Onde Tem Ódio Tem Amor
62 12 de abril de 1993
Notas iniciais
Talvez nunca em sua vida tenha se sentido tão ansioso quanto enquanto dirigia por aquelas estradas desertas até a pequena cidade em que sua avó vivia desde que nascera. Se ao menos a vista o ajudasse, mas tudo o que se podia ver através das janelas do carro eram árvores e mais árvores, nada que distraísse sua mente e o tirasse daqueles pensamentos. Muito pelo contrário. Aquela vista despertava flashbacks do dia em que se mudou para Magnólia, após a morte dos pais. Um dia deveras ruim.
Achava compreender agora um pouco mais sobre como Lucy se sentia sempre que regressava a Nagoya, a cidade em que o incidente com sua mãe ocorrera. Natsu nasceu e cresceu em Ashibetsu, e lá viveu até a morte de seus pais, quando se mudou para Magnólia. A vista lhe lembrava daquele dia, de quando percorreu aquelas estradas no carro da tia, órfão, indo para uma cidade completamente desconhecida, assustado e com raiva de si mesmo por ter causado aquele acidente. Mesmo que de fato tivesse sido um acidente, a culpa era sua.
Não queria voltar, era doloroso, como retornar ao passado e reviver o dia em que aquele incêndio destruiu seu amado lar, matou seus pais, mas não a ele. Achava que merecia ter morrido junto aos seus progenitores. E era estranho voltar justamente para investigar o motivo pelo qual sobreviveu. Fazia seu coração disparar e seu estômago revirar.
Já era bem tarde, 19h. Haviam saído às 15h, prevendo voltar antes das 18h, mas devido ao trânsito que tiveram de enfrentar, causado por um acidente na estrada, se atrasaram. Talvez fosse necessário passar a noite em um hotel, para não ser preciso dirigir tão tarde, coisa a qual Lucy se opunha terminantemente, dizendo ser perigoso.
— Pelo endereço que você tem a casa fica um pouco distante do centro. Vamos ter que dirigir por dentro da cidade até lá... Natsu? Está me ouvindo?
— O que?
Tão distraído com suas preocupações, sequer dera atenção às considerações de Lucy. Esperava que aquele endereço estivesse correto, era o único que tinha. Não sabia nem se sua avó ainda estava viva após tanto tempo. Não se falavam para que pudesse ter essa informação, mas imaginava que teria sido notificado caso qualquer tragédia houvesse ocorrido.
— A casa. Estava falando sobre onde ela fica.
— Ah, claro. Desculpe, eu estou um pouco distraído.
— Um pouco? — a loira riu. — Completamente, não é? Não se preocupe, vai dar tudo certo. Você disse que queria saber um pouco mais sobre a sua infância, não é?
— Não é como se você estivesse completamente atenta também, Lucy — o rapaz rebateu. Desde que chegara em casa, Heartfilia parecia estar em qualquer lugar, menos com ele. Distante. Avoada. — É, isso mesmo.
A loira suspirou. Fitou as faixas na estrada e refletiu por um momento. Não era o melhor dia e muito menos a melhor hora para aquilo, entretanto odiava esconder coisas de Natsu, portanto achou melhor revelar de uma vez o motivo de sua aflição:
— Me desculpe. Natsu, eu odeio guardar segredos de você — a atenção do garoto redobrou. — Aconteceu algo sim, que você não deve dar importância, mas que deveria saber.
— O que? — questionou-a, preocupado, vigilando a estrada e a expressão no rosto de Lucy.
— Ryan me procurou outra vez hoje.
Lucy perguntou-se se teria sido mesmo uma boa ideia iniciar aquele assunto naquele momento em questão, porque no exato instante em que os ouvidos de Natsu captaram aquele nome toda a sua atenção virou-se para Lucy, deixando-o desatento com relação à estrada.
— O que ele queria com você?
— Pedir para conversar. Pode olhar para frente, Natsu? — o garoto voltou seu olhar para o caminho outra vez, ainda com os ouvidos muito atentos. — Eu não quero saber de conversa nenhuma com um fantasma do passado. Não é motivo para você se preocupar, só achei que deveria saber.
