Once Upon A Time In Wild West...
36 The banker send his regards
Notas iniciais
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— Permita que eu conte então a parte inacabada desta história... — o gancho de metal perfurou a mesa, à poucos centímetros do rosto do banqueiro — Como você se sentiria ao saber que a causa de seu insucesso, da sobrevivência de seu nêmesis... — ele fez uma pausa, seguida de um gélido sorriso — Foi a traição de seu próprio filho?
"A traição de seu próprio filho". A frase dominava o salão vazio e escuro em que as ideias do banqueiro perambulavam.
A mente humana é dotada de mecanismos fascinantes de sobrevivência. Pode-se tomar como exemplo a morte. Como processo inerente a vida, uma hora ela há de chegar. Essa hora pode estar tão próxima e palpável quanto as tarefas seguintes do cotidiano ou tão remotamente distante quanto os sonhos que concebemos para o futuro. Mas, se a vida vale mais do que qualquer outro bem e a morte pode sem aviso prévio rouba-la, por que a maioria das pessoas não passa os dias em desespero, temendo as infinitas possibilidades do fim que as aguarda? Porque desenvolvem mecanismos para tirar de foco essas questões que fogem ao seu controle. Do contrário, cada segundo deixaria de ser apreciado e passaria a ser temido. Pois se a única certeza da vida é a morte, o único incentivo para continuar a vive-la é a esperança de fazer isso da melhor forma possível, dentro do tempo destinado.
De forma semelhante age o cérebro quando é acometido por traumas profundos. Quando os limites são atingidos, por puro instinto de sobrevivência, a mente escolhe desligar os fatos ou molda-los de forma aceitável ao indivíduo. Gold trabalhara seu subconsciente por anos, enganando a si mesmo sobre cada episódio de natureza expurgável em sua vida. Justificando com meias verdades e dissimulações suas tramoias, ele teceu uma teia sobre seus olhos, impedindo-o de ver o monstro que lentamente ia assumindo forma em sua sombra. A morte da esposa, causada por suas próprias mãos, havia sido o ápice e a maior mancha em seu caráter. Até aquele momento...
A morte é uma um fato do qual não há escapatória, um enigma à todos, mas as decepções a nós afligidas ou por nós mesmos causadas, são um passo a mais em direção a este sombrio cenário. Um passo mais próximo da negação da vontade de viver. Era exatamente assim que sentia-se no momento: descrente de tamanha traição vinda de seu próprio sangue, mas desprovido de moral para contesta-la, pois sabia que havia enrolado a corda em volta do próprio pescoço.
Por mais que seu desejo fosse o de desligar os sentidos, ocultar aos ouvidos ao restante da história, sabia que era o mínimo que merecia no momento. Forçou-se a escutar o término do relato, mas desviou os olhos do inimigo, pois neles podiam ser lidos a clara derrota de espírito que lhe tomava.
***
Assim que a prefeita deixou o aposento, Killian pode embriagar-se por completo em sua angústia. Sozinho na cela, sem ninguém para julga-lo, permitiu-se viver a dor do momento na intensidade em que esta lhe afligia. As lágrimas correram quentes por sua face e a parede tornou-se alvo aleatório de sua ira. Castigou nela os punhos até o sangue escorrer farto por seus braços. Aquele não era o fim que ele imaginara para si, impotente, derrotado em corpo e nome, destinado a morrer com o peso de um crime que jamais cometera... Com o sangue da amada a manchar-lhe injustamente as mãos.
O ranger da porta resgatou seus sentidos do devaneio. Seu único vigia era um guarda, que destinava seu tempo de trabalho tedioso a reclinar-se na cadeira do hall de entrada da delegacia, disputando um jogo de cartas de uma pessoa só. A troca de turno não ocorreria antes das três da manhã e Killian duvidava muito da disposição do carcereiro para caminhadas noturnas.
-Quem está ai?? — questionou.
Obteve nada mais que o silêncio.
— Prefeita? — arriscou uma última tentativa.
Sua resposta não veio em palavras. Ouviu o característico som de líquido derramado ao chão e num instante as velas apagaram-se, mergulhando a delegacia no breu da noite. À medida em que o ruído se aproximava, ele pode distinguir também o característico tilintar de esporas. De fato, não era a prefeita, tampouco boas notícias. Quando o cheiro irrompeu-lhe as narinas, com o líquido que agora umedecia o interior de sua cela, suas pupilas dilataram-se em desespero. Agarrado as grades de sua prisão, ele suplicou:
— Por favor, isso é um engano!! Você não pode fazer isso!
