Onde Tem Ódio Tem Amor
86 ESPECIAL - All I want for my new year is you
Notas iniciais
Precisou de um tempo para se situar quando acordou. Odiava aqueles tipos de sonhos, os que ela achava serem reais. Quando os tinha, sentia que entendia um pouco do que Natsu sentia com seus pesadelos. Embora nem sempre os dela fossem pesadelos, o daquela noite certamente não fora nada agradável.
Mirou o teto por certo tempo, não soube quanto. Andava fazendo muito isso ultimamente, assim como fechar os olhos debaixo do chuveiro, deixando a água cair sobre seus ombros. Eram coisas que a ajudavam a limpar sua mente e entender o que estava acontecendo ao seu redor. Quando se sentiu melhor, virou-se para o lado, observando Natsu dormindo feito uma pedra, como sempre. Sentiu que precisava acordá-lo, ou aquela sensação ruim não iria embora. Seu sonho pareceu tão real que, se pensasse demais, começaria a achar que era na verdade uma memória. Precisava perguntar a ele, apenas para ter certeza. Somente para se certificar de que não estava ficando louca.
— Natsu — chamou-o, chacoalhando seus ombros. Nenhuma resposta. Tentou novamente, chacoalhando-o mais forte. — Natsu.
— Hum? — O garoto murmurou sem abrir os olhos.
— Você andou beijando outra pessoa?
— Quê? — Perguntou, confuso. Talvez também estivesse num sonho, porque aquela perguntar era estranha demais para ser real.
— Mais precisamente uma garota de cabelos pretos e olhos azuis, um pouco mais baixa que você.
— Que eu saiba, não — respondeu, ainda de olhos fechados. Queria dormir novamente, mas aqueles questionamentos da loira não permitiam que conseguisse.
— Tem certeza?
Finalmente virou-se para encará-la. Precisava olhar em seus olhos para entender o que estava acontecendo. Afinal, que tipo de perguntas eram aquelas?
— Acho que eu saberia se tivesse beijado alguém assim, Lucy.
— Por que alguém assim? Andou beijando alguém diferente dessa descrição?
O garoto bufou, voltando a deitar-se e fechar os olhos.
— Sim — respondeu com naturalidade.
— Sim? — Sim não era bem a resposta que esperava.
— Sim. Você, sua estranha. Agora me deixa dormir.
Não insistiu. Ao invés disso, deitou-se novamente. O garoto estava quase pegando no sono outra vez quando sentiu o braço de Lucy passando por debaixo do dele, até o seu peito, abraçando suas costas e agarrando lentamente sua camisa, forte até demais.
— O que foi, Lucy? — Perguntou. Ela não o deixaria dormir, de qualquer forma. O melhor era saber logo o que estava acontecendo.
— Eu tive um sonho.
— E?
— E você estava beijando uma garota nesse sonho — ao menos aquilo explicava as perguntas estranhas.
— Foi só um sonho. Relaxa e volta a dormir.
Alguns segundos de silêncio. Natsu chegou a pensar que enfim tinha conseguido acalmá-la e conseguiria voltar para seus sonhos em paz. Pobre e doce ilusão.
— Você não me trairia, não é? — O garoto bufou. Recusava-se a responder aquilo, porque a resposta era mais do que óbvia e a pergunta desnecessária. Pegou seu travesseiro e o apertou contra sua própria cabeça, tentando abafar os sons. Mais precisamente, tentando escapar das perguntas estranhas de Lucy. — Natsu! Me responde.
Porém, o garoto a ignorou. Situações desesperadoras pedem medidas desesperadas, portanto, ela colocou seu corpo sobre o dele e tentou a qualquer custo arrancar o travesseiro do rapaz. Por fim, conseguiu.
— Lucy, me deixa dormir.
— Eu preciso saber.
— Mas você já sabe.
— Preciso ouvir você dizer.
— Eu não vou dizer.
— Por que não?
— Porque você já sabe! — Exclamou.
— Não custa nada dizer, Natsu. Para de ser chato.
Novamente, ele bufou. Se não conseguiria fechar a boca de Lucy usando palavras, precisaria usar métodos mais radicais. Assim, sem que ela esperasse, sentou-se no colchão, agarrou a cintura da loira e a beijou com fervor. Pega de forma desprevenida, Lucy não teve outra reação senão corresponder ao beijo. Sem perceber, deixou que ele a deitasse novamente do seu lado do colchão, sem separar seus lábios. Então, ele repentinamente parou o beijo, quando ela já estava deitada, voltou para o canto onde estava antes e tentou mais uma vez dormir em paz, deixando a garota completamente desnorteada.
