Onde a Culpa não Habita
1 Ada
Notas iniciais
Ada casou-se antes mesmo de terminar o último ano do ensino médio. Seus pais não pareceram se incomodar que o pretendente fosse mais velho até que eles, mas talvez isso tenha algo a ver com a conta bancária do ex-prefeito da cidade e futuro marido de sua filha: Charles “o Lorde” Keats.
Não que o comprometimento tenha impedido que ela, supostamente, flertasse com o salva-vidas, tivesse encontros escondidos com seu ex-namorado, Nathaniel, ou até que transasse com homens casados no estacionamento de uma videolocadora. Essas informações todas, claro, foram passadas a mim por Brigitte, a melhor amiga.
A cidade toda parece ter sido convidada para a festa, o que fez com que eu pudesse, convenientemente estar lá também. Se soubesse do que viria a acontecer mais tarde, teria me preparado melhor. O casório ocorreu na mansão de Keats, próxima a praia, num sábado a noite.
Ada estava vestida como imagino que Daisy Buchanan se vestiria se fosse mais que ficção. Enfeitada em pérolas da cabeça aos pés, com os cabelos escuros trançados e um vestido de caimento reto que, se usado por qualquer outra pessoa, pareceria simples demais para um casamento. Confesso que quando apareci para a festa, sequer sabia quem era Ada, mas soube que ela era a noiva assim que a avistei descendo às escadas da mansão que levam para o pátio. Apesar de vir de uma família simples, havia algo de muito nobre sobre sua forma de se portar. Um orgulho, de certa forma, de saber que herdaria aquela cidade inteira apenas ao assinar um papel, ou então seu prazer era derivado de saber a inveja que causava aos seus colegas e amigos.
Os pais de Ada comentaram com amigos naquela noite, após algumas taças de champagne, que a menina falava desde pequena sobre sua ambição de casar com alguém muito rico. Seu maior desejo na vida era poder não fazer coisa alguma, apenas existir e desfrutar de todos os luxos e prazeres possíveis.
“Ela não pretende ir para a faculdade” foi o que Brigitte me disse quando questionei ela, a princípio, sobre a personalidade de Ada. Depois contou, indignada, que quando o Lorde fez promessas de se mudar com ela para Portland ou Nova York, Ada recusou. “Ela não tem esses tipos de interesse”. Brigitte estava muito séria durante a festa, não parecia interessada em conversar com qualquer um, nem mesmo Ada. Parecia quase tensa.
Carina, por outro lado, estava muito festiva.
— Somos amigas desde o jardim de infância. — ela me explicou, com a fala um pouco arrastada. Provavelmente fazendo bom proveito da ocasião para beber antes de alcançar a idade adequada.
— Você sabe como ela e o Lorde se conheceram?
Ela deu uma risadinha antes de me responder, quase derrubando um pouco de champagne em seu vestido rosa.
— Isso ela nunca me contou....mas tenho certeza de que ela já estava vindo aqui chupar ele antes mesmo de terminar com Nathaniel. — a fala indiscreta dela me fez engasgar um pouco na bebida. Mas a curiosidade, para minha sorte, me manteve conversando.
— Eles terminaram tem pouco tempo?
— Ah...acho que fazem poucos meses sim. Nunca dava pra saber com eles. Terminavam e voltavam o tempo todo, aí numa dessas ela decidiu casar com o Lorde. — ela riu novamente.
— Do nada?
— Praticamente, sim. Ada é muito misteriosa, a gente nunca espera que ela conte muita coisa assim. — ela pausou para dar mais um gole do champagne — Mas somos muito amigas. — me assegurou.
— E Nathaniel está aqui?
— Sim, sim. — ela apontou para o outro lado do pátio, onde na ponta de uma das longas mesas postas no jardim, um garoto de terno bebia emburrado. — Mas ele só veio porque o pai dele é amigo do Lorde.
— Ainda são amigos? — questionei, imaginando que comparecer ao casamento de sua ex-nora com seu amigo deve ser uma traição doída ao próprio filho.
— Com certeza. — Carina respondeu — Essas coisas de negócios, sabe? Não dá pra não serem amigos mais.
