Open wounds, closed heart
28 Dia 28
28/10/2017
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Era bem cedo quando saí de casa acompanhado por Phichit, que havia sido convidado por Minako para aparecer em mais palestras depois de se mostrar tão interessado. Tentando manter a tradição, fomos até a casa de Guang a fim de preparar pratos para levarmos ao lanche comunitário. Lamentavelmente, Victor não pode se juntar a nós, pois tinha de levar Makkachin ao veterinário. Por outro lado, sem ele lá para me distrair, a torta doce que Phichit e eu fizemos ficou deliciosa.
Já no GAPAD, enquanto esperávamos o início da palestra, recebi uma mensagem. Assim que me viu pegar o celular na mão, Guang perguntou se era Victor. Repassei a mensagem de que ele, apesar do atraso, chegaria em breve, mas que a demora na veterinária quase o obrigou a se ausentar hoje. “Por que ele não vai em um lugar mais perto?”, Leo perguntou, e expliquei sobre como Makkachin não se dava bem com qualquer pessoa, e que demorou um tempão para achar alguém que ele aceitasse. “Vocês falam de umas coisas bem aleatórias”, Phichit comentou e eu respondi dizendo que, já que nós dois tínhamos poodles, era normal falar dessas coisas.
Guang então comentou, surpreso, que não sabia que eu tinha um poodle, e Phichit ficou ainda mais surpreso ao descobrir que eu não mandava duzentas mil fotos do Vicchan para eles, como fazia com ele. Falei que eu não desejava incomodar os outros, recebendo uma interrogação de meu melhor amigo, que desejava saber se era só ele, então. Sorri, e disse que ele era especial.
Phichit havia acabado de pular sobre mim, bagunçando meu cabelo propositalmente e fazendo todos nós rir, quando Victor chegou e perguntou qual era a piada, sorrindo. Imediatamente todos se inquietaram e olharam na direção dele, e talvez até compartilhássemos o mesmo pensamento. Havia algo de estranho em Victor, porém, eu não sabia bem o que, apesar de seu sorriso incomodar-me um pouco…
Antes que o ambiente se tornasse desconfortável, Phichit se afastou de mim e perguntou por Makkachin, desejando saber como ele estava. Victor informou que ele estava bem, mas que cuidado nunca era pouco, já que ele era um cachorro velho. E então um silêncio desconfortável surgiu, e só nos livramos dele quando Minako se pôs a frente da lousa branca, bateu palmas e falou para todos se sentarem que a palestra iria começar.
O tema de hoje foi como animais podem ajudar a superar momentos difíceis, e tudo que consegui pensar foi na enorme coincidência de estarmos falando disso justamente hoje. Olhei Victor de esguelha, perguntando-me se seria por isso que ele tinha Makkachin, mas então me lembrei Makka era bem mais velho que os problemas que o assolava. De repente, Victor olhou para mim e nós cruzamos olhares, porém, ele rapidamente virou a cara, deixando-me subitamente sem chão.
Será que eu tinha feito alguma coisa? Ou talvez algo o estivesse incomodando… Ou… Será que ele não contou tudo a respeito do Makkachin? Será que ele não havia sido sincero, quando falou de seu cachorro mais cedo? Vi-me incomodado por esses pensamentos durante todo o tempo da palestra, e também do pequeno intervalo que só serviu para me deixar ainda mais ansioso, já que não apareciam oportunidades para eu falar a sós com Victor.
Durante o lanche, aproveitei que meus amigos haviam ido se servir dos pratos que esperavam no fundo do salão e segurei Victor pelo braço antes que ele se afastasse demais. Perguntei se podíamos conversar e ele, surpreso, apenas anuiu e me seguiu até o quintal, onde sentamos na mesa que jazia desocupada.
Ficamos alguns segundos em silêncio, apenas encarando um ao outro. Eu sabia que o estava deixando ansioso, mas dentro de mim as incertezas cresciam e – como sempre – eu temia perguntar algo que não devia. Decidi por as palavras para fora antes que eu mudasse de ideia.
“Aconteceu alguma coisa?” Victor respondeu que não, e eu então comentei sobre como ele estava agindo um tanto estranho e que isso havia me preocupado. Confrontado pelo silêncio, expliquei que achei que talvez ele estivesse escondendo algo a respeito do Makkachin. “Ele está bem, né?”, perguntei, ansiosamente, desejando muito uma confirmação. Em resposta, ele sorriu e suas expressões imediatamente suavizaram, aquecendo-me o peito.
Depois dele agradecer pela preocupação e de me certificar de que seu cachorro estava mais do que ótimo, nós nos levantamos para esticar as pernas e andamos pelo quintal, indo de um canto ao outro. O bom de caminhar é que sempre ajuda a desestressar, provavelmente por termos algo para nos ocupar ao menos um pouco. Sinceramente, não sei se tem uma explicação.
Enquanto caminhávamos lado a lado, falei que eu entendia o quanto Makkachin significava para ele, pois eu mesmo tinha Vicchan, e a ideia de um dia me separar dele era péssima… Victor concordou, dizendo que tentava não pensar no assunto, pois o próprio pensamento já era insuportável.
Imediatamente percebi que havia cometido um erro.
Parei ao ver que ele havia travado no lugar. Eu tentei intervir, mudar de assunto, mas já era tarde e Victor já havia se perdido nas trevas que viviam dentro dele, seu rosto tornando-se pálido ao que ele murmurava do futuro que o assombrava, mesmo não tendo acontecido ainda. Não demorou até que o passado viesse o assombrar, também.
“Já perdi tanta coisa”, ele murmurava, seu corpo tensionando, seus olhos caídos, fixados no chão. “Minha família, minha carreira… Não posso perdê-lo também.” Seus olhos azuis estavam marejados e eu me culpava por trazer aquelas emoções à tona. Eu tinha que o acalmar. Era minha obrigação extinguir com a tempestade que eu próprio havia provocado.
Sem pensar, puxei Victor para um abraço, apesar de não ter ideia do que eu esperava alcançar com aquilo. Meu corpo havia se movido sozinho e eu não tinha ideia do que mais eu podia que fazer, então acho que foi melhor do que nada. Pelo menos, isso pareceu ajudar. Victor parecia surpreso por se ver de repente envolto por meus braços, mas não falou nada; apenas encostou a cabeça na curva do meu pescoço e chegou mais para perto, respondendo ao gesto e acolhendo-me em seu peito.
Eu o deixei estar até que se acalmasse, implorando apenas para que ele não percebesse o quão rápido meu coração batia por causa dele.
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