— Ei, você não pode me beijar assim e simplesmente parar, do nada.
— Posso sim.
— Não pode não.
— Foi o que eu acabei de fazer.
— Foi injusto.
— A vida é injusta. Aceite e volte a dormir, Lucy.
— Quando você tiver seus pesadelos vou dizer isso também — o garoto resmungou algo, porém não se importou em responder. Seus pesadelos e os sonhos de Lucy eram bem diferentes para se fazer uma comparação. Claro, ela não sabia disso. — Natsu, acorda.
— Caramba, Lucy! Foi só um sonho! Me deixa dormir.
— Não é sobre o sonho.
Natsu sentou-se no colchão novamente, começando a ficar sem paciência.
— É bom que não seja.
— Preciso viajar para Nagoya — disse, aguardando pela reação do garoto. Ele apenas passou a mão pelos fios do cabelo, olhando-a confuso.
— Ok, você sempre viaja para Nagoya, isso é normal. Quando?
O problema não era a viagem, mas sim a data. E sabia que a reação dele não seria nada boa.
— Hoje.
— Hoje?! — Exclamou. — Mas hoje é 31 de dezembro.
— Eu sei. É uma festa de fim de ano.
— E por que não me avisou antes?
— Porque seria mais tempo com você bravo comigo — respondeu honestamente. — E eu não queria você bravo. Além do mais, você ia tentar me convencer a ficar e eu me sentiria pior ainda por ter que ir.
— Claro, é ano novo. Você não pode viajar no ano novo. Além do mais, temos aquela festa da Levy hoje à noite.
— Eu sei, me desculpa. Eu não tenho escolha. Se eu pudesse ficaria aqui, você sabe o quanto eu odeio esses eventos. Teria te chamado para ir comigo, mas eu sei que você odeia tanto quanto eu. E você não precisa estar lá, ao contrário de mim. Prometo que vou tentar chegar antes da meia-noite.
— Tentar?
A garota suspirou. Gostaria de dizer que conseguiria definitivamente chegar antes da meia-noite, contudo, não tinha muita certeza de que conseguiria. A viagem era longa, e era ano novo, os serviços de transporte não estariam funcionando normalmente.
Procurou pela mão de Natsu no colchão e entrelaçou seus dedos.
— Me desculpa. Eu não queria ter que ir, juro.
— Tudo bem — o garoto respondeu, ainda que a ideia não o agradasse nem um pouco. — Você está começando a parecer seu pai, abandonando sua família por causa do trabalho.
Lucy soltou suas mãos. A julgar pela sua expressão, havia se magoado com a fala de Natsu, e ele percebeu que poderia ter feito uma grande besteira ao dizer o que disse.
— Não acredito que falou isso, Natsu. Não acredito que está mesmo comparando eu e meu pai.
— Não, não foi o que eu quis dizer. Me desculpa — tentou se retratar, abraçando-a. Então, notou algo. O tom da voz de Lucy quando ela falou não parecia com o de quando ela estava magoada, levando-o à uma conclusão: — Você só disse isso pra eu me sentir culpado e não ficar bravo com você, pra tentar inverter a situação, não é?
— Quase funcionou. Droga.
— Sabia que eu não podia confiar em você, Heartfilia — comentou, em tom de brincadeira. Afastou-se um pouco de Lucy e perguntou: — Quando você precisa ir?
— Agora.
— Agora? Mas você nem arrumou suas coisas ainda.
— Na verdade, arrumei enquanto você dormia. Você tem um sono bem pesado, sabia? — Respondeu, apontando para o canto do quarto, onde estava sua pequena mala, com apenas coisas essenciais para uma curta viagem. — Vou só me arrumar para sair. Pode chamar um táxi pra mim?
— Eu te levo até o aeroporto.
— Tem certeza?
— É, já que talvez você não esteja aqui à meia-noite, quero ficar com você até o tempo que posso.
— Que fofo — Lucy respondeu, apertando as bochechas do garoto enquanto sorria. Com a voz triste, disse: — Eu não quero ir.
— Então não vá.
— Não é pra me dizer para não ir. Assim só me faz ficar com menos vontade de ir.
Natsu suspirou pesadamente.
— Você é tão estranha às vezes, Lucy.
