Onde Tem Ódio Tem Amor
9 O novo vizinho. Uma situação nada agradável
Notas iniciais
Eram seis horas da tarde quando Lucy deixou o hospital. Tudo que se passava em sua mente era o arrependimento da promessa feita a Natsu, da qual ela não poderia fugir. Mesmo odiando, iria manter sua palavra. Ele a salvara, afinal. Tudo o que gostaria de fazer naquele momento era falar com Levy e detalhar os últimos acontecimentos a ela, desabafar. Contudo, estava sem o celular, portanto teria que esperar.
Caminhou lentamente, olhando para o céu alaranjado a cima de si, refletindo sobre seu dia. Quase morrera em um incêndio e fora salva pela pessoa que provavelmente mais odiava no mundo nos últimos tempos, justamente a pessoa pela qual ela começava a nutrir certo afeto. Justo ele, o homem que prometera manter distância pela sua crença na má índole do rapaz. O destino seria cruel se a permitisse afeiçoar-se a ele.
Andava tão distraída com seus pensamentos que nem ao menos percebeu o garoto a sua frente, notando-o apenas quando sentiu o toque não muito leve de seu ombro no braço dele.
— Ei, olhe por onde anda — o garoto resmungou logo após o choque.
Ela o analisou de cima a baixo. Cabelos loiros espetados, olhos profundamente azuis, que pareciam penetrá-la enquanto a observavam, uma cicatriz acima do olho direito e brinco na orelha esquerda. Vestia naquele momento jaqueta preta, com uma camiseta marrom por baixo, calça jeans e tênis vermelho. Podia defini-lo sem dúvida como alguém atraente, porém não muito gentil, aparentemente, fato que fazia-o perder alguns pontos.
— Me desculpe, estava distraída.
O garoto não respondeu. Estava ocupado demais prestando atenção no estado em que Lucy se encontrava, com o rosto coberto de fuligem e as roupas sujas.
— Você está bem?
Lucy sorriu. Analisando suas últimas horas, era estranho responder aquela pergunta.
— É, estou. Sobrevivi a um incêndio, então acho que estou mais do que bem.
— Incêndio? — perguntou, arqueando as sobrancelhas, expressando surpresa. — Isso definitivamente perdoa sua desatenção. Na verdade, estou até me sentindo mal por ter sido grosso com você. Me desculpe.
— Tudo bem, não se preocupe — a loira respondeu, sorrindo. Talvez o tivesse julgado mal, afinal, ele não parecia alguém ruim.
— Eu ainda nem me apresentei. Sou Sting Eucliffe.
— Lucy Heartfilia — respondeu prontamente.
— Estava indo para casa? — Sting questionou — Já está meio tarde, e é perigoso para uma jovem tão bonita andar sozinha a essa hora. Se importa se eu te acompanhar? Me sentiria terrível se algo ruim acontecesse com você tendo tido a chance de impedir.
Lucy não tinha certeza quanto à resposta. Ele ainda era um estranho, acabara de conhecê-lo. Mas, por fim, acabou aceitando.
— Claro, tudo bem.
Ansiava conhecer mais aquele garoto, ele a intrigava, de certa forma, por isso aceitou a companhia. Durante o caminho, descobriu que eram muito parecidos. Gostavam das mesmas músicas, mesmos programas de televisão, possuía o mesmo gosto culinário que a loira. Acabou gostando de sua presença, tanto que sentiu um leve aperto no peito quando chegaram ao prédio em que residia.
— Você mora aqui? — Sting perguntou.
— Sim, divido o apartamento com um cara.
— Namorado? — supôs. Suas mãos dentro do bolso da calça davam-lhe uma aparência despreocupada, mas pareceu ficar levemente ansioso pela resposta.
— Não — definitivamente não. — Um erro do síndico. Nem nos conhecemos praticamente. E o pouco que conhecemos já foi suficiente para perceber que não há a menor chance de chegar perto de ser isso.
