Once Upon a Time

7 Que a verdade seja dita


A decisão foi unanime , não iriamos chamar a policia, afinal não teríamos como explicar cinco adolescentes bêbados em um carro em baixo da água, com as quatro portas arrancadas e com o para brisa trincado.

Voltamos para casa caminhando, Harry iria dar um jeito no seguro do carro na manhã seguinte.

Deitei na cama e coloquei minha cabeça no travesseiro. Deixei que o silencio colocasse as coisas no lugar onde deveriam estar.

Um barulho na sacada me chamou a atenção, fui ver o que era. Dei um pulo ao ver Justin do lado de fora. Abri o vidro que nos separava.

- O que faz aqui? – perguntei baixo esperando que Harry já tivesse dormindo.

- Vim mostrar algumas coisas para você. – ele falou.

- Tipo? – me escorei no vidro.

- Tipo vem comigo que eu te mostro. – ele estendeu a mão para mim.

- Não vou ir.

- Então vou passar a noite toda aqui, te olhando. – ele se escorou na grade da sacada.

- Onde vamos? – perguntei, mas ele não respondeu apenas esticou a mão para mim. Fiquei um pouco em dúvida, mas depois uma voz irresponsável dentro de mim gritou “que se dane!”. Peguei sua mão e um sorriso brilhou em seus lábios. Justin se virou e colocou o pé em cima da grade.

- O que vai fazer? — falei puxando ele.

- Lembra do que eu te falei mais cedo? – ele perguntou olhando dentro dos meus olhos. – Podemos fazer isso.

- Não, não podemos. –

- Olha – ele largou minha mão e pulou da sacada caindo com toda a elegância e silencio possível.

- Não vou fazer isso. – voltei para dentro do quarto e fechei a janela. Desci as escadas e abri a porta. Justin me esperava com as mãos nos bolsos.

- Como quiser. – ele deu de ombros enquanto eu caminhava até ele. Peguei sua mão e saímos caminhando pela rua.

Chegamos em um lugar no meio de uma floresta, estávamos em uma clareira. Justin parou no meio da clareira e olhou para mim, fui até ele. Nossas mãos se entrelaçaram, se encaixando perfeitamente.

- Escuta? – ele perguntou olhando dentro dos meus olhos.

- O que? – perguntei um pouco confusa.

- Feche os olhos. – fiz o que ele mandou. – concentre-se em encontrar o som. – e assim foi como eu escutei o coração daquele cervo, o barulho da coruja e o som que o esquilo fazia enquanto comia uma de suas nozes. – O que escuta?

- Muitas coisas. – falei impressionada com tudo aquilo. Abri os olhos e ele estava sorrindo para mim, acho que havia conseguido fazer o que ele esperava.

- Já acredita no que eu te disse mais cedo ou precisa de mais? – ele perguntou.

- Estou começando a me convencer, mas não tenho tanta certeza assim.

- Certo, olhe isso. – ele largou minhas mãos e caminhou para longe de mim. Justin endireitou os ombros e cerrou os punhos ao lado de seu corpo, seu rosto se ergueu e a luz da lua o iluminou. Então o som alto veio, era como se estivessem rasgando um enorme livro ao meio, seguido de uma rajada de vento. Quando consegui finalmente olhar para frente vi duas coisas atrás de Justin, elas eram enormes, o dobro de seu corpo. Me aproximei mais, as enormes asas eram totalmente pretas e pareciam ser pesadas, elas estavam esticadas para trás, como se quisessem se exibir.

- Isso... isso... – tentei falar mas tudo travava em minha garganta.

- São asas. – Justin falou rindo. Só agora percebi que seu rosto estava emoldurado por uma tatuagem que cobria quase todo ele, como uma mascara negra. Os traços eram como raios que se entrelaçavam em perfeita harmonia.

- Como? – meus olhos se perdiam entre as asas e a tatuagem. – Você é um anjo?

- Não exatamente. – ele franziu a testa.

- Então o que? – eu estava me entusiasmando.

– Não importa o que eu seja, não precisa ter medo de mim. – ele tentou me tocar.

- Justin, você esta me assustando. – dei três passos para trás.

- Eu sou... um demônio. – ele falou de cabeça baixa. – Não foi uma escolha minha, quando caímos meu irmão escolheu a luz e o que me restou foi a escuridão.

- Não estou entendendo. – parei confusa.

- É uma longa história e não quero que se chateie com isso agora, quero que descubra seus poderes primeiro. – ele falou.

- Como posso fazer isso? Não sou assim. – falei olhando as asas.

- Lembra do acidente de seus pais? – ele perguntou. Assenti. – Você morreu dentro daquele carro.

- Não morri, estou aqui, você esta me vendo!

- Quando eu mergulhei seu pai fez sinal para que eu a salva-se, mas quando peguei você eu percebi que seu coração já havia parado, então pensei em te trazer de volta como algo diferente. – ele falou.

- O que eu sou? – perguntei assustada.

- Primeiro tirei você da água e a coloquei na beira do lago... – ele tentava continuar.

- Justin o que eu sou? – minha voz estava começando a ficar tremula.

- Então dei um pouco de sangue em sua boca... – ele insistia em continuar.

- O que eu sou?

- Então fiz você voltar usando meus poderes... – ele continuou.

- O que eu sou Justin?! – dessa vez eu gritei.

- Você é igual a mim agora. – ele falou. – Aqueles que voltam dos mortos se tornam demônios.

- Não... isso... não...é mentira! – falei tremendo, minha voz estava desestabilizada por conta das lágrimas que se aproximavam.

- Quando você desmaiava era porque seu novo ser queria se libertar, por isso pode ter visões, ler mentes, por isso bebe sangue. – ele falou.

- Você é um monstro. – virei as costas e comecei a caminhar de volta, mas em uma batida das asas ele estava em minha frente.

- Jay não precisamos ser essas criaturas horrorosas que todos veem, apenas precisamos treinar seu lado escuro, assim como eu fiz com o meu. – ele falou. – Posso ajudar você.

- Eu não quero!

- Se você não fizer isso ele vai se libertar e tomar conta de você, aos poucos isso já esta acontecendo. – Justin falou.

- Eu quero que você suma! – falei passando por ele e voltando pelo caminho em que viemos. Senti algo dentro de mim pesar, como uma culpa por não estar acreditando em tudo que ele estava falando. Segui em frente, minhas pernas teimavam em não se mexer corretamente.

“Eu te amo. Se cuida.” A voz de Justin soou dentro de minha cabeça como se ele estivesse ao meu lado, olhei em roda e nada. Eu estava sozinha no meio de árvores e mais árvores, senti meu coração começar a doer, não era como as outras vezes, era mais forte. Minha cabeça começou a girar e minha visão a embaçar, eu não sentia mais meu corpo.