Open wounds, closed heart
27 Dia 27
Notas iniciais
24/10/2017
.
Este é mais um daqueles dias em que me vejo sem escolhas além de fugir do habitual. É uma terça, mas ainda assim há coisas demais a serem relatadas. Hoje foi um dia cheio, cansativo e divertido. Hoje também fiz descobertas que não pensei que faria tão cedo.
Eram seis horas em ponto quando Victor estacionou diante de minha casa.
Assim que entrei no carro e sentei no banco do passageiro já percebi que algo não estava certo. Ou melhor, normal. Eu não podia chamar aquele silêncio, ou a forma como ele me olhava de vez em quando, de errado. Era estranho, mas não era ruim.
Tudo parecia diferente e eu não sabia porquê.
Victor dirigia pelas ruas vazias do final da tarde, nem rápido, nem devagar. O cenário que passava pela janela era tão monótono quanto a música que tocava na rádio, e o balanço do carro começava a me dar sono.
Esfreguei os olhos e bocejei sem sequer perceber.
— Cansado? – Ele perguntou, sem desviar os olhos do caminho. – Pode dormir um pouco se quiser. Eu te acordo quando chegarmos.
— Não, tudo bem. – Falei, sentindo-me um tanto mal por ter sido incapaz de esconder meu cansaço. Eu esperava que pelo menos ele não visse aquilo como um (falso) sinal de que sua companhia me havia entediado, já que isso era o total oposto da realidade.
Conversar com Victor era sempre uma aventura, pois nunca se sabia onde o assunto iria parar. Nós podíamos estar falando seriamente sobre alguém que não parecia bem, discutindo se devíamos relatar o caso para Minako, e no minuto seguinte estarmos rindo juntos enquanto compartilhávamos histórias de Makkachin e Vicchan. Histórias sobre cachorros eram sempre as melhores histórias, afinal.
Entretanto, hoje eu estava mais cansado que o normal, e eu culpava o ritmo agitado que voltou a tomar conta da minha vida por causa do trabalho por isso. Ainda assim, isso não era desculpa que justificasse tamanha falta de consideração para com um amigo que saiu do próprio caminho apenas para me dar uma carona.
— Tem certeza? A noite vai ser longa. – Victor tornou a perguntar, talvez desejando me assegurar de que estava tudo bem se eu quisesse dormir.
Anui a cabeça, mas então lembrei que seus olhos estavam ocupados com a estrada.
— Se eu dormir agora vai ser pior depois. – O que não era necessariamente uma mentira; apenas parcialmente, uma meia verdade cheia de palavras não ditas. – Além disso, é só uns trinta minutos de carro até o parque.
Nada foi dito por alguns instantes. Eu por não saber o que dizer, e Victor por aparentemente estar testando o terreno, preocupado com a possível presença de minas terrestres prontas para explodir na primeira pisada errada. Talvez eu estivesse dando a impressão de estar num humor ruim, agora que penso a respeito.
— Não dormiu bem? Ficou trabalhando até tarde? – Ele perguntou, por fim.
— Sim, mas pelo menos está quase acabando. Só mais alguns encontros com meu editor e pronto.
— Hum. – Foi tudo que ele disse, e então a música monótona que tocava na rádio voltou a tomar conta do interior do carro.
Tornei a olhar pela janela, apesar de ciente de que não havia nada de interessante acontecendo na rua daquela cidade tão tranquila. Inevitavelmente, acabei me lembrando de quando cheguei à cidade há alguns anos, mais novo e cheio de expectativas.
Eu tinha vinte e um anos quando cansei de ser uma decepção para a minha família.
Desde que eu era uma criança, vi meus pais trabalhando duro para manter aberto o Onsen que não atraia mais tanto público quanto antigamente. A crise estava sendo um problema para todos, mas para aqueles que dependiam do turismo estava sendo particularmente difícil. As pessoas não mais viajavam como antigamente, preferindo guardar seu dinheiro ou investí-lo em algo menos trivial. Poucos eram aqueles que ainda estavam dispostos a gastar o que tinham com lazer.
Vendo-os se esforçar diariamente, lutando para manter o negócio em pé apesar das dificuldades, decidi que eu também tinha de fazer algo a respeito. Por isso, fiz o que estava ao meu alcance: estudei. Abri mão de muitas coisas, de amizades, de fazer coisas que eu gostava, tudo para ter certeza de que, quando fosse hora, eu entraria numa faculdade boa e ajudaria a sustentar aqueles que cuidaram de mim a minha vida toda.
Apesar de eu amar ler, os únicos livros que eu passei a ter comigo eram livros didáticos, que se tornaram também minha única companhia com o passar do tempo, ao que os exames se aproximaram.
Eu estudava muito, e o tempo todo. Antes que eu desse conta, minhas responsabilidades começaram a pesar sobre mim. Errar um exercício trazia-me lágrimas aos olhos e faziam-me sentir como um fracassado. Pensar no dia de amanhã me trazia tristeza, pois não havia nada realmente emocionante para acontecer. Minha vida se tornou monótona e solitária, e comecei até a perder o sono. Também comecei a beliscar, a comer fora de hora, e quando percebi já havia engordado mais de vinte quilos.
Minhas notas melhoraram, mas a que custo?
Ainda assim, eu continuei com aquele estilo de vida. Vai valer a pena, eu pensava enquanto tentava limpar inutilmente as lágrimas que haviam manchado a página do caderno; mas era tarde, e as folhas estavam destinadas a levar aquelas manchas para o resto de suas vidas.
