Notas iniciais
Trilha sonora:
1. Theme da Tris e do Peter ♥ ~
[ http://www.youtube.com/watch?v=66rXxUkTbV8 ]
2. Musica da Tris lendo a carta ♥ ~
[ http://www.youtube.com/watch?v=JkFSC5K7KWs ]

Continuo o encarando, sem desviar o olhar.

Tobias olha novamente para mim, com uma cara de desprezo. Sinto o peso da culpa, não só por não ter fugido com ele, mas também porque o traí. Com Peter.

Evelyn percebe a tensão entre nós e me conduz pelo braço até a porta, para evitar alguma confusão. Peter nos segue.

– Evitem ir para o andar de cima, sim? Edward está lá, e não quero ter que apartar outra briga – diz, olhando para Peter. Ele afirma com a cabeça. Ela sobe uma escada, e sentamos em um canto do chão, no andar de baixo. Há apenas um sofá, velho e rasgado, e não tem cozinha. Os alimentos ficam guardados em caixas e alguns espalhados pelo chão. Lembro-me da última vez em que estive aqui. No andar de cima há alguns colchões espalhados e um pequeno banheiro.

– Podemos comer isto? – pergunta Peter, pegando uma lata de comida da caixa. Dou de ombros.

– Acho que sim... – respondo. Estou faminta. Ele a abre e dividimos a comida.

– Até que não é tão ruim – digo sarcasticamente. Ele faz uma careta de nojo.

– Quem disse que podiam comer? – pergunta uma voz atrás de mim. Viro-me e vejo Tobias de braços cruzados, nos encarando.

– Ninguém disse que não podíamos comer – diz Peter.

– Ninguém disse que podiam – diz Tobias, levantando as sobrancelhas. Levanto-me e me aproximo dele, com a lata de comida na mão.

– Você não manda aqui – digo com a voz firme. Ele solta uma risada.

– Acho que você ainda não foi informada, mas agora sou um dos líderes daqui – ele se aproxima do meu rosto — portanto, pense duas vezes antes de falar assim comigo – diz. Mordo o lábio para tentar conter minha raiva, mas segundos depois, soco seu tórax. Ele arregala os olhos e Peter me olha, boquiaberto. Não sei por que fiz isso. Sou uma idiota.

– Não deveria ter feito isso, Tris – responde, dando um soco em meu rosto. Solto um grunhido de dor. Olho para ele, que está com uma expressão de arrependimento no rosto, mas não demonstra piedade.

– Maldito... – murmuro. Ele escutou, mas não parece dar a mínima.

– Você é inacreditável! — grita ele, após hesitar por alguns segundos – eu faço o possível para te salvar, coloco minha vida em risco por você, e você me deixa na mão! Achei que pudesse contar com você! Pelo menos para se manter viva para mim... – o interrompo.

– Você que me abandonou, seu idiota – grito tão alto quanto ele – como você acha que eu iria fugir daquela cela? Eu não sou invencível, Tobias! Também sinto medo! Também há coisas que não consigo fazer – começo a soluçar – mas você não consegue ver isso...que eu também sou humana, que eu também sinto medo...você foi embora sem mim, e fui eu quem o abandonou? – suspiro — eu odeio você. – Cerro os punhos e caminho para fora. Tobias permanece parado, inexpressivo. Peter corre atrás de mim.

– Careta! – chama ele. Continuo andando, e ele me alcança.

– O que foi aquilo? – pergunta. Reviro os olhos.

– Ele mereceu – digo rosnando. Ele consente.

– Ele é um idiota – diz – talvez eu não seja exemplo para dizer isso sobre ele, mas...ele é um grande idiota.

Sento-me no chão, encarando o céu. Não quero voltar para lá, onde Tobias e os outros estão. Mesmo que seja perigoso, me sinto mais segura aqui do que lá dentro. Peter senta ao meu lado.

– Você ainda o ama? – pergunta. É uma boa pergunta, porque nem eu mesma sei a resposta. Na verdade, tenho me questionado sobre isso.

