Old Man

8 Old Man 8


Notas iniciais
Enfrentar um irmão nunca é fácil, ainda mais se foi ele quem te ensinou a lutar.

Old Man #8

O som dos passos no assoalho de madeira ecoava, devido aos sapatos de sola dura, caros do mordomo da mansão. Já era quase a hora de despertar na casa, todos ainda estavam dormindo, exceto, é claro, os seguranças e o mordomo, que se encaminhava para a cozinha para preparar o café da manhã da família que morava ali. Ele era um senhor de idade, esbelto, alto e com uma postura exemplar, já vestia seu traje habitual: um paletó com gravata borboleta, calças que pareciam muito confortáveis e, como já descrito, sapatos caros de sola dura. Sua pele era branca, quase pálida, tinha um bigode elegante e volumoso, usava óculos de grau pequenos e redondos, era calvo na parte de cima da cabeça com amontoados de cabelo, grisalhos, nas laterais, muito bem penteados por sinal.

Ele desceu as escadas vagarosamente, ascendendo e apagando as luzes conforme progredia no silencio noturno. A casa mansão era digna da realeza, com um visual “vintage”, abrigando quadros pintados à mão, esculturas e algumas cabeças de animais empalhadas, penduradas nas paredes da escada e da sala. O mordomo passou pela sala de estar, também muito arrumada e limpa, sem nenhum sinal de poeira nos sofás caros, nem mesmo nas enormes estantes abarrotadas de livros que pareciam estar ali apenas como um enfeite excêntrico. Chegou na grande cozinha, e o ambiente mudou de algo antigo e cheio de classe para um lugar moderno e mais contemporâneo.

As três geladeiras compunham uma parede inteira, todas as três com portas duplas, certamente cheias de alimentos dos mais diversos tipos. Em uma bancada moderna, um fogão digital se encontrava reluzente e brilhante, sem sujeira alguma. O micro-ondas era de última geração, com mil e uma funções, e ao seu redor, uma variedade de armários que guardavam toda sorte de utensílios. Certamente uma cozinha digna da alta classe da sociedade.

O mordomo parou na porta do cômodo e suspirou, pensando em que devia preparar para a primeira refeição do dia de seus mestres, o que certamente não era algo fácil de se escolher, afinal ambos os filhos eram pessoas com paladares seletivos. Resolveu que faria um café da manhã simples e comum, mas caprichado: os famosos ovos e bacon com panquecas e suco de laranja, talvez algum café com leite ou um achocolatado para as crianças. De qualquer forma ele se pôs a trabalhar.

Começou com os ovos, decidiu que seriam mexidos, adicionou um pouco de manteiga, sal e completou com cebola picada, retirando sua ardência na frigideira. Enquanto fazia os ovos, pegou uma segunda frigideira e começou a fritar o bacon, o que não dava trabalho algum. Assim que pousou o ultimo filete de carne na panela, voltou sua atenção para a mistura doce que seria a base das panquecas e, tão rápido quanto pôde, adicionou ao fogão a parte adocicada da manhã.

Tudo estava nos conformes, então ele resolveu que deveria fazer um pouco para si mesmo. Foi até uma caixa de som que repousava na bancada e ligou um pouco de música, em um volume agradável para não acordar os que ainda estavam dormindo. Ele resolveu se entreter com um pouco de música clássica. Sintonizou com sua playlist, deixando de fundo “Réquiem: Lacrimosa” de Wolfgang Amadeus.

O subordinado terminou a primeira leva e percebeu que era muito e que não ia comer tudo aquilo. Ele, então ofereceu parte do prato ao homem que estava ali encostado o canto da cozinha, desde que o mordomo havia entrado no cômodo. Era um homem magro e velho, com barba branca e longa, vestindo roupas de algum cowboy de algum filme do Clint Eastwood, com uma bandana vermelha cobrindo seu pescoço, não tapando a boca, como geralmente fazia.

— Olá velho amigo. – Disse o mordomo sem demonstrar qualquer espanto ou surpresa com a aparição. –Há quanto tempo não é mesmo? Já nem me lembrava mais de seu rosto antipático e cínico, agora vejo que continua o mesmo, antipático e – Ele fez uma pausa. – Cínico.

