Once Upon A Time In Wild West...
24 You're not alone
Notas iniciais
"Encarou a loira uma vez mais e seus lábios desceram de encontro aos dela. "
O primeiro beijo... E último. Seria uma despedida e aquilo feriu seu coração mais profundamente do que qualquer bala jamais poderia fazer. Tocou os lábios da loira e por vários segundos apenas ficou ali, como se ainda pudesse sentir uma conexão entre elas. Lábios tão frios... Imaginou como seriam se Emma ainda estivesse ali, imaginou se retribuiria aquele momento. De olhos fechados ela não pôde perceber, mas um fraco brilho envolveu as duas mulheres naquele momento.
Afastou-se e acariciou o rosto da Ranger. Os olhos mais lindos do mundo, agora cerrados para sempre.
— Adeus, Emma...— despediu-se, quase sem forças para sustentar as próprias palavras.
Uma lágrima caiu de seus olhos, molhando o rosto pálido da xerife. Virou-se, queria sair daquele lugar, não suportava mais a imagem da loira estirada ao chão. Não era assim que gostaria de lembrar-se dela. Guardaria na memória todos os bons momentos, os sorrisos, os toques... Guardaria também as primeiras brigas e seu jeito teimoso de ser. Guardaria tudo, para sempre. Começou a se levantar, mas algo segurou seu braço. Por um segundo ela pensou ser sua imaginação protestando para não deixa-la, mas percebeu então o quão real era o toque.
— Que eu me lembre, não tinha permissão pra me deixar...
O coração da prefeita foi a mil e quase parou. Apesar de fraca, aquela voz era inconfundível. Mas como poderia? Ainda de costas, ela respirou fundo. Sentia medo de virar-se e encontrar a loira ainda imóvel. Sentia medo de que não fosse verdade. Mas quando o fez, a imagem que encontrou fez mais lágrimas caírem... Só que desta vez, eram lágrimas de alegria. E descrença.
— Mas.. C-como? — gaguejou.
Os olhos verdes da loira a encaravam, o sorriso mais lindo de volta em seu rosto.
— Você mesma disse... Meu tempo aqui ainda não terminou.
Regina sorriu como nunca achou que fosse fazer outra vez. Ela não sabia como era possível, mas era, e só isso importava. Sua loira estava de volta.
— Sabia que era você... - Emma puxou a morena de encontro ao seu corpo e beijou-a novamente.
Desta vez, Regina não precisou imaginar como aquele momento seria, porque agora ele era real e era recíproco.
Sentiu os lábios da xerife se apertarem fortemente contra os seus, declarando seus sentimentos mais profundos. Emma segurou os cabelos negros como se nunca mais fosse soltá-los e eliminou a distância que ainda a separava da morena. Aquela experiência de quase morte a fez perceber o quanto precisava aproveitar cada momento e viver tudo o que seu coração ainda desejava.

Regina respondia com paixão, sem que qualquer entrave em sua personalidade rígida pudesse atrapalhar aquele contato. Entregou-se a Emma, não como prefeita ou superior, mas como Regina. Apenas como mulher... Mulher que reconhece suas imperfeições e que apesar de todas as barreiras que o tempo construíra em sua vida, também era capaz de amar.
Sentiu o toque da língua de Emma na sua, consumando uma vontade que já vinha presente na mente de ambas há algum tempo. Sentiu também o calor de seu corpo, que ia retornando gradativamente, trazendo de volta a vida que lhe havia sido tomada. Com as roupas em retalhos, o toque entre suas peles foi inevitável e provocou um intenso calafrio na morena. Desta vez, ela não teve de repreender-se pelos pensamentos que vieram à sua mente ao tocar os seios praticamente desnudos da Ranger.
A pausa por ar fez-se necessária e Emma sorriu ao afastar-se da morena. Os sonhos com aquele momento tornaram-se diários desde algum tempo, mas ela não tinha ideia de que a retribuição seria daquela forma. Regina erguia-se acima dela, apoiando-se no chão com um dos braços. Daquele ângulo, Emma pôde finalmente visualizar o corpo esbelto da morena de uma outra forma. Com a blusa toda em farrapos, várias partes da silhueta da prefeita estavam à mostra e a loira não conteve um sorriso. Era ainda mais linda do que tinha imaginado. Algo, porém, desviou a atenção de ambas.
