Ontem Felipe. Hoje não mais.

5 Capítulo 5 - Novas experiências


Notas iniciais
"Seja bem-vindo". Não me canso de ouvi-la falando isso, mesmo que sem querer.

Só era possível escutar sobre a viagem em todas as salas. Os meninos gritavam "AS GAROTAS DE BIQUÍNI!" e as garotas, "O MAR!". Enquanto eu apenas ficava ali sentado tentando entender o como todos poderiam gostar tanto da praia. Nós ainda estávamos na escola e a viagem seria só daqui a uma semana, mas, mesmo assim dava para ouvir quase todas as salas gritando sobre isso.

Eu apenas imagino o como os outros devem estar. Renata provavelmente está nem aí com tudo isso, Mike deve estar revirando seu armário, procurando por algum vestido que caiba nele para a viagem, Lara... nada a comentar. Britany deve estar vendo os melhores lugares da cidade. E a Flávia deve estar gritando mais alto que todos, entusiasmada.

Não fiquei muito afim de seguir a Renata hoje, ao invés disso, eu fui para a loja que estava no panfleto.

–"Loja de incoveniência"... sério? — Eu nem se quer entrei e já estava com vontade de ir embora, eu fiquei alguns segundos me questionando o nome dessa lojinha. Até que entrei, quando pisei um pé na loja vi uma menina empinando logo na entrada para pegar uma caixa de laranjas a sete centímetros de mim. — Ahm... oi? — Foi o modo de eu chamar sua atenção.

Assim que ela se virou percebi que era Flávia, era visível que seu rosto estava ficando corado e sua mão em alta velocidade chegando cada vez mais próxima da minha cara. "PAF!" ela me acertou em cheio com suas mãos pequenas. Que provavelmente está vermelho agora.

–P-por que está aqui?! — Ela me perguntou surpresa.

–Eu é que deveria estar surpreso, sou um cliente! — Retruquei enquanto pegava meu óculos que caíra perto da caixa, na qual eu peguei também.

–Ok, ok... — Respirou fundo. — Bem vindo. — Sua cara parecia uma de um anjo enquanto falou isso. Por dois segundos. — Agora, SAI DAQUI!

–Ei, ei, ele é um cliente... e para de gritar! — Uma voz que parecia com a de um senhor já de idade soou do porão, parecia ser o seu chefe.

–Tá bom chefe — Flávia berrou novamente, o retrucando.

–Já falei que é para me chamar de pai! E para de gritar. Agora me ajude à carregar essas coisas.

Flávia ficou bufando durante poucos minutos. Resolvi me manifestar, eu levei a caixa para o depósito e fiquei conversando com o pai dela enquanto o ajudava, um senhor de idade, simpático, com alguns cabelos à menos, já era meio corcunda tanto que ficava do mesmo tamanho que Flávia, por sorte não precisava usar uma bengala ainda. Peguei um avental para não me sujar e comecei a ajudá-lo. Nós estávamos limpando o porão, eu ia de um lado para o outro, sempre passando pela recepção vendo-a dormindo em cima da bancada. Eu olhava para seus cabelos cobrindo a metade de seu rosto, com as pontas grudadas em sua boca. Quando ela acordou já era fim de tarde, quase de noite.

–Ah, eu dormi. — Ela começou a falar, calmamente esfregando o seu olho, após maravilhosos dois segundos e foi quando ela realmente acordou e começou a gritar. -Ah! Eu dormi? Por quanto tempo?! São que horas?! Me responde. — Ela ficou me sacudindo enquanto fazia esse escândalo todo.

–Bem, você dormiu muito. Seu pai me falou que você havia passado a noite toda acordada fazendo o panfleto. Falando nele, ele foi na casa de um amigo dele, ele pediu para eu ficar aqui te vigiando. Mas acho que eu já vou embora. — Falei isso enquanto me espreguiçava.

–Ah, obrigada, e... Você vai trabalhar aqui? — Uma das coisas mais interessantes que eu achava nela é o fato dela conseguir ouvir atentamente o que a outra pessoa fala. Seus olhos verdes ficam fixados na pessoa, não importando quem seja. Seus cabelos ruivos nos quais cortam até seu ombro caiam de leve em seu rosto formando uma franjinha, ela estava tão próxima que eu podia até mesmo ouvir sua respiração longa e quase silenciosa, eu olhava em seus olhos e percebia que eles brilhavam como as estrelas que estavam no céu daquela noite. Parei um instante de respirar, ouvia apenas o bater do meu coração como um martelo em minhas costelas. Tornei minha cabeça para cima e minha boca se movimentou sozinha enquanto soava um som que fazia muito tempo que eu não falava;

–Sim, eu irei. — Me levantei e olhei para ela, sua cara de felicidade não tem como não ser prazerosa, eu poderia ficar ali e olhar para ela a noite toda, mas eu não acho que estou preparado para isso. Tornei-me para a porta e fui embora com passos largos mas demorados, em uma mão o avental azul e na outra meu casaco com minha mochila nas costas. Me sentia livre novamente.

