...Você

Eu a vi.

Meus olhos a viu de uma forma diferente do que todos daquele consultório. Ela estava com um vestido azul escuro, justo no busto e da cintura para baixo rodado, longo, nos seus pés uma sandália baixa. Seus cabelos compridos, cor do eclipse lunar, estavam amarrados com o penteado “rabo de cavalo”, em seus lábios um sorriso sóbrio e travesso, nos seus olhos, um olhar fosco e atento. Acho que estava a encarando por algum tempo, pois ela se inclinou e olhou em meus olhos, foi neste momento que percebi o que estava a minha frente.

Acordei em sobressalto, não entendi aquele olhar em meus sonhos, havia uma explicação naquela imagem do meu subconsciente. Quando olhei para o relógio ao meu lado, estava atrasado para a aula — nunca fui um aluno exemplar — tão pouco seria um professor perfeito. Levantei, corri para o banheiro da república, pela primeira vez estava vazio e limpo, tomei um banho, retornei para o quarto. Vesti com uma rapidez surpreendente uma camisa branca, uma calça preta e calcei meu all star surrado, peguei as chaves do quarto e minha pasta, o ônibus iria passar em apenas seis minutos, desci as escadas, tropecei no último degrau, porém o meu equilíbrio foi maior e melhor, sai correndo igual ao magma saindo do vulcão. Após alguns minutos, tomei o ônibus e sentei-me na cadeira ao lado da janela, próximo a porta da saída, coloquei meus fones, encaixei-o no aparelho celular, coloquei um rock qualquer e peguei o roteiro de aula elaborado na noite anterior.

Em algum momento desprendi a minha atenção da leitura, encostei a cabeça no vidro, estava viajando com a música, pensamento longe, quando a vi novamente.

Ela estava utilizando um boné, um macacão e uma blusa de cor bege manga longa, quando o seu olhar se levantou, por debaixo da aba do boné ela piscou os seus olhos grandes, senti que eles disseram um “oi” junto com a gesticulação dos seus lábios. Tinha algumas pessoas naquele terminal de ônibus, um rapaz sentado ao seu lado que estava conversando com uma senhora de aparentemente 60 anos e duas crianças que supostamente estava acompanhando aquela senhora. Não pude ignorar a beleza daquela moça estranha, daquela criatura encantadora, apenas as duas crianças estavam se deliciando com a presença dela. Após olhar para o rapaz e pra senhora, sorriu para as crianças, acenou para o ônibus que estava atrás do carro que eu estava e supostamente o tomou. O próximo ponto de parada era o meu, como estava atrasado o bastante para aula, não pude ser insano para ir atrás dela.

Minha aula, como sempre, foi dialética e com bastante cálculo, mesmo sendo aula de físico-química, meus alunos gostam de questionar antes de fazer os exercícios. Hoje era o dia de ir ao Hemoba, doar sangue, ir ao consultório pegar os exames necessários para a cirurgia e principalmente, corrigir as provas da unidade passada.

Quando cheguei ao consultório, um pouco cansado e fraco por ficar um bom tempo sentado, vendo aquele liquido vermelho cheio de células trabalhando e de átomos comandando as funções celulares passar pelo cano até chegar naquela bolsa que salvaria algumas vidas. Suspirei ao ver a porta se abrir enquanto aproximava dela, depois de passar pela porta eletromagnética, dirigir-me ao balcão de atendimento, inclinei um pouco, pois o balcão era baixo e a moça ficava ainda mais baixa. No momento que iria falar com a recepcionista escutei um sorriso sóbrio e audível o bastante para ter o Déjà vu. Virei e o que percebi foi o vestido azul e seus olhos sobre mim.

Tudo estava igual ao sonho.

Esperava mesmo que tudo fosse um sonho. Mas com o tempo percebi que tudo aquilo eram sinais de boas vindas ao impossível.

Ela...

Não vou mentir, ele me atormentou com aquele olhar de medo e satisfação por encontrar o meu, fiz um aceno com a cabeça, mas não obtive resposta. A expressão de seu rosto era de cansaço, deve ser por causa do trabalho ou algo parecido.