Killian notou o vulto de um grande homem parado a sua frente. Havia cessado o trabalho de espalhar o líquido, mas sua postura não denotava qualquer hesitação.
— Você selou seu destino no momento em que pôs as mãos naquela mulher. — a voz do homem era áspera e desprovida de compaixão.
Não era preciso luz alguma para ter certeza de que aquele era o manda chuva dos capangas de Gold. A importância do serviço requeria um alto posto e Killian recordava-se de um breve encontro anterior com o sujeito. Riscando um fósforo, ele denunciou seu semblante ao condenado, que guardaria aquela imagem pelo resto de seus dias até que a vingança lhe fosse permitida. Iluminando seus olhos impiedosos, o executor pronunciou suas últimas palavras antes de deixar o objeto cair ao chão:
— O banqueiro manda lembranças.
***
Emma deixou a estalagem pelo mesmo local por onde havia entrado. Correu até as paredes do banco, onde solicitou a ajuda do amigo com um assobio. Carter logo apareceu, os confortantes olhos azuis encarando-a do telhado.
— Uma ajudinha?
A corda foi lançada e Emma subiu por ela. Evitaram um tiro, escondendo-se atrás da barricada improvisada. Aliviado por vê-la, Carter deixou o corpo relaxar por um segundo, aproveitando para recarregar sua arma. Foi em dado momento que notou a peculiaridade no semblante da Ranger.
— Mas.. O quê?
Emma afagou uma de suas mãos. A amizade de anos possuía muitos códigos, onde simples gestos substituíam inúmeras palavras. O homem entendeu o significado e não voltou a questionar. Depositava confiança ilimitada naquela mulher e se ela dizia que estava tudo bem, então essa era a resposta final para ele. Mesmo que os brilhantes olhos verdes lhe despertassem curiosidade.
— Qual a nossa situação? — Emma indagou.
Carter refletiu, somando e subtraindo perdas de ambos os lados.
— Não estamos desfalcados, mas nesse ritmo não resistiremos muito.
A Ranger entendia bem. Eles detinham a vantagem de terreno, mas seria uma questão de tempo e números até que sua armada caísse.
— Como você derrota um exército de formigas enfurecidas, Carter? — ela fez uma analogia.
O homem refletiu brevemente.
— Derrubamos o formigueiro.
— E subjugamos a rainha. — ela completou.
Carter concordou com a cabeça, acompanhando o raciocínio da Ranger.
— Derrubaram nossas barricadas no Granny's Saloon, estão usando o lugar como ponto estratégico . — ele informou.
— Então é isso. Achamos o formigueiro.
— Agora precisamos do líder. — completou.
— Me dá cobertura de novo? — Emma perguntou retoricamente, pois já possuía a resposta.
O Ranger tocou o ombro da amiga e entregou-lhe um cinto de munições.
— Sempre.
***
Tal qual o ódio semeado em seu coração, as chamas rapidamente assumiram proporções monstruosas. As línguas de fogo lamberam as barras de metal, adentrando num segundo a cela em que se encontrava. Pois de personalidade indômita, o fogo não conhece obstáculo ou prisão, não respeita idade, sexo ou espécie, tão pouco possui misericórdia, distinguindo justiça em qualquer alvo. Ele apenas destrói tudo em seu caminho, sem julgamentos.
Killian sentiu o calor das chamas que ladeavam seu corpo, presenciando horrorizado a triste cena de seu fim. Seus pulmões já iniciavam uma batalha contra a fumaça tóxica, que seria inutilmente vencida pelo tempo. Fadado a aceitar seu destino, desistiu de lutar contra o fogo.
Foi em dado instante que a porta da delegacia abriu-se novamente. A lufada de ar vinda do exterior intensificou as chamas por um segundo. Killlian não foi capaz de identificar a identidade do vulto que se aproximava, mas a julgar pelo porte definitivamente não tratava-se do visitante anterior. A fumaça já causava-lhe um intenso ardor nos olhos e seu corpo lutava contra a inconsciência.