O silêncio tomou conta do veículo. Natsu não se pronunciou a respeito daquilo. Preferia manter suas preocupações por hora voltadas a uma coisa só, e definitivamente não seria a Ryan. Não enquanto estavam tão longe de Magnólia e com Lucy perto de si, à sombra de sua segurança. Todavia, considerava cada vez mais uma conversa cara a cara com o tal fantasma, que parecia estar a cada momento mais perto de tomar forma outra vez.
— Tudo bem — disse após alguns minutos. Talvez mais para si mesmo do que para Lucy. A loira encarou-o preocupada. Sua falta de posicionamento não sugeria que estava “tudo bem”.
— Chegamos à cidade — comentou, avistando uma placa de “Bem-vindo a Ashibetsu”.
— Tem uma coisa que eu quero fazer antes de irmos até a casa, se não se importa.
— Você é quem decide.
Aquela vontade surgiu repentinamente em sua mente, consumindo-o rapidamente. Sentiu que deveria satisfazê-la e não se sentiria bem se não o fizesse. Precisava visitar o lugar onde morara até os sete anos de idade. Tinha plena consciência de que a visão poderia destruí-lo internamente, mas se isso acontecesse reconstruir-se-ia outra vez. Já o fizera antes, poderia fazer de novo. Duvidava que os escombros continuassem lá, porém, de uma forma ou de outra, mesmo que tudo o que visse fosse um terreno com uma nova casa construída, precisaria visitá-lo.
Por mais que fizesse anos que não vinha àquela cidade, lembrava-se perfeitamente do caminho até sua casa, de todas as ruas e de todos os detalhes que as formavam. A memória estava marcada em sua mente como uma cicatriz que jamais desaparece. Jamais poderia esquecer.
Avistou o parquinho na esquina da rua em que residia, ao qual seu pai costumava levá-lo para brincar quando pequeno. Lembranças que começavam doces, e então tomavam um gosto amargo e o faziam sentir-se mal. Quando fez a curva, seu coração disparou, tomado por medo. Os metros pareciam quilômetros, e aquela rua infinita. E então reconheceu de imediato aquele terreno, no meio da rua.
Estacionou o carro em frente ao local onde costumava ficar sua casa, observando o terreno vazio. Os escombros obviamente haviam sido retirados, porém ninguém parecera se atrever a construir uma nova moradia no local. Talvez acreditassem ser um lugar de azar. Um nó formou-se em sua garganta. Fechou os olhos, pressionando as pálpebras molhadas por lágrimas que se teimavam em se formar, e que ele teimosamente retia, uma contra a outra, invadindo seu cérebro com imagens relacionadas ao local, revivendo em sua mente a noite do incêndio, os gritos de sua mãe e os pedidos do pai para que ficasse a salvo.
Não era preciso muito esforço por parte de Lucy para descobrir que lugar era aquele, baseando-se na reação de Natsu. E envolto de lembranças, mágoas e dúvidas esquecera-se completamente da presença da loira, assustando-se quando ela segurou sua mão, trazendo-o de volta à realidade, fazendo-o perceber aquela simples coisa: não estava sozinho.
Lucy lhe deu seu mais sincero sorriso de consolo. O imaginou pequeno, saindo dali após ter visto os pais morrerem, e desejou que pudesse ter estado com ele naquele momento também, para consolá-lo e mostrar-lhe que iria ficar bem outra vez, por mais que após aquela tragédia lhe parecesse algo inalcançável.
— Já faz quatorze anos, mas parece que foi ontem mesmo — disse, desviando o olhar, incapaz de encarar Lucy. Não queria deixá-la perceber, ao ver dele, o quanto era fraco. Mesmo que na realidade a tal fraqueza era apenas uma característica humana extremamente comum. — Eu pensei que quanto mais o tempo passasse, mais fácil se tornaria suportar a dor. Mas continua sendo muito difícil. Alguns dias até chega a doer ainda mais do que quando tudo aconteceu.
Lucy compreendia muito bem aquele sentimento, pois sofria do mesmo mal. A dor jamais desapareceria completamente, se tornava uma questão de conseguir administrá-la. Acontecia apenas que às vezes ela era mais forte do que qualquer outra coisa.