Quando me refiro ao casamento, imagino que o padre estivesse lá mais como um convidado, também um amigo do Lorde. Aquele era o quarto casamento de Charles, imagino que após tantos não façam mais questão da igreja ou de juramentos perante Deus. A cerimônia consistiu apenas na assinatura dos documentos de casório em frente às testemunhas, seguida pela comemoração que durou horas, com direito a uma banda incansável que tocou a madrugada inteira. Ada e Charles se beijaram na frente do bolo para a foto que seria publicada no jornal do dia seguinte.
Charles não tinha filhos, apenas uma irmã que morava em Portland e um sobrinho, Gael, que trabalhava com ele.
— A menina tem sorte. — uma mulher que estava ao meu lado comentou enquanto assinavam o documento. — Vai herdar tudo isso aqui.
Mais tarde, quando me servia do banquete no jardim, notei Ada na varanda do primeiro andar, encarando seu ex-namorado que ainda estava sentado na mesma posição. Ela sorriu para ele de um jeito quase traiçoeiro, rindo em seguida. Como se tudo aquilo não passasse de uma grande brincadeira. Nathaniel apertou seu copo com mais força e murmurou algo que ela não ouviu, mas provavelmente entendeu, deu um sorrisinho e virou às costas.
Gael passou a maior parte da noite conversando com seu tio, caminhando pela propriedade, ambos pareciam felizes. Conversavam, imagino, sobre negócios.
Em algum momento, perguntei ao senhor Coronel onde ficava o banheiro mais próximo, e ele indicou que eu usasse o do primeiro andar já que todos do térreo deviam estar ocupados. Ao subir às imensas escadas duplas de mármore que levavam ao corredor do primeiro andar, já inebriado um pouco demais, me esqueci a direção que ele havia dado. Abri a segunda porta à direita que, vim a descobrir tarde demais, tratava-se de um escritório.
— Perdão! — falei imediatamente ao perceber que tinham pessoas ali e aquela foi a primeira vez que ouvi a voz tranquila de Ada.
— Sem problemas. — ela disse com um risinho, se afastando de Nathaniel — Só estamos conversando.
Nathaniel, no entanto, parecia nervoso. Mal se virou para olhar para mim, continuando a encarar Ada. Notei, nesse momento, que um dos colares de pérolas da menina estava no chão, quebrado.
— Eu estava procurando pelo toalete. — expliquei.
— Duas portas à direita. — ela disse sorrindo, mantendo seus olhos em Nathaniel.
Retornarei a esse evento quando for relevante. Por ora, prosseguimos pela noite.
No saguão, Charles já planejava animadamente seu próximo evento beneficente, um leilão de pinturas. Ninguém mencionou a causa, mas isso parecia irrelevante. A atmosfera toda era inebriante, talvez fosse a casa, o cheiro de orvalho no imenso jardim, ou a música.
Ainda não tinha avistado a noiva novamente quando o Lorde sorriu para mim e veio me cumprimentar. O parabenizei pelo casamento e elogiei a comida, como se deve fazer.
— Ah, Detetive! Estou tão feliz que pode vir! Soube que está fazendo um trabalho excelente. — apesar de não ser mais o prefeito, ainda agia como um digno político.
— Obrigada, Lorde. Espero que sim.
— É uma noite muito feliz. — ele disse — O futuro é próspero! Pedi que meu sobrinho fosse buscar um presente para o senhor no meu escritório, aguarde aqui.
— Um presente, senhor?
— Sim! Você sabe, pelos serviços prestados à nossa cidade.
— Agradeço, senhor.
— Você já teve o prazer de conhecer minha Ada? — ele perguntou, gesticulando para a moça do outro lado do salão.
— Não pessoalmente, senhor. — menti, depois de pensar um pouco.
— Ela parece um anjo, não é mesmo? — ele admirou.
— Sim, senhor.
Foi por volta desse horário que o incidente ocorreu. Ouviu-se o barulho tão subitamente que suponho que a princípio ninguém reconheceu o que poderia causar tanto estardalhaço. Mas, como se espera, em alguns segundos o saguão de entrada estava cheio de gente, com gritos e suspiros de choque.
Abrindo caminho pela multidão, avistei a cena: Gael caído no chão, só a queda pelas escadas seria suficiente para quebrar o pescoço do homem, mas ele sangrava pela boca. Ao seu lado, estava quebrada uma garrafa caríssima de whisky que, imagino, seria meu presente.
No fim das contas, a foto que estampou o jornal da cidade na manhã seguinte foi a de Gael morto, não a do beijo dos recém-casados.
