Once upon a December
14 All was well
Notas iniciais
Voltamos a casa do Bill, na esperança de que a operação falcão fosse finalmente concluída.
—Achas que desta vez vais conseguir apagar as fotos?! – perguntou o Jared expectante.
—Sim! Esta é a fonte dos ficheiros, é só descobrir a passe e… — explicava ele já digitando no teclado.
—Tenta “Jared” – disse a Lana convicta.
O Bill assim fez, e ela não podia estar mais certa! Enquanto o amigo tratava de apagar as fotografias, o Jared continuava com uma expressão nervosa, como se estivesse à espera que a Olivia entrasse por aquele quarto adentro, nos tirasse o telemóvel e divulgasse as fotos. Eu acariciei-lhe os ombros para o tranquilizar, e ele rapidamente me ofereceu um sorriso carinhoso. Tentei aliviar o ambiente…
—Nunca pensei que a Snow White fosse capaz de um plano tão pouco ortodoxo…
—A ideia foi toda da nossa Evil queen – respondeu a Ginny, oferecendo um sorriso vanglorioso à amiga – Digam lá, fazemos ou não uma boa dupla? Até podíamos abrir uma agência: Snow Queen & companhia!
—Estás mas é maluca! Ainda nos começam a shippar…
Todos nos partimos a rir e ainda ficamos mais felizes com a notícia do Bill!
—Minha gente, está feito! Todas as fotos desapareceram oficialmente do sistema eletrónico.
O Jared respirou de alívio e abraçou o amigo, tão fortemente que a sua face morena começou a ficar rosada. Eu deixei-os viver o momento!
—Ei, o que é que acham de um pequeno vírus no dispositivo – sugeriu a Ginny com um sorriso matreiro.
—Princesa Snow White… — disse a Lana, fingindo uma voz séria e reprovadora.
Mais uma vez as gargalhadas sobrepuseram-se aos tristes momentos pelos quais tínhamos passado durante tantos dias. A pedido do Jared eu fiquei incumbida de devolver o telemóvel à Olivia, algo que não me importaria nada de fazer, pois estava desejosa de ver a sua cara enraivecida… Não me tomem por má pessoa, mas ela merece!
Nessa noite eu e o meu namorado dormimos muito mais descansados… bom, não dormimos no sentido próprio da palavra, mas vocês perceberam!
No dia seguinte entrei com o Jared no estúdio e, depois de lhe dar um grande beijo nos lábios e cumprimentar as pessoas, que me devolveram o gesto com abraços calorosos, dirigi-me ao camarim da Olivia e da Emilie. Elas estavam lá as duas, e eu pude saborear a contenção que a Olivia foi obrigada a ter devido à presença da outra mulher.
—Está tudo bem Emilie? – perguntei alegremente, no intuito de provocar a minha inimiga.
—Anastasia! Que bom ver-te! Está tudo ótimo, e contigo?
—Também! Vais gravar agora?
—Sim, aliás estava mesmo de saída… Até logo meninas! – despediu-se ela depois de me abraçar e de fazer uma leve carícia no rosto zangado da Olivia.
Pela primeira vez desde a última noite o meu olhar cruzou-se predominantemente com o da Olivia, e continuava a ser de puro ódio, mas o meu misturava-se com vitória.
—Quero o meu telemóvel sua ladra!
—Aqui tens! – ofereci eu, fazendo-me de sonsa, numa imitação sua perfeita (não que eu me queira gabar) – Pode ter uns ficheiros ou outros a menos!
—Sua cabra! – ela disse isto tão alto que eu desconfio que, para além de eu ter ficado meia surda, o estúdio todo ouviu.
—Espero que tenhas percebido que não adianta o que tentes fazer contra mim ou contra o Jared…
—Em breve tu vais embora, e eu não estou disposta a desistir dele! Eu vou recuperá-lo de uma maneira ou de outra – antes de lhe responder olhei de relance para a porta, e apercebi-me que estavam lá algumas pessoas: 2 dos produtores, o Jared (que tinha um olhar orgulhoso) o Josh, a Lana, o Collin, a Jennifer, a Ginny e a Rebecca! Os que não sabiam da história pareciam algo perturbados. Não queria humilhar a Olivia em frente a metade do elenco, mas aproveitei para lhe dar uma lição…
—Tu não percebes mesmo! A vossa relação nunca mais vai ser a mesma, e eu duvido seriamente que ele queira voltar a ser teu amigo… — perante isto seguiram-se alguns olhares confusos e um aceno positivo por parte do Jared – Chantagem, mentiras, vingança… isso nunca te vai levar a lado nenhum. Só te vais prejudicar a ti própria e escurecer o teu coração.
—EU ODEIO-TE! – gritou ela, empurrando-me com força contra a mesa, fazendo com que as minhas costas partissem o espelho das luzes.
—CHEGA! – determinou o Jared ainda mais alto e todos partiram em minha defesa.
