Operação Roleta Russa
28 Armadilha

Bucky Barnes achou que estava acostumado a fugir, afinal, depois que a Hydra caiu pelas mãos de Steve Rogers, tudo que restou para o Soldado Invernal foi viver nas sombras, tentando recuperar sua memória e não ser pego.
No entanto, aqueles últimos trinta dias tinham provado a Bucky que nada mais era como antes. Ele percebeu que naquela época talvez sequer estivesse sendo caçado de verdade, mas agora estava.
Foram trinta dias infernais, pulando de país em país, cortando por cidades dos mais variados tipos, enquanto era perseguido como um animal selvagem na temporada de caça.
O maior problema, era que ele tinha feito inimigos poderosos naquela maldita Operação Roleta Russa, não era apenas Strovalenko e a Nova Hydra, Valentina também havia colocado a CIA atrás dele, além de cobrar favores de Governos estrangeiros. Bucky estava na lista dos mais procurados do mundo, seu rosto estava em jornais, noticiários e internet.
Porém, a pior parte de todo esse caos generalizado, era o fato de que Sam Wilson também estava pagando por erros que não eram dele. O Capitão América tinha sido interrogado pelo menos três vezes naqueles trinta dias, estava sendo monitorado pela CIA e vigiado pela Hydra. A ameaça eminente o havia forçado a esconder a própria família em um lugar mais seguro.
Na ocasião do interrogatório, Valentina teve a ousadia de revelar que foi ela quem passou todas as informações da Operação Roleta Russa diretamente para Strovalenko. Foi assim que Bucky soube que seu mundo perfeito havia desabado por causa daquele maldito nazista, ele tinha contado tudo para Roxanne.
Depois disso, ficou bem claro que falar frequentemente com Sam estava fora de cogitação. Barnes entrava em contato com seu único amigo o mínimo possível, através de telefones descartáveis, mas isso não fazia diferença. Enquanto o Soldado Invernal estivesse vivo o Capitão América seria um alvo também.
Era o pior que podia acontecer, às vezes Barnes apenas pensava em se entregar para acabar com o tormento de Sam.
Porque a verdade era que, mesmo sendo um supersoldado, estava exausto. Mas não era um cansaço físico que se resolveria com algumas horas de sono, era uma exaustão mental profunda que o estava consumindo dia após dia sem descanso.
Desistir soava tão fácil e atrativo, seria melhor para o único amigo que ainda tinha. Mas Bucky Barnes havia se tornado apenas um homem egoísta e masoquista, suportando todo o caos, exaustão e dor excruciante por causa dela.
A italianinha que assombrava seus pesadelos e sonhos, a pessoa responsável por toda a agonia que o devorava por dentro e por cada um dos muitos litros de álcool que ele havia bebido naqueles trinta dias. A sua ruína mais doce, seu desejo mais irresponsável. Ainda era tudo por Roxanne Domenichelli.
Bucky não podia se entregar, tinha que esperar por ela. Estava vivendo por causa da simples esperança de um encontro com a mulher que havia jurado matá-lo.
Ele teria rido da ironia disso, mas não tinha forças pra expressar qualquer gesto feliz, talvez nem se lembrasse de como usar os músculos do rosto para dar um simples sorriso.
Subiu as escadas do prédio que ocupava, havia aprendido a como ser invisível e sabia que naquelas cidadezinhas mais pobres da Romênia ninguém fazia muitas perguntas. Havia passado três dias em Bucareste e então seguiu viagem, agora estava em Constança, talvez conseguisse ficar ali por uma semana, se desse sorte.
Destrancou a porta e averiguou o local, antes de colocar a sacola com as garrafas de vodca sobre a pia entulhada de lixo e garrafas vazias. O apartamento era pequeno e todo mal acabado, provavelmente estava condenado, mas Bucky não se importava realmente.
Ele deu uma olhada pelas janelas cobertas com papelão e se certificou que não havia nada suspeito na rua, então abriu uma das vodcas, era final de tarde, mas a primeira garrafa acabou antes mesmo do anoitecer.
Bucky havia descoberto que tomar aquela Vodca Balkan pura em grandes quantidades e rapidamente dava a ele a oportunidade de ficar bêbado por alguns poucos minutos. Era o que vinha fazendo com cada vez mais frequência naqueles trinta dias.
Durava quase nada, por causa do supersoro, mas às vezes ele conseguia esquecer quem era e o que havia perdido, e esse pequeno átimo de alívio era como finalmente respirar depois de passar muito tempo se afogando.
Mas, no fim, não importava, porque, de um jeito ou de outro a dor e a saudade o surrariam de novo quando ele dormisse. Porque sempre sonhava com ela.
Na maior parte das vezes era assombrado pelo momento em que ela passou a odiá-lo, ou então pelo último olhar que haviam trocado. Nessas noites, Bucky acordava em prantos, o rosto todo molhado, os olhos inchados e a agonia travando sua garganta.
Em raras ocasiões sonhava com os melhores momentos, o pesadelo vinha quando ele acordava sozinho no chão de um lugar caindo aos pedaços, seu corpo ardendo de desejo, ansiando por uma italianinha na qual Bucky nunca mais poderia tocar.
