One, Two, Love
9 Capítulo 9
Notas iniciais
— Em, precisamos conversar... — Charlie não conseguiu olhá-la nos olhos.
— Nossa. Já percebi que não é boa coisa. — Afastou-se da menina e respirou fundo após voltar a sentar no sofá.
— Bem. É muito sério e, sim, não é nada bom. — Disse meio hesitante.
— Senta aqui. Me diz o que tá acontecendo de tão sério. — Fez sinal para que a namorada sentasse ao seu lado no apertado sofá.
Charlie sentou-se o mais de frente possível para Emily. De qualquer forma, ela teria de cuspir a verdade na menina. Não havia outra solução. Sua moral dizia que ela não poderia esconder aquilo da morena. Ela não merecia.
— Bem, eu... — desviou o olhar algumas vezes até que finalmente conseguisse arrumar toda a coragem que tinha para falar — Lea e eu nos beijamos hoje.
Emily, que segurava as mãos de Charlie firmemente para que ela se sentisse segura para falar, acabou por soltá-las vagarosamente. Como se, à medida que ela ia processando a informação, suas forças fossem deixando de existir.
— E-eu... Eu não sei o que dizer. — A morena estava em choque.
— Em, por favor. Quero que saiba que nunca foi minha intenção te fazer sofrer, te magoar. — Tentou pegar suas mãos de volta, mas Emily desviou-as.
— Não. Só me responde uma coisa: Você retribuiu? — Perguntou olhando-a nos olhos. O silêncio rolou por alguns segundos até que Charlie finalmente o espantasse.
— Em, por favor. Me descul-
— Ah! — virou-se e pôs-se a chorar — Porque essas coisas só acontecem comigo?! Que droga!
— Em, se acalma. — Tentou acalmá-la.
— Para! Para de me chamar assim! Para de achar que eu vou te desculpar e que vai ficar tudo bem, porque não vai! — Extravasava todas as suas mágoas ali.
— Eu nunca esperei que você fosse me perdoar, Emily! Eu vim aqui te dizer isso porque achei errado e que não era certo com você! Se eu fosse outra, poderia muito bem fingir que nada tinha acontecido e fim! Mas não! Eu fui ética com você, então não venha querer agir como se eu fosse totalmente culpada.
— Eu vou sair. Preciso de ar. — Pegou seu casaco e bolsa e foi em direção à porta, mas Charlie a segurou pelo braço, fazendo-a parar.
— Em, eu sinto muito. Você é a última pessoa que eu gostaria de magoar no mundo inteiro. E... Eu só quero que você saiba que, independente da sua decisão, eu vou acatar. Não sou mais digna do seu perdão e-
— Basta. — Charlie ficou surpresa por ver Emily tão fria de repente. O silêncio reinou por mais alguns longos segundos até que Emily soltasse seu braço e continuasse o caminho até a saída.
— Pra onde você vai? — A ruiva indagou pertinente.
— Pra longe de você. — Disse antes de fechar a porta.
— Que merda... — Sentou-se no sofá e pôs as mãos na cabeça. Não sabia o que fazer naquele momento. Enquanto já longe dali, Emily ainda deixava as lágrimas rolarem por seu rosto descontroladamente. Chegou um momento em que quase foi atropelada por uma bicicleta por conta de sua distração. Estava totalmente sem rumo.
Já era próximo das oito horas da noite e Spencer queria sair. Na verdade, ela precisava sair. Estava muito tensa com as ligações de Emily e pelo fato de ela não ter atendido quando tentou retornar. Ela sabia que a menina tinha visto suas ligações. Ela ligou logo em seguida, seis vezes. Impossível não ter visto. Resolveu ir ao lugar onde conversaram dignamente pela primeira vez: o Zimmel's. Era pequeno, mas também era um bom lugar. Servia uma boa comida e ótimas bebidas. Escolha perfeita para afagar as mágoas com gordisses, álcool e memórias massacrantes de quantas boas histórias ela perdeu com Emily. É, elas poderiam ter desenhado mais ótimas lembranças.
Apressou-se em pegar suas coisas para chegar lá o mais rápido possível. E, já no Zimmel's, sentou-se no mesmo balcão onde ficaram daquela vez. Ficava perto da entrada e havia alguns banquinhos para sentar-se. Bem típico de barzinho, mesmo sendo um restaurante.
