Once Upon A Time In Wild West...
22 Lonely star
Notas iniciais
— EMMA!! — a prefeita chamou a segunda vez.
Não houve resposta. Regina sentiu o desespero invadir sua mente e corpo.
— Não... — a palavra saiu num sussurro — Emma... Emma, fale comigo!!
A chuva estava piorando e o abrigo improvisado debaixo da árvore poderia tornar-se perigoso. Mais raios e trovões voltaram a preencher a noite com agressivos sons e clarões. Regina precisava tirá-las dali. O corpo da loira estava imóvel e sem forças, a prefeita não conseguiria conduzir Argo sem que Emma caísse. Precisava passá-la para frente, de modo que pudesse sustentá-la. Certificando-se para não soltar o corpo da mulher, desceu do animal. Deitou Emma sobre o dorso de Argo e chegou-a mais para frente.
O cavalo estava quieto, e mesmo quando um trovão assustou Regina, ele permaneceu estático. Parecia compreender a gravidade da situação. A morena voltou então a montá-lo. O pelo estava escorregadio e a ausência de uma sela complicava ainda mais. Com todas as forças de que ainda dispunha, Regina firmou-se no cavalo e aproximou-se de Emma, envolvendo-a com um braço.
— Vai ficar tudo bem... — ela disse, fitando a loira.
Sabia que não estava ouvindo, mas talvez a própria Regina precisasse de amparo naquele momento. Um novo trovão, e desta vez parecia mais próximo, alertou a morena que já era hora de sair dali.
— Vamos, Argo! — ela incitou o animal a galopar.
Tudo o que ela queria era correr de volta para casa, onde pudesse conseguir ajuda para a xerife, mas o desfiladeiro seria agora uma péssima opção. Argo brecou, recusando-se a atravessar. A chuva caía com mais intensidade e a água deslizava sobre a superfície de pedra, transformando o caminho num verdadeiro abismo da morte.
— Tem razão... Seria suicídio.
A prefeita desesperadamente olhou em volta, a procura de qualquer coisa que pudesse ser útil. Galoparam sem rumo por alguns segundos, a chuva estava muito intensa e Regina mal conseguia enxergar. Foi um novo clarão que revelou a última esperança para a prefeita. Não era a melhor opção, mas pelo menos conseguiria tirar Emma daquele temporal.
— Yah!! — ela fez Argo apressar o passo e logo eles chegaram à pequena caverna.
Os relâmpagos disputavam espaço no céu, iluminando precariamente o local. Mas foi o suficiente para que ela pudesse se certificar de que estava seguro. O esconderijo era apertado e sem ramificações, uma tímida fenda na parede rochosa. Melhor assim... — pensou. A última coisa de que precisavam agora era de surpresas inesperadas. A caverna manteria a loira fora da chuva e seria um abrigo improvisado contra o frio também.
Entraram. A prefeita desmontou, certificando-se de apoiar bem a mulher antes disso. Foi então que sua juventude e o tempo de convivência com o pai vieram mais que a calhar. A pequena Regina tinha aprendido muito com o velho homem e aquilo seria crucial naquele momento. Vasculhou o local a procura de madeira e para sua extrema sorte encontrou alguns pequenos galhos amontoados no fundo da caverna. Aparentemente algum animal teria usado o abrigo durante o inverno... Sorte que já não se encontrava mais nele. Não que as estações no velho oeste fossem bem definidas, mas durante algumas noites a temperatura podia cair drasticamente.
Recolheu com pressa o máximo que conseguiu. Juntou-os no centro da caverna e foi a hora de usar seus conhecimentos: com dois pedaços de pedra ela concentrou-se para repetir os ensinamentos do pai. Já tinha feito aquilo milhares de vezes, num outro tempo... Se foi a proficiência ou o desespero para salvar Emma, ela não sabia. O importante é que funcionou. Algumas tímidas fagulhas voaram, assim que ela chocou as pedras da maneira correta. Com os galhos e algum mato seco que encontrou por ali, conseguiu acender uma pequena fogueira. Incrementou o fogo e assim que certificou-se de que continuaria queimando, correu para buscar a loira. O abrigo estava seguro, poderiam ficar ali por algum tempo.
