Once Upon a Time
5 Girando
JAY
Minha cabeça doía muito quando acordei, parece que eu levei o porre do século! A luz do sol não batia na janela, tudo que havia ao meu redor era escuridão e um pequeno feixe de luz vindo do enorme poste que ficava em frente a minha janela. Uma brisa soprou pela janela, fazendo minhas cortinas se mexerem. Por um momento pensei ter visto alguém na grade da sacada. Levantei e caminhei até lá, a sacada estava vazia, mas o que me chamou atenção foi uma silhueta parada do lado de uma árvore na calçada. Parecia ser um homem, um pouco mais alto do que eu. Suas roupas eram escuras, ele mantinha as mãos dentro dos bolsos da calça e seu rosto virado para minha sacada, como se pudesse ver lá dentro.
Dei alguns passos para trás e olhei o relógio da cabeceira da minha cama. Ele marcava 4:30, olhei mais uma vez para fora e o homem continuava ali, olhando para mim, por um momento um sorriso pareceu cintilar em seu rosto. Ele tirou a mão de dentro do bolso com algo nas mãos.
Uma sensação estranha saiu de dentro de mim, algo como se tivessem aberto portões para cinquenta leões saírem correndo, com muita fome e raiva. As escadas passaram como borrões pelos meus pés, quando me dei por conta já estava na porta. O homem me olhou do outro lado da rua, meu corpo estava todo tenso e eu estava em posição de ataque como um tigre. Um rosnado saiu entre meus dentes alto e forte. O homem assumiu a mesma posição que a minha, mas ao invés de atacar ou algo assim, ele simplesmente se transformou em um borrão e sumiu na noite fria.
- Jay? O que você está fazendo? – ouvi a voz de Harry atrás de mim, ela estava rouca e cansada. Senti seu coração batendo, seu sangue circulando por suas veias, vi sua aura ao redor de seu corpo, tudo estava diferente. Minha visão estava nítida demais, eu sentia o cheiro de tudo. A única vontade que eu tinha era de cravar os dentes no pescoço de Harry e beber seu sangue.
“Você não deve fazer isso, é estupido matar seu próprio irmão!” Uma voz masculina soou em minha cabeça como um estalo me fazendo voltar para a realidade e perceber o que estava acontecendo. Harry era meu irmão, minha única família, não posso fazer isso! Me endireitei e olhei dentro de seus olhos.
- Hmmm... pensei ter ouvido alguém bater na porta, acho que foi apenas algumas crianças. – fechei a porta e subi as escadas tentando evitar mais perguntas. Fechei a porta do meu quarto e deitei na cama, não consegui dormir o resto da noite.
Levantei mais cedo, tomei meu banho e parei na frente do roupeiro olhando aquelas roupas. De um lado o estilo acabada, moletons largos e tudo mal cuidado. Do outro saias, blusas, maquiagem. Nunca me imaginei dividida entre quem eu sou e quem eu queria que as pessoas pensassem que eu sou.
Quero que as pessoas não pensem em mim, não me vejam, que eu seja neutra e invisível. Mas o meu estilo é saias, blusas, tudo que faz as pessoas me enxergarem, que chama a atenção de todos.
Respirei fundo e peguei uma calça jeans justa, uma camiseta meia degotada e sentei na penteadeira para fazer a maquiagem. Arrumei meus cabelos que caiam em perfeitos cachos dourados sobre meus ombros. Peguei meu casaco atrás da porta e minha mochila.
Harry já estava tomando seu café sentado na mesa, peguei uma tigela e meu cereal e me sentei ao seu lado. Ele me olhou por um momento e depois desviou os olhos quando percebeu que aquilo me deixou desajeitada.
- O que foi? – perguntei enquanto comia o cereal. Harry não falou nada por um momento, apenas terminou seu café e depois se jogou para trás na cadeira. Parei de comer e encarei ele, isso era exatamente o que fazíamos quando éramos crianças.
- É que agora eu vejo minha irmã. – ele sorriu olhando dentro dos meus olhos, aquilo realmente era verdade, vi o brilho que tinha em seus olhos ao falar aquilo. – Não que antes não fosse, é que... – ele parou pensando um pouco.
