Ontem Felipe. Hoje não mais.
4 Capítulo 4 - Um novo Eu
Notas iniciais
Olhei para aquela cena deplorável em que meus olhos não conseguiam ver por mais de dois segundos. Como impulso, minhas pernas se mexiam sozinhas, eu tentava pará-las, mas não conseguia. Eu tentava fazer aquela dor parar, mas não conseguia. Eu estava confuso, sem pensar, comecei a correr para longe daquele lugar no qual eu costumava frequentar. Gritei olhando para a garoa que ali já se formava, para longe das preocupações eu tentava correr, procurava um lugar em que eu me esqueceria de tudo, mas não achava. Eu já estava no limite, sentia cada gota tocar-me como uma pétala de rosa, sentia meu coração acelerando e parando, eu pensava que ia morrer. Eu estava chegando ao fim de uma rua sem fim, eu era só mais uma alma naquele mundo. Não tinha razão de eu estar ali. A rua continuava numa estrada para outra cidade, mas antes da estrada era possível ver uma colina com duas lindas e bem cuidadas árvores ao topo. Sem quase enxergar nada por conta das lágrimas, eu sobia lentamente a colina, tentando alcançar a árvore. Olhava para um lado e via o vazio, um mundo com liberdade e tranquilidade em que ninguém me atrapalharia. E no outro lado, na outra árvore...
–Oi — Vi Flávia sentada desenhando a paisagem da cidade. Tudo parecia estar se acabando, eu estava tendo um colapso a cada segundo em minha mente enquanto meus olhos explodiam de tanta raiva e tristeza ao mesmo tempo, a cada passo que eu dei o mundo parecia estar caindo aos pedaços, era cada vez mais difícil andar com aquelas pernas cansadas de fugir. Até que encontrei uma luz no fundo de uma rua infinita de pura mágoa e ódio cheio pelas águas da tristeza. Flávia estava lá, sentada apenas me observando cair em um abismo profundo, desaparecendo na penumbra do arrependimento. Tento me esconder debaixo de uma árvore, cubro meu rosto entre minhas pernas para ver se eu conseguia escapar daquela realidade. Eu não consegui, mas continuo sentindo que dá, só não sei o como.
–Você está chorando? — Ela disse enquanto seu caderno de desenhos caía na grama úmida e esverdeada. Eu olhava pelo buraco entre meus braços comprimidos e minhas pernas que já estavam tortas. Flávia vinha correndo pelo espaço entre as duas árvores tentando me alcançar. — Por favor fala comigo, o que houve? — Fiquei calado. Ela estava começando a chorar e eu comecei a ficar mais confuso ainda e resolvi me manifestar.
–Para de chorar, assim eu me sinto culpado. — Falei limpando as lágrimas de meu rosto e observando seus lindos olhos verdes cobertos por lágrimas debaixo de uma franja que ela deixara cair.
–Só paro se você me contar o que aconteceu! — Ela berrou, me olhando séria. Tentei explicar a ela o como eu me sentia e incrivelmente, pela primeira vez na minha vida, o olhar dela estava centrado em mim, de vez em quando caía uma lágrima. Naquele momento ela me fez eu me sentir do mesmo jeito que eu me sentira quando tinha sete anos, parecia um flashback. Assim que terminei de contar, percebi que o céu já estava se abrindo e seu rosto já estava seco, seu cabelo ainda molhado, seus olhos estavam se fechando e meu coração ainda gelado. Ela se deitou na grama e exclamou;
–Ah! Que bom que você me contou, estava meio chato ficar aqui todos os dias, sozinha... apenas desenhando e depois indo para a lojinha, alás obrigada por se juntar ao grupo, faz meses que ela já falava conosco sobre o quinto participante, te devo uma. — Fui me levantando, me espreguicei olhando para sua cara de satisfação e relaxamento. Pensei em ficar ali, deitado ao seu lado, sem pensar em nada além daquele momento. Mas eu me virei e fui descendo a colina, já na estrada mesmo, me virei e disse relativamente baixo:
–O-o-obrigado... — Naquele rosto angelical era possível perceber uma leve risada .
No outro dia, cheguei na escola assustado com o que ela poderia falar e com medo de ver Renata ou Mike, talvez eu mudasse de escola, de novo. Só que tudo continuava da mesma forma, todos se abriam para eu passar, eu acho que o pessoal do clube até mesmo trocou o nome do clube por minha causa (trocou para "Os Ajudantes de Vincent", já que eu sempre sugeri). Até mesmo a Flávia não tinha nem falado comigo, ela apenas chegou na minha mesa e deixou um panfleto.
–"Procura-se novos empregados" — Li cochichando para mim mesmo. Olhei para o lado e percebi que ela já havia saído da sala, pensei em segui-la mas aguardei até ela sair do corredor para me direcionar ao meu cantinho. Eu temia que Daniel estaria lá novamente, então decidi ir apenas para trás do ginásio pensar sobre aquele panfleto, eu notei que o endereço daquele lugar era próximo da colina em que eu havia encontrado Flávia, amassei a folha e a deixei cair, abaixando a minha cabeça cabeça para tentar esclarecer tudo o que estava acontecendo nos meus pensamentos, se tudo era apenas uma brincadeira sua ou mais um de seus mistérios que eu nem se quer sabia. Eu estava seriamente confuso com o que eu deveria fazer, eu deveria confrontá-la e ir aonde ela quer me levar? Ou apenas ficar aqui esperando o mundo dar voltas.
Senti uma mão macia me tocar, olhei para cima sem enxergar muita coisa já que o sol estava em cima de mim. Ouvi uma voz doce e convidativa me chamar com um belo sorriso estampado em seu rosto familiar:
–Vamos voltar! Acho que esse lugar não é tão bom para sua pele, debaixo desse sol...- Ela falou me levando para um lugar no qual eu sabia decorado, olhei para os lados e vi que havia muitas decorações, quando olhei para frente, notei que havia quase todos do clube dos ajudantes de Vincent menos Mike e Renata. E o mais engraçado é que eles estavam no meu cantinho. Me esperando, tentei correr novamente de minha preocupações, um jeito nada convencional de alguém lidar com seus problemas. Parei de correr, pois vi que havia alguma outra pessoa chegando perto dali, arregalei os meus olhos ao ver quem era, abaixei minha cabeça e fiquei em silêncio, olhando para os meus sapatos sujos de terra e ouvindo minha respiração forte.
Quando sua voz soou em meus ouvidos meu coração acelerou, sua compaixão tocava no fundo de minha alma sem vida, parecia uma guardiã para mim, era ela quem me mantinha parado e à sua espera eu permanecia imóvel.
–Esse é o lugar, não é? Desculpe o atraso. — Me parecia que ela estava perdida. Olhei para cima.
–Está no lugar certo — Falei sem exitar abrindo um incrível sorriso de orelha a orelha.
–Ele está sorrindo? — Todos a minha volta falaram juntos surpreendidos.
–Uhum! — Flávia, a garota na minha frente, afirmou sorrindo. — Bem vindo. — Meus olhos arregalaram-se e eu percebi que meu coração ainda batia por alguma coisa, ou alguém. Foi quando percebi que eu ainda estava vivo nesse mundo.
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