Olhos de Avelã
1 Conhecido território
O som do sinal escolar era música para os ouvidos de Alessa. Não que ela gostasse deste ruído extremamente agudo e prolongado, gritando na sua caixa cranial como um bebê recém-nascido, mas ao lembrar do que ele significava, poderia ouvi-lo por várias semanas, repetidamente, se necessário. Uma hora a menos naquela sala acinzentada, ouvindo tópicos que não lhe eram de interesse algum. Newton, Baskara e Darwin podem ter sido grandes revolucionários, mas isso não os impede de serem exponencialmente entediantes, ainda mais para uma adolescente que sequer conseguia planejar qualquer tipo de futuro, quanto mais absorver cálculos e teorias dez vezes mais velhos que ela própria.
O ambiente dificultava. Os próprios raios de Sol que se atreviam a penetrar o ambiente pelo vidro fosco e malcuidado das janelas, pareciam perder seu brilho, sendo esmagados por uma parede branco-acinzentada como um inocente camundongo sobre uma ratoeira, atraído pelo maravilhoso queijo que provocaria sua morte. Não havia uma planta sequer nos dez metros de extensão da sala, que apesar de comprida, não esbanjava largura. E não há de se questionar o porquê: se os próprios alunos lutavam para sobreviver àquela estufa de seres-humanos, que dirá uma pobre plantinha.
Entre as tentativas de explicação dos professores (que também não demonstravam um pingo de disposição) e as conversas paralelas da maioria dos alunos, se ouvia o maravilhoso e ensurdecedor gongo. Por alguns segundos, a sala se calava por completo. O mestre soltava um quase imperceptível suspiro de alívio, como se estivesse sendo liberado de uma sessão de tortura, e proferia, sorrindo:
– Até mais, turma! – E se dirigia à porta, levitando.
Apesar dos pesares, a diversidade de estilos daqueles adolescentes era gritante. Se a frente tínhamos os clássicos estudiosos, com seus óculos de senhores do mundo e blusas de uniforme para dentro das calças, ao fundo os badernistas faziam a festa. Estes, por sua vez, não se incomodavam em sequer disfarçar os gritos e risadas debochadas, promovendo uma verdadeira feira dentro daqueles cinquenta metros quadrados. Até mesmo a lousa, veja só, era caricata: quase totalmente manchada pela tinta das canetas dos professores, de vez em quando eram usadas para lecionar algo de relevante. Ou declarações de amor ou ódio, o que era mais comum; tanto que algumas ainda podiam ser lidas, mesmo sido “apagadas” inúmeras vezes.
– Ok, faltam quatro horas – Debochou Alessa, virando-se para o seu amigo – Acho que dá para sobreviver sem matar ninguém nesse meio tempo.
– Você devia relaxar um pouco, sabe? – Retrucou o colega. – Tente fazer como eu. Fique de boa.
Alessa era uma confusão de personalidades dentro de uma única pessoa, e fazia questão de expor essa característica o tempo todo. Seus longos cabelos platinados eram únicos, sua marca registrada, e deles tinha muito orgulho. Os olhos castanhos-avelã, marcantes, eram fatais, mas raramente alguém a via fazendo contato visual com alguém. Magra e de altura mediana, se esforçava para agradar a si mesmo. Talvez tenha sido isso que a levou a assumir tantas posturas diferentes ao longo de sua vida.
– Mas para você é muito fácil, Caíque. Você consegue tirar nota em qualquer matéria só prestando atenção ao professor. Não anota nada. Isso me dá um pouco de raiva, sabia?
Caíque respondeu sua amiga com o som da sua bola de chiclete estourando, e um sorriso de canto de rosto. Ao contrário de Alessa, o garoto era tão normal e “foda-se” para a vida que poderia entrar despercebido no quartel general da CIA sem qualquer credencial, se quisesse. Os cabelos de surfista caíam sobre os ombros como uma onda, e a estrutura corporal de jovem entrando na puberdade não o ajudava muito. Ele não ligava. Bastava um celular e um fone de ouvido e ele por si só bastava. Quando lhe perguntavam qual era a parte do seu corpo de que mais gostava, ele respondia sem titubear: orelhas.
