Once Upon A Time In Wild West...
8 I'm not asking permission...
Notas iniciais
Já fazia cinco dias desde que Emma havia enviado a carta a Carter. A resposta esperada chegaria provavelmente na data de hoje. A loira desceu as escadas correndo, passou na cozinha, cumprimentou, roubou um dos biscoitos da vovó e saiu em direção à porta.
— Hey, heey! – Ruby chamou – Pra que tanta pressa? Não disse que ia sair só após o almoço?
Emma se deteve na entrada e voltou andando de costas até o vão que dava para o cômodo.
— Ahn, sim... Vou sim, é que tenho umas coisinhas pra resolver antes..
A garçonete arqueou uma sobrancelha de forma engraçada. Emma percebeu seu interesse e tentou desconversar para sair dali logo, ou certamente ficaria presa na emaranhada rede de perguntas da moça.
— A loja do Grilo já está aberta, não é?
Ruby apenas acenou que sim com a cabeça, estudando a loira para ver se era capaz de arrancar qualquer detalhe adicional sobre o estado alvoraçado da amiga.
— Certo... Passo pra almoçar com você.
E dito isso, Emma tratou de se retirar logo dali. A morena já a conhecia o suficiente para saber quando ela escondia algo. Emma até costumava brincar que ela parecia ter o faro de um lobo.
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Archie acabava de ajeitar alguns produtos numa das prateleiras ao lado da porta quando ela se abriu. O homem viu o rosto já familiar da loira caminhar até ele.
— Bom dia Emma! – cumprimentou de forma afetuosa.
— Como vão as coisas, Archie? – ela retribuiu.
Dois dias atrás a Ranger o havia ajudado contra alguns ladrões baratos que tentavam saquear a loja. Desde então a loira havia ganhado certo respeito e uma simpatia ainda maior vinda do homem.
— Paradas como sempre, mas sabe como é... Estamos em Storybrooke.
Emma riu.
— Entendo... – ela deu uma olhada nas prateleiras e vitrines dali – Archie, por um acaso você teria... Não sei como é o nome direito...
O homem abriu um sorriso largo ao deparar-se com a possibilidade de poder ajudar a loira.
— Se parece com o que?
Emma refletiu.
— Ahn... Aquelas coisas de se olhar de longe... Tipo.. Tipo binóculos.. Só que fixo em um suporte.. Vi um desses em Dallas uma vez.. O forte Daniel’s comprou um quando saiu.
— Acho que sei do que está falando! – ele sorriu – Só um segundo.
Archie então se retirou, procurando por alguma coisa no depósito da loja.
— Arrá!— Emma ouviu a voz do homem de longe – Sabia que tinha um!
Logo o vendedor voltou com um instrumento, aparentemente pesado e de metal, nas mãos. Era um pouco desajeitado e menos equipado do que o outro que a loira se recordava, mas na prática era usado para o mesmo fim. Vai servir...— pensou. Emma ajudou o homem a colocar o objeto no chão.
— Acertou na mosca! – exclamou.
— Você deu muita sorte... Comprei de um vendedor ambulante que passa vez ou outra por aqui com sua carroça abarrotada de trambolhos. Não vi muita utilidade no momento, mas ele me garantiu que era uma nova invenção e que poderia achar um uso para ela algum dia.
Emma sorriu.
— Que bom que você é um homem de visão, Archie! É exatamente o que preciso!
O homem insistiu em não cobrar nada dela, mas Emma pagou-o mesmo assim, após uma longa conversa para convencê-lo. Ela logo fez o caminho de volta à estalagem, carregando seu novo pertence. Ao abrir a porta, certificou-se de que Ruby já havia saído de casa e subiu correndo até seu quarto. Deixou o pacote por lá e desceu novamente. Agora só faltava uma coisa: precisava trocar de alojamento.
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No restante da manhã Emma ocupou-se em visitar o cavalo e prepara-lo para partir. Conversou com David, o homem era sempre muito educado e a loira gostava de passar algum tempo pelos estábulos quando não tinha nada pra fazer, depois dirigiu-se ao local de sempre para o almoço. Levou Argo já com ela e amarrou-o do lado de fora do Saloon.
— Cheguei! – anunciou, já ajudando a garçonete com alguns pratos.
— O que foi fazer na loja do Archie, afinal?
Ruby não perdia tempo mesmo. Bom, ela teria de saber, cedo ou tarde. Decidiu já conversar de uma vez com ela sobre o quarto.