De um jeito ou de outro as noites eram um inferno dominado pela saudade.
Daquela vez, no entanto, ele acordou assustado, o peito subindo e descendo freneticamente e a preocupação oprimindo seus pulmões. Tinha sonhado com o casamento de Roxanne e Strovalenko. O pior pesadelo de todos.
Se ao menos pudesse ter noticias dela...
Respirou fundo, seu corpo já sentado, usava uma calça de moletom, enquanto apenas as plaquetas de identificação do exército balançavam em seu peitoral. Sam fizera questão de devolver a peça na única ocasião em que os dois se encontraram naqueles trinta dias.
Bucky ficou ali encarando o nada, várias garrafas vazias jogadas ao redor de sua cama improvisada no chão. Com um suspiro pesado se levantou para ir no banheiro, lavou o rosto com a água fria e decidiu procurar a última vodca, que ele havia deixado pela metade.
Quando deu um passo para fora do pequeno cômodo, no entanto, ele sentiu algo diferente no ar. Soube que não estava sozinho e logo reconheceu a presença, sem sequer precisar olhar.
— Então vai ser você... — Declarou em um lamento, sabia que morreria pelas mãos de uma mulher da máfia, mas estava esperando outra pessoa.
— Olá, Bucky. — Corinne LaRue saudou ironicamente, sentada na pequena mesa da cozinha.
— Como me achou? — Ele perguntou, pegando sua camiseta e a enfiando pela cabeça antes de acender uma das luzes.
— "Achou" deixa a impressão de que te perdi de vista em algum ponto. Eu sempre soube onde você estava. — A francesa retrucou casualmente, enquanto seus olhos críticos analisavam aquele lugar deplorável. — Será que sobrou alguma coisa pra beber nesse muquifo que você chama de esconderijo?
— Um homem esperando pela morte não precisa de luxo. — Ele rebateu apenas, caçando um copo e servindo uma dose de vodca para Corinne.
Não podia acreditar que era ela ali, trinta dias de tortura para morrer sem sequer poder olhar para a mulher que amava uma última vez. Se soubesse disso, teria se entregado para a CIA bem mais cedo, pelo menos Sam e os Wilson teriam ficado mais seguros...
— Roxanne prometeu que ela mesmo me mataria. — Argumentou, colocando o copo ao lado da francesa.
— Estou sabendo. — Ela bebeu um gole. — A Donna me proibiu de fazer isso, antes de me mandar embora.
— Te mandar embora? — Bucky franziu as sobrancelhas para a informação inusitada.
— As coisas mudaram muito na Sicília por sua causa. — Corinne explicou e não parecia satisfeita. — Eu, Pierre e a nossa filha saímos da ilha por ordem da Donna. Com o Strovalenko procurando por você por toda a parte, não era seguro ficar por lá.
Barnes engoliu em seco, nunca pensou que suas atitudes causariam um efeito em cadeia tão grande.
— E onde vocês estão? — Questionou preocupado, mas a forma como LaRue o encarou deixou claro que ela não confiava nele o bastante para dizer. — Entendi...
Se conformou com isso, era a cova que ele mesmo havia cavado afinal. Porém, não deixava de ser triste, porque ele chegou a acreditar que se encaixava naquele grupo, que havia encontrado seu lugar no mundo entre aquela gente. E agora todos o odiavam.
— Mas não foi tão ruim, de uma forma ou de outra eu sempre quis saber como é ter uma vida normal. Então ganhar uma fortuna pra ser feliz com a minha família em qualquer lugar do mundo não é algo tão terrível assim. — Corinne continuou contando, mas seu tom não parecia tão conformado quanto suas palavras sugeriam. — Suponho que para o Frank seja pior.
— Ele não teve culpa de nada. — Bucky se apressou em dizer.
Nem chegou a cogitar que Frank pagaria por tudo aquilo também.
— Francesco Greco mentiu para a Donna, ele era um Consegliere e tramou pelas costas dela. Isso é pior do que o que você fez, afinal, você nunca foi da Máfia Italiana. — A resposta veio direta.
— O que aconteceu com ele?
— Ele foi expulso da organização para a qual dedicou toda sua vida. Renegado pela Donna que ele ama como uma filha. — Corinne parecia chateada enquanto narrava isso.
Ela encarou o nada por alguns instantes e Bucky focou nos próprios pés, se sentindo péssimo por saber que indiretamente fez mal a tanta gente.
— É engraçado pensar que foi justamente você quem conseguiu o que vários inimigos tentaram antes. — A francesa soltou com ironia. — Você destruiu os Três Grandes, Bucky Barnes.
— Eu não queria que nada disso acontecesse. — Ele garantiu com honestidade.
— O que torna tudo pior, não é? Sem querer você ferrou com todos os pilares da Roxanne. Fico imaginando o estrago que você faria se quisesse.
Os dois se encararam por alguns instantes com o ressentimento palpável pairando no ar.
— Eu sinto muito, de verdade. — Bucky declarou, mesmo sabendo que aquelas palavras não adiantariam de nada.
