeza a segurança dele estava custando caro para Roxanne...

Corinne tentou esquecer tudo isso enquanto dirigia para casa, sua mente vagando por seu passado, correndo as lembranças como quem avança um filme rapidamente. Lembrou da época de orfanato, de quando sua maior tragédia era ter sido abandonada por alguém na porta de uma igreja ao nascer. A vida não era boa, verdade, mas seus problemas naquela época eram simplórios de certa forma. Quando cresceu um pouco mais e fugiu dali, com a ilusão ingênua e utópica de que encontraria sua família, — como se milagrosamente eles fossem perceber que sempre a quiseram, — as coisas se tornaram um pouco piores, não era uma época que gostava de lembrar. Uma menina podia enfrentar coisas inimagináveis morando na rua.

Porém ainda teria escolhido isso ao invés de ter sido sequestrada pela Hydra alguns anos depois...

Foi lá, naquele laboratório escuro e metálico que Corinne viveu seus piores dias, foi usada, experimentada e abusada de todas as formas, não era um ser humano nas mãos dos nazistas, era apenas uma coisa para ser furada e treinada.

Era isso que o projeto que a sequestrou fazia, tiravam adolescentes das ruas, para tentar transformá-los em algo diferente, estudando seus corpos, forçando cada um deles a exaustão. A última parte do projeto visava dar habilidades especiais para as cobaias. Mas ninguém tinha saído vivo da parte final até então...

Conheceu Pierre naquele inferno, o prisioneiro mais antigo deles, a cobaia mais promissora. Foi natural e óbvio para os dois tentarem se unir para fugir, não que isso tenha funcionado, mas de certa forma ambos se mantiveram vivos, dando força um ao outro conforme o treinamento avançava.

Corpos saiam em sacos pretos todos os dias, mas Corinne e Pierre sobreviveram, se tornando mais fortes e mais espertos com o tempo.

Mesmo agora, com as mãos apertadas no volante de seu Cadillac, a francesa ainda lembrava do terrível sentimento de impotência quando Pierre foi arrastado para a última etapa do experimento. Ela ainda podia ouvir os gritos dele, isso ainda a assombrava algumas noites.

Foi um milagre Pierre ter sobrevivido, mesmo os nazistas de merda diziam isso. Ninguém mais conseguiu. Uma a uma todas as cobaias iam morrendo ao chegar na última etapa. E lá estava Pierre, ficando mais forte, enquanto os monstros tentavam domar aquilo que tinham feito dele.

Eles foram separados. Pierre era uma arma instável demais para ser mantido com os outros.

E quando as pessoas começaram a sumir no ar, virando pó sem explicação, Corinne não sabia se desejava sumir também, ou se temia que isso acontecesse com Pierre, era um sentimento ambíguo que não podia ser processado.

Ela se tornou então a última cobaia disponível, seria a próxima submetida ao procedimento. Foi quando Roxanne invadiu a base, foi quando tudo mudou.

Faziam apenas cinco anos, verdade, mas olhando para trás agora, parecia uma eternidade.

Corinne nunca processou que estava apaixonada até chegar na Itália e ter tempo de pensar nisso. Ela nunca imaginou que se casaria, mas lá estava ela, com sua própria família... Um marido e uma filha. Uma casa só sua e um propósito.

Cinco anos pode até parecer pouco para alguns, mas para Corinne LaRue era isso que separava duas vidas totalmente diferentes...

Ela estacionou na frente de sua casa e atravessou os cômodos escuros e silenciosos. Sua garotinha dormia em seu próprio quartinho tipicamente infantil, um abajur — presente de Roxanne — projetava estrelas no teto e iluminava suavemente o cômodo. Corinne beijou a filha, sentindo um aperto estranho no peito que fez seus olhos encherem de lágrimas.

Nunca sonhou que teria tudo aquilo, na maior parte dos dias desejava apenas o alento de uma morte rápida...

Mas ela tinha agora. E faria de tudo para proteger o que era seu.

— Problemas? — Pierre perguntou na língua mãe deles, assim que Corinne passou pela porta do quarto.

Ele estava esperando acordado, encostado nas almofadas da cama, um livro de culinária antigo em mãos e o dorso nu, onde várias cicatrizes estavam visíveis.

— Não sei ainda... — Ela respondeu, tirando seus sapatos e arrancando o casaco, revelando que não havia trocado a camiseta velha com a qual dormia para ir a reunião. — Parece que o garoto da Hydra recuperou a consciência.

— Que bom. — Pierre comentou, pousando o livro no colo.

Aquela sim era uma reação apropriada, Corinne sabia disso. De uma forma ou de outra o Soldado Invernal tinha passado por um inferno similar, deviam estar felizes por ele, a desconfiança era injusta, mas a francesa era incapaz de evitar.

