Onde a Culpa não Habita
2 Carina
— Sei que deveríamos entrevistar todo mundo, — falou o Capitão Peter quando entrei pela porta da delegacia na manhã seguinte — mas, honestamente, por que ela está aqui? — perguntou gesticulando para Carina, que chorava sentada na sala de espera.
— Porque ela fala, senhor — respondi — fala muito.
Depois de oferecer um chá a ela, e aos seus pais que acompanhavam, entrei na sala de interrogatório com a moça.
Carina é jovem e cheia de vida, bochechas rosadas e cabelos loiros, veio vestida num conjunto de calça e agasalho de plush cor de rosa e chorava mais que qualquer um que com quem eu tinha falado, apesar de nem conhecer a vítima. Seria isso suspeito?
A moça nasceu e cresceu na cidade, sua mãe trabalhou como corretora de imóveis até ela nascer e depois se dedicou integralmente à menina, enquanto seu pai trabalhava com contabilidade numa firma regional. Era uma estudante decente, participou do grupo de teatro quando criança, depois do de xadrez por duas semanas, mas por fim desistiu de atividades extracurriculares. Ultimamente pretende estudar pedagogia ou veterinária quando terminar o colégio. Tudo isso me contou apenas enquanto eu pegava meu bloco de notas na mochila.
— Certo. — falei quando sentei na sua frente — Nós conversamos um pouco durante a festa, lembra?
— Sim, senhor. — ela sorriu
— Você passou a maior parte do tempo no pátio mesmo?
— Ah sim, comi junto com meus pais, fiquei conversando com algumas amigas na mesa do jantar, dançamos em alguns momentos também. Ah! Foi uma festa tão bonita...digo, até o que aconteceu.
— Claro. Você conversou com Ada em algum momento?
— Não muito, senhor. Apenas antes da festa começar, quando ela estava se arrumando.
— Você chegou lá antes então?
— Sim, bem antes — falou com certo orgulho — fui para ajudá-la a se arrumar, preparar as coisas, sabe?
— Mais alguém estava lá?
— Bem, o Lorde, é claro. Brigitte chegou um pouco mais tarde, mas todas as pessoas da organização já estavam lá, os cozinheiros, garçons, a banda estava chegando… — ela fez uma pausa — Gael também já estava lá, claro, digo, ele estava morando lá.
— E como foi a tarde?
— Ah, bom! Cheguei por volta dás três horas, Ada tinha acabado de sair do banho. Fiquei com ela em uma das suítes, ajudei ela arrumar o cabelo, mas passamos a maior parte do tempo conversando. Ela estava bem animada, acho. Parecia muito feliz. O Lorde comprou uma penteadeira linda para ela, com um espelho enorme. Vieram nos trazer uvas, nozes, figos, todo tipo de coisa! Ela me mostrou um pouco da propriedade, e mais a noite colocou o vestido. Até ajudei ela com a maquiagem.
— Brigitte já estava lá?
— Chegou por volta desse horário, umas cinco e meia, sim. Ada nos apresentou formalmente para o Lorde, que passou quase a tarde toda resolvendo coisas no escritório de Gael. Ficamos conversando no quarto até os convidados começarem a chegar.
— E Ada estava com vocês o tempo todo?
Carina pensou por um tempo.
— Quase todo, sim. Ela saiu por um momento para resolver alguma coisa no jardim, algo a ver com os arranjos florais. Mas logo voltou.
— Que horas foi isso?
— Um pouco depois de Brigitte chegar.
— E o Lorde, você disse que ele ficou a tarde toda resolvendo coisas no escritório de Gael.
— Sim.
— Como sabe que era o escritório de Gael?
— Ah, Ada nos contou, eles estavam trabalhando juntos. O escritório do Lorde é maior e fica do outro lado da casa.
— Em que andar era o escritório de Gael?
— No primeiro.
— À direita?
— Isso. — ela assentiu.
— E como estava Ada ao longo do dia?
— Sorridente. — disse Carina — Ela nunca demonstra empolgação demais, mas dava para ver que estava animada para nos mostrar tudo. O vestido dela foi feito à mão por encomenda do Lorde, acredita? Ele mesmo pagou para que o estilista viesse para cá medir o corpo dela e tudo, por isso ficou tão perfeito. — continuou falando sobre os mínimos detalhes da mansão, dos aperitivos, das jóias por um tempo, até que algo me chamou atenção — Bom, Nate chegou logo no início da festa, acho que isso a deixou um pouco de mau humor.
— Não parecia de mau humor quando a vi. — comentei.
— Ela é muito discreta com essas coisas, senhor.
Falava sobre Ada com brilho nos olhos, como se ela fosse uma estrela.
— Quando ela ainda namorava o Nathaniel, não se falava muito sobre as coisas….erradas…. que ela fazia. Sabe, pra ele não ficar bravo com ela. — a moça deu um risinho — Ela é dona de si, sabe? Faz o que ela quer.
Ou seja, infiel.
— Você acha que é possível que ela estivesse tendo um caso com Gael? — perguntei.
— Ah não. Não é assim.
— O que você quer dizer com isso?
— Hum….ela não teria porque ficar com Gael, acho que ele não faria isso com o próprio tio também.
— Você acha que ela poderia envenenar Gael? — perguntei, e ela arregalou os olhos.
— Não! Claro que não. Ada jamais faria algo assim.
— O que te faz pensar isso?
Carina precisou de um momento para pensar.
— Ela não é ruim. Não mataria ninguém. Ainda mais alguém tão próximo do marido dela!
— Você acha que ela ama o Lorde?