— Não acho que isso faz diferença. — LaRue encolheu os ombros. — Mas, se serve de consolo, eu até entendo você. Caiu nessa de missão porque queria foder a Hydra, era uma vingança boa demais pra deixar escapar. Só que daí veio a Roxanne... Era uma situação meio impossível. Se você tivesse contado no começo, ela nunca confiaria em você. E se tivesse contado no meio, ela te mataria. Só que, ao mesmo tempo, eu tenho que dizer que você é um temendo babaca.
Barnes também se achava um tremendo babaca, mas ficou surpreso por saber que era parcialmente compreendido.
Ainda assim, se Corinne estava ali... talvez ela tivesse decidido acabar com o problema que ele era, mesmo sem a permissão da Donna.
— O que está fazendo aqui? — Perguntou de uma vez, seu tom se tornando sarcástico e mordaz em seguida. — Não leve a mal, adorei a visita, mas sei que não apareceria por nada.
A francesa se colocou de pé, tirando de dentro da jaqueta uma pasta amarela e a jogando sobre a mesa.
— Eu vim te avisar que a Hydra vai pegar a tecnologia Stark que a CIA tirou do DCD. — Revelou, dando espaço para que Bucky se aproximasse.
Ele examinou os papeis, um compilado de informações sobre a missão. A CIA estaria transportando a tecnologia Stark em um trem de carga que cortaria o Canadá diretamente para o Alaska. Alguns pontos estavam marcados em vermelho no mapa.
— Eles vão interceptar o transporte. — Barnes deduziu rapidamente. Era o tipo de ataque que podia dar muito certo se bem planejado.
As montanhas geladas do Canadá dariam toda a cobertura necessária para uma incursão aérea. Com os homens certos, a Hydra sairia vitoriosa, com certeza.
— Werner está morto, por que Strovalenko ainda quer essa tecnologia? — Questionou com os olhos nas informações. — Achei que a prioridade dele era me caçar.
O silêncio fez um sinal de alerta ecoar na mente do soldado. Ele ergueu a cabeça e encontrou os olhos de Corinne, que estava despretensiosamente jogando algumas garrafas em um saco de lixo.
— Por que você está me contando isso? — Perguntou desconfiado, começando a sentir o peito bater bem mais rápido.
A francesa não respondeu, apenas fechou o saco de lixo e o deixou em um canto, se dirigindo para a porta.
— Mais uma coisa, Strovalenko já sabe de tudo. — Ela declarou em advertência.
— Tudo o que? — Bucky franziu as sobrancelhas. O que mais havia para aquele idiota saber?
— Que você estava comendo a noiva dele. — Corinne retrucou como se fosse a coisa mais óbvia de todas.
O corpo de Barnes gelou por inteiro. Ele engoliu em seco, mas tentou se acalmar, se LaRue estava dizendo aquilo de forma tão calma, Roxanne estava bem, o nazista de merda não tinha feito nada com a italianinha.
— Como ele descobriu? — Questionou preocupado.
— A Donna contou.
— O que? Por que? — Aquilo não fazia o menor sentido.
— Pra ser muito honesta... eu não sei. — Corinne encolheu os ombros. — Suponho que tenha a ver com o plano.
Barnes franziu as sobrancelhas em direção à mulher, mas ficou claro que ela não revelaria qual era o tal plano.
Ambos se encararam por algum tempo, havia algo não dito ali, era bem óbvio, quase como se Corinne tivesse compaixão por Bucky de alguma forma. No entanto, ele espantou esse pensamento, afinal sabia que não era digno desse sentimento.
— A Donna deu um tiro na própria barriga pra encobrir sua fuga. — A revelação fez os olhos azuis se alagarem de pavor.
Barnes baixou a cabeça, encarando os papeis sem de fato vê-los, enquanto processava essa informação. Roxanne tinha voltado a seu modus operante, tinha permitido que ele partisse porque possuía um plano muito maior, talvez estivesse tentando ganhar a confiança do maldito noivo, porque pensava que isso a colocaria um passo mais perto de Damian.
Ainda assim, por contar que sobre o caso? Algo estalou na mente de Bucky então.
— Ela fez essa caçada ser algo pessoal para o Strovalenko. — Declarou em voz alta, ainda sem entender plenamente todos os motivos da Donna.
Talvez ela tivesse contado apenas porque estava com raiva, porque queria que Bucky fosse caçado da pior forma possível. E não havia jeito melhor de motivar Viktor Strovalenko do que contando daquele chifre. Era sobre honra agora.
Ela realmente me odeia. Barnes se deu conta, algo amargo alagando seu paladar e seus olhos enchendo de lágrimas. Não havia mais esperança alguma para os dois.
A primeira lágrima pingou sobre o papel e, enquanto a imagem do trem ficava cada vez mais borrada, ele finalmente notou algo que estava na cara desde o começo...
— Foi ela que sugeriu tudo isso. Strovalenko vai roubar a tecnologia Stark porque ela pediu. — Enxugou o rosto e respirou fundo. — É uma armadilha pra mim. — Imediatamente seu coração começou a bater descontrolado. — Roxanne vai estar lá, não vai?
