Onde Tem Ódio Tem Amor
99 Family
Notas iniciais
No rádio tocava uma música calma, em volume baixo. Ninguém no carro dizia uma única palavra e o ar frio que entrava pela fresta aberta do vidro tornava o calor de sua blusa muito aconchegante. Sem perceber, aos poucos seus olhos fechavam, adormecendo lentamente. Quase pulou do banco quando Natsu aumentou o som até o último nível.
― Mas o que? ― Disse, retornando o botão para a posição original.
― Se eu não posso dormir, você também não pode. Isso se chama companheirismo ― respondeu o motorista sarcasticamente sorridente.
― Você é um chato.
― Desculpe ter colocado vocês nessa viagem. Não devia ter atrapalhado ― Levy comentou, do banco de trás.
― Não está atrapalhando. É uma aventura, certo, Natsu? ― O garoto não respondeu. ― Eu disse: Certo, Natsu?
Se respondesse qualquer outra coisa que não fosse “sim”, acabaria encrencado mais tarde. Não que Levy estivesse atrapalhando, apenas gostaria de estar confortavelmente dormindo em sua cama.
― Certo.
― Ele está um pouco rabugento por ser tão cedo, mas não se preocupe. Assim que o sono passar melhora. Já aprendi isso convivendo todos os dias com essa coisa.
― Coisa é você.
― Ok. Tudo bem ― Levy respondeu, embora ainda se sentisse mal. Não queria ficar sozinha naquele momento, porém também odiava estar perturbando seus amigos com seus problemas.
― Por que não jogamos alguma coisa para matar o tempo?
― Tipo você para fora do carro? ― Natsu sussurrou, sorrindo de canto. Obviamente não falava nem um pouco sério, mas nada para se manter acordado como perturbar a jovem loira ao seu lado.
― Como é, querido? Acho que não te ouvi direito ― “querido”, aquela era a palavra que marcava o limite entre o normal e o perigoso, tornando-se mais vantajoso recuar, ou logo seria ele rolando serra abaixo.
― Nada, amor, não disse nada ― falou, sorrindo cinicamente.
― Foi o que eu pensei. Então, que tal isso? Vocês tentam adivinhar em que objeto estou pensando. Por exemplo... Eu vejo algo verde.
― Seriam meus belos olhos? ― Natsu comentou.
― Seus olhos por acaso são objetos?
― Depende do ponto de vista. Entendeu? Olhos, ponto de vista...
Sem reação além de imaginar o que havia visto naquele comediante de quinta categoria para querer passar o resto da vida ao lado dele, disse:
― Ok, por causa da sua péssima piada você perdeu a vez. Levy?
A garota deu uma breve olhada nos objetos da parte da frente do carro, sem muito ânimo.
― Não sei... o Luigi pendurado no retrovisor?
― Exato! Ponto para a Levy. Ok, como você ganhou essa rodada, é sua vez.
Realmente não se sentia no clima para brincadeiras, mas sabia que Lucy estava apenas dando seu melhor para animá-la. Não custava nada participar. Procurou algo de interessante que pudesse usar. Encontrou o objeto perfeito guardado no pequeno alojamento costurado ao banco do passageiro.
― Tudo bem. Eu vejo algo rosa ― descreveu, balançando a coisa em frente ao seu rosto.
― Natsu? ― Lucy perguntou, apontando para o rapaz.
― Não.
― Ha ha ha. Como você mesma disse, eu não sou um objeto ― disse o garoto.
― Depende do ponto de vista ― repetiu a desculpa utilizada por ele, tentando imitar sua voz. ― Outra dica.
― É felpudo.
Lucy franziu a sobrancelha. Não se lembrava de nada assim deixado no carro.
― Felpudo? Tem alguma ideia do que possa ser? ― Perguntou ao motorista.
― Nenhuma ― porém nem se esforçou para pensar.
― O que mais?
― Você pode ter muita diversão com isso.
A dica não havia ajudado em nada. Rosa, felpudo e divertido. A não ser que fosse um coelho tingido, não conseguia pensar em absolutamente nada.
― Do que você está falando, Levy? ― Perguntou, esticando-se até o banco de trás para ver o que sua amiga estava descrevendo. Encontrou-a sorrindo enquanto segurava uma algema que, de fato, era rosa e felpuda. Com o rosto vermelho, imediatamente pegou o objeto. De canto, Natsu espiou o artefato e riu.