— Roxanne quer tê-lo como aliado. — Tirou as calças as jogando de canto enquanto falava, torcendo para que Pierre visse o problema daquilo.

— Isso te surpreende? — A resposta dele tinha um quê de divertimento.

De novo aquela era a reação apropriada. Corinne sentiu um pouco de raiva de si mesma. De fato, não era surpreendente que Roxanne quisesse uma vítima da Hydra ao seu lado, era parte do modus operante da Donna transformar oprimidos em justiceiros.

— Me preocupa. — Ela confidenciou, se arrastando para a cama.

— Acha que ele não é confiável. — Pierre pareceu preocupado pela primeira vez.

— Eu não sei... — Corinne deu um beijo rápido no marido, para cumprimentá-lo. — E é esse o problema. Quando saímos daquele lugar eu não me importaria de me aliar com qualquer um, mas agora...

Ele sorriu para ela, como se compreendesse tudo.

— Agora temos algo a perder. — Completou certeiro, puxando as cobertas para que ela se deitasse.

— Tudo parece um risco maior agora. — A francesa confidenciou, enquanto Pierre se deitava também.

O livro foi deixado no móvel ao lado da cama, mas o abajur permaneceu aceso.

— Fico pensando se vingança e justiça ainda valem tanto, quando temos algo tão precioso para perder... — Corinne soprou como se fosse um segredo, enquanto se aconchegava nos braços do marido.

Quando deixou aquele laboratório sua sede de vingança era visceral, teria matado todos em seu caminho, mesmo que isso custasse sua própria vida. Mas agora sentia que existia algo mais importante que vencer inimigos que sequer se importavam com sua existência.

Entendia que precisavam continuar, afinal Roxanne estava lutando pelo irmão. Mas no fundo era como se o ódio que Corinne sentia da Hydra não fosse mais tão forte, não tanto quanto o amor que passou a nutrir por tudo aquilo que conquistou.

E se sentia mal em pensar assim algumas vezes.

— Você quer sair? — Pierre perguntou, não havia acusação em sua voz, era apenas uma dúvida honesta.

— Eu nunca deixaria a Roxie — Corinne respondeu antes de pensar. — Seria... ingratidão.

Não sabia se aquela era a palavra certa, mas foi a que melhor se encaixou no momento.

Talvez tivesse anseios de desistir daquela vingança, mas nunca deixando Roxanne para trás, e a italiana nunca desistiria do irmão, mesmo sem saber se ele ainda estava vivo, então...

— Ela deixaria você sair, sabe disso, não sabe? — Pierre comentou neutro.

— Eu sei. — Corinne respondeu com convicção.

Roxanne nunca obrigaria ninguém a lutar por ela, nunca arrastaria ninguém para aquela vingança, Corinne poderia sair a qualquer momento, Pierre era a prova disso.

— Acha que estou sendo leal a pessoa errada? — A francesa questionou e ouviu o marido rir, como se fosse a pergunta mais tola de todas.

Corinne levantou um pouco a cabeça para que seus olhos encontrassem os de Pierre.

— Se ela te pedisse para lutar por ela, você lutaria? — Perguntou, sabendo muito bem o quanto era importante para o marido se manter longe daquilo que a Hydra tinha feito dele.

— Sem pensar duas vezes. — Pierre respondeu de imediato. — Mas não é uma questão de lealdade, ma cherrie.

— E qual a questão então?

— Você não vê, não é? — Ele sorriu, como quem sabe de tudo no mundo. — O fato de você não cogitar ir embora não tem a ver com gratidão ou lealdade. Não somos como a maior parte dos italianos que seguem a Roxanne, não fazemos isso porque ela é a Donna.

— E fazemos por que então? — Corinne questionou de sobrancelhas franzidas.

Embora soubesse que eram diferentes dos outros, nunca entendeu exatamente o motivo, sempre pensou que fosse a gratidão que nutriam por Roxanne, mas pelo visto Pierre tinha outro ponto de vista.

— Ora, porque ela é a família que escolhemos e que nos escolheu de volta. — Ele respondeu calmamente. — E é por isso que ela nos deixaria ir se quiséssemos, por isso ela respeita quem somos e nos protege, por isso ela não me pede para lutar. É esse tipo de coisa que a família faz.

Corinne sentiu seu coração apertar, talvez fosse exatamente isso, não apenas lealdade, aqueles cinco anos haviam feito um vínculo inquebrável entre eles, algo que nunca precisou ser dito, mas com certeza estava lá. Ter colocado em palavras foi um certo alivio, mas também deixou o coração da francesa ainda mais apertado.