Ergueu a cabeça para buscar a verdade nos olhos de Corinne, no entanto, a francesa já tinha ido embora. Bucky estava sozinho outra vez.
Ele encarou os papéis sobre a mesa, a armadilha tão clara agora que não havia como não ver. Roxanne tinha tramado tudo aquilo, manipulando Strovalenko como uma mera marionete.
Usar a tecnologia Stark como isca era uma vingança bastante irônica, afinal Bucky havia traído a Máfia para salvar aquele mesmo aparato da primeira vez. A Donna era extremamente esperta.
E o trem sobre uma montanha de gelo? Poético.
Era um convite para a morte certa, a armadilha perfeita, Bucky sabia disso sem a menor sombra de dúvidas.
Então ele sorriu pela primeira vez em trinta dias. Pelo menos veria sua italianinha uma última vez.
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Não foi difícil entrar naquele trem, foi treinado a vida toda para se infiltrar em lugares sem ser notado. Se Barnes quisesse, e tivesse um veículo, poderia ter planejado extrair a tecnologia Stark e ir embora ao invés de ficar escondido ali, entre um vagão e outro, para não ser visto pelos agentes. Talvez fosse o certo inclusive. Mas se estivesse interessado em fazer o certo, teria avisado Sam Wilson sobre tudo aquilo.
Não avisou. Não estava disposto a arriscar a segurança e integridade do Capitão América em algo que era claramente uma armadilha.
Sabia que estava agindo como uma libélula estúpida, indo em direção a luz que o queimaria vivo, mas não se importava com isso. Desde que pudesse olhar nos olhos de Roxanne uma última vez, morrer seria um final piedoso para sua alma.
Só não podia arrastar Wilson junto.
Barnes sequer tinha um plano, foi improvisando no caminho, mas agora que já estava no trem, ele começou a pensar que devia ter bolado uma forma de salvar a tecnologia Stark, antes de encontrar seu derradeiro destino.
Talvez o certo fosse destruir todo o aparato para que não caísse em mãos erradas.
Tony odiaria algo assim, mas ele certamente odiaria muito mais que todo seu legado tecnológico caísse nas mãos justamente da organização que havia mandado matar os pais dele...
Sendo assim, Barnes decidiu o que tinha que fazer. Depois de analisar um pouco a situação, ele se deu conta que o melhor vagão para carregar aquele tipo de aparato seria o último. Sendo assim, subiu furtivamente no teto do trem para alcançar seu novo objetivo.
Sabia que não tinha muito tempo, logo a Hydra invadiria o transporte usando ofensiva aérea.
Acelerou o passo, caminhando abaixado para que o vento não o desequilibrasse. Honestamente achou que a equipe de segurança acabaria notando a presença dele, mas isso não aconteceu.
Barnes alcançou o último vagão, porém não tinha visão alguma do interior dele, ou seja, teria que invadir às cegas. Respirou fundo e preparou o punho de vibranium, afinal não havia trazido armamento.
Sua intenção era arrebentar a porta com um soco e depois lidar com toda a equipe da CIA que com certeza estava lá dentro. No entanto, antes que finalizasse o golpe, a porta de correr se abriu repentinamente.
— Olá, Senhor América. — A voz conhecida o saudou. — Ou eu devia dizer "Senhor Itália"?
Ele franziu as sobrancelhas ao dar um passo cauteloso para dentro, notando a loira encostada em um cofre tecnológico, tomando um café tranquilamente.
— Sharon... — Disse o nome dela de forma surpresa.
Não havia mais ninguém naquele vagão, e, apesar de Carter ser uma agente da CIA, estar sozinha ali não era normal. Algo mais estava acontecendo.
— Sabe, a gente tinha um acordo. — Ela começou casualmente. — Você não conta meu segredo, eu não conto o seu... Mas no fundo eu acho que já imaginava que você não ficaria com a boca fechada.
Automaticamente, Barnes buscou na memória se Sam havia comentado sobre algum confronto com Sharon naquela história do Mercador do Poder, porém, Wilson só estava mantendo uma distância segura. Enquanto a loira não fosse uma ameaça real, ele não agiria contra ela.
— A surpresa é que além de ferrar com o meu segredo, contando tudo para a Rainha da Máfia Italiana, você também foi burro o bastante para ferrar com o seu segredo. — Sharon revirou os olhos em deboche. — Imagine a minha decepção quando percebi que nem poderia dar o troco?
Se Carter havia descoberto que Roxanne já sabia a identidade do Mercador, então as duas haviam se falado recentemente. O pensamento cortou a mente de Bucky rapidamente.
— Não ferrei com o meu segredo, foi a Valentina. — Ele deixou claro.
— E o que você esperava? Invadiu uma base da CIA, tirou um prisioneiro de suma importância de lá, deu uma surra no cachorrinho da Valentina e ainda prendeu ela em uma parede com a boca cheia de papel. Achou mesmo que viveria sua vidinha de Rei Consorte da Máfia de boas depois disso? — A loira rebateu em um misto de diversão e incredulidade. — Da próxima vez, talvez você pense melhor antes de sair irritando todas as mulheres que você conhece.