Enquanto bebia uma dose de uísque, reparava nas luzes e nas pessoas que passavam em frente ao restaurante. A entrada era de vidro, então privilegiava aos clientes uma boa visão dos postes quebrados e os mosquitos voando em volta deles. Mas era uma vista que, mesmo sendo tão ordinária e cotidiana, não deixava de ser encantadora. E Spencer foi admirando aquela paisagem por mais três doses, até que, de repente, aparecesse um rosto conhecido vagando pela vitrine: Emily. Ficou observando os movimentos avulsos da menina por um tempo, até que resolvesse ir até lá. Pediu ao barman que a aguardasse. Quando abriu a porta do restaurante para sair, os típicos sininhos da porta soaram e chamaram a atenção de Emily.
— Oi, Emily. — Spencer sorriu pondo as mãos no bolso do casaco.
— Spencer? — olhou da menina para a placa de neon do Zimmel's e, de repente, algumas lembranças vieram à sua mente — Olá, como vai?
— Bem, eu... Estou bem. — continuou sorrindo abobada — Mas você não parece estar. — Havia reparado no rosto da menina, no qual estava meio inchado por conta das lágrimas.
— Mais ou menos. Coisas estão acontecendo e... Só é complicado.
— Sei. Eu entendo. — e o silêncio apareceu novamente — Você... Você não quer vir comigo e conversar? Beber algo, talvez?
— Com você? — Perguntou surpresa.
— É. Eu tô sozinha aqui.
— Bom.. — pensou que não bebia, pensou em Charlie, pensou em seu barranco por Spencer e, finalmente, pensou que não havia problema algum em tomar uma ou duas doses de qualquer coisa com uma amiga— Porque não, né?
Lá dentro, Emily e Spencer começaram uma conversa muito interessante sobre marcas de bebida e, logo depois, falaram de como suas vidas tinham mudado pouco, mas drasticamente, nesses meses que não se falaram. Enfim, estavam bem uma com a outra.
— Mas, Em, você não me disse porque estava com o pensamento tão distante ainda agora. Eu fiquei preocupada. Tem certeza que não aconteceu nada demais mesmo?
— Bem... Na verdade eu e Charlie tivemos problemas agora a pouco. — Disse com o olhar fora de foco e tomando um gole de sua bebida.
— Charlie é... sua namorada, certo? — Spencer não pôde deixar de sentir seu coração sorrir com aquilo. Mesmo que fosse meio rude, ela estava feliz por poder ter o mínimo de chances.
— Aham.
— O que aconteceu? — perguntou — Digo, não é da minha conta. Me descul-
— Tudo bem. Eu precisava conversar com alguém mesmo. E Aria não atende o telefone. A próxima pessoa em quem eu pensaria certamente seria você.
— Nossa, que honra. — riram — Mas então isso significa que... aquelas ligações eram a respeito disso?
— O que? Não, não. — Emily riu levemente — Eu só pensei em te ligar mesmo. Mas você não atendeu, então...
— Me desculpe. Eu estava dormindo. — Sorriu constrangida.
Inconvenientemente, o silêncio parecia ser uma visita constante na vida daquelas duas. Até meio constrangedor, a falta de assunto ali não era exatamente um problema. Elas só não conseguiam falar.
— Ch-charlie me traiu. — Cuspiu a informação.
— O que?! Aquela garota só pode ser louca. — Spencer estava indignada. Como alguém, em sã consciência, conseguiria trair uma pessoa tão dócil, meiga, inteligente, linda, generosa, maravilhosa e... Deus, ela estava muito apaixonada por Emily. Não beijá-la naquele instante era como uma missão impossível.
— Ela me contou imediatamente. Foi nobre da parte dela. — Disse tentando defendê-la.
— De toda forma. Como ela conseguiu? — Arrependeu-se levemente de ter praticamente dito que ela própria não conseguiria.
— Eu não sei. Sinceramente, eu não consigo pensar em nada. Mesmo que ela não tenha tomado a iniciativa e mesmo que ela tenha me contado, foi com a ex-namorada dela e ela retribuiu. Elas se amavam demais e eu cheguei no meio da transição desse sentimento. Acho que não estou me sentindo pior por causa de mim e sim por ela. Sinto como se eu estivesse no caminho delas e... Isso me deixa péssima.
— Não fique assim, Em. Você não foi a culpada disso tudo. — Segurou suas mão com força, passando-lhe confiança.