― Caramba, eu nem me lembrava disso ― comentou.
― Antes que você diga qualquer coisa, nunca foi usada ― Lucy disse. ― Ganhamos num sorteio uma vez numa noite com tema romântico em um restaurante e acabou ficando no carro.
― Por que está se defendendo tanto se nunca usou, Lu-chan? ― A pequena provocou.
― É, Lucy, por que?
― Não estou me defendendo, só explicando. E você sabe muito bem que nunca foi usada, babaca.
Para observá-las melhor, Natsu pegou as algemas. Depois de examiná-la, girou o objeto em seu dedo.
― Mas não se preocupe. Agora que me lembrei da existência dessa coisa, ela terá utilidade muito em breve ― agilmente, sem que Lucy sequer percebesse e perigosamente largando a direção por segundos, prendeu uma argola no braço dela e a outra em seu punho, sorrindo descaradamente. ― Só testando para usá-las quando você voltar de viagem. Até que são bem resistentes. Sabe como é, não quero correr o risco de você conseguir escapar.
― Qual o seu problema, Dragneel? ― Perguntou, erguendo a mão até a altura dos olhos.
― Você tem a chave, Natsu? ― Com a pergunta de Levy, percebeu que talvez tivesse feito uma pequena besteira.
― Provavelmente... Talvez. Deve estar aí atrás, onde estavam as algemas.
― Provavelmente?! ― A loira exclamou, pulando para o banco de trás, esquecendo-se que daquele modo praticamente levava Natsu junto.
― Cuidado! Eu estou dirigindo, lembra? Quer matar a gente?
Procurando com Levy no pequeno compartimento, por sorte encontraram no fundo a chave que se encaixava perfeitamente nos buracos das algemas, libertando-os. Aquilo deveria ficar guardado com ela, pois definitivamente não confiava em Natsu com um objeto tão perigoso.
― Sorte sua que a chave está aqui ― disse, voltando ao banco do passageiro.
― Por que? O que ia fazer se não estivesse? ― Provocou.
― Não sei. Te jogar no mar, já que estamos aqui.
― E aí sem a chave você iria junto, gênia.
Sem outra opção, acabou rindo. Alguém deveria investigar seu cérebro para saber o que em Natsu a atraía tanto, já que definitivamente ele era o cara mais irritante que conhecia. E ainda assim queria compartilhar cada dia de sua vida com aquele maluco.
Olhando através da janela, do alto da serra, já conseguia ver o oceano. A lua e as estrelas refletiam distorcidamente na água turva pelas ondas. A praia contornava o alto relevo, contrastando entre os grãos claros da areia e o verde das plantas. Era um lugar deserto, não muito visitado, mas era o mais próximo de casa. De qualquer forma, imaginou que durante o dia deveria oferecer uma vista linda, pois mesmo à noite já sentia a beleza do lugar.
― Talvez devêssemos nos casar na praia ― comentou, ainda observando o mar. Percebeu que Natsu a encarou com a testa franzida. ― Não sei. Só acabei pensando nisso, já que é algo que precisamos decidir.
― Não sei se seria uma ideia muito boa. Imagina toda aquela areia grudando no vestido?
Lucy sorriu.
― É, talvez não.
Ainda assim, era uma ideia a considerar. Talvez fosse apenas a beleza do lugar contagiando seus pensamentos. Mesmo passando das quatro da manhã e sem ter dormido por um segundo sequer, estava contente por Levy ter lhe feito participar daquela viagem. Na correria de sua vida, não era sempre que tinha a chance de contemplar a natureza em sua forma mais pura.
Sem qualquer movimento na estrada, Natsu estacionou o carro no próprio acostamento. Imaginou que não teria problema. Não era como se fosse comum um guarda passar por ali. Uma multa era praticamente improvável. Dali poucos passos, já pisavam na areia fina e macia. A expressão de Levy parecia ter melhorado um pouco, aos olhos de Lucy. Chegou à praia na frente de todos, virando de costas para o mar sugerindo:
― O que acham de um mergulho?
O rapaz enrugou a testa outra vez. Já estava congelando fora da água, dentro dela viraria picolé.
― Acho que a água deve estar meio fria, Levy ― Lucy disse, como que lendo seus pensamentos.