O esperei por alguns minutos do lado de fora, próximo à porta. Queria conhece-lo formalmente, porém, começou a escurecer e precisava pegar o ônibus, era praticamente 17h38min. Durante a caminhada não conseguia parar de pensar nele, um rapaz de altura média, cabelos negros, lisos e espetados pra cima, corpo normal, de estilo alternativo, mas nunca despojado demais, olhos de cor castanho claro, sua pele tem uma cor de mel que combina plenamente com as características do índio Peri do clássico de José de Alencar. O seu nome é Benjamin Rodriguez, nasceu no dia 1º de janeiro, 27 anos, solteiro, professor de física para o ensino médio e de físico-química no ensino superior, mora só, em um quarto da república Sul, localizada em Vitória da Conquista. Li esses dados no sistema do consultório, pois eu estava fazendo atualizações no microcomputador da atendente no dia que ele foi realizar o exame. Há algum tempo trabalho no laboratório de analises, onde realizou a coleta de algumas amostras de sangue, para ver a compatibilidade e a saúde do rapaz, para fazer uma cirurgia de doação de órgãos, se não me engano.

Quando cheguei ao terminal de ônibus, sentei no banco para descansar, desabotoei as tiras da sandália, respirei fundo e fechei os olhos por alguns segundos, trabalhar como técnica de informática em uma clínica é muito cansativo principalmente quando não há ninguém a mais no setor, apenas eu e as máquinas. Escutei o barulho do motor do ônibus, inclinei um pouco e vi que o bendito estava indo para a garagem, no mesmo momento um carro escuro estacionou no outro lado da rua, reparei na placa era familiar aquela combinação de letra e número, porém não me forcei a lembrar. No mesmo momento veio um vento forte e gélido se batendo contra a minha pele, a porta do carro se abriu e saiu um homem alto, vestido de terno preto com gravata vermelha, cabelos bem arrumado e partido de lado, ele parecia um executivo com seus olhos nublados e grandes e com uma expressão séria, em alguns segundos ele estava em minha frente.

─ Senhorita Thompson, isso lhe pertence. – ele estendeu uma pasta preta, volumosa.

Olhei para as mãos que estavam segurando e estendendo o objeto, percebi uma tatuagem em seu punho esquerdo, esperava ver um relógio ou algo parecido, mas não, lá tinha uma tatuagem dos olhos de uma coruja, olhos vazios e nebulosos, iguais ao dele me fitando quando levantei o rosto enquanto pegava a pasta.

─ Quem é você? – perguntei quando ele estava soltando o objeto em minhas mãos.

─ Todas as respostas estão ai. – disse o desconhecido apontando para o objeto que estava em minhas mãos.

Não sei como aconteceu, a pasta estava no chão, aberta, as folhas sobrevoando na rua, por causa da velocidade do vento. Um rapaz correndo para pegá-las e o homem bem vestido já tinha desaparecido com o seu carro de luxo.

─ Acho que isso é seu. – disse Benjamin entregando todas as folhas que tinham se soltado da pasta.

Quando o olhei, senti que tomou um susto, de não sei do que, e deu um passo pra trás, peguei as folhas e estendi a minha mão.

─ Obrigada, me chamo Claire. – dei um sorriso, como uma boa apresentação deve ser feita.

─ Não há de quer. – ele respondeu com uma voz inaudível. Minha mão ficou esperando um aperto de mão, mas fiquei no vácuo. – Desculpe em perguntar, mas você utiliza lentes de contato?

Não entendendo a causa da pergunta, meneei a cabeça fazendo um sinal negativo. Ele olhou pra trás e percebeu que o ônibus que faz a rota próxima ao seu endereço estava se aproximando, rapidamente voltou o seu olhar confuso em mim, pegou um bloco de anotações dentro de sua bolsa e um lápis, anotou um número e seu nome, me entregou e saiu correndo para tomar o ônibus. O olhei correndo e percebi, pela blusa branca, um pouco transparente por causa das lavagens excessivas, que ele era mais musculoso, porém não muito marombado, abri a bolsa e guardei a pasta e o papel do Benjamin, por curiosidade da pergunta feita, peguei o espelho que estava lá dentro e olhei o meu rosto.

Realmente, tinha algo estranho. Meus olhos grandes e foscos estavam com o brilho da lua.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.