— Olha só, Alfred, meu amigo. – Disse o Velho desencostando as costas da parede e se aproximando da bancada, onde o mordomo acabara de se sentar, posicionando dois pratos com a comida e dois pares de talheres, um para cada. O Velho se sentou junto a ele. –Você sabe muito bem que eu não tenho nada contra você, muito pelo contrário, te acho um cara fantástico. Mas você sabe como as coisas são, não sabe?

— Você veio me matar? – Perguntou, ainda sem demonstrar qualquer emoção, apenas uma expressão séria em seu rosto já enrugado, olhando para seu prato, juntando um pouco de ovo e um pedaço do bacon. Ele deu uma garfada. –Por que se você veio até aqui me dizer que sou um alvo, não terei o menor problema em me entregar, afinal, já vivi o suficiente.

— Não, Alfred, eu nunca...

— Mas agora. – Interrompeu o mordomo, agora levantando os olhos e mirando os do Velho. –Se veio atrás de meus mestres, sinto lhe informar, mas não posso permitir que o faça

O Cowboy mirou seu amigo com a boca cheia de ovos e bacon.

— Me explique por que não. – Disse o Velho. – Pelo que meu contratante me informou, estou atrás de um bilionário que enriqueceu pela corrupção, um político envolvido em mais crimes que eu e você juntos, e uma pecadora que até Deus teria repudio só de olhar para a cara dela. Acredite Alfred, não quero te fazer mal, mas aqueles dois são alvos que merecem o que terão, e vá por mim quando digo, a grana oferecida é equivalente a essa mansão e aos carros na garagem juntos. Você sabe tão bem quanto eu que eles merecem, então não tente me impedir, não quero ter que matar mais um amigo por causa de um contrato.

O mordomo terminou de mastigar os pedaços frescos de cebola e carne que ainda estavam em sua boca e engoliu a comida. Limpou os lábios enrugados com um guardanapo de pano e repousou os talheres no prato com um tilintar de porcelana. Ele cruzou seus olhos com os do homem a sua frente e com seriedade na voz ele proferiu:

— Vá em frente, pode tentar.

O Velho tornou a ficar sério e a música chegou em seu ápice.

A investida foi rápida como um relâmpago. O cowboy se levantou e sacou a arma já a apontando para a cabeça do mordomo, que com impecável reflexo imobilizou o braço do oponente, desviando o bico do revolver para o lado, evitando ser atingido pelo raio vermelho que acabara de ser disparado, explodindo a pia inoxidável do outro lado da cozinha. Alfred, em um movimento experiente, desarmou seu oponente, deixando a arma cair na bancada e em seguida no chão. A bancada ainda estava entre os dois, mas não impedia o Velho de desferir golpes em Alfred, que com reflexos inumanos desviava dos ataques. O cowboy era rápido, mas para o mordomo aquilo parecia fácil, pois ele não se defendia, apenas esquivava.

Cansado de ter um obstáculo, o cowboy subiu na bancada com um pulo ágil e caiu com um chute no mordomo, que teve de usar, pela primeira vez, seus braços como defesa, e se afastando em seguida. Os socos e chutes do Velho começaram a ficar mais rápidos e mais precisos, fazendo com que o mordomo se afastasse a cada movimento, levando a luta para a sala. Alfred derrubou a primeira gota de suor e, com ela seu primeiro ataque. Um contra-ataque de um soco do Velho. Era como um tiro no nariz do protagonista.

— Continua afiado, Alfred. – Disse o Velho, se afastando e soltando um sorriso de canto de boca, provocativo. Refez sua defesa, pronto para mais.

— Você está mais devagar. – Disse Alfred, ainda muito concentrado.

A dança de socos e chutes se estendeu para o grande salão principal. Parecia que os movimentos nunca acabariam, e as sequencias desferidas pelo Velho estavam cada vez mais difíceis de serem esquivadas, deixando Alfred sem opções a não ser se defender. Os contra-ataques do mordomo eram quase invisíveis a olho nu, mas eram perceptíveis aos olhos ágeis e bem treinados do protagonista, que desviava perfeitamente. O Velho estava mais concentrado em cada golpe, os socos e chutes cortavam o ar como balas, mas o mordomo era veloz.