– Não sei... – respondo. Ele suspira.

– Você tem que saber – diz, rispidamente. Franzo as sobrancelhas.

– Por quê? – pergunto.

– Porque – responde, aproximando seu rosto do meu – você não pode amar duas pessoas ao mesmo tempo – diz.

Ele tem razão.

Talvez eu devesse me abrir para novas possibilidades. Não posso ficar “presa” ao Tobias para sempre, e ultimamente, nós não conseguimos evitar uma briga sequer. Antes era tudo tão fácil, e não brigávamos por motivos tão ridículos, mas isso mudou. E depois de hoje...tenho certeza de que ele me odeia. Na hora em que o soquei, se ele ainda me amasse como antes, teria exigido alguma satisfação, me beijado para que eu me acalmasse...mas não, ele simplesmente me socou de volta, e depois disso não trocamos mais uma palavra.

E com Peter, a situação é exatamente ao contrário.

Digo, antes nos odiávamos. Ele era um dos meus inimigos, e eu nunca achei que um dia pudesse perdoá-lo, muito menos que me aproximaria tanto dele.

Em outras palavras, os sentimentos que tenho por eles foram virando o inverso. Aquele que eu amava é quem eu mais odeio agora, e aquele que eu tanto odiava é quem eu mais amo agora. Dá para explicar isso?

– Ei – Peter balança uma mão em minha frente, me desviando de meus pensamentos – não deveríamos voltar? É perigoso aqui fora.

– Não – respondo firme. Ele continua me encarando, esperando que eu pense um pouco e mude de ideia. É inútil. Não quero voltar para lá, nunca mais. Ele suspira lentamente e me envolve com um de seus braços. Encosto minha cabeça em seu ombro. Só quero ir para outro lugar, longe da Erudição, longe daqui, longe de tudo...

Tudo o que quero é enterrar meu passado.

– Peter – falo com uma voz baixa – você vai ficar aqui com eles? – pergunto.

– Com Edward aqui e sem você? – ele olha para mim e levanta as sobrancelhas – não, sem chance – responde, corado. Minhas bochechas esquentam. Não consigo responder nada, apenas me encolho mais para perto dele. Permaneço parada, mas meus olhos vasculham o espaço. Tento relaxar, mas não estamos nem um pouco seguros aqui, então, é impossível. Peter também parece tenso, provavelmente preparado para que algo aconteça.

Então, ouço passos.

Alguém está se aproximando de nós, mas não consigo distinguir a direção de onde estão vindo os passos. Estou apavorada demais para conseguir raciocinar.

– Peter – digo com a voz trêmula – você ouviu isso? – pergunto. Ele afirma com a cabeça.

– Quem será que...

– Shh – murmura ele, interrompendo-me. Tento controlar minha respiração, que está muito alta. Ele me puxa para mais perto dele, segurando-me com força contra seu peito. Fecho os olhos e escuto apenas seus batimentos cardíacos, e logo em seguida, uma voz feminina gritando meu nome. Meu coração desacelera instantaneamente, e me acalmo ao escutar essa voz, porque a reconheço muito bem. É Christina.

– Tris! – grita ele novamente se aproximando de nós. Me afasto de Peter e aceno para ela. Ela olha para mim, depois para Peter e para mim novamente. Um tipo de olhar que quer dizer “pode me explicar o que é isso?”

– Tris – ela me abraça com força. Mergulho no abraço dela e sinto-me confortável por estar com alguém em que confio novamente. Rapidamente ela me solta e coloca as mãos em meus ombros, levantando as sobrancelhas.

– Agora, diga-me – diz olhando para Peter – o que fazem juntos?

Procuro alguma desculpa convincente para tentar me esquivar de sua pergunta.

– Bem...é que... – ela me interrompe.

– Nem adianta mentir para mim – diz piscando um olho. Solto um suspiro.