― Vamos. Não dá para vir até a praia e não entrar no mar ― insistiu, porém nenhum dos dois se manifestou. ― Tudo bem. Mas eu vou.
A garota se afastou, caminhando em direção à água sem pressa.
― Ela está bem? ― Natsu perguntou, baixo.
― Eu não sei... ― continuou observando Levy se distanciando até que a água tocasse seus pés. Imaginou que ao sentir a temperatura, iria voltar, porém ela continuou. Quando a água chegou à sua cintura, Lucy esperou que sua amiga finalmente parasse, contudo, se afastou ainda mais. ― Ela está indo muito para o fundo. Vai acabar se afogando desse jeito.
Não podia esperar que algo acontecesse, pois sentia que Levy não iria parar e seu coração se apertou. Tinha uma sensação de que, se não fizesse nada, se arrependeria profundamente, portanto correu até ela, deixando Natsu para trás.
― Lucy! O que você vai fazer? ― O garoto exclamou, preocupado. Já era ruim o bastante uma delas se arriscando daquela forma.
― Fica aí! ― Ordenou, apertando o passo até sentir a água gelada encostando em sua perna. Chegou a sentir dor de tão baixa que estava a temperatura, como imaginou que estaria. Porém, não era nada comparada à preocupação com sua melhor amiga. Podia suportar um pouco de frio, mas não a ideia de algo acontecer a ela. ― Levy!
Mesmo chamando, a garota não respondia. A água já batia no pescoço da jovem, molhando a ponta de seu cabelo. Precisava se apressar, porém a força das pequenas ondas trabalhava contra seu corpo. Rangia os dentes devido ao frio, mas, com muito esforço, conseguiu chegar até Levy. Sendo mais alta, a água batia um pouco abaixo do ombro, congelando quase todo seu corpo.
Assim que chegou perto o suficiente, abraçou a pequena pelas costas, encostando a cabeça no ombro de sua amiga. Só então pôde perceber que ela chorava copiosamente. Sem forças para resistir, não deu mais nenhum passo. Mal conseguia se manter em pé, se não fosse por Lucy segurando-lhe.
Vendo Levy naquele estado, não conseguiu conter as lágrimas também. Imaginou que algo estava errado no segundo em que ela propôs aquela viagem no meio da madrugada.
― O que você estava fazendo? Quase me matou de susto!
― Me desculpe, Lucy... ― disse, com dificuldade. ― Eu só... eu não sei se consigo aguentar.
― Do que está falando?
― É como se um peso gigante tivesse sido jogado sobre as minhas costas, e... eu não sei se sou forte o suficiente para carregá-lo. Então quando entrei na água, me senti tão leve, como eu não me sentia há tanto tempo, que eu simplesmente quis que ela me levasse, para nunca mais... ter que que me sentir com esse peso. Eu não conseguia pensar em nada.
Apertou-a ainda mais contra si, culpando-se, mesmo sabendo que na verdade não tinha culpa de nada. Mas, talvez se tivesse sido uma amiga melhor, se tivesse estado mais presente e percebido pelo que ela estava passando um pouco antes, talvez Levy não estivesse tão mal.
― O que você estava tentando fazer? Queria se afogar? Se perder no mar?
― Eu não sei... ― sentiu como se fosse cair, então Lucy se esforçou ainda mais para mantê-la em pé. Sabia que soava mentirosa, mas era a verdade. Queria apenas sentir-se melhor e não pensou nas consequências. Simplesmente deixou-se levar. ― Eu não sei.
― Me ouça, ok? Eu não me importo que isso soe egoísta, mas eu não vou perder você também. Eu já perdi gente demais na minha vida. Não vou deixar você cair nesse abismo. Eu me recuso ― sua garganta ardia. Sabia exatamente como Levy se sentia. Na época em que passou pela mesma situação, não tinha ninguém para apoiá-la. Porém, era diferente com Levy. Não deixaria que ela estivesse sozinha. Jamais permitiria isso. ― Esse peso que você está carregando, não precisa carregá-lo sozinha. Eu estou aqui. Natsu também. E não importa o que o Gajeel diga, você não precisa dele, porque você tem a nós dois. E acredite em mim quando eu digo que nós faríamos qualquer coisa para te ajudar. Eu já estivesse onde você está agora, esqueceu? E, por mais que isso soe clichê e absurdo, acredite em mim quando eu digo que vai ficar tudo bem. Você não vai se sentir assim para sempre. Eu sei que parece que tudo na sua vida foi virado do avesso, mas uma hora as coisas vão se encaixar. Você só precisa ser paciente.
