Onde Tem Ódio Tem Amor
47 Um presente do destino
Notas iniciais
No mundo há muitas pessoas que acreditam nos conceitos de sorte e azar. Quantas vezes se ouve pelas ruas coisas do tipo "Hoje é meu dia de sorte", ou "A sorte sorriu a seu favor"? Muitas, com certeza. Alguns entendem a sorte como um conjunto de fatores que influenciam a vida de um indivíduo de forma positiva. Segundo o clássico dicionário Noah Webster, sorte é "uma Força sem propósito, imprevisível e incontrolável, que modela eventos de forma favorável ou não para determinado indivíduo, grupo ou causa". Porém o que nos interessa aqui não são os significados que envolvem esse misterioso termo, mas sim o fato de que, naquele dia em questão, a sorte estava se distanciando o máximo que podia de Natsu Dragneel.
― Que droga! ― exclamou, parado no estacionamento, perguntando-se como faria para ir para casa. Como se seu dia já não estivesse ruim o suficiente, sua nova velha moto decidira repentinamente não querer funcionar, sem motivo algum aparente. Até poucas horas atrás estava completamente normal.
Enquanto pensava em uma solução, refletiu sobre o que de tão ruim havia feito para que a sorte decidisse ficar totalmente contra si naquele dia em questão, logo um dia antes de seu aniversário de vinte e um anos. Primeiro, pela manhã, na lanchonete em que trabalhava para conseguir pagar o aluguel do apartamento em que morava, quase fora despedido. Crianças corriam pelo estabelecimento e acabaram por esbarrar no garoto, que, por culpa do desequilíbrio causado pelo esbarrão, deixara cair no chão quatro pratos, os quais estilhaçaram-se assim que atingiram o piso. Tentara argumentar com o chefe, dizer que não fora sua culpa, mas ele o ouvira? Bem, a resposta é óbvia. Como resultado tivera que ficar trabalhando até mais tarde.
Devido ao tempo extra no trabalho, chegara atrasado ao curso que fazia pelo período da tarde. Porém nem sequer adiantara, havia chego na metade da última aula e tivera sua entrada barrada. Para não perder a viagem, decidira ficar na biblioteca, estudando. Quando dera o horário em que costumava sair, voltou ao estacionamento, percebendo assim que tentou dar partida no motor que não sairia dali tão cedo.
― Ei, Natsu! ― Uma voz não muito distante dali o chamou. Ele se virou para encarar sua dona e bufou. Não por ser uma presença desagradável, apenas estava muito irritado.
― O que foi, Chris? ― perguntou, sua irritação expressa em seu tom de voz.
― Você não apareceu hoje, fiquei preocupada. E parece estar bem estressado... o que houve?
― Dia ruim. ― suspirou, fixando seu olhar na jovem loira à sua frente. Chris era uma colega de sala, além de ótima amiga. Possuía madeixas loiras, assim como Lucy, porém seu cabelo era mais escuro e mais longo que o da Heartfilia. Suas feições também eram muito diferentes entre si. Lucy possuía traços mais suaves. E enquanto seus olhos eram castanhos, os de Chris eram tão verdes que causariam inveja às esmeraldas se não fossem objetos inanimados. Mas, apesar das muitas diferenças, ela o lembrava algumas vezes de sua amada, exaltando ainda mais a saudade que sentia. ― E agora essa porcaria não quer pegar.
― Calma. Chame um guincho para levá-la até sua casa. Se quiser, te dou uma carona.
O dinheiro já estava curto aquele mês, pagar um guincho iria reduzi-lo ainda mais. Mas não havia jeito, não podia simplesmente abandonar o veículo ali. Se pagar pelo conserto sairia caro, comprar uma nova torturaria ainda mais seu bolso. Pelo menos conseguiria economizar com o táxi.
― Seria ótimo, Chris. Obrigado.
Após pouco mais de meia hora, o primeiro transtorno, envolvendo o problema com o guincho, estava resolvido. Apesar de que aquele imprevisto ainda lhe daria muitas dores de cabeça, com certeza. O garoto bufou mais uma vez antes de ajeitar a bolsa nos ombros e se dirigir ao carro de Christine, a duas vagas de distância. Ela riu discretamente. O perfil bravo não combinava nem um pouco com Natsu, definitivamente. Ele entrou no carro e afundou-se no banco, ainda sendo examinado pelo olhar fixo da loira.