Esforçando-se para não deixá-la cair, conseguiu desce-la do cavalo de forma segura. Deitou a Ranger no chão e apoiou o ouvido no peito da moça. Não conseguia ouvir o ritmo cardíaco da loira direito e aquilo intensificou seu desespero.
— Vamos lá, Swan!! Reaja! — forçou mais o gesto — Diga alguma coisa! Qualquer coisa... — seus olhos começaram a marejar.
— Vo..c.. ta.. em_ cima...
— Emma?? — Regina afastou-se no mesmo instante, assim que ouviu o murmúrio — O que você disse??
A loira ainda tinha os olhos fechados, mas movia os lábios lentamente.
— Você... Estava em.. Cima do meu machucado...
Os lábios da prefeita se abriram num enorme sorriso. Apesar de tudo, ela estava viva!
— Oh..! Me perdoe, eu...
A loira sorriu de leve também. A prefeita checou a blusa da Ranger. A mancha vermelha agora já se espalhava por todo o tecido e ela não sabia a localização do ferimento. Mas era grave, isso era indiscutível.
— Swan! O que diabos você fez?
Se tivesse forças para rir, Emma certamente teria feito.
— Eu aqui morrendo.. E você ainda acha tempo pra brigar comigo...
Regina envergonhou-se pelo modo como fez a frase soar.
— Você não está morrendo, Swan. — a prefeita corrigiu, começando a desabotoar a camisa da xerife. Sentiu uma pontada de hesitação com a atitude, mas decidiu que não era hora para aquele tipo de receio. Emma precisava dela. Se não conseguisse pelo menos estancar aquela hemorragia... Preferiu não pensar nas consequências — Eu não vou permitir.
A loira finalmente abriu os olhos, timidamente. Sua visão estava embaçada, mas ela conseguiu distinguir o contorno da prefeita. Regina terminou de abrir a camisa e conseguiu então visualizar o estrago: do lado esquerdo do peito da loira havia um grande ferimento, o buraco da bala no centro. O sangue corria farto pelo seio da moça, deslizando pela lateral do corpo. Em outras circunstâncias, a prefeita nem saberia exprimir o que aquela visão da alva pele descoberta teria lhe causado, mas no momento tudo o que conseguiu sentir foi um medo terrível.
— Swan, eu vou ter que...
— Faça... O que tiver..— a voz saía cada vez mais fraca.
— Precisamos tirar você daqui... — Regina tentava manter um tom de voz calmo, de desesperada já bastava ela. Queria que Emma sentisse segurança, queria que confiasse nela.
A loira abriu a boca para murmurar algo, mas uma careta de dor impediu-a de terminar. Regina rasgou várias tiras largas da própria camisa e usou-as para fazer uma atadura improvisada.
— Emma, vou precisar....
— Vá em frente.
A prefeita assentiu com a cabeça. A Ranger voltou a fechar os olhos e mordeu os lábios quando sentiu o tecido apertar-se contra seu ferimento. Estava molhado, mas era o melhor que poderiam fazer no momento.
— Não vai ser suficiente... — Regina já fazia um esforço desumano para não chorar ali.
Ela observou a loira deitada. Sua respiração era fraca, o rosto pálido, mas a expressão... A expressão estava serena, como se estivesse conformada com o próprio destino.
— Emma?? — Regina tocou-lhe a face. Não poderia deixar a loira adormecer.
A Ranger, com muito esforço, entreabriu os olhos.
— Por que fez isso? — continuou.
A xerife sorriu.
— Salvar donzelas.. Em perigo...— fez uma pausa para renovar as forças — É uma das minhas especialidades...
Regina teve que rir. Não devia esperar nada menos como resposta da loira. Por algum tempo elas apenas ficaram ali, se entreolhando e ouvindo o crepitar das chamas. A chuva do lado de fora não dava indícios de que cessaria tão cedo, mas estava começando a diminuir de intensidade. Regina sabia que precisava levá-la dali, mas não ainda. Não com toda aquela água. A xerife começou a fechar os olhos novamente.
— Swan?? — a morena focava-se em mantê-la consigo.