Barnes a encarava de uma distância moderada, tentando entender qual seria o próximo passo da Mercadora do Poder. Será que aquilo era uma vingancinha?
— Então esse é o seu plano? Me prender? — Ele tentou adivinhar, afinal ficava cada vez mais claro que ele havia caído em duas armadilhas ao mesmo tempo.
Carter era influente o bastante dentro da CIA para sugerir a ideia, talvez tivessem pensado exatamente como a Hydra; que a tecnologia Stark era a isca perfeita para atrair o Soldado Invernal.
— Prender você realmente me daria uma ótima promoção. — Sharon concordou casualmente, dando outro gole em seu café. — Mas seria burrice, considerando que você sabe demais.
Ele presumiu então que o plano da loira era matá-lo. Porém, não tinha qualquer intenção de morrer, se não fosse pelas mãos de Roxanne.
— Seja qual for seu plano, deixe de lado, a Hydra está vindo pegar essa tecnologia. — Apontou, sendo direto. Não tinham muito tempo.
Sharon riu de canto, virando seu copo e o jogando em um cesto ali ao lado, antes de colocar a mão sobre o leitor de digital e abrir o cofre.
— Que tecnologia? — Ela perguntou, apontando para o espaço vazio lá dentro.
— Tudo isso é uma mentira? — Barnes questionou confuso.
— É um teatro bem montado pra enganar dois homens. — A resposta da Mercadora surpreendeu ainda mais. — Sabe, sendo honesta, admiro o jeito que Roxanne Domenichelli tem de fazer as coisas. Eu teria topado ajudar, mesmo se ela não tivesse ameaçado expor o meu segredo.
Bucky teve que pensar rápido; tudo aquilo, desde o começo, era um plano da Roxanne?
— Onde está a tecnologia Stark? — Questionou, sendo incapaz de montar todas as peças.
— Segura. — Sharon garantiu. — A CIA não tem jurisdição sobre esse tipo de aparato. Ainda bem, porque aqui entre nós, Valentina não é confiável.
E agora que você me diz isso? A mente de Bucky acusou automaticamente, porém ele deixou de lado. Valentina não importava mais. Além disso, também estava claro que Carter não foi até ali por vingança. Ela fazia parte do plano que Roxanne havia montado.
Mas que plano era esse?
— Mas olha, achei que fosse mais esperto, se fosse a Condessa no comando dessa operação, com certeza aquele idiota do Walker estaria por aqui. — A loira continuou falando.
— Tem razão. — Ele disse apenas, notando que havia deixado esse detalhe passar. Certamente também foi por isso que ninguém notou a presença dele antes, queriam que ele chegasse até ali.
No entanto, Bucky ainda não conseguia mensurar o motivo para toda essa armadilha. Porque, de início parecia apenas uma situação básica de "unir o útil ao agradável"; Roxanne aproveitaria que a CIA já iria mover a tecnologia Stark para roubar os aparatos e matar Bucky no processo. Era poético.
No entanto, a tecnologia não estava ali, nunca houve uma missão da CIA para transporte de nada, era tudo um plano de Roxanne desde o começo. Por que?
Com as novas informações aquilo não fazia mais sentido. Por que montar todo um circo para matá-lo? Sendo que se Corinne sabia onde ele estava, a Donna sabia também.
Ela podia simplesmente ter aparecido no apartamento e dado um tiro na cabeça de Barnes.
— Parece que os convidados de honra chegaram. — Sharon anunciou. Por uma pequena tela em seu relógio de pulso ela podia ver as câmeras do trem, com todos os vagões sendo invadidos em um ataque coordenado.
Não havia mais tempo para pensar. Seja lá qual fosse o plano de Roxanne, Bucky não tinha mais como escapar. E ele nem queria de toda forma.
— Você trouxe um monte de homem pra morrer. — Ele apontou os agentes da CIA sendo atacados pela Hydra e Máfia Italiana nos outros vagões, no fundo querendo avistar a Donna em algum lugar.
— Eram mercenários de Madripoor que tinham uma péssima fama. — Sharon explicou sem comoção. — Aqui se faz aqui se paga. Só aproveitei a oportunidade para fazê-los pagar mais rápido. Eles acham que vão ganhar uma bolada e no fim eu estou me livrando de um problema.
Barnes encarou a loira por alguns instantes; a coisa de Mercadora do Poder até que casava com ela. Só esperava que isso não se tornasse um problema para Sam a longo prazo...
— Parece muito calmo para alguém que vai morrer. — Carter comentou, com os olhos ainda na telinha, como se estivesse esperando o momento certo para algo.
— Eu tenho mais de cem anos, a morte não me assusta. — Bucky respondeu quase apático. — Aqui se faz aqui se paga, não é o que dizem?
— Xii, papo de supersoldado. — A loira devolveu, enquanto abria a porta do vagão. — Não é mais a minha vibe não, foi mal.
Bucky entendeu que era o momento de sair, não lutou contra isso, apenas atravessou a passagem. O próximo vagão era um dos mais comuns; com um longo corredor cortando de ponta a ponta entre as poltronas e portas grandes de correr dos dois lados, que davam acesso para o exterior, além das pequenas entradas no começo e fim do vagão, que serviram para atravessar de um para o outro.