- Continue. – falei incentivando ele.
- É como se minha irmã tivesse adormecido depois do acidente e até agora só o corpo dela esteve caminhando por aí.
- Eu te amo sabia, mesmo você falando essas coisas eu te amo. – falei rindo e voltando a comer meu cereal.
- Eu sei. – ele sorriu. – Carona pra escola?
- Só espera eu escovar os dentes. – levantei e joguei as coisas na pia.
A escola estava tumultuada como sempre. Descemos do carro e fomos para perto de Nathy e Liam que estavam sentados no mesmo banco de sempre. Todos conversavam e riam alto, mas eu não conseguia manter o foco em nada que acontecia, por mais que eu tentasse. Senti minha cabeça girar e tudo começou a ficar embaralhado.
Eu estava no meio de uma rua, não era qualquer rua, era a rua que levava até a ponte onde o carro dos meus pais caiu, a ponte que acabou com tudo. Eu estava vendo tudo do alto, como se pudesse voar. Antes de chegar a ponte meu corpo parou olhou para a ponte e respirou fundo depois simplesmente deitou no meio da rua. Pouco tempo se passou e uma luz começou a se aproximar, um carro. Eu queria gritar para que ela se levantasse e saísse do meio da rua ou iria morrer, mas nada adiantava. O carro se aproximou mais e mais, a poucos metros ele começou a frear, o barulho foi ensurdecedor. Eu iria morrer.
O sinal da escola me despertou daquele visão horrível. Minha cabeça ainda estava meio confusa, isso acontecia quando algo cortava uma visão ao meio. Peguei meus livros em cima do banco e caminhei para dentro da escola. Nathy tagarelava ao meu lado enquanto caminhávamos para a sala. Tudo acontecia normalmente ao meu redor, mas era como se eu não estivesse realmente ali, eu não conseguia focar em algo até que...
- Cuidado! – a voz de Nathy soou tão alto que finalmente algo fez sentido, tarde demais, mas fez sentido.
Quando me dei por conta eu já estava no chão, em cima de um garoto loiro, de olhos castanhos e lindo, extremamente lindo. Não tinha como não olhar para seu sorriso, já que eu estava em cima dele, o sorriso era... lindo.
- Ai meu Deus! Me desculpa! – falei saindo de cima dele. O garoto ria enquanto me ajudava a levantar.
- Não foi nada, adoro recepções marcantes. – ele falou rindo enquanto se abaixava para pegar os meus livros e me entregar.
- Você é novo? – perguntei sentindo minhas bochechas corarem e todo o meu corpo começar a tremer de nervosismo e vergonha.
- Sou, acabei de fazer minha matricula. – ele falou apontando para a secretaria por cima do ombro. – Sou Justin.
- Já. – sorri de volta e depois murmurei. – que vergonha.
- Não precisa ficar com vergonha, foi engraçado ter você em cima de mim. – ele falou passando a mão de leve em meu ombro. Meu corpo perdeu os sentidos com aquilo e tudo ao redor parou.
- Mesmo assim eu sinto muito. – falei me desculpando mais uma vez.
- E mais uma vez não foi nada. – ele falou sorrindo.
- Tudo bem então, acho melhor irmos para a sala, Jay? – Nathy falou ao meu lado. Eu havia esquecido completamente da existência dela.
- Ah sim, claro. – fechei os olhos por um momento para tomar consciência de tudo outra vez. – nos vemos por aí Justin.
- Claro. – ele falou.
Passei todos os períodos tentando prestar atenção na aula, mas nada ajudava. Eu continuava viajando como sempre. Eu tinha que fazer alguma coisa, o teste para lideres de torcida era no recreio e eu não tinha pensado em nada.
- Como foi lá no teste? – Nathy perguntou enquanto caminhávamos para o estacionamento encontrar Harry e Liam.
- Eu passei, mas ainda não voltei ao meu lugar que como eu previa está sendo ocupado por Perrie. – falei dando de ombros. Não queria falar muito naquele assunto, me lembrava tudo que havia acontecido ano passado e não era muito satisfatório.