Meus pais podiam fazer nada além de me observar, cientes de que eu fazia aquilo por eles. Minha mãe até me alertou do meu exagero uma vez, mas minha atitude foi suficiente para que ela desistisse de me convencer que eu não precisava fazer tudo aquilo por eles.
No fim, fui traído por mim mesmo.
No dia da prova mais importante da vida de qualquer estudante, passei mal. Minhas mãos tremiam e lembro até hoje da sensação proporcionada pela falta de ar. Era como se meus pulmões tivessem esquecido como se fazia para respirar. Consequentemente, deixei de responder metade das questões e falhei no exame.
Depois daquele dia, comecei a me sentir cada vez pior.
Abalado com o fracasso, eu sentia que havia traído os meus pais e minha irmã. Eu me sentia horrível, e era pior ainda quando eu me olhava no espelho e via o que eu havia me tornado. Eu não gostava do eu via. Meu reflexo era como a personificação dos meus fracassos, olhando-me acusadoramente e julgando-me por ser tão fraco e inútil.
Eu chorava muito, e o tempo todo. Chegou ao ponto em que minha mãe não suportava mais me ver naquele estado, mas nada que ela dizia era capaz de me acalmar. Eles falaram que eu podia apenas trabalhar no Onsen, mas isso só fez com que eu me sentisse pior. Isso me lembrava das coisas que eu tentei alcançar, mas que perdi de vista.
Foi então num dia em que eu tentava ser útil, saindo do meu quarto para tentar pelo menos ajudar em alguma coisa, que Mari trouxe à tona a ideia de eu ir para os Estados Unidos, mesmo que apenas por algum tempo. Uma mudança de ares fará bem a ele, ela disse, na época. Além disso, dizem que lá é um bom lugar para se recomeçar a vida. Assim, foi decidido que eu iria me mudar para o outro lado do mundo junto dos meus pais, enquanto Mari segurava as pontas no Japão.
Chegando lá, decidi que o mínimo que eu podia fazer era aceitar a sugestão de meus pais de cursar uma faculdade. Optei desta vez, porém, por um curso de minha preferência, pensando nos meus gostos e os colocando acima de todo o resto.
Assim, comecei a estudar literatura.
Utilizei todo o meu tempo livre da maneira mais proveitosa possível, e até formei amizade com um garoto mais novo que trabalhava comigo no jornal da faculdade. Phichit rapidamente se tornou meu melhor amigo e foi graças a ele que voltei ao meu peso antigo. Ele me acalmava, desde aquela época, e me incentiva a dar o meu melhor mesmo diante das dificuldades.
No fim, algo que devia servir apenas para me ajudar a passar o tempo se tornou meu emprego integral. Uma editora viu um dos textos que eu havia escrito para o jornal e a partir daí se iniciou minha carreira.
Eu tinha vinte e dois anos, e havia finalmente encontrado meu lugar no mundo.
.
—--
.
— Yuri?
Quando abri os olhos, percebendo só então que eu havia adormecido, Victor já havia estacionado o carro perto do praça onde o festival já estava todo preparado, exceto por um ou outro detalhe que tinham deixado para a última hora.
— Tudo bem com você?
Pisquei algumas vezes, endireitei-me e levei uma de minhas mãos aos olhos úmidos.
— Ah, sim. – Falei, mas as lágrimas certamente não tornavam minha palavras convincentes. – Sonhei com algumas coisas do passado. Só isso. – Expliquei.
— Coisas ruins?
— Um pouco de tudo – respondi, com sinceridade.
— Quer conversar a respeito?
Balancei a cabeça, numa negativa silenciosa. Um sorriso repousava em meu rosto, um sorriso discreto e sincero. Victor abriu os lábios para contestar minha decisão, provavelmente para me lembrar que eu podia confiar nele, mas eu o interrompi.
— Agora não. Mas talvez na companhia de alguns biscoitos… – Com um de meus olhos, pisquei.
O rosto do Victor imediatamente se iluminou, um largo sorriso surgindo em seus lábios e um leve rubor tomando suas bochechas. Virei o rosto, um tanto embaraçado. Victor era um homem bonito, mas também um tanto adorável de vez em quando.
Saimos do carro e caminhamos em direção ao café que estava um pouco mais cheio do que gostaríamos. Ainda assim, nada muito exagerado que fizesse com que nós optássemos por uma mudança de planos.
Enquanto esperávamos para entrar no estabelecimento, observei o céu se colorir de cores mais quentes enquanto o Sol se punha. Uma pena que logo aquela aquarela de cores seria extinta pela chegada da escuridão trazida pela noite. Ao menos, haveriam as estrelas.
— Não sabia que você gostava de observar o céu – Victor comentou, ao meu lado. Olhei em sua direção e anui a cabeça.
— Um pouco. É uma boa distração.
Victor livrou-me de seu olhar, direcionando-o ao céu que eu observava até então. Seu cabelo prateado balançava levemente por causa das rajadas de vento que percorriam as ruas, os fios desgrenhando-se mas não deixando-o nem um pouco menos atraente.
— Mas é algo tão inalcançável – ele disse, sua voz transbordando de tranquilidade – e há tanto a se observar por aqui.
Nesse momento, ele se virou em minha direção e olhou no fundo dos meus olhos. Seu rosto estava levemente corado, mas nada perto do meu. Meus lábios se separaram e penderam entreabertos; nenhuma palavra, porém, foi dita.