— Eu tenho um pressentimento ruim quanto a Bucky Barnes... — Ela confidenciou, abraçada a Pierre como quem se agarra a seu porto-seguro. — Acha que eu estou errada?

— Quer que eu seja honesto? — Sentiu quando ele sorriu contra seus cabelos.

— Sempre.

— Eu acho que você está com medo. — Ele soou acolhedor. — Você passou a vida toda querendo uma família, e você tem agora. Não apenas eu e a nossa garotinha. Você sabe que Roxanne faz parte disso, você sabe no seu coração, e sendo ela família, se ela cair, cairemos com ela. Sendo assim, Barnes é um risco para a segurança daqueles que você ama, é normal desconfiar dele...

Corinne se aconchegou mais nos braços do homem que amava, era tão estranho que Pierre sempre parecesse saber o que dizer, que ele a conhecesse tão bem e visse o mundo de forma tão leve, mesmo tendo passado pelo próprio inferno. Era reconfortante de certa forma.

Era tudo mais claro quando ele explicava, porque Corinne sempre foi essa grande confusão de pensamentos e sentimentos indecifráveis e Pierre era seu dicionário particular, ele a interpretava como ninguém mais e tudo parecia simples e claro quando a voz dele explicava.

Corinne respirou fundo, talvez fosse isso mesmo, seu pressentimento ruim era apenas um reflexo de seu medo. Era apenas superproteção.

— Eu podia matar o americano no meio da noite e fingir que foi acidente... — Sussurrou, já de olhos fechados.

Pierre riu de forma divertida, apertando-a um pouco mais contra si.

— Eu te amo, ma cherrie. — Beijou o topo da cabeça dela. — Vai ficar tudo bem. Esqueça o americano. Roxanne pode lidar com ele.

Ela sorriu, segura, feliz, acolhida e confortável em sua cama, nos braços do homem que amava.

Pierre devia estar certo, tudo ficaria bem, o que de tão terrível assim Bucky Barnes poderia fazer afinal?

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Os dedos de vibranium corriam pelos livros categorizados por autor nas estantes do escritório de Roxanne Domenichelli. Era a primeira vez desde que havia chegado ali na Sicília que ele podia mexer no que quisesse sem que isso levantasse suspeitas.

Isso o manteve entretido por alguns instantes naquela madrugada, quando a Donna ao invés de ir embora como Corinne e Niccolo tinham feito, pediu alguns minutos para deixar as notas do dia seguinte preparadas, assim poderia voltar para a vinícola apenas mais tarde no outro dia. Ou melhor, dali a algumas horas.

Os olhos gélidos correram pelos exemplares nas estantes, alguns livros ali tinham edições em italiano e em inglês, principalmente os de medicina.

Bucky puxou a “Arte da Guerra” em sua versão norte-americana da prateleira e foleou as páginas sem grande interesse.

“Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar.” Era o que dizia a frase na qual suas íris focaram primeiro.

Apropriado. Barnes sorriu para a ironia daquilo, afinal havia feito um tipo de acordo com a líder da máfia italiana e agora teria que esperar pelo momento oportuno de seguir com a missão dada pelo Alto Conselho.

“Paciência” era a palavra-chave ali, Pelo menos não estava mais preso em seu disfarce. E embora ele não tivesse tanta certeza se isso era mesmo algo bom, fazer essa analise não adiantaria de nada.

O que estava feito, estava feito. Tinha que adaptar a Operação dali em diante...

Focou seus olhos em Roxanne, ela estava concentrada em seu trabalho, lendo e assinando documentos com atenção, nada preocupada com a presença de Bucky.

Pensou que ao deixar o disfarce de Soldado Invernal também pararia de ser ignorado pela Donna, porém era como se absolutamente nada houvesse mudado. E ele odiava isso.

A diferença é que agora podia fazer algo a respeito.

— Você nunca para de trabalhar? — Perguntou em voz alta, atraindo o olhar de obsidiana em sua direção.

Roxanne o encarou por alguns instantes, como se estivesse buscando a razão daquela pergunta.

— Ah, desculpe, você deve estar com sono, certo? — Ela respondeu, fazendo a suposição errada. — Nós já vamos embora.

Barnes odiou o tom condescendente e quase maternal que a italiana usou. Ele não era uma criança e definitivamente não era o irmão dela para ser tratado daquela forma.

— Não estou. — Respondeu, pousando seu livro sobre a mesa dela e apoiando as duas mãos ali, curvando um pouco o corpo para que Roxanne não tivesse outra opção a não ser erguer seu rosto para que os olhares deles se encontrassem. — Garanto que tenho energia o bastante pra ficar acordado a madrugada inteira...