Emma girou o rosto alguns graus para poder fitar a morena.
— Lembra quando você veio com aquela ideia de virar xerife? Com aquela conversa idiota de "Cavaleiro branco" e tudo mais? — Regina perguntou.
Emma riu. Aquele gesto fez doer tudo em seu corpo, mas ela o fez mesmo assim.
— Então... Sou sua rainha, xerife. E eu não te dispenso de suas tarefas.
Regina percorreu os dedos delicadamente sobre o rosto da loira.
— Eu te proíbo de me deixar, Emma.
A Ranger deslizou a mão até encontrar a da morena. Entrelaçou seus dedos da melhor forma que conseguiu. Regina completou a ação. A essa altura já não conseguia conter as lágrimas e deixou que corressem por sua face. Com delicadeza, ela moveu o corpo da loira para o mais próximo do fogo que a segurança permitia. Sem a camisa, o corpo da mulher já começava a secar aos poucos. Sentou-se com as pernas cruzadas e apoiou a cabeça da loira em seu colo.
— Não se preocupe, Swan... Eu vou cuidar de você.
A prefeita corria os dedos pelo cabelo molhado da loira e a Ranger sorriu. Sua respiração pareceu mais regular, apesar de ainda fraca.
— Me diz que já esteve pior... — Regina olhou para baixo — Que isso é fichinha pra você... — seu peito chegava a doer fisicamente com a espera, o desespero de não poder fazer nada e ter de assistir a loira naquelas condições.
— Na verdade... Acho que não... — Emma mal tinha forças para falar.
Regina deixou as lágrimas rolarem com mais intensidade. Seus olhos já ardiam.
— Mas acho que... — fez uma pausa grande para respirar — Nunca tive um motivo tão grande pra sobreviver.— a Ranger completou, sorrindo fracamente.
Regina voltou a segurar sua mão. Emma mantinha-se acordada muito mais por força de vontade que por condição física. A prefeita já não continha qualquer sentimento, deixou que a loira ouvisse seus soluços e chorava com toda a dor de sua alma. Emma voltou a descansar os olhos, mas a morena sabia que ainda estava ali.
— Vou te tirar dessa, xerife. É uma promessa.
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Algumas dezenas de minutos se passaram desde que ela e a loira haviam trocado poucas palavras. Emma já não estava em condições nem de gastar energia com aquele tipo de esforço, mas vez ou outra ela apenas pressionava a mão da prefeita, como para dizer que ainda estava consciente. Regina, por sua vez, não havia soltado a mulher por um segundo sequer.
Entretanto, por mais que essa atitude confortasse a Ranger, não estava ajudando nas complicações físicas que lhe acometiam. Pra falar a verdade, a condição da xerife piorava a cada intervalo que se passava. A prefeita podia sentir seu ritmo cardíaco cada vez mais lento e via que respirava com dificuldade. A chuva do lado de fora tinha se abrandado, mas ainda perdurava. Regina estava desesperada, não sabia mais o que fazer... Se demorasse muito poderia ser tarde demais, mas e se arriscasse sair e acabasse colocando a vida da loira em um risco ainda maior?
A única certeza que tinha era que seus olhos ardiam a cada nova lágrima que caía. E já eram muitas... Pensou em tudo o que vinha ocorrendo, nos sentimentos que descobriu... E para quê? A vida da morena parecia ser dominada por uma triste sina. Será que sempre ia terminar assim? Seria esse o seu destino? Perder todos os que amava? Balançou a cabeça, como se negasse aceitar que as coisas fossem assim. Pensou então em Henry, e em como ele estaria... Por mais que estivesse com medo, seu coração de mãe sentia que o garoto estava seguro e que a xerife mais uma vez tinha cumprido com a promessa de protege-los.
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Assim que Emma saiu, tudo ficou em silêncio e a escuridão era a única companhia que Henry tinha por ali. Permaneceu então quieto, analisando o decorrer da situação. Depois de algum tempo ouviu um disparo e não muito depois, alguns mais. Sentou-se, apertando-se contra os degraus da escada. Envolveu as pernas com ambos os braços e apenas rezou para que a mãe estivesse bem e para que Emma conseguisse resolver as coisas como sempre. Sentia-se mais seguro com o simples fato de a loira estar ali. Sabia que ela era boa com essas coisas.
