Olhos de Avelã
2 Uirapuru
Cada passo pelo pátio escolar vinha acompanhado de uma pequena reza, para que nenhum aluno percebesse a sua presença, acompanhada do "diplomata". Qualquer olhar curioso de um aluno através das janelas das salas de aula já seriam intimidadores suficiente para que Alessa continuasse o resto do percurso de olhos fechados, e que se explodam os riscos de topar com uma pilastra ou tropeçar em um buraco. Naquele momento, a garota preferia ter as duas pernas quebradas a ser objeto de estudo dos alunos, tão entendiados que qualquer pequena movimentação já se tornava o mais consagrado entretenimento.
A arquitetura do local parecia incentivar esse tipo de atitude. As salas de aula não se localizavam em um corredor de um edifício, como é mais comum, e sim circundadas por um enorme pátio a céu aberto. Ao contrário da sensação de tortura gratuita que as classes promoviam, o ambiente era o mais colorido possível, coberto por ipês, palmeiras e pequenos arbustos das mais diversas espécies de flores. Olhando do topo, se tornava perceptível o caminho de tijolos brancos feito para a movimentação das pessoas: oito retas, iniciando-se no centro e direcionando-se uma para cada canto e ponto cardeal do pátio. Entre os espaços se localizava a flora local. Quem se arriscasse a perder algumas horas observando a beleza do recinto, provavelmente se encontraria com alguns beija-flores.
Para Alessa, aquele ambiente nunca fora tão horrível. Olhando pela perspectiva dos alunos, o pátio escolar era um palco, e as ações das pessoas que por ali passavam, suas atuações. Acontecimentos que deturpavam a serenidade dos pássaros eram logo registrados por algum celular, e se valessem a pena continuarem ocupando a memória do aparelho, no outro dia já haviam sido disseminados, como uma praga. E não foram poucos os casos em que isso aconteceu.
– Me desculpe, senhorita Alessa, — Tomou a palavra o coordenador — mas tu estás a passar a impressão de que está escondendo algo.
– Ainda bem que é só uma impressão, né, Jorge? — Deu uma risadinha, tentando esconder o nervosismo. Em vão, óbvio.
– Depois nós falamos sobre isso na minha sala. — O coordenador acelerou os passos, obrigando a aluno a acompanhar seu ritmo.
– Isso, graças a Deus! — Pensou Alessa.
A sala da coordenação não era longe, de fato. O que havia tornado a caminhada tão exaustiva para Alessa eram as periódicas paradas que Jorge dava para olhar para a copa das árvores, procurando um tipo específico de pássaro. Ele já havia comentando com os alunos sobre essa ave inúmeras vezes, que por sua vez emanava um piado altíssimo, atrapalhando a concentração já prejudicada das classes, mas como era de se esperar, ninguém dava a mínima e sequer lembravam-se do nome do animal. Fato é que Jorge queria tirá-lao dali e realocá-lo para um parque qualquer. Já não aguentava mais ser surpreendido pelos gritos da criatura, absolutamente avulsos a qualquer horário, mas a ave parecia sumir entre as folhas e ele nunca conseguiu identificar, com total certeza, de que espécie se tratava.
Em compensação, usava do seu parvo conhecimento sobre pássaros para alertar os alunos a avisá-lo caso avistassem o uirapuru.
Mais à frente, a porta da sala da coordenação parecia gritar o nome de Alessa desde o momento em que ela saiu da sala de aula. Localizada na ala oeste do complexo escolar, a garota dos cabelos platinados já havia estado no cômodo algumas vezes. Coberta por um papel de parede que citava frases de diversos filósofos, cientistas e cantores, em diversas línguas, a sala era de tamanho médio e mobiliada com mogno. Ao centro, uma mesa, lotada de papéis e com um computador relativamente moderno. Quem observasse o ambiente fora do contexto poderia deduzir facilmente de que se tratava de um escritório empresarial, daqueles que têm como princípio o bem estar do funcionário para que este obtenha seu melhor desempenho. Ao fundo, uma enorme janela, que ocupava quase uma parede por inteira, brindava os raios de Sol que tiveram a sorte de não caírem sobre as salas de aula. Uma muda de yuca repousava em um enorme vaso de madeira, no canto da parede do grande vidraçal.
Por fim, faltavam, no máximo, dez passos para ser consagrada.
Alessa se controlava para não investir contra a porta, puxar a manivela e se abrigar dentro do cômodo. Livre de olhares, livre de aflição.
Três passos.
Jorge girou a manivela dourada e redonda para a esquerda, ouvindo o estalo da fechadura e empurrando-a levemente para dentro, finalmente abrindo passagem para dentro da sala. Alessa não quis saber de gentilezas: passou na frente do coordenador e sentou-se em uma cadeira de espera. Respirou profundamente por alguns segundos, abaixando a sua cabeça. Ao levantá-la, percebeu que havia uma mulher, sentada em uma das cadeiras da mesa do coordenador, impaciente. Este por sua vez, ajeitou-se e ocupou seu lugar na mesa, ficando de frente para a cliente.
Jorge repousou a cabeça sobre seus dedos, cruzados, apoiados na mesa de mogno pelos seus cotovelos, como quem está pensativo. Desviou o olhar para Alessa rapidamente e logo o retornou para a mulher. Por fim, pegou um pen-drive no caneteiro e tentou plugar no seu computador, obtendo êxito na segunda tentativa.
– Alessa, pode se sentar.
A garota olhou para a mulher e percebeu uma cadeira vaga ao seu lado. Levantou-se, ajeitou a blusa e andou brevemente até o seu lugar reservado, já deduzindo o que iria acontecer.
Sentou-se e sussurrou para a mulher, humildemente:
– Mãe, eu juro que não fiz nada.
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