Estava torcendo para que estivesse errado e que Lucy conseguisse chegar a tempo. Afinal, aquele era o primeiro ano-novo que passariam juntos, já que no anterior Lucy também tivera que ficar em Nagoya. Caso contrário, seu ano já começaria de forma ruim, e, do jeito que as coisas andavam ultimamente, com certeza não precisava disso.
Meia hora depois, estavam dentro do carro, a caminho do aeroporto municipal de Magnólia. No carro, o único barulho que se ouvia era da música tocando no rádio. Lucy estava ansiosa por não querer pegar aquele voo, e, portanto, também estava mais calada do que o normal. Em seu íntimo, estava quase torcendo para perder o horário, chegando depois do avião partir. Assim poderia ficar. Contudo, sabia que sua falta seria notada e vista como um ato de descomprometimento. Sendo assim, não tinha opção senão ir, mesmo que fosse para comparecer apenas para cumprimentar brevemente os convidados e então voltar para casa.
— Eu gosto dessa música — comentou aleatoriamente, já quando estavam perto da entrada do aeroporto. Não sabia o nome ou quem cantava, mas a melodia lhe conquistou.
— É uma boa música — ele respondeu. Quando o carro parou, desligou o rádio, reestabelecendo o silêncio. — Então, é isso.
— Não me olha assim — Lucy pediu. — Eu também não quero ir. Eu gosto do meu trabalho, mas definitivamente odeio esses eventos.
— Então não vá.
— Não posso! E são só algumas horas. Não é como se eu fosse ficar muito tempo lá.
— A questão não é o tempo, é que hoje seria um dia especial para nós dois. E você não vai estar aqui — Natsu bufou. Não ia discutir mais, não iria adiantar, de qualquer forma. — Vai me dar um beijo de despedida, pelo menos? — Lucy sorriu. Óbvio que não iria sem uma lembrança recente de um dos ótimos beijos de Natsu, portanto, inclinou-se até ele e encostou seus lábios. — Isso não é um beijo digno, Lucy.
Uma de suas mãos subiu até a nuca da jovem, enquanto a outra estava em sua cintura. Quanto a ela, sorriu mais uma vez e o puxou para mais perto pela gola da jaqueta, aprofundando o beijo, que durou o máximo do pouco tempo que tinham. Ao menos, seria algo de que ela não se esqueceria pelas horas que passariam longe um do outro.
— Lembra quando você invadiu esse aeroporto por mim? — Perguntou, ainda próxima dele. Aquele lugar trazia lembranças. Ótimas lembranças.
— É claro. Como eu ia esquecer? Será que os guardas ainda lembram de mim ou me deixariam entrar?
— Eu não sei... você tem traços marcantes demais para ser esquecido.
— Eu sou inesquecível, sei disso.
— Não, é só estranho mesmo. E as pessoas não esquecem de coisas estranhas.
— Haha, como você é engraçada — respondeu. — Sabe, ainda acho injusta essa coisa. Todo cidadão tem direito de ir e vir, o que incluiu um aeroporto. Não deveriam poder proibir pessoas assim.
— É um estabelecimento privado. E, de qualquer forma, era isso ou chamariam a polícia. Você poderia ter ido pra prisão.
— É, eu sei. Mas, de qualquer forma, valeu a pena.
Definitivamente tinha valido a pena, Lucy pensou.
Pegou seu celular para conferir as horas e fechou sua expressão. Não tinha mais um minuto sequer.
— Preciso ir agora. Ou vou acabar perdendo o voo.
— Pergunta rápida: Se você não chegar a tempo tenho permissão pra beijar outra pessoa à meia-noite?
— Depende. Se estiver curioso para saber o que acontece após a morte, claro, vá em frente — Natsu sorriu, e, com um último e breve beijo, se despediu de forma definitiva. — Até mais tarde.
— Ok — com olhos tristes, a observou sair do carro e entrar naquele grande estabelecimento. Não havia mais como impedi-la, sua única escolha era esperar que ela conseguisse voltar a tempo.
***
A tarde fora completamente entediante. Mesmo assim, gostaria de ter podido ficar em casa ao invés de ir à festa de Levy. Não estava num bom clima para festas. Dormir no sofá depois de assistir a alguns episódios de uma série aleatória na Netflix parecia uma ideia muito mais agradável. Porém, Levy provavelmente o mataria se não comparecesse, e, apesar do tamanho, ela conseguia lhe dar medo o suficiente para não arriscar.