— Está tudo bem agora, Natsu. — a loira respondeu, apertando a mão dele, solidária.
O garoto acenou positivamente, sorrindo de forma fraca e enxugando os olhos com as costas da mão livre. Se não tivesse Lucy perto de si, não saberia dizer o que seria dele.
— É, está. — Se recompôs e voltou as mãos para o volante. — É melhor irmos, não queremos chegar muito tarde.
***
Ao menos ver a casa da avó pareceu muito mais fácil do que rever sua antiga casa. A moradia continuava exatamente como se lembrava da última vez que a vira, aos quatro anos, o que considerava um bom sinal. Se a casa estava igual, talvez significasse que sua avó ainda vivia ali.
As melhores lembranças que tinha dela eram no natal, quando vinha e lhe trazia presentes e biscoitos. Continuava sendo sua época favorita do ano. Apesar disso, não teve muito tempo para desfrutar de sua companhia, e não tinha certeza se a avó gostaria de vê-lo, pois em todos aqueles anos ela nunca o procurou.
Ao descer do carro, seus passos se tornaram hesitantes. Tinha sorte por não ter comido praticamente nada durante o dia, caso contrário provavelmente teria colocado tudo para fora naquele momento. Seu estômago estava completamente inquieto. Caminhava de mãos dadas com Lucy, dando-lhe mais motivação para parar em frente àquela porta e tocar a campainha.
Alguns segundos depois, a senhora abriu a porta. O encarou por alguns instantes, de cima a baixo, e então levou a mão à boca, petrificada. Os olhos arregalados aos poucos encheram-se de lágrimas. O tempo parecia não tê-la afetado demais. Seus cabelos, um pouco grisalhos, tinham o mesmo tom que os de Natsu e algumas poucas rugas marcavam seu rosto. Tinha quase a mesma altura que Lucy.
— Natsu... meu neto...
Mesmo após tantos anos sem vê-lo, não pediu permissão para abraçá-lo e o apertou em seus braços. O garoto retribuiu, um pouco sem jeito, tendo que inclinar-se alguns graus devido à diferença de altura.
— Oi, vovó.
A senhora se afastou, segurando o rosto de Natsu entre suas mãos.
— Faz tanto tempo. Você cresceu tanto, e ainda assim continua idêntico ao seu pai — comentou, sorrindo entre lágrimas. O rapaz estava confuso, sem entender o motivo de tanta alegria. Pensara que ela seria como sua tia.
— Muito tempo mesmo. Pensei que nem fosse me reconhecer — Natsu brincou.
— Poderiam se passar cinquenta anos e ainda assim eu iria me lembrar do seu rosto, meu querido — a avó comentou sorrindo, soltando-o e voltando-se para Lucy. — E essa adorável jovem, quem é?
A loira estendeu a mão hesitante. O frio que fazia deixava suas bochechas rosadas.
— Lucy Heartfilia. Namorada do seu neto. É um prazer conhecê-la, senhora Dragneel.
Os olhos da senhora brilharam em surpresa, retribuindo o cumprimento.
— Eu estou realmente ficando velha. Você já está até namorando. — Natsu sorriu timidamente. Pela sua idade, vinte e um anos, seria um fato comum, mas como sua avó não o via há dezessete, ele ainda era um garotinho à sua vista. — Vamos, entrem! Devem estar congelando aí fora.
A senhora os guiou até o cômodo mais quente da casa, a sala. O ambiente era pequeno, porém extremamente aconchegante. Havia dois confortáveis sofás paralelos um ao outro e entre eles uma mesa de centro sobre um tapete. Na parede oposta à porta, o fogo queimava em uma lareira acesa, que, apesar de livrá-los do frio, não ajudava em nada a diminuir a inquietação de Natsu.
Rosalinda Dragneel, como era chamada a avó de Natsu, pediu para que o casal se sentasse em um dos sofás e esperasse um momento. Quando voltou, trazia três xícaras e um bule cheio. Despejou um líquido verde, de aroma excelente, em cada uma delas e as entregou a Lucy e Natsu, sentando-se no sofá oposto.