Um forte vento soprou, adentrando a cabana e fazendo voar todos os enfeites do teto. Apesar de intenso, o ar era morno e não gelado, como anteriormente. Vinha acompanhado de uma essência mística e de uma forte energia. A corrente de ar foi adquirindo luminosidade, formando um verdadeiro redemoinho de cores que brilhavam no escuro da tenda. A intensidade do brilho obrigou as mulheres a protegerem os olhos, e quando voltaram a abri-los, a massa de ar havia se transfigurado em dois grandes lobos. Envoltos em uma aura que parecia carregada de magia, eles fitavam calmamente as duas mulheres.
Regina estava estática, admirando os animais à frente. Apesar de imponentes e maiores do que qualquer outra criatura do tipo que ela já tivesse visto, não sentiu medo. Emma fitava os espíritos, e a gratidão em seus olhos era visível. Gratidão por uma segunda chance. Ela sabia que não eram capazes de tal expressão, mas jurava que podia senti-los sorrir de volta.
— Lembrem-se...— mesmo sem mover um músculo sequer, a voz do grande lobo dourado fez-se presente — Vocês não estão sozinhas...
Regina sentiu o corpo todo arrepiar. Dizem que a voz dos espíritos primordiais pode tocar a mente de uma pessoa tão profundamente quanto uma flecha disparada a queima roupa. Que só os dignos podem ouvi-la sem ensurdecer e que não há no mundo, som ao qual possa se equiparar. É uma experiência única e uma grande honra que poucos já tiveram.
Uivaram em coro, duas vozes destoantes unindo-se em uma melodia única. E foi como se por um instante a morena fosse agraciada com a mais completa visão do mundo, como se pudesse sentir a energia que flui desde a menor partícula imóvel do universo até o mais complexo ser vivo existente. Sentiu o poder das forças que regem o mundo e foi capaz de ver a trama do universo em que está contido cada ser, unidos num propósito maior.
As cores e o vento voltaram, e ao abrirem os olhos pela segunda vez, os lobos já não estavam mais lá. Assim como o ferimento de Emma, que agora não passava de uma pequena cicatriz.
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*falado no idioma Cherokee
* É verdade, não é? * — a índia perguntou enquanto alimentava a fogueira com alguns galhos que ainda estavam secos — * Ele voltou? *
O ancião permanecia sentado, fitando o lento dançar das chamas.
* — Assim como a chuva que não agraciava esse lugar com sua presença há anos, o grande espírito também nos abençoou com seu regresso... *
Pocahontas admirou o céu. As nuvens já começavam a se dissipar, preparando o caminho para a aurora de um novo dia.
* — Então é verdade? A profecia? *
O velho índio também ergueu os olhos, vislumbrando a última estrela a se retirar.
* Um não existe sem o outro. Distantes com o dia e a noite, mas nunca separados. A cada mil anos, unidos num eclipse total... Luz e escuridão, juntos num só, vêm ao mundo para restaurar o equilíbrio das forças... * — o ancião recitou brevemente uma parte da velha profecia — * E alguma vez chegou a duvidar que não fosse? *
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Assim que os espíritos deixaram a cabana, Regina encarou a Ranger para confirmar se ela também tinha presenciado aquele momento. Palavras não foram necessárias, o olhar da loira por si só confirmou tudo.
— Eu nunca... Tinha visto nada assim. — a prefeita desabafou.
— Poucos no mundo viram... — Emma sorriu.
Ela tocou a mão da prefeita para dizer que estava tudo bem, e aquilo foi suficiente para acalmar o coração da morena. Regina sorriu de volta e abaixou-se para encontrar os lábios da xerife novamente, mas algo a assustou.
— Ahh! — retirou o corpo para trás.
— Que foi?? — Emma virou o pescoço com dificuldade, tentando ver o que estava acontecendo.
Dois pequenos olhos amarelos brilhavam no escuro e o animal investiu sobre a loira.
