As coisas estavam um pouco embaralhadas quando eu finalmente consegui abrir os olhos, era um quarto, estranho. Consegui levantar da cama e caminhei até uma das janela ali perto, eu estava na rua da casa de Nathy. Seria fácil fugir dali, caminhei até a porta e abri ela o corredor estava vazio e silencioso.

Caminhei lentamente pelo corredor para as escadas. Desci tentando fazer o menor barulho, a porta de saída não ficava longe. Peguei a maçaneta na mão e comecei a girar.

- Não precisa fugir. – a voz me fez dar um pulo. Me virei e vi Justin com uma caneca na mão, ele tomava o líquido dentro dela com a maior tranquilidade. – Eu já avisei para Harry e os outros que você está aqui.

- E porque eu estou aqui? – perguntei me afastando da porta e cruzando os braços em frente ao peito.

- Você passou mau no cemitério, lembra? Achei que se deitasse um pouco melhoraria. – ele falou se aproximando. – Se sente melhor?

- Um pouco. – coloquei a mão na cabeça lembrando de tudo que ocorreu.

- Jay, isso acontece sempre? – ele perguntou parecendo entender o que estava acontecendo comigo.

- Não, na verdade foi a primeira vez que eu desmaiei por causa disso. – falei lembrando das dores de cabeça que senti algumas vezes.

- Sei que isso vai parecer estranho e você vai achar que sou um metido louco, mas se acontecer novamente promete me contar?

- Tudo bem, mas porque?

- Já aconteceu algo parecido comigo. – ele falou sentando no sofá.

- E o que era? – sentei no sofá ao lado.

- Apenas me conte. – ele falou desviando do assunto. Bem na hora alguém bateu na porta, Justin se levantou para abri-la.

- Harry! – falei levantando e correndo para abraça-lo.

- Não tem noção como eu fiquei preocupado! – ele me abraçou de volta.

- Desculpa. – me afastei dele.

- Obrigado, Justin. – Harry falava como se fosse meu pai.

- Tudo bem. – Justin sorriu.

- Vamos? Acho que você precisa descansar. – Harry falou.

- Claro. – sorri.

- Nos vemos na festa amanha? – desta vez Harry falava com Justin.

- Claro. – ele falou.

Tomei um banho e fui direto para a cama. EU não tinha mais condições e aguentar mais nada.

O sábado começou como outro qualquer, tinha tudo para ser como outro qualquer a não ser a festa do final de semestre que aconteceria no lago Whitmor essa noite. O sol estava forte e quente, o céu de um azul tão claro que eu não me lembro de ter visto ele assim. Sai de casa cedo, eu queria caminhar um pouco, ficar sozinha e pensar.

Cheguei na praça da cidade e sentei em um dos bancos, havia muita pouco gente ali. A maioria dos jovens que ficavam por aqui estavam organizando a festa. Senti uma leve dor de cabeça e um pouco de tontura, cruzei as pernas e fechei os olhos deixando a visão vir.

Estava escuro, uma nevoa cobria meus pés e todo o chão ao meu redor. Uma árvore ao meu lado estava manchada de algo vermelho, me aproximei dela e percebi que aquilo era sangue. Sangue que também estava em minhas mãos e cobria meus braços até a altura dos cotovelos. Sai correndo o mais rápido que pude, mas algo atrás de mim parecia correr mais do que eu. Uma sombra negra sobrevoava minha cabeça, ergui os braços em defesa e aquela coisa arranhou meu braço. Continuei correndo, mas um galho se prendeu em meus pés e me derrubou. A coisa vinha cada vez mais para cima de mim, ela estava tão próxima que eu podia...

- Jay? – uma voz me fez sair da visão. Abri os olhos tentando reconhecer a pessoa que estava ao meu lado. Liam abanava a mão em frente ao meu rosto como bobo.

- Ah, oi Liam – falei um pouco triste por não estar mais sozinha em meu momento de paz.

- Tudo bem? – ele perguntou percebendo que o que eu estava fazendo não era normal para uma pessoa. Em minha cabeça só passava duas opções de pensamentos que podem ter passado pela mente dele, um eu estava cansada demais e acabei dormindo com o rosto apoiado nas mão e dois eu estava ficando louca e resolvi dormir no meio da praça.

- Sim esta tudo bem. – sorri incentivando a troca de assunto. Não queria passar por mais uma série de perguntas como, você se sente realmente bem? Porque fugiu ontem? Onde esteve? O que fez? O que aconteceu para que Justin a levasse para a casa dele? Ele cuidou de você? O que fizeram? Ele a machucou? Se sente bem? Quer falar sobre seus pais? Quer que eu vá embora?

