Old Man
7 Old Man 7
Notas iniciais
Old Man #7
Cinza. Essa é a cor da sala de escritório em que o elevador parara. Quiçá seja o adjetivo que, precisamente, descrevia toda a ambientação e o clima. Cinza. Era também a cor dos paletós e das calças que os funcionários usavam, dos computadores antigos e dos teclados. Cinza era a cor das mesas, das cadeiras e dos telefones. Tudo se compunha em um cenário monocromático de um escritório de alguma empresa de seguros ou de investimentos, onde todos os trabalhadores estavam ativos, falando no telefone, digitando preços, pesquisando empresas, escrevendo algum relatório em uma folha pautada, ou tudo ao mesmo tempo.
Cinza era a cor do revolver no cinto do cowboy que caminhou vagarosamente pelo corredor abarrotado de pessoas e pilhas e mais pilhas de papeis a serem preenchidos. Quando ele entrou na sala todos pararam o que estavam fazendo para olhar a figura magricela e curvada. Suas vestes chamavam a atenção do público, justamente por entrarem em contraste com o ambiente sem graça, dando um pouco de cor ao cinza e branco. Os tons de marrom e vermelho em suas vestes atraiam a curiosidade dos funcionários, instaurando o que seria um silencio mórbido, se não fossem pelos toques de telefones que ainda ocorriam, esperando serem atendidos.
O que parecia uma situação tensa, acabou sendo quebrada pela falta de interesse dos trabalhadores, que reconheciam o convidado, voltando a fazer o que estavam fazendo. O cowboy tinha sua boca tapada por uma bandana vermelha e mantinha seu torso escondido atrás de um poncho misterioso. Ele varreu a sala com seu olhar amargo, de um lado ao outro, analisando cada funcionário presente, e suas ações.
— Olhem para mim, seus porcos! – Apesar de abafada, sua voz ressoou por toda a sala.
De um momento ao outro, toda a atenção se focou nele novamente, agora o silêncio não fora interrompido pelos telefones. Todos prestavam atenção na figura em frente ao elevador cinzento. O cowboy levou a mão direita à bandana e destampou a boca e o nariz, revelando um bigode volumoso, branco, que se unia em um emaranhado com a grande barba, também branca, dando-lhe um aspecto sinistro de veterano de alguma guerra.
— Ótimo. – Ele arriscou um sorriso escarnado. – Agora que tenho a atenção de vocês, por que não me dizem onde posso encontrar meu velho amigo? – Perguntou ele mirando nos olhos de cada um que estava presente no escritório.
Um homem se levantou. Ele devia ter em torno de 60 a 65 anos, cabelos brancos e bem penteados. Uma barba rala e bem cortada. Usava um par de óculos de grau, redondos e pequenos. Seu terno parecia bem caro e em seu crachá, alfinetado ao paletó, estava escrito seu nome com letras negras em um fundo dourado.
— Depois de tantos pecados que cometeu, tanta ira que provocou, tanto ódio e violência que proporcionou e tanto trabalho que deu à essa empresa. Como, Velho, tem coragem de dar as caras por aqui e ainda exigir que fale com nosso chefe? – Disse o homem que estava em pé.
— Só quero fazer negócios. —Disse o Velho entre os dentes amarelados de tanto fumar, levantando a cabeça sem tirar os olhos sanguinários do funcionário corajoso.
— Negócios? – Perguntou, incrédulo, o funcionário. – Da última vez que veio aqui fazer seus “negócios” — Ele sinalizou aspas com as mãos. – Você xingou Nossa Senhora, deu um soco na cara do Sebastião, cagou na minha sala e chapou de maconha com o chefe. Cacete! Você mijou na cadeira de Bartolomeu.
— É verdade! – A voz de Bartolomeu ecoou baixa, ao fundo.
— Ora vamos, Pedro, não diga que não gosta das minhas visitas, você sempre acaba se divertindo da maneira que gosta: gritando coisas absurdas e correndo por aí com as narinas sangrando e as pupilas dilatadas. Pode falar, meus negócios são sempre incríveis.
