Onde Tem Ódio Tem Amor
80 Hold me
Notas iniciais
“Acorde. Abra seus olhos. Você precisa acordar. Precisa voltar.”
Aquelas palavras ressoaram em sua mente repetidas vezes. Pensou no segundo em que sua consciência retornou que estava morto. Tinha quase certeza disso. Não havia motivos para estar vivo. Ryan, ou melhor, o Koscheivich não iria deixar que ele visse a luz do Sol outra vez depois do que descobrira e presenciara.
“Acorde. Você não está morto. Lucy precisa de você.”
Não demorou até que descobrisse que seu coração ainda batia em seu peito e que o sangue ainda fluía pelo seu corpo. Se estivesse morto, não sentiria sua perna latejando quase insuportavelmente onde fora baleado. Se estivesse morto, seu peito não doeria após presenciar o assassinato de Lisanna, que, por pior que tivesse agido nos últimos anos, continuava sendo uma amiga de infância. Estava vivo. Muito vivo, por isso precisava dar um jeito de sair daquele lugar e encontrar Lucy.
Lentamente abriu os olhos, espiando o local onde estava. Parecia um quarto. Havia uma janela atrás de si, logo acima de uma cama. À sua frente estava a porta, e ao lado dela uma pequena mesa com uma televisão velha e um pequeno banco. Tentou se mover, ignorando a dor, percebendo assim que seus pés e mãos estavam amarrados.
Não queria admitir, mas estava com medo. Não apenas por ele, pela loira também. Estava aterrorizado pela possibilidade de Ryan ter ido atrás dela enquanto ele estava ali, impotente. Temia também o que aconteceria dali para frente. Havia um motivo para ainda estar vivo, não poderia ser simplesmente por bondade. Sabia que aquela criatura não teria piedade e pouparia sua vida se não tivesse algo a ganhar com isso.
Tentou de todas as formas desfazer o nó das cordas que prendiam suas mãos, porém sem sucesso. Não precisou se esforçar para perceber que se tentasse libertar seus pés o resultado seria ainda pior, considerando que estava ferido. Além de tudo, seu estômago estava inquieto e sua cabeça doía devido à pancada que levara. Ao menos esperou que fosse por causa daquilo. O outro motivo que permeava sua mente era ainda pior: seu monstro interior insatisfeito com seu fracasso ao tentar eliminar o monstro exterior.
Procurou por alguma outra rota de fuga, rodeando o quarto com seus olhos. Não era possível que ele fosse completamente à prova de falhas, tinha de haver por ali algum objeto pontiagudo para cortar as cordas ou coisa parecida até a qual conseguisse se arrastar. Precisava sair dali e encontrar Lucy, mantê-la longe daquele monstro. Era sua prioridade naquele momento.
Não teve muito tempo, porém, para elaborar um plano. Não mais que alguns minutos após ter retomado a consciência, a porta do quarto se abriu. Ryan entrou calmamente no aposento, aproveitando cada passo até Natsu. Com a mesma calma, pegou o banco e se sentou de frente para o rapaz.
— O que foi? Veio terminar o serviço? — Natsu o provocou, ajoelhando-se. Sentia-se ainda mais impotente deitado de frente para o monstro, portanto, mesmo com a dor em sua perna, preferiu tomar outra posição.
Era incrível a forma como a criatura se confundia com o humano. Se Natsu não soubesse o que havia em seu interior, pensaria que aquela era uma pessoa comum. Talvez o único traço que pudesse denunciar sua verdadeira identidade fossem seus olhos. Havia um brilho diferente neles. Um brilho sádico.
Ryan riu, divertindo-se.
— Natsu, Natsu... Veja onde sua curiosidade o levou. Não tinha planos de te machucar por enquanto. Você pediu por isso.
— Você matou Lisanna — acusou-o, a raiva expressa em sua voz. Não que estivesse em posição de fazer algo naquele momento.
— Sim. E faria novamente. Ela mereceu. Recebeu uma simples tarefa e falhou. Odeio pessoas incompetentes.
— Ela não tinha culpa. Você a coagiu a fazer o que fez. Lisanna foi só um fantoche nas suas mãos.
— Não tinha culpa? — Ryan se levantou, andando de um lado para o outro no quarto. — Por favor, Natsu, não me venha com essa. Eu apenas apresentei uma proposta, ela decidiu aceitá-la. Lisanna tinha o poder de escolha.
Dessa vez foi Natsu quem riu, sarcasticamente. Sentia a raiva queimar dentro de seu peito.
— Como se você não tivesse feito essa proposta parecer muito mais atraente do que realmente era.