Eu olhei para o chão, para os lados, e então para Victor novamente. Repeti esse processo algumas vezes, indeciso de onde fixar meus olhos. A única coisa que eu sabia é que eu estava corado; o resto era um mistério. Que expressões eu tinha no rosto? Com que olhos eu olhava para ele? Quão transparentes eram os meus sentimentos naquele momento?
Victor fez menção de me segurar a mão, mas eu fugi de seu toque.
Ele não percebeu os meus reais sentimentos, certo?
Victor e eu éramos amigos. Aquilo não era um encontro. Viémos juntos por uma questão de conveniência.
Respirei fundo ao que senti meu corpo tencionar. Eu sentia o estresse crescer rapidamente dentro de mim, mas eu estava determinado a não me render a ele desta vez. Respirei fundo e contei os segundos, soltando o ar lentamente. Repeti esse processo algumas vezes até que eu sentisse que os sintomas de minhas ansiedade estavam diminuindo.
Ficamos em silêncio o resto do tempo. Victor não tentou mais puxar conversa comigo e certificou-se de manter certo espaço entre nós. Quanto a mim, eu não sabia o que dizer, e tudo que eu desejava era que aquela tensão desconfortável que nos rondava sumisse logo.
Pelo menos não demorou muito mais até que pudéssemos entrar no café. Cada um de nós pediu um café, além de uma porção de biscoitos e algumas outras coisas que nos interessaram enquanto líamos o cardápio – como, por exemplo, um cheesecake de amora.
Sentados de frente um ao outro, esperamos em silêncio até que nossos pedidos fossem trazidos pela garçonete. Mas então o silêncio se tornou insuportável e Victor tentou extingui-lo.
— Então… Como você está?
— Cansado, precisando de umas horas de sono… Mas estou bem.
Ele anuiu a cabeça e um chiado de compreensão saiu por entre os seus lábios. As coisas continuavam tensas e ele estava tão consciente disso quanto eu.
— E você? – Perguntei, ciente de que qualquer coisa era melhor do que voltar ao silêncio de antes.
— Também.
O silêncio, porém, acabou voltando.
Victor não dizia nada. Ele olhava na minha direção, talvez pensando em algo para dizer, mas também não parecia ter ideias. Pergunto-me se eu ainda passava uma impressão ruim. Talvez eu não devesse ter fugido de seu toque...
— E o Makkachin? – Perguntei, depois de algum tempo, sem qualquer outra ideia.
As sobrancelhas no seu rosto arquearam em resposta à sua surpresa. Ele, entretanto, não pareceu ter problemas em responder, seu corpo relaxando consideravelmente enquanto ele falava sobre como Makkachin continuava sendo adorável e manhoso.
— É uma pena ele ser um tanto chato com estranhos.
— Ele é? – Perguntei, realmente surpreso. Sempre achei que Makkachin fosse um cachorro sociável que amava qualquer um que esfregasse suas orelhas. Ou, ao menos, essa era a impressão que Victor me passava quando falava nele.
Depois que comentei com Victor sobre essa minha impressão de seu cachorro, um suspiro cansado fugiu por entre os seus lábios.
— Quem dera... Você não tem noção de quantos veterinários eu tive de ir antes dele sossegar. E claro que ele escolheu o mais longe…
Contendo uma risada, observei a maneira como Victor falava do seu cachorro, suas expressões muito diferentes das habituais. Normalmente, ele parecia um pai orgulhoso. Hoje, nem tanto.
— Deve ser porque ele é muito apegado a você.
— Talvez. Bem provavelmente, na verdade. Tem sido apenas ele e eu há muitos anos.
Anui a cabeça, dando a ele um sinal de que estava ouvindo. A garçonete chegou e colocou nossos pedidos sobre a mesa, olhando na direção de Victor antes de se afastar. Internamente, pensei que não tinha jeito, sendo Victor tão bonito. Não que eu tivesse direito de sentir ciúmes, afinal Victor não era nada meu.
Ou melhor, nada além de um amigo.
Antes que eu começasse a me afogar nos sentimentos negativos que eu mesmo havia trazido à tona, Victor tornou a se pronunciar, distraindo-me bem a tempo.
— E Vicchan?
— Ele é tranquilo. Amável, sociável, tudo que eu não sou.
— Eu te acho amável.
Balancei uma de minhas mãos diante do rosto, afastando tanto as ideias que começavam a surgir em minha mente, quanto os elogios gentis de Victor. Às vezes, eu tinha que me lembrar de não compreender mal a sua gentileza, ou confundí-la com algo diferente.
— Vocè tem uma opinião muito ruim sobre si mesmo – Victor murmurou, sua voz um tanto séria, outro tanto preocupada.
— Apenas sou realista.
— Mas… – Victor subitamente se silenciou, seus olhos se iluminando devido ao surgimento de uma ideia – Okay, minha vez!
— Ah?
— Pergunta por pergunta!
— O quê, mas… Não lembro de termos começado.
— Não tem nenhum regra a respeito disso. – Ele falou, inocentemente.
Franzi o cenho, mas eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer. Gesticulei para que ele prosseguisse, e, qualquer coisa, eu podia me recusar a responder. E, assim, eu também teria a chance de conhecer – e entender – um pouco melhor esse homem que não saia dos meus pensamentos.
— Por que sempre ignora os meus elogios?
— Eu não ignoro.
— Você sempre age como se minhas palavras não valessem nada.