Deixou que o silêncio os evolvesse, terminando a frase com um sorriso de canto que tinha o toque exato de malícia que a frase pedia. Pois é, podia fazer algumas décadas, mas ainda sabia muito bem como flertar com alguém.

Roxanne estreitou o olhar sutilmente, é claro que ela entendeu, era impossível que não tivesse, sorriu então as covinhas surgindo em suas bochechas, embora aquele parecesse o tipo errado de sorriso para a situação.

— Ótimo, então tomarei a liberdade de ficar e adiantar meu dia. — Ela disse de forma prática, desconsiderando propositalmente o duplo sentido da frase e voltando a focar nos papeis sobre sua mesa. — Pode ficar à vontade.

Barnes revirou os olhos enquanto travava o maxilar, não queria admitir, mas era irritante ser ignorado daquela forma. As garotas costumavam corar com seus flertes, porra, até alguns caras coravam as vezes.

Podia culpar as décadas no gelo, talvez estivesse enferrujado...

Puxou a cadeira em frente a escrivaninha, fazendo barulho de propósito, enquanto pensava porquê lhe irritava tanto ser ignorado por Roxanne Domenichelli. Provavelmente devia estar mais preocupado com várias outras coisas, mas naquele exato instante não havia muito o que fazer sobre a Operação Roleta Russa.

Então vai ver fosse só o tédio falando mais alto de novo...

Se sentou, o livro em mãos novamente, o calcanhar esquerdo apoiando sobre o joelho direito enquanto ele se ajeitava na cadeira. Além disso, flertar nunca matou ninguém, flertava no meio da guerra, fazer isso ali na Sicília pra matar o tempo não era grande coisa.

Era só distração inocente, nada mais.

Focou seus olhos em Roxanne, ela tinha uma caneta entre os lábios fartos, os cabelos escuros caindo levemente ondulados por seus ombros, a postura de uma líder nata, a coluna alinhada, tornando seu busto evidente por baixo da camisa social que ela usava... Seguiu a linha dos botões, dois deles abertos revelando pouco do decote, como se deixassem uma promessa no ar. O polegar de vibranium deslizava pelo lábio inferior dele de forma distraída, sua mente viajando livremente por infinitas possibilidades...

Certo, “inocente” não era a palavra adequada, mas ainda assim era só distração.

As íris negras focaram nele naquele momento, quase como se Bucky tivesse olhado por tempo demais e isso despertasse um tipo de sexto sentido em Roxanne, mas ele não se importou, sustentou o olhar abissal dela sem piscar, o azul gélido mais quente do que nunca, ele sequer tentou disfarçar o tipo de interesse que ela lhe despertava.

Caramba, Roxanne ficava muito bem atrás daquela mesa. Mas talvez ficasse ainda melhor em cima dela...

E talvez um dia dissesse isso em voz alta, apenas para tirar a prova se a italianinha continuaria impassível diante daquele tipo de insinuação.

— Posso fazer uma pergunta? — Ele resolveu focar em algo mais relevante para a missão, uma questão que havia rondado sua mente, enquanto ficou esperando dentro da sala secreta lá embaixo, durante a reunião da Donna com seu trio de confiança.

— Sim. — Ela pareceu satisfeita em responder.

— Como sabia que era eu no seu escritório e não o Soldado Invernal espionando para o Strovalenko? — Perguntou, querendo entender porque a primeira reação de Roxanne foi aquela.

— Eu não sabia. — Ela revelou com um encolher de ombros quase descontraído. — Só desconfiei que o Soldado Invernal nunca ficaria andando por minha casa seminu, mas no fim apenas... como vocês americanos dizem mesmo? “Joguei um verde para colher maduro.” — Ela sorriu casual. — Além disso, eu gosto de entradas impactantes.

Fez bem ao ego masculino saber que, de uma forma ou de outra, ter se deparado com ele sem camisa naquele escritório havia marcado Roxanne.

— Foi uma entrada bem impactante, pode ter certeza disso. — Barnes não resistiu a deixar o duplo sentido dominar aquela frase.

Aquela camisola branca ficaria em sua mente por um bom tempo... Uma das melhores coisas que existiriam em sua cabeça dali em diante.

— E sempre fui otimista sobre sua capacidade de se libertar do controle da Hydra. — A italiana respondeu, ignorando o flerte descarado dele uma vez mais.

— Quem diria... Otimismo não é algo que eu esperaria encontrar na rainha da máfia. — Focou os olhos azuis na figura feminina como se pretendesse se afogar em sua beleza. — Você é um enigma e tanto Roxanne Domenichelli...

Bucky teve a impressão de ter visto o esboço de um sorriso curvar os lábios da Donna, mas não conseguiu ter certeza, já que ela abaixou a cabeça e focou em seu trabalho novamente.