Olhou para trás por um segundo e viu que Sharon estava se desacoplando do trem. Certamente a parte dela em tudo aquilo havia terminado.
— Boa Sorte, Bucky. — Desejou, ficando cada vez mais longe, conforme o trem inteiro avançava pelas montanhas geladas do Canadá e ela ficava para trás.
Nem bem Sharon havia sumido de vista e os homens da Hydra começaram a invadir o vagão em que Barnes estava. Timing perfeito.
O confronto físico começou de imediato. Tiros, golpes e ofensivas que visavam atingir pontos vitais no corpo do Soldado. Só quando Bucky começou a revidar, ao invés de apenas defender, foi que ele se deu conta do quanto de raiva vinha reprimindo todo aquele tempo.
— Senhor, o alvo está no vagão final. E o artefato foi desacoplado do veículo. — Um dos homens falou através do comunicador, pouco antes que o punho de vibranium o atingisse.
O confronto seguiu brutal. Barnes estava em clara desvantagem numérica, mas isso não fazia nenhuma diferença, porque ele ainda não podia ser subjugado. No instante em que o último homem foi nocauteado, a pequena passagem no início do vagão se abriu.
— Você é muito mais burro do que eu imaginava. — A voz de Viktor Strovalenko se espalhou pelo ambiente. Ele vinha com a postura imponente, camisa e gravata, um pouco de sangue salpicado em seu rosto e uma arma na mão.
Era a primeira vez que os dois ficavam cara a cara sem que Barnes tivesse que fingir submissão. Ele ergueu o queixo, nada intimidado pelo líder da Hydra.
— Quando me disseram que você não perderia a oportunidade de resgatar essa tecnologia, eu não acreditei. — O homem continuou falando. — Mas não importa o que tenha feito com o último vagão, eu vou encontrá-lo e ter o que é meu.
Bucky se deu conta que para Strovalenko a missão de transporte da CIA era real. Ele sim estava agindo sob a premissa de "unindo o útil ao agradável". Seja qual fosse o plano da Donna, ela não havia compartilhado com aquele maldito.
Decidiu não dizer nada que estragasse isso.
— Onde está a Roxanne? — Questionou, focando no que realmente importava.
Os dois homens já estavam caminhando na direção um do outro para se enfrentar.
— Não ouse dizer o nome dela! — Strovalenko deu o primeiro tiro, mas Bucky o aparou com a mão de vibranium.
Os dois já estavam perto o bastante para começar um embate físico. Surpreendentemente o líder da Hydra era mais forte, ágil e habilidoso do que o imaginado. Seus golpes eram complexos e bem pensados, sua guarda nunca ficava aberta.
Barnes desviou de um soco e bloqueou um chute, usando o dorso do braço de vibranium para se defender de uma nova rajada de tiros repentina. Strovalenko aproveitou essa oportunidade para usar os bancos a seu favor e pegar distância, tomou impulso com os pés e descarregou o pente inteiro em Bucky.
— Ela voltou pra minha cama assim que descobriu o tipo de cara que você é, sabia? — Debochou, alguns metros longe agora.
A informação pegou Barnes de surpresa, sendo muito mais certeira e dolorida que um soco bem dado. Viktor aproveitou esse minuto de distração e recarregou sua arma.
O Soldado avançou e os dois voltaram ao embate físico, trocando mais alguns golpes violentos. Bucky sabia que se conseguisse acertar apenas um soco seria o suficiente para desestabilizar e subjugar o oponente, mas aparentemente Strovalenko tinha uma técnica desenvolvida e pensada para lidar com o treinamento do antigo Punho da Hydra. Ele sempre escapava no último segundo, e o impacto do vibranium atingia qualquer outra coisa no caminho.
— Sabe, eu estava pensando em te capturar e levar pra criogenia de novo, te domar outra vez, colocar seu cérebro no liquidificador até que sobrasse só uma massa disforme, então ordenar que você limpasse a minha merda com a língua. — O idiota sacou uma faca e também trocou de arma, porque provavelmente não tinha mais munição na outra, a nova era algo com cara de tecnologia de ponta. — Mas você tocou na minha mulher... Então eu vou te matar agora.
O tiro de plasma veio primeiro, jogando o corpo de Barnes contra uma das portas que dava acesso ao lado externo. Strovalenko apertou o botão de emergência e as saídas se abriram dos dois lados, fazendo o vento engolir tudo. Ficou claro que a intenção era jogar o soldado pra fora do trem, mas aparentemente aquela arma só tinha um disparo, sendo assim, a próxima coisa que o Líder da Hydra usou foi sua faca.
O reflexo de Bucky agiu muito rápido e ele não só desviou da lâmina como a segurou no ar. Finalmente Strovalenko tinha cometido um erro.
Essa certeza também ficou explícita nos olhos verde-veneno, mas era tarde demais agora, Barnes bateu a mão no botão que fechava as portas e lançou a faca de volta, atingindo a coxa do inimigo e avançando tão rápido que ele mal conseguiu bloquear o soco que veio.