Então, lá estava, em frente à porta de entrada, após tocar a campainha, esperando ser atendido. Pouco depois, Levy surgiu, em um vestido branco. Particularmente, achava aquela tradição um pouco ridícula. Duvidava que a cor da camiseta que estava vestindo teria influência em qualquer coisa que acontecesse durante o ano. Mas obedeceu às exigências que a pequena colocara no convite e vestiu uma camisa branca, ainda que com um blazer preto por cima.
— Oi! — Cumprimentou-o com um abraço. — Cadê a Lu-chan?
— Ah, ela não te avisou? Nós terminamos — mentiu, fingindo uma expressão de quem estava chateado. Obviamente aquilo estava longe da verdade, mas sentiu vontade de brincar com Levy.
— Uau, que novidade — sua resposta estava carregada de sarcasmo — Até que demorou dessa vez. Pensei que terminariam mais cedo.
— Ei, é brincadeira — disse, fazendo-se de ofendido. — Mas você deveria demonstrar um pouco de compaixão, eu poderia estar falando sério.
— Sem ofensas, Natsu, mas vocês já terminaram e voltaram tantas vezes que já nem fico preocupada quando acontece. E, se fosse verdade, a Lucy teria me contado, não você.
— Nunca se sabe, poderíamos ter invertido dessa vez.
— É, claro. Duvido muito disso. Você estaria conversando com o Gray e ela comigo, essa é a ordem natural das coisas. Mas então, onde ela está?
— Teve que ir a um evento da empresa em Nagoya.
— Ela não vem então? Vou matar sua noiva. Não acredito que vai me dar um bolo.
— Disse que iria tentar chegar antes da meia-noite.
— É bom que ela consiga então — Natsu se perguntava como alguém tão pequeno conseguia ser tão assustador quanto Levy. Mesmo sem tentar ela conseguia meter medo em qualquer um — Entre, vou pegar uma bebida pra você.
Pouco depois, Levy voltou com uma taça de algo que ele não sabia ao certo o que era. O gosto era bom, isso o que importava. Logo notou que a pequena casa estava lotada. Não gostava muito de grandes aglomerações, sentia-se sufocado, ainda mais sem encontrar seus conhecidos e sem Lucy consigo.
Procurou um canto vazio perto do sofá e ficou por lá, observando todos conversando animadamente. Estava tão distraído que não notara a chegada de uma mulher. Possuía longos cabelos ruivos, vestia-se elegantemente e dava-lhe seu melhor sorriso sedutor.
— Você eu definitivamente não conheço. Com certeza me lembraria de alguém tão charmoso — comentou. Talvez em seu passado tivesse se aproveitado do interesse da jovem, mas o elogio apenas o deixou constrangido. Além do mais, era facilmente notável o odor de álcool no hálito da jovem. Com certeza estava bêbada.
— É, acho que não nós conhecemos — respondeu, claramente desconfortável.
— Mas com certeza gostaria de conhecer. Muito prazer, Helena, colega de trabalho da Levy — apesar da situação não lhe agradar, retribuiu o cumprimento.
— Natsu, amigo da anfitriã.
— Amigo próximo? — Perguntou
— Não tão próximo quanto minha noiva — disse, tentando deixar claro que não estava interessado.
— Ah, sério? — A fala, porém, teve efeito contrário, pois a moça aproximou-se ainda mais, e, com a parede atrás de si, não tinha para onde fugir. — Um homem comprometido, então. Torna as coisas mais interessantes.
— É, acho que não — respondeu, procurando com o olhar qualquer conhecido que pudesse livrar-lhe daquela situação. Helena se aproximava ainda mais, chegando a colocar suas mãos no abdômen do rapaz. A situação ficava cada vez mais desconfortável, precisava dar um jeito de se livrar daquilo de algum modo. Sequer queria estar naquela festa, ainda por cima mal chegara e já estava metido em problemas. Lucy escolhera o pior dia para abandoná-lo. Não que fosse culpa dela.
— Tem certeza? Aposto que tem vários quartos vazios lá em cima, posso te mostrar coisas que com certeza sua noiva jamais mostraria. Além do mais, eu não vejo ela por aqui, tenho certeza que não se incomodaria. Afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente.
Para seu alívio, conseguiu encontrar Gray entre todas aquelas pessoas. Nunca pensou que ficaria tão feliz por ver aquela expressão fechada que ele sempre trazia no rosto.
— Obrigado pela oferta, mas não, definitivamente não — disse, deslizando para o lado a fim de se livrar da jovem.
