Ontem Felipe. Hoje não mais.
6 Capítulo 6 - Jornada Inesperada
Notas iniciais
Passei a acordar mais cedo, acho que já se tornou um hábito. Preparei mau café, ovos com bacon com uma cara imparcial, como sempre. Tomei banho, gelado e me arrumei. Chequei meu celular para ver o horário e percebi que hoje é domingo. Me sentei na frente da TV para ver se estava passando alguma coisa boa e novamente não estava. Me deitei no chão, ergui minha cabeça para o teto e vi a luz da lâmpada ofuscando minha visão, uma luz amarelada e forte.
Por razão nenhuma, fui para as duas colinas, vai que alguma acontecesse lá... poderia melhorar meu dia. Não havia quase ninguém passando na rua, apenas alguns carros que apareciam e sumiam na extensa estrada. Pouco tempo depois de eu chegar ali, Flávia apareceu segurando um caderno, alguns lápis e canetas em sua mão. Ela usava um vestidinho amarelo, com a mesma presília em formato de uma flor branca com cheiro de laranja de sempre em seu cabelo, caminhava com uma sandália vermelha e algumas pulseiras com pingentes.
–Oi — Ela falou enquanto tentava olhar para mim, botava a mão na cara tendo a expectativa de tapar o sol.
–Oi — Respondi.
–Por que veio para cá tão cedo? — Ela falou quase chegando em mim, porém tropeças e cai de cara na grama. Não consegui conter uma risada de leve.
–Para ver isso. — Falei caindo na gargalhada.
–Eu mereço. — Admitiu enquanto catava seus papéis de volta. Percebi que havia um desenho similar ao meu rosto com alguns rabiscos próximos ao tal desenho. Pensei em perguntar, mas achei que seria meio constrangedor. — É apenas um esboço. — Ela olhou para mim debaixo para cima, pegando o desenho.
–Ok, não falei nada, apenas vi que estava ficando muito bom. — Afirmei. — Aliás, você sempre vem com uma folha nova em todas as vezes que nos encontramos aqui. Eu p-posso ver? — Perguntei.
–Claro! — Ela respondeu com um sorriso, me mostrando os desenhos, começando pela primeira vez que nos vimos. Uma visão de mim segurando as caixas de laranja, parecia muito realista, super-detalhado. Após esse era possível ver as duas colinas vistas ao pé delas, ao fundo um pôr-do-sol amarelado. Seu último desenho era da loja, era como a realidade, mas vista por seus olhos, no desenho, ela estava me olhando deitada na bancada da recepção e eu estava olhando para cima, seus detalhes eram simplesmente incomparáveis, não havia como alguém não gostar daquilo.
O dia passava como vento naquela tarde, logo o sol estava se pondo, enquanto eu a via concentrada no seu desenho atirava algumas das bolas de papel que ela fizera com os seus erros.
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Segunda-feira, logo de manhã nós já estaríamos começando à fazer a viagem. Mas o ônibus se atrasou três horas e ficamos três turmas ao lado de fora do colégio naquele sol escaldante que derretia cada osso de cada aluno naquele pátio enorme. Assim que os ônibus chegaram todos saíram correndo feito loucos para pegarem o assento debaixo do ar condicionado primeiro, as turmas estavam todas misturadas, até os professores haviam corrido desordenadamente. O importante era que estávamos todos dentro.
No meio da viagem, eles ligaram o karaôke que haviam trazido. Mas ninguém estava indo lá cantar.
–Chama um dos membros dos ajudantes de Vincent. — Alguém gritou.
–Mas Felipe é o único do clube que está neste ônibus! — Outro berrou.
–Ah, então chama uma pessoa qualquer aí!
Eu ficava enfurecido com o fato deles simplesmente me ignorarem como se eu fosse ninguém, então juntei coragem e levantei-me para ir à frente e mostrar-lhes que eu não estava com medo deles. Foi o que eu pensei, até eu ir próximo à máquina para escolher a música. Eu estava com muita vergonha e tenção, todos estavam calados e me olhando atravessadamente. Minha mão começou a suar e eu quase caía duro naquele chão. Por sorte eu senti alguém tocando meu ombro. Percebi que todos do ônibus comentando e cochichando no ouvido de cada um. Olhei para o lado e vi Flávia sorrindo, ela esticou seu braço para frente, clicando em uma música e começando a cantar o que estava no projetor. Seus olhos e seu sorriso me davam segurança. Eu queria que aquele momento durasse para sempre, mas eu sei que não demoraria muito, então aproveitei e me juntei à cantoria. — Nunca me esquecerei. — Sussurrei tão baixo que quase nem eu escutara.