— Ahn... Sabe... Eu estava pensando... Aquele quarto ao lado do meu está vago não está?
É claro que estava. Mas perguntas retóricas ganham tempo para processar frases com mais cuidado. Emma sabia que a garçonete sugaria todas as informações que conseguisse e precisava de tempo para formular sua conversa com cautela. Não que ela achasse que Ruby fosse contar algo, ou que tivesse algum problema se a morena viesse a saber, mas digamos apenas que sua reação inicial poderia ser um tanto... Indiscreta.
— Claro que sim, sabe que ninguém mais se hospeda lá por agora...
— Claro... – é logico que ela sabia – Então... Será que posso me mudar pra aquele de lá?
Ruby acabou de ajeitar um pedido e deu uma boa encarada na loira.
— E posso saber por que esse interesse agora? – Emma viu um breve sorriso torto surgir no canto de seus lábios, como se já soubesse que a loira escondia algo – Não está confortável no seu?
— Não é isso... Bom... – Emma coçou a cabeça tentando lidar com a situação, sem muito sucesso.
Neste exato momento mãe e filho adentraram o salão, acabando de subir as escadas. Emma observou-os pegar a mesa usual. Regina então ergueu a cabeça procurando pela garçonete para fazer seu pedido, mas acabou encontrando Emma no lugar. Aquela troca de olhares se entendeu por mais tempo do que qualquer uma das duas pretendia, mas antes de retirar-se para a cozinha, Emma percebeu que o constrangimento nos olhos da prefeita não parecia ser como o de antes.
A fagulha de raiva que a morena normalmente lhe dirigia, não pareceu presente naquele momento. Era como se o fato embaraçoso não tivesse sido ocasionado pela sua suposta falta de afinidade com a Ranger e sim por algum outro motivo. A mente da loira divagou naquele momento, mas ainda precisava ocupar-se de uma outra tarefa antes de permitir mergulhar-se naqueles pensamentos. Ruby logo notou sua falta e seguiu a amiga.
— Hey, que foi aquilo lá fora? – a garçonete perguntou, quase rindo.
Era incrível. Nada passava despercebido à morena de cabelos longos.
— Ahn... Nada... Ela devia estar procurando por você e... De qualquer maneira, preciso acabar de te pedir um favor.
Ruby aguardou.
— Consegue trocar o quarto pra mim?
— Ta, sem problema...
Emma já começava a sair pelo vão que dava para o salão quando sentiu sua camisa ser agarrada pela morena.
— Não vai nem me dizer o motivo?— cochichou.
— Depois, Ruby...
— Não confia em mim??
Emma suspirou.
— Não é isso, é que..._— mas ela não conseguiu terminar a frase. O olhar de piedade da amiga era poderoso. Ruby sabia conseguir as coisas quando queria.
Desta vez o suspiro da loira foi ainda maior. Ela certificou-se rapidamente de que ninguém estivesse perto o suficiente para escutar a conversa das duas.
— Ta bom...— ela puxou a morena até próximo do balcão – É que naquele quarto... A janela... — Emma ainda hesitava – Da para a lateral da rua... E eu preciso ter visão para as colinas...
Emma tentou evitar, mas não conseguiu conter um olhar de relance para a mesa dos fundos. Claro, não passou despercebido à moça a seu lado. Ruby juntou os pontos e soltou uma exclamação quando entendeu o que a loira deveria estar tramando.
— Você vai vigiar a pref__!! — a frase — que era o que a loira temia — saiu mais alta do que deveria e foi interrompida a tempo de não causar um estrago maior. Emma levou a mão à boca da garçonete, mas um olhar vindo da mesa em questão cortou o salão em direção às duas.
O desejo de Emma era arrastar a amiga e se esconder embaixo do balcão.
— Ta vendo..!— ela repreendeu a morena – É por isso...
Ruby então as conduziu de volta à cozinha.
— Tenho tido um pressentimento estranho após aquele ataque... – a loira continuou.
— Acha que vão tentar alguma coisa contra ela de novo?
Emma deu de ombros.
— É uma possibilidade. Agora vamos... Vamos servir logo o pessoal antes que a coisa fique pior. Preciso partir em breve também. Te explico mais depois.
A garçonete assentiu e elas voltaram aos afazeres.
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Emma ajudou Ruby por alguns minutos e logo depois tratou de cuidar de seu próprio almoço. Despediu-se da amiga e começou a descer as escadas de volta ao Saloon. Para sua surpresa — e já estava começando a achar que por destino também — encontrou mãe e filho no caminho.