— Isso… Não é verdade. – Falei, sentindo-me de repente um tanto encurralado.
Victor não me dava tempo para sequer entender a situação, empurrando-me na direção de um abismo que eu tinha que ter cuidado para não cair. Senão, não haveria volta.
— A minha opinião não significa nada para você?
O coração em meu peito bateu mais rápido por um momento. Minha boca se sentiu seca, tantas eram as palavras não ditas.
— Okay. Tempo. Você fez duas perguntas. – Foi a saída que arrumei.
Victor relaxou um pouco e se acomodou melhor na cadeira. Ele parecia realmente agitado naquele momento, talvez nervoso por eu ter tão claramente me recusado a respondê-lo. Mas não havia jeito. De forma alguma eu podia admitir que nenhuma opinião importava tanto quanta a dele. De forma alguma eu podia admitir estar sempre pensando sobre o que ele pensava de mim.
— Victor. – Eu chamei e ele imediatamente olhou em minha direção. O azul dos seus olhos pareciam chateados, e logo fugiram novamente de mim. – Escuta… Eu realmente não ignoro.
— Não é o que parece. – Ele respondeu, secamente.
Respirei fundo, já me arrependendo do que eu estava prestes a fazer. Mas eu não podia deixá-lo e simplesmente ignorar os seus ombros caídos, não quando eram minha culpa. Respirei fundo uma segunda vez, juntando o resto da coragem que consegui encontrar.
— Teve aquela vez que você disse que eu tinha sido incrível te guiando…
— O quê? – Ele perguntou, claramente confuso.
— Mine Field, eu acho. Você estava vendado. – Minha explicação não extinguiu a sua confusão, visto que suas sobrancelhas se mantiveram franzidas. Ainda assim, prossegui. – E teve aquela vez que você falou que eu era bonito e que não tinha que me preocupar com meu peso. E também todas as vezes que você disse que desejava conversar mais comigo… Eu fiquei muito feliz, e lembro perfeitamente de todos esse momentos.
Quando olhei na direção do homem à minha frente, encontrei um rubor tomando sua face. Victor estava embaraçado, e sem reação. O brilho em seus olhos tremulava e não era difícil perceber que ele havia sido pego desprevenido.
— Victor, – eu o chamei e ele se sobressaltou, obviamente ansioso pelo que eu falaria a seguir – eu nunca ignorei os seus elogios.
O rubor em sua face se tornou ainda mais evidente. Ele pressionou os seus lábios juntos e parecia verdadeiramente feliz. Eu pensei que ele ia me agradecer (é algo que ele normalmente faria em um momento como aquele), mas ele apenas ficou em silêncio, como se pensasse sobre alguma coisa que não estava disposto a compartilhar.
Começando a me sentir embaraçado pelas palavras que eu mesmo havia proferido, decidi mudar de assunto.
— Quando você começou a ficar depressivo?
Perante minha pergunta, as expressões que ele carregava no rosto se transformaram rapidamente, o que foi quase suficiente para que eu me arrependesse. Porém, eu não pretendia perder a chance de perguntá-lo coisas que sempre desejei saber quando a oportunidade me era enfim apresentada.
Inicialmente, devido aos longos instante de silêncio, pensei que ele iria se recusar a responder. Ele olhava pensativo para as próprias mãos, as sobrancelhas franzidas e os dedos entrelaçados sobre a mesa. Porém, quando ele olhou na minha direção, não havia qualquer dúvida em seu olhar.
— Foi pouco depois de minha carreira como patinador acabar.
— Acabar?
— Eu me machuquei. – Ele respondeu, ignorando o fato de que eu havia pulado a sua vez. – Minha perna, por causa de um salto ruim.
Não consegui evitar de fazer uma careta ao que pensei na dor que ele deve ter sentido. Então, veio a preocupação.
— Mas foi algo assim tão sério para você ter que largar a patinação? Você não me parece ter problemas para andar.
— Errar aquele salto me machucou mais do que fisicamente, e a pressão da mídia e dos fãs acabou destruindo meu psicológico. E eu já não era tão novo… Enfim, foram muitas coisas que fizeram eu me aposentar.
— Mas… Mas a garota daquele dia disse que não haviam feito qualquer aviso formal.
— Eu não estava com cabeça ou vontade na época, então fui empurrando para frente isso que era minha obrigação, pensando que talvez o assunto se resolvesse sozinho. – Ele suspirou e seus ombros tombaram de forma cansada.
— Você devia fazer um anúncio, se realmente não pretende voltar a patinar. – Uma pequena pausa. – Ou pretende?
Victor pareceu surpreso com minha suposição, como se ela fosse a coisa mais absurda que ele tivesse ouvido em anos.
— O quê? Não! – Ele abanou a mão diante do rosto a fim de reforçar sua negativa. – Não me entenda mal. Patinação é muito importante para mim, foi e sempre será, mas não sinto que meu lugar seja mais no gelo. Ou, pelo menos, não profissionalmente.
— Mas então… – Victor, porém, levantou uma de suas mãos, silenciando-me com um sinal mais do que claro.
Era sua vez.
— O que te fez começar a fazer terapia em grupo? – Ele perguntou, casualmente.
Uma pergunta fácil, pensei.
— Celestino, o meu psiquiatra, disse que seria bom para mim. Phichit então me ajudou a procurar um lugar onde eu pudesse me inscrever e acabamos por achar o GAPAD.
— Hum… – Victor entrelaçou os dedos e apoiou a cabeça nos nós dos dedos. Ele me olhava atentamente, mas não parecia ter nada a dizer.