― É uma pena sua namorada estar longe, Natsu. Está precisando relaxar no fim de semana. ― comentou sorrindo enquanto colocava o cinto de segurança. Havia apenas aquele fato bom em um dia tão ruim: Era sexta-feira. ― Se ela estivesse aqui poderia te fazer uma massagem. Ou quem sabe outras coisas...
― Se ela estivesse aqui eu a prenderia na minha cama e não a deixaria sair nunca mais. ― o rosado respondeu, olhando de canto para Chris. A loira não conseguiu segurar um riso baixo.
― Que possessivo.
― É claro. Mas não se trata apenas disso. O que eu quis dizer foi que quando ela estiver comigo novamente não vou deixar que se afaste mais. Um ano já foi tempo demais longe dela.
Natsu focou sua visão na vista da janela do carro, nas casas que passavam rapidamente por seus olhos. Gostaria que o tempo fosse como aquelas casas. Em um piscar de olhos a construção já havia passado e cedia seu lugar à próxima, e assim por diante. Queria que o tempo passasse tão rápido quanto aquelas casas.
― Para onde vamos, senhor Dragneel? ― Perguntou Christine.
― Prometi ao meu amigo que o encontraria em um bar, não muito longe daqui. ― Natsu respondeu. Sua voz preguiçosa deixou claro que sua vontade de se encontrar com Gray naquele dia estava muito próxima de zero. Queria apenas ir para casa e descansar. ― Pode me levar até lá? Fica na rua 9.
― Sem problemas. Então, sente muita falta dela? ― Chris voltou ao assunto.
― De quem? ― Natsu perguntou, voltando a olhar para a colega. Distraído, mal prestara atenção na pergunta.
― Da sua namorada! De quem mais seria?
― Ah. Claro que sinto. É sufocante vê-la e ouvi-la, mas não poder tocá-la, por causa dessa maldita distância.
― Acho tão fofos vocês dois. ― a loira comentou, tirando uma mão do volante para apertar a bochecha esquerda de Natsu. Aquela era uma das características de Christine, a qual ele não podia negar que o irritava em alguns momentos. A loira era muito pegajosa, amava abraçar, beijar e apertar as pessoas. ― Conseguem manter um relacionamento a distância dessa forma. Se eu estivesse no seu lugar não conseguiria.
― Acho que nós dois já passamos por coisas demais para que algo tão “pequeno” como a distância se tornasse um empecilho. ― Disse em tom baixo, mais para si mesmo do que para Chris.
― Quando ela voltar prometa que irá nos apresentar. ― Deveria ter sido um pedido, porém o tom usado pela loira soou um pouco mais como uma ordem. Algo como “Você irá nos apresentar”.
― Eu prometo que vou. ― Natsu respondeu, rindo, apesar de não saber exatamente se as duas se dariam bem entre si. Eram praticamente o oposto uma da outra. Christine era totalmente extrovertida, espontânea, como os outros costumavam dizer, parecia ter um parafuso faltando em sua cabeça, pois às vezes a sanidade lhe fazia falta, enquanto Lucy possuía uma personalidade muito mais calma, serena.
― Você nunca me contou como vocês dois se conheceram, Natsu.
O garoto se endireitou no banco, forçando sua mente a se lembrar dos eventos que antecederam o romance. É, aquela era uma história complicada.
― Basicamente, nos conhecemos dividindo um apartamento. ― e completou com um riso. ― Ela me odiava.
― Espera, se ela te odiava por que dividiram o apartamento? ― Perguntou, arqueando as sobrancelhas pela falta de sentido que aquilo parecia ter.
― Ela não teve muita escolha. Agradeço por isso, porque acho que se fosse por vontade própria, Lucy teria fugido no primeiro instante em que me viu.
― Dispensando um gato como você, qual era o problema dela? ― Bem, eles eram apenas amigos, porém ninguém nunca negava os atrativos físicos de Natsu, muito menos Chris, que adorava fazer piadas envolvendo essas qualidades.
― É complicado. ― O garoto respondeu simplesmente.
― Sei... E o resto é história.
Natsu sorriu, concordando. E que história!