– Estamos namorando – diz Peter rapidamente. Abaixo a cabeça, e minhas bochechas esquentam. Quando olho novamente para Christina, ela não só está boquiaberta, como também parece não ter gostado da novidade. Mas, espera aí...nós estamos namorando? Desde quando?

– É isso mesmo – repete ele – você goste ou não, estamos juntos.

– Tris...como você pôde? – pergunta ela, indignada – isso é mesmo verdade? – pergunta, e apenas balanço a cabeça, confirmando. Ela pisca algumas vezes.

– Bem... – diz, franzindo a testa – eu realmente não sei o que aconteceu enquanto eu estava fora, mas, se vocês realmente estão...namorando – ela quase cospe a palavra – eu acho que, como uma boa amiga...vou ter que aceitar isso.

Fico feliz em saber que pelo menos ainda tenho uma amiga com quem posso contar. Sorrio para ela, grata. Depois, a abraço de novo.

– Que bom que voltou – falo, segurando minha vontade de chorar – não sabe como senti a falta de alguém que me compreendesse.

– E você não sabe como nós sentimos sua falta – retruca ela – todos nós achávamos que você tinha... – ela cobre o rosto e lágrimas escorrem pelas suas bochechas. Todos achavam que eu havia sido executada hoje de manhã. Mas ninguém, a não ser Christina, demonstrou surpresa ao ver que ainda estou viva. Talvez realmente não se importem comigo.

– Eu teria morrido. Eu e Peter, mas meu irmão nos salvou – digo, enxugando as lágrimas de seu rosto. Ela dá um sorriso nervoso.

– Ainda bem... – responde.

– Então... – Peter limpa a garganta – agora que a Christina está aqui, será que poderíamos voltar lá para dentro? – pergunta.

– Tudo bem. – Respondo, após hesitar um pouco. Ajudo Christina a levantar e caminhamos novamente até o abrigo dos sem-facção. Não acredito que vou ter que voltar para lá. Só voltarei por causa de Christina.

– Tris, desculpe a pergunta, mas... – ela hesita um pouco – aconteceu algo lá dentro? É por isso que não quer voltar para lá? – pergunta. Ando um pouco mais devagar e ela desacelera o passo para me acompanhar.

– Aconteceu – respondo secamente. Não quero dar mais detalhes sobre isso, mas ela insiste em querer saber.

– Foi com o Tobias, não foi? – pergunta. Mordo o lábio inferior com força e apenas balanço a cabeça, confirmando sua pergunta. Ela revira os olhos.

– Sabia – diz. Antes que ela possa perguntar mais algo, já estamos parados a poucos centímetros da porta. Meu corpo estremece.

– Vamos lá – diz ela, me empurrando para a porta – não precisa ter medo, se ele aparecer, eu te dou cobertura – ela pisca um olho. Suspiro aliviada.

– Tudo bem – respondo, insegura. Ela assente com a cabeça e abre a porta. Entramos devagar. Evelyn aparece e nos convida a sentar no velho sofá rasgado. Ela senta de frente para nós, colocando as mãos juntas em seu colo e respirando fundo.

– Tris – começa ela – aconteceu uma...coisa hoje – diz. Já sei a quê (ou melhor, a quem) ela está se referindo. Depois de limpar a garganta, ela prossegue.

– Vou direto ao ponto. Tobias saiu e não voltou mais, e ninguém sabe para onde ele foi. Você foi a última pessoa a falar com ele...tem alguma ideia de onde ele possa ter ido? – pergunta aflita. Mordo o lábio e estalo os dedos, tentando parecer o mais natural possível, e sem demonstrar nem um pingo de preocupação.

– Eu não sei – dou de ombros – nós discutimos, então, não faço a menor ideia de onde ele possa ter ido. – Ao dizer isso, acabei me acusando. Agora, ficou claro que o motivo de Tobias ter “fugido” fui eu. Mas, permaneço calma e séria.