Desviei os olhos por um momento, sentindo-me estranhamente desconfortável com o olhar que ele me direcionava. Eu não sabia o porquê, mas seus olhos azuis não pareciam possuir o brilho que normalmente carregavam.
Por isso, decidi continuar falando.
— Celestino ficou bem feliz ao saber que eu tinha começado a participar das sessões da Minako. Aparentemente, eles já se conheciam, mas haviam perdido contato. Agora, toda vez que eu vou numa consulta, ele me conta histórias de quando eles eram mais novos.
— É verdade que Minako é alguém incrível, e um tanto excêntrica. Aposto que as histórias são ótimas. – Victor sorriu levemente.
— Você conhece a doutora há bastante tempo? Às vezes, vocês me parecem ser bem próximos.
— Ela trabalhou um tempo com atletas e, quando eu era mais novo, ia vê-la quando a pressão começava a se tornar insuportável.
— Pressão?
— As pessoas tinham expectativas em relação a mim.
— Expectativas demais? – Victor, em resposta, anuiu a cabeça. – Devia ser difícil.
— E era. Mas valia a pena.
De repente, vi nele expressões e posturas que normalmente ele não mostrava. Victor parecia alguém muito menos jovial. Parecia cansado, saudosista. Parecia lembrar de sua vida no gelo, dos dias em que patinava sobre a superfície gelada e brilhante. Seus ombros haviam tombado e seus olhos pareciam perdidos nas lembranças.
Eu normalmente não me interessava por seu eu patinador, mas, naquele momento, desejei conhecer um pouco da parte de sua vida que era capaz de fazê-lo ficar com expressões tão gentis, mas ao mesmo tempo tão melancólicas.
Tinha algo de belo nos sentimentos controversos que tomavam conta de si.
Um tanto constrangido com minha incapacidade de não me apaixonar por toda nova faceta sua que eu conhecia, comi alguns dos biscoitos que jaziam esquecidos sobre a mesa. Como sempre, estavam deliciosos.
— Sua vez. – Falei, timidamente, desejando me distrair. Senão, eu temia que meus sentimentos, que minha paixão, se tornariam tão transparentes quanto a ampla janela do estabelecimento, por onde era possível ver a noite se tornar cada vez mais presente.
Victor, porém, insistiu para que eu seguisse com uma pergunta.
— Mas eu perguntei sobre você e a Minako.
— Aquilo foi basicamente um complemento da minha pergunta.
Ciente de que era inútil discutir com ele, e um tanto feliz por ver que eu havia me livrado de uma potencial pergunta indesejada, busquei em minha mente assuntos que eu ainda desejava saber, que eram muitos.
No fim, encontrei a pergunta ideal.
— Por que veio para os Estados Unidos? Por que não ficou na Rússia?
— Aquele país me trás muitas lembranças e.. Acho que eu queria seguir em frente, em um lugar diferente e novo.
— Conseguiu?
— O quê? – Ele perguntou, confuso.
— Seguir em frente. – Eu balancei os ombros, de forma casual.
Os seus olhos então vagaram pelo salão, perdidos. Talvez ele se fizesse a mesma pergunta, repetindo-a incansávelmente.
— Talvez? Admito que não tão bem quanto gostaria, mas estou tentando. Ainda assim, é difícil.
— Medo de falhar?
— Meio que isso. Ou de não ser bom. Não estou acostumado a ser não ser bom nas coisas que faço.
— Quanta modéstia. – Zombei.
Victor jogou uma mão para cada lado.
— Apenas falando a verdade. – Ele respondeu, a sua voz alegre, o seu tom o de alguém que falava o óbvio.
Comemos um pouco da comida que nos esperava praticamente intocada nos pratos. Como sempre, a comida estava deliciosa, e minha única crítica seria que o cheesecake não era grande o suficiente para saciar minha vontade.
Peguei a xícara de café que já não estava tão quente quanto eu gostaria, e beberiquei dela.
— Então…
A voz de Victor trouxe-me de volta à realidade. Olhei em sua direção, aguardando suas palavras.
— Enquanto ainda há biscoitos, gostaria de saber se não quer falar sobre mais cedo.
Pousei a xícara de volta na mesa e pisquei algumas vezes até entender do que ele falava.
— Ah! Do sonho?
Victor balançou a cabeça, numa silenciosa confirmação.
Fiquei em silêncio por algum tempo, cogitando as minhas opções. Não é que eu não gostaria de falar com ele a respeito de meu passado, mas para mim me abrir assim, sem mais nem menos, sem um preparo psicológico nem nada…
— Se não quiser falar sobre, tudo bem também. – Victor falou, aparentemente interpretando mal meu silêncio. Ele então sorriu, gentilmente. – Um dia, você me disse que esperaria eu me sentir à vontade. Também estou disposto a fazer o mesmo.
Silêncio.
— Quero dizer… Seria o esperado. Eu não poderia te forçar a alguma coisa, ou te fazer se sentir desconfortável… Yuri, você está rindo? Meu deus, você está rindo de mim?!
Livrando minha mão de meu rosto, sorri largamente.
— Não rindo, só… – Só estava pensando que esse seu lado desesperado também é adorável, e que isso era inesperado. Claro que eu não podia falar nada disso em voz alta. – Só pensando que você é um… ótimo amigo.