Todos se entreolharam e, em seguida, miraram Pedro, ainda em pé. O silencio invadiu o escritório, forçando toda a tensão para o funcionário.
— Certo. – Cuspiu Pedro, enfim. – Me siga.
Pedro descruzou os braços e fez um sinal com a cabeça para que o Velho o seguisse. Ele o fez, caminhando a passos largos, porém com uma certa pressa. Todos os funcionários continuaram o que estavam fazendo. Mexendo em papeladas e arquivando coisas importantes. Os dois, o cowboy e Pedro, atravessaram o corredor daquele andar e, logo os ruídos de um escritório movimentado foram diminuindo cada vez mais, até que só sobrassem os ecos das solas duras dos dois homens. Eles chegaram a uma porta, no final do corredor, ela era de madeira, parecia muito luxuosa. Um verdadeiro escritório particular de algum chefe de empresa multinacional. Era como se aquela fosse a sala de algum CEO de algum grande empreendimento. Na porta, em letras simples, porém chamativas e em um dourado, estava escrito:
“Deus”
Era o próprio.
Com um chute na porta, o Velho entrou.
— HALELLUJAH CARALHO!! – Gritou ele.
— Ei! Olhe a boca homem! – Disse São Pedro logo atrás, tentando reprimir a indecência do cowboy.
— E aí, meu senhor, como é que tá nessa chatice que chamam de Paraiso?
A imagem à frente era a de uma poltrona de couro, muito cara por sinal. A sala era constituída por paredes que, em suma, eram estantes de livros, alguns mais grossos que outros, e alguns que aparentavam serem mais antigos que outros. Havia em um canto um abajur, logo abaixo, um livro grosso e imponente, aberto em alguma pagina aleatória, talvez por estética. A mesa era de madeira ébano, uma das dez madeiras mais caras e mais difíceis de serem encontradas no mundo, nela haviam alguns papeis, um computador moderno e um crucifixo. A cadeira demorou um pouco, mas se virou, revelando a pessoa ali sentada.
Era a própria imagem que os cristãos têm de Deus. Era um homem com barba branca e cabelos longos, também brancos, já tinha uma certa idade, a dizer pelas rugas em seu rosto, porem mantinha a aparência conservada. Seus cabelos não estavam soltos, eles se mantinham em um rabo de cavalo moderno e muito bem penteado. Vestia um terno “William Fioravanti Bespoke”, que deveria custar mais ou menos a vida de alguns trabalhadores da China. Deus se virou vagarosamente e sorriu com a visita.
— Veja so quem voltou para a minha mesa. – Riu ele. – O mercenário mais filho da puta que eu tive orgulho de criar. – Ele se levantou e foi ao encontro do Velho, de braços abertos. – A que devo essa presença maravilhosa? Mais um de seus “negócios”? – Disse Deus, fazendo um sinal com a mão, levando-a à boca e tirando, como se fosse um cigarro.
— Não dessa vez, meu velho. Vim para fazer algum favor a você. Se é que me entende.
— Oh, entendo. Claro que entendo.
— Fiquei sabendo que tem algo para mim. – Disse o Velho, tomando cuidado para que Pedro não ouvisse a conversa, afinal ele ainda estava dentro da sala, ali com eles. – Me parece coisa séria, meu Pai, para o senhor me chamar para esse tipo de serviço.
— Oh sim. – Começou Deus. – Bem comecemos pelo fato de que a minha onipotência não é tão onipotente assim, certo? Vamos dizer que eu posso fazer tudo, exceto me arrepender do que já fiz e tentar fazer novamente. Compreende? – Perguntou o homem.
— Não.
— Ok, vou explicar melhor. – Deus revirou os olhos. – Lembra-se de quando eu bani uma certa pessoa para um certo lugar? E essa pessoa acabou ficando famosinho por aí? Reunindo uma galera meio barra pesada... levando um pessoal a desacreditar de mim... deixando um pessoal cultuar a sua imagem? Lembra?
— Você não tá dizendo que...
— Olhe. Eu sei que você e ele são amigos, é fato, sou onisciente também. – Interrompeu Deus. – Mas não posso mais fingir que não estou olhando as merdas que ele anda fazendo. Você sabe muito bem que esse cara anda deixando o submundo nas mãos de um pessoal menos dedicado.