- Vai na festa essa noite? – quando Liam fez essa pergunta ao invés de qualquer outra que eu imaginava que ele fosse fazer eu tive vontade de soltar fogos de artificio, gritar e dançar comemorando que pelo menos uma pessoa não ligava para tudo em mim apenas para o fato de estar ao meu lado.

- Preciso ir, sou líder de torcida agora. – dei um sorriso ainda maior par ele mostrando que eu estava realmente feliz por ele ter falado de outra coisa a não ser sobre o dia de ontem.

- Ouvi dizer que vão colocar muitas bebidas. – ele comentou tentando manter o assunto vivo entre nós.

- Espero que coloquem ou Harry vai ir a loucura. – ri baixo da pequena piada que não foi das melhores, não podia nem ser considerada uma piada na verdade.

- Eu preciso ir, vai para casa ou vai ficar mais um pouco? – ele perguntou se levantando e me olhando com esperança que eu dissesse que iria com ele.

- Vou com você. – levantei e caminhei com Liam até minha casa. Entrei e fui preparar o almoço para Harry e eu.

O dia começou a escurecer e Harry foi se arrumar, fiz a mesma coisa. Tomei meu banho e escolhi minhas roupas, peguei meu topo azul, um calção e meu vans. Fiz uma maquiagem rápida e depois desci para a sala, Harry já estava pronto me esperando. Mais da metade da escola já estava ao redor da enorme fogueira, o som estava alto e aquilo era uma verdadeira confusão.

- Oi – Nathy pulou em nossa frente entregando um copo de cerveja para cada um de nós. – Vem. – ela me puxou deixando Harry para trás com Liam que logo apareceu também.

Ela me levou até sentarmos ao redor da fogueira. Bebemos um pouco então ela se virou para mim.

- Que história é essa de você ir para a casa do Justin gatinho no primeiro momento que estão sozinhos? – ela perguntou com um tom irônico na voz.

- Não foi nada disso, eu passei mal e ele simplesmente me ajudou. – falei tentando me defender.

- Tudo bem, se prefere assim. – ela deu de ombros. – Mas deveria ficar com ele, sabe ele é gato.

Olhei para o outro lado da fogueira onde Justin, Harry e Liam conversavam. Justin olhou para mim por um momento e depois ergueu o copo me cumprimentando. Ele era realmente bonito.

Uma hora de festa depois eu já estava um pouco feliz demais, mas com total controle sobre mim mesma. Quando a dor começou a fervilhar dentro de mim, meu corpo enrijeceu, palavras soaram dentro de mim como um aviso “me procure quando isso acontecer novamente”, levantei a cabeça e procurei Justin. A dor só aumentava e estava começando a alcançar minha cabeça com força total. Quando avistei ele perto da fogueira com uma garota que parecia Perrie caminhei até ele, era difícil, mas eu tinha que fazer isso. Quando fiquei a menos de um metro e meio dele, Justin se virou para mim, seus olhos se arregalaram.

- Jay? – ele olhou para mim vindo em minha direção e ignorando completamente Perrie. Olhei dentro de seus olhos então não senti mais nada.

Quando finalmente consegui abrir os olhos eu estava no meio de muitas árvores. Tentei sentar, mas alguém colocou a mão em meu peito e me forçou a deitar novamente.

- Fica quieta. – Justin falou mexendo em uma mochila em sua frente, ele estava sentado ao meu lado. – Toma, bebe isso. – ele tirou uma garrafa prateada de dentro da mochila e me deu nas mãos e depois me ajudou a sentar.

- O que é isso? – perguntei tentando ver o que tinha lá dentro.

- Não pergunta, apenas toma. – ele falou. Fiz o que ele mandou e bebi, aquilo tinha um gosto bom. Não como qualquer coisa boa que eu já tenha tomado, mas algo impossível de descrever, a melhor coisa que eu já bebi na minha vida. – Como se sente? – ele perguntou depois que eu tomei tudo e devolvi a garrafa para ele guardar na mochila.

- Melhor. – falei. Eu realmente me sentia melhor, era como se eu tivesse tomado energético. Tudo em mim parecia mais leve.

- Vamos voltar para a festa e fingir que nada aconteceu. – ele falou jogando a mochila em um buraco entre duas pedras.

- Mas o que aconteceu? – perguntei me levantando com sua ajuda.

- Depois conversamos sobre isso, agora vamos aproveitar o que resta da festa. – ele pegou minha mão e voltamos para a fogueira onde a festa continuava.