— Emma! – o garoto exclamou.
Vindo da prefeita ela só recebeu um breve aceno com a cabeça.
— Hey, Henry.. – ela cumprimentou sem jeito – Como vai?
— Muito bem. – a mãe do garoto se apressou em responder – Henry por que não vai arrumando suas coisas na carruagem? Vamos partir já...
O menino gostaria de delongar a conversa, mas pelo olhar vindo da mãe percebeu que era melhor obedecer. Ele acabou de descer as escadas e deixou o aposento. As duas continuaram sozinhas, paradas na metade dos lances da escada. O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Então... Como vai o pé? – Emma perguntou para quebrar o gelo da situação.
— Vou sobreviver.
Emma notou que a morena já caminhava sem muita dificuldade. Devia estar melhorando.
— Vão viajar?
— E isso é da sua conta por quê...? – Regina retrucou.
Emma corou. A prefeita então percebeu que talvez estivesse exagerando e sendo um tanto grosseira demais com a pessoa que havia salvado sua vida.
— Vamos até Spring Hill... Tenho alguns assuntos a tratar. – consertou.
Emma mal conteve um sorriso. As coisas estavam se abrandando. Bem lentamente, mas estavam. Começaram então a descer o restante dos degraus.
— Mas que coincidência... Estou indo pra lá também!
Regina então deteve-se.
— Ms Swan... Se acha que vou fazer um convite e que vamos brincar de viajar juntas está muito enganada. – Regina tentou soar agressiva, mas para sua surpresa não foi bem assim que a frase saiu.
Algo no fundo de seu peito, dizia o contrário sobre suas palavras. Desfez então o contato visual com a loira para que ela não percebesse sua hesitação.
— Com todo respeito, Madam Mayor, não estou pedindo permissão...
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Emma acompanhou a diligência da prefeita, a contragosto da mesma. Henry espiava pela janela a loira cavalgando o animal cor de palha logo a seu lado. Ele acenou para ela uma ou duas vezes e a Ranger sorriu de volta. Cada vez que ele fazia isso, Regina o puxava de volta ao assento. Levou pouco mais de três horas até chegarem a seu destino. Na rua principal, a carruagem encostou. Emma amarrou Argo ali ao lado. Não estava longe do correio e ela poderia caminhar até lá. Henry foi logo descendo e correu até o cavalo.
— Wow! Ele é lindo! Como se chama?
— Henry! – Regina o repreendeu – O que foi que eu te disse?!
— Tudo bem... – Emma se pronunciou – Ele é manso...
Emma conduziu a mão do garoto, afagando o pescoço do animal. Henry estava todo empolgado. Parecia gostar de cavalos.
— Seu nome é Argo... Ganhei de um amigo meu. Pode dar uma volta nele se quiser qualquer dia... – ela deu uma breve olhada com o canto do olho na morena ao lado – Se sua mãe permitir é claro...
— Posso? Mesmo? – o menino deu alguns pulinhos de alegria.
— Infelizmente, Ms Swan... – Regina passou um braço pelas costas do filho e começou a conduzi-lo para o outro lado – Henry não sabe cavalgar.
Visivelmente surpresa, ela instintivamente seguiu os dois. Regina revirou os olhos, mas percebeu que lutar contra a teimosia da loira parecia inútil.
— Não sabe cavalgar?? Quantos anos você tem mesmo, kid?
— Nove... – ele respondeu, já emburrado com a interferência da mãe.
— Nove anos e não sabe andar a cavalo? Precisamos dar um jeito nisso...
— Você pode me ensinar! – ele voltou a se empolgar – Diz que sim mamãe, por favor!
— Olha aqui Henry... Eu sei cavalgar. – Regina começou.
— É... Mas você nunca me ensinou... – ele fez um bico.
— Você sabe? – Emma pareceu admirada. Não era exatamente o perfil da morena e foi inevitável mentalizar aquela cena – Por que não ensinou a ele então?
— Bom, porque... – Regina voltou a falar, respondendo como se fosse uma pergunta qualquer. Só depois foi se lembrar de com quem conversava – Ora! Acho que isso não é da sua conta, Ms Swan!
— Tudo bem, tudo bem..! – Emma ergueu as mãos em rendição.
— Ah, mamãe... Por favooorrr... – Henry fez sua carinha de pidão. Regina odiava quando ele fazia isso. Ela se sentia fragilizada com aquele olhar e quase sempre acabava cedendo.