— Sim.
— Mesmo? — questionei
— Bom, não sei. — ela admitiu — Mas acredito que sim, não acho que ela casaria com ele sem amá-lo.
— Apesar de ser infiel a ele constantemente?
Carina não respondeu, apenas olhou para baixo.
— Ela realmente não é uma pessoa ruim, senhor. — falou após um tempo.
— E Nathaniel?
— Ah, ele é obcecado por ela. — falou rapidamente, sorrindo.
— Você acha possível que a intenção fosse envenenar Ada, não Gael? — perguntei, pensando novamente no colar de pérolas quebrado no chão do escritório que adentrei por engano.
Carina pareceu surpresa com a suposição.
— O senhor acha...que Nate faria isso? Não, não, não. — ela parou por um instante — Ele ama ela, não iria querer envenená-la!
— E o Lorde?
— O Lorde envenenaria ela?!
— Não, Nathaniel envenenaria o Lorde?
Carina não respondeu, de olhos arregalados. Provavelmente, considerando essa opção.
— Você é próxima de Nathaniel? — perguntei.
— Não muito, senhor. Ele é...difícil.
— Díficil?
— É, mau, sabe? — Carina claramente se arrependeu de ter colocado a frase dessa forma imediatamente — Digo, ele é muito popular, certo poder vêm com isso. Ele não faz questão de falar com qualquer menina além da Ada. Não dá muita bola pra ninguém.
— É muito popular na escola?
— Sim, ele está no time de natação E é capitão do time de futebol.
— Quanto talento.
— Pois é. Acho que esse tipo de coisa é bem importante para eles, digo, ele e a família dele, sabe?
— Que tipo de coisa?
— A reputação. — ela disse.
— Você sabe onde eles estavam algumas horas antes do ocorrido?
— Bom, perdi Ada de vista muitas vezes. Nate passou a maior parte do tempo sentado à mesa, o Lorde passou a maior parte do tempo no salão. Não sei, senhor. Tinha tanta gente lá.
— Carina, vou lhe contar um segredo. Eu mesmo vi Ada e Nate num cômodo sozinhos durante a festa. Você sabe se eles mantêm algum tipo de relação?
— Eles terminaram há um tempo… — ela disse, olhando para a parede atrás de mim.
— Mas eles ainda mantém algum tipo de relação? — insisti.
— Existe essa possibilidade… — ela admitiu, movendo os ombros em desconforto. Seu rosto voltou a ficar mais corado, o silêncio a deixava nervosa, seus olhos enchiam de lágrimas novamente.
— Carina, realmente precisamos de sua ajuda com isso. — falei me inclinando em direção à mesa — Toda informação que você puder dar é fundamental para essa investigação, entende?
Ela acenou com a cabeça, olhos arregalados, e assou o nariz com os lenços descartáveis disponíveis na mesa.
— Quem são as pessoas mais próximas de Ada? Além de você, claro.
— Brigitte, acho. — ela pausou — Elas não estão mais tão próximas ultimamente, ao menos é o que parece.
— Por que acha isso?
— Bom, Brigitte estava lá no casamento mas não parecia tão empolgada com as coisas que nem a gente. Ela pode estar brava com Ada por algum motivo. Brigitte é meio assim, ela não fala sobre essas coisas, ela guarda para si por vários dias e eventualmente diz algo muito sarcástico ou malvado para percebermos que ela estava brava.
— Acha que existe algum motivo para elas não estarem se dando tão bem?
— Não, não sei. Elas não me envolvem nessas coisas. — admitiu — Têm toda essa linguagem só delas, não é nada muito verbal. Nunca entendo os desentendimentos delas, mas em alguns dias as coisas voltam ao normal e Brigitte volta a almoçar conosco.
— Carina, preciso saber de qualquer pessoa que esteja se relacionando com Ada. — falei — pode ser que a intenção fosse envenenar ela invés de Gael. Você não gostaria que alguém com tais intenções andasse livre, certo?
— Claro que não, senhor!
— Então me conte, por favor. Ninguém contará à ela ou ao Lorde o que foi dito aqui, se é isso que te preocupa.
Ela suspirou, afundando um pouco na cadeira. Olhou para o teto por um instante e depois para mim novamente.
— Tudo bem. Bom, tem o Nate, claro. — essa foi fácil — Acho que eles nunca pararam de se ver ou se falar.
Também contou do salva-vidas, Robin, sobre quem Ada apenas a contou, em segredo, em uma ocasião numa festa, quando já estava um pouco alcoolizada. Mas Carina admitiu que certa vez flagrou a amiga com o moço, saindo do banheiro de uma lanchonete próxima a praia juntos. Ada não a viu, mas Carina a reconheceu “pelo bíquini vermelho”. Também disse que houve um cara numa festa uma vez, quando ela ainda namorava Nate, Carina jurou por seus pais não contar nada a ninguém. E, por fim, a moça afirmou ter certeza de que a amiga tenha tido um breve caso com “um homem casado”, mas não sabia quem e considerava irrelevante. Por fim, confessou que Ada frequentava a casa do Lorde quando ainda estava namorando Nate como se o peso do segredo fosse seu.
Deixei a menina ir alguns minutos depois e passei as informações mais relevantes ao Capitão. Após analise da perícia descobriram que o veneno havia sido posto dentro da garrafa de whisky do escritório de Gael, à direita da escada no primeiro andar. Desde conhecer essa informação me questionava se o assassino sabia que aquele era o escritório de Gael e não do Lorde. Mas essa questão só resolvi um pouco mais tarde.
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