― Não é só isso, Lucy ― embora apreciasse a ajuda, Gajeel não era a única questão que lhe preocupava. ― Eu mal ganho o suficiente para me manter, como vou criar uma criança? Além disso, duvido que meus pais irão sequer querer olhar para mim quando contar a eles. Ambos odiavam o Gajeel, não suportavam sequer ouvir o nome dele. Se eu disser que estou esperando um filho dele, os dois vão me odiar para sempre.
Não diria em voz alta, mas naquele momento entendia perfeitamente os pais de Levy em seu ódio por Gajeel.
― Se dinheiro é o seu problema, esqueça. Eu te ajudo em tudo o que precisar. Você sabe que não vai fazer diferença alguma para mim. E quanto aos seus pais, você é filha deles, e esse bebê é neto dos dois. Eles podem se revoltar no começo, mas uma hora irão entender.
Ainda se sentia mal, aterrorizada, porém era bom finalmente tirar aquelas coisas de seu peito, compartilhá-las com alguém de confiança. Sentia-se tão estúpida por ter escondido a verdade de Lucy por tanto tempo. Mais calma, porém ainda chorando compulsivamente, virou-se de frente para a jovem.
― Me perdoe ― disse, vendo que o estado de Lucy não era muito diferente do seu.
― Escuta ― falou, levando as mãos ao rosto de Levy e olhando-a nos olhos ―, você é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Você é minha irmã. E eu iria até o inferno se fosse para te ajudar, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, faça algo assim outra vez, ok? Porque eu realmente não consigo imaginar minha vida sem minha melhor amiga. Você quase me matou de susto, droga.
Vendo Lucy chorando daquela forma, como raramente tinha visto antes, exceto quando algo acontecia entre ela e Natsu, percebeu o quanto a tinha deixado preocupada. Mesmo que ela não lhe fizesse prometer, nunca mais gostaria de causar algo como aquilo em sua amiga outra vez. Sem esperar, deu-lhe o abraço mais apertado que conseguiu.
― Obrigada ― sussurrou. ― Por tudo.
― Tudo bem. É para isso que amigos servem, certo? ― Lucy disse, sorrindo em meio às lágrimas. ― Agora, vamos sair daqui, ok? Porque eu estou quase congelando.
Levy assentiu. Tendo Lucy como um suporte, conseguiu vencer a água que lhe puxava para trás, tentando levá-la ao fundo, literal e metaforicamente. Seus problemas ainda existiam, e continuariam ali, lhe cutucando, mas sentia-se melhor, mais leve.
Da beira da praia, quase encostando na água, encontrava-se um Natsu preocupado. Sua vontade era ter ido atrás das duas, porém sentia que era melhor não incomodar. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, só conseguia notar que ambas estavam chorando, embora sorrissem também, Lucy um pouco mais do que Levy.
― O que aconteceu? ― Perguntou, dando-lhes espaço para se afastar da água.
Lucy olhou para sua amiga. A história era dela, só diria se tivesse permissão para isso, mesmo que confiasse cegamente em seu noivo.
― Tudo bem, uma hora ou outra ele vai perceber mesmo ― disse, entendendo o significado daquele olhar.
Se tratando de Natsu, não duvidava que ele não percebesse a gravidez nem quando o bebê já tivesse nascido.
― Levy está grávida.
A situação era séria, mas a expressão de Natsu era tão engraçada que precisou suprimir uma risada, ainda mais quando ele desviou o olhar para a barriga de Levy, que, com as roupas molhadas grudando no corpo, estava notavelmente maior. Parecia uma criança que havia acabado de descobrir um grande segredo.
― Sério? Você também? Uau! Parabéns! ― Mas a expressão de Levy, por outro lado, não parecia muito contente. ― ... Ou não? Você não parece feliz com isso.
― É meio difícil ficar feliz quando o pai do seu filho se recusa a aceitá-lo.
― Gajeel fez isso? ― Disse, levando as mãos à cabeça e andando pela areia da praia, claramente irritado. ― Eu sei que ele é meu amigo, e já fez muita burrice na vida, mas isso passou dos limites. Se quiser, posso dar uma lição nele que por bem ou por mal vai ter que assumir essa criança.