A prefeita revirou os olhos novamente.
— Tudo bem! – bufou – Se quer ensina-lo, que seja... Só não quero ninguém correndo pra mim depois com a perna quebrada.
Um sorriso largo surgiu no rosto do filho e ele abraçou a morena pela cintura.
— Fui clara, Ms Swan?! – Regina já estava começando a perceber que se livrar, ou mesmo se afastar da loira naquela cidade, estava começando a parecer uma tarefa mais do que árdua.
— Como a água, Madam Mayor... – Emma piscou em segredo para o garoto.
Eles chegaram à fachada de um banco. Os dois capangas que os acompanhavam aguardarem na porta do estabelecimento. Jim e Jack. Dois brutamontes que faziam a guarda pessoal de Regina. Eram gêmeos e suas feições eram praticamente idênticas, mas o primeiro tinha os cabelos claros, e Jack, negros como a noite.
— Henry.. Espere aqui – a mãe ordenou. Regina deu uma olhada então na loira – Devo presumir que também estará aqui quando eu voltar..? – ela perguntou, mas já sabia a resposta.
— Se não se importar...
— Tanto faz. – a prefeita respondeu e entrou pela porta da frente.
Era a primeira vez que Emma ficava de fato a sós com o garoto. Queria aproveitar um pouco aquele momento. Conversar...
— Então... – ela começou, meio sem jeito.
Emma notou que ele ajeitava um lindo chapéu preto na cabeça.
— Belo chapéu.. – ela sorriu.
O garoto também se entusiasmou. Parecia gostar de qualquer tipo de conversa, era só abrir uma brecha e ele não parava de falar.
— Você gostou? – ele sorriu de volta – Foi presente da minha mãe... No meu sexto aniversário.. É meu chapéu da sorte!
Certo. O garoto já tinha nove anos e não sabia montar, mas um chapéu de cowboy — que nem cabia direito em sua cabeça — ela já tinha desde os seis... Vai entender, pensou.
— É muito bonito...
— Mamãe disse que meu avô trouxe pra mim do Canadá... Ele era da cavalaria montada de lá...
Emma notou as insígnias do exército canadense bordadas em dourado. Era, de fato, um exemplar muito bonito.
— E já te trouxe mesmo alguma sorte, até hoje?
Ele deu de ombros.
— A mim não... Mas à minha mãe já..
Emma ficou surpresa.
— Sua mãe? Ela já usou esse chapéu?
Sua real pergunta seria: ela já colocou um chapéu na cabeça, na vida? Henry pareceu notar seu espanto e riu.
— Eu sei.. Não parece, né? Mas mamãe nem sempre foi assim... Ela costumava cavalgar muito com meu avô antes de... Bom... De ele falecer. Ai depois disso ela foi fazer outras coisas... E largou tudo pra trás. Foi ai que ela pensou em virar prefeita.
— Entendo... – Emma confortou o menino com um afago em suas costas.
Imaginou então a prefeita de outra forma. Daria tudo para ver Regina em cima de um cavalo. Livre, independente, como seu espírito e personalidade pareciam ser. Ficou espantada depois com os próprios pensamentos. Por que dava importância àquilo? Por que a prefeita não saía de sua mente? Deve ser por causa do garoto...— pensou. Mas seus pensamentos seguiam essa linha mais por obrigação do que por espontaneidade.
A porta do banco então abriu-se novamente e a morena, em seu trabalhado vestido, caminhou em direção a eles. Um contraste se comparado à imaginação atual da loira.
— Mas já? – Emma não conseguiu evitar soar ligeiramente desapontada.
— Algum problema, Ms Swan? – Regina arqueou uma sobrancelha.
Na verdade tem sim, pensou. Ela só queria mais tempo com o garoto.
— Não, claro que não... – Emma tratou de se corrigir.
— Vamos, Henry? – ela se dirigiu agora ao filho.
O garoto levantou-se e caminhou até ela.
— Ahn... Vocês tem mais alguma coisa pra resolver aqui? – a loira perguntou.
— Não.
— Então tudo bem... Vou só passar no correio e já alcanço vocês.
A loira virou-se e caminhou apressada para o lado oposto. Sabia que aquilo despertaria o interesse de Regina e que ela poderia não gostar nem um pouco. De fato. A prefeita encarou por algum tempo a loira afastar-se e ficou então imersa em seus próprios pensamentos...
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