O cowboy tentou um golpe arriscado, se aproximando do alvo com um gancho de esquerda, porem foi falho, o mordomo ganhou vantagem: Segurou com firmeza, e sem grande esforço, o punho do oponente, com a mão direita e com esquerda segurou seu cotovelo, imobilizando o braço inteiro do Velho e, tão rápido quanto um relâmpago, atingiu a boca do estomago do cowboy com seu joelho.

A dor não veio de imediato, o que o Velho achou estranho, pois apenas havia sofrido com o impacto e se afastado por um momento. Não sentindo qualquer ferimento partiu em uma investida feroz, mostrando os dentes com um animal. O Velho previu um soco potente de seu adversário que certamente iria apagá-lo em um instante, com isso ele desviou com maestria e devolveu, quase instantaneamente, com uma joelhada no queixo do mordomo, que resistiu.

Surpreso, o Velho pousou no chão e, ofegante sorriu, como se gostasse da briga. Ambos se olharam. O mordomo ajeitou a mandíbula, cerrou seus olhos como se estivesse apreciando o suor em sua testa reluzente, voltou a uma postura reta e pôs suas mãos para traz. Ele abriu seus olhos e baixou sua cabeça em uma expressão de pura intimidação e ódio.

— O que está esperando? – Perguntou Alfred.

O Velho por um momento estremeceu. As memorias de uma amizade invadiram sua mente. As lembranças da Guerra eram pontadas em sua mente. Ele se lembrou das risadas que tiveram, dos assassinatos que tiveram que executar, das missões, das cervejas e dos fumos. Lembrou-se dos tempos de juventude que tiveram em campo. E de tudo o que Alfred o ensinara até então. Era como um irmão mais velho para o cowboy, que agora o queria morto, apenas para proteger seus mestres corruptos e desprezíveis, que valiam uma nota preta. Por sua vez, o cowboy se viu sem resposta, apenas respirando fundo e armando defesa, para um próximo embate.

Ele planejou o ataque em instantes e decidiu o que iria fazer. O Velho investiu armando um soco de direita, porem algo o parou. Com o primeiro passo da investida poderosa, veio a dor, primeiro no braço esquerdo. Era agoniante, ele voltou sua atenção para o ponto de dor e notou a grande mancha escura que formara e um desnível, sim, um desnível, como se seu osso quisesse rasgar sua pele. Uma fratura. O mordomo havia quebrado a ulna e o rádio do braço esquerdo de seu oponente, sem ao menos interferir na capacidade perceptiva do Velho. O segundo pico de dor aconteceu segundos depois do primeiro, desta vez no estomago, essa dor não eram apenas pontadas, mas também uma ardência, que começou tímida, mas logo se tornou o centro das atenções, parecia pegar fogo.

— O.. O que fez comigo? – Gaguejou o cowboy, contorcendo-se em agonia.

— Você sabe muito bem das minhas habilidades. – Respondeu o mordomo, ajeitado seus óculos para que ficassem mais próximos aos olhos, fechados. – Nos poucos movimentos que encostei em você, quebrei dois ossos e estourei as principais veias e tubos de seu estomago. Ah... e seu sistema respiratório está sendo obstruído pelos fragmentos ósseos do que antes era o seu nariz.

O cowboy começou a sentir o sangue escorrer pela narina, chegando até o bigode branco. Dor foi o que aconteceu logo em seguida.

— Merda, Alfred. –Disse o Velho sentido o gosto de seu próprio sangue. Sua perna esquerda perdeu força, forçando-o a ajoelhar-se com ela, mas resistindo com a direita. Seu braço doía muito e ele respirava com dificuldade. A consciência resistia, mas estava perdendo a luta.

Preciso ficar acordado. PORRA ALFRED!