A saudade não permitia a ela deixar que o garoto chegasse ao ponto de conversa que tanto desejava. Decidiu querer saber de todos os detalhes da vida de seu neto, recuperar o tempo perdido após dezessete anos em apenas uma noite. Natsu, ainda que sem entender, não a culpava. Gostaria sim de explicações sobre o motivo do sumiço da avó, mas não naquele momento. Àquela hora, seu objetivo era outro.
Rosa surpreendia-se com cada fato. Ouvia principalmente a Lucy, já que percebera que, tanto quanto seu filho, seu neto era um homem de poucas palavras. Quando a loira mencionou o fato de que ele trabalhava e estudava para pagar as contas, achou um fato absurdo. Até ofereceu-se para ajudá-lo financeiramente, porém, como bom cabeça dura, Natsu recusou. Não aceitava o dinheiro de sua namorada e também não aceitaria de sua avó. Logo então, a loira se juntou a uma calorosa discussão sobre como as duas concordavam no fato de que ele era teimoso.
Em certo ponto da conversa, finalmente ela tomou o rumo que o garoto tanto desejava. Sua avó tocou no assunto de sua infância, descrevendo como ele era quando bebê. Chegou a trazer um álbum de fotos, muito bem apreciado por Lucy.
— Você era tão fofo, Natsu! Olhe essas bochechas. Dá vontade de apertar! — a loira exclamou, exaltada.
— Nem tanto — reclamou, corado. Continuava sério demais desde que encontraram a senhora.
— É claro que era — a senhora interviu. — Sabe, eu provocava seu pai dizendo que você era um bebê ainda mais fofo do que ele fora. Igneel se fingia de irritado, dizendo que eu mimava demais você.
Natsu sorriu de canto. Viu naquele momento a oportunidade perfeita para perguntar o que queria.
— Ei, vovó. Eu queria saber um pouco mais sobre quando eu nasci. — comentou, endireitando-se no sofá.
— Claro. O que quer saber?
— Aconteceu algo de estranho no meu nascimento? Ou qualquer coisa diferente?
A senhora forçou sua memória, tentando lembrar-se dos mínimos detalhes para agradar ao neto que não via há tanto tempo. Já ele, prestava atenção em cada mudança na expressão de sua avó.
— Houve uma coisa sim — o coração de Natsu disparou, pronto para ouvir o que quer que fosse. — Não acredito que faça muita diferença para você saber, mas se está me perguntando. Quando você tinha apenas três meses de idade, ficou muito doente. Todos ficáramos desesperados. Por um bom tempo teve que permanecer internado no hospital. Coitado, eu sequer aguentava te ver tão abatido. Os médicos eram bastante pessimistas, diziam que as chances de melhora eram mínimas e que não devíamos ter muita esperança de que você sobreviveria. Contudo, aqui está você. Por um milagre conseguiu se recuperar e cresceu sem problema nenhum.
— Foi apenas isso? — o garoto perguntou, querendo ter certeza de que a senhora não esquecera nenhum fato. Não conseguia encontrar muita relação entre aquelas história e suas diferenças. Podia ser raro, mas não impossível que uma pessoa muito doente se recuperasse. Ele apenas parecia ter tido sorte.
— Que eu me lembre, sim. — Natsu relaxou no sofá, um pouco decepcionado. — Seu pai costumava manter um diário, se quiser saber mais sobre. Devo ter guardado na primeira gaveta no quarto em que ele costumava ficar.
— Ah, seria ótimo — disse, outra vez animado.
As horas a partir de então pareceram passar extremamente devagar. Queria muito subir ao quarto e dar uma olhada no tal diário, mas não conseguia uma brecha para sair sem ser percebido.
Aproximava-se das 21h, Lucy e Rosa desaperceberam-se da passagem do tempo, entrosadas em suas conversas. Ambos revelando o que sabiam sobre seu conhecido em comum. Após olhar para o relógio, Rosa exclamou:
— Já é tão tarde! Por favor, aceitem um convite meu para passar a noite aqui. Pela manhã podem pegar a estrada.
— É muita gentileza sua, senhora Dragneel. Aceitamos sim, não é, Natsu? — a loira o encarou com um olhar que praticamente o obrigava a concordar.