Perto de onde estava o barril de cerveja alguns alunos faziam um jogo de quem bebia mais. Perrie estava no meio deles, eu não podia perder essa chance de ganhar dela. Todo o meu corpo queria aquilo.

- Vou jogar. – falei me colocando no meio da roda.

- Tudo bem, você contra mim. – Perrie falou.

- Pode começar. – falei. Perrie sentou no chão e colocou o a ponta do cano de onde saia a cerveja na boca. Confesso que me surpreendi com a quantidade que ela bebeu.

- Sua vez. – ela passou o cano para mim. Olhei para Justin ao meu lado e sorri para ele dando o cano. Coloquei as duas mãos em cima do barril e depois me impulsionei fazendo uma parada de mão em cima dele. Justin se abaixou em minha frente e colocou o cano na minha boca. A cerveja perecia não fazer efeito nenhum e eu não sentia falta de ar. Só parei quando Justin fez um sinal.

- Parece que eu ganhei. – falei olhando para Perrie que estava de boca aberta.

- Foi bem, só não assuste eles fazendo esse tipo de coisa. – Justin falou. – Um humano não aguenta mais de dois minutos sem respirar.

- E quanto eu fiquei? – perguntei.

- Quatro e meio. – ele falou.

- Meu Deus! Quer dizer que eu não sou humana? – falei brincando.

- Não, você com certeza não é. – ele falou.

O resto da festa foi apenas brincadeiras ao redor da fogueira. Justin, Liam e Nathy iriam voltar de carona comigo e Harry. Meu irmão idiota como sempre havia bebido demais, então Justin teve que dirigir, fui na frente com ele.

Já era quatro da manha, não deveria haver nenhum carro na rua, mas o maldito caminhão se colocou em nossa frente bem no meio da ponte onde meus pais morreram. O carro bateu na barreira de contenção e mais uma vez eu cai no lago dentro de um carro. Desta vez eu não perdi a consciência, mas em troca a água subiu rápido demais. Só consegui me livrar do cinto quando a água estava no meu pescoço. Comecei a tentar abrir a porta de todas as maneiras, mas ela permanecia imóvel. Uma mão segurou a minha me impedindo de tentar abri-la, olhei para o lado e vi Justin. Ele fez sinal para mim parar com aquilo e chutar o vidro do para brisa com ele. Levantei os pés então chutamos juntos. O vidro trincou, mas não saiu do lugar. Então Justin mudou o plano e mandou que eu chutasse a porta do meu lado. Nos primeiros dois chutes a porta se contorceu e no quinto chute ela se soltou. Quando sai para fora do carro olhei os bancos de trás, Harry, Nathy e Liam estavam inconscientes. Mais uma vez Justin fez um sinal para mim, desta vez era para mim puxar a porta como se eu fosse arranca-la e foi o que aconteceu. Eu consegui arrancar a porta e peguei Nathy nos braços enquanto Justin pegou Liam e Harry.

Nunca gostei tanto de ver as estrelas e a lua como naquele momento, foi ótimo chegar a superfície e respirar novamente. Levamos eles até a beira do lago e deitamos na grama. Esperei até recuperar o folego para perguntar.

- Como fizemos aquilo? – perguntei olhando para Justin que estava deitado ao meu lado.

- Ainda não entendeu? – ele perguntou olhando para mim.

- O que?

- Não somou humanos. – ele falou.

- É? Então somos o que? – que piadinha sem graça, odeio pessoas assim.

- Algo entre vampiros e demônios. – ele falou.

- Sério Justin? Que criança. – olhei para o céu tentando ignora-lo.

- Não acredita em mim, não é? – ele perguntou.

- Nenhuma palavra. – falei.

- Então como explica você ter tomado sangue mais cedo e ter gostado? – ele perguntou irônico.

- Não tomei. – falei olhando para ele.

- Aquilo na garrafa era sangue.

- Mentira. – falei.

- Então olha sua reação ao ver isso. – ele mordeu a própria mão e seu sangue começou a sair pelo corte. Minha vontade era de cair em cima dele e beber aquele sangue todo. – Esta com vontade?

- Isso não prova nada. – falei tentando desviar a atenção, mas era impossível.

- Então como arrancou a porta? – ele perguntou.

- Não sei.

- Acredite no que quiser, mas saiba que você não é o que pensa ser. – ele falou. No mesmo momento uma tosse ao meu lado chamou minha atenção. Harry estava acordando, seguido de Liam e Nathy.