Na manhã do outro dia eu acordei mais cedo do que o normal, então resolvi ir mais cedo para o colégio também. Assim que cheguei vi Renata de mão dadas com Mike logo na entrada, minha cabeça ia começar a explodir novamente. Por sorte, antes de eu começar a correr, Flávia berrava meu nome, me virei para ela e dei uma risadinha para mim mesmo. Ela fazia gestos com as mãos, me chamando, sem nem pensar duas vezes, fui caminhando até ela.

–Eu quero esclarecer duas coisas. — Ela falou como se fosse uma comandante do exército. — Primeira, — Murmurou. — Não fale do trabalho aqui na escola. E a segunda lhe falarei na lojinha. — Falou saltitando para sala enquanto cumprimentava todo mundo.

Na hora do almoço, como de costume, eu fui para o meu cantinho. Daniel não o frequentava mais, porém agora Flávia também ia até lá, só que era para falar de uma outra coisa.

–Ok, como eu já percebi, toda vez que você vê a Renata com o Mike você tenta correr, certo? — Ela começou, assenti com a cabeça. — Então começaremos com alguns conselhos que eu te dou. Não se prenda à uma única coisa, isso pode te trazer problemas no futuro, assim como nós percebemos agora. — Ela se agachou próximo de mim. — Se você não parar com essa obsessão, não irá adiantar de nada esse treinamento, ao menos tente, por favor. — Seus olhos brilhavam novamente, mas dessa vez era de determinação.

Vi que logo do seu lado estavam duas laranjas, sempre tive essa curiosidade e abri a boca.

–Por que você tem sempre alguma laranja perto de você? Está sempre usando uma presilha que é a flor da laranjeira com até mesmo o seu cheiro maravilhoso, seu caderno, sua bolsa tem uma laranja no zíper e sempre tem a fruta ao seu lado.

Ela virou-se para mim sorrindo:

–Acho que é minha obsessão.

Ficamos calados até o fim do almoço, ali, parados, olhando para todas aquelas árvores. Enquanto ela comia suas laranjas eu pensava no como eu me desapegaria da Renata, eu estava frustado, não conseguia me livrar dela. Eu tento, mas mesmo assim não consigo, toda vez que eu vejo ela eu me lembro daquele beijo.

–Queria poder esquecer as coisas facilmente. — Deixei escapar sem querer da minha boca enquanto eu olhava para a cerejeira em cima de nós. Flávia ficou olhando para baixo e murmurou;

–Não queira. — Eu a via, eu a tocava, eu a sentia, mas não a entendia. Queria poder saber o que se passava em sua cabeça, aposto que está sempre em guerra consigo mesma.

O dia estava se acabando, eu estava na loja com Flávia, treinando para me livrar daquela minha tenção. Eu comecei a perceber um lado de Flávia que eu nunca percebera, acho que quando ela muda de áries ela muda de personalidade, uma personalidade boa, aconchegante, parece que te atrai, é impossível não se encantar com tamanha beleza.

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Fui mais cedo novamente para o colégio e novamente vi Renata e Mike andando de mãos dadas, olhei atentamente para aquela cena. Como flashback imagens passaram-se em minha cabeça, a mesma imagem do beijo repetidamente, uma rua sem saída, um corpo sem alma, um coração sem sangue, uma vida sem amor. Eu procurava a solução novamente, até que outras imagens apareceram, eram imagens de um sorriso, um sorriso que não pode ser visto em nenhum outro lugar, sorriso magnífico como aquele não era tão fácil de se achar. Eu ficava horas pensando em como eu iria resolver meu problema, mas eu não precisava pensar, era apenas eu olhar para trás de mim. E lá estaria ela, novamente. Flávia é minha solução, olhei para ela, dei um sorriso enquanto as imagens ruins saiam como se fosse água de minha mente. Eu estava ficando livre, seu sorriso estava ali, ela estava ali, minha solução estava ali. Flávia é meu antídoto, só preciso saber como usá-lo.

Notas finais
Você está pronto! - Foi o que ela disse, tomara que seu sorriso esteja certo novamente.