Ada estava com o rosto escondido no peito de Charles, que aparentava estar em choque.
A festa acabou rapidamente e a polícia instruiu que todos voltassem para suas casas, alguns dos meus colegas ainda vestidos de gala invés de seus uniformes oficiais.
Fui dispensado rapidamente, como sabem, pela aparência de acidente. O corpo falecido de Gael, após o procedimento padrão, foi levado para a autópsia.
O sentimento de luto já reinava no ar quando, silenciosamente, todos os convidados se dirigiam aos seus carros. De relance enquanto voltava para casa, notei o que parecia ser Brigitte e Nathaniel no mesmo carro, conversando.
Os senhores imaginam minha surpresa quando, nas primeiras horas da manhã, recebi uma ligação do Capitão falando sobre a autópsia de Gael Keats: “claros sinais de envenenamento”.
— Você acha que ele pode ter sido jogado das escadas? — questionei quando cheguei na delegacia.
— Difícil. A torção no tornozelo esquerdo indica que ele caiu por acidente. Provavelmente porque o veneno já estava agindo. — o Capitão (Peter) claramente não havia dormido e seu hálito cheirava a café amargo.
Ada foi a primeira trazida para interrogação e eu senti como se estivesse na presença de alguém da realeza. Vestida ainda de branco, agora um vestido de linho, sem a maquiagem da noite passada, mas ainda trajando pérolas, sentou-se com um suspiro triste na minha frente. Ela trouxera seu próprio lenço branco para enxugar eventuais lágrimas. O Lorde aguardava do lado de fora.
— Detetive Bernard, que tragédia!
— Sinto muito pela sua perda. — falei — Você era próxima da vítima?
Ela pensou um pouco antes de responder.
— Não muito, sinceramente. — olhou para o teto — Ele sempre foi muito gentil comigo, mas era muito ocupado, entende? É...era — corrigiu — responsável por gerenciar os hotéis pelo estado inteiro. Não parava muito em casa.
— Entendo que ele era muito próximo do Lorde?
— Ah sim — ela suspirou — Charles o ama como um filho. Você pode imaginar.
Ela fez uma pausa para enxugar os olhos.
— Imagino. A senhora está ciente de que a investigação está acontecendo pelo caso ter sido determinado como homicídio?
— Ele caiu. — ela respondeu rapidamente, parecendo surpresa — Como assim homicídio?
— Sim, caiu. Mas foi envenenado antes disso.
Ada soltou um suspiro surpreso.
— Charles já sabe disso?
— Imagino que tenham contado para ele, sim. — fiz uma pausa — Vocês e todos que estavam presentes são instruídos a não sair da cidade.
— Acham que Charles fez isso? — ela questionou, mudando de postura de repente.
— Acham que qualquer um pode ter feito isso. — falei — Inclusive a senhora.
Ela me encarou como se eu estivesse brincando a princípio, quase sorriu. Depois, tornou-se séria, não apenas séria, mas brava. Apenas com o olhar. Suavizou sua expressão antes de dizer:
— Eu jamais faria isso. — pausou — Fico insultada que sequer considerem isso. Não acredito que qualquer um teria razão para fazer algo assim com um homem tão gentil.
— Mas fizeram. — insisti, e ela olhou para mim como se estivesse pronta para ir embora. Eu não tinha mais sua simpatia. — E você, nesse caso, acaba de se tornar a única herdeira no testamento de Charles.
Ela suspirou e se reclinou um pouco na cadeira. Sem desviar o olhar de mim.
— É isso que pensam então? Que eu seria capaz de assassinato por conta de uma herança? Nem eu sou tão ambiciosa assim, senhor. Ou tão fria. Isso é um ultraje. — falou, se levantando.
— Não terminei minhas perguntas, senhora Keats.
— Eu não tenho mais nada a dizer ao senhor. Eu estava no salão o tempo todo, o senhor me viu. — ela falou se dirigindo à porta
— Exceto horas antes quando estava no escritório com seu ex-namorado, não?
Ela parou, virou-se lentamente para mim e sorriu calculadamente:
— Aquilo não foi nada. Uma discussão boba, Nathaniel é muito ciumento. Ainda não aceitou bem a situação. — deixou de sorrir — Eu terminei por aqui.
E saiu da sala.
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