- Tudo bem, tenho certeza de que vai tirar ela de lá fácil. – Nathy falou tentando me entusiasmar, o que não deu muito certo.
Assim que chegamos perto dos meninos me surpreendi um pouco ao ver Justin com eles. Os três conversavam como velhos amigos. Nathy me deu tchau antes que pudéssemos ter algum contato com os meninos, ela falou alguma coisa de estar brava com Harry ou coisa parecida.
- Oi. – falei me aproximando deles e parando entre Liam e Harry. Todos me olharam por um momento.
- Oi maninha, conhece o Justin? – Harry falou nos apresentando.
- Ah sim, de um jeito estranho, mas nos conhecemos mais cedo. – falei tentando não lembrar da situação nada agradável que aconteceu mais cedo.
- Ele acabou de entrar para o time de futebol e vai me ajudar muito. – Harry falou dando um leve empurrão de brincadeira em Justin.
- Ou vou tentar. – Justin falou sorrindo. Nossa ele era realmente lindo.
- Vamos? – falei olhando para Harry.
- Sim, até amanha Justin. – Harry falou.
- Até. – Justin sorriu.
- Tchau meninos. – falei entrando no carro.
As coisas não pareciam melhorar em nada, a falta de Zayn só fazia tudo piorar. A noite parecia longa demais quando eu não conseguia pregar os olhos uma só vez. Peguei o celular em cima da cômoda e disquei o número dele. Chamou, chamou até cair na caixa de mensagem.
- Oi Zayn, sou eu. Sei que provavelmente não vai me responder ou já tenha até jogado esse número fora, mas eu preciso manter contato com você, nem que seja com essas mensagens estupidas. Bom, eu sinto a sua falta e também... deixa pra lá, só me ligue qualquer hora. Beijos.
Aquilo foi como tirar uma pedra de cima dos meus ombros. Mesmo ele não atendendo eu senti como se ele pudesse me ouvir e talvez ouviria algum dia. Virei para o lado e olhei para a janela, as cortinas se mexeram e mais uma vez tive a impressão de ver alguém ali na grade. Corri rapidamente, mas não vi nada. Olhei na direção onde o homem estava ontem e também não havia nada ali. Voltei para minha cama determinada a dormir e assim foi.
- Nossa, parece que você não dorme a dias! – Nathy falou assim que me viu chegar na escola. Não dei muita bola para o que ela falava e sentei ao seu lado no banco. Justin, novo amigo de Harry veio até nós e nos cumprimentou com um beijo no rosto.
Minha cabeça girava, não como quando anuncia uma visão, mas de um jeito que nunca ficou antes. Minhas pálpebras estavam pesadas e eu poderia dormir a qualquer momento, olhei para o mundo ao meu redor. Não parecia fazer menor sentido, porque eu estava ali? Porque eu continuava vindo para a escola se essa não era minha vontade?
Peguei minha mochila e sai caminhando pelo campus, pude ouvir todos me chamando, mas ignorei e continuei. Para onde eu ia? Não faço ideia, apenas desliguei minha mente e deixei que meu coração e meu corpo me levassem até onde eles queriam estar neste momento.
Saí da escola e caminhei por mais algumas quadras, passei pela praça, pelo parque, pela rua da minha casa e fui até a saída da cidade onde ficava o cemitério. Passei por muitos túmulos até chegar a dois túmulos novos, suas lápides ainda brilhava pelo pouco tempo que estavam ali.
“Anne Styles e Robert Styles, os melhores pais do mundo.” Os meus pais. Ver aquilo era relembrar de tudo que aconteceu, tudo que eu fujo a algum tempo.
Eu lembro de estar na festa que Liam estava dando, não sei o porque, mas eu fui na maldita festa, mesmo Harry dito que era para mim ficar com ele e assistir alguns filmes com nossos pais eu fui teimosa o suficiente para ir sozinha. Na festa, acabei brigando com Liam, meus pais foram me buscar.