– Você tem uma vida perfeita, Alessa. Está reclamando de barriga cheia.
– Meu Deus, cara! Eu não posso te falar mais nada, mesmo!
Caíque olhou a amiga da maneira mais repulsiva que alguém pode assumir. Alessa virou-se para frente, apoiou os cotovelos sobre a mesa, pôs o queixo sobre as mãos e ficou esperando o próximo professor entrar na sala. De fato, a vida da garota era uma das melhores que se pode imaginar para um adolescente: pais casados, uma grande casa, saídas com os amigos em todos os finais de semana, estudante da melhor escola da cidade e o celular mais caro do mercado. Além de que, apesar de detestar a maioria das matérias, sempre conseguia superar a média escolar e passar de ano tranquilamente. Sua rebeldia poderia ser explicada pela falta de conflitos da sua vida. Muito conforto entedia qualquer pessoa.
– Bom dia, classe. – Disse o professor de Biologia, que desde o começo do ano, Alessa não conseguia memorizar o nome. Realmente, a única coisa que ela tinha como referência do professor era seu jaleco de cientista, impecavelmente branco.
Apenas os alunos das primeiras fileiras responderam. A classe tinha oito. E isso acontecia na maioria das vezes em que um professor entrava sorrindo naquele território hostil.
– Como alguém pode ser feliz às oito horas da manhã? – Resmungou a garota que sentava atrás de Alessa. Seu nome era Sara.
– Vou começar a chamada. Quem não responder levará falta. – Gritou o professor, numa falha tentativa de receber atenção.
Os olhos da menina platinada não se desviavam do relógio, posicionado logo acima da lousa. Cada tique-taque significa menos um segundo naquela prisão acinzentada. Ela mal podia esperar pelo terceiro alarme, aquele que anunciava a sua liberdade.
– Alessa Garcia – Foi dito o seu nome.
Mas não era a voz do professor.
Caíque cutucou a garota com o seu pé esquerdo, e ela o respondeu com um “o que foi?” altíssimo. Quando se deu conta, a sala já havia caído na gargalhada. Ela cochichou a mesma frase, novamente, para o amigo, esquecendo-se finalmente, dos ponteiros do relógio.
– O coordenador tá na porta, te chamando.
Os alunos chamavam o coordenador de “diplomata”, debochadamente. Não havia apelido mais justo no mundo. O senhor, no auge dos seus 50 anos, vestia-se com um terno preto e gravata vermelha todos os dias para ir ao colégio e conjugava verbos que, provavelmente, nem mais o dicionário Aurélio abrange. Casado e pai de três filhos, qualquer um que o olhasse na rua deduziria ser um grande empresário, riquíssimo e competente, fosse pelo seu vistoso bigode ou sua maneira de se portar. Na verdade, seu nome era Jorge e ele nunca havia pisado em um solo empresarial antes do seu atual emprego.
Alessa pegou seu celular que estava embaixo da carteira escolar, em um espaço destinado aos livros e cadernos, guardou no bolso direito da sua calça jeans branca, já se preparando para ser chamada pelo “diplomata”. Os meninos, por sua vez, já se preparavam para olhar os dotes da garota quando ela se levantasse. O silêncio prevalecia.
– Me perdoe, senhor lecionador, — Disse Jorge, olhando para o professor e erguendo sorrateiramente suas mãos à frente do tórax, como em gesto de humildade – mas eu terei que solicitar a saída de uma das suas alunas. – Nem mesmo o próprio coordenador se lembrava do nome do professor.
Sem saber se aquele era um momento de felicidade ou pânico, Alessa se levantou, ajeitou a sua blusa de uniforme, deu uma leve arrumada na sua franja e começou a andar. Ela detestava ser notada. Aliás, detestava PERCEBER que estava sendo notada, mas tinha que chegar à porta, mesmo com o destino rindo de sua cara. Andou o mais rápido que pôde, tentando disfarçar a ansiedade, e finalmente alcançou Jorge. Mal pôde cruzar a saída e já fora surpreendida pela mão do coordenador sobre seu ombro.
– Cara aluna, receio que tu terás que pegar seu material. Não acredito que vá voltar para a sala.