— Ah, entendi — respondeu. — Bom, se esse cara estiver te enchendo o saco, pode ir me visitar. Eu me mudei para cá hoje pela manhã. Estava indo até o mercado quando te encontrei. Até acabei me esquecendo do que tinha que fazer. Aparentemente vou ficar sem o jantar.
Lucy sorriu timidamente.
— Bem, já que foi culpa minha, pode jantar comigo, se quiser.
— É um convite tentador, Heartfilia. E acho que vou aceitar, ou meu estômago vai me xingar pelo resto da noite.
Continuaram conversando enquanto subiam as escadas. Em sua mente, Lucy se perguntava por que o erro não havia sido cometido com Sting. Diferente de Natsu, ele parecia ser um cara legal, alguém com quem não reclamaria de dividir o apartamento.
Assim que viu a porta arrombada suspirou alto. Havia se esquecido de que ainda teria que dar um jeito naquilo.
— O que aconteceu? — Sting perguntou.
— Natsu. O idiota com quem divido o apartamento. Isso que aconteceu.
— Posso consertar, se você quiser.
— Mesmo? — Sting acenou positivamente, sorrindo. — Seria ótimo! Obrigada!
Minutos depois, tudo estava como antes, como se nunca tivesse mudado. A porta nova em folha, poupando a Lucy uma grande dor de cabeça envolvendo sem dúvida muitas discussões com Natsu.
— Muito obrigada mesmo Sting — agradeceu-o novamente. Precisava fazer isso muitas vezes pelo favor que ele lhe fizera. — Agora definitivamente fico devendo o jantar. Acho que teremos que pedir uma pizza, se você não se importar. Aposto que os armários devem estar vazios, então não tem nada para preparar algo comível.
Sting sorriu. Um sorriso que poderia ser capaz de derreter qualquer um.
— Pizza e uma excelente companhia. Não vejo como recusar.
***
Excelente companhia definiu muito bem aquele jantar. Talvez fosse uma característica muito prejudicial, mas Lucy tinha a mania de confiar facilmente em pessoas, mesmo que as conhecesse há pouco tempo, portanto sequer se importou em deixar Sting sozinho na casa enquanto tomava banho. Além do mais, pelo que haviam conversado, ele não parecia ser uma pessoa ruim.
Não muito tempo depois do rapaz ter ido para seu próprio apartamento, Lucy recebeu outra visita. Dessa vez, uma Levy completamente eufórica e preocupada.
— Fiquei sabendo do incêndio. Você e Natsu estavam lá, não estavam? Você está bem, Lu-chan? — perguntou, quase sem respirar entre uma sentença e outra.
— Estou inteira, como você pode ver — a loira respondeu, fazendo sinal para que Levy entrasse e se sentasse no sofá.
— Tem certeza de que está bem? Nenhum machucado? Cadê o Natsu?
— Calma, Levy — Lucy disse, sentando-se ao lado da amiga. — Natsu está no hospital. Sim, estou bem, graças a ele.
Como era estranho admitir aquilo em voz alta.
— Como assim?
— Nós pulamos da janela e ele meio que “afofou” minha queda — não encontrou maneira melhor de explicar.
— Ele fez o que?!
— É, pois é, também não sei o que dizer. Ele é sempre tão idiota, mas arriscou a vida para me ajudar.
— Uau. E como ele está?
— Machucado, mas vivo — definitivamente muito machucado. Mas, Lucy não queria mais falar sobre aquilo. — Bom, mudando de assunto, conheci um cara enquanto voltava para casa.
— Bonito? — foi a primeira pergunta de Levy sobre Sting.
— Bem, sim, mas não foi isso que me chamou a atenção. É um cara legal, se chama Sting.
— Nome interessante. Está interessada nele?
— Claro que não, Levy. Conheço o cara há menos de um dia.
— Sei — a pequena respondeu, um olhar malicioso pairando em sua face.
Levy passou o resto da noite ali, e, quando foi embora, Lucy se sentiu incomodada. Odiava admitir que era estranho ficar naquele apartamento sem Natsu. Mesmo ele sendo irritante, a loira havia se acostumado com sua presença. Deitada na cama pensava superficialmente em Sting, mas no fundo, seus pensamentos só se direcionavam para Natsu.
