Only Time
2 Felicidade?
Notas iniciais
Ela acordou no meio da noite. Não sabia o porque, mas sentiu uma dor aguda de cabeça e precisou levantar e tomar um ar. Estava com tanto calor e tanto frio ao mesmo tempo... Deveriam ser três da manhã e o céu lá fora estava escuro. Ainda chovia, pelo menos. A chuva tinha o dom de fazê-la se sentir melhor. Esperou por um tempo e viu que a dor de cabeça parecia incessante. Resolveu ir até a cozinha, pois julgava saber o caminho. Lá, quem sabe, alguém poderia lhe ajudar. Desceu da cama, calçou os sapatos e pegou uma vela que havia acendido. Lentamente, para não fazer barulho, Jane abriu a porta e sentiu o ar mudar. Era escuro e assustador lá fora, mas não o bastante para desencoraja-la, pois, afinal, não era mais uma criança. Fechou a porta atrás de si e se pôs a caminhar pelo corredor frio. As pinturas, antes bonitas, pareciam ameaça-la. Tinha ainda certa beleza nelas, mas era um tipo de beleza assustadora. Quanto mais ela andava, mas ela se perdia. Resolveu tomar a esquerda e ouviu uma voz. Era uma voz desconhecida aos seus ouvidos e não era nem a governanta e nem a criada. Mas em uma casa grande daquelas, poderia ser qualquer um. Ela parou par ouvir.
- Você viu a moça que nosso senhor trouxe? — uma voz feminina perguntou
- Sim, eu vi — uma masculina respondeu — ela me parece uma boa pessoa.
- É uma pena não ser mais bonita — a voz feminina falou — Com um rosto daqueles, não haverá homem que a queira, ouça o que lhe digo.
- Achava que você pensava que a essência do ser humano é sua alma e não sua aparência — a voz masculina replicou.
- Isso não se encaixa a ela, pobrezinha — Jane ouviu também barulhos de pratos — A pobre moça... Ah como eu queria que ela fosse só um pouco mais bonita.
- Eu acho que está ótimo — o homem falou — Ela me parece ser boa. Passou o dia inteiro com as crianças e só não cuidou mais delas pois foram todos dormir. Talvez tenha sido boa coisa ela ter vindo para cá... Ainda mais sabendo que mês que vem...
- A mãe deles vem vê-los, sim — a mulher respondeu — Não acho que foi uma boa ideia do sr. Edwards, isso eu não acho.
- Mas eu sim. Talvez ele tenha um real bom motivo para deixar ela vir até aqui...
- Ela pode não estar pronta ainda.
- Mas se o patrão disse que sim, então há bastantes chances de ser verdade. Por que você só vê o lado ruim das coisas, Clara?
- Porque eu sou realista — respondeu a mulher — Vamos parar de conversar, temos mais o que fazer — Jane começou a caminhar em direção a porta. Chegando lá, bateu, alarmando os dois.
- Com licença — disse, entrando — Estou com muita dor de cabeça e vim beber um copo d'água — achara a cozinha por acaso. Não sabia se era sorte ou era para ela ouvir a conversa daquelas pessoas.
- Oh, srta. — a mulher largou seus afazeres — Está doente? Providenciarei uma sopa imediatamente!
- Não precisa, realmente — ela negou, sorrindo, mas a mulher insistiu firmemente e Jane acabou por aceitar. Sua cabeça latejava enquanto ela sentava em um banco e sorria para o homem sentado. Ambos os dois eram velhos. Ele era um homem de cor, bem alto. Ela, uma mulher de alguma idade já, com os cabelos brancos. Jane, mesmo que não devesse, simpatizou por ela. Tinha algo em seu jeito que dizia que ela era uma boa pessoa, só muito sincera.
Passadas uma hora e quarenta minutos, Jane já estava se sentindo melhor. A mulher, Clara, fizera um caldeirão cheio de sopa quente e fez ela tomar praticamente metade dele.
- Vamos tome mais um pouco — insistia — É bom, vai te esquentar em uma noite tão fria quanto esta.
Depois de se despedir, Jane voltou ao quarto e viu lá, postada, a criada de antes.
- Oh, srta. Lucas — ela exclamou quando a viu chegar — Estava aqui, preparada para lhe acordar e então, quando cheguei, não havia ninguém em seu quarto! Só não avisei ninguém, porque a srta chegou!