— Ok. Quem perde é você — ela respondeu, dando de ombros.
Natsu suspirou aliviado, caminhando o mais rápido que pôde até seu amigo.
— Ei, não te vi chegar — comentou. Natsu, antes de qualquer coisa, lhe deu um forte soco no ombro. — Isso dói, sabia?
— Devia ter me visto, me livraria de grandes problemas.
— Que problema?
— O problema ruivo do outro lado da sala.
Gray espiou por cima do ombro de Natsu, avistando a garota, agora conversando com outro homem, aparentemente também tentando seduzi-lo. Esse, pelo menos, parecia interessado.
— É um belo problema, com certeza. Helena Durfly. Levy me avisou para manter Juvia longe dela, porque provavelmente ela destruiria a casa por causa do seu ciúme. Aparentemente, Helena sempre causa problemas nas festas depois de beber demais.
— E por que Levy a convidou se ela sempre arranja confusão?
— Ela disse que parecia chato convidar todos do trabalho menos ela. Então — Gray comentou, bebendo um gole da mesma bebida que Levy entregara a Natsu —, ela deu em cima de você?
— Sim. Foi uma situação bem chata, pra falar a verdade.
— Veja pelo lado positivo: há alguns anos você não teria sequer hesitado em ir pra cama com ela, independente de estar namorando ou não. Lucy te mudou, cara.
— Por que eu iria querer ter alguma relação com outra pessoa quando tenho a melhor das pessoas comigo? — Perguntou com sinceridade.
— Ownt, tão fofo que acho que vou vomitar — Gray respondeu sarcástico. Natsu novamente lhe socou, porém com menos força dessa vez.
— Nem vem, você fica muito pior perto da Juvia.
— Não sei do que está falando, Dragneel. Além do mais, você entenderia se namorasse aquela maluca. Quer dizer, claro que eu amo aquela mulher, mas ela é mesmo maluca — disse. — Mas, sério, você nunca sentiu nem mesmo vontade de tentar estar com outra mulher?
— Não, nunca. As coisas são ótimas com a Lucy, não acho que seriam assim com outra pessoa. Você já sentiu?
— Às vezes, quando as coisas ficam complicadas. Todo o ciúme e desconfiança da Juvia tornam nossa relação bem difícil às vezes.
— Mas vale a pena — foi uma afirmação, mas com um toque interrogativo. Natsu imaginava que aquilo fosse verdade, contudo, não tinha como saber. Não estava na pele dos dois para afirmar.
— Vale, eu acho. Gosto muito dela, só é difícil.
— Às vezes as coisas também são difíceis entre Lucy e eu.
— Imagino, com todas as viagens que ela faz e essas coisas, deve ser mesmo. Não sei se conseguiria fazer o que vocês fazem. Quer dizer, ela viaja praticamente toda semana, não é?
— Às vezes mais. Mas, nesse caso, é mais difícil pra ela do que pra mim. É bem cansativo ter que estar sempre viajando.
— Já pensou em se mudar para Nagoya? Sabe, facilitar as coisas para ela.
— Já, mas Lucy não quer isso de jeito nenhum. Ela gosta de morar aqui, e odeia quando tem que ir para lá, então... De qualquer forma, não consigo imaginar a minha vida com alguém que não seja ela, assim todos esses problemas acabam não sendo nada de mais. Nada que não dê para contornar.
— Bom, vocês vão se casar, então imagino que já é um grande passo adiante nesse plano de passar a vida ao lado dela.
— É, eu acho — disse, olhando para o copo ainda cheio. — Não ia me importar em ir ainda mais adiante, tipo, filhos e coisas assim. Mas Lucy diz que ainda é cedo demais.
— E é muito cedo. Vocês são muito jovens, caramba. Não dá pra te imaginar cuidando de um bebê. Não sei quem seria mais infantil.
— Engraçado — Natsu respondeu, colocando a mão livre no bolso do blazer. — Eu sei que ainda é cedo, mas às vezes fico com medo. Quer dizer, e se algo acontecer comigo? Essa coisa do Koscheivich torna tudo muito imprevisível. Como uma doença. Você pode se tratar e tomar todos os remédios, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Acho que gostaria de adiantar todos esses planos por medo de não ter tempo para cumpri-los mais tarde.
