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12 Guerra de comida


As três da manhã, quando me senti recuperada, levantei devagar, funguei e ajeitei as mangas do meu moletom velho, sujos de rímel de tanto enxugar meus olhos.

Desgrudei os cabelos que estavam grudados no rosto por causa das lágrimas e abri a porta, hesitando na soleira. Minha cabeça girava e eu tinha medo de encarar Nico. Eu não saberia que reação tomar e nem o que dizer.

Segui para a sala em passos silenciosos, meus pés descalços tocavam o piso frio do apartamento. O único som que eu podia ouvir era o da minha respiração ofegante.

Espiei pelo canto da porta Nico. Ele estava sentado no colchão que havíamos colocado no chão para ele dormir. Tinha os fones no ouvido e olhava para a parede escura em silêncio, fiquei o observando por um longo momento e notei uma lágrima escorrer pelo seu rosto.

E foi o que bastou, apertei minhas mãos na parede fria, me sentindo uma inútil, eu estava fazendo-o sofrer. Eu fora rude, fria, grossa.

–Nico? — chamei num sussurro tremulo. Ele imediatamente olhou para mim, no escuro, pude perceber que limpou rapidamente a lágrima do rosto. — Nico, me desculpa. — Implorei, agora eu chorava de novo.

Segui em sua direção e sentei-me ao seu lado, ninguém falava nada. Fechei meus olhos e apoiei a cabeça no sofá controlando as lágrimas que lutavam para sair.

Nico suspirou e encostou a sua cabeça na minha:

–Desculpo — ele sussurrou.

–Eu fui tão... ruim — murmurei — Eu só quero que saiba que eu não sou... esse tipo de garota, e que eu gosto de você mas não daquela forma, entende? — suspirei — Vamos fazer com que aquilo seja apenas um beijo entre amigos.

–Eu sei, Mel. Não esquenta. Eu quer não deveria, foi culpa minha.

–Mas eu não precisava sair daquela forma.

Ficamos em silêncio, cada um pensando nas palavras ditas, fechei meus olhos novamente e reprimi o impulso de abraça-lo, porque seria algo meio estranho depois do acontecido desconfortável. Então levantei minha mão hesitante e acariciei seu cabelo.

–É irônico não é?

–O quê? — Nico perguntou levantando a cabeça pra olhar para mim.

–Com toda aquela loucura de deuses a gente ainda consegue se manter mais preocupado com essas coisas de...

–Tipo o beijo?

–É — assenti — Tipo o beijo.

Nico riu.

–Parece que semideuses também...

–Semideuses também....? — perguntei, mas Nico não respondeu ele suspirou fundo e abraçou-me pela cintura depois bocejou e sua respiração tornou-se fraca, havia adormecido. — Boa noite — sussurrei e depois apoiei minha cabeça de forma confortável e antes de pegar no sono lembro-me de ter sorrido pelo simples fato de sentir Nico ali perto de mim, sem ficar um clima desconfortável.

~

Acordei logo depois de Nico e de meu pai que já estava saindo alegando:

–Crianças, juízo — ele advertiu — Vou no mercado e mais alguns lugares

Ele me puxou para o corredor, fechou a porta atrás de nós e sussurrou

–Melanie, querida. Vocês estão tomando cuidado, porque olha... Você só tem dezesseis anos e é muito nova para...

–Pai, olha eu não quero bater um papinho sobre sexo — sussurrei a última palavra. — E eu já disse que Nico não é o meu namorado, poxa!

–Vocês estavam dormindo abraçados essa manhã.

–Pai! Argh!

–Tá, tudo bem, tudo bem. — Então ele desceu as escadas de nosso velho prédio correndo.

Entrei no apartamento e fingi o melhor sorriso para Nico que tomava um café de maquina me olhando, sem expressão

–O que? — perguntei, enfiando uma colher no pote de nutella e depois levando a boca. Ele continuou me olhando, então eu peguei a mesma colher enchi-a de nutella novamente e passei pelo nariz de Nico, ele fez uma cara de indignado e pegou um bunhado de mel da meleira e passou no meu nariz — Ei! — protestei atirando torradas com creme de amendoim nele, não acertei nenhuma.