— Eu... Eu só não sei o que fazer. Eu gosto dela. — Com isso o aperto de Spencer afrouxou-se e Emily notou, mas decidiu não falar nada. Spencer olhou para o relógio e viu que já era quase meia-noite.
— Bem, está ficando muito tarde. — Citou enquanto ajeitava suas coisas e pagava a conta.
— Aqui. — Estendeu para Spencer a quantia que pagava sua parte.
— Não precisa. Eu te convidei, eu pago. — Sorriu gentilmente.
— Obrigada.
— Você quer que eu te deixe em casa? — Perguntou Spencer.
— Eu não vou voltar pra lá hoje. Não sei se consigo encará-la.
— E pra onde você vai?
— Não sei. Aria não me atende, então acho que vou passar a noite em alguma pousada ou sei lá. — Disse enquanto mexia nos próprios dedos.
— Claro que não! Já que Aria não lhe atende, você pode passar a noite na minha casa.
— Não, Spencer. Não quero te incomodar.
— Incômodo seria se eu fosse tentar dormir sabendo que você está num lugar qualquer..
— Mas não seri-
— Não, não. Nem mas, nem menos. Você será minha hóspede. — Impôs firmemente.
— Você não existe, sabia? — Riram.
— Bom, já que eu não existo, você terá uma casa só pra você. — riram novamente enquanto Spencer abraçava o pescoço de Emily, ficando lado a lado com ela e indo em direção ao táxi.
Chegando na casa da futura advogada, as duas entraram rindo de algo que disseram no caminho. Realmente, passar um tempo juntas fez bem para as duas.
— O banheiro é bem ali na segunda porta à direita, a cozinha é ali atrás, a sala é aqui e a casa é sua. Fique à vontade. — Spencer deu as coordenadas enquanto tirava o casaco e o pendurava — Vou tomar um banho antes de você, tudo bem?
— Certo. — Concordou enquanto sentava no sofá.
— Se quiser, você pode ir pegando alguma roupa minha lá no quarto. — Com isso, finalmente entrou no banheiro e fechou a porta.
Emily fez o que Spencer sugeriu e foi até o quarto da menina para pegar alguma roupa emprestada. Ficou maravilhada com a organização da menina. Chegava até a ser meio assustador, pois, depois de passar um tempo procurando uma roupa que ela pudesse pagar caso estragasse, percebeu que Spencer separava suas vestimentas por marca e cor. Emily riu da situação. E, quando finalmente achou as vestes perfeitas, dirigiu-se para fora do quarto. Mas, quando estava prestes a sair, percebeu um porta-retratos com uma foto de Spencer e Toby. Tomou-o em suas mãos e pôs-se a observar a cena que era retratada.
Spencer estava deitada no colo do rapaz e eles se olhavam e sorriam. Aparentemente, estavam muito felizes. Não era dúvida que eles formavam um lindo casal. Logo, era de se estranhar que não estivessem mais juntos. Pelo menos não como namorados.
— Eu gosto muito dessa foto.
Emily tomou um susto por Spencer aparecer sem avisar no quarto. Ou talvez tivesse avisado e ela nem havia prestado atenção, pois estava muito concentrada na foto.
— E-ela é realmente linda. Vocês formavam um belo casal. — Disse devolvendo o porta-retratos pro local de origem. Quando voltou seu olhar para a menina, viu que ela estava apenas de toalha. Spencer era linda, tinha um corpo perfeito.
— Eu costumava pensar assim também. Mas “belo” não é o suficiente pra mim. Eu queria “perfeito”. — sorriu triste — E, infelizmente, eramos iguais demais. Isso não trazia a perfeição.
— E qual a sua definição de “perfeito”? — Perguntou interessada.
— Pessoas diferentes. Mas não totalmente. — sorriu novamente — Tipo quebra-cabeça, sabe? Quando a outra pessoa te completa. Como se fossem cacos de vidro que, quando se juntam, encaixam-se perfeitamente.
— Então ele não era o seu “caco metade”? — Riram.
— Não. Mas eu tenho uma ideia de quem possa ser.
— Ah. — pareceu meio triste — E... Você se importaria se eu soubesse quem é?
— Eu achei que... — aproximou-se vagarosamente — Você soubesse.
— Não faço ideia. — desentendeu-se — Eu realmente esperava que fosse o Toby. — Desviou o olhar ao notar a aproximação de Spencer.
— Em... — chamou-a, fazendo-a olhá-la novamente — Por que você me ligou hoje à tarde?
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