Victor piscou algumas vezes e então sorriu, apesar de não parecer tão feliz quanto achei que ficaria. Talvez eu ter rido de si tenha sido demais para ele. Talvez eu devesse me desculpar, depois. Naquele momento, porém, eu tinha outras coisas em mente.
— Deixe-me contar uma história. – Falei, as expressões em meu rosto suavizando.
.
—--
.
Quando saímos do café, nos surpreendemos com a quantidade de gente que já havia lotado a praça. Não que isso fosse inesperado, pois o festival de música era um evento relativamente popular na cidade. O erro foi nosso.
Distraídos por uma conversa descontraída, e com os deliciosos biscoitos que não consegui me impedir de pedir mas, acabamos saindo do café quando já só faltava meia hora para as bandas começarem a tocar.
Nós nos enfiamos entre a multidão e tentamos nos aproximar do palco, porém, isso se mostrou impossível. A massa de corpos de jovens prontos para festejar a noite toda já se encontrava muito espessa, e não mostravam sinais de que nos deixariam passar para a frente.
Inevitavelmente, comecei a me sentir mal.
O objetivo hoje era vir e ouvir Leo tocar, dar a ele o meu apoio, ser um bom amigo… Porém, acabei me distraindo, aproveitando demais da companhia de Victor. Cheguei, inclusive, a desejar passar mais tempo consigo. Eu me desviei do que devia ter sido o foco do passeio.
Meu corpo suava, minhas mãos principalmente. Agarrei as bordas de minha blusa, sentindo meu corpo tencionar. Respirei fundo. Estava quente. Tinha muita gente, muitas vozes, muito de tudo. Senti meu coração descompassar em meu peito, e minha visão tornar-se levemente desfocada.
Eu sabia onde estava. Estava onde precisava estar. Leo. Eu estava alí pelo Leo.
Fechei os olhos por um momento e respirei fundo uma vez mais. Meus olhos só se abriram novamente ao que senti um braço passar por detrás de meu pescoço e repousar sobre meus ombros, e o que vi foi Victor olhando em minha direção.
— Desculpe. – Ele falou, enquanto nos guiava para longe da multidão. – Eu devia ter imaginado que essa não era uma boa ideia.
Não falei nada. Olhei para o chão, observando a maneira como nossos pés andavam de forma sincronizada. Respirei fundo e soltei o ar devagar. Meu coração ainda não havia voltado a bater como normalmente, mas agora a razão era outra. O calor do seu corpo, o seu perfume – o mesmo da última vez –, o conforto que aquela proximidade me proporcionava… Eu temia me acostumar com aquela sensação, pois eu sabia que aqueles não eram gestos que eu normalmente receberia. Talvez nem recebesse mais.
Eu não sabia se o afastava ou se aproveitava o máximo possível da situação, e, antes que eu pudesse me decidir a respeito, ele se afastou. O calor de seu corpo logo me fez falta, apesar de eu ainda senti-lo perfeitamente sob minha pele.
— Acho que vamos ter que procurar outro lugar – ele disse, e eu então tornei a olhar em sua direção.
Jogando para longe os sentimentos que insistiam em aparecer nos piores momentos, pisquei algumas vezes e endireitei-me, desejando mais que tudo mostrar a ele que agora eu estava bem.
— Alguma ideia? – Perguntei. – Eu realmente quero assistir a apresentação do Leo – falei, olhando para o relógio de meu celular a fim de ver quanto tempo ainda tínhamos. Não muito, constatei. – Mas tem tanta gente que não sei o que podemos fazer.
— Um lugar mais alto? – Victor perguntou e começou a olhar ao nosso redor.
— É. Algo assim seria bom. – Eu murmurei, um tanto desanimado com a noite que mal havia começado.
Victor, porém, não mais me ouvia. E, antes que eu desse por mim, ele havia me segurado a mão. Guiando-nos entre as pessoas, ele caminhou contra o fluxo, afastando-se do palco. Olhei para nossas mãos, unidas, e sorri como o bobo apaixonado que eu era. Para minha sorte, Victor ainda olhava adiante, focado no caminho e em evitar esbarrões com os outros frequentadores do festival.
Enquanto isso, tudo que eu pensava era em como era bom sentir seu calor novamente.
Subimos numa pequena colina, que aparentemente havia sido ignorada pelo restante do público por ser relativamente afastada do palco e dos músicos, e sentamos no gramado. Quando Victor largou novamente minha mão, aceitei que não tinha jeito e que eu tinha mais é que agradecer pelo que eu já recebia.
Enquanto eu me ajeitava, sentando-me mais confortavelmente, Victor anunciou que ia buscar uns cachorros quentes e partiu antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ou pelo menos pagar pelo meu. Quando ele voltou e fiz menção de o pagar, ele disse que não precisava e me entregou o lanche.
— Está com frio? – Ele perguntou enquanto se sentava ao meu lado.
Balancei a cabeça em um não silencioso, pois havia acabado de dar uma mordida no cachorro quente. Victor observou-me comer e sorriu, fazendo com que meu rosto se esquentasse.
— O que foi? – Eu perguntei, apesar de não saber se eu realmente queria ouvir a resposta.
— Nada. – Ele falou, simplesmente. – Apenas gosto de te ver comer.
Olhei para o lado, embaraçado, e dei mais uma mordida no lanche. Quando terminei de engolir, e de me acalmar um pouco, virei novamente em sua direção.
— Você tem um gosto estranho. – Falei, olhando nos olhos azuis que não haviam me abandonado ainda.