Era o que faltava para a manhã de Alessa estar completa. Sua respiração parou. Retomou o fôlego, fechou os olhos por curtos segundos e se virou para voltar a sua carteira. Ao abri-los, deu de cara com o rosto de todos os seus colegas de classe a olhando. Naquele momento, ela sabia que todas as tentativas de disfarçar o seu medo de plateia seriam inúteis.
Caíque não entendia o pavor de Alessa para com qualquer tipo de público. Ela já havia lhe contado que havia feito inúmeros cursos de modelo, manequim e a porcaria que fosse, e que já chegara até a concluir uma escolinha de teatro quando pequena. E onde já se viu, atriz com medo de gente? Não era lógico, ou sequer justificável uma fobia como essas, com esse gabarito. Mas novamente Caíque honrou sua fama de vagabundo e ignorou o tópico, esquecendo-o em tempo recorde.
Alessa saiu em disparada pelo corredor da sua fileira. Sara, a menina da carteira de trás, se antecipou e a ajudou a guardar alguns itens ao perceber seu desespero. Alessa não perdeu tempo e terminou a tarefa da colega. Fechou o zíper, agachou-se para vestir a alça da sua mochila repleta de buttons e fitou os olhos de Sara.
– Muito obrigada. Mesmo. Fique em paz. – E virou-se para correr novamente em direção ao coordenador.
A garota, japonesinha da sala, abriu levemente sua boca, como se estivesse surpreendida com algo, e sussurrou um agradecimento. Endireitou-se em sua cadeira, fechou seus olhos orientais, abaixou a cabeça e esboçou um leve sorriso. Uma estranha sensação de leveza invadiu seu corpo por inteiro, a permitindo voar se não fosse a gravidade. Ela soltava leves risadinhas, baixas demais para serem ouvidas e escondidas pelos escorridos cabelos lisos e negros. Fato é que a classe estava muito ocupada com a performance acrobática de Alessa para desviar das carteiras e sair da sala o mais rápido possível, e assim ela o fez.
– Por favor, — Disse ao coordenador, esbaforida – não me faça voltar outra vez.
Jorge não entendeu muito bem a situação, mas deu passagem à garota para sair da classe. Com um leve aceno de despedida, fechou a porta. Não demorou muito para que os alunos voltassem a promover sua algazarra, e para que o professor tentasse explicar sua matéria novamente. Tentar continuar a lista de chamada já não era sensato.
– Então, turma, alguém poderia explicar de forma sintetizada como o trabalho dos rins é feito?
– Aê, professor, — Gritou um dos alunos do fundo da sala. Chamava-se Yago. Um nome bem curto para alguém do seu porte – pergunta para a japoronga. Ouvi dizer que asiáticos manjam disso.
– Ai, seu bobo! – Respondeu uma das alunas que Alessa gostava de denominar como “prostituta de luxo” – Ela não vai saber responder. Chineses só entendem de Matemática.
Sara levantou a cabeça, sem retirar o sorriso do seu rosto.
– Respondo sim, professor. – Disse calmamente.
A menina dos olhos cerrados começou a falar, mantendo o mesmo tom durante toda a explicação. Sintetizou o assunto como se houvesse estudado sobre os rins e suas funções durante toda a sua vida. Resumiu, em poucos minutos, o maior número de informações possíveis de que conseguia se lembrar. Por fim, respirou fundo para retomar o oxigênio gasto durante sua mini palestra e respondeu à Clara.
– Eu não sou chinesa, Clara. Eu sou japonesa. Talvez o seu cérebro de marsupial não a permita saber a diferença... Ou quem sabe foi a quantidade de produtos químicos que você passou nesse cabelo para ele ficar ondulado desse jeito? – E endireitou-se novamente na sua cadeira, como se nada tivesse acontecido.
Absolutamente todos os alunos começaram a gritar e rir escandalosamente. Clara ficou sem reação. Olhou para Yago, que não sabia se deveria dar risada ou permanecer na sua pose de badboy, adquirindo uma expressão ridícula. Sem saber o que fazer, ajeitou seus curtos cabelos ondulados, tentando disfarçar o constrangimento, e pegou seu celular, digitando sabe-se lá o que.
Sara não demonstrou um sinal de estresse. Continuou sorrindo.
Fale com o autor