— Ei, sem essa. Nada vai acontecer com você. Deixa de ser idiota, Dragneel. Se deixar que algo aconteça não precisa nem se preocupar, porque eu mesmo te mato, então, pode deixar essa ideia de filhos pra mais tarde. Não tenho pressa em ver meus sobrinhos. Agora, melhor eu procurar pela Juvia, ou logo ela vai querer me matar por ter sumido.
— Ok — Dragneel respondeu, observando seu amigo se afastar.
Pegou o celular para checar as horas. 23h05min. Quase no mesmo instante, o nome “Lucy ♥filia” surgiu na tela, que era como havia salvo o contato de Lucy no aparelho. Quando teve a ideia, achou que ela iria considerar a brincadeira com seu nome ridícula, porém, no fim, acabara fazendo o mesmo com o nome dele, colocando ao invés de “Dragneel” o emoji de um dragão.
Lucy ♥filia: Chegando no aeroporto de Magnólia. Viu? Eu disse que ia conseguir. Preciso só encontrar um táxi. Acho que encontro um em menos de uma hora, né?
Natsu: Que bom. Já tinha até achado outra boca pra beijar caso você não conseguisse.
Lucy ♥filia: Idiota.
Notou naquele momento que Lucy tinha trocado a foto que usava no aplicativo. A imagem atual era uma foto dela com Natsu dormindo ao seu lado, a cabeça dele pendendo e encostada no ombro dela. Uma das fotos mais adoráveis que tinham juntos, definitivamente.
Natsu: Ei, por que tem um anjo na sua foto? Ah, espera... Sou só eu.
Lucy ♥filia: Você é tão engraçado, Natsu.
Natsu: Eu sei que sou.
Lucy ♥filia: E a pessoa mais humilde que eu já conheci.
Natsu: Eu não duvido nem um pouco.
Lucy ♥filia: Sabe, se reencarnação for algo real, devo ter feito algo muito ruim na outra vida pra merecer você nessa.
Natsu: Ou fez algo muito bom...
Lucy ♥filia: Não, com certeza foi algo muito ruim.
O garoto riu sozinho olhando a tela do celular. Não era do tipo que gostava de usar o aparelho em festas ou convenções sociais, achava de certa forma falta de respeito com as outras pessoas. Mas naquele caso era perdoável.
Lucy ♥filia: Então... como estão as coisas por aí?
Natsu: Chatas zzzZzz. E sua festa?
Lucy ♥filia: Você me conhece bem o suficiente pra saber o que eu achei.
Natsu: Tem razão. Mas pelo menos você sobreviveu.
Lucy ♥filia: É. Ou me transformei numa zumbi...
Natsu: Zumbis não usam celular.
Lucy ♥filia: Como você sabe? Já encontrou com algum?
Natsu: Isso seria ridículo. Arruinaria toda a coisa dos zumbis.
Lucy ♥filia: Não se pode ter certeza disso. Você precisa se desapegar de antigos conceitos e aceitar que estamos numa era tecnológica, na qual zumbis podem muito bem ser capazes de usar aparelhos eletrônicos.
Natsu: Ok, você venceu, Heartfilia.
Lucy ♥filia: Eu sempre venço, Dragneel.
Natsu: Ei
Lucy ♥filia: O que?
Natsu: Percebi uma coisa.
Lucy ♥filia: O que?
Natsu: Você tem desejo por corações.
Lucy ♥filia: Eu... O que?
Natsu: Sabe, necrofilia é quando alguém sente desejo por cadáveres, zoofilia por animais, etc. Você é uma Heartfilia, logo, tem desejo por corações... OMG! É por isso que você está comigo, não é? Porque eu tenho um lindo coração. Você nunca me amou de verdade. Sempre esteve apenas interessada no meu órgão. Confesse.
Lucy ♥filia: ...
Lucy ♥filia: Você realmente não tem nada pra fazer aí, não é?
Natsu: Nops. Completamente entediado.
Lucy ♥filia: Por que não vai conversar com alguém?
Natsu: Tem várias pessoas que eu não conheço aqui. E quem eu conheço já está conversando com alguém. Não to a fim de me intrometer em alguma conversa.
Lucy ♥filia: Gray?
Natsu: Com a Juvia, e você sabe como ela fica possessiva quando está com ele.
Natsu: Quanto tempo até você chegar?
Lucy ♥filia: Eu não sei... Ainda não consegui encontrar a droga de um táxi. Tenho que desligar, desculpa. A bateria do celular tá quase acabando. Te vejo mais tarde, ok?
Natsu: Ainda esse ano?
Lucy ♥filia: Espero que sim.