Os segundos seguintes passaram-se sem muito nexo. As barras sendo arrancadas brutalmente, o som de cascos e o relinchar de cavalos, o desabar das vigas de madeiras, consumidas pelo fogo... Ele percebeu que o local começava a entrar em colapso, mas desprovido de forças para caminhar e com muita dificuldade de respirar, ele também foi ao chão. Sentiu o corpo sendo arrastado com certa dificuldade em direção à saída.
— Vamos!! — esbravejou a voz, quase infantil — Não pode desistir agora!
Puxado pelos pés, tentou um último esforço para equilibrar-se. Conseguiu se sentar, apoiado nas mãos. O fogo iluminou o rosto de seu salvador. Parecia-lhe familiar, mas a falta de lucidez não estava ajudando. O garoto sorriu para ele, em resposta a sua tentativa de cooperação.
A esperança brotou em seu coração e este foi seu último encontro com tal sentimento. O ranger da madeira veio seguido do calor intenso e da dor descomunal. Seu grito foi abafado pelo som do ambiente que estava ruindo, consumido igualmente em fogo. Os olhos do garoto refletiam o terror da cena, enquanto Killian tentava inutilmente livrar sua mão esquerda da viga flamejante. A tora de madeira maciça havia desabado do teto, por pouco errando-lhe seu corpo inteiro. Mas, de qualquer maneira, o estrago já havia sido feito.
Com certo desespero, o garoto sabia que mais do que nunca o desenrolar da situação estava sobre seus ombros. As chamas já dominavam o aposento e se não tomasse uma atitude em poucos segundos perderiam a vida. Quando o prisioneiro caiu de volta ao piso, inconsciente, soube que era hora de agir. Por mais que soubesse que a cena seguinte fosse se repetir várias vezes em seus pesadelos, procurou pelo facão que carregava no cinto. Fechou os olhos e desceu a lâmina com toda sua força no braço preso do homem.
***
Hook polia seu gancho enquanto o casal assistia, em silêncio. No breve olhar em que trocaram, Gold soube que mesmo se um milagre viesse a salvar-lhe a vida naquela noite, seu casamento já estava arruinado. A tristeza nos olhos de Belle era tamanha que chegou a duvidar da capacidade dela própria de recuperar-se um dia daquele choque.
— Sabem, vocês são os primeiros a saberem a verdadeira história por trás desse gancho. — Hook brincou com o objeto de metal — Chego a ficar impressionado com a macabra criatividade humana. — soltou a frase no ar como se pretendesse utiliza-la novamente naquela noite. Gold sentiu o sangue gelar — São tantas histórias sobre a perda desta mão... Alguns dizem que foi em combate, outros que tive eu mesmo que corta-la para me libertar de uma armadilha do deserto... Chegaram até mesmo a contar que alimentei meus próprios cães desta carne, para que fossem leais somente a mim. Mas a verdade mesmo...
Aproximou-se do homem, até que seus olhos estivessem a um palmo de distância.
— A verdade é que foi tomada por um crocodilo. Uma besta, sem coração.
— Não era pra ser assim... — Gold finalmente reuniu coragem para falar.
— É claro que não! Era pra eu ter morrido lá, seu bastardo! — Hook rebateu.
As lágrimas voltaram a percorrer a face de Belle, que já previa o desfecho da situação. Por mais que soubesse ser uma jogada quase em vão, Gold tentou um último apelo.
— Eu imploro... Não por mim, por ela. — fitou a esposa.
Sem desviar o olhar, o homem de negro levou a mão ao gancho, destarrachando-o de sua base. Profundas cicatrizes avermelhadas feriam permanentemente o membro decepado, sumindo de vista ao penetrarem a manga da camisa. Nem mesmo Gold foi capaz de evitar um suspiro de terror, diante da visão.
— É curioso... Demora um tempo para se acostumar com a perda... Algumas vezes ainda é como se pudesse senti-la no lugar. — ele fitou o membro, erguendo-o na altura dos olhos.
Gold agora podia ouvir os suspiros de lamento da esposa.
— Imagino o vazio que deva ser... — disse, referindo-se a mais do que o membro. Apesar da falta de credibilidade, suas palavras soaram verdadeiras.
Por uma breve momento Gold vislumbrou certa piedade nos olhos azuis. Momento que não durou muito, pois assim que o gancho assumiu seu devido lugar, o brilho da loucura voltou a dominar o olhar de seu inimigo.
— Acho que não imagina, não... — ele fez uma pausa, retirando uma adaga do cinto — Mas isso é algo que podemos resolver.

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