– Eu entendo... – responde. Evelyn já me odiava, e agora deve me odiar mais ainda. Tento não me importar com isso, afinal, eu a odeio também, assim como Tobias. Ela faz um sinal para que subamos para o andar de cima.

– Há colchões vazios lá em cima – diz. Subimos um atrás do outro, e tentamos andar sem fazer barulho. Christina se joga no primeiro colchão que vê, sobrando apenas dois colchões perto da parede, um do lado do outro. Peter deita em um deles, e deito-me no outro. Ele joga seu corpo para mais perto do meu, até estarmos quase colados.

– Para onde você acha que ele foi? – pergunto. Talvez não devesse ter perguntado isso, mas agora é tarde.

– Sei lá...achei que não se importasse – responde, um pouco irritado.

– E não me importo – retruco – eu só...me senti culpada.

– Entendo – responde. Por um segundo, pensei que ele estivesse mesmo com raiva da minha pergunta. Mas não. Ele me beija lentamente, acariciando meu rosto, do mesmo jeito que Tobias fazia. Tobias. É um erro comparar Peter com ele, e tudo o que quero agora é esquecê-lo. Depois de mais alguns beijos, ele finalmente para e me olha pensativo.

– O que foi? – pergunto.

– Nada – responde, coçando os olhos. Seu rosto se aproxima do meu e ele adormece rapidamente. Estamos tão próximos que sinto sua respiração em minha bochecha.

Quando estou quase adormecendo, vejo Evelyn na escada fazendo um sinal para que eu desça. Levanto-me e a sigo.

– O que você quer? – pergunto sonolenta.

– Tobias deixou um bilhete para você. Não o entreguei antes porque provavelmente ele iria querer que você lesse sozinha – ela me entrega um pequeno pedaço de papel sujo. Sento-me em um dos degraus da escada e abro seu bilhete.

Tris,

Eu sei que você deve me odiar agora, e eu não a culpo, mas por favor, apenas leia o que eu tenho para lhe dizer. Antes de fugir da Erudição, eu fiz um pequeno acordo com Caleb. Pedi que ele a salvasse, se em troca, tentasse descobrir algumas informações confidenciais de Jeanine — que infelizmente não posso contar do que se trata — , e que também se assegurasse de que Peter morresse. E ele concordou. Quando você retornou para o abrigo dos sem-facção, e eu a vi com Peter...fiquei com muita, muita raiva mesmo. Não só por ele ter sobrevivido, como também, por Caleb ter quebrado o acordo. Não tinha nenhuma razão para ele ter salvado Peter. Presumi que, se ele quebrou o trato, só pode ter sido por uma causa: você. O que significa que você se importa com Peter. Eu também percebi isso quando você o ajudou quando Edward o atacou. Mas enfim, estou escrevendo isso porque pretendo passar um tempo fora, investigando certas coisas, que infelizmente, também não posso contar do que se trata. Este bilhete é mais como um "adeus", embora algum dia, talvez nos vejamos novamente.

Releio o bilhete várias e várias vezes. Minhas lágrimas borram o papel. Ele nunca me abandonou. E Caleb...só me salvou por que fazia parte do acordo? Não, meu irmão certamente daria um jeito de me salvar, com ou sem um acordo. Por que ele se importa comigo, assim como Tobias. Tobias não me odeia. Claro, ele não me ama mais, porém, também não me odeia como eu achava que o odiava. Não sei se terei alguma chance de acertar as coisas com ele algum dia, como também não sei se voltarei a vê-lo. O que me resta a fazer é esperar.

Subo novamente as escadas e deito ao lado de Peter, aproximando meu rosto do seu. Dobro o bilhete e o coloco no bolso.

– Eu te amo – sussurro baixinho no ouvido de Peter. Ele é o meu futuro agora. A pessoa que eu mais amo.

Notas finais
Entãooo...desculpem a demora para postar o capítulo, eu pretendia que esse fosse o último, mas a fic ainda continua :D continuem acompanhando, e obrigada pelos reviews ♥