Ele veio em minha direção e passou seus dedos sujos de mel no meu cabelo, depois pegou a nutella e passou pela minha bochecha esquerda. E aí começou uma guerra de comida tremenda, Nico e eu jogamos tudo que estava na mesa — pão, queijo, leite, iogurte, nutella, mel — tudo, um passava no rosto de outro, minha blusa regata branca estava manchada de mostarda, olhei para Nico e arquei as sobrancelhas:

–Vamos ter que trabalhar — murmurei e depois ri, Nico me acompanhou — Vou buscar os produtos de limpeza, espera aí que...

–Espera — Nico pegou meu braço e me virou para ele.

–O quê? Meu pai vai chegar logo e...

–Shh! — ele ordenou e se inclinou para mim, nossos lábios se tocaram, nossos corpos entraram em contado e eu levei minha mão suja até sua nuca, as mãos de Nico pressionavam de leve minhas costas e nos beijamos novamente.

Uma.

Duas.

Três

Quatro vezes. Abaixei a cabeça, ofegante e murmurei:

–A gente não deveria estar fazendo isso! — mordi meus lábios — Droga, Droga! O que a gente está fazendo? Deuses isso...

–Tá, a gente vai ter que parar com isso... eu... eu... Ah me desculpe Mel — Algo em meu rosto fez com que Nico parasse de falar então ele desviou o olhar, nos separamos e ficamos nos encarando por um momento — Me diga que não vai chorar, eu me culparia ainda mais por isso..

–Não — garanti num sussurro — Não vou chorar, eu só não consigo raciocinar porque... Porque isso?

–Vamos esquecer isso também, beleza?

–E isso não foi nada... Amigos,lembra. Amizade apenas.

–Amigos — ele concordou e ambos deram um suspiro de alívio.

–Agora eu vou buscar o material de limpeza e vamos fingir que nada aconteceu, né?

–Isso.

–Então, vamos começar do zero. — circulei a mesa, traçando o mesmo caminho de novo — Vamos ter que trabalhar — repeti — Vou buscar os produtos de limpeza, pera aí que eu já volto

Corri para o corredor, entrei no banheiro e vasculhei a pia.

Ao voltar para a cozinha encontrei Nico atordoado. Coloquei o balde com produtos, panos, esponjas e água na mesa. Entreguei um pano para Nico e murmurei:

–Limpe a mesa que eu vou limpar o chão.

Ele pegou a esponja e começou a limpar a mesa, tirando as louças sujas e as colocando na pia. Eu me abaixei no chão e coloquei um desengordurante em cada mancha de comida, demorando-me para limpa-las, porque eu sabia que no momento que acabasse eu iria olhar para Nico e quereria me desculpar, trazendo o assunto de volta.

Tentei ao máximo não olhar para Nico, depois de limparmos a mesa e o chão, eu levai a louça ele secou e depois as guardamos juntas, peguei uma muda de roupa limpa e me troquei em meu quarto, enquanto ele se vestia no banheiro, depois ajuntei minhas roupas grudentas e as de Nico e as pus bater na maquina.

Depois eu e Nico fomos para sala ver algum tipo de programa matinal de culinária, babaca, nenhum de nós prestava atenção. Ambos em silêncio, o que significava que ambos estavam com mentes atordoadas e barulhentas.

–Nico — sussurrei

–Não. Não vamos falar sobre isso, só vamos piorar a situação

Assenti e apoiei a cabeça entre os joelhos, quando a maquina parou de bater, fui até a lavanderia, o que na verdade mais era um cubículo de tijolo que meu pai tivera de acrescentar quando comprou o apartamento, e estendi as nossas roupas. Voltei para a sala silenciosamente e me sentei novamente apoiando a cabeça entre os joelhos

–Você ainda é a minha boneca de pano — Nico garantiu sem tirar os olhos da Tevê

–E você ainda é o meu grandão. — Sorri, sem olhar para ele.

Notas finais
O que tem a dizer sobre esse capítulo gente! O próximo será um ponto de vista do Jackson, espero que gostem, farei o máximo para postar logo o seguinte!