— Tudo o que eu fiz foi dizer que se ela mentisse e fingisse estar carregando um filho seu, aos poucos você retornaria para ela. E, se não acontecesse, ao menos você estaria longe de Lucy. Ela ficou cega, não pensou em nada mais, em nada que pudesse dar errado. Foi fácil. Pessoas são fracas, estúpidas, tendem a se iludir, mesmo que a verdade esteja bem diante de seus olhos. Se enganam, apenas para que possam ter um vislumbre de suas vontades egoístas. Eu não fiz nada, ela tomou suas próprias decisões. O mundo está cheio de pessoas assim. Se submetem a algo e tentam se livrar da culpa que sentem dizendo que foram coagidos. Lisanna era fraca, como essas pessoas.
— E você se aproveitou disso — Natsu o acusou.
— Apenas fui esperto. Mesmo um “monstro” precisa de inteligência nesse mundo.
— Mas não se tratava de uma questão de sobrevivência, não é? Se tratava de um desejo estúpido, uma vontade egoísta. Só não consigo entender em que toda essa história te beneficiaria.
Ryan sorriu, perdido em pensamentos próprios.
— No fundo, você sabe sim, Dragneel.
— Lucy? — Natsu supôs.
— A herdeira dos Ivanov, sim.
— Vingança — concluiu. A criatura voltou a se sentar. — Mas por que dessa forma?
— As pessoas geralmente associam vingança à violência física. Seria realmente muito simples simplesmente trazê-la até aqui e machucá-la. E é exatamente esse o problema: seria simples demais. Por muitos anos tive que aguentar o sofrimento, viver com a dor, no meu caso física. A diferença é que eu não sou completamente humano, a dor seria apenas sentida, mas não me causaria danos. Passou a fazer parte de mim, porém nunca me matou. No caso da sua preciosa Lucy, sim. Eventualmente o corpo da garota não iria mais suportar. Não seria suficiente. Me diga, Dragneel — o Koscheivich se levantou e caminhou lentamente até Natsu. Sorriu com escárnio antes se acertar um chute na face do garoto. —, o que dói mais? Esse chute, ou saber do perigo que a garota que você tanto ama corre?
Natsu suspirou pesadamente, ajoelhando-se novamente. Não precisava dar uma resposta. Estava estampado na sua face.
— Você queria atingi-la emocionalmente.
— A verdadeira dor não é a sentida no corpo, mas sim na alma. Dor física pode desaparecer, a dor emocional não. Ela pode ser amenizada, mas nunca deixará de ser sentida. Ela é como um ferimento mal cicatrizado, e quanto mais cicatrizes uma pessoa tem, mais difícil se torna suportar. Eu não preciso matá-la. Com o passar do tempo, ela não suportará mais carregar o peso que se acumulará em seu coração. Enquanto isso, estarei aqui, observando-a desmoronar, pedaço por pedaço.
Dragneel sorriu. Achava aquela criatura tola demais, digna de pena.
— Pode tentar fazer o que quiser, Lucy é forte demais para que consiga derrubá-la assim.
— Forte ou não, o momento irá chegar. Ou você acha mesmo que ela suportará? Imagine a reação da pobre Lucy quando descobrir que seu amado nunca mais a segurara em seus braços. Imagine o quão forte ela conseguirá ser perante isso, se conseguirá mesmo suportar — a expressão de Natsu se fechou. Então de fato iria morrer. Ryan sorriu ao ver a expressão assustada do rapaz. — Relaxe, ainda não chegou seu momento. Você é meu grand finale, seu momento ainda não chegou. A dor de perder você será maior do que qualquer outra para a jovem Ivanov, será o momento em que ela irá ruir. Não posso desperdiçar isso matando-o agora, embora a vontade seja grande.
— Então por que me trouxe até aqui? — Natsu questionou.
— Vários motivos — Ryan respondeu, sorrindo. — Primeiro, porque não poderia simplesmente deixá-lo ir depois do que viu; segundo, pelo sofrimento que Lucy sentirá perguntando-se onde você está; e terceiro, porque isso tudo é um grande jogo. De certa forma, ter consciência de que você sabe a respeito dos meus interesses e que tentará me impedir torna tudo mais... divertido, desafiador.
— Você é realmente um monstro — Natsu murmurou. Devia sentir medo, porém tudo o que sentia era raiva.
— Não me olhe assim, Dragneel. Não sou tão diferente das pessoas. Esse cara aqui, por exemplo, Ryan, você não acreditaria que um humano possa ser tão sujo quanto este cara. Quer saber um fato curioso? — O Koscheivich caminhou até a mesa onde estava a televisão e pegou um cd colocado do lado do aparelho, jogando-o para Natsu. Na parte superior, escrito com marcador permanente, estava o nome de Lucy. — Ryan mantinha guardadas gravações de suas relações sexuais com todas as mulheres com quem já passara a noite. Sem o conhecimento delas, claro. Esse aí corresponde à noite que Lucy tivera com ele — a criatura sorriu de forma provocadora. — Gostaria de assistir?