O carro parou em frente a um pequeno estabelecimento. O lugar era simples tanto em sua fachada quanto no interior. Natsu já estivera lá algumas vezes, a maior parte delas em companhia de Gray, que fora quem lhe apresentara o local. Apesar da simplicidade, não deixava a desejar. Era um ambiente aconchegante, onde se podia tranquilamente encontrar amigos e ter conversas casuais.
― Está entregue, senhor Dragneel.
― Obrigado, Chris. ― o rosado ajeitou a mochila no ombro e preparou-se para sair, porém segundos depois foi fuzilado pelo olhar de Christine. Ele suspirou e riu, lembrando-se do que havia esquecido. Rapidamente inclinou-se e lhe deu um beijo na bochecha. Decisão inteligente. Já tentara ir embora antes sem se despedir da loira, simplesmente não havia lembrado, e os resultados não foram nada agradáveis. ― Feliz?
― Muito.
Natsu novamente riu.
― Ok. Te vejo segunda.
― Talvez antes. ― Disse Christine, piscando o olho direito de modo a sugerir que havia ideias rondando sua mente.
― O que está planejando, senhorita? ― perguntou, desconfiado.
― Ah, você verá, Natsu. Apenas espere...
― Só não faça nenhuma loucura. ― pediu.
― E por que eu faria?
Natsu fingiu uma cara pensativa, mas a resposta já sabia muito bem qual era.
― Hum, vejamos... Talvez por que é você?
― Sua confiança em mim me deixa abismada, garoto do cabelo rosa.
Ele apenas sorriu e se afastou, ouvindo um “tchau” enquanto observava o carro descer a rua. Quando já não estava no alcance de sua visão, virou-se e entrou no bar. O estabelecimento estava cheio, porém não fora difícil encontrar o moreno. Estava sentado em um dos bancos do balcão, bebendo cerveja, aparentemente. Nem sequer moveu o olhar para Natsu quando o rosado sentou-se ao seu lado.
― Está atrasado.
― Não enche.
Aquela linda amizade, de dois amigos que se cumprimentavam com carinho quando se encontravam e riam juntos enquanto bebiam e comiam algo, trocando algumas palavras e colocando a conversa em dia. Porém não. Natsu e Gray não se encaixavam nem um pouco nesse perfil, definitivamente.
― Não reclame. É você quem está atrasado, não eu. E só sua presença já me enche, então estamos no mesmo barco.
― O que você quer, olhos caídos?
― Conversar um pouco com o meu melhor amigo. Não posso? ― Perguntou em tom irônico. Logo em seguida tomou um gole da bebida e pediu ao garçom outras duas garrafas. Uma para ele e outra para Natsu. ― Por minha conta.
― Claro que pode. Agora, sério, o que quer?
― Te pago uma bebida e me trata assim? Não foi desse jeito que te ensinei, Natsu.
― Não prestei atenção nas suas lições, tinha uma loira me distraindo. ― O rosado comentou. Abriu sua garrafa e bebeu. ― Mas você pelo visto está na seca há um bom tempo, não é, meu amigo?
― Cala a boca. ― Gray respondeu, rindo baixo. ― Assunto rápido, não se preocupe. Te chamei para avisar que é melhor preparar seu apartamento para uma festa amanhã à noite. Ou achou que iríamos deixar essa data passar em branco?
― Estava esperando que deixassem. ― não que não apreciasse o gesto dos amigos, mas comemorações de aniversário o estressavam. Era apenas mais um ano, um dia qualquer, para quê tanta importância? ― Quem virá?
― Eu, Erza, Jellal, prepare um quarto para esses dois, aliás, porque não duvido que eles comecem a se comer no meio da festa. “Jellal é tão tímido”, “Jellal é um rapaz tão correto”, “Erza é uma moça tão comportada”. Que piadas. ― riu, bebendo mais um gole de cerveja. ― Levy, Gajeel, e Juvia. Seremos os dois alones felizes, comemorando mais um ano na sua vida, cara.
― Eu não estarei “alone”, como você diz. Minha garota só está longe.
― Estará sozinho de qualquer jeito. E qual é? Preciso de alguém para me acompanhar na árdua tarefa de afogar as mágoas.
Gray pegou sua carteira, tirou algumas notas de lá de dentro e as deixou no balcão, levantando-se em seguida.
― Ei, pode me dar uma carona? ― o rosado perguntou, também se levantando.
― Agora quer minha companhia, não é?