- Eu estou bem, obrigada, Emily — respondeu Jane, sorrindo — Eu só estou com um pouco de dor de cabeça e fui a cozinha. A cozinheira me manteu lá e me encheu de sopa.
- Ah, a Clara — Emily riu — Ela faz isso com a maior parte das pessoas, não se assuste.
- Então, você veio me acordar...
- Ah sim, é o horário das segundas feiras, todos se levantam a essa hora.
- Entendo, obrigada — Jane falou — você pode entregar isso daqui para mim? — ela pegou a carta, dentro do quarto.
- Claro — falou Emily, pegando a carta em mãos — Entregarei já, com licença — e assim, deixou-a, para se trocar.
Quando Jane chegou a sala de jantar, acompanhada, já era dia. As crianças já estavam ali, sonolentas ainda. Aléxia tocava piano, exatamente como no dia anterior e Hugo estava ouvindo atentamente. Quando a ouviram entrar, imediatamente pararam e foram ficar a seu lado.
- Bom dia, Jane — Aléxia disse, olhando-a com os olhos azuis imensos — Diga bom dia, Hugo.
- Bom dia — falou ele, baixinho como sempre. Logo os três comeram e decidiram-se por ouvir Aléxia tocar um pouco. Jane ouvia enquanto ela tocava o piano estupendamente bem para uma menina de tão pouca idade. Enquanto apreciava a musica, não viu a governanta se aproximar.
- Com licença, srta. Lyndale — falou, interrompendo a menina — O patrão quer ver você e seu irmão — Aléxia parou de tocar no mesmo momento.
- Tudo está bem? — perguntou olhando para a mulher. Ela fez que sim — Menos mal. Vamos, Hugo.
- Sim — ele murmurou — Voltaremos em um curto período de tempo, Jane — disse, pegando a mão de sua irmã e saindo com ela.
- Aguardarei ansiosamente — Jane falou, vendo os dois irem e se perguntou do que se tratava.
- O patrão não fala muito com eles — uma voz, do fundo da sala, invadiu os ouvidos da jovem garota, fazendo-a se virar. Era Emily, a criada — Fico preocupada pensando no que poderá ter acontecido.
- O sr. Edwards não fala muito com eles? — ela pareceu curiosa — Por que?
- Oh, ele é um homem ocupado — respondeu ela — Não é que desgoste das crianças, só não tem tempo para lhes falar. Não nesta época do ano.
- O que ele faz nesta época do ano, que impossibilita-o tanto assim?
- Ah, ele cuida dos negócios da família — respondeu ela — Quase deixa de lado sua própria vida para fazer isso. Ele tinha uma noiva, alias.
- Uma noiva? — Jane perguntou.
- Sim. Não sabemos o nome dela, só ele. Foi dada como morta ontem a noite, bem quando a srta. chegou, um pouco antes — ela respondeu — Ele saira do quarto e resolveu dar-nos a noticia.
- Ninguém conhecia a moça?
- Ele conhecia — Emily esclareceu — Mas nós nunca a vimos — seu nome foi gritado ao fundo — Ah, com licença srta. Lucas — e assim correu em direção a porta da cozinha.
- Uma noiva — comentou consigo mesma — Isso é muito curioso... — assim, olhou para o piano. Fazia tanto tempo que não tocava... Foi se aproximando dele e, por fim, resolveu sentar-se e toca-lo. Ficou assim por um tempo, apenas tocando, sem se preocupar com muita coisa até que uma das criadas que ela não conhecia, a interrompeu.
- Com licença, srta. — Jane parou de tocar — Isso é para você — e então, entregou-lhe uma carta. A garota a abriu e começou a ler avidamente.
"As condições de minha irmã não são muito boas por assim dizer..." a carta já começava assim "Fiquei feliz por ver uma resposta instantânea. Não se preocupe com o fato de minha irmã não poder ficar com meus sobrinhos. Eu sei o que é melhor para eles e eles são felizes aqui. Ia mandar esta carta inclusive por eles, mas achei que a srta. gostaria de recebê-la mais rapidamente.
Espero que esteja gostando de sua estadia aqui. Eu estou gostando de tê-la aqui e vejo que as crianças também. Gostaria de poder conversar mais com você, mas não posso escrever mais. Sinto muito" e a carta acabava ali. Jane levantou a cabeça para agradecer a criada, mas ela havia sumido.
Então, subiu correndo para seu quarto e procurou material para mais uma resposta para mais uma carta de muitas que ainda viriam.
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