***
— Bom dia, dorminhoco — foi acordado pela voz de Gray perto de seu ouvido.
— Quer tirar essa sua cara feia de perto de mim? — retrucou.
— Alguém acordou de mau humor. Se machucou feio, hein? Valeu a pena para ser o herói do dia?
— Do que está falando? — Natsu perguntou, ajeitando-se na cama.
— Lucy, é claro. Salvou a vida dela, ganhou pontos. Parece estar mais próximo de cumprir a aposta.
— Não tirei ela de lá por causa da aposta.
— Claro, como se você conseguisse me enganar — Gray comentou.
— É sério, Gray. Ela é minha amiga, por isso não queria vê-la machucada.
— Natsu, Natsu... — Gray suspirou, sentando-se na beirada da cama. — Predadores não fazem amizade com a presa.
— Lucy não é minha presa.
— Então está desistindo da aposta?
— Claro que não. Ela ser minha amiga não me impede de nada.
— Lucy não vai gostar nada disso.
— O que foi? Duvida que consigo ganhar a aposta e ainda manter a amizade da Lucy?
— É claro que duvido, porque é impossível.
— Pois então vou te provar que não é — Natsu respondeu, sorrindo de canto. O barulho de passos no corredor atraiu sua atenção para a porta. — E falando nela...
— Pronto para ir embora? — a loira perguntou assim que entrou no quarto, sem muito ânimo.
— Sentiu minha falta em casa?
— Não enche. E anda logo, o táxi está esperando.
***
Pouco tempo depois, estavam em casa, e a primeira coisa em que Natsu reparou foi a maçaneta consertada.
— Você chamou alguém para consertar a porta? — perguntou.
— Um novo vizinho consertou.
Natsu murmurou um “hum”.
— Lucy, eu preciso tomar um banho.
— Já percebi, e urgente, você está fedendo.
— O que eu quis dizer é que preciso de ajuda — comentou, como se fosse óbvio.
— E o que você quer? Que eu tome banho junto com você? — Lucy respondeu, sarcástica.
— Não seria uma ideia ruim, mas como eu sei que você não vai fazer isso, apenas me ajude a tirar a roupa.
— Não consegue fazer isso sozinho?
— Qual é, Lucy. Eu salvei sua vida, não custa nada.
A loira bufou, caminhando até ele e ajudando-o a tirar a camisa e a calça. Era o máximo que iria fazer para ajudá-lo.
— Até quando vai jogar isso na minha cara?
— Até você não precisar me questionar. — o garoto falou, sorrindo, caminhando com dificuldade até o banheiro. Lucy bufou outra vez, esperando no quarto de Natsu, imaginando que ele iria precisar de ajuda para se vestir também.
Alguns minutos depois, o rapaz voltou, sentando-se na cama com uma toalha enrolada na cintura e o cabelo pingando.
— Sabe, essa coisa felpuda aí serve para você se enxugar. Não precisa molhar todo o chão da casa.
— É mesmo? — Natsu respondeu, sorrindo maliciosamente. Lucy estava bem à sua frente, uma ideia lhe ocorreu. Segurou sua mão e a puxou, fazendo-a cair sobre si. — Mas eu prefiro me enxugar com outras coisas.
— Natsu me solta, está me molhando — reclamou, tentando se livrar dos braços do garoto sem machucá-lo mais do que ele já estava.
— Você não parece querer realmente que eu te solte. E por que fica olhando para a minha boca, Lucy? — Natsu perguntou. Lucy corou, tentando disfarçar, mas aquela distância os lábios do rapaz ofereciam um convite quase irresistível. Estava tão próxima, em contato direto com a pele de Natsu, e seu coração batia de uma forma tão diferente, mesmo que não quisesse. Sentiu medo de não resistir a ele naquele momento. — Você quer que eu te beije, Heartfilia?
E foi assim que por um breve, muito breve segundo, seus lábios se tocaram.
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