— Claro.
Rosa sorriu, muito animada com a estadia do neto. Levantou-se rapidamente.
— Bem, irei esquentar o jantar então. Não esperava visitas, entretanto ainda há bastante comida. Sei que está um pouco tarde, mas devem estar com fome após a viagem.
A loira sorriu, observando a senhora se afastar em direção a cozinha.
— Ei, vou dar uma olhada nesse tal diário, está bem? — Lucy assentiu. E com um selinho de “volto já”, Natsu também se afastou.
Permaneceu sentada por mais alguns minutos, contemplando os quadros na parede, observando-os, até que se cansou e optou por ir até a cozinha ajudar Rosa com a comida. Não custaria ajudar e causaria ainda uma boa impressão.
Quando entrou no cômodo, a senhora colocava os pratos na mesa. Lucy se ofereceu a fazer a tarefa e ela sorriu em agradecimento.
— Natsu é assim sempre tão sério? — Rosa perguntou.
— Ele costuma falar mais — Lucy respondeu, sem querer mentir.
— Parece estar chateado comigo — sua expressão tornou-se triste. — Consigo imaginar o motivo.
— Acho que ele sentiu falta de ter um parente por perto — a loira comentou, querendo ajudar Rosa. Sentia certo afeto pela Dragneel.
— Eu queria ter estado por perto. Quis muito, mas os pais dele me proibiram, não tive opção.
Intrigada, a loira perguntou o motivo:
— Por que? O que aconteceu?
— A mãe de Natsu. Não tenho dúvidas de que amava o filho e o marido, mas de forma alguma era uma boa pessoa. Aquela mulher envenenou a cabeça dos meus filhos contra mim. Sempre fui contra o relacionamento dos dois. Acho que a partir disso ela passou a me odiar. Fez de tudo para tirar os três de perto de mim, meus filhos e meu neto, até conseguir. Deixou até mesmo a guarda do filho para a nora, obrigando-o a mudar de cidade, e, bem, você sabe como isso não funcionou. Tentei procurá-lo, mas minha filha se recusava a me dar o endereço ou a me deixar falar com ele. Foi terrível. Pensei que ela já tivesse envenenado a mente do meu neto também, por isso desisti de procurar. Contudo, não se passou um dia em que não pensei nele. — A senhora sorriu, olhando distraidamente para uma foto em um porta retrato na parede. — E então vocês apareceram.
Lucy não sabia o que responder. Apenas pensava que tudo fazia sentido agora. A reação da senhora perante os dois, seu sumiço. Queria somente que Natsu pudesse ter conhecimento daquela história.
— Tente conversar com ele sobre isso — sugeriu.
— Não, é melhor deixar como está. A mãe dele podia ser quem fosse, mas continua sendo sua mãe. Quero que ele continue tendo boas recordações a respeito dela.
A loira sorriu em consideração.
— É uma atitude generosa.
— Obrigada, Lucy — a senhora voltou-se outra vez para a comida, desligando o fogo que aquecia a sopa. — Se quiser chamá-lo, está pronto.
Lucy acenou positivamente. Caminhou até as escadas, imaginando que o antigo quarto de Igneel deveria ficar no andar de cima. No fim do corredor, encontrou uma porta aberta e dentro do quarto estava Natsu, lendo o que parecia ser o tal diário. Um livro pequeno e velho, de capa marrom.
Sorrateiramente se aproximou, abraçando-o pelas costas quando estava perto o suficiente.
— Hey — o garoto a cumprimentou, fechando o livro e o colocando sobre a escrivaninha.
— O jantar está pronto — anunciou, encostando seus lábios no pescoço do garoto e se afastando em seguida.
— Ok. Já estou indo — Natsu respondeu.
— E Natsu?
— Hum?
— Tente ser um pouco mais compreensivo com sua avó — pediu. — Seja lá quais foram os motivos que a levaram a se afastar.
O garoto permaneceu em silêncio por alguns segundos, refletindo sobre a resposta. Era difícil para si, vendo-se como alguém que fora abandonado, atender aquele pedido. Mas, já que era Lucy quem o estava fazendo, concordou.