Isso... Emma resolverá tudo.— pensou.
Mas então, ele esperou. E esperou... Não houve mais tiros e, nem barulho algum. Apenas o silêncio. Sentiu-se tentado a sair dali e investigar, mas lembrou-se da advertência da loira e da promessa que havia feito. Iria cumpri-la. Aguardou por algum tempo mais, não soube definir quanto. Foi então que escutou alguns baques abafados na madeira do outro lado. Passos? Amigo ou inimigo?
— Henry??!— uma voz chamou.
Conhecia aquele timbre. Levantou-se a bateu contra a viga da parede.
— Estou aqui!!
Levou alguns segundos para que a pessoa do outro lado entendesse o esquema da passagem secreta, mas logo Henry viu-se livre do escuro.
— Henry!! — o homem abraçou-o.
— Minha mãe..?? — perguntou, aflito.
David fitou o garoto. O que devia dizer?
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Emma tossiu e a morena pode ver por sua expressão o quão dolorida fora aquela ação. As tiras de tecido já não conseguiam conter a hemorragia e a loira parecia ainda mais pálida. A prefeita improvisou um travesseiro com o que restou de sua blusa e acomodou a mulher. Levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro, não conseguia mais ficar parada.
Quanto mais pensava sobre as opções que tinha, mas entrava em pânico. Logo as lágrimas voltaram a correr como rios por seu rosto.
— Por quê??? — ela ergueu as mãos — Se eu tivesse de morrer pra que tudo isso acabasse... Eu morreria!
Regina desabafava com toda a força de sua alma, como se conversasse com uma entidade superior. As palavras saíam altas e ríspidas, banhadas por todo o desespero que nutria seu coração no momento. De qualquer forma, Emma já não parecia ouvi-la, não faria diferença.
— Mas não podia tirar essa vida... Não essa vida... — ela caiu de joelhos, enterrando as mãos no rosto — Por favor...
Por um momento, tudo o que podia ser ouvido era o triste som de seus soluços e o crepitar do fogo. Mas então... Regina sentiu algo diferente. Ergueu os olhos a tempo de ver a fumaça da fogueira tomar cor e intensidade. Gradativamente adquiriu forma, construindo uma figura a sua frente. A mulher caiu sentada para trás, apoiando-se com a palma das mãos. O que diabos era aquilo??
A fumaça verde transfigurou-se completamente num rosto. Uma face marcada com o peso de inúmeros invernos já vividos. No alto da cabeça o velho ostentava um ornamento de penas, alinhadas em perfeição, formando um magnífico cocar que parecia ser realmente grande. Regina ainda estava incrédula com o que via. Será que já estava começando a delirar também?
Mas quando a figura dirigiu-se a ela, a prefeita foi forçada a descartar essa opção.
— Trazer... Lobo dourado.. Seguir estrela.— a voz parecia não ser tão nítida quando a imagem e a morena não conseguiu entender do que se tratava.
— O quê?? Não compreendo! — ao perceber que aquilo podia estar ligado a Emma de alguma forma, Regina deixou qualquer receio de lado e aproximou-se do fogo.
— Seguir... Estrela— foram as últimas palavras do velho antes que a fumaça voltasse a ser apenas gás inanimado e as chamas engolissem sua figura.
Em um segundo a fogueira estava de volta, como se nada tivesse acontecido. A prefeita fitou o fogo, a mulher deitada, e o fogo novamente. Por mais que parecesse insano, seu coração lhe dizia para escutar aquele chamado. Correu para a entrada da gruta e saiu na chuva. Vasculhou o céu loucamente, a procura de uma pista. As nuvens se agrupavam, enegrecendo aquela imensidão interminável e dificultando a visão de qualquer coisa ali fora. Já estava para desistir, quando então... Iluminando o coração da prefeita com uma centelha de esperança, alta no céu, trespassando qualquer obstáculo, brilhava sozinha uma grande estrela. No mesmo instante ela correu de volta para o interior da gruta, seguiria aquele astro até o fim do mundo se fosse preciso.

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