Bucky acertou o rosto do homem de novo e então de novo, e outra vez. A raiva escapando dele de forma corrosiva.
— Ela não é sua! — As palavras vieram em russo, o tom de Barnes tão frio quanto gelo, assim que agarrou Viktor Strovalenko pela gola da camisa cara.
O instinto assassino do Soldado Invernal gritava em sua mente; mais um golpe, era só disso que precisaria.
Não tinha entrado naquele trem planejando matar o líder da Hydra, mas agora que estavam cara a cara, isso parecia tentador demais para deixar passar.
Pelo menos morreria sabendo que Strovalenko nunca mais colocaria as mãos imundas em Roxanne.
Talvez isso prejudicasse os planos dela, mas Bucky preferiu pensar que a Donna era capaz de encontrar o irmão de outro jeito.
Fechou o punho de vibranium, pronto para o golpe fatal no rosto já ensanguentado daquele desgraçado...
— Barnes! — A voz feminina fez com que parasse imediatamente.
— Roxanne... — O coração de Bucky começou a bater descompassado.
A Donna parou no início do vagão com quatro homens da máfia ao seu redor, Niccolo Pisanni bem do lado esquerdo.
Barnes prendeu a respiração, estavam em lados totalmente opostos do transporte, um corredor inteiro entre eles, ainda assim, era o mais perto que havia chegado de sua italianinha naqueles trinta dias angustiantes.
— Deixa o meu noivo ir. — Ela ordenou friamente.
Só então Bucky lembrou que ainda segurava a gola de Strovalenko, mas sequer olhou para o homem antes de nocauteá-lo com um só golpe. O corpo caindo no chão em um baque seco. Se estava vivo ou morto, pouco importava.
Aquela atitude, no entanto, não pareceu ser vista com bons olhos, já que todas as armas dos homens ao redor de Roxanne foram erguidas imediatamente, inclusive as de Nick.
— Sabe, é uma pena.... — Ela começou, enquanto avançava pelo corredor. — A gente podia ter algo bom, você e eu. Mas você simplesmente teve que arruinar tudo.
Bucky abaixou a cabeça por um segundo, seu olhar azul apenas um misto de decepção, arrependimento e dor. Não havia nada que pudesse dizer, sabia disso.
Apenas esperou pelos tiros, mas eles não vieram.
— Eu lido com ele. — Roxanne estava parada exatamente no meio do vagão quando deu essa ordem.
Barnes ergueu a cabeça a tempo de ver os homens dando meia volta, seu olhar se encontrando com o de Nick por um momento e o italiano franzindo os lábios de forma constrita e compassiva antes de sair. Foi quase um alívio não ver o ódio estampado no rosto daquele que sempre foi o mais amigável dos Três Grandes.
No entanto, era também amargo notar que não importava que Frank, Corinne e até mesmo Nick não nutrissem raiva, ou se mostrassem abertos à compreensão. Bucky sabia que Roxanne nunca o perdoaria.
Mesmo assim, quando apenas os dois ficaram naquele vagão, de pé entre os muitos homens desmaiados, ele não conseguiu evitar que um fio de esperança se acendesse em seu peito.
Começou a caminhar na direção dela, notando que a maldita aliança de noivado estava de volta no dedo delicado, como se nunca tivesse saído dali. Além disso, por todo tempo, os olhos negros não estavam focados em Bucky e sim na figura desacordada de Strovalenko, quase como se a Donna estivesse analisando se o líder da Hydra ainda estava vivo ou não.
O conjunto desses dois detalhes sendo um golpe muito mais doloroso do que o esperado.
— Somos só você e eu agora, não finja que se importa com ele. — Barnes finalmente parou no meio do vagão, cinco passos o separando de Roxanne agora. Apenas eles dois ali no espaço aberto, que sequer tinha as cadeiras ao redor, por estar ladeado pelas portas grandes de entrada e saída
Demorou dois segundos para que os olhos negros focassem nos azuis, Barnes tentou decifrar o sentimento que existia naquelas íris, porém a obstinação impactante da italianinha era como uma máscara muito bem colocada.
— Eu não estou fingindo, eu sou a Donna da Máfia Italiana, eu me importo com quem me convém. — Ela deu um passo na direção dele. Sua postura polida de negócios, como se os dois fossem apenas inimigos e a história que tiveram não significasse nada. — E convém me importar com quem eu conheço muito bem.
Aquilo atingiu Bucky como um soco, o fato de que um homem perverso como Strovalenko era mais importante agora. Porque ele não tinha mentido, ele sempre foi péssimo, então Roxanne sabia exatamente o que esperar.
— Não pareça tão surpreso... — Domenichelli sabia decifrar as feições do americano muito bem. — Você foi pra Sicília procurando mafiosos, e foi exatamente o que você encontrou.
Uma tristeza palpável alagou o olhar azul, porque ela disse aquilo de um jeito tão debochado e venenoso, tão Donna, nada sua italianinha.
— Roxanne, por favor me deixa explicar... — Implorou, um único momento de conversa honesta e talvez ainda houvesse uma chance para eles. Bucky precisava acreditar que ainda havia.