— Vá pro inferno. — Respondeu, quase tremendo de raiva. Sabia que àquela altura Ryan já estava morto, ou ao menos adormecido dentro de seu próprio corpo, não sabia como funcionava quando um Koscheivich assumia o comando, mas queria que ele estivesse ali naquele momento, apenas para fazê-lo se arrepender das coisas que fez.
— Já estou nele, há muito mais tempo do que você imagina. Sabe, foi tão fácil possuir esse corpo. Pessoas são fracas, como eu disse. Foi como tirar doce de uma criança. É engraçado pensar no lixo que esse ser humano era, em como tentava aparentar ser superior aos outros, usando pessoas como bem queria, sendo que, no fim, não pôde suportar-me por mais de dez minutos.
— Ele ainda está aí? Em algum lugar, dentro desse corpo? — Natsu perguntou, apenas por curiosidade.
— Ah, sim. Divertindo-se, por sinal. Sinceramente, preferia que estivesse sofrendo. Quase implorava para que eu me aproveitasse mais da garota. Reviver os velhos tempos talvez.
— Fique longe da Lucy.
— Com qual de nós está falando? — Ryan perguntou sorrindo.
— Ambos. Não me importo com o que acontecer comigo, se encostar um dedo sequer na Lucy, irá se arrepender de ter nascido.
O Koscheivich riu profundamente.
— Acho que você não está entendendo sua situação nesse momento, Dragneel. Não está em posição de ordenar nada. Se eu desejar, faço o que quiser com Lucy, não cabe a você decidir. Não importa que tenha dentro de você uma parte do que eu fui um dia, no fim das contas é apenas um filhote. Continua sendo fraco. Seus esforços para proteger sua querida Lucy serão todos em vão, porque estou aqui há muito mais tempo que você, e estive esperando por isso há séculos. Você é só um simples desafio — o monstro saiu do quarto por um momento. Quando voltou, trazia o objeto que usara para bater em Natsu quando o fizera perder a consciência. — Mais uma coisa, Dragneel. Se tentou alertar o conselho sobre minha existência, posso adiantar um pouco meus planos e tirar a vida da garota mais cedo. É sua decisão. Agora, vamos nos divertir um pouco.
No instante seguinte, sentiu a haste de ferro batendo contra seu abdômen, depois contra suas costas, e logo por todo seu corpo. Normalmente tinha uma resistência muito grande à dor. Era uma característica adquirida por ser um hospedeiro. Obviamente, Ryan sabia disso. A força empenhada em seus golpes era muito superior à que um humano conseguiria colocar. Não demorou até sentir como se seu corpo estivesse em chamas por causa da dor, misturado a um sentimento imenso de inutilidade, e, no instante seguinte, tudo ao seu redor escureceu.
***
Não conseguia identificar que lugar era aquele. Tudo o que sabia era que havia terra sob seu corpo. Talvez houvessem árvores ao seu redor, era difícil identificar devido ao inchaço em seu rosto, não conseguia enxergar muito bem. Provavelmente estava numa floresta ou coisa parecida. Sequer sabia se ainda estava em Magnólia.
O Koscheivich o mantivera vivo, como dissera que faria, mas o deixara muito machucado. Mal conseguia mexer seu corpo por causa da dor. Com muito esforço, foi capaz de pegar o celular de dentro do bolso interno de sua jaqueta. A tela estava repleta de rachaduras, contudo ainda funcionava. Ao menos a sorte estava a favor de Natsu, já que, além de funcionar, o aparelho estava com a bateria cheia e conseguia captar sinal, por mais fraco que fosse.
Usando um aplicativo, descobriu qual era sua localização geográfica. Sabia que aquela ferramenta seria útil um dia. Copiou a localização numa mensagem com um simples texto, “SOS”, e enviou para Lucy e Gray. Não conseguiu digitar muito mais que isso. Queria ter mandando aquilo apenas para Gray, não queria Lucy naquele lugar, a floresta lhe causava uma má impressão, mas precisava tranquilizá-la, mostrar a ela que estava vivo, pois sabia o quanto a loira devia estar preocupada.
Sabia que aquilo provavelmente gastaria mais bateria do que poderia, mas deixou a lanterna do celular ligada, com a luz voltada para cima. Naquela escuridão, imaginou que Lucy e Gray não conseguiriam encontrá-lo sem uma ajuda. Apenas esperava que a bateria durasse por tempo suficiente.