Nós nos sentamos em nossos respectivos lugares, enquanto os outros do ônibus ficavam boquiabertos. Eu não conseguia pensar em literalmente nada. Era apenas possível ouvir as vozes dos outros cantando e meus pensamentos gritando mais do que as gargalhadas que davam no ônibus.
Em algumas horas de viajem a mais, chegamos ao local desejado, O Monte Umbra. Muitos quando chegaram ficavam comentando que havia boatos de que alguém havia morrido ali e ainda volta para assombrar aquele lugar. Eu não me importo muito com esse tipo de coisa, pois eu sei que são apenas boatos.
Todos ficavam em dormitórios separados em "meninos" e "meninas". Menos os membros do nosso clube, cada um ficava com um quarto separado. Era em uma espécie de chácara, dois casebres separam os dormitórios. Um deles é revestido de madeira escura recém aplicada com verniz com detalhes na parede bege, mas como estava sujo, era quase considerado um cinza. No outro lado, também revestido por madeira, porém com uma mais clara, desta vez com detalhes roxos nas laterais.
Os quartos do pessoal do nosso clube eram separados, haviam caminhos de pedra que nos levavam para cada cabana uma ao lado da outra, porém separadas por um lago, que podia ser atravessado por uma ponte em forma de arco. Provavelmente seria muito bonita, aquela visão, se estivesse de dia. Mas como já estava ficando tarde, todos fomos para nossos quartos.
Apaguei as luzes, pus meu pijama branco. Eu não conseguia dormir, fiquei deitado na cama olhando para o teto. Me peguei pensando no que Flávia estaria fazendo, o como ela estaria dormindo, ao menos, se ela estaria bem. "Por que raios eu estou pensando nela?!". Eu ficava coçando a cabeça enquanto me instigava na cama, rolando de um lado para o outro. Me assustei quando ouvi um toque sutil à porta, fui certificar o que era, mas acabei chutando o pé da cômoda. O quarto estava totalmente escuro, tentei me lembrar de como era. Após a cômoda, havia uma estante em forma de "L" encostada na parede. A porta ficava entre a estante e o banheiro, tentei ir me guiando tocando nas coisas, com cuidado para não tropeçar em nada que deixei no chão. Conforme eu chegava mais próximo da porta, o som das três batidas ficavam mais estrondosos, tudo que se passava em minha cabeça momento era:
–Quem pode ser à essa hora? — A cada sequência de três batidas essa mesma pergunta soava em meus pensamentos.
Assim que abri a porta minha mente deu um branco, bastava eu olhar seu cabelo de cima com sua presilha, seu cheiro de laranjas exalando o local não importando aonde esteja, que meus olhos começam a brilhar. Mas eu continuava com a mesma pergunta, porém reformulada.
"O que Flávia poderia estar fazendo no meu quarto à essa hora?"
–Bem, eu estava terminando o desenho, e... Acabou saindo isso. — Ela falou sussurrando, próxima a mim, parecendo um anjo, com seu rosto corado e com uma respiração ofegante. Estava mostrando o desenho em que estava eu e ela, nos encarando e sorrindo.
Fiquei sem o que falar, não sabia como reagir, eu estava confuso.
–Por que? — Deixei escapar aterrorizado. Me agachei, enrolava meus braços em volta das minhas pernas, eu me tremia.
–O que houve? O que eu fiz? — Flávia me perguntava na realidade, nem eu sabia o que eu tinha. Imagens vinham à minha cabeça conforme eu me lembrava de seu desenho, eu via uma mulher, que também desenhara para mim quando eu tivera oito anos.
"Desculpa... Mas eu tive que ir." Eu repetia na minha mente, enquanto me estremecia, parado, chorando. Ouvia a voz de Flávia desaparecendo ao fundo e meus olhos se fechando aos poucos, com o mesmo pensamento, de culpa.
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