Levou alguns minutos para que a voz melodiosa dela preenchesse o silêncio com uma pergunta:

— Viktor tinha ordenado que me espionasse?

— Sim. — Ele respondeu simples.

— Me espionasse e protegesse? — Ela quis confirmar.

— Exatamente. — Mentiu, afinal a parte do proteger não era de todo verdade.

Porém não podia revelar isso, Roxanne acreditava que ele foi o Soldado Invernal por todos aqueles dias. Isso tinha que permanecer assim pelo bem da missão.

— E a coisa de você não falar italiano era mentira? — A próxima pergunta o pegou de surpresa.

Teve que pensar depressa para responder com a mesma casualidade que havia respondido as outras questões.

— Não. Eu realmente não falo italiano. — Continuou a mentir, pois julgou aquele um bom trunfo para manter consigo.

Tinha feito um acordo com a Donna, e achava que ela estava falando a verdade sobre seus objetivos e motivações, no entanto precisava se precaver e ter cartas na manga caso necessário.

— Mas sabe o que dizem, a melhor forma de aprender uma nova língua é através de alguém nativo nesse idioma. — Ele sorriu em um misto de brincadeira e insinuação.

Seu flerte tinha um propósito daquela vez, como um truque de mágica que acontece atraindo a atenção da pessoa para longe do principal. Só estava tentando deixar suas mentiras mais ocultas.

Roxanne riu, mas havia um quê de ironia ou deboche naquele som.

— Niccolo ficará feliz de te ajudar com isso, se quiser, tenho certeza. — Ela alfinetou, dizendo as palavras com casualidade ensaiada.

Ela entendia todos os flertes, e estava apenas dispensando todos eles de propósito. Mas Bucky sempre gostou de um bom desafio.

— Ou você podia me ensinar. Eu aprendo bem rápido. — Seu tom era quente, uma sobrancelha se erguendo de forma sugestiva. — A menos que tenha outra coisa em mente para todo o tempo que passaremos juntos daqui pra frente.

Roxanne o encarou com uma frieza venenosa e afiada.

— Eu tenho em mente planejar a queda de um déspota nazista e resgatar o meu irmão. — Ela rebateu em seu tom profissional. — Mas tenho certeza que você é capaz de fazer muitas coisas sozinho nesse tempo... — Sorriu inocente, mas seus olhos e seu tom deram às palavras um significado malicioso que Barnes entendeu muito bem. — Tem um dicionário de italiano ali na última prateleira.

Terminou a frase apontando para o local, agindo como se jamais tivesse insinuado nada nas entrelinhas.

Barnes pensou em retrucar que aquele dia em particular havia dado a ele algumas imagens muito interessantes para manter em mente quando estivesse fazendo “muitas coisas sozinho”, mas preferiu engolir suas palavras. O segredo de um bom flerte era manter um limite, não era o momento de insinuar coisas tão explícitas...

Quando o silêncio voltou a reinar no escritório da vinícola, Barnes começou a cogitar como seria dali para frente, que tipo de dinâmica teria com Roxanne agora que eles podiam conversar e que não existia o Soldado Invernal entre eles.

Eles passariam de fato muito tempo juntos.

— Quem é Andrey? — Perguntou de repente, porque tinha algumas desconfianças e ficou curioso para saber qual era a dinâmica da Donna com o homem que provavelmente era seu antigo guarda-costas.

O olhar escuro focou no rosto masculino de forma confusa e desconfiada. Bucky se deu conta que o nome de Andrey tinha sido citado apenas em italiano dentro de conversas privadas de Roxanne com Francesco. Aquelas que o Soldado ouviu clandestinamente.

— Strovalenko citou esse nome. — Encolheu os ombros como se fosse nada demais, escondendo a verdade por trás de uma mentira convincente. — Era o motivo para eu ter que ficar de olho em você.

— Andrey era um dos homens dele, que foi designado para me espionar. — Ela comentou simples, pareceu comprar a explicação de Barnes. — Eu o converti para um agente duplo.

— Converteu? — Ele estreitou os olhos em desconfiança. Uma hipótese surgindo em sua mente. — Vocês tiveram um caso?

Aquelas palavras tiveram um gosto estranho na ponta da sua língua, Bucky não conseguiu explicar para si mesmo porque se sentiu desconfortável com a possibilidade. Era quase como se aquilo lhe ofendesse pessoalmente.

— Não é do meu interesse ter casos com os homens que Strovalenko manda para me espionar. — Roxanne riu irônica e havia essa indireta implícita em seu tom. — Existem outras formas de fazer uma pessoa trabalhar a favor de meus propósitos que não impliquem em sedução. Eu não te seduzi e aqui está você, certo?

