Notas iniciais
Escrito por: Vinicius Alves

Mal tinha acabado de me recostar na cadeira e já vinha mais um comprador me acordar aos berros. Ninguém respeita um simples vendedor de cogumelos, já era de se esperar. Após mais alguns compradores escandalosos, grosseiros e antipáticos, eu desmonto a barraca, guardo o dinheiro no bolso do meu casaco marrom, o qual eu já tenho há 12 anos, e parto em direção ao mercado. Compro tudo que precisamos lá em casa, ou seja, remédios. Desde que meu pai ficou doente, após ter comido um dos nossos cogumelos que estava estragado, eu tive que trabalhar no comércio sozinho e ainda ter que deixar de comprar comida para comprar os frascos de vidro que contém as substâncias das quais ele precisa. O dia já está escurecendo quando eu chego à nossa pequena casa, se é que isso pode ser chamado de casa. Isso aqui está mais para um quarto com pia, banheiro e uma cama. Meu pai está deitado, me chamando para perguntar como foi meu dia. Eu me sento na cama ao lado dele e começamos a conversar:

– E então, vendeu muitos cogumelos, hoje? — diz ele forçando uma voz que, aparentemente, não tem mais.



– Sim, deu para comprar seus remédios, — respondo, tentando esconder minha frustração por não poder ter comprado nada pra mim, sendo que fui eu que vendi tudo.



– Mas eu disse que dessa vez era pra comprar comida. Já chega de remédios. Já chega de você comer cogumelos todo dia.



– Eu não posso deixar você morrer, pai. Eu faço isso por você.



– Eu já estou no fim da vida, filho. Tentar prolongar a vida de alguém que já está quase morrendo só acaba intensificando a tristeza ao perdê-la.



– Mesmo assim. Não vou passar o resto da vida me sentindo mal por não ter feito o possível para manter meu pai vivo. – digo isso me levantando impacientemente. Já está na hora dos remédios dele.



No dia seguinte, vou à procura do Sr. Carroll, o dono do comércio, para pagar o aluguel. Ao chegar a sua casa, eu me deslumbro com as melhores coisas que alguém poderia querer: armários fartos de comida, móveis de madeira esculpidos pelos melhores carpinteiros da região, talheres feitos da prata mais preciosa do nosso reino e uma decoração composta dos mais lindos vasos, quadros e suvenires que qualquer um jamais viu. Ele é tudo o que eu quero ser: um homem rico. Após eu entrar, ele me recebe com muito bom humor. Serve-me uma xícara de chá e alguns biscoitos, e começa a me contar sobre suas viagens por outros reinos além do nosso. Meus olhos brilham de tanta admiração e encantamento. Ele me explica que o que possibilita a viagem por outros mundos são feijões mágicos que abrem portais entre os reinos:



– Entenda, Jefferson, esses feijões são plantados pelos gigantes que vivem acima das nossas cabeças, em seu castelo sustentado pelas nuvens. – diz o senhor Carroll, tentando me explicar sobre os feijões, pois provavelmente ele reparou na minha cara de incompreensão.



– Mas como assim um castelo sustentado pelas nuvens? – pergunto, tentando descobrir ainda mais sobre esses gigantes.



– Os gigantes vivem em cima daquele pé de feijão. – ele se levanta da cadeira e me conduz até a janela da sala. Ele está apontando para algo que parece ser uma árvore de cor verde gigante, e que desaparece após tocar as nuvens. – O castelo deles fica lá em cima, e é lá também que ficam os campos de plantação dos feijões mágicos.



– Mas por que os gigantes dão esses feijões pra gente?



– Não sei. Vai ver são muito ingênuos.



– E como se faz para conseguir esses feijões?



– Digamos que você tem que ter um certo destaque aqui em baixo.



– Mas não tem outro jeito?- começo a me preocupar, pois destaque não é o meu forte.



– Aí você tem que perguntar a alguém que saiba mais do que eu. – ele dá uma pequena risada e me acompanha até a porta.



Retiro do bolso as moedas e as entrego para o senhor Carrol, o qual me agradece e me dá um aperto de mão. Acabo me recordando que hoje o comércio não abrirá, devido ao baile que vai acontecer no castelo do falecido rei Xavier. Então vou à procura de alguém que saiba mais sobre esses gigantes. Sendo assim, eu vou procurar pela velha Lebre de Março, uma lebre falante que sabe de tudo que acontece no nosso mundo. Mas antes preciso passar em casa e pegar algo para dar a lebre, pois pelo o que já ouvi falar, ela não é de dar informações de graça. Percorro os longos campos de plantação até chegar a nossa casa. Procuro nos armários algo que a lebre possa querer, até que meu pai acorda e começa a me perguntar o que eu estou procurando:



– Eu estou procurando algo pra trocar com a Lebre de Março. Você sabe, não é? Aquela velha lebre que sabe de tudo. — respondo sem nem olhar pra cara dele, pois estou muito ocupado derrubando tudo tentando achar algo de valor.



– E pra que você quer falar com ela? — pergunta ele.



– Quero uma informação, pai. Pra que mais eu iria querer falar com ela?



– E sobre o que você quer falar com ela?



– Sobre os gigantes, sobre os gigantes que plantam feijões mágicos.



– E pra que você precisa de feijões mágicos?



– Pra eu poder sair daqui. — digo gritando e olhando para ele — Pra eu poder me livrar dessa vida miserável. Pra eu poder ficar rico e ter uma vida melhor. Você sempre se acomodou com isso tudo aqui, mas eu não. Isso aqui não é a vida que eu quero ter. Eu tenho sonhos muito maiores do que os seus. O mundo, simplesmente, não pode girar em torno só de você, e você parece não entender isso.



– Perguntei pra que você precisava de feijões mágicos porque você já tem como sair daqui. Você já tem como viajar entre todos os reinos conhecidos e desconhecidos por nós. — ele começa a levantar o braço e apontá-lo para um pequeno espaço vazio ao lado do armário — É só remover aquela tábua. — após ele me dizer isso, eu vou até o local indicado e coloco minha mão dentro de um pequeno buraco no piso e puxo uma das tábuas.



Dentro do pequeno compartimento escuro e úmido que estava abaixo do piso todo esse tempo encontra-se uma caixa marrom de um formato estranho. A caixa tem uma alça, o que me auxilia a puxá-la e colocá-la no piso. Eu me sento no chão e começo a analisá-la. Ela tem um formato de uma cartola, uma cartola virada para baixo, é feita de couro e tem uma coloração marrom clara.



– O que tem dentro dessa caixa, pai? — pergunto a ele, em vez de abri-la e ver com meus próprios olhos o que há dentro.



– A maneira de você viajar entre os reinos — responde ele.



– Tem feijões mágicos aqui dentro?



– Não. Um chapéu.

Notas finais
Então, quero agradecer a quem quer que tenha lido esse capítulo e eu ficaria ainda mais agradecido se você (pessoa misteriosa) comentasse. Para quem não sabe o próximo capítulo já é de autoria de outra pessoa: meu amigo Icaro Chagas. Enfim, espero que vocês tenham gostado e estejam se perguntando o que vai acontecer! :)