— Não acho que ficará vivo por muito mais tempo, velho amigo. – Disse o mordomo com desprezo. – Pense pelo lado positivo, você já conhece o inferno, sabe o que vai esperar quando morrer. – O Velho tossiu, cuspindo sague e saliva, que se misturaram com catarro e mais sangue, do nariz. – Quem diria que o rei dos mercenários morreria ao som de Mozart no meio de um contrato. Digo, é uma morte nobre, mas como seu amigo de longa data, devo confessar que esperava mais de você. Você parecia mais promissor na academia, foi um ótimo discípulo, e um ótimo soldado com certeza. Um assassino de primeira. Mas não é o suficiente não é mesmo T.

— Não ouse dizer meu nome, seu imundo... – Interrompeu o Velho com voz fraca e dolorida. – Não ouse dizer meu NOME.

O cowboy investiu feroz e indomável na direção do mordomo, com o resto de energia que ainda tinha. A sequência foi rápida, não era mais uma dança coordenada com movimentos elegantes, era caos, uma sequência imprevisível, sem qualquer tipo de preparo, o que fazia com que Alfred tivesse que mudar de estratégia, defendendo e contra-atacando. Mesmo ferido e recebendo socos e chutes, o Velho era imparável, estava dominado por um misto de adrenalina e ódio, seu sangue fervia e pedia por mais. O mordomo começou a sentir os golpes de seu adversário, eram marretadas e tiros contra seus ossos e músculos que ardiam como brasas a cada acerto. Alfred já não podia mais defende-se do frenesi de seu adversário, suas defesas enfraqueceram e suas esquivas foram perdendo velocidade.

— Desgraçado! – Gritou o Velho entre golpes. Acertando cada vez mais as investidas. Ele era imparável àquela altura. Socando e chutando cada vez mais e mais rápido o corpo, já enfraquecido do mordomo.

O cowboy girou no ar para finalizar a luta com um chute de calcanhar, arremessando o corpo de Alfred para longe, atravessando a mesa de centro e colidindo com a enorme estante de livros, fazendo com que alguns deles caíssem em sua cabeça. A música teve seu fim, a playlist parou. Os passos lentos e doloridos ecoavam com as botas do cowboy, no solo de madeira recém encerado e, agora, coberto de sangue e outros fluidos. O Velho se aproximou do mordomo, lento, porém ainda consciente, sentido as dores mais terríveis que já sentira, ou que pelo menos se lembrava de sentir.

Alfred olhou para a silhueta acima de si, que agora o olhava com expressão séria e ofegante. Sangue pingava e escorria de ambos os homens.

— Certamente o subestimei. – Disse a voz rouca do mordomo caído. – De fato um oponente formidável.

— Chega dessa formalidade. Anda, vamos terminar de comer, sua maricas. – Cuspiu o Velho, virando-se para a cozinha em seguida e caminhando com dor até ela.

O mordomo o seguiu e ambos se sentaram na bancada onde repousados estavam os pratos com os restos de ovos e bacon, agora frios. Os primeiros raios de Sol iluminaram as janelas, iluminando, também, os ferimentos de cada um. Quando terminou, o Velho se levantou, cuspiu um pouco de sangue no chão, foi até a pia que jorrava agua, da explosão. Passou o prato e os talheres no pedaço de cano que ainda expelia liquido e repousou os utensílios ao lado, para que secassem.

Silencio.

O Velho se dirigiu à sua arma caída no chão e a pegou com a mão que ainda podia usar.

— Não tente me impedir. – Disse o cowboy, de costas para seu amigo, se dirigindo para a sala.

— Vá em frente e me mate, pois não permitirei que mate minha família. – Disse o mordomo se levantando, fraco e mole, mostrando suas vestimentas rasgadas e sujas de sangue e outras coisas.

Alfred armou defesa, mas o que recebeu não foram golpes ou uma facada, mas um tiro quente e vermelho, rápido como um raio, abrindo um buraco em seu torso, atravessando e queimando seus órgãos internos. O Velho voltou para a sala e se dirigiu para o quarto dos alvos. Seu braço esquerdo estava incapacitado e seu estomago muito dolorido. Ele ainda cuspia sangue, mas se conteve e resistiu.

Sinto muito, irmão.

Notas finais
O proximo é bem mais longo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.