Foi Bucky quem riu dessa vez.

— É diferente. — Ele disse apenas, mantendo o verdadeiro significado daquilo como uma piada interna para si mesmo.

Estava naquela situação por causa de uma missão, verdade, mas existia uma atração inegável ali, Roxanne podia não estar tentando seduzí-lo, mas o perfume dela e seu corpo tentador faziam um trabalho voluntário muito eficiente...

— Subalternos geralmente tem um preço. Andrey tinha o dele. — Ela seguiu explicando, alheia aos pensamentos nada puritanos de Barnes.

— E agora ele está morto. — Ele resumiu, sem saber muito bem o que pensar sobre isso.

— Andrey tentou agir por conta própria. Pretendia me trair para obter mais lucro. — A Donna revelou fria e impassível. — Então eu fiz com que Viktor descobrisse tudo.

Bucky notou que Strovalenko foi induzido a matar um de seus próprios homens e sequer desconfiava disso.

— Acho que é uma boa hora para dizer que não é uma ideia inteligente pensar em me trair. — Roxann advertiu com a naturalidade de quem fala do tempo.

Um arrepio desconfortável correu o corpo do ex-Sargento, afinal “traição” era um termo apropriado para definir o que ele faria ao finalizar a Operação Roleta Russa.

— Isso é uma ameaça? — Perguntou, fingindo que aquilo não havia lhe afetado.

Roxanne sorriu, levantando-se com uma prancheta de notas nas mãos.

— É um aviso, James. — Ela caminhou para a saída do escritório. — Nunca ouviu dizer que “quem avisa amigo é”?

Ele se levantou também, seguindo a italianinha para um dos depósitos adjacentes ao galpão principal. Notou que estava clareando, mas isso não o incomodou realmente.

— Então quer dizer que somos amigos? — Parou na entrada do lugar, enquanto Roxanne checava o código em alguns barris usando a lanterna de seu celular.

Já tinha ouvido dizer que vinhos tinham que ser armazenados em local escuro, mas nunca pensou que fosse tão literal.

— Na verdade, foi só força de expressão. — Roxanne explicou, continuando a conferir os barris. — Acho que “aliados de ocasião” é um termo mais assertivo para denominar a natureza da nossa interação.

— Isso soa muito como “não confio em você o bastante”. Sabia? — Bucky rebateu, sem entender porque aquilo lhe deixou um tanto irritadiço.

— E você confia em mim por acaso? — Os olhos escuros seguiram na direção dele, o tom feminino um misto de perspicácia e divertimento.

— Eu estou aqui, não estou? — Ele moveu os ombros casualmente. — Acho que isso vale um voto de confiança, não é?

Roxanne sorriu de forma calma.

— Bom, você está aqui, não está? — Ela devolveu com as mesmas palavras. — Se eu não estivesse disposta a te dar um voto de confiança você já estaria morto agora, ou então nas mãos do Viktor.

Barnes entendia que precisava daquilo para o bem da missão, porém se sentiu estranho, sabia que cedo ou tarte trairia aquela confiança e faria uma inimiga para a vida toda...

A Donna já havia dito que não era uma pessoa misericordiosa. A situação com Andrey apenas reforçou isso.

Tentou abster desse pensamento, visualizar o futuro de tudo aquilo só tornaria mais difícil executar a missão no presente. Tinha que ir vivendo um dia de cada vez e esperando as oportunidades, pensar demais nas implicações da Operação Roleta Russa não ajudaria em nada.

Roxanne já havia se afastado para o fundo do depósito, puxando um barril para verificar a data marcada dele e mudá-lo de lugar. Mas aquela coisa era grande e armazenava pelo menos uns duzentos litros de vinho, então obviamente não era algo leve.

Bucky adentrou o depósito, atravessando na frente da Donna e agarrando o barril com a mão de vibranium, movendo a peça sem qualquer dificuldade. O olhar feminino o mediu de cima abaixo de um jeito indecifrável, impossível dizer se ela estava brava, surpresa ou impressionada.

— É ali? — Ele apontou para o canto oposto e ela assentiu lentamente, acompanhando enquanto ele deslocava o barril como quem transporta uma única garrafa de vinho.

Barnes sabia que não devia se sentir tão quente fazendo algo tão banal, mas ser o foco total da italianinha fazia o ego dele soltar fogos de artificio como se fosse quatro de julho.

— Eu não pedi ajuda. — Ela soprou sem tirar os olhos dele.

— Não pediu, mas por sorte eu não sou mais o Soldado Invernal e não preciso de ordens, posso simplesmente fazer o que eu quiser. — Ele respondeu, pegando o segundo barril e o movendo para perto do anterior.