Gostaria que a conversa tivesse durado mais, pelo menos assim teria algo para fazer.
Quando guardou o celular, voltou a pensar no que conversava antes com Gray. A ideia de ter filhos sempre passou pela sua mente, mesmo antes de conhecer Lucy. Adorava crianças e o pensamento de guiar um pequeno ser-humano durante sua vida. Sabia que ainda era muito jovem, não eram planos para o momento, mas estava assustado com tudo que andava acontecendo em sua vida. Também tinha dúvidas com relação a se seu filho nasceria com a mesma maldição que ele possuía. Esperava que essa não fosse uma possibilidade real, porém não conseguia não considerá-la. Quanto a Lucy, como sempre, não sabia se aquela ideia estava dentro de seus planos, já que a garota nunca comentava sobre o que queria para o futuro. Sempre que tocava no assunto, ela rapidamente tentava mudar para outro. Com relação a coisas como aquela, Lucy era completamente evasiva.
Voltando à realidade, já que não havia mais nada a se fazer por ali, fez a única coisa que podia: comer. Tinha que admitir, Levy soube escolher muito bem os fornecedores da comida para a festa. Tudo estava delicioso.
Pensando sobre a pequena, a encontrou do outro lado da cozinha, conversando animadamente com Gajeel. Parecia que haviam feito as pazes novamente. Mesmo que terminassem várias e várias vezes seguidas, sempre acabavam voltando. Estavam praticamente amarrados um ao outro. Contudo, dava para notar o brilho diferente que Levy trazia nos olhos sempre que olhava para ele, e somente nessas ocasiões. Eram tão diferentes e, ainda assim, se encaixavam tão bem.
Balançou a cabeça, tentando espantar os pensamentos. A falta de Lucy já estava começando a fazê-lo prestar atenção demais nos outros casais.
O resto da noite foi tediosa, mas pelo menos faltava pouco para a meia-noite. Por outro lado, não havia sequer sinal de Lucy. O relógio marcava 23h57min. Não havia mais tempo. Estava começando a ficar preocupado, olhando a tela do celular a todo momento, buscando por alguma mensagem ou contando os minutos que restavam.
Quando as pessoas começaram a contagem regressiva para o fim do ano, já tinha perdido as esperanças. Lucy não conseguiria chegar a tempo, infelizmente. Talvez estivesse um pouco chateado, mas desde que ela dissera que teria que viajar já imaginava que passaria a virada do ano sozinho. Bem, tecnicamente não estava sozinho, mas era assim que se sentia.
Prestava atenção na multidão animada, nos rostos felizes, esperançosos e ansiosos para o novo ano que estava por vir. Tão distraído que, quando a contagem chegou ao zero, mal notou alguém puxar seu punho e tomar seus lábios para si, enquanto fogos de artifício explodiam no céu e coloriam a sala com as várias cores de luz que entravam pelas janelas. Instintivamente fechou os olhos. De qualquer forma, não precisava olhar para reconhecer aquele perfume, ou o gosto daqueles lábios. Portanto, ao invés de abrir os olhos, colocou suas mãos nas costas da pessoa que lhe roubara o beijo da meia-noite e a puxou para mais perto de si, sentindo os braços dela contornando seu pescoço.
— Feliz ano novo — Lucy estava ofegante, sorrindo, e absolutamente linda. Ele poderia odiar aqueles eventos por mantê-la longe, mas amava o quanto ela sempre ficava deslumbrante. Naquela noite em especial talvez a saudade alterasse um pouco sua percepção, porém não havia como negar. Naquele vestido azul e com os cabelos soltos, algo raro de se ver, já que ela sempre os mantinha presos, a garota estava completamente exuberante. Apesar de um detalhe chamar atenção: seus pés estavam descalços. — Eu disse que ia conseguir, não disse?
— Bem a tempo — respondeu, também sorrindo.
— Nunca duvide de mim, Dragneel.
— Eu não duvido. Sabe, tenho a impressão de que esse vai ser um ótimo ano para nós dois.
— É? Eu também — Lucy comentou, puxando-o para mais um beijo, interrompido não muito depois, e com certeza mais cedo do que gostariam, por Levy.
— Lu-chan, você veio! — Exclamou, abraçando sua amiga — Feliz ano novo.
— Pensei que não ia conseguir, mas sim. Pra você também, Levy.
— Você está linda! Não concorda, Natsu?