Depois, ocupou sua mente com as palavras que ouvira do Koscheivich. Aquilo significava que não apenas Lucy estava em perigo, mas todos ao redor dela. Se entendera direito, a criatura pretendia eliminar todos que importavam para a garota, então teria que conseguir proteger a todos. Teria que ser suficiente, pois era o único que poderia ajudar.
Talvez pudesse contar com Alexei também. Lucy era uma pessoa importante para seu mentor, ele iria querer protegê-la, e não era como se estivesse contando ao conselho. Contudo, já imaginava a bronca que iria levar pelas coisas que havia feito.
Sem que percebesse, caiu no sono. Acordou ouvindo passos vindo em sua direção. Sorriu ao ouvir aquela voz de quem tanto sentira falta.
— Natsu!
A loira correu até ele, agachando-se ao seu lado com lágrimas nos olhos.
— Você está bem. Que bom — murmurou sorrindo. Mais duas pessoas vinham. Gray e provavelmente Levy, imaginou pelo tamanho.
— Eu? Eu?! Olha pro seu estado! E você pergunta se eu estou bem?! Qual o seu problema, Natsu?! Estava querendo se matar?!
O garoto sorriu ainda mais com a bronca. Parecia um bêbado, de tanto que sorria de forma completamente desajeitada.
— Senti falta da sua voz.
— Cala a boca, Natsu.
— Ei, cara — Gray o chamou, fazendo Natsu virar a cabeça para olhá-lo. — Parece que você apanhou um pouco.
— Você deixou todo mundo preocupado, Natsu — Levy comentou.
— Só um pouco. Vai me ajudar a levantar ou vai ficar aí parado com essa cara de besta?
— Venho aqui te resgatar e você me chama de besta? Mal-agradecido — Gray respondeu, ajudando o garoto, passando o braço de Natsu ao redor de seus ombros para mantê-lo em pé.
Só então ele pôde ver melhor o rosto molhado pelas lágrimas de Lucy.
— Ei — a chamou. — Fique longe daquele cara, Lucy. Ele é problema.
— Você realmente não precisa me dizer isso.
— Gray — chamou pelo amigo. Sua expressão agora era séria. — Ele matou Lisanna. Eu o vi atirar bem na cabeça dela. Foi horrível.
— O que?! — o moreno exclamou, quase soltando Dragneel. Mesmo que não convivessem com frequência, Lisanna era sua prima. — Desgraçado. Ele vai pagar por isso, mas vamos dar um jeito em você primeiro. O que aconteceu com você?
— Ele atirou na minha perna. E depois fui um saco de pancadas humano — o garoto deu um fraco sorriso ao ver a expressão preocupada no rosto de Lucy. — Eu to bem, sério. Não conseguem me derrubar tão fácil assim. Podemos ir pra casa agora?
— Não mesmo — a loira respondeu. — Você não está bem, Natsu, de jeito nenhum! Vamos te levar ao hospital, nem pensar que vai para casa assim.
— Eu vou ficar bem, Lucy, não preciso ir ao hospital.
— Eu não estava dando uma sugestão. Você não tem direito de opinar. Não depois de toda a preocupação que nos fez passar.
O garoto pensou em discutir, porém sabia que não tinha chance de ganhar. Sorriu um pouco mais ao ver as imposições de Lucy.
— Eu realmente senti muito sua falta.
— Se acha que vai conseguir me acalmar falando isso está bem enganado.
— Lucy.
— O que foi? — a garota perguntou. Sua respiração estava acelerada e sua face cada vez mais preocupada.
— O que?
— Só me abraça, por favor. — De forma receosa, ela obedeceu, tomando cuidado para não o machucar ainda mais. — Mais forte — a loira o obedeceu novamente, encostando o queixo no ombro de Natsu, voltando a chorar. — Eu estou aqui, vê? Pode sentir, não pode? Eu estou com você, vivo. Dá para sentir meu coração batendo, não dá? Enquanto ele estiver batendo, eu vou continuar a estar com você. Não precisa chorar, ou se preocupar, porque eu sempre vou voltar para você, para te segurar nos meus braços, exatamente assim, ok? Sempre.
A loira assentiu, apertando-o mais contra si, deixando as lágrimas escorrerem por seu rosto mais do que em qualquer outro momento desde que vira Natsu sair pela porta do apartamento. Porém, naquele momento chorava de alívio. Ah, se ele pudesse mantê-la daquela forma para sempre, longe de todo e qualquer sofrimento, na segurança de seus braços. Infelizmente, não seria tão simples. Precisaria fazer muito mais para proteger sua Lucy. Daria tudo de si para proteger o sorriso daquela garota, porque ela não merecia mais sofrimento, e ele era o único que poderia garantir sua felicidade.
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