— Meeko!
Emma não sabia se ria para o animal ou se ria da cara da prefeita ao perceber que a causa de seu susto era um guaxinim peludinho que a loira acariciava agora.
— Ta tudo bem... — a xerife tentou acalmar a outra e ergueu o animalzinho para que ela pudesse ver melhor — Ele é amigo.
Meeko encarou a prefeita, com o focinho erguido e logo saltou das mãos da loira. Aterrissou no colo da morena e começou a percorrer todo seu corpo, fuçando em cada dobra de roupa a procura de algo interessante. Regina quase enfartou com a inspeção inesperada, mas não conseguiu reagir. Como não encontrou nada comestível (ou roubável), ele voltou para o colo da amiga loira, que era mais confiável. Antes de afastar-se, olhou a prefeita mais uma vez e deu um pequeno espirro de indignação. Emma gargalhou e Regina franziu a testa.
— Atrevidinho o seu amigo, hein?
O guaxinim nem se importou, deu-lhe as costas e deitou com a barriga para cima no colo da loira, brincando com algumas mechas loiras de seu cabelo comprido.
— Guaxinins... Você se acostuma.
— U-hum. Alguém devia é ensinar-lhes bons modos...
Ao ver a prefeita soar como a velha Regina que ela conhecia, Emma riu ainda mais. Quanto a Meeko, deu uma breve olhada na morena e voltou a brincar com os cachos, rolando na barriga da xerife como se quisesse provocar. Regina fuzilou o animalzinho com o olhar.
— Espera... — a morena voltou a se atentar a um detalhe — Você disse "amigo"? Há quanto tempo conhecesse esse povo? E o que aconteceu com você afinal?
Passado o susto e o medo inicial, a prefeita tinha um milhão de perguntas para a loira.
Alguém puxou o pano da entrada da cabana e por uma fresta a luminosidade adentrou. A sombra da índia projetou-se no chão à frente e o guaxinim correu ao seu encontro, pisoteando o rosto de Emma.
— É uma longa história... Vamos ter tempo pra conversar. — a loira respondeu.
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Hank sabia que o ferimento sofrido não tinha cura. A bala havia penetrado fundo demais, mas não se importava. De qualquer maneira, imaginou que não iria sobreviver depois daquele novo fracasso.
Cambaleou com dificuldade, gruta adentro. Mesmo diante de seu sofrimento, a figura de negro não se moveu.
— E então..? — limitou-se a dizer.
Hank apenas balançou a cabeça negativamente. O som da mão do homem se fechando em ódio, foi uma das coisas mais horríveis que ele já ouvira. Sabia o que estava por vir...
O chefe ergueu-se em seu trono e deixou a escuridão que lhe ocultava.
Hank fitou então a figura de seu superior, pela primeira e última vez. Trajado em couro negro, ele caminhava com uma firmeza quase mecânica e seus olhos eram desprovidos de qualquer sentimento de compaixão, frios como a pedra em que se sentava. O que mais lhe espantou foi o fato de ser um homem tão jovem... Hank nunca havia imaginado que tal rancor e ódio pudessem ser nutridos em tão pouco tempo de vida. Era até bonito, se pudesse encara-lo de modo a escapar de seu olhar maligno e do sorriso de escárnio. E da grande cicatriz que cortava seu rosto de um lado ao outro, na diagonal.
Não se parecia em nada com a imagem que a mente do pistoleiro tinha criado, mas a expressão conseguia ser ainda mais sombria. O homem aproximou-se rodeando o ferido como se fosse uma presa indefesa.
— Apesar de tudo... Você até que me foi útil. Eu poderia até poupá-lo... — ele ergueu o subordinado com uma mão.
Ao ouvir a voz do chefe de tão perto, um calafrio ruim percorreu seu corpo, mas as últimas palavras lhe deram a pequena esperança de que talvez ele não fosse assim tão mau. Porém, ele estava enganado.
— Mas do que adiantaria, de qualquer maneira? — os olhos verdes do homem se estreitaram e foi a última coisa que Hank viu antes que o gancho de metal atravessasse sua garganta sem piedade.
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