Estava tocando Jessie J no rádio, estávamos todos falando sobre a festa surpresa que faríamos para Harry no aniversário dele daqui a duas semanas. Meu celular vibrava com as mensagens de Nathy, as árvores passavam rapidamente pela janela. Eu sabia naquele momento que algo horrível iria acontecer, mas eu não podia fazer nada além de esperar. Quando olhei para frente havia algo parado ali no meio, não consegui reconhecer o que era. Aconteceu muito rápido, o barulho dos pneus cantando, o choque do carro contra a barreira de proteção da ponte e depois a água.
De alguma forma eu perdi minha consciência e quando eu acordei a água já estava na minha cintura, tentei abrir o cinto, mas nada adiantava, lá na frente meu pai tentava quebrar o vidro, mas também era inútil.
- Pai? Pai? – minha voz soava manhosa e chorona. Meu pai virou para mim, por um momento eu vi seus olhos tristes, mas depois ele sorriu.
- Vai ficar tudo bem, querida. — ele falou e depois se virou para frente e continuou a tentar quebrar o vidro. A água subia rápido, em pouco tempo eu tinha que erguer a cabeça para respirar e logo depois eu estava em baixo da água.
Vi o rosto de meu pai se virar mais uma vez para mim. Ele fez sinal negativo com a cabeça e depois pegou minha mão entre as suas. Entendi o que ele queria dizer, seria impossível tentar fugir daquele lugar, acabaria tudo ali e agora.
Assenti para ele mostrando que eu entendia e aceitava aquilo, mexi minha boca em um silencioso “Eu te amo” e depois senti minhas forças sumirem, minha mão deslizou das dele e eu apaguei.
Os médicos disseram que não tem como explicar o fato de eu ter saído de dentro daquele carro. Eu simplesmente sai do carro e apareci ao lado da ponte. Foram meses de investigações e para nos dizerem que o que aconteceu não tinha explicação.
- Espero que estejam bem. – falei passando a mão em suas lápides esperando que de alguma maneira eles estivessem me ouvindo. – As coisas andam complicadas, queria ter vocês aqui comigo, seria tão mais fácil. Eu amo vocês.
Olhei no relógio e já marcava onze horas, como eu pude passar tanto tempo aqui sentada? Mas não seria agora que eu iria embora, comecei a lembrar de todos os nossos momentos juntos de tudo que tínhamos traçado para mais a frente, todos os sonhos, todos os planos destruídos.
- Jay? – ouvi uma voz vinda de longe. Olhei ao redor e não encontrei ninguém, como se eu tivesse imaginado aquela voz familiar. – Jay? – ela se repetiu.
Por entre duas árvores uma silhueta apareceu. Conforme foi se aproximando eu pude reconhece-la. Justin veio rápido para perto de mim e sentou ao meu lado. Ele não falou nada até eu olhar para ele.
- Tudo bem? – ele perguntou olhando dentro dos meus olhos. Ouvir a voz de alguém perguntando aquilo era como abrir as portas para um mar de lágrimas, me joguei em seu peito e caí em lágrimas. Ele não falou nada, apenas me abraçou.
Depois de um tempo as lágrimas começaram a cessar, me afastei dele e respirei fundo. Olhei para a lápide de meus pais e depois me virei para Justin.
- Eles estão atrás de mim? – perguntei lembrando de todos que deixei para trás essa manha, Justin ficou em silencio por um tempo.
- Como loucos. – ele falou baixo.
- Então acho que é hora de irmos. – falei pegando minha mochila e levantando.
Justin vinha ao meu lado quando tudo aconteceu. Foi muito rápido, não sei exatamente como explicar, mas uma dor incontrolável dentro de mim fez meu corpo inteiro enrijecer e me derrubar de joelhos. Minha cabeça também começou a doer como se eu estivesse batendo ela contra uma pedra com todas as minhas forças.
- Jay! – ouvi a voz preocupada de Justin, mas era quase impossível responder a ela. Senti sua mão tocar minhas costas. – O que você está sentindo?
- Minha cabeça... meu... meu coração, dói! Ahhhhhhhh!!! – um grito alto saiu por entre meus lábios.
- Merda! Merda! – ele gritava alto. Depois senti seus braços ao meu redor, eles me ergueram e começaram a me carregar para algum lugar. Não havia forças suficientes para que eu conseguisse abrir meus olhos e aos poucos perdi minha consciência.
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