Only You
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Ainda não amanheceu.
Tento voltar a dormir, fechando novamente meus olhos e deitando de lado, apoiando uma mão embaixo da cabeça.
Meu irmão. Vejo sua silhueta em minha frente, no meio de uma grande escuridão. Ele caminha em minha direção, com uma expressão vazia e triste em seus olhos. Não consigo me mover, nem falar, nem raciocinar direito.
– Beatrice, não há mais tempo. Aconteça o que acontecer, não volte para a Erudição. Nunca mais volte para lá. Eles sabem que eu a ajudei, e serei executado – ouço-o dizer calmamente.
Mas antes que possa processar o que ouvi, abro meus olhos e me deparo com Peter, deitado de frente para mim.
Estava sonhando, mas por que parecia tão real? Isso foi uma...premonição?
Sinto um calafrio ao lembrar das palavras de Caleb em meu sonho.
“Nunca mais volte para a Erudição”, “Serei executado”.
Sento-me na beirada do colchão e encaro uma das janelas, esperando calmamente até o dia amanhecer.
– Acordou cedo – murmura Peter, sentando atrás de mim e apoiando seu peso em minhas costas. Inclino a cabeça para trás e o encaro.
– Digamos que tive um...pesadelo – digo.
– Ah...e eu estava nele? – pergunta soltando uma risadinha. Balanço a cabeça.
– Só o meu irmão – respondo – no sonho, ele disse que seria executado...o que você acha que isso quer dizer? – pergunto, olhando fixamente para Peter. Ele dá de ombros.
– Não sei. Talvez seja um mau pressentimento, quem sabe...mas não significa que isso vá mesmo acontecer – responde. Sinto como se um enorme peso tivesse sido tirado de dentro de mim, e me sinto bem mais leve agora. Foi só um sonho.
– Bom dia para vocês – fala Christina, bocejando. O colchão onde dormiu fica a uns cinco colchões de distância do meu. Ela passa por cima de vários colchões – quase pisando nas pessoas – até chegar onde eu e Peter estamos. Ela senta de frente para mim e Peter.
– Bom dia – respondo, tentando não parecer tão tensa. Ela sorri para mim, depois olha para Peter.
– Peter – diz ela, com um tom sedutor na voz – não vai dizer bom dia pra mim? – pergunta piscando um olho.
– Ah, fala sério. Se você queria sair comigo, era só ter dito – responde ele, sarcasticamente. Rio tanto que meus olho começam a lacrimejar. Christina e Peter também estão rindo.
– Ainda não me acostumo com esse lance de vocês dois juntos – fala Christina, apoiando o queixo nas mãos.
– Nem eu – responde Peter.
– Escutem – ouço a voz de Evelyn – venham aqui em baixo, agora!
Sem hesitar, descemos as escadas correndo e Evelyn liga a pequena TV da sala. Ela tenta arrumar a antena de forma que deixe a imagem mais nítida. Quando finalmente consegue, ela coloca em um noticiário, que fala sobre um incêndio.
Um incêndio na sede da Erudição.
Quase surto na hora, não de felicidade, mas de aflição, por causa de Caleb. O que será que aconteceu com ele? Levo as mãos à boca e tento imaginar como isso começou.
– Mas que... – diz Edward, descendo a escada e juntando-se a nós. Ele começa a falar sobre como ele sabia que um dia aconteceria isso, sobre como era bem feito, que aquelas pessoas tiveram o que mereciam, etc.
– Não estou ouvindo nada – reclama Peter – dá para aumentar o volume dessa TV?
– Cale a boca então, talvez ai você consiga escutar algo – retruca Edward.
– Cale a boca você – responde Peter, levantando-se do sofá esfarrapado e indo na direção de Edward.
– Silêncio vocês dois – grita Evelyn, aumentando o volume da TV. Inclino meu corpo para frente a fim de ouvir o resto da notícia.
– “Até agora, não sabemos exatamente quantas pessoas morreram, mas os danos foram muito grandes, e acredita-se que não foi um incêndio acidental. Alguém causou este incêndio na madrugada de ontem, e certamente essa pessoa fugiu, levando consigo vários documentos do complexo da Erudição. Jeanine Matthews conclui que o causador disto é alguém de dentro do complexo, e afirma que vai fazer tudo o que estiver em seu alcance para encontrar esse indivíduo.”
Só um nome vem na minha mente.
Contenho um grito de espanto e subo correndo para o andar de cima. Meu irmão, não há dúvidas, foi ele quem causou isso.
– O que foi? – pergunta Peter subindo as escadas.
– O que você acha? – respondo – uma pessoa na Erudição causou um incêndio. Quem faria isso, nenhum nome lhe vem a cabeça?
– Hmm – murmura ele – não sei, quem? – pergunta confuso, arqueando as sobrancelhas.
– Caleb! – digo em um tom claro e óbvio – Peter, eu preciso ir. Preciso ir atrás dele.
– Como? Você é maluca Tris? Se voltar até lá, você morre
– Mas meu irmão... – interrompo
– Calma – sibila ele. Solto um suspiro frustrado e sento-me em um dos colchões.
– Seu irmão tem uma cara de tonto, mas ele não é burro. Acha mesmo que depois de fazer algo assim, ele continuaria lá? Não acha que ele provavelmente iria fugir? – diz.
– Sim, eu acho que ele continuaria lá. Porque se ele fugisse, claro que descobririam que quem causou o incêndio foi ele! – retruco furiosa. Peter aproxima o rosto do meu, arqueia uma de suas sobrancelhas e coloca um dedo na testa.
– Pense, Careta. Se ele continuasse lá, ele correria igualmente o risco de ser pego. Evidências, sabe? Mas bem, tenha em mente que muitas pessoas morreram no incêndio. Muitas pessoas. E dentre elas, pouquíssimas foram identificadas. E por quê? – interroga ele. Primeiro olho confusa para ele, e depois começo a entender o raciocínio de Peter. Sim, é claro. Se Caleb fugisse, o que segundo Peter ele fez, não dariam conta da falta de mais uma pessoa, já que tantas morreram queimadas e muitas não foram identificadas.
– Isso...isso faz sentido! – respondo – e se Caleb não tivesse fugido...
– Logo iriam descobri-lo, do mesmo jeito – conclui Peter. E ele tem razão. De qualquer forma, Caleb mais cedo ou mais tarde será descoberto. E obviamente é muito mais vantajoso para ele se quando for descoberto, ele já estiver bem distante da sede da Erudição. Sinto-me aliviada por meu irmão não estar em perigo. Peter olha para mim satisfeito, e deixa escapar um meio sorriso.
– Viu como até uma Careta como você consegue enxergar o óbvio? – provoca ele. Mostro o dedo do meio para ele, ainda estressada. Mas logo em seguida, não contenho o riso, e ambos rimos juntos, como dois idiotas.
– Beatrice, Peter, desçam aqui – chama Evelyn. Nos entreolhamos, e logo andamos até a escada e descemos novamente. Meu coração quase voa para fora quando olho para a porta e vejo Tobias com uma enorme queimadura no braço e uma enorme pasta azul com um “E” gravado na capa.
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