Victor deu uma breve gargalhada e comeu de seu próprio cachorro quente. Rapidamente, desviei os olhos de si, ciente de que se eu não fizesse isso talvez eu caísse na tentação de o ficar olhando a noite inteira.
Para minha sorte, a banda de Leo logo começou a tocar, livrando-me de qualquer desejo idiota e irracional.
A música era agitada e contagiante, e espalhou-se pelo ambiente como o vento gelado em uma tarde quente de verão. Era agradável aos ouvidos e o canto de leo era agradável de se ouvir. Leo tocava uma guitarra elétrica, seus dedos correndo pelo braço de instrumento mais rapidamente do que eu poderia jamais acompanhar. Não que eu estivesse vendo muita coisa, pois a distância era muita.
Antes que eu percebesse, o público começou a bater palmas e a música havia acabado. Sorri, satisfeito ao ver o sucesso de meu amigo. Eu não podia esquecer de o parabenizar, quando me encontrasse com ele.
— Hey. – Victor chamou. – É o Guang alí, no canto do palco?
Olhei na direção para a qual ele apontava, mas tudo que eu via eram borrões.
— Não sei. Não enxergo tão bem assim.
— Ah, desculpe. – Victor olhou na minha direção, suas expressões as de alguém arrependido.
Porém, fui rápido em o tranquilizar. Até porque não era nada demais, e certamente não era algo com que ele precisasse se preocupar. Eu estava acostumado a enxergar mal.
Meu celular então tremeu em meu bolso, e quando o apanhei percebi que tinha recebido uma mensagem de Guang, perguntando-me se eu havia chegado a ir ao festival. Depois de digitar rapidamente uma mensagem e a enviar, Victor e eu descemos a colina e nos juntamos ao restante do grupo, e fiquei surpreso ao ver Phichit entre eles.
— Cara, não acredito que você veio sem mim! – Phichit exclamou, assim que a distância que nos separava tornou-se mínima.
Sem jeito, fiquei sem saber o que fazer, pois a verdade é que eu sequer cheguei a cogitar convidá-lo. A ideia de vir junto de Victor, só eu e ele, havia tomado todos os meus pensamentos nos últimos dias. Em momento algum pensei que podíamos convidar mais alguém. Afinal, não havia porque não convidar.
A palavra “amigos” ressoou novamente em minha cabeça, tão desconfortável quanto em todas as outras vezes. Por que eu não podia simplesmente aceitar que nós nunca seríamos nada além disso?
— Fui trocado! – Phichit exclamou, trazendo-me de volta à realidade. – Mas acho que não há nada que se possa fazer a respeito. Não é como se houvesse sequer competição. – Ele falou, de maneira dramática.
— Phichit! – Gritei, esperando que ele entendesse o recado. Por que ele sempre tinha que fazer esse tipo de coisa?
Com meu rosto quente pela vergonha que era inevitável, olhei na direção de Victor, imediatamente percebendo que ele estava um tanto desconfortável com a situação. Ótimo, pensei.
Victor, porém, pareceu ter sua própria interpretação da situação.
— Desculpe por não ver se você queria vir com a gente. – Ele esfregou a nuca, constrangido.
Phichit sorriu.
— Tudo bem. Eu vim com o Leo e com o Guang, e só estava brincando com o Yuri. Você não tem que se preocupar.
— Brincadeira sem graça – murmurei, mas minha voz, apesar de baixa, ainda assim alcançou os ouvidos de Phichit, que sorriu largamente como quem dizia que tinha graça sim.
Depois de trocarmos comentários sobre a apresentação de Leo, parabenizando-o pela excelente performance, a fome começou a incomodar alguns de nós. Aparentemente, exceto por mim e Victor, os demais não comiam nada há horas.
— Victor, pode ir comigo comprar uns sanduíches? – Leo perguntou, casualmente, e eles se afastaram.
Enquanto eu os observava irem em direção às barracas de comida que haviam sido montadas num canto afastado do parque, pensei em como as coisas entre eles haviam melhorado. E pensar que houve uma época em que eles sequer se olhavam… Bem, isso já faz bastante tempo.
— Você vai ficar secando o Victor e sorrindo feito um bobo até quando? – Phichit perguntou, fazendo com que meu olhar virasse na direção dos dois que continuavam em minha companhia.
— Ah… Eu não estava… – Mas eu sabia que não adiantava discutir com ele. Por isso, decidi apenas mudar o assunto. – Então você veio com eles?
— Phichit nos ajudou a trazer o equipamento. – Guang explicou.
— Se vocês estavam precisando de ajuda, era só ter dito. Eu também podia ter ajudado.
Guang e Phichit olharam um para o outro, ambos sorrindo, provavelmente se divertindo com as expressões perdidas que eu tinha no rosto. Agora, eu me sentia mal por não os ter ajudado e por ter passado todo o final da tarde comendo biscoitos e conversando com Victor…
— Não queríamos estragar o seu encontro – Phichit explicou, enfim, e pelo seu tom de voz pude perceber que ele estava se divertindo com a situação.
Sentindo meu rosto esquentar e meu coração bater cada vez mais rápido, fiquei sem saber o que dizer. Mas calar-me naquele momento era o mesmo que admitir algo que sequer era verdade.
— Não foi um encontro.
Guang e Phichit não falaram nada em resposta e apenas continuaram sorrindo. Cogitei tentar convencê-los de que realmente não era o caso, mas não foi difícil perceber que o esforço não valia a pena. Eu duvidava que conseguiria mudar a opinião deles, principalmente a de Phichit, mesmo depois de horas argumentando a respeito.