Eles trabalharam em conjunto pela próxima hora, Roxanne até falou sobre coisas técnicas da produção e explicou que o vinho tinha que ficar “aprimorando” antes de ser comercializado. Bucky não diria em voz alta, mas se sentiu mais útil fazendo aquele serviço braçal extremamente simplório do que havia se sentido desde que a Operação Roleta Russa começou.

— Coloca esse último aqui, por favor. — A Donna pediu, apontando o lugar adequado e Barnes quis não ter gostado tanto de receber aquela ordem.

A era das tarefinhas bobas de criança finalmente havia chegado ao fim.

Enquanto Roxanne começou a recontar os barris para ver se havia checado todos mesmo, Bucky parou quase ao lado dela, foi mais ou menos nesse instante, com o Sol quase despontando no horizonte que um vulto preto e rápido passou pelas portas do depósito e cortou o ar, em um voo quase rasante.

A italianinha soltou um gritinho com o susto, pulando para o lado de Barnes quando o bicho passou bem perto da cabeça dela. Os olhos azuis reconheceram a silhueta de um morcego, um animal comum para ter em uma região como aquela, ainda mais com o fim da madrugada. O bichinho só devia estar procurando um lugar escuro para dormir depois de ter se empanturrado com uma porção de uvas roubadas, no entanto a reação de Roxanne acabou assustando o pobrezinho e ele saiu pela porta com a mesma velocidade que havia entrado.

— Era só um morcego, já foi. — Bucky riu daquele exagero todo e só quando abaixou o olhar para o rosto da italiana foi que ele se deu conta da forma como os dois estavam...

Por reflexo, ele havia segurado o corpo feminino quando a morena se assustou, as mãos delicadas se encontravam apoiadas no peitoral masculino e as dele pararam na base das costas dela.

— Não me diga que a poderosa rainha da máfia tem medo de morcegos? — Sorriu em um misto de ironia e algo mais, se afogando no perfume de mulher bonita sem pressa alguma de soltar Roxanne.

— São ratos voadores. — Ela retrucou irritadiça, seus olhos ainda focados na porta por onde o animal havia fugido.

— Ah, desculpe, deixa eu reformular então: não me diga que a poderosa rainha da máfia tem medo de ratos? — Barnes rebateu, puxando o corpo curvilíneo para mais perto do seu, suas duas mãos rodeando a cintura feminina, antes que ele soprasse bem perto do ouvido da Donna. — Não se preocupa, eu te protejo.

Foi naquele exato instante que o olhar abissal focou nas íris gélidas, Roxanne franziu as sobrancelhas minimamente, algo sutil, mas que indicava que ela estava tentando entender como os dois tinham acabado ali tão perto um do outro...

Bucky não sorriu, apenas deixou que a Donna absorvesse aquela proximidade, o ar se tornando mais pesado, os dedos masculinos formigando sobre o tecido das roupas femininas, eletricidade estática fluindo entre eles.

No entanto, apesar da intensidade daquele momento, ele não durou muito mais que cinco segundos, assim que o olhar de Barnes desceu para os lábios fartos da morena a sua frente, ela reagiu.

— Não preciso da sua proteção. — Havia um quê de irritação na voz dela, o contato foi totalmente rompido, cinco passos entre eles agora.

— Não foi o que pareceu quando você pulou nos meus braços, Italianinha. — Bucky respondeu divertido, encolhendo os ombros casualmente.

Roxanne soltou uma risada forçada, estreitando o olhar na direção dele como se pudesse esfaqueá-lo caso tivesse uma lâmina em mãos.

— Pra um velho de cem anos você é bem engraçadinho, senhor Barnes. — Ela debochou ironicamente. — E é Roxanne. Ou Donna.

Deu meia volta, seguindo para a saída do depósito como se estivesse dando aquela conversa por encerrada.

— Eu não sou um dos seus homens pra te chamar de Donna. — Claro que Bucky não a deixaria sair dali com a última palavra.

Roxanne o encarou por cima dos ombros, seus olhos escuros medindo o corpo masculino de cima abaixo de forma indecifrável e sem pressa alguma.

— É, tem razão. — Ela admitiu focando nas íris gélidas, sua voz um misto de cinismo e veneno. — Você não é um dos meus homens.

Sorriu para ele de forma amigável, mas a frase tinha um quê de ofensa que mordeu o ego de Barnes como uma pulguinha incômoda. Ele travou o maxilar, tentando não se afetar pela provocação clara.

Nem queria ser um dos homens dela mesmo... Disse para si mesmo, enquanto fazia uma careta de desdém.