― Preciso de uma carona. ― Natsu sorriu. Por fim, Gray acabou por ceder. Natsu podia ser um idiota, mas era um idiota que considerava quase seu irmão.
***
Aquele apartamento vazio o deixava depressivo. Não sabia até que ponto era bom estar em casa, “descansando”, pois ali não encontrava nada a fazer. Tivera que se mudar pouco depois de Lucy ter partido. O dinheiro que ganhava trabalhando na lanchonete era pouco, não conseguia manter as contas pagas morando no antigo apartamento, portanto mudou-se para um prédio mais barato.
O lugar era um pouco menor, mas o conforto ainda se fazia presente, a sua maneira. Era um lugar agradável, com bons vizinhos. O apartamento possuía quatro cômodos. A sala e a cozinha, que, assim como em sua residência anterior, formavam um aposento só, dividido apenas por um balcão; um quarto e um banheiro.
O rosado, sentado no sofá com a televisão ligada, pegou o celular e conferiu as horas. Oito da noite, ainda era muito cedo. Bufou, entediado, e, como se atendendo a seus pedidos, o celular vibrou em sua mão, com o nome “Lucy” sendo exibido no visor. Sorriu e imediatamente atendeu a ligação.
― Espere um pouco, gata, eu já volto para aí. Minha namorada está me ligando. ― Disse, como se estivesse falando com outra pessoa presente ali, apenas com a finalidade de irritar Lucy.
― Muito engraçado, Natsu. ― A loira respondeu. Mesmo pelo telefone, ele percebeu que ela sorria, sacando de imediato a brincadeira. ― Está se divertindo aí? Mande um “oi” para sua amiga por mim.
― Mando sim, pode deixar.
― Como está? ― Lucy perguntou.
― Precisando de uma massagem. ― Respondeu suspirando.
― Peça à sua amiga para fazê-la. ― A garota comentou, fingindo ciúmes.
― Ela não existe, você sabe disso.
― Sim, eu sei. ― Lucy respondeu enquanto ria baixo. Logo depois mudou o tom de sua voz para um mais sedutor. ― Se eu estivesse aí poderia lhe fazer uma.
― Faríamos muitas outras coisas mais interessantes do que isso se você estivesse aqui.
― É uma pena eu não estar.
Natsu afundou no sofá, apoiando o cotovelo do braço que segurava o celular em sua mão esquerda.
― Você é cruel, sabia? Me provoca para logo depois quebrar minhas esperanças e me trazer de volta à realidade.
― É, eu sei. ― Lucy novamente riu, porém em sua próxima fala tomou um ar mais sério. ― Já está em casa?
― Cheguei há uma meia hora.
― Por que demorou tanto? ― A loira perguntou. Natsu costumava chegar mais cedo, geralmente. Sabia disso por muitas vezes ligar bem no horário em que ele estava chegando.
― Dia complicado. Quer o relatório completo? ― Brincou.
― Não, não é necessário. ― a loira respondeu. Alguns segundos de silêncio se fizeram presentes. Do outro lado, Natsu ouviu um suspiro de Lucy. ― Queria poder estar aí para passar o seu aniversário ao seu lado.
― E eu queria que você estivesse aqui, acredite. Queria muito.
Ela sabia disso.
― Apesar de não poder estar com você, te mandei um presente, Natsu. Deve estar em frente à sua porta agora. Tomei os devidos cuidados para que isso fosse feito.
― Por que não deixou que ficasse na portaria? ― Perguntou, desconfiado.
― Porque se eu não posso ver seu sorriso ao abrir o presente quero ao menos saber que você está sorrindo, mesmo que seja pelo celular. Eu amo o seu sorriso, queria encontrar uma forma de senti-lo.
― Mas eu não poderia trazer o presente para o meu apartamento e abri-lo aqui? ― continuou com sua desconfiança.
― Natsu, apenas pegue logo o presente! ― Lucy respondeu, já começando a ficar irritada.
― Tudo bem, tudo bem.
O garoto se levantou preguiçosamente, ainda com o celular próximo ao ouvido. Caminhou lentamente até a porta, sem muita ansiedade. Era apenas um presente, porque ficaria ansioso? Sua mão tocou a maçaneta da porta e a girou, abrindo-a e revelando a entrega.
― E então? Gostou do presente?
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