—Vocês estavam todos aí… — constatou a Olivia lívida.
—Tu estás completamente maluca! – acusou o Collin.
—Isso não se faz Olivia! – disse um dos produtores altivo – Podes tirar o resto do dia, hoje não gravas mais. E amanhã logo se vê!
—Mas…
—Sem mas! Sai daqui!
Ela saiu, de rosto lavado em lágrimas e murmurando insultos e queixas entre dentes. Todos me perguntavam se eu estava bem. À exceção de pequenos cortes na mão e uma leve dor de costas estava ótima. Todos estavam muito curiosos sobre o que ali se tinha passado, mas a Lana fez o favor de transformar um pouco a história real, convencendo-se de que não estava a mentir e sim a omitir algumas partes, para que o Jared não se sentisse tão envergonhado perante os produtores e o restante elenco. Mais cedo ou mais tarde, as coisas iriam retomar a sua normalidade e aquele “pequeno” arrufo iria ser esquecido.
Passaram alguns dias, que se transformaram nos melhores da minha vida! Entre cinema, comidas nova iorquinas, parques, passeios de mota, noites mal dormidas (mas por bons motivos), anjos de neve e maratonas de séries antigas, o tempo passou mais depressa do que devia, e a nossa ultimas noite tinha chegado…
—Mas afinal, o que é que vai acontecer à Olivia? – questionei-lhe eu, assim, que entramos no quentinho do nosso lar.
—Oficialmente nada… a suspensão dela termina amanhã, e depois as gravações voltam à rotina. Mas eu duvido sinceramente que o ambiente entre ela e os atores volte a ser o mesmo.
—Tens razão… já é castigo suficiente ser olhada de lado por todos – disse eu, revendo-me na situação dela, aquando a minha infância.
Ele grunhiu, e eu lancei-lhe um sorriso, fazendo-o perceber que a razão estava do meu lado.
—Pronto, talvez tenhas razão – admitiu ele – Agora podemos esquecer a Olivia de uma vez por todas? – perguntou ele agarrando-me pela cintura, e sentando-me na mesa da sala, enquanto me beijava o pescoço.
—Já esqueci!
A excitação dele era contagiante. Tirei-lhe a camisola, deixando à mostra os seus formosos abdominais. Beijei-os, um por um, até que lhe pedi a boca, num desejo urgente. Connosco era tudo sempre tão arrebatador, tão bom, tão autêntico e ávido. No seu colo fui levada até ao sofá (o meu sítio favorito para o ato) e rapidamente os nossos corpos entraram num choque de titãs. Era a nossa última noite… e provavelmente seria mesmo a última, com grande pena nossa. O amor supera tudo, exceto distâncias. Ambos sabíamos que seria completamente impossível manter um relacionamento comigo em Londres, portanto, faríamos o possível para que as memórias daquelas “férias” se tornassem inesquecíveis. E aquela noite iria ser certamente uma dessas memórias!
Ele desabotoou-me o zipper das calças e acariciou a zona em torno da minha intimidade, deixando-me ainda mais excitada e quente. Puxei-o para um grande beijo, que só foi separado pela força da necessidade de oxigénio. Eu queria mais, eu precisava de mais. O resto das nossas vestes foram despidas num segundo. Os meus cabelos ruivos eram tocados e remexidos constantemente, notando-se o seu fetiche por eles (algo que me agradava). Eu encaixei o meu corpo no dele e comecei a movimentar-me suavemente. Conduzi as suas mãos até aos meus seios, com que ele brincou satisfeito. O seu cheiro era impossível de ignorar. Eu dividi o tempo que passei no seu pescoço entre beijos e lambidas. Os cabelos escuros escondiam uma essência nova, diferente de tudo o que eu já tinha experimentado. A vontade de lhes tocar parecia incessante. Quanto mais tempo passava a explorar o seu corpo mais livre me sentia. Tinha a estranha sensação de ter alguém completamente desconhecido à minha frente, mesmo que já tivesse feito amor com ele várias vezes.
POV. Jared
Nunca gostei de sexo rápido. Para mim não fazia sentido estar com alguém por estar, tinha de haver um sentimento que me conduzisse através das curvas dela. Se me pedissem para descrever como a Anastasia era, provavelmente resultaria nalgumas dezenas de páginas! Cada olhar, cada toque, cada sensação… parecia tudo diferente, como se fosse a primeira vez. Mas não era, e eu já conhecia a maneira de estar dela. E, embora eu não tivesse experienciado com muitas mulheres, a Anastasia seria certamente uma das melhores raparigas, não só na cama como na maneira de ser. Ela sabia como me fazer sentir bem e onde me fazer sentir vivo e feliz.
Aquela noite foi perfeita, o auge! Tudo tão bom, tão gostoso, confortável, aconchegante… E a melhor parte foi poder tê-la nos meus braços durante o resto da noite, mesmo sabendo que seria a última vez.