Acabou deixando o depósito um pouco depois também. Com o dia começando a clarear a vinícola iniciava sua movimentação e quando ele alcançou Roxanne no escritório ela já estava ordenando a uma das Mamas que convocasse uma reunião para dali há alguns minutos.

— Vai contar para elas sobre mim? — Ele perguntou, fechando a porta logo depois que a mulher deixou o cômodo.

— Vou. Mas não se preocupe, elas são de extrema confiança. — Roxanne respondeu prática. — E assim pelo menos aqui na vinícola você não precisa se preocupar em manter um disfarce.

Barnes não sabia se teria escolhido assim, mas tinha convicção que a Donna não colocaria o plano todo em risco confiando nas pessoas erradas. Tudo aquilo era pessoal para ela afinal.

— Tem alguém nos Estados Unidos que você precisa contactar? Amigos, família, namorada ou namorado? — A italiana questionou e o olhar dos dois se encontrou no meio do escritório.

Ele sentiu que era algo importante, ou talvez fosse uma armadilha... Seria ótimo poder falar com Sam e passar uma atualização do estado da missão, mas era arriscado demais cometer qualquer deslize.

— Isso é você querendo saber se sou comprometido? — Riu de canto, preferindo a segurança de um flerte subentendido do que a verdade. — Não tenho ninguém, totalmente solteiro e desimpedido.

Roxanne revirou os olhos, como se a pretensão de Bucky fosse irritante.

— Eu estava querendo saber se existe alguém que pode se tornar um problema a longo prazo, seja porque vai te procurar, ou porque vai se preocupar com o seu sumiço. — Ela rebateu como se fosse óbvio. — Mas que bom pra você toda essa liberdade, porque eu sou comprometida.

Ergueu a mão esquerda mostrando o anel de noivado em seu dedo, era uma peça obviamente cara, mas Bucky não ficou impressionado.

— O seu noivado não é de verdade, é só parte de um plano. — Rebateu com uma careta de desdém. — Não é como se você tivesse qualquer vínculo romântico com aquele homem. Você nem gosta dele. Ou gosta?

Certo, talvez tenha sido muito enfático ao dizer aquilo, mas o tal noivado de merda o incomodava de formas estranhas. E mesmo que agora já soubesse o motivo do relacionamento existir, isso não tornou mais fácil aceitar. Era como ouvir que a grama é azul e não poder retrucar com a verdade.

— Você está certo, eu com certeza não suporto o Viktor e meu noivado pode até não ser verdadeiro, mas o meu comprometimento com essa missão é. — Roxanne respondeu calmamente, se levantando depois de observar as horas. — Então, de um jeito ou de outro, a palavra “comprometida” se aplica.

— E o que isso significa? — Ele questionou, enquanto a morena passava bem ao seu lado.

Ela parou, os olhos escuros focando nos dele e um sorriso compassivo em seus lábios fartos.

— Significa que você devia parar de perder seu templo flertando comigo, James. — Disse como quem dá um conselho valioso.

Ele ainda estava buscando as palavras certas para responder quando Roxanne voltou a caminhar em direção a porta.

— Agora, se me der licença, eu tenho uma reunião com as Mamas e você não precisa mais ficar colado em mim, pelo menos quando estivermos por aqui, então... Fiquei à vontade com dicionário de italiano até eu voltar.

Ela saiu, deixando Barnes sozinho em um escritório pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas. Aquela merda não podia se tornar rotina.

E sim, Barnes sabia que talvez devesse mesmo parar de flertar com a noiva de outro homem, — mesmo que o homem em questão fosse um nazista de merda, — afinal toda a situação ali já era bem complicada...

Mas foda-se. Ele encolheu os ombros. Meia dúzia de flertes não mudariam a Operação Roleta Russa em nada.

E podia até ser seu ego falando mais alto, porém, roubar a atenção de Roxanne para si parecia quase uma questão de honra agora...

Notas finais
Bucky Barnes em: Já que eu tenho que esperar, vou esperar flertando kkkkkk eu adoro esse lado dele, nem vou mentir. Eu acho que a visão da Corinne é essencial pra gente entender um pouco mais a Roxanne e o peso de tudo que ela tá fazendo. Além disso ficou bem claro que o Bucky não é uma exceção na forma como ela trata as pessoas, e é claro que a gente sabe que a Corinne tá certa em desconfiar (infelizmente). Vamos ver onde tudo isso vai dar lá na frente. Enquanto isso a gente faz igual o Bucky e se diverte com os flertes kkkkkkkk O próximo se chama "Roxanne" acho que é hora de conhecermos ela através da própria perspectiva (e vermos se o Bucky tá mesmo tão longe assim de conseguir colocar um chifre no Strogonoff). Beijos e até!