— Eu não preciso ouvir suas explicações. — Ela moveu os ombros com desdém, um pouco de raiva e decepção impregnando suas palavras. — Eu já ouvi toda a história, Frank bancou o advogado do diabo por você.
— Então você sabe que...
— Isso não muda nada agora. — A Donna decretou irredutível. — Eu te avisei o que aconteceria. Falei que quando nos víssemos de novo seriamos inimigos. — Ao dizer essas palavras ela arregaçou as mangas, os dois braceletes de vibranium se tornando visíveis em seus pulsos.
Pelo visto não havia esperança alguma para os dois.
— Eu nunca vou ser seu inimigo. — Barnes ainda tentou, porém isso não impediu o primeiro golpe de vir em sua direção.
Ele simplesmente deixou que ela atingisse o peitoral dele com um soco e depois outros, se esquivando de um ou outro ataque mais violento por puro instinto.
— Eu não vou lutar com você, Italiani...
— Cala a boca! — A voz feminina não permitiu que Bucky sequer terminasse a frase. Em seguida um chute certeiro o atingiu, fazendo com que as costas masculinas batessem contra o metal do vagão.
O olhar dos dois se encontrou, a raiva clara nas íris escuras, como se fosse um ultraje Barnes usar aquele apelido justo nesse momento.
— Se você não vai sequer me ouvir, então apenas me mata de uma vez. — Ele declarou conformado. — Acho que já ficou bem claro que você não quer mais nada de mim ou comigo...
Roxanne respirou fundo, dois passos mais perto agora.
— Você é extremamente previsível, sabia disso? — Um riso sem humor escapou da garganta feminina. — É quase engraçado.
Outros três passos, Bucky estava encurralado entre a mulher que amava e o metal frio nas suas costas. Não que ele pretendesse ir a qualquer lugar quando estavam tão perto daquele jeito.
Mais um passo, qualquer coisa na mente dele simplesmente sumiu, assim que o toque de Roxanne pousou sobre a barba masculina. Instintivamente Barnes tombou o rosto naquela direção, porque aquilo era tudo que ele precisava.
— A única coisa que eu queria de você era a verdade, americano idiota. — A italiana disse em um misto de tristeza e doçura. Seus olhos escuros se tornando um poço alagado de melancolia de uma forma tão explícita que algo dentro de Barnes se partiu em dois.
E então ela avançou o último passo, os lábios doces tocando os dele suavemente, era agridoce, Bucky sequer teve chance de sentir a euforia e felicidade daquele breve contato, porque ele soube: era uma despedida.
A dor que atingiu o peito dele foi repentina, aguda, excruciante e fria. Uma facada que o pegou de surpresa.
Literalmente uma facada.
O rosto de Roxanne se afastou, azuis e negros descendo para o mesmo ponto automaticamente...
A lâmina de vibranium que a Donna escondia sob o bracelete estava fincada do lado direito do peitoral de Barnes.
Ele voltou a olhar no rosto da mulher que amava, o choque completo tomando conta de seu corpo.
— É aqui que a nossa história termina. — Ela soprou, a mão livre seguindo para um ponto na parede de metal. — Adeus, James.
Só então ele notou que estava contra as portas de correr do trem, portas essas que se abriram quando Roxanne acionou o botão de emergência.
Para Bucky aquilo aconteceu muito devagar. Suas íris subindo automaticamente para encontrar a de Roxanne. Os dedos deslizando para longe conforme ele começava a cair para trás.
Quão ironicamente poético era estar caindo de um trem outra vez?
Seus olhos permaneceram nas íris negras conforme o vento frio das montanhas congeladas do Canadá o envolviam...
E então o trem se foi e ele fechou as pálpebras. Conformado. Em paz.
Sabia como era cair, sabia que teria que esperar a queda infinita antes que seu corpo encontrasse o chão. Conhecia a dor excruciante que viria depois. Então apenas esperou.
No entanto, ele caiu por meia dúzia de metros apenas, antes de atingir a neve fofa muito mais cedo do que o esperado.
Não tinha intenção alguma de levantar, sua mão de vibranium seguiu para a lâmina em seu peito, sabia que tirá-la dali abriria o ferimento e o faria sangrar até a morte, mas não se importou com isso. Puxou o objeto de uma vez só, com muito mais força que o necessário. Parte do metal cedendo à pressão dos dedos dele.
Aquilo não era de vibranium...
Sequer teve tempo de pensar melhor nisso, antes que um vulto cruzasse o céu e pousasse ali perto em questão de segundos.
— Bucky! — A voz de Sam Wilson veio em tom assustado e logo a figura do Capitão América surgiu no campo de visão do Soldado. — Eu 'tô aqui cara. — As mãos pressionaram o ferimento aberto automaticamente. — Não se preocupa, você vai ficar bem.
Barnes se sentia atordoado, sua mente completamente incapaz de compreender todos os acontecimentos recentes.
— Devia ter me mandado mensagem antes de vir e não depois, idiota. — A bronca veio em um misto de irritação e preocupação.
Só tinha um problema: Barnes não havia mandando mensagem nenhuma para Sam Wilson...
Então como ele sabia que tinha que estar justamente ali naquele momento?
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