— Obrigada — a loira respondeu, corando. Não gostava daqueles trajes tão formais, sentia-se estranha neles. — Não tive tempo de trocar de roupa. Saí direto da festa para o aeroporto.
— Com o cabelo um pouco bagunçado, mas claro, muito linda — brincou o garoto, recebendo um fraco empurrão de Lucy como resposta.
— Bagunçado porque eu corri do táxi até aqui pra conseguir chegar a tempo, já que alguém passou o dia reclamando por eu estar longe.
— Imagino que isso explique você estar descalça também — o garoto comentou, abraçando-a pela cintura.
— Sim, eu não conseguia correr com o salto alto. Acho que devo ter deixado o sapato cair em algum lugar... Bom, eu procuro depois.
— Seu noivo estava completamente perdido sem você, Lu-chan.
— Eu sei, ele sempre fica assim sem mim. Pobre coitado — respondeu rindo, direcionando seu olhar para Natsu, que retribuiu o mesmo olhar, embora com a testa franzida, contestando a afirmação de Lucy.
— Ei, eu conheço esse olhar de vocês dois, e nem pensem nisso — Levy disse, mirando o casal.
— Que olhar? — A loira perguntou, confusa.
— O olhar "vamos encontrar um lugar vazio e ter alguma diversão a dois". Sou especialista nesse tipo de olhar. Tive que me tornar, já que Gajeel não faz exatamente o tipo comunicativo.
— Eu não tinha pensado nisso até você mencionar — Natsu respondeu, fazendo-se de inocente, quando todos sabiam que de inocente nele não havia nada. — Mas não parece uma má ideia.
Levy suspirou.
— Desde que fiquem no quarto de hóspedes. Na verdade, podem dormir aqui se quiserem. Imagino que a viagem foi cansativa. Lucy já conhece bem a casa então sabe onde fica.
— Muito cansativa. Obrigada, Levy.
— Ei, Lucy, conheço alguém que estava querendo me levar ao quarto de hóspedes e fazer coisas que você não faria — o garoto contou, brincando. Queria provocar ciúmes nela com os eventos que lhe ocorreram durante a noite.
— Quem? — A garota questionou, intrigada.
— Me deixe adivinhar: Helena? — Levy disse. Natsu assentiu. A pequena suspirou outra vez. Não precisou de muito para saber de quem se tratava. — Juro que ela é uma pessoa legal, só exagera um pouco quando bebe.
— Quem é Helena? — Lucy insistiu.
— Vou falar com os outros convidados. Fiquem à vontade. Vejo vocês mais tarde.
— Ok.
— Ei, quem é Helena? — Ignorada pela pequena, virou-se para Natsu. — Quem é Helena, Dragneel?
— Ninguém, relaxa.
— Como assim ninguém?
— Ciumenta.
— Não é ciúmes. É só curiosidade — respondeu, colocando seus braços em volta do pescoço do garoto. Perto do ouvido dele, provocou-o: — Afinal, queria saber que coisas são essas que ela disse que eu não faria, porque tenho certeza que eu faria. Muito melhor, inclusive.
— É? Eu adoraria ver isso — ele respondeu, puxando-a para perto de si.
— Depois, porque eu estou morrendo de fome.
— Não, sem essa, Heartfilia. Você não pode me provocar e sair assim.
— Por que? É injusto? — Natsu assentiu. — A vida é injusta, lembra? Você quem disse isso.
— Não use minhas palavras contra mim, loirinha.
Lucy riu.
— Não vai nem me deixar desejar feliz ano novo para as outras pessoas?
— Por que? Eu sou muito mais legal que eles.
— Convencido.
— Realista.
Sem dúvida alguma, era ótimo estar novamente ao lado dele, rindo e se divertindo genuinamente, ao invés de forçando sorrisos para pessoas que sequer gostava. Era ótimo deixar de lado seus medos e preocupações e se concentrar apenas naquela pessoa que lhe fazia tão bem.
— Eu amo você — disse, encostando sua testa na dele.
— Eu sei. Você diz isso bastante, sabe? Já entendi a mensagem.
— Ok, então não digo mais — comentou, provocando-o.
— Ei, é brincadeira. Você leva as coisas muito à sério, Heartfilia. Não importa que você tenha dito várias vezes, eu amo ouvir, e te amo também. Agora, podemos ir lá para cima para eu finalmente tirar esse vestido de você?
— Com certeza — respondeu, rindo.
Bem, de uma coisa tinha certeza: aquela era definitivamente uma ótima forma de começar um novo ano.
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