— Eu não vou atrás do meu amigo, cara, já tive que fazer isso, não foi legal.
— Ele saiu do inferno, cowboy. Ele não fica mais lá, se dedica à igreja e fica por aí dizendo que se arrependeu do que fez no passado, e que não quer mais voltar pra casa. Acho que ele enlouqueceu. Portanto, eu te chamei aqui para mandar ele de volta pro exilio, pra ele fazer a porra do trabalho dele e largar a mão de ser preguiçoso.
— Olha aqui, meu senhor. – O Velho não estava mais tão animado. – Eu não vou caçar mais um amigo. Ouviu bem? – Ele afastou Deus com um empurrão.
— Cuidado, Velho, com suas ações. Você não quer provocar o fim de mais uma Terra, quer?
— A culpa é sua que não sabe se controlar quando vê um punhado de coca.
Deus ficou sem graça.
— Ok, ok. Me pegou. Faça se quiser, quem sou eu para bater de frente com você, não é mesmo?
— Da última vez não deu muito certo né? – Riu o mercenário.
— Então tudo bem, eu chamo outro cara. – Deus se virou para voltar à sua poltrona, enquanto Pedro ainda estava de pé, olhando para ambos, com um olhar de preocupação e um pouco de medo. – Mas antes de ir embora. – Ele se sentou e mirou os olhos do cowboy com um grande sorriso. – Por que não relaxamos?
O Velho sorriu. São Pedro entendeu aquilo como uma deixa para que voltasse ao trabalho, levando consigo um saquinho com um pó branco, deixando o dinheiro com o cowboy. O Velho, então, sacou um pacote com algo similar a orégano, sacou também algumas folhas de um papel fino.
Eles passaram algum tempo fumando aquela erva, tomando tempo para conversarem sobre os trabalhos, avenças e desavenças de cada um. Sobre como Deus, entediado, resolveu falar com um homem chamado Noé para que ele construísse uma embarcação gigante para levar dois de cada animal da terra, e depois mijou encima do globo rindo e bebendo com os outros arcanjos. Eles riram bastante enquanto conversavam, porem logo o Velho, sob efeito da erva, começou a balbuciar algumas das desventuras que teve com Lúcifer.
— Ele é um cara muito gente boa, sabe? Não entendo por que vocês têm tanto preconceito com ele.
— Ele quis ser melhor ou igual a mim, e eu não sou comunista.
— Deixa o cara, ele tem tanta capacidade quanto você, pai.
— Mas você há de convir comigo que ele faz bastante merda.
— Não posso negar. – O Velho baixou a cabeça. – Ele andou fazendo umas cagadas por aí que me deixaram um pouco bolado. Tudo bem se arrepender, mas ir pra Terra e virar bispo é sacanagem. Fora que ele vendeu uma carga de coca errada da última vez que a gente se falou. Ahhh foda-se, me passa o serviço.
— Ué, assim sem mais nem menos?
— É, caguei, vou ficar entediado de qualquer jeito.
— Beleza, já te passo as informações.
Eles brindaram com as garrafas de cerveja, beberam e tragaram mais um pouco de erva. Foi então que um barulho vindo do corredor chamou a atenção deles. Era um som de passos, como se alguém estivesse descalço, correndo e como se um animal estivesse guinchando, tudo isso se aproximando da sala. O guincho foi se tornando mais humano, para então se formar em um grito alucinado. A porta se abriu com força. Era Pedro, usando nada mais que uma sunga e um chapéu de palha, com as duas narinas sangrando, berrando e balançando os braços como se estivesse sendo atacado por um enxame de abelhas. Ele saiu da sala da mesma forma que entrou e seu grito logo se perdeu no prédio.
— Cacete. – Disse Deus. – O que você vendeu pra ele?
— Os restos da festa passada. – Riu o Velho.
— Mas isso foi há quatro anos, a droga já devia estar vencida.
— Por isso que é engraçado.
— Não é perigoso?
— Logico que é!
Ambos caíram na gargalhada.
Fale com o autor