Notas iniciais
Escrito por: Icaro Chagas

O chapéu é como um chapéu qualquer. Ele tem uma cor escura e uma fita também escura. Está um pouco gasto, como se alguém o tivesse usado muito. Antes de começar a pensar para que serve isso, meu pai começa a falar com dificuldade. Ele havia piorado.

– Filho, esse chapéu me foi dado pelo meu pai antes de sua morte. — diz ele — Esse chapéu nos fez ricos, e ao mesmo tempo trouxe uma enorme desgraça para nossa família. Meu pai o usava cotidianamente, e eu escolhi não usar, pois não queria aquilo pra mim. E agora em meu leito eu estou te dando para que você não seja sempre o vendedor de cogumelos. Quero que você seja melhor do que eu, quero que você tenha futuro. Mas tenha um enorme cuidado com ele, pois ele serve tanto para abençoar como para amaldiçoar.

Quando meu pai termina de falar ele começa a tossir. O lenço que ele usava pra cobrir a sua boca já não é mais cor de marfim, ele se torna escarlate. Creio que ele sabia que daquela noite ele não passava, e assim aconteceu. Meu pai me deixara, e eu, um simples vendedor de cogumelos, estou sozinho no mundo, sem família ou amigos.

Na manhã do dia seguinte, eu abro a caixa, e começo a analisar o chapéu. Ele antigamente já fora um chapéu bonito, mas agora está bem desgastado, usado, surrado. Eu o viro de cabeça pra baixo e dele cai um papel escrito:

“Toda magia vem com um preço.”

– Rumplestiltskin.

– Rumplestiltskin. — eu digo em voz alta.

– Ora, ora, se não é o filho do vendedor de cogumelos. — diz uma voz esguicha atrás de mim.

Eu me viro, e me deparo com a criatura mais horrenda que eu já tivera visto em minha vida: forma de homem, mas sua pele é como a de um crocodilo. Seu cabelo tem aparência de mal cuidado, como se não fosse lavado há anos. Mas ao contrário de sua aparência, sua roupa é costurada com fios de ouro, tecidos com muito cuidado. Da criatura vem um forte cheiro de enxofre, como se ela não se lavasse há anos.

– Quem é você? — pergunto a criatura.

– Rumplestiltskin, a seu favor — ele me responde e me reverencia — Como posso te chamar?

– Jefferson.

– Vejo que você tem um chapéu muito elegante, Jefferson.

– Sim, tenho.

– E você sabe pra que ele serve ou o poder que ele tem?

– Sim, eu sei.

– Me mostre.

Nesse momento, meus lábios congelam. O que essa espécie de gnomo verde quer comigo? Como ele apareceu na minha casa? Um turbilhão de perguntas vem sobre mim. Eu não sei o que fazer.

– Não vou mostrar. — respondo.

– Então deixe que eu mostre. — diz ele.

Ele vem até mim, arranca o chapéu da minha mão e o joga no chão. Ele abaixa perto do chapéu e o gira. Com apenas um movimento simples, o chapéu gira e gira. A medida que ele gira, uma fumaça roxa escura começa a encher a minha cozinha, a medida que gira ele aumenta de tamanho quando de repente o chapéu vira um abismo que parece não ter fim. Eu sinto uma mão dar um impulso em minhas costas e me empurrar para o abismo. Eu estou caindo, e caindo. A queda parece que não vai acabar. Eu avisto o chão, e quando estou prestes a me esborrachar no piso frio e espelhado, eu paro a centímetros e caio em uma queda tranquila aos pés do gnomo.

– Como você chegou aqui antes de mim? — pergunto confuso.

– Essa é uma coisa que você não gostaria de saber. — responde ele com ar de arrogância.

Nós caímos em uma sala com portas. Há dezenas delas, de cores e tamanhos diferentes, mas uma me chamou mais atenção, uma porta em forma de um espelho.

– Onde estamos? — pergunto, ainda confuso.

– Aqui estão os portais para todos os reinos existentes. Você pode viajar entre todos eles com o chapéu. Aqui estão os reinos mais ricos e grandiosos, os mais pobres e mais miseráveis, os mais encantadores, os mais terríveis e cruéis. E eu posso te ensinar a como caminhar entre eles, como ir e voltar livremente. — responde o gnomo.

– E o que você quer em troca?

– Toda vez que eu te procurar, você vai me conceder tudo que eu te pedir, e você não poderá me negar nada quando eu te pedir “por favor “.

O duende puxa um enorme pergaminho e me pergunta:

– Nós temos um acordo?

E eu respondo sem hesitar:

– Fechado.