POV. Anastasia
Como sempre, antes de ir para o aeroporto corria de um lado para o outro para organizar os pormenores de última hora. Aquele nervoso miudinho por ir voar já se instalava no meu peito. Não era medo, simplesmente receio. Às 8:35 da manhã (quando faltavam exatamente 3 horas para o meu voo) fui presenteada com um pequeno-almoço nova iorquino feito pelo meu chefe preferido: algumas torradas com doce de morango, bolachas caseiras e um grande bolo de chocolate com um aspeto que me pôs babada só de olhar. Ah, e coca-cola claro. Não era hábito meu beber refrigerantes ao pequeno-almoço, mas aquela era uma ocasião especial. Comemos calmamente, afinal ainda tínhamos tempo. Os nossos sorrisos entre a conversa fiada eram contagiantes… era impressionante como tínhamos sempre algo para falar, eu iria sentir falta da sua vivacidade.
—A duquesa concede-me uma última dança?
—Mas com certeza príncipe Henry – respondi eu, feliz por ir voltar ao meu conto de fadas, nem que fosse durante uns minutinhos.
Ele tirou a caixinha de musica que me tinha oferecido da mala e abriu-a. De lá saiu a doce melodia que sempre me fazia sonhar, lembrar, olhar em volta e desejar ser feliz.
As suas mãos envolveram-me; uma na cintura e outra agarrou na minha mão (mesmo já de luvas ainda conseguia sentir a fervura do seu toque); eu segurei-lhe o ombro. E como que por magia, tudo à nossa volta desapareceu por completo, como da primeira vez. Ele conduzia-me ágil e alegre entre os móveis da sala, os meus pés como que elevados no ar, sempre à espera de se despedaçarem no chão. E no entanto, apesar dessa triste expectativa, eram os braços dele que me mantinham segura e presa ao imaginário. Eu dancei como nunca tinha dançado na minha vida, como se aquilo dependesse da minha existência. Naquele momento, aquela dança, aquelas notas, aquele tom, o ritmo, a letra na minha cabeça eram o meu oxigénio, do qual eu não estava disposta a abdicar.
E quando finalmente caí na realidade foi como se os kilos de responsabilidade que sempre que foram confiados voltassem. Enfim… a vida é cheia delas, e de escolhas difíceis que devem ser tomadas. A de me ir embora era uma obrigação, eu nunca teria feito aquela escolha!
Eu aproveitei ao máximo a última viagem na scooter vermelha, e saboreei prazerosamente última lata de coca-cola que ele me ofereceu. Mal entrei no aeroporto fui cumprimentada com três grandes sorrisos genuínos: Lana, Ginny e Bill!
—Espero que tenhas uma boa viagem querida! – desejou a Ginny, envolvendo-me nos seus calorosos braços.
—Vou ter, e espero vir visitar-vos em breve…
—Aconselho-te vivamente a entrares para o teatro miúda, à segunda pode ser de vez – sugeriu a Lana após outro grande abraço e um grande beijo, marcando a minha bochecha de batom vermelho – ah, e tens aqui uma memória nossa.
Eu agradeci-lhe e abri o embrulho retangular. Era uma foto minha com todo o elenco!
—Adorei! Muito obrigada meninas!
Depois virei-me para o Bill. Tomei a iniciativa de o abraçar e de lhe agradecer, do fundo do meu coração, por tudo o que ele tinha feito por nós.
—Sem problema, cuida-te miúda…
Eu aproximei os meus lábios do seu ouvido e sussurrei:
—Toma conda dele, sim?
—Claro, sempre… — disse ele ainda mais baixinho.
Depois de quebrar o contacto físico encarei-o, encarei o rapaz que transformou o que era suposto ser uns dias de trabalho numa autêntica montanha russa, e tudo o que me ocorreu naquele momento foi cobrir os seus lábios com um beijo ardente e envolver o seu corpo nos meus braços uma última vez.
—Amo-te tanto!
—E eu a ti Anastasia… não fazes ideia o quanto…
—Acho que faço – completei eu com um sorriso nostálgico.
Seguiu-se um abraço de grupo e algumas lágrimas (como não poderia deixar de ser).
—Eu volto, um dia!
Olhei-os uma última vez e afastei-me, a mala puxada por mim (agora um pouco mais pesada, com recordações e saudades) rodava continuamente pelo chão do aeroporto. Passei por muitos corredores, a cada um tinha mais vontade de voltar para trás, mas não podia. Entrei no avião e sentei-me num assento junto à janela. O transporte ia abandonando o terminal velozmente, até que o meu corpo deixou de estar em território nova iorquino para passar a voar nas nuvens. Deixei correr algumas lágrimas contidas e coloquei os fones, para ouvir “Once upon a December”.
—Deseja alguma coisa menina? – perguntou a assistente de bordo com um sorriso treinado.
—Sim… — não precisei de pensar muito – Uma coca-cola, fresca por favor!
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