Pelo menos o início de uma nova apresentação serviu de distração, e começamos a comentar sobre o vocalista que agora se apresentava junto de sua banda. JJ, era o nome dele. O cara era bonito e cantava muito bem, mas falava alto demais para o meu gosto.
Assim que voltou e percebeu o assunto que havia sido trazido à tona, Leo rapidamente deixou sua opinião. De acordo com ele, JJ era um ótimo músico, mas não era alguém com quem ele interagia normalmente.
— Ele é meio que… Demais. Não sei como explicar de outra maneira. Tudo nele parece ser um exagero. Ele não é uma pessoa ruim, mas eu não gostaria de ficar preso num elevador com ele.
— O fato dele saber o quão bom músico ele é também não ajuda. – Guang complementou, suas expressões cansadas como as de alguém que relembrava experiências ruins do passado.
Victor permaneceu em silêncio e eu o encarei por um momento, perguntando-me se havia acontecido alguma coisa. Desde que ele e Leo voltaram, tudo que ele fez foi distribuir os sanduíches e ouvir a nossa conversa, sem demonstrar qualquer interesse em participar.
Quando se deu conta de meu olhar, ele olhou em minha direção e sorriu gentilmente. Eu estava prestes a perguntar se estava tudo bem quando Phichit me arrastou de volta para dentro da conversa, pedindo minha opinião sobre um assunto que eu não mais acompanhava.
Depois de conversar com Phichit e com os outros um pouco, voltei a olhar na direção de Victor. Ele não mais olhava para mim, seus olhos virados na direção do palco, onde a última banda da noite já se apresentava.
.
—--
.
Quando foi hora de partir, Victor insistiu em dar uma carona a todos. Era tarde e ele se negava a deixar qualquer um voltar de transporte público. Por isso, nós nos apertamos todos em seu carro, eu e ele sentados na frente, e os demais no banco traseiro.
O trajeto foi animado, uma música agitada tocando no rádio. Conversas que não pareciam ter um assunto específico, mudando de tópico a cada três minutos, tomavam conta do ambiente abafado. Apesar de ser tarde, ninguém parecia cansado o suficiente para se ausentar da conversa, e até mesmo Victor fazia um comentário de vez em quando.
Ele foi deixando cada um na porta de suas respectivas casas até que sobrasse apenas eu e ele no automóvel que se tornou cada vez mais frio. De repente, nós nos vimos sem assunto, e nem mesmo a música trazia-nos ânimo.
Observei as ruas vazias da madrugada, pensando na volta desnecessário que ele havia dado enquanto nos levava. Talvez ele não conhecesse bem a região, pensei, mas logo percebi não ser esse o caso. Foi de propósito, e dei-me conta desse fato quando, assim que ele estacionou em minha rua, ele se virou em minha direção e me encarou seriamente, seu nervosismo aparente.
— Você ainda vai me ensinar a cozinhar? – Ele perguntou, de repente.
Sinceramente, não entendo de onde veio aquela pergunta. Perguntei-me se era a respeito disso que ele havia pensado a noite toda, em seus momentos de silêncio.
— Sim, como combinamos… Assim que você resolver a questão do emprego.
Victor ficou em silêncio por alguns instantes. Ele estava tenso e eu não entendia o porquê; tudo que eu sabia era que seu nervosismo era contagiante. Não demorou até que eu me visse inquieto no banco, desejando mais que tudo entrar logo em casa para fugir daquela situação desconfortável. Eu remexia as mãos, que repousavam em meu colo.
Victor não dizia mais nada e isso estava acabando comigo. Quando ele enfim extinguiu com o torturante silêncio, vi-me aliviado.
— Na verdade, eu queria falar justamente disso. Do emprego. Acho que talvez em minha casa a coragem apareça…
Eu ouvia com atenção cada palavra que ele dizia, processando-as lentamente. Era fácil perceber o esforço que ele estava fazendo para admitir tudo aquilo. Ciente de que eu tinha de reconhecer seu esforço, aceitei sua proposta.
— Mas estou trabalhando no final do livro, então não tenho como tirar um dia sequer de folga no momento.
Victor ficou obviamente decepcionado com minha resposta, visto que suas sobrancelhas e seus lábios curvaram-se para baixo. Ele então disse que entendia, desistindo, e complementou dizendo que certamente apareceria algum momento onde a gente pudesse conversar, no futuro, mesmo que fosse no GAPAD.
Apesar da firmeza e confiança que ele tentava exibir, sua insegurança era perceptível. Eu odiava vê-lo assim.
— Desculpe. Assim que eu tiver um tempo eu te aviso. – Eu desviei os olhos, naquele momento já tendo feito minha decisão. – E então eu vou na sua casa...
Victor não parecia ter esperado por aquilo. Provavelmente achou que as chances eram nulas. Quão enganado ele estava… Ele sorriu, aliviado.
— Mas não tem problema deixar o seu amigo esperando por tanto tempo? – Perguntei, desejando que isso resolvesse o problema que era os seus olhos, que me encaravam com tanto brilho e expectativa. Victor realmente não sabia o que fazia comigo...
— O dono é um amigo meu, que só me ofereceu esse emprego para me ajudar. Ele não está realmente precisando urgentemente de funcionários. – Ele explicou.
Anui a cabeça, em sinal de compreensão. Então, eu disse boa noite e sai do carro.
Fale com o autor