— Ok.
— Promete?
— Eu prometo que vou tentar, Lucy.
***
O jantar ao menos fora mais agradável do que o momento em que passaram enquanto estavam na sala. Natsu cumprira com o que havia dito, tentando ser mais amigável, e a comida estava excelente. Rosalinda era uma cozinheira de mão cheia. A típica “comida de vó”.
Após o jantar, o casal retornou ao quarto em que Igneel costumava dormir. Iriam passar a noite lá. Os lençóis haviam sido arrumados por Rosa. O colchão não era dos mais confortáveis, mas serviria por uma noite. Lucy descansava tranquilamente deitava sobre o peito de Natsu, sentindo enquanto a respiração dele fazia-o subir e descer ritmadamente. O garoto, porém, não conseguia desgrudar do diário que pertencera ao seu pai.
— Encontrou alguma coisa aí? — a loira perguntou.
— Uma coisa — respondeu, mostrando a ela uma página do antigo livro. — Olhe isso aqui:
“12 de abril de 1993
Após voltar do hospital, novamente destruído pelos lamentos dos médicos que diziam nada poder fazer para salvar meu filho exceto esperar e ver como ele reagiria, decidi esfriar a cabeça. Precisava de alguma distração, qualquer que fosse. Do contrário, acho que acabaria enlouquecendo. Era dor demais para ser aguentada. Confesso que não recorri ao melhor método que poderia existir, mas não conseguia pensar em qualquer outra coisa que pudesse ajudar.
Sentei-me em frente ao balcão e pedi ao garçom que me trouxesse um copo do que ele tinha de mais forte. O homem sorriu, como se provasse de sua capacidade de me surpreender, e despejou o líquido de uma garrafa em um copo.
Engoli o primeiro gole. Enchi o copo outra vez. Porém, antes que pudesse bebê-lo, um homem sentou-se ao meu lado e começou a puxar assunto. Não consigo descrever o poder que suas palavras exerceram sobre mim, mas em apenas poucos minutos de conversa já parecia que éramos amigos de infância que não se viam há muito tempo. Acabei contando-lhe sobre minha situação, e ele disse:
— Tenho a solução para o seu problema — do bolso ele tirou um pequeno frasco. Dentro dele, ocupava o espaço um líquido espesso e de um tom vermelho muito escuro. — Dê isso ao seu filho. Tem minha palavra de que ele irá se curar.
Receoso, peguei o frasco, vendo o líquido mover-se.
— Por que está me dando isso? Por que quer me ajudar? — perguntei. O estranho homem se levantou, bebendo um último gole da bebida que havia pedido antes de se virar.
— Gosto de pensar que meus atos me serão recompensados no futuro. E tenho certeza de que serão. Confie em mim, Igneel, e seu filho viverá. Eu nunca minto.
A experiência fora estranha, e a confiança que aquele homem impunha mais estranha ainda, mas no mesmo instante corri de volta ao hospital e, tomando todo o cuidado para que nenhum funcionário me visse, dei a bebida a Natsu. Espero não ter feito nenhuma besteira.”.
As páginas seguintes narraram a recuperação milagrosa do rapaz. Era sem dúvida alguma bastante estranho. Estranho o suficiente para ele pensar que era a informação que tanto procurava.
— Seu pai era maluco, Natsu. Aquilo poderia ter te matado.
— Acho que ele agiu de forma desesperada. O que de pior poderia acontecer? Eu já estava morrendo, de qualquer forma.
A ideia a assustava, pensar que aquilo poderia potencialmente tê-lo matado, portanto recusava-se a aceitá-la como boa.
— Ainda assim, continuo achando-o louco — a loira tirou o diário das mãos de Natsu e o colocou sobre o criado-mudo. — Vamos esquecer isso e tentar dormir, ok?
Ele tentou. Poderia jurar que realmente se esforçou. Mas, por mais que tentasse, as palavras gravadas naquele diário não saíam-lhe da cabeça. As peças de seu complexo quebra-cabeça pareciam ter-lhe sido entregues. Apenas não sabia como montá-las, entretanto, iria descobrir, custasse o que fosse.
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