― Não, não precisa. A coisa que eu mais quero agora é esquecer que ele existe. Se não quer ter responsabilidades de pai, o problema é dele. Desde que não apareça mais na minha vida.
Natsu sorriu, compreensivo. Sabia que perdia a cabeça muito fácil, e, se estivesse no lugar de Levy jamais conseguiria ser tão racional. Mais calmo, aproximou-se de sua amiga, colocando as mãos em sua barriga.
― Quer saber? Ele não precisa de um pai, porque terá dois tios maravilhosos. Quem precisa do Gajeel quando tem a gente? Na verdade, nós seremos o “pai” dessa criança. Ele vai ser o mais sortudo da creche. Vou ensiná-lo a praticar esportes e a ser o cara mais legal e inteligente que esse mundo já conheceu.
― Como sabia que era um menino? ― Lucy perguntou. Afinal, em momento algum elas tinham mencionado.
― Só um palpite ― disse, sorrindo. ― Sabe do que mais, garotinho? Talvez você também ganhe um primo ou uma prima, e aí vocês vão poder brincar e crescer juntos. Vai ser incrível! Eu consigo até me imaginar indo passear no parque com dois carrinhos.
Lucy sorriu, caminhando até o rapaz e apoiando-se em seu ombro.
― Ok, ok. Guarde sua empolgação para quando tivermos certeza.
Só quando sentiu a água fria molhando um pedaço de sua jaqueta lembrou-se do estado em que as duas meninas se encontravam.
― Vocês vão acabar pegando um resfriado se ficarem com essas roupas molhadas. Vou ver se tem algo no carro.
E saiu correndo pela areia até o acostamento.
― Toda a animação que o Gajeel não demonstrou, Natsu demonstra em dobro ― Levy comentou.
― É, eu sei. Bom, Natsu é uma criança, então se for considerar por esse ponto, é natural que ele ame crianças também.
O garoto já voltava trazendo um suéter escuro nas mãos.
― Só achei isso ― disse, entregando a vestimenta para Levy. ― Mas tudo bem, a Lucy pode ficar com a minha. Pelo menos já deve ajudar um pouco.
Levy se afastou dos dois, trocando de roupa próxima do carro. Enquanto isso, Lucy tirava a blusa que vestia, ao mesmo tempo em que Natsu também se despia de sua jaqueta. Notou que o rosto do garoto ficava vermelho.
― O que foi?
― Seu sutiã molhado. Ficou transparente.
Franziu a testa. Cruzando os braços na altura dos seios.
― Desde quando você se importa com essas coisas?
― Eu sou tímido, ok? ― Respondeu, ajudando-a a vestir a jaqueta.
― Aham, e eu sou uma artista circense. Conta outra, Natsu.
― É sério ― fechou o zíper até o topo e beijou a bochecha de Lucy. ― É que você ainda me deixa constrangido com a sua beleza.
Era a vez dela ter suas bochechas tingidas de rosa. Ficava desconsertada com os súbitos elogios que ele lhe fazia. O céu estrelado também ajudava a contribuir com o romance.
― Eu acho que vou dar uma volta por aí ― Levy disse assim que voltou. A loira apertou os olhos, demonstrando preocupação.
― Tem certeza de que vai ficar bem?
― Eu vou, prometo não fazer nenhuma loucura.
Não sabia se deveria deixar Levy sozinha depois do recente episódio, mas não podia prendê-la, então apenas acenou, concordando.
Vendo-a se afastando pela areia, deixou que Natsu pegasse sua mão e a levasse para um pouco mais distante da água, sentando-se na areia. Só lembrou que provavelmente sujaria o banco do carro depois que já tinha encostado na areia, de forma que não havia o que fazer além de deixar que Natsu a abraçasse e a deixasse usar seu ombro como descanso, observando e ouvindo as ondas no mar.
― Pelo que? ― O garoto perguntou.
― Por ter dito aquelas coisas para a Levy e ajudado a animá-la. Fez um bom trabalho ― ajeitou-se no ombro dele. ― Estou sentindo tanto ódio do Gajeel.
― Eu não estou defendendo ele nem nada, mas é tão estranho. Nunca imaginei que faria uma coisa assim. Quer dizer, ele tem seus problemas, só que sempre achei que ele realmente amasse a Levy, o suficiente para não a magoar assim.
― As pessoas sempre te surpreendem. Positiva ou negativamente.
― Acho que sim ― voltando no passado, ele mesmo tinha tido sua cota de idiotices que magoaram Lucy. Talvez Gajeel estivesse sendo um idiota, mas em algum momento se arrependesse. Lucy lhe deu uma segunda chance, gostava de pensar que todos mereciam uma. Porém, no estado em que Levy estava, não achava que haveria volta para Gajeel. Tinha que se considerar sortudo por Lucy, por isso tentaria nunca mais vacilar da mesma forma. Queria-a para sempre ao seu lado. ― Vamos nos casar na praia. A praia mais linda que consigamos encontrar.
― O que? ― Assustou-se com a colocação repentina.
― Você sugeriu que poderíamos nos casar na praia. Vamos fazer isso.
― Eu não sei, você tinha razão, é muita areia.
― Honestamente, eu não me importo nem um pouco com o lugar, contanto que seja com você.
― Honestamente, eu também.
Ele merecia um beijo naquela noite. Merecia o melhor beijo que poderia lhe dar, por ter sido tão fofo o tempo todo. Entendia perfeitamente o motivo de querer estar com ele em cada minuto importante de sua vida, mesmo às vezes fingindo não entender. Ele completava todo o vazio que havia em seu corpo de forma tão perfeita que ninguém mais conseguiria fazer o mesmo. Era a peça que faltava em seu quebra-cabeças. Em uma noite tão linda como aquela, não poderia desejar estar em melhor companhia.
Passou tanto tempo presa nos lábios daquele adorável garoto que somente percebeu os minutos passando quando Levy voltou e sentou-se ao lado dos dois. Estava distraída demais com aqueles beijos para notar qualquer coisa ao seu redor.
― Como foi o passeio?
― Bom ― respondeu simplesmente, olhando o mar.
― Ei, eu tive uma ideia para resolver o problema com os seus pais.
Levy passou a prestar mais atenção.
― Qual?
― Você poderia dizer que Natsu é o pai.
O rapaz engasgou com a própria saliva.
― Quando foi que você pensou nisso?! ― Exclamou.
― Agora.
― Ótimo. Imagino que meu beijo devia estar extremamente interessante para você ter ideias malucas no meio dele.
― Eu sou multitarefas, dramático ― respondeu, empurrando-o na areia.
― Não consigo ver como isso iria funcionaria, Lu-chan.
― É simples. Você raramente fala com os dois, certo? Pode dizer que começou a sair com o Natsu há algum tempo, mas não teve chance de contar. Você acabou engravidando e Natsu vai assumir o filho.
― Não é nem um pouco simples. Eu sei que você quer ajudar, mas isso é completamente sem noção, Lucy ― o garoto disse.
― Você mesmo disse, nós podemos ser o “pai” desse menino. Por que não fazer isso de forma oficial? Não é tão maluco assim. ― Natsu bufou. Na sua cabeça, não fazia sentido nenhum. Mas, contanto que Levy concordasse, estaria disposto a ajudar. Ainda que o plano tivesse tudo para dar errado. ― O que acham?
― Eu vou pensar ― Levy respondeu. Em seu desespero, talvez fosse a melhor ideia que poderia aceitar. Era melhor do que dizer que o filho pertencia a Gajeel, porém não gostava da ideia de mentir para seus pais.
― Eu sou apenas um fantoche nas suas mãos, não é, Heartfilia? ― Disse, em tom de brincadeira, abraçando-a pela cintura.
― É claro que sim.
No tempo que passou, o sol já mostrava seus primeiros raios no horizonte. Provavelmente estava sentimental demais, porém, com as duas pessoas mais importantes de sua vida ao seu lado, não poderia querer estar em qualquer outro lugar. A vista era tão linda, o sol surgindo por sobre o oceano, refletindo na água. Sentiu-se compelida a abraçar os dois, com lágrimas nos olhos.
― Sabem, não importa o quão difícil a vida fique às vezes, sempre é mais fácil com vocês por perto. E espero que se sintam da mesma forma ― dando um beijo na bochecha de cada, completou